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domingo, 4 de março de 2012

DOI-CODI E TERNUMA MARCAM PRESENÇA NO "MANIFESTO BRILHANTE USTRA"

Matando as saudades do
DOI-Codi: o chefão de SP...
O site do único torturador declarado como tal pela Justiça brasileira acaba de colocar no ar uma relação atualizada de signatários do papelucho pomposamente intitulado de Alerta à Nação, mas que eu preferi batizar com o nome do seu grande inspirador, divulgador e provável autor:  Manifesto Brilhante Ustra.

Agora, o recenseamento de remanescentes e de  viúvas  da ditadura, mais os cuervos  por ela criados, abarca 61 generais, 1 desembargador, 258  coronéis, 55 tenentes-coronéis, 11  majores, 17 capitães, 20 tenentes, 15 subtenentes, 15 sargentos, 2 cabos, 1 soldado e 191 civis (provavelmente com expressiva participação do Opus Dei e da TFP, embora não constem os nomes do Geraldo Alckmin, do Ives Gandra Martins e do João Grandino Rodas).

Duas inclusões significativas na lista: o general Valmir Fonseca Azevedo Pereira, presidente do Ternuma, entidade que dispensa apresentações; e o general Maynard Marques de Santa Rosa, outro veterano do DOI-Codi, merecidamente afastado do serviço ativo em 2010.

O último personagem aparece nas relações de antigos torturadores como integrante da 2ª Seção (Inteligência) do Regimento de Obuses, requisitado para a equipe de buscas do DOI-Codi-RJ em 1971/72. E andou frequentando o noticiário como um encrenqueiro  de caderneta:
se reencontrou com um  bom
companheiro 
do RJ.
  • em 2007 criticou a conduta do Governo Lula na demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima;
  • em 2009, juntamente com dois outros generais linha-dura, combateu o novo organograma das Forças Armadas, alegando que afastava os militares do poder; e
  • em fevereiro/2010, qualificou a Comissão Nacional da Verdade de "Comissão da Calúnia" num e-mail que vazou para a imprensa ou foi nela  plantado.
As duas primeiras indisciplinas saíram relativamente baratas, mas a terceira lhe acarretou a humilhante exoneração do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, para encerrar a carreira "indo fazer nada no gabinete do comandante até 31 de março, quando cai na reserva", conforme escreveu na época a colunista Eliane Cantanhêde.

Para quem quiser refrescar a memória sobre ele, eis um interessante artigo: General Maynard diz que Dilma assaltou, torturou e matou (clique para abrir)

Dize-me com quem andas...

segunda-feira, 17 de maio de 2010

MENSAGEM À "FOLHA DE S. PAULO"

----- Original Message -----
From: Celso Lungaretti
To: leitor@uol.com.br
Sent: Monday, May 17, 2010 5:42 PM
Subject: "Governo Lula quer implantar ditadura totalitária no País"

General Maynard
"É chocante que a Folha tenha permitido ao general reformado Maynard Marques de Santa Rosa afirmar, sem nenhuma prova, que Dilma Rousseff assaltou, torturou e matou pessoas. Foi uma acusação grave demais para o jornal colocar, como única ressalva, a débil refutação da repórter ("Até onde se sabe, ela não matou ninguém"), ao que o entrevistado respondeu taxativamente: "É o que ela alega. Sabe-se que tem vítima". E fiquei pasmo ao não encontrar, em seguida, a pergunta que até um 'foca' faria: "Quem são essas vítimas?". Assim como estranho muito a omissão de uma informação fundamental: a de que, como tenente de Infantaria, Maynard Marques atuou na Inteligência do Exército e integrou a equipe de Buscas do DOI-Codi/RJ no período de 1971/72, o que coloca sob suspeição todas as suas críticas à Comissão da Verdade, já que ele pode estar temeroso do que possa ser apurado a seu respeito."
CELSO LUNGARETTI, ex-preso político, torturado pelo DOI-Codi/RJ em 1970 (Sâo Paulo, SP)

GENERAL MAYNARD DIZ QUE DILMA ASSALTOU, TORTUROU E MATOU

O general Maynard Marques Santa Rosa, encrenqueiro de extrema-direita, esperou passar à reserva para soltar de vez os cachorros.

