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sexta-feira, 10 de maio de 2019

O GIGANTE ADORMECIDO ESTÁ ACORDANDO: QUARTA-FEIRA SERÁ O "DIA NACIONAL DE LUTA EM DEFESA DA EDUCAÇÃO"

ricardo kotscho
MAIS ARMAS, MENOS EDUCAÇÃO
O gigante adormecido está acordando, após o corte de 30% nas verbas da Educação, em meio à corrida armamentista desencadeada por Bolsonaro.

Desde a manhã de 2ª feira, quando centenas de estudantes cariocas protestaram contra o presidente em frente ao Colégio Militar (vide foto acima), onde ele participava de uma cerimônia, manifestações de professores e alunos se alastram pelo país.

Embora desta vez os meios de comunicação escondam os protestos, ao contrário do que aconteceu em 2013, alunos, estudantes e funcionários já saíram às ruas em São Paulo, Curitiba, Salvador, Niterói e em Passos, no sul de Minas.

“A gente vai lutar com todas as nossas forças pelo direito de estudar numa instituição de ensino de qualidade e manter nosso campus aberto”, diz Giovana Assis, aluna do Instituto Federal de Passos, onde o MEC cortou R$ 16 milhões, o que corresponde a 40% da verba deste ano.
O Sindicato Nacional dos Servidores da Educação Básica, Profissional e Tecnológica  convocou para o próximo dia 15, 4ª feira, o Dia Nacional de Luta em Defesa da Educação, que também já está mobilizando as entidades estudantis de todo o país.

Segundo o Sinasafe, este dia servirá como esquenta para a greve geral do dia 14 de junho convocada pelas centrais sindicais.

Com a oposição partidária e parlamentar ainda na tela de repouso, limitada a alguns deputados como Ivan Valente, Alessandro Molon e Paulo Teixeira e outra meia dúzia de quixotes, mais uma vez são os estudantes e professores que saem à frente na defesa dos seus direitos e da democracia.

Na mesmo dia dos protestos no Rio, milhares de manifestantes foram às ruas em Salvador contra o corte de R$ 3,7 milhões na Universidade Federal da Bahia.

Na quarta-feira, estudantes e professores promoveram a Marcha da Ciência contra os cortes de verbas da Educação, na avenida Paulista, em São Paulo, ao mesmo tempo em que o movimento Lutar e Educar, ligado à Universidade Federal do Paraná, protestou em Curitiba, assim como aconteceu na Universidade Federal Fluminense, em Niterói.
Bolsonaro abriu várias frentes de batalha ao mesmo tempo. Talvez sem se dar conta, além de confrontar o alto pijamato dos generais para defender o guru Olavo de Carvalho, o presidente jogou o povo das universidades contra o governo, com a entrada em cena de Abraham Weintraub, o alucinado novo ministro da Educação que resolveu declarar guerra ao marxismo cultural.

Ao decretar o liberou geral de armas e munições, o capitão reformado arrumou confusão também com a bancada evangélica, uma das bases de sustentação do seu governo, que já se declarou contrária às medidas.

Aonde ele quer chegar?

Eleito por 57 milhões de brasileiros num colégio eleitoral de 147 milhões (ou seja, 89 milhões não votaram nele), o presidente se dirige cada vez mais aos chamados bolsonaristas de raiz das redes sociais, liderados por seus filhos, e esquece de governar o país.

Em pouco mais de quatro meses de mandato, corre de um lado para outro para apagar incêndios, provocados por ele mesmo, sem conseguir apresentar um programa de governo.

A crise muda de patamar quando sai dos gabinetes e da internet para as ruas, como já começa a acontecer.

Com o desemprego crescente, a economia paralisada e sem perspectivas de melhorar, uma base parlamentar fragmentada comandada por amadores e o PIB em queda, a unica iniciativa do governo até agora foi cortar verbas, fechar conselhos e destruir programas sociais.

Diante deste cenário tenebroso, a sociedade civil está começando a se reorganizar e dar sinais de vida como aconteceu em 1984, já no fim da ditadura militar. A diferença é que agora o governo está só começando.

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)

terça-feira, 20 de junho de 2017

RUPTURA À VISTA: ESQUERDA PETISTA COGITA CRIAR NOVA LEGENDA COM O BOULOS OU INGRESSAR NO PSOL

Era um partido sem patrões, hoje é dócil com os patrões. 
Lá se vão quase dez meses desde que o Senado Federal extinguiu o mandato presidencial de Dilma Rousseff, selando a mais vergonhosa derrota da esquerda brasileira desde o golpe de 1964 – uma nova destituição de chefe do Governo sem resistência minimamente significativa, com a agravante de que, se daquela vez os tanques saíram à rua para intimidar João Goulart, em 2016 bastou um piparote parlamentar para despachar Dilma. 

E só agora, apesar da insistência da cúpula petista em evitar que o partido efetue o imprescindível processo de crítica e autocrítica, o bloqueio começa a ser rompido: os quadros mais consequentes já se reúnem com outras forças para tirarem as conclusões que se impõem, discutindo as causas do fiasco e buscando novas linhas de atuação para substituírem as que fracassaram rotundamente.

A Folha de S. Paulo noticia que, na tarde e noite do último domingo (18), alguns petistas mais consequentes estiveram reunidos com dirigentes do PSOL e representantes de movimentos de esquerda a fim de traçarem "uma estratégia conjunta para a oposição". 

