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terça-feira, 28 de dezembro de 2021

PT x DILMA: ME ENGANA QUE EU GOSTO

Em sua coluna desta 3ª feira (28), Mônica Bergamo aborda a querela entre Dilma Rousseff e o Partido dos Trabalhadores. Reproduzo aqui porque se trata de um episódio de ridículo atroz, como os leitores perceberão na minha palavra final, depois de toda essa desconversa de parte a parte:
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"A ausência de Dilma Rousseff no jantar do grupo Prerrogativas que homenageou Lula –e que teve Geraldo Alckmin como convidado especial –segue rendendo polêmica.

Ela afirma que não foi convidada para o evento –e seus interlocutores circularam a versão de que Dilma acredita ter virado um problema político para Lula.

Já o organizador do jantar, o advogado Marco Aurélio de Carvalho, diz ter certeza absoluta de que seu convite chegou à ex-presidente. Ele afirma que ela era aguardada por todos. 'Temos muito carinho e respeito pela Dilma. Sua presença seria uma alegria para todos nós. Lamento pelo ruído de comunicação', afirma.    

O ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo confirma que conversou com Dilma sobre o jantar, 'por telefone'. Mas 'muito superficialmente', segundo escreveu em um grupo de WhatsApp.

Cobrado por Marco Aurélio se ela iria ao evento, Cardozo diz que voltou a procurá-la –mas não conseguiu novo contato. E assumiu a responsabilidade pelo desencontro: 

'Pessoal, tem tido alguma especulação sobre a não ida da Dilma no jantar. Gostaria de esclarecer que, de fato, o Marco me pediu que falasse com ela na época, logo que o jantar foi marcado. Eu por telefone falei com ela na época, mas muito superficialmente, ficando de falar com ela mais tarde. 

Posteriormente, na semana do jantar, o Marco me cobrou se ela iria, eu tentei falar com ela, inclusive porque era aniversário dela, e não consegui falar. Imaginando que alguma outra pessoa tivesse falado com ela eu acabei não fazendo mais nada. Portanto, se houve alguma culpa nesse episódio, ela é desse humilde subscritor que assume a responsabilidade e se penitencia', escreveu o ex-ministro da Justiça no grupo de advogados.
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Vale acrescentar que a Mônica pegou a Dilma na mentira ao ilustrar sua coluna com fotos do convite e da pulseira a ela enviados pelo grupo Prerrogativas para que participasse do jantar no Rubayat. Então, convidada ela foi e deixou de comparecer porque assim decidiu e não por ignorar a realização de tal evento eleitoreiro.

Qual o motivo desta auto-vitimização falaciosa? Voltar a ser notícia, saindo do velado ostracismo a que estava relegada após haver tido grande responsabilidade na volta da direita ao poder e depois de ser humilhada ao nem sequer senadora conseguir eleger-se em 2020. 

Ela tenta readquirir alguma relevância política pegando carona na rejeição à parceria Lula/Alckmin por parte de muitos esquerdistas.  

Da minha parte, só vejo um detalhe discutível em tal aliança: geralmente candidato e vice têm nuances ideológicas diferentes, para atraírem segmentos distintos do eleitorado, mas a parceira abobrinhas com chuchu está mais para cara e coroa da mesma moeda: a da dominação burguesa ligeiramente atenuada pelas migalhas do banquete dos poderosos que são concedidas aos coitadezas.

Quanto aos petistas, até as pedras das ruas sabem que sempre atribuíram as desgraças ocorridas desde 2016:
— à gestão econômica catastrófica de Dilma em seu primeiro mandato;
— à sua falseta ideológica ao nomear em 2015 um neoliberal para, como czar da economia, tentar consertar as lambanças que ela cometera; e
— a ter forçado tanto a barra para manter a sua candidatura à reeleição, quando saltava aos olhos e clamava aos céus que ela não conseguiria segurar a onda quando desabasse sobre nós a recessão que incubara (talvez Lula, com Guido Mantega ou Henrique Meirelles, ao menos evitasse o pior, poupando-nos do pesadelo Bolsonaro).