Na ativa, ele frequentou o noticiário em três episódios:

  • em 2007 criticou a conduta do Governo Lula na demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima;
  • em 2009, juntamente com dois outros generais linha-dura, combateu o novo organograma das Forças Armadas, que afastava ainda mais os militares do poder;
  • em fevereiro/2010, qualificou a Comissão Nacional da Verdade de "Comissão da Calúnia" num e-mail que vazou ou foi plantado na imprensa.
As duas primeiras indisciplinas saíram relativamente baratas, mas a terceira lhe acarretou a humilhante exoneração do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, para encerrar a carreira "indo fazer nada no gabinete do comandante até 31 de março, quando cai na reserva", conforme escreveu então a colunista Eliane Cantanhêde.

Agora, com a pensão garantida, ele se permite ser mais inconveniente e boquirroto ainda.

Diz que 95% do Exército pensa como ele, mas, nesta eventualidade, o Governo Lula já teria sido derrubado; o mais provável é que a proporção seja a inversa, restando apenas 5% de velhos gorilas obcecados em esconder os esqueletos que têm no armário.

[Vale lembrar que o próprio Maynard Marques, quando tenente de Infantaria, atuou na Inteligência do Exército, tendo integrado a equipe de buscas do DOI-Codi/RJ no período 1971/72.]

Mas, afinal, quem liga para as rabugices de um milico em pijamas?

A Folha de S. Paulo, claro! O jornal adora dar espaço para um personagem bizarro como esse.

Serve para despertar algum interesse, nem que seja pela rejeição que provoca. E isto sempre dá fôlego para um veículo que está perdendo leitores a olhos vistos.

Afora o fato de que, contestando e até zombando da direita mais caricata, a Folha se faz passar por equilibrada, apesar de compartilhar vários posições com os trogloditas. Quanto aos que resistiram pelas armas à ditadura de 1964/85, p. ex., a postura do jornal da ditabranda em nada difere da do Ternuma.


TORTURA? É "PRODUTO DE IMAGINAÇÃO"...

De resto, vou resumir o besteirol ao qual a Folha dedicou uma página de sua edição desta 2ª feira (17). As palavras são do general, o que eu fiz foi reagrupá-las para não desperdiçar mais espaço ainda.
"O presidente Lula está rodeado de pessoas impregnadas de preconceito e ideologia. O governo tem várias caras. Ideologicamente, é intolerante, autoritário. Não sei se o presidente é usado ou se ele usa esse grupo para promover seus interesses.

"O Programa Nacional de Direitos Humanos pretende regular uma sociedade inteira institucionalizando mecanismos ilegais. Casos da inserção no processo judicial de reintegração de posse, que transcende a lei; e da estimulação da degradação dos costumes à revelia da tradição cristã que temos, ao estimular a homoafetividade -- contra a qual, na estrutura militar, existe uma rejeição inata.

"O PNDH-3 foi fabricado de fora. Se você pesquisar a similitude entre a Constituição venezuelana, equatoriana e boliviana, que são clones adaptados aos seus países, vai verificar qual é a origem. Isso tudo é uma composição internacional, organizada para implantar uma ditadura comunista. Primeiro, transformar os costumes da sociedade, para, por último, implementar o sistema totalitário.

"Se se conseguisse abrir a Comissão da Verdade, o resto seria facilmente alastrado. Houve uma reação institucional à qual até o ministro Nelson Jobim aderiu, reconhecendo que iria causar uma desarmonia grande. Então, ele contrapôs aquele protesto que levou o presidente a flexibilizar a redação do plano.

"O regime militar foi autoritário, mas não totalitário. A imprensa, p. ex., foi amplamente livre. Só teve censura no momento de pico, a partir do AI-5. Se não houvesse um enrijecimento político naquela oportunidade, poderia se perder o controle. Tratou-se, enfim, de um regime emergencial, um mal que livrou o país de um mal maior.

"A tortura nunca foi institucionalizada, é um subproduto do conflito. A tortura começou com os chamados subversivos. Inúmeros foram justiçados e torturados por eles próprios, porque queriam mudar de opinião. A tortura nunca foi oficial.

"Sinceramente, não sei de nenhum caso [de pessoas torturadas e/ou assassinadas, de moças grávidas torturadas depois de presas], o que existe é produto de imaginação.