Segundo a repórter Cátia Seabra, o anfitrião foi Guilherme Boulos, do Movimento dos Trabalhadores Sem Teto, que convidou, entre outros, o senador Lindbergh Farias (PT-RJ); o ex-ministro da Justiça Tarso Genro; o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP) e o deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL-RJ).

Decidiram insistir na elaboração de uma plataforma comum da esquerda, proposta que já foi rechaçada duas vezes pelo ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (uma delas ao discursar no recente Congresso Nacional do PT). 

Neste sentido, promoverão debates públicos e via internet, visando à formulação de um "programa mais à esquerda", que "vá além" da timidez dos governos petistas. A reforma do sistema tributário, uma auditoria do sistema da dívida e o controle da mídia serão alguns dos assuntos em discussão, de acordo com a notícia.

Também estaria sendo cogitada a possibilidade de a chamada esquerda petista deixar o partido, ou para formar uma nova agremiação juntamente com Guilherme Boulos, ou em direção ao PSOL.

A pá de cal parece ter sido a postura atual do Lula, de deixar tudo como está para ver como fica, tendo feito declarações do tipo "depois dos discursos inflamados, tem que chegar em casa e colocar na balança, para saber se ele é exequível". 

Lula chegou ao cúmulo de dizer que, para governar, é preciso fazer alianças com os eleitos – ou seja, prega a repetição dos mesmíssimos erros que conduziram aos infernos do mensalão e do petrolão, além da descaracterização e domesticação graduais que o PT vem sofrendo desde a desastrosa opção pela conciliação de classes.

E não poderia faltar a nota pitoresca: segundo Tarso Genro, os participantes da reunião teriam feito um acordo para evitar que sua realização vazasse para a imprensa. Mas vazou, como tudo vaza nos círculos políticos, governamentais e jurídicos. Somos o país da incontinência verbal... e de incontinências piores também.

Por último, como avaliarmos a iniciativa desses companheiros? A coisa ainda está embrionária, mas uma certeza existe: a esquerda chegou ao fundo do poço e, pior do que está, não pode ficar. Quaisquer mudanças de rumos têm, portanto, enormes chances de serem para melhor.

sábado, 4 de outubro de 2014

MINHAS APOSTAS NA LOTECA PRESIDENCIAL

Minha resposta até rima, mas pode me incriminar...
Muitos companheiros de esquerda gostam de fazer declarações de voto; devem ter motivos para crerem que suas escolhas vão inspirar muitos admiradores.

Não compartilho tal pretensão, até porque jamais me vi como guru seja lá do que for. Sou marxista da linha Karl, e também da linha Groucho: "Inclua-me fora disso".

Mas, até por falta de condições atléticas, não me acomodo bem em cima do muro. Então, apenas e tão-somente no modesto espaço deste blogue, vou deixar registradas minhas preferências, valham quanto valerem.

Presidenta da República: 
LUCIANA GENRO, do PSOL (50)

Se acredito que o capitalismo é, atualmente, o maior obstáculo à felicidade dos homens e a principal ameaça à sobrevivência de nossa espécie, tenho ser coerente com minha avaliação. Então, não havendo no pleito presidencial a mais remota possibilidade de a direita (Aécio Neves) liquidar a fatura no 1º turno, é forçação de barra estimular voto útil desde já.

Quem está firmemente contra o capitalismo, vota em candidatos e partidos que se proponham a dar um fim ao pesadelo capitalista, não aos que querem apenas atenuar seus malefícios (os reformistas, como Marina Silva e Dilma Rousseff). Simples assim.

Respeito igualmente os companheiros Mauro Iasi (PCB), Rui Pimenta (PCO) e Zé Maria (PSTU), mas tenho uma dívida de gratidão para com a Luciana, pelo papel por ela desempenhado no Caso Battisti, que considero a principal vitória conquistada pela esquerda brasileira de algumas décadas para cá.

E não posso deixar de reconhecer sua brilhante performance nos debates eleitorais, culminando com o xeque-mate dado em Dilma Rousseff, ao propor-lhe o aumento da tributação das grandes fortunas que passam de parasita pai para parasita filho, bem como dos lucros imorais e estratosféricos dos bancos. Deixando de responder duas vezes a esta interpelação claríssima, Dilma escancarou os limites do reformismo petista: late, mas não morde os verdadeiramente poderosos.

Governador de SP: GILBERTO MARINGONI, 
da frente PSOL/PSTU (50)

Mesmo caso: os companheiros não errarão se votarem no Raimundo Sena (PCO) ou no Wagner Farias (PCB), mas tenho afinidade maior com o professor, escritor, jornalista e cartunista Maringoni, por força de sua participação na luta pela liberdade de Cesare Battisti. E pertencemos à mesma leva de candidatos à vereança derrotados em 2012.

Como todos que saíram do PT quando o partido mais tinha a oferecer em vantagens materiais e menos em ímpeto para transformar a sociedade brasileira, merece respeito. Os piores (oportunistas e carreiristas) chegavam aos montes, os melhores debandaram. Não se vendeu por um prato de lentilhas.

Senador por SP: 
EDUARDO SUPLICY, do PT (131)

É o político mais influente que prioriza a defesa dos direitos humanos e também teve participação destacada no Caso Battisti, Como só ele está em condições de barrar a direita, aqui cabe, sim, o voto útil.