Assim, tenham ou não convidado protocolarmente a Dilma, os petistas torciam para que ela não desse as caras, pois querem mais é que os eleitores esqueçam ter sido Lula quem fincou tal poste na presidência da República. (por Celso Lungaretti) 

quarta-feira, 9 de setembro de 2020

ROBERTO TEIXEIRA É NOVAMENTE RÉU; PARA LIVRAR A CARA DELE O PT EXPULSOU O HONESTO PAULO DE TARSO VENCESLAU

A
cabo de encontrar no UOL a seguinte notícia: 
"A  Polícia Federal deflagrou na manhã desta 4ª feira (9) operação para investigar um suposto esquema de tráfico de influência no STJ e no TCU com desvio de recursos públicos do Sistema S. 
Entre os alvos de mandados de busca e apreensão estão os advogados do ex-presidente Lula, Cristiano Zanin e Roberto Teixeira, acusados de liderar o esquema. Os dois já se tornaram réus pelo caso. 
O advogado Frederick Wassef, ex-defensor da família do presidente Jair Bolsonaro, também é alvo de busca e apreensão".
Como amiúde acontece com as advertências que lanço e são ignoradas de imediato pela esquerda brasileira, o desenrolar dos acontecimentos encarregou-se de mostrar quão certo eu estava em 1997. 

Foi quando alertei, em artigo publicado no Jornal da Tarde (SP), que ao não expulsar Teixeira como maçã podre, mas expulsando o militante honesto que denunciou suas falcatruas, o PT sinalizava um liberou geral! para as práticas viciadas da política convencional alastrarem-se por suas fileiras, o que acabaria por destruí-lo em médio ou longo prazo.

Quem então me criticou deveria ter a dignidade de desculpar-se agora comigo: a corrupção realmente se tornou frequente nas administrações petistas, isto realmente acabou destruindo o partido e Teixeira realmente responde na Justiça por mais uma maracutaia.   

Depois daquele episódio de 1997/8, o nome de Teixeira reapareceria no noticiário político-policial em 2006, quando era advogado da Brasil Telecom e foi convocado para depor na CPI dos Bingos (ele admitiu conhecer Daniel Dantas, mas se disse impedido de dar mais detalhes por haver cláusula de confidencialidade); e em 2017, quando se tornou réu da Operação Lava jato, após ser citado nas delações premiadas da Odebrecht, conforme Josias de Souza informou no seu blog:
No topo, o tal Teixeira; aqui, o companheiro PT Venceslau.
"Surgiu entre os delatores o engenheiro escalado pela Odebrecht para realizar a reforma do sítio de Atibaia: Emyr Costa. Ele conta como tocou a obra, fala do dinheiro vivo que teve que manusear e dá nomes aos bois. 
Como se fosse pouco, informa que, sob orientação de Roberto Teixeira, advogado e compadre de Lula, elaborou um contrato falso para apagar da obra as digitais da Odebrecht e da família Lula".
Este é o compadre do Lula, para cuja salvação ele chegou inclusive a ameaçar desligar-se o PT. 

Vale a pena relembrarmos o episódio.
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PT EXPULSA PT
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Foi a insistência de Lula em manter o Roberto Teixeira dentro do PT que determinou uma das decisões mais infames tomada pelo partido no século passado: a expulsão de Paulo de Tarso Venceslau, veterano do movimento universitário e da resistência à ditadura (foi da ALN), militante dos mais honestos e dignos, tão identificado com o partido que era chamado carinhosamente de PT Venceslau.

Tal economista foi a única voz no partido a protestar contra o primeiro grande esquema de desvio de recursos públicos para financiamento partidário, por meio de uma firma chamada CPEM (Consultoria para Empresas e Municípios).

Tendo sido secretário das finanças de duas prefeituras do PT no interior paulista, em ambas ele resistira às pressões para contratar a CPEM ou para pagar-lhe valores exorbitantes por serviços não prestados, acabando por ser exonerado da última delas, a de São José dos Campos.

Depois de dois anos de denúncias infrutíferas aos dirigentes máximos do partido, Venceslau tornou público o favorecimento escuso à CPEM em entrevista ao
 Jornal da Tarde (SP).

Como resposta ao escândalo, o PT submeteu o assunto a uma Comissão Especial de Investigação presidida por Hélio Bicudo, cuja salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa; e o Roberto Teixeira, titular da CPEM, deveria ser julgado por corrupção.