"A ex-ministra Dilma Rousseff diz que foi torturada, mas... só no Brasil, a pessoa que sobrevive, e está com boa saúde, alega a tortura para ganhar os benefícios, sejam políticos ou de pensão.

"Vocês conhecem algum ex-torturado cubano, russo ou chinês? Não existe, porque lá não se deixava sair da prisão. Então foi a bondade, entre aspas, dos torturadores brasileiros que permitiram que saíssem. Institucionalmente, legalmente, não houve tortura. Não posso afirmar que, fora do controle, não tenha havido.

"Instituir a Comissão da Verdade seria justo se os dois lados dissessem a verdade. Se você perguntar a Dilma Rousseff quantas pessoas ela assaltou, torturou, matou... Ela alega que não matou ninguém, mas sabe-se que tem vítima."
Preconceitos, falácias, contradições e asneiras à parte, há uma providência inescapável a ser tomada: para defender e honrar sua biografia, Dilma Rousseff tem de interpelar judicialmente o general Maynard por tê-la qualificado de assaltante, torturadora e assassina, colocando-o na saia justa de apresentar provas do que afirma ou admitir que fez falsas acusações.

domingo, 14 de fevereiro de 2010

GASPARI: UMA NO CRAVO, OUTRA NA FERRADURA

Já flagrei o jornalista e historiador Elio Gaspari na posição simplesmente indefensável de considerar fidedignas as informações acerca de resistentes contidas nos dossiês ensanguentados e emporcalhados da ditadura militar.

Por dar crédito àquele lixo, ele andou lançando acusações injustas e até levou puxão de orelha público, na sentença de um juiz.
Gaspari continua repetindo, como papagaio, a falácia que um escrevinhador de segunda categoria introduziu e os serviços de informações das Forças Armadas encamparam, martelando-a à maneira de Goebbels, durante o auge do terrorismo de estado no Brasil: o de qualificar como "terroristas" ações características dos movimentos de resistência à tirania.

Pelos mesmos crítérios, teriam de ser considerados
terroristas os quadros da Resistência Francesa que dinamitaram pontes, explodiram quartéis, atentaram contra nazistas, executaram colaboracionistas, etc., derramando sangue (inclusive de inocentes, pois um ou outro sempre apanha as sobras) em escala infinitamente superior à dos resistentes brasileiros.

Os franceses discordam, honrando-os como os heróis e mártires que realmente foram.

Só no Brasil é que há tamanha ingratidão em relação àqueles que salvaram a dignidade nacional, travando uma luta praticamente suicida, tamanha era a desigualdade de forças. Pelo menos, não foram todos os brasileiros que se resignaram a viver debaixo das botas.

Mas, voltando a Gaspari, seria injusto impugnarmos tudo que ele escreve em função desse preconceito contra os resistentes que trilharam o difícil caminho das armas.

Vai daí que, com exceção da referência a um "surto terrorista" que não houve nem serviria como justificativa para as atrocidades cometidas pelo regime militar, é das mais oportunas a análise de Gaspari sobre o último episódio de insubordinação fardada, na sua coluna dominical. Tanto que a reproduzirei na íntegra:
A ANARQUIA MILITAR É PRAGA
DO SÉCULO PASSADO


Indisciplinas como a do general Maynard começam com palavras, mas acabam em golpes, tortura e morte


A EXONERAÇÃO do general Maynard Santa Rosa do Departamento-Geral de Pessoal do Exército veio bem e veio tarde. Ele deveria ter sido disciplinado quando criticou a conduta do governo na demarcação da reserva indígena de Roraima. Um cidadão tem todo o direito de achar que a Comissão da Verdade será uma "Comissão da Calúnia", mas militar, de cabo a general, não pode expressar publicamente suas opiniões políticas. Muito menos atacar um decreto presidencial.

Foram muitas as pragas da vida brasileira no século passado. Uma das piores foi a anarquia militar. Entre os 18 do Forte de 1922 e a bomba do Riocentro de 1981, ocorreram pelo menos 20 episódios relevantes de insubordinação militar, um a cada três anos. Alguns fracassaram, outros prevaleceram. Uns tiveram apoio popular, outros foram produto da pura vontade dos quartéis. Uns agradaram à esquerda, outros, à direita.