Seria péssimo perdermos um personagem tão simbólico, ainda mais se for substituído por seu antípoda: José Serra, o ex-presidente da UNE que se tornou cristão novo do autoritarismo, a ponto de ordenar a invasão da USP por brutamontes fardados.

Suplicy não estaria com sua reeleição ameaçada se houvesse saído do PT na hora certa, ao lado dos companheiros que lhe eram mais afins, como Chico Alencar, Heloísa Helena, Ivan Valente e Plínio de Arruda Sampaio. Torço para que, apesar da acentuada rejeição ao petismo em SP, continue cantando "Disparada" no Senado por mais oito anos --e, de quebra, defendendo alguns injustiçados (não tantos quanto deveria, mas ninguém é perfeito...). 

Deputado federal por SP: 
IVAN VALENTE, do PSOL (5050)

Outro velho guerreiro, que conheço desde os idos de 1976, quando fui pedir-lhe que convencesse o PT a não abandonar à própria sorte os quatro de Salvador (saiba mais sobre tal episódio aqui). 

Nem sempre estivemos do mesmo lado ´nas querelas partidárias, mas nunca deixou de existir respeito entre nós. 

Lembro com carinho de sua humildade ao servir de motorista para Plínio de Arruda Sampaio na última campanha presidencial, um idoso conduzindo outro, os dois acreditando que compensasse este outonal esforço para plantar sementes e legar um exemplo de luta aos pósteros, embora estivessem carecas de saber que o tostão não venceria o milhão. 

Ao reencontrá-lo no enterro do grande Plínio, dei-me conta de que foi, à sua maneira, um titã; e de que ainda não surgiram substitutos à altura dos titãs que se vão, daí devermos olhá-los "com um pouco de compreensão", como sugeria Brecht. 

Deputado estadual por SP: 
CARLOS GIANNAZI, do PSOL (50789)

Embora tenha havido um certo --e mútuo-- desencanto na campanha municipal, continuo admirando a tenacidade com que defende as bandeiras do magistério paulista; e considerando muito meritória a sua iniciativa de haver proposto e encaminhado a instituição do Dia Estadual em Memória dos Mortos e Desaparecidos Políticos, o primeiro a ser criado por lei em nosso país. É celebrado, desde 2011, em 4 de setembro, dia da descoberta das ossadas de Perus (um dos locais em que os agentes da repressão enterravam clandestinamente os resistentes executados).

terça-feira, 7 de agosto de 2012

DIGO EU E DIZ O PSOL: OS MENSALEIROS SÃO LEGIÃO

"Logo que saltou em terra, saiu-lhe ao encontro um homem da cidade, possesso de demônios, que havia muito tempo não vestia roupa, nem morava em casa, mas nos sepulcros.

Perguntou-lhe Jesus: Qual é o teu nome? Respondeu ele: Legião; porque tinham entrado nele muitos demônios." (Livro de Lucas, 8:27 e 8:30)


Um dos motivos que me levaram a somar forças com o Carlos Giannazi e com o PSOL, visando tentar pôr fim à monopolização dos governos paulistano e paulista por parte dos tucanos e seus aliados (responsáveis pela escalada autoritária e balões de ensaio golpistas dos últimos anos), foi a certeza de estar ingressando numa agremiação não stalinista, ou seja, que rejeita o monolitismo e admite a diversidade de opiniões no campo da esquerda.

Então, ao me posicionar sobre o mensalão --considerando-o um esquema de corrupção real mas idêntico a uma infinidade de outros que não provocaram idêntico clamor do Judiciário e da mídia-- nem me preocupei em consultar o partido, pois tinha certeza de que, havendo alguma discrepância de pontos de vista, seria tida como perfeitamente normal.

Então, foi com satisfação que, ao ler a Nota do PSOL sobre o Julgamento do Mensalão (ver íntegra aqui), assinada pelo presidente nacional Ivan Valente, constatei sua afinidade com minhas avaliações, conforme fica bem evidenciado nestes trechos:
"...o mensalão não só existiu como revelou a dinâmica da utilização de recursos públicos para a compra de aliados.

O mensalão, porém, não é o primeiro escândalo de corrupção vivido em nosso país. A privatização de empresas como a Vale e das companhias de telecomunicação, bem como a compra de votos para assegurar a reeleição do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, demonstram que a corrupção tinha profundas raízes nos governos tucanos.
Antes deles, a cassação do ex-presidente Collor de Mello e as denúncias contra os governos militares e o governo Sarney, já haviam demonstrado que a corrupção é um componente endêmico da política brasileira. E a atual 'CPMI do Cachoeira' mostra claramente que esquemas semelhantes continuam em vigor, ou seja, empresas continuam participando direta ou indiretamente no pagamento de propina e no financiamento das campanhas dos grandes partidos em nosso país.
Portanto, o julgamento do mensalão revela, principalmente, as opções do Governo Lula e do PT em favor de uma 'governabilidade' baseada em relações fisiológicas e de dependência financeira com as quais os novos inquilinos do palácio do Planalto não quiseram romper.
O mensalão é a prova máxima de que o PT e seu governo abriram mão de um programa de mudanças profundas, preferindo a aliança com os partidos da ordem que chancelaram seu apoio em troca e cargos, liberação de emendas parlamentares e, neste caso, pagamento de campanhas e compra de votos. Ou seja, vícios políticos que descambaram para a corrupção aberta visando a perpetuação no poder.