Vale a pena lembrar o que concluiu a Comissão a respeito do segundo, em relatório assinado por Bicudo, Paul Singer e José Eduardo Cardozo:

Desrespeito à sua investigação começou a afastar Bicudo do PT
"...parece provável que ROBERTO TEIXEIRA possa ter se valido, de forma pouco ética, da amizade com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, para não só se omitir face ao dever de informar e acautelar em relação à CPEM como também para desqualificar denúncias contra a mesma. 
No caso presente, parece ser difícil descartar a hipótese de que ROBERTO TEIXEIRA tenha cometido ‘abuso de confiança’ com ‘aproveitamento das relações de amizade’ que mantém com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Entre a defesa da empresa que gerou renda para seu irmão e presumivelmente para si e o interesse público e partidário, ROBERTO TEIXEIRA optou pela primeira. No âmbito desta opção deve ser, portanto, avaliado em sua conduta. 
Assim sendo, a presente Comissão de Investigação não pode deixar de concluir que a presumível conduta de ROBERTO TEIXEIRA, na conformidade do que acima se relatou, não se coadunaria com os rígidos padrões éticos que devem orientar as condutas dos militantes do PARTIDO DOS TRABALHADORES. Se em outras agremiações partidárias comportamentos de tal natureza costumam ser aceitos como normais ou não qualificados como dignos de repreensão, no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis. 
É, portanto, dentro desta dimensão que esta Comissão sugerirá ao final deste Relatório à Executiva Nacional do PT a abertura de processo ético-disciplinar contra o militante ROBERTO TEIXEIRA pela prática de grave conduta a ser avaliada e julgada, após regular direito ao contraditório e ampla defesa, pelo órgão partidário competente".
Lula ameaçou desfiliar-se do PT caso fosse instaurado tal procedimento contra Teixeira – que era seu compadre e lhe fornecia um apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo para morar de graça com sua família .

A direção partidária optou, então, por desconsiderar o parecer da Comissão, expulsando Venceslau e aliviando para Teixeira. Foi o instante em que se assumiu como um partido igual aos outros, capaz até de sacrificar um militante exemplar e (revolucionário) para preservar uma maçã podre. 

Segundo Venceslau, o tal Teixeira teria sido, inclusive, "torturador do delegado Fleury". 

Tudo que de ruim aconteceria depois foi consequência dessa terrível decisão. Orgulho-me de haver me solidarizado a Venceslau, antecipando que o partido tendia ao desvirtuamento, no artigo PT expulsa PT – que o Jornal da Tarde então publicou com destaque na sua página de Opinião, ao lado de uma crítica que João Paulo Cunha (depois condenado no julgamento do mensalão) fazia ao correto trabalho jornalístico de Luiz Maklouf Carvalho.

Vale reproduzir dois trechos do artigo em questão, um desagravando o companheiro injustiçado (ele mereceu isto e muito mais!) e outro antevendo o futuro que se desenhava para o PT a partir do péssimo precedente que fora aberto:
"Poucos no Brasil levam suas convicções às últimas consequências, como Paulo de Tarso. Ele correu todos os riscos em nome de princípios que acreditava serem compartilhados por seus companheiros. Terão eles a coragem de manter-se fiéis a esses princípios? Cada um, ao definir sua atitude em relação a Paulo de Tarso, estará definindo quem é e o quanto vale". 
"O episódio em questão evidencia que a ideologia dominante do PT passou a ser mesmo a da banda podre do funcionalismo. Os cofres públicos existem para ser saqueados. Nada há de errado em desviar recursos públicos das administrações municipais para campanhas políticas. O único pecado é violar a lei de silêncio da máfia estatal". 

Felizmente sou longevo: precisei chegar vivo à idade atual para, na iminência de tornar-me septuagenário, ver o Teixeira na condição que ele merece (a de réu). E, se alguns petistas me devem desculpas, é o próprio partido quem deveria desculpar-se com Paulo de Tarso Venceslau, hoje com 76 anos, e anular aquela expulsão injusta e infame. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 8 de abril de 2018

RENDIÇÃO DE LULA FOI DRAMÁTICA; POLÍCIA FEDERAL ESTAVA PRONTA PARA INVADIR O SINDICATO, SE A ORDEM FOSSE DADA.

Por Celso Lungaretti
Com o que pude depreender da cobertura jornalística dos últimos dias, sem nenhuma informação de bastidores, montei este precário relato dos trâmites da rendição do Lula, o qual, claro, não me satisfez por completo. Contudo, faltava-me matéria-prima para um aprofundamento.