Em mais de meio século de anarquia, a pior bagunça ocorreu precisamente durante os 21 anos de ditadura militar. Em 1969, o país virou uma casa da mãe joana. O presidente Costa e Silva teve uma isquemia cerebral, seu sucessor legal, o vice Pedro Aleixo, foi impedido de assumir o cargo e a cúpula militar resolveu escolher seu sucessor.

Os generais entendiam que o povo não tinha a educação necessária para escolher um presidente. E aí? Quem escolhe? Os comandantes militares? Nem pensar, assim como voto do enfermeiro não podia valer o mesmo que o de um médico, o de um general que comandava uma mesa não valia a mesma coisa que o de um comandante de tropa. Fez-se a eleição mais manipulada da história nacional. Tão manipulada que não se conhecem nem sequer as regras do processo que escolheu o general Emilio Medici. Sobrevivem apenas duas tabelas que não fazem nexo.

Durante a ditadura, a anarquia produziu e institucionalizou um aparelho repressivo que se deu à delinquência da tortura, do assassinato de cidadãos e do extermínio de militantes de organizações esquerdistas. Começaram combatendo os grupos que, entre 1966 e 1973, se lançaram num surto terrorista. Terminaram com um pedaço dessa máquina fazendo seu próprio terrorismo, botando bombas em instituições acadêmicas, bancas de jornais e entidades como a OAB e a ABI.

Quem namora pronunciamentos militares deve contemplar duas fotografias: a dos 18 do Forte, heroica, com os oficiais caminhando desafiadoramente pela avenida Atlântica, alguns deles para a morte, e a do Puma do Riocentro com o corpo dilacerado do sargento do DOI. São cenas diferentes, mas têm a mesma nascente.

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O RESCALDO DO EPISÓDIO DO TIRO PELA CULATRA

O tiro disparado pelo general Maynard Marques de Santa Rosa contra a Comissão da Verdade saiu pela culatra: não atingiu o alvo e só vitimou o atirador inepto, que mirava alto e acabou acertando o próprio pé.
O noticiário desta 5ª feira (11) nos permite entender melhor o porquê da escolha deste momento para a provocação do militar linha dura -- ao qual, exatamente por suas trapalhadas, referi-me num texto anterior como o incrível general Brancaleone, fazendo blague com o filme clássico do diretor italiano Mario Monicelli, O Incrível Exército Brancaleone.

É que o Gen. Maynard está prestes a passar à reserva. Em data emblemática, o próximo dia 31 de março, ele vai concluir 12 anos de generalato e terá de trocar a farda pelo pijama.

Vai daí que ele vislumbrou a oportunidade para uma última bravata, depois de haver irritado seus superiores com as críticas à posição do governo no caso da reserva indigena Raposa/Serra do Sol; e a contestação da Estratégia Nacional de Defesa, bem como do novo organograma das Forças Armadas (motivo de uma primeira punição que havia sofrido, o afastamento do Ministério da Defesa).

Também pegaram mal suas acusações às Organizações Não Governamentais que atuam na Amazônia, imputando-lhes crimes que vão do tráfico de drogas e de armas até a espionagem.

Se, conforme os números que ele próprio apresentou, é de 100 mil o número dessas ONGs, vamos supor que 10 delas ajam com propósitos desvirtuados. Seriam 0,0001% as infratoras e 99,9999% as idôneas, sem nenhuma contradição com as afirmações do Gen. Maynard.

Ou seja, foi o tipo da acusação vaga e irresponsável, proferida apenas para atiçar os militares e a opinião pública contra as ONGs, além de constranger o Governo Federal e os estaduais (que estariam fechando os olhos a tais crimes).

Então, não por pertencer à extrema-direita ou por constar das listas de antigos torturadores, mas sim como encrenqueiro exibido, ele estava na alça de mira do ministro da Defesa.

Aí a Folha de S. Paulo informou que o Gen. Maynard redigira uma nota extremamente ofensiva à Comissão da Verdade e a seus integrantes -- a qual, na verdade, estava circulando na caserna há duas semanas e havia sido efusivamente reproduzida em sites militares e espaços virtuais da extrema-direita.