...o PSOL expressa seu repúdio à corrupção e exige a punição de todos que, comprovadamente, tenham utilizado recursos públicos para corromper ou que foram corrompidos, cedendo seu apoio ao governo em troca de dinheiro. Ao mesmo tempo, rechaçamos o circo midiático que busca realizar um julgamento meramente moral do caso do mensalão: ele é, antes de tudo, um problema político..."

domingo, 11 de março de 2012

"GRANDES CAMINHADAS COMEÇAM COM A DECISÃO DO PRIMEIRO PASSO"

Participei neste sábado da prévia inicial para a escolha do candidato do Partido Socialismo e Liberdade à prefeitura paulistana --talvez, parafraseando Platão, o primeiro passo de uma grande caminhada para forjarmos uma esquerda anticapitalista capaz de, verdadeiramente, representar uma alternativa de poder no Brasil.

Foi alentador ver tanta gente jovem e empolgada, acreditando que outro mundo é possível. Inevitavelmente, voltaram-me as lembranças do ardor dos secundaristas que acreditávamos ser capazes de sacudir o mundo em 1968.

Estávamos à beira de um abismo e não sabíamos.

O que, aliás, não importaria: ainda que tivéssemos uma antevisão dos horrores dos anos seguintes, com certeza seguiríamos em frente, com o arrojo magnificamente expresso por Caetano Veloso na canção "Mamãe coragem" (sobre o difícil momento de trocarmos a segurança do lar familiar pelos rumos perigosos ditados por nossa consciência):
"Mamãe, mamãe, não chore
Não chore nunca mais, não adianta
Eu tenho um beijo preso na garganta
Eu tenho um jeito de quem não se espanta
(Braço de ouro vale 10 milhões)
Eu tenho corações fora do peito
Mamãe, não chore
Não tem jeito"
Emblematicamente, os três precandidatos do PSOL são continuadores daquela luta. Ivan Valente e Odilon Guedes, inclusive por a terem travado; e Carlos Giannazi, o benjamim da turma, por identificação com os valores e o exemplo da resistência à ditadura militar, tanto que se deve a ele a instituição do Dia dos Mortos e Desaparecidos Políticos no estado de São Paulo.

O partido estará otimamente representado por qualquer um dos três.

Ivan Valente, o presidente nacional do PSOL, participou do movimento estudantil quando era diretor do centro acadêmico da Escola de Engenharia Mauá, foi preso e torturado como dirigente do clandestino Movimento de Emancipação do Proletariado, estava entre os fundadores do PT (tendo integrado seu Diretório Nacional) e acumula vários mandatos como deputado estadual e federal. Saiu do PT em 2005, na mesma leva do Plínio de Arruda Sampaio.

Eu o conheci em 1986, buscando apoio para a greve de fome dos  quatro de Salvador.

Foi um raro caso de petista que procurou ajudar estes companheiros desatinados: eles expropriaram um banco em benefício da revolução quando o país já se redemocratizara, foram renegados pelo PT e abandonados às represálias dos policiais fascistas (os quais tentaram inculpá-los por todos os bancos assaltados no País inteiro, além de tramarem seu assassinato na prisão).

O PT só pensava nos prejuízos eleitorais que adviriam de uma identificação com os autores de tal quixotada. Ou seja, há um quarto de século já colocava o noticiário da imprensa burguesa acima de valores como a solidariedade que os companheiros devem receber de nós quando são alvos da sanha da repressão.

Quanto ao Ivan, eu o reencontraria depois em várias lutas e situações. Nunca deixei de o admirar. E ontem nos cumprimentamos efusivamente, apesar do meu notório apoio à candidatura do Giannazi.

Disputas menores entre companheiros nunca os devem dividir nem azedar relacionamentos. A nós, revolucionários, cabe combatermos os burgueses, seus serviçais e os totalitários como inimigos figadais, mas tratarmos cordialmente os adversários de nossas posições no campo da esquerda. É esta a cartilha pela qual veteranos como o Ivan e eu rezamos.

Após participar do movimento estudantil e revolucionário nos anos de chumbo, Odilon Guedes  obteve destaque tanto na sua profissão (é mestre em economia pela PUC/SP, professor das Faculdades Oswaldo Cruz o presidiu o Sindicato dos Economistas no Estado de SP) como na política, chegando a ser vereador na capital paulista.

Transpira a dignidade de um velho guerreiro, no bom sentido da expressão. Em seu pronunciamento, lamentou que os filiados não estejam dando a devida atenção à sua precandidatura, face à polarização entre Giannazi e Valente. Um de seus apoiadores levantou a possibilidade de que venha a se tornar uma opção para assegurar a unidade do partido.

Só vejo um cenário em que isto seria possível: um quase empate entre os favoritos, com ambos decidindo então abdicar de suas pretensões em benefício de Odilon, o  tertius. Parece-me pouco provável.

O professor Carlos Giannazi apareceu no noticiário em 1998, como diretor de escola que movia céus e terras para abrir novas salas de aula naquele bairro carente, acabando por arrancar das autoridades a cessão de um prédio abandonado. 