Já o blogueiro Josias de Souza, que foi agraciado com o Prêmio Esso de Jornalismo em 2011, tem acesso a todos os informantes necessários para ficar conhecendo tintim por tintim o que rola num episódio desses; pôde, portanto, descrever passo a passo o que ocorreu. Eis os trechos principais do seu post Se Lula não se rendesse, PF invadiria o sindicato:
Por Josias de Souza

"A Polícia Federal já havia elaborado um plano de contingência para prender Lula caso ele não se entregasse. O Plano B seria colocado em prática na manhã deste domingo, depois das 6h. Agentes federais invadiriam a sede do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC paulista, para executar o mandado de prisão emitido por Sergio Moro. 

Em contato com dirigentes da PF, o juiz da Lava Jato revelou-se irritado com a pajelança política promovida por Lula em São Bernardo do Campo.

O acordo que evitou a detenção de Lula na marra foi costurado no eixo São Bernardo-Brasília-Curitiba. Ex-ministro da Justiça no governo de Dilma Rousseff, o petista José Eduardo Cardozo teve papel central na negociação... 

O acordo para que Lula se rendesse foi esboçado na sexta-feira, depois que a Polícia Federal recebeu a informação de que o condenado não se apresentaria voluntariamente em Curitiba até as 17 horas, como Moro determinara. 

Agentes federais estavam acantonados secretamente nas proximidades do sindicato desde a noite de quinta-feira. Mas a PF decidira que só invadiria o bunker de Lula se não houvesse outra alternativa. Ainda assim, com ordem expressa de Moro.

Ficou acertado que a rendição de Lula ocorreria no sábado, depois de uma missa pelo aniversário de sua mulher, Marisa Letícia. (...) 
Vigília no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC

O aconselhamento de Cardozo foi considerado vital. Havia ao redor de Lula quem sugerisse levar a resistência às últimas consequências —gente como a presidente do PT, Gleisi Hoffmann e o presidenciável do  PSOL, Guilherme Boulos.

Coube a Cardozo esclarecer as consequências de uma bravata. Moro poderia, por exemplo, decretar uma prisão preventiva, o que dificultaria o esforço da defesa para abreviar a permanência de Lula em cana. O juiz não hesitaria em endurecer o jogo. Outras vozes sensatas ecoaram as advertências do ex-ministro de Dilma. E Lula autorizou o fechamento do acordo. 

O acerto não incluía a conversão da missa num comício. Tampouco previa que Lula discursasse. (...) O entendimento só não entornou porque o orador teve o cuidado de incluir no discurso uma referência à sua decisão de cumprir o mandado judicial.

Terminado o comício, prepostos de Lula pediram a inclusão de um adendo no acordo. O pajé do PT queria almoçar com a família antes de se entregar. O repasto com os familiares foi autorizado, desde que a rendição ocorresse até as 16h. 

Com atraso, Lula saiu do prédio do sindicato pouco antes das 17h. Entrou num carro que estava estacionado no pátio. Seguiria para um terreno vizinho, onde veículos da Polícia Federal o aguardavam. 
Cordão humano protegeu saída de Lula do sindicato
Mas um grupo de militantes postou-se defronte do portão, obstruindo a passagem do automóvel, que deu marcha à ré. Lula desceu. E enfurnou-se novamente no sindicato. 

Seguiram-se momentos de tensão. A cúpula da PF e Moro enxergaram na resistência um quê de encenação. Lula recebeu um ultimato. Tinha meia hora para se entregar. Os agentes federais destacados para conduzi-lo preso seriam desmobilizados às 19h. 

Um ministro de Temer, que acompanhava as tratativas, exasperou-se: “Com 99% da operação concluída, surge essa recaída lusitana”, lamentou. Por um instante, o governo receou que a PF tivesse de acionar o seu Plano B. 

Uma invasão do sindicato envolvia riscos. Agredidos por militantes, os policiais teriam de reagir. Havia grande preocupação com a integridade física de Lula. 

Súbito, às 18h40, quando faltavam 20 minutos para expirar o ultimato dado pela PF, Lula saiu novamente do prédio. Cruzou a pé os cerca de 50 metros de militantes que o separavam do terreno onde se entregaria, finalmente, à equipe da Polícia Federal. Houve alívio em Brasília".

APÓS A 6ª FEIRA TENSA E O DISCURSO DE DESPEDIDA NO SÁBADO, LULA COMEÇA A CUMPRIR SUA PENA.