Era um desafio óbvio à autoridade do comandante supremo das Forças Armadas, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, responsável último pela instituição do colegiado a que o Gen. Maynard se referiu pejorativamente como Comissão da Calúnia.

É provável que o militar insubmisso almejasse mesmo ser enquadrado como infrator do Regulamento Disciplinar do Exército, o que implicaria a realização de um longo e controverso julgamento. Que melhor canto do cisne para ele do que tornar-se o símbolo (um Capitão Dreyfus às avessas...) em torno do qual se uniriam os reacionários e golpistas de sempre?

Nelson Jobim, entretanto, mostrou perspicácia, ao propor sua exoneração, imediatamente aceita pelo comandante do Exército e pelo presidente Lula.

Não se trata de um real castigo, pois o Gen. Maynard está, como a colunista Eliane Cantanhêde escreveu, "indo fazer nada no gabinete do comandante até 31 de março, quando cai na reserva".

Não houve prejuízo formal, sua pensão não será cortada ou reduzida, nada disso. Então, inexistem motivos fortes para outros militares solidarizarem-se a ele, salvo os que compartilham suas posições ultradireitistas.

E estes, eu já afirmei várias vezes, são em número bem menor do que os estritamente profissionais, que só querem cuidar de sua vida e de sua carreira.

Mas, a decisão superior foi anunciada de forma extremamente vexatória para o Brancaleone brasileiro. O comunicado à imprensa diz que o afastamento "foi motivado por declarações feitas pelo general, e disseminadas publicamente, contra a Comissão da Verdade, criada por decreto presidencial após negociação entre vários ministérios, e com participação do Ministério da Defesa".

Ou seja, recebeu um puxão de orelhas público e foi devolvido à sua nada épica condição de veterano em contagem regressiva para a aposentadoria.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

A EXONERAÇÃO DO INCRÍVEL GENERAL BRANCALEONE

Apesar dos comentários lisonjeiros dos amigos, não fui eu quem derrubou o general Maynard Marques de Santa Rosa.

Como prezo muito a verdade, nem sequer talharei uma marca no PC: não foi meu fogo inimigo que o abateu, mas sim o fogo amigo do ministro Nelson Jobim. Ironias do destino.

Muita seda a direita rasgará para o exonerado; aliás, já existem alguns desagravos demagógicos e golpistas circulando na internet.

No entanto, é bom que se saiba que, ao invés de ter agido em nome dos interesses superiores da Nação ou, pelo menos, na defesa da honra da corporação, tudo leva a crer que a motivação principal do gen. Maynard fosse bem mais prosaica: estaria apreensivo quanto ao que a Comissão da Verdade poderia revelar a seu respeito.

Numa lista de torturadores que o Blog do Cappacete recentemente publicou, eis a parte que lhe cabe:
MAYNARD MARQUES DE SANTA ROSA Segundo Tenente da Infantaria do Exército; integrava Equipe de Buscas do DOI-CODI-RJ; era da 2A. Seção do 1O.RO-105-RJ em 1971-1972
É claro que tudo se completa: os esqueletos no armário e as convicções ideológicas ultradireitistas de Maynard Marques, aquele general encrenqueiro que apareceu no noticiário contestando a ação do Exército na Reserva Raposa Serra do Sol e acusando ONGs da região amazônica de estarem "envolvidas com o tráfico de drogas, armas, lavagem de dinheiro e espionagem".

Azar dele que, em estratégia, é zéro à esquerda. Deve ter cabulado as aulas.

Quando li a nota do General Maynard contra a Comissão da Verdade, fiquei perplexo com sua incontinência verbal. É óbvio que um militar na ativa não pode impunemente referir-se a um colegiado instituído pelo Governo Federal como "Comissão da Calúnia".

Pior ainda foi ter-se deixado levar pelo exibicionismo pseudo-erudito, aludindo ao pior personagem da História que poderia invocar na defesa da sua causa: Torquemada. Levantou a bola para marcarmos o ponto.

Asnática também foi a escolha do momento para sua provocação.

Depois de ter feito uma concessão indigesta à pressão dos militares, retirando da terceira versão do Programa Nacional dos Direitos Humanos a correta especificação dos crimes a serem investigados, era igualmente óbvio que o Governo não engoliria outro sapo -- ainda mais se viesse na bandeija de um general que está longe de ser uma unanimidade na caserna.