Como vereador do PT, posicionou-se contra o desvio para outras finalidades de verbas que pertenciam à Educação. A prefeita Marta Suplicy conseguiu que ele tivesse seu mandato suspenso e fosse expulso do partido, o que só o engrandeceu aos olhos dos que não trocam os princípios pelas conveniências.

Desde então, como vereador e deputado estadual, veio sedimentando sua posição de principal liderança do professorado paulista e esteve sempre alinhado com o movimento estudantil e os movimentos sociais, marcando firme presença em suas lutas.

Sua atividade frenética, colocando o mandato a serviço de todos os bons combates, fez dele o precandidato com mais respaldo nas bases do partido e junto à população. Daí ser o homem certo para este momento, sem demérito nenhum para os  imprescindíveis  Valente e Guedes.

Identifico-me com o repúdio de Giannazi ao autoritarismo no seio da esquerda (amiúde vitupera o stalinismo em suas falas) e com sua convicção de que a crise do capitalismo é grave e ensejará uma nova onda revolucionária. Os dois apostamos, sobretudo, nas ruas e nas praças, que são do povo como o céu é do condor.

É nelas que devemos construir nossa opção, não nos gabinetes do poder. 

OS EMBRIÕES GOLPISTAS

Na minha intervenção, abordei um assunto de ordem geral: a necessidade de todos nós, da esquerda, acompanharmos com muita atenção os manifestos militares e outros embriões golpistas.

Não é tão fácil se derrubar um presidente legítimo, rasgar a Constituição e submeter a nação ao terrorismo de estado. A quartelada de 1964, p. ex., começou a ser tramada no momento em que Jânio Quadros se elegeu presidente da República, em fins de 1960 --tanto que já havia um dispositivo golpista suficientemente estruturado para tentar o  pulo do gato  quando da renúncia de Jânio, em agosto de 1961.

Mas, a falta de respaldo na opinião pública, além da firme reação do governador Leonel Brizola e dos subalternos das Forças Armadas, frustraram esta primeira tentativa.


Foram necessários quase três anos para apresentar-se outra ocasião propícia. Nesse meio tempo, os conspiradores acumularam força; retaliaram os sargentos e cabos que haviam se posicionado contra o golpe, impondo-lhes medidas disciplinares e dispersando-os por unidades longínquas; conseguiram algum apoio da classe média por meio das marchas de carolas, dondocas e reaças; e utilizaram a radicalização de subalternos das Forças Armadas como espantalho para assustar a oficialidade e tangê-la ao golpismo (podem até ter provocado tal radicalização, por meio de figuras como o cabo Anselmo).

Da mesma forma, desde a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva nota-se a existência de embriões golpistas, seu que a  ocasião propícia  surgisse até agora. Eis alguns:
  • o Cansei!, que aspirava a ser uma nova Marcha da família, com Deus, pela liberdade, mas só reuniu algumas centenas de  testemunhas, não decolando;
  • a tentativa de tornar o Supremo Tribunal Federal, sob a presidência de Gilmar Mendes, um polo de poder alternativo ao Governo Federal, tendo a blitzkrieg de usurpação de prerrogativas do Executivo sido detida no Caso Battisti, o que fez o PIG e as forças reacionárias desistirem de apostar na dupla Mendes/Peluso;
  • o caráter ultradireitista que a campanha presidencial de José Serra assumiu no segundo turno de 2010, com o ostensivo envolvimento de remanescentes e de viúvas da ditadura;
  • a reintrodução da repressão caracteristicamente ditatorial nos episódios da ocupação da USP e das  faxinas sociais  na cracolândia e no Pinheirinho, levadas a cabo por efetivos policiais-militares que até hoje cultuam as práticas e a memória do arbítrio;
  • a arregimentação dos católicos contra o aborto e dos evangélicos contra os gays;
  • as recentes insubordinações dos oficiais da reserva, encabeçados por figuras como o coronel Brilhante Ustra (declarado torturador pela Justiça), o General Maynard Marques (que qualificou a presidente Dilma Rousseff de assaltante, torturadora e assassina), o general Valmir Pereira (presidente do Ternuma, um dos sites mais extremados na apologia da última ditadura) e o coronel Jarbas Passarinho (aquele que reconheceu estar mandando os escrúpulos às favas ao assinar o AI-5).
Há, sim, forças empenhadas em mergulhar o País novamente nas trevas. Mas, enquanto o grande capital e os EUA considerarem seus interesses bem servidos sob o status quo, os esquemas golpistas permanecerão em stand by. Não se violenta as instituições no Brasil sem a participação ou o sinal verde dos verdadeiramente poderosos.

Temos, contudo, de manter uma observação atenta dos quadros político e econômico. Os cenários são dinâmicos e, havendo crises e turbulências, os pescadores em águas turvas certamente tentarão alguma cartada para interromper o longo ciclo petista no poder.

E a melhor maneira de lidar com eles nunca foi ceder, como fez o PT ao desistir da descriminalização do aborto para apaziguar religiosos medievaliestas e ao assegurar aos militares insubmissos que a anistia de 1979 permanecerá intocável (diante de uma bravata tão desrespeitosa ao ministro da Defesa e à presidente da República, o primeiro deveria tê-los apenas chamado às falas, sem dar-lhes quaisquer satisfações, nem mesmo a reiteração de obviedades).

A verdadeira esquerda não deve recuar diante das ofensivas direitistas, nem por motivos eleitoreiros, nem por pusilaminidade face às carrancas militares.