"Se entrega, Corisco!
Eu não me entrego, não!
Eu não sou passarinho,
pra viver lá na prisão.
Não me entrego ao tenente, 
não me entrego ao capitão.
Eu me entrego só na morte
de parabellum na mão"
(Sérgio Ricardo)
Houve muito descontrole na tarde de 6ª feira (6), quando os palpiteiros cercavam o ex-presidente Lula por todos os lados, sugerindo-lhe as ideias mais estapafúrdias.

A pior delas: Lula não só descumprir a determinação de Sérgio Moro, como resistir à polícia. Teria causado pancadaria, ferimentos, talvez mortes, além de oferecer aos pescadores em águas turvas uma excelente oportunidade para atentarem contra a vida de Lula em meio à confusão, o que incendiaria o país.

Felizmente, acabou prevalecendo o bom senso e Lula decidiu se entregar. Aí o pandemônio arrefeceu.

Resta saber o que fará agora Moro, cuja decisão foi descumprida. O mais provável é que ele releve o ocorrido, levando em conta a dramaticidade do momento; e que os juízes dos outros oito processos a que Lula responde não tomem a decisão mesquinha de decretarem sua prisão preventiva por haver desacatado uma determinação judicial.
Chegada a Curitiba para o cumprimento da pena
O diabo é que Lula, mais uma vez, colocou-se em posição vulnerável, ficando na dependência da boa vontade do inimigo. 

Há o mau precedente de que o outro lado demonstrou tal good will no caso do mensalão (quando já poderia tê-lo abatido em pleno voo), mas agora foi inflexível quanto ao seu encarceramento.

Será muito ruim se a comédia de erros da 6ª feira for usada contra Lula, mas a possibilidade existe. 

Consta que o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo chamou às falas os responsáveis por tal complicação adicional: "E agora, quem vai pagar se o Lula sofrer prejuízos jurídicos?". Teria sido o balde de água fria que fez baixar a temperatura, reduzindo a excitação bravateira.

Enfim, vida que segue. A luta continua.

"Se eu não acreditasse na Justiça, eu não tinha feito um partido político. 
Eu tinha proposto uma revolução nesse país. Mas eu acredito na Justiça"
(Lula, defendendo até o fim as ilusões democratico-burguesas)

terça-feira, 5 de setembro de 2017

APÓS A CARNE FRACA, A DELAÇÃO PODRE.

Desde o primeiro momento, vi com total desconfiança a ação orquestrada entre as Organizações Globo, o procurador-geral da República e um dos empresários mais encalacrados nas investigações do mar de lama brasileiro, tríplice aliança cujo objetivo claríssimo era derrubar o presidente da República.

Por quê? Primeiramente, por tratar-se de um abraço entre personagens que se afogavam.

A trajetória da Globo, invariavelmente a serviço das más causas, fala por si só (aos mais jovens, recomendo a leitura deste instrutivo artigo de Joaquim de Carvalho, publicado no Diário do Centro do Mundo). Então, quando o pior de todos os tentáculos da indústria cultural se coloca na contramão da maioria dos donos do PIB, a única explicação plausível é a de que teve interesses de grande monta contrariados, a ponto de tentar reverter o quadro com uma desesperada aposta no tudo ou nada. 

Deu nada, repetindo o fiasco do Caso Proconsult (vide aqui), em 1982, quando a Globo tentou roubar uma eleição do Leonel Brizola ao governo do Rio de Janeiro. Agora, ou trata de voltar às boas com o amigo da onça ou continuará sendo tratada a pão e água pelo governo federal nos próximos 15 meses. 

Rodrigo Janot oferecera mundos e fundos para Temer, desde que este desse um jeito de propiciar-lhe um novo mandato à frente da PGR. Tinha verdadeiro horror à perspectiva de ser sucedido por algum de seus inimigos na instituição. 

Como não foi atendido, uma mistura de compulsão de vingança e megalomania heroicista o levou a preparar uma denúncia a toque de caixa contra Temer, concedendo vantagens espúrias e inaceitáveis ao megacriminoso do colarinho branco Joesley Batista, para que este agisse como o mais reles e repulsivo provocador infiltrado, tentando induzir o presidente a fazer qualquer afirmação comprometedora. 

Obteve bem pouco, na verdade, mas a coisa foi apresentada com tamanho estardalhaço que, num primeiro momento, pareceu muito. 

