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domingo, 10 de dezembro de 2017

A ARTE ANTECIPANDO A VIDA: VEJA UMA COMÉDIA SOBRE AQUELES QUE VIVEM NO PASSADO, COMO O GENERAL MOURÃO.

Custou mas foi disponibilizado no Youtube O incrível exército Brancaleone (era assim que se chamava quando foi lançado em 1966 no Brasil, e não de Brancaleone...). 

Trata-se de uma comédia clássica do cinema italiano, do grande diretor Mario Monicelli, responsável por obras-primas como Os eternos desconhecidos, A Grande Guerra, Os companheiros, Meus caros amigos e Quinteto irreverente. Imperdível!

Com atuação inesquecível de Vittorio Gassman e uma ótima trilha musical de Carlos Rutischelli, tem como inspiração óbvia a saga de D. Quixote de la Mancha: as peripécias de um indivíduo que tem a mente fincada numa realidade que ficou para trás e, tentando agir em conformidade com valores que o tempo levou... quebra a cara o tempo todo!

Igualzinho ao general Antonio Hamilton Mourão, que se mancomuna com as viúvas e remanescentes da última ditadura na azucrinação aos comandantes militares legalistas de hoje, obrigados a repreendê-lo e puni-lo seguidas vezes, enquanto conferem ansiosos o calendário, sonhando com o dia em que finalmente trocará a farda pelo pijama, deixando de ser responsabilidade deles.


sábado, 9 de dezembro de 2017

EXÉRCITO VAI COLOCAR O GENERAL TRAVESSO DE CASTIGO

Depois de o general Antônio Hamilton Mourão afrontar novamente a hierarquia militar, voltando a emitir juízos políticos sobre o presidente da República (que é o comandante supremo das Forças Armadas) e a fazer apologia de quarteladas, escrevi: 
"Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada"
Bem, o Exército preferiu manter a denominação atual: já resolveu que aplicará pela segunda vez no general Mourão o corretivo de exonerá-lo do cargo ocupado e designá-lo para outro, na esperança de que finalmente aprenda que em boca fechada não entra mosca.

Em 2015, ele perdeu o Comando Militar do Sul e foi encostado numa função burocrática em Brasília; agora, irá para outra. Não muda muita coisa, mas representa uma reprovação explícita a Mourão e às pregações golpistas na caserna.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA: GOLDFINGER PALOCCI E BRANCALEONE MOURÃO.

A nova edição da revista (?) veja traz uma matéria-de-capa que me fez lembrar a velha frase do folclore futebolístico, atribuída ao técnico Otto Glória: "Quando ganho, chamam-me de bestial; quando perco, dizem que sou uma besta".

Pois é, Antonio Goldfinger Palocci estaria prometendo ao Ministério Público que, se este lhe conceder os privilégios de delator premiado, sustentará que o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu ao PT US$ 1 milhão para financiar a campanha presidencial de Lula em 2002.

Não há por que descrermos da intenção de Palocci: já fez tudo que podia para queimar o filme de Lula no que se refere às ligações perigosas com a Odebrecht. Por que não se dispor a uma alcaguetagem mais bombástica ainda, em troca de que finalmente lhe abram a porta da gaiola?

Noves fora, se Palocci conseguir uma mísera prova consistente de que tal doação existiu mesmo (*), estará criado um fato político bestial, que pode justificar inclusive a cassação do registro do PT.

Se ficar tudo no blablablá, Palocci sairá do episódio mais desgastado ainda, seja por ter desempenhado o papel de uma besta quadrada, seja por haver tentado fazer todos nós de bestas.

*  *  *
Até quando, oh general Antonio Hamilton Mourão, abusarás da nossa paciência? Nem Catilina, apesar da exasperação que causava em Cícero, conseguia encher tanto o saco dos seus contemporâneos...

Às vésperas de trocar a farda pelo pijama, o que fará no próximo dia 31 de março (escolheu a data a dedo!), o Mourão da vez novamente se deu a incontinências verbais que configuram clara insubmissão contra o presidente da República, que é também o comandante supremo das Forças Armadas; e emitiu opiniões inadmissíveis para qualquer militar na ativa.
O pregador de uma nova temporada de atrocidades...

Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada.

Sobre Temer, o incrível general Brancaleone disse:
"Nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato".
E disparou também contra Lula, afirmando que, como "sobrevivente ao mensalão, ele achou que podia tudo"; como consequência, "as comportas foram abertas do lado da incompetência, da má gestão e da corrupção".

Além, é claro, de novamente rasgar seda para a ditadura de 1964/85, pregando uma nova quartelada.
...e quem o convidou para a hora da saudade das trevas

De resto, para que não restasse nenhuma dúvida a respeito das abominações que defende, ele deitou sua falação no Clube do Exército, em Brasília, ao qual compareceu como convidado... das viúvas e remanescentes da ditadura agrupados no movimento  Terrorismo Nunca Mais!!! Em comparação com os fanáticos ultra-direitistas do Ternuma, até Átila, Vlad Dracul e Gengis Khan eram cavalheiros sofisticados e comedidos...

São dois perdidos numa noite suja. Um que se desgarrou de sua turma, entrou em parafuso moral e chafurda na mais absoluta abjeção; e o outro que se desgarrou do seu tempo na vã tentativa de fazer as rodas da História girarem para trás, pois seu ambiente mental é o de um passado medonho e repulsivo que hoje só tem lugar na lixeira da História.