Nosso papel é o de mantermos erguidas essas bandeiras que o PT está descartando ou defendendo pela metade (caso da Comissão da Verdade, que poderá ser desfigurada pelas concessões aos comprometidos com a mentira); e de cerrarmos fileiras com o PT na defesa da democracia, caso esta venha a ser ameaçada.

Obs.: computadas as duas primeiras prévias, de um total de seis, Giannazi obteve 288 votos (57%);  Valente, 197 (39%); e  Guedes, 20 (4%).

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

DUAS CANDIDATURAS INACEITÁVEIS: PALOCCI E REQUIÃO

Evito, tanto quanto possível, tomar partido em tiroteio eleitoral.

Evidentemente, estou sempre ao lado das candidaturas de esquerda. Mas, prefiro anunciar minha preferência específica às vésperas da votação.

Para prefeito de São Paulo, p. ex., optei em 2008 pelo digno companheiro Ivan Valente, que tanto me ajudara em lutas passadas, indiferente à certeza de sua derrota. O título do artigo já disse tudo: Perderei com Ivan Valente e me orgulho disso.

No entanto, há (pré) candidaturas diante das quais não consigo manter essa equidistância, de tão nocivas que são.

Uma delas é a de Antonio Palocci, que utilizou todo o seu peso ministerial (ainda por cima praticando um crime, pouco importando a decisão ultrajante do Supremo Tribunal Federal que o salvou do merecido castigo!) para esmagar um zé ninguém, fazendo exatamente o contrário do que o PT deveria fazer. Um partido criado para defender os coitadezas dos abusos dos poderosos não pode violentar a tal ponto seus princípios. 


Muitos já abandonaram os valores que davam ao PT o direito de se denominar partido dos trabalhadores. Mas, o caso do Palocci foi o mais gritante.

Pior do que o de qualquer mensaleiro, na minha avaliação -- pois, para um verdadeiro homem de esquerda, conta mais o alinhamento com os humilhados e ofendidos do que o combate à corrupção.

Cogitado para ser o candidato petista ao governo de São Paulo, Palocci teria, decerto, o apoio dos banqueiros, aos quais sua política econômica como ministro da Fazenda tanto favoreceu.

Mas, tão pouco carismático ele é e tão chamuscado ele saiu do episódio do caseiro que não chegaria nem ao segundo turno. Afirmo e assino embaixo.

FRAUDE ELEITORAL DESMASCARADA E IMPUNE


Outro candidato inaceitável é Roberto Requião, fraudador de eleições. Ele tenta se lançar como candidato próprio do PMDB à Presidência da República. Tomara que não consiga.

No final do horário eleitoral gratuito do segundo turno da eleição para governador paranaense de 1990, a campanha de Requião colocou no ar um vídeo gravado no Paraguai, no qual um indivíduo mal encarado se apresentava como Ferreirinha, pistoleiro foragido.

O tal Ferreirinha contou que, a mando da família do adversário de Requião, José Carlos Martinez, expulsara e matara os sem terra que invadiam sua propriedade.

O impacto da denúncia foi decisivo para que Requião, apontado como provável perdedor pelas pesquisas, virasse o jogo na última hora, derrotando Martinez.

Depois, veio à tona que o suposto pistoleiro não passava de um pacífico motorista desempregado e, inclusive, era muito novo para haver cometido os homicídios que confessara.

Requião foi condenado pelo Tribunal Regional Eleitoral, por fraude eleitoral. Teve seu mandato cassado, mas recorreu ao TSE e, usando os infinitos recursos protelatórios à disposição de quem pode bancar advogados caros, cumpriu seu mandato espúrio até o último dia. O processo acabou sendo arquivado sem julgamento de mérito.

São duas carreiras políticas que só sobreviveram ao arrepio da verdadeira Justiça: Palocci e Requião, tanto quanto Sarney, não passam de símbolos da mais grotesca impunidade.

Que os fados lhes sejam adversos.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A RESPOSTA DO GOVERNO SERRA AO PROTESTO DIANTE DO DOI-CODI: INQUÉRITO POLICIAL

“Me mandaron una carta
por el correo temprano,
en esa carta me dicen
que cayó preso mi hermano,
y sin compasión, con grillos,
por la calle lo arrastraron, sí.

“La carta dice el motivo
de haber prendido a Roberto
haber apoyado el paro
que ya se había resuelto.
Si acaso esto es un motivo
presa voy también, sargento, si.”
(“La Carta”, Violeta Parra)

Se o governador de São Paulo fosse um companheiro de ideais, eu lhe escreveria uma carta aberta, sem o mínimo receio de que tão alta autoridade pudesse se lixar para um mero escriba virtual.

Tenho sempre na lembrança o magnífico exemplo de Salvador Allende: ao ser eleito presidente do Chile, afirmou aos militantes que, para eles, jamais seria Sua Excelência, mas sim o companheiro presidente.

Mudam os tempos, mudam os homens.

Hoje, o ex-presidente da União Nacional dos Estudantes não dá a mínima para os que continuam fiéis às bandeiras que o levaram ao exílio, quatro décadas atrás.

Em outubro do ano passado, enderecei-lhe uma carta para denunciar que a Rota, unidade truculenta da Polícia Militar paulista, continuava ufanando-se em seu espaço virtual de haver secundado as Forças Armadas em atentados contra a democracia cometidos no período 1964/85.