Quando o rolo compressor midiático não levou Temer à renúncia nem o TSE a cassar-lhe o mandato, o complô fracassou. Estava na cara que a Câmara Federal não autorizaria a abertura do processo de impeachment. 
Mas Janot, já totalmente destrambelhado, prometeu renovar a tentativa, o que retardaria mais ainda a saída da pior fase da recessão econômica e causaria outros tantos transtornos inúteis ao país, pois:

— já se evidenciara não haver disposição nenhuma, por parte do Congresso Nacional, para aprovar mudanças nas normas constitucionais, no sentido de convocação imediata de uma eleição direta ou antecipação da que está marcada para outubro/2018;

— então, se desta vez se autorizasse o processo de impeachment, Temer só viria a ser afastado provisoriamente da presidência no primeiro trimestre de 2018, quando assumiria Rodrigo Maia (nada além de um genérico made in farmácia de fundo de quintal do dito cujo), com a incumbência de convocar a eleição para um mandato-tampão que duraria uns míseros seis meses. É difícil imaginar-se um quadro mais emblemático de muito barulho por nada.

Agora a casa ruiu de vez, com a revelação da existência de áudios altamente melindrosos para a delação premiada do grupo J&F, capazes inclusive de levarem à sua anulação. Como todos se lembram, foi tal delação premiada, criticadíssima, a base da tentativa anterior de derrubada do Temer. 

Espera-se que o STF, também colocado sob suspeição, libere tais áudios ainda hoje (3ª feira, 5). Segundo o repórter Rodrigo Rangel, da veja, eis o que passaria a ser do conhecimento do distinto público:
"A gravação de quatro horas (...) traz menções comprometedoras a quatro ministros do Supremo Tribunal Federal.
Uma dessas menções é considerada 'gravíssima' pelos procuradores – embora as demais, nas palavras de quem as ouviu, também causem embaraços aos envolvidos".
Já a Mônica Bergamo, uma jornalista da Folha de S. Paulo sempre muito bem informada sobre o que rola nos bastidores, diz existir o registro de uma conversa entre Joesley Batista e o advogado da empresa, Ricardo Saud, em que combinam atrair o ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo para um encontro, sob o pretexto de contratá-lo como advogado (ele acabaria comparecendo, mas evitado comprometer-se).
"No meio da conversa, eles arrancariam do ex-ministro da Justiça informações sobre magistrados do STF. Dependendo do teor delas, entregariam o conteúdo à PGR.
Os executivos da JBS entendiam que os procuradores tinham grande desejo de que as investigações alcançassem o Supremo.
Saud diz a Joesley que teria ouvido de Cardozo que o ex-ministro teria cinco ministros do STF no bolso..."
Eis as tramoias da ralé moral que Janot contemplou com o mais generoso acordo até hoje firmado entre a Operação Lava-Jato e alcaguetes das altas rodas.

Fica claro que, nos poucos dias que lhe restam à frente da PGR, Janot pode apresentar quantas novas denúncias quiser, mas elas irão para a lixeira sem sequer arranharem Temer.

Melhor seria ele pegar todos os bambus, armar um feixe e dar-lhes outra destinação qualquer. Flechas agora não lhe servem para mais nada.

Quanto à esquerda, está mais do que na hora de admitir que não vai ser na Praça dos Três Poderes que se resolverão os problemas dos explorados, mas sim organizando-se a luta contra o capitalismo em escala nacional, ou seja, com a retomada do lento e árduo trabalho de acumulação de forças para uma ruptura revolucionária, que vem sendo cada vez mais negligenciado desde 2002.

Estamos patinando sem sair do lugar há 15 anos. Até quando?

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

RUI MARTINS TIRA O GÊNIO DA GARRAFA - 2

QUEM ORQUESTROU A PERSEGUIÇÃO JUDICIAL?
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Por Celso Lungaretti
O Rui Martins é um bravo guerreiro das causas justas, com quem tive a honra de dividir a batalha cotidiana de divulgação nas redes sociais da verdade sobre o Caso Battisti, ao mesmo tempo em que desmentíamos as falácias da grande imprensa e pleiteávamos insistentemente direito de resposta e publicação de matérias isentas. 

Como costuma acontecer com quem trava lutas titânicas como aquela, continuamos amigos até hoje, até porque nos identificamos na postura de jamais relativizarmos a importância do respeito aos direitos humanos na construção de uma sociedade mais justa. 

Como o maniqueísmo, o maquiavelismo e o realismo geopolítico nada têm a ver com os valores fundamentais da esquerda, coincidimos no repúdio aos ditadores amigos e em não fechamos os olhos a massacres e torturas perpetrados por quem quer seja. O que brota sobre pilhas de cadáveres são apenas grama e lápides.