Pelo contrário, o que Maynard Marques ofereceu ao governo foi uma excelente e não desperdiçada oportunidade para mostrar autoridade, apagando a má impressão deixada no episódio anterior.

"Quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue" - costumava citar o Paulo Francis.

ATAQUE DO GEN. MAYNARD À COMISSÃO DA VERDADE FOI TRANSGRESSÃO DISCIPLINAR

Figurinha carimbada da extrema-direita militar, o chefe do Departamento Geral do Pessoal do Exército, general Maynard Marques, lançou uma catalinária contra a Comissão da Verdade que o Governo Federal está instituindo para, principalmente, apurar as atrocidades perpetradas pela ditadura de 1964/85.
Sua nota A Comissão da "Verdade"? está amplamente disponibilizado nos sites fascistóides e demais espaços virtuais das viúvas da ditadura, como o Coturno Noturno.

Depois de manifestar sua convicção autoritária na prevalência de uma verdade "absoluta, [que] transcende opiniões e consensos, e não admite incertezas", desanda a atirar na fogueira os que ousam expressar o outro lado, cujo direito a existir e manifestar-se é a própria essência da democracia.

Segundo ele, "a 'Comissão da Verdade' (...), certamente, será composta dos mesmos fanáticos que, no passado recente, adotaram o terrorismo, o seqüestro de inocentes e o assalto a bancos, como meio de combate ao regime, para alcançar o poder".

No seu entender, seriam fanáticos os que combateram o regime, exercendo seu legítimo direito de resistência à tirania, mas nenhuma restrição faz àqueles que conspiravam há mais de uma década para usurpar o poder e, aprimorando seus métodos de tentativa em tentativa, acabaram por obter êxito, o que foi ponto de partida para assassinatos, torturas, estupros, detenções ao arrepio da Lei (sequestros, portanto), ocultação de restos mortais, cassação de mandatos legítimos, extinção arbitrária de entidades e partidos políticos, demissão ilícita de funcionários, censura aos meios de comunicação e, enfim, de todo tipo de perseguições, intimidações e pressões truculentas.

Incidindo em humor involuntário, o gen. Maynard Marques finge não perceber que, ao barbarizar dezenas de milhares de brasileiros em seus famigerados porões, a ditadura militar se definiu como legítima sucessora da Santa Inquisição. Ele tenta penosamente enfiar na cabeça dos adversários a carapuça que Deus e o mundo sabem repousar melhor sobre quepes:
"A História da inquisição espanhola espelha o perigo do poder concedido a fanáticos. Quando os sicários de Tomás de Torquemada viram-se livres para investigar a vida alheia, a sanha persecutória conseguiu flagelar trinta mil vítimas por ano no reino da Espanha".
Que palpite infeliz! Não escapará a nenhum cidadão civilizado que as realizações de Torquemada e seus sicários têm tudo a ver com as de Médici e seus Ustras...

Com sua nota insubmissa -- em que chega a qualificar a Comissão da Verdade de "excêntrica", comparando-a a uma "Comissão da Calúnia" --, o gen. Maynard Marques desrespeitou pelo menos duas proibições do Regulamento Disciplinar do Exército:
  • "manifestar-se, publicamente, sem que seja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária"; e
  • "censurar ato de superior hierárquico ou procurar desconsiderá-lo, seja entre militares, seja entre civis".
Devemos, portanto, EXIGIR do general Enzo Martins Peri (comandante do Exército) e de Nelson Jobim (ministro da Defesa) que façam cumprir o Regulamento Disciplinar, aplicando as punições cabíveis ao general boquirroto.

Quanto aos seis integrantes da Comissão da Verdade, designados pela ministra Dilma Rousseff, têm motivos de sobra para levar aos tribunais quem os qualificou de fanáticos, terroristas, sequestradores e assaltantes, antes mesmo de conhecer os nomes dos indicados para a função.

Obs: desta vez agiu correta e rapidamente o Governo, cortando o mal pela raiz. Exonerou o General Maynard Marques pouco depois que lancei este artigo e pelos motivos nele alinhavados, conforme pode ser constatado na notícia da "Folha On Line" Jobim anuncia exoneração de general após declaração sobre plano de direitos humanos.
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