O José Serra da UNE certamente ficaria indignado com esses PMs que, em plena democracia, fazem questão de lembrar que ajudaram a depor um presidente legítimo e a esmagar os movimentos de resistência à tirania.

O José Serra do Poder considerou esse assunto tão irrelevante que a única resposta do seu governo acabou sendo a dada por um tenente à reportagem da Brasil de Fato, em janeiro, prometendo uma “limpeza geral” na página da Rota.

Foram palavras ao vento, pois a página permanece inalterada até hoje:

“Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (...) Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, dando início à ditadura militar com o Presidente Castelo Branco; Campanha do Vale do Rio Ribeira do Iguape, em 1970, para sufocar a Guerrilha Rural instituída por Carlos Lamarca...”

CESARE BATTISTI É NEGADO DUAS VEZES - Também no Caso Cesare Battisti, verdadeiro divisor de águas entre os cidadãos com espírito de justiça e os reacionários mesmerizados pelas razões de estado, as reações foram as mais decepcionantes.

Primeiramente, a declaração de Serra quando o ministro Tarso Genro acabava de conceder o refúgio humanitário a Battisti, preferindo ficar contra o governo petista do que a favor da soberania nacional, atingida pelas ultrajantes pressões italianas: "Em princípio, não estou de acordo, pelos antecedentes que vi na imprensa. Não olhei os processos, mas me parece um exagero o asilo dado".

Depois foi o consentimento que, calando-se, deu a uma inaceitável declaração do seu secretário de Justiça Luiz Antonio Marrey, que melhor caberia na boca de alguma viúva da ditadura: "Foi absolutamente equivocada a decisão de dar refúgio político a um assassino condenado pela Justiça italiana".

Faço questão de repetir aqui o que escrevi quando o Governo Serra negou Battisti pela segunda vez, aproximando-se da marca célebre de Pedro:

“Se tudo que os estados afirmam sobre seus desafetos deve ser tomado como verdade absoluta, erraram a França e o Chile ao não entregarem o subversivo Serra para os torturadores brasileiros.

”E se a solidariedade entre os combatentes das causas justas virou letra morta, errou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, com suas gestões desesperadas, salvou Serra da morte quando do pinochetazzo.”

"SUSPEITOS": IVAN SEIXAS E IVAN VALENTE - Face a esses precedentes, bem como à emblemática atitude de tratar os movimentos estudantis e sociais como caso de polícia, não nos deve surpreender que, reeditando as práticas da ditadura militar, o Governo Serra tenha instaurado inquérito para apurar responsabilidades pela manifestação realizada em 24 de agosto de 2008, diante da delegacia paulistana que, no período 1969/1976, abrigou a Operação Bandeirantes e seu sucessor, o DOI-Codi/SP.

Para quem não sabe, tratou-se de um dos mais nefandos centros de torturas do período totalitário, responsável pelo assassinato de 47 militantes da resistência à ditadura.

Dos 6.897 cidadãos que passaram por suas garras, a grande maioria sofreu as torturas de praxe (espancamentos, choques elétricos, pau-de-arara, afogamento, asfixia, etc.), acrescida de uma exclusividade do local: a cadeira-do-dragão, cujos assento e encostos para os braços e cabeça eram revestidos de metal, para aumentar a potência das descargas que a vítima, amarrada, recebia.

O episódio atual foi enfocado na edição de março/2009 da Revista Adusp ( http://www.adusp.org.br/revista/44/r44a02.pdf ), valendo a pena citar alguns trechos do excelente relato:

“Naquela tarde de domingo, cidadãs e cidadãos de todas as idades marcharam pela rua e depois fizeram pinturas no chão, para lembrar que durante a Ditadura militar funcionou ali a infame unidade militar que ficou conhecida como DOICODI do II Exército.

“Pois bem: desde o dia seguinte a passeata tornou-se objeto do inquérito policial 609/08, que corre no próprio 36º DP. Os manifestantes teriam danificado espaço público e infringido o artigo 65 da lei 9.605/1998, segundo o qual constitui crime sujeito a pena de até um ano de detenção ‘pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano’.

“Paulo Fávero, estudante de Artes Plásticas da USP, foi intimado a depor. ‘Os manifestantes pediam para que aquele lugar não continuasse sendo o 36º DP, mas sim um espaço da memória e da resistência’, explicou Fávero (...) ‘Os advogados tiveram acesso ao inquérito antes do meu depoimento e constava lá que eu era suspeito de mandante do ato e que sou representante da Liga Bolchevique Internacionalista (LBI), o que é uma mentira. Eu não sou membro da LBI, e não sei qual seria a relevância se eu fosse da LBI’...

“ (...) No inquérito também são citados Ivan Seixas; Darlan dos Reis, residente no Ceará, que não compareceu ao ato, mas divulgou-o em seu blogue; e o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que durante o ato ofereceu testemunho como ex-preso político. O inquérito é instruído com diversas fotografias da manifestação.”