Com sua franqueza de sempre, o Rui acaba de colocar o dedo na ferida, no Direto da Redação do jornal Correio do Brasil: A injustiça de Dilma no "caso Lungaretti".

Os leitores familiarizados com as rotinas do meio jurídico certamente já haviam notado que a insistência da Advocacia Geral da União em forçar o prolongamento do meu processo, não obstante a derrota por 9x0 que sofreu no julgamento do mérito da questão por parte do STJ, seguida pelas duas derrotas por 8x0 ao tentar contestar a decisão unânime, está muito longe de ser um procedimento habitual. Fosse outro o autor da ação, a AGU certamente teria se conformado com o julgamento de mérito, pois é quase impossível derrubar o que nove ministros decidiram de forma tão taxativa.

Pior ainda foi querer transformar o STF numa tábua de salvação: quando já tinha chegado ao fim da linha no STJ, tentou reeditar o mesmo julgamento numa corte diferente, colocando meu processo na dependência de outro, alheio, que tramitara paralelamente durante  o mesmo período. Para  nada, pois todos os ministros do STF, com exceção de dois ausentes, repetiram o entendimento dos seus colegas do STJ. 

A pergunta óbvia sempre foi: por que a AGU move céus e terras para me impedir de receber o que a lei me conferia e a Justiça me garantiu sempre que invocada?

Eu não ouso apontar o dedo em nenhuma direção, pois o que sei das maquinações de bastidores foi-me confidenciado por companheiros solidários que podem sofrer retaliações se eu contar o milagre (os responsáveis pela perseguição iníqua acabariam deduzindo o nome do santo).

Mas, em termos genéricos, posso dizer que uma parte dos militantes de esquerda preferiu manter a visão dos acontecimentos de 1970 conforme a formaram na época, quando fui vilificado sem a mínima possibilidade de defesa. Todo o meu esforço de 34 anos para trazer a verdade à tona, bem como tudo que historiadores e jornalistas foram descobrindo e revelando ao longo das décadas, não sensibilizou aqueles que seguem sempre a linha justa e aceitam acriticamente as versões unilaterais. 

Para os marxistas, a atuação dos grandes personagens históricos é, como tudo na vida, contraditória: ora protagonizam feitos grandiosos, ora cometem ou são induzidos pelas circunstâncias a erros lamentáveis. Mas, boa parte da esquerda jogou a dialética no lixo e passou a tratar heróis revolucionários como a religião trata seus deuses e santos, atribuindo-lhes uma impossível infalibilidade. 

Aceitar que eu sempre estivera com a razão implicava o reconhecimento de que mártires do nosso lado teriam, numa circunstância dramática, preferido que um zé-ninguém levasse a culpa pelo que alguém muito mais importante para a VPR abrira ao DOI-Codi. Então, como as contradições foram abolidas, era melhor que a ovelha negra continuasse sendo a mesma, abolindo-se também o respeito dos revolucionários pela verdade histórica.
Como caiu a área? Pinho explica.

Felizmente, nem todos pensam e o castelo de cartas falsas ruiria no final de 2004, providencialmente. Eu estava quase reduzido à miséria e minha única esperança de dar a volta por cima era obter logo a anistia de ex-preso político. Mas, os critérios de priorização dos julgamentos eram desrespeitados e o meu processo simplesmente não andava, embora a condição de desempregado me devesse garantir uma solução mais rápida.

Sem alternativa, só me restou travar uma batalha pública para que o colegiado respeitasse as próprias normas. E, no calor dos acontecimentos, várias vezes qualifiquei de burocracias arrogantes, atrabiliárias e insensíveis as forças que moviam os cordéis por trás das cortinas.

Mas, quando documentos secretos da ditadura  comprovaram a minha inocência no caso de Registro e Jacob Gorender a atestou publicamente, tudo mudou. A percepção de que eu havia sido muito injustiçado e era uma pessoa bem diferente do vilão no qual quiseram me transformar, angariou-me boa vontade. Os empecilhos deixaram repentinamente de existir e o andamento do meu processo passou a ser célere. Isto pode ter algo a ver com a ojeriza que até hoje desperto em algumas burocracias toda-poderosas de Brasília, daquela vez a tanto custo derrotadas.

Quanto ao PT, fui dos primeiros a nele ingressar, quando ainda precisava obter um certo número de adesões para que seu registro como partido fosse aceito, mas a relação azedou em 1986, a partir do episódio dos quatro de Salvador; tratava-se militantes presos ao expropriarem um banco na capital baiana como forma de angariar recursos para a revolução, sem atentarem para que a ditadura terminara no ano anterior e as ações características da luta armada não mais se justificavam.
Corte Interamericana nos deu última chance de virarmos o jogo 

Assustados com a exploração do caso por parte da grande imprensa, os dirigentes petistas lhes voltaram as costas e correram a expulsá-los. Aproveitando sua situação de abandono, os órgãos policiais, em que a mentalidade ditatorial persistia, começaram a tentar inculpá-los por todos os assaltos a banco cometidos no Brasil inteiro. E a direita mais truculenta tramou inclusive seu assassinato na prisão, abortado quando o pai de um deles, radialista famoso, foi alertado e denunciou o plano em seu programa.

Foi ele também quem veio pedir ajuda em São Paulo, quando os quatro resolveram entrar em greve de fome. Ambos participávamos de edições caseiras de coletâneas de contos e poesias. Atendi ao seu apelo, divulguei de tudo que é jeito a greve e tive a sorte de um dossiê por mim enviado haver chegado às mãos certas, selando nossa vitória. 

Nunca soube se a frustração do PT se deveu a eu ter garantido alguma repercussão para um episódio que ele tentava fazer desaparecer do noticiário ou se foi por eu haver cumprido sozinho o dever de solidariedade que o partido mandara às favas. O Rui Falcão chegou a afirmar que eu e os quatro de Salvador éramos todos "cachorros loucos". Na época, respondi: antes isto do que lulus domesticados.
Depois deste oba-oba, o Exército rugiu e o governo miou.
Saí do PT e me mantive à esquerda do partido desde então, mas evitando a hostilização gratuita. Só disparei críticas mais contundentes em episódios nos quais estavam em jogo valores de grande significado para os revolucionários, como:

— a expulsão do militante honesto Paulo de Tarso Venceslau, por haver denunciado ao partido a corrupção nascente no seu seio e, depois de ignorado por dois anos, alertado a imprensa;

— o chocante descaso com relação à greve de fome do bispo Luiz Flávio Cappio, queimando insensivelmente um instrumento amiúde utilizado pelos idealistas em condições extremas;

— a recuo do Lula diante de um blefe militar, proibindo seus ministros de pregarem a revisão da Lei de Anistia;

— o não cumprimento da determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos relativa à impunidade dos torturadores;

— a criação de uma Comissão da Verdade decorativa e sem respaldo governamental para confrontar pra valer os perpetuadores da mentira; e

— a rendição da Dilma ao neoliberalismo em 2015.
A esquerda na qual me engajei há meio século consideraria estas posturas como divergências válidas e assuntos a serem discutidos, não como heresias cometidas contra o Deus único e verdadeiro. Infelizmente, o Rui Martins tem toda razão ao afirmar que as redes virtuais ligadas ao PT me boicotam e tratam como não-pessoa... tal qual a imprensa burguesa! Ou os opostos se atraem, ou não são tão opostos como querem aparentar...

Quanto a quem orquestrou a perseguição judicial contra mim, não tenho mesmo como identificá-lo(a) e depois sustentar a afirmação, caso necessário. Uma das grandes frustrações dos jornalistas, aliás, é exatamente sabermos tantas coisas e só podermos publicar uma ínfima parte daquilo de que tomamos conhecimento.

Mas, posso revelar que amigos bem-intencionados mandaram mensagens à Dilma (quando presidente) e ao José Eduardo Cardozo (quando ministro da Justiça); embora cético, enviei as minhas em seguida, pois nunca devemos desmerecer os esforços dos que nos são solidários. 

A resposta do Cardozo foi mero juridiquês retórico, tentando fazer parecerem corretos aqueles procedimentos que depois seriam impugnados por todos os ministros do STJ e do STF que os julgaram. 
Será este o recado que ela quis me passar?

A resposta da Dilma foi a de que não lhe cabia interferir numa questão que estava na esfera do Judiciário. 

Escrevi de novo, objetando que o processo só permanecia no STJ porque a AGU, que pertence à esfera do Executivo, insistia em adiar o desfecho com recursos inconsistentes. 

E recebi de volta uma quase repetição integral do que ela colocara antes, como se não tivesse entendido patavina da minha réplica ou quisesse dar a entender que absolutamente não a levara em consideração.
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