Não escondo que fui o primeiro a propor uma manifestação de protesto diante do DOI-Codi/SP, em 2004, quando quase nada se falava sobre as atrocidades do período ditatorial e o Fórum Permanente dos Presos Políticos de São Paulo tentava recolocar o assunto em evidência no noticiário. A confissão está no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005):

“...aproximando-se o 40º aniversário do golpe militar, sugiro uma iniciativa ousada para o Fórum conseguir, finalmente, espaço na imprensa: um ato público diante da delegacia em que funcionou a Oban, homenageando os companheiros torturados e mortos naquele órgão infame. O Tortura Nunca Mais certamente poderá fornecer a lista dos que foram ali assassinados, Vladimir Herzog e tantos outros. Isto teria impacto e dramaticidade suficientes para atrair muitos jornalistas.”

Não participei do ato de protesto realizado quatro anos depois porque um valor mais alto se alevantou: minha filhinha de quatro meses estava adoentada.

Mas, se até um blogueiro do Ceará está na alça de mira da polícia democrática do Serra, é justo que eu assuma minhas responsabilidades como instigador.

Sempre me sentirei honrado em estar ao lado dos Ivans Seixas e Valente, nas batalhas contra o autoritarismo redivivo.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

PERDEREI COM IVAN VALENTE E ME ORGULHO DISTO

Sei que meu apoio não vai eleger prefeito nenhum, mesmo porque despertará interesse mínimo por aí. Há muito tempo deixei de ter quaisquer ilusões de grandeza.

Mesmo assim, faço questão de declarar meu voto, porque tenho orgulho de perder com Ivan Valente. Mil vezes melhor do que ganhar com qualquer um dos três que disputam pra valer a Prefeitura de São Paulo.

Conheci o Ivan quando travava luta desesperada para salvar quatro companheiros em greve de fome, no ano de 1986. Eram aqueles jovens de Salvador que, generosos mas ingênuos, quiseram retomar as expropriações de bancos num contexto totalmente adverso e acabaram presos logo na primeira tentativa.

O PT os abandonou, porque prejudicavam suas chances eleitorais. A extrema-direita tramava seu assassinato dentro da prisão. A direita um pouco menos extremada queria jogar nas costas deles todos os assaltos a banco daquela década, atropelando seus direitos constitucionais das mais diversas maneiras. Acabaram indo para o tudo ou nada numa greve de fome que levariam mesmo até o fim, ao contrário dos garotinhos mijões.

Ivan foi, mesmo, valente: como deputado estadual, fez o que pôde, nos bastidores, para ajudar os companheiros, não se importando em contrariar os dirigentes petistas que queriam mais é que os quatro morressem mesmo na prisão. [Passada a tempestade, Ruy Falcão, que faz jus ao nome, referiu-se aos quatro e a mim como "cães danados". Não me ofendi. Antes isto do que ser lulu da madame Favre, quer dizer, Suplicy...]

Depois, em 2004, quando eu estava em penúria extrema e tinha a reparação de ex-preso político como minha única esperança de ainda dar a volta por cima, o Ivan novamente agiu como companheiro, no sentido real do termo. Lutou por meus direitos em Brasília.

Então, pouco me importa o quadro eleitoral. Se está com apenas 1% das intenções de voto, é porque não se dispõe a pagar o preço usual dos que fazem política no atual momento de putrefação capitalista: trair seus ideais e até sua ética pessoal.

Infelizmente, são os que chafurdam na lama os preferidos do eleitorado.

De resto, quero registrar algumas declarações mais marcantes de Ivan Valente, ao ser sabatinado ontem (25) pela Folha de S. Paulo:

- O PT transformou políticas públicas universalizantes, o que era uma marca da esquerda, em políticas públicas focadas, assistenciais, coisa que qualquer partido tradicional pode fazer. Você não vê mais a Marta [Suplicy, candidata do PT] falar em participação popular. É "eu faço", como toda a direita faz. Não tem o espírito coletivo, a marca da esquerda.

- Quando um partido que representou a esquerda passa a ter um descrédito - e o PT foi isso-, não se reafirma novamente um projeto de esquerda em poucos anos. Você precisa afirmar um programa, resgatar ideologicamente e batalhar contra a descrença que o PT deixou.

- Do ponto de vista estruturante das propostas para a sociedade, [as candidaturas do PT, do DEM e do PSDB] são muito iguais. Um ou outro pode ter uma preocupação mais social, manter relações mais intensivas com as periferias, mas nada que o clientelismo de direita não possa fazer. Faz e sempre fez. Maluf fez, Kassab faz, etc. Não há uma grande diferença.

- O governo Lula se beneficia de um momento internacional compensador. A pequena política assistencial rende uma popularidade enorme. Lula tem popularidade nos setores mais populares, diferente do que o PT já foi. Já foi uma grande hegemonia nos movimentos sociais organizados, mas o PT ajudou a desorganizar os setores organizados.

- Certamente [respondendo à pergunta sobre se faltou coragem ao PT]. Precisa fazer enfrentamentos, tem de acabar com a lógica que concentra renda, riqueza e terra.
Não é à toa que ele governa com uma base ultraconservadora.

- O PT criou uma rejeição. Muita gente séria que se desiludiu com o PT. O problema é implantar de novo um projeto de esquerda, porque demora um tempo. Por isso não temos pressa em chegar ao poder a todo custo. (...) Isso matou o PT: chegar ao poder a todo custo.

Em tempo: não sou filiado ao PSOL, mesmo porque deixei de acreditar na conquista de governos como degrau para a revolução. Mas, alguns companheiros que ainda respeito e admiro estão lá, estoicamente, tentando levar novamente a pedra até o topo da montanha e, assim, reconstruir a opção que o PT traiu.
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