* Vale acrescentar uma informação posterior: o Élio Gaspari, em sua coluna de 10/12/2017, lembrou um agradecimento de Lula a Gaddafi, em dezembro de 2003, durante visita a Trípoli: "Hoje, como presidente da República do Brasil, jamais esqueci os amigos que eram meus amigos quando eu ainda não era presidente da República".


terça-feira, 29 de maio de 2012

A "FOLHA" VIRA PORTA-VOZ DO TERNUMA E QUASE NINGUÉM DENUNCIA?!

Agora ficou assim.
Antes era assim.
Tudo como dantes no quartel de Abrantes: 
  • o jornal da  ditabranda  publica em sua edição dominical uma peça de propaganda enganosa e vil travestida de notícia (vide aqui), desta vez atuando descaradamente como porta-voz dos piores remanescentes da repressão ditatorial;
  • eu lanço um protesto consistente e veemente (vide  aqui), mas poucos dos nossos espaços virtuais tocam no assunto, como se minimizar a repercussão dos posicionamentos de um adversário pertencente ao campo da esquerda fosse mais importante do que combater as maquinações dos inimigos do campo da direita; e
  • o filósofo Vladimir Safatle é ñovamente a voz solitária que expõe as falácias da Folha de S. Paulo nas próprias páginas da Folha de S. Paulo.
Lamentando profundamente as inaceitáveis e indesculpáveis omissões, dou o merecido destaque ao texto de Safatle, que reproduzo na íntegra, até por representar um ato de dignidade e coragem. Que morram de vergonha os que, mesmo sem o risco de perderem tribunas importantes, não expressaram seu repúdio à ralé fascista!

A CONTA DOS MORTOS

No último domingo, esta Folha publicou reportagem a respeito do número de mortos resultantes de ações da luta armada contra a ditadura militar ('Para militares, Estado combatia o terrorismo', 'Poder', 27/5).

A reportagem em questão tem sua importância por trazer mais informações que permitem aos leitores tirar suas conclusões a respeito daquele momento sombrio da história brasileira. No entanto ela peca por aquilo que não diz.

Baseando-se nos números de um site de militares defensores da ditadura, o texto lembra como membros da luta armada mataram, além de militares, 'bancários, motoristas de táxis, donas de casa e empresários'. Não é difícil perceber o esforço do jornalista em induzir a indignação a respeito de tais ações contra 'vítimas particularmente vulneráveis', como sentinelas 'parados à frente dos quartéis'.

Em uma reportagem como essa, seria importante lembrar que os membros da luta armada que se envolveram em tais mortes foram julgados, condenados e punidos. Eles nunca foram objeto de anistia.

A Lei da Anistia não cobria tais crimes. Por isso eles ficaram na cadeia depois de 1979, sendo posteriormente agraciados com redução de pena. Sem essa informação, dá-se a impressão de que o destino desses indivíduos foi o mesmo do dos torturadores.

Segundo, seria bom lembrar que 'terrorismo' significa 'atos indiscriminados de violência contra populações civis'. Nesse sentido, as ações descritas da luta armada não podem ser compreendidas como 'terrorismo', já que a própria reportagem reconhece que as vítimas civis não eram os alvos.

Mesmo a ação no aeroporto de Guararapes não era terrorismo, mas um 'tiranicídio', que, infelizmente, errou de alvo. Vale aqui lembrar que, no interior da tradição liberal (sim, da tradição liberal), um 'tiranicídio' é algo completamente legítimo, a não ser que queimemos o 'Segundo Tratado sobre o Governo', do 'terrorista' John Locke.

Quando a Comissão da Verdade foi instalada, era de esperar lermos reportagens sobre as empresas que financiaram aparatos de tortura e crimes contra a humanidade, os centros de assassinatos ligados às Forças Armadas, entrevistas com os jovens que organizam atualmente atos de repúdio contra torturadores, crianças que foram sequestradas de pais guerrilheiros assassinados.

No entanto há uma certa propensão para darmos voz a torturadores que se autovangloriam como 'defensores da pátria contra a ameaça comunista' e 'fatos' que comprovam a teoria dos dois demônios, onde os crimes da ditadura se anulam quando comparados aos crimes da luta armada.

domingo, 27 de maio de 2012

A "FOLHA" AGORA É A VERSÃO IMPRESSA DO TERNUMA

As aparências enganam: esta NÃO
é a redação da Folha de S. Paulo...
Os remanescentes da bestial repressão da ditadura militar e os discípulos que eles formaram no culto aos conceitos e valores totalitários têm amplitude de atuação bem maior a partir deste domingo (27), quando a rede de divulgadores de suas difamações, calúnias, injúrias e pregações golpistas passou a contar com a participação explícita da Folha de S. Paulo.

O marco inicial desta nova fase em que o jornal da  ditabranda  finalmente saiu do armário é a peça de propaganda enganosa intitulada Para militares, Estado combatia o terrorismo (pedófilos, sádicos, assassinos seriais, coprófagos e que tais podem acessá-la aqui --o Ministério da Saúde Mental adverte que a exposição prolongada causa fascistização).

As aparências enganam: esta
edição NÃO é dos dias atuais
Nela está exposta a racionália falaciosa que os ditadores e seus esbirros utilizam há décadas para tentarem justificar seus crimes contra a humanidade, não negando as torturas, assassinatos (incluindo execuções de prisioneiros indefesos a sangue frio), estupros, ocultação de cadáveres e outras atrocidades fartamente documentadas, mas colocando no mesmo plano os atos cometidos pelos que, em condições de extrema inferioridade de forças, confrontavam o despotismo.

E, de quebra, os leitores são convidados a clicarem no endereço eletrônico da matriz, para obterem mais do mesmo:
"A lista mais completa das pessoas mortas pela esquerda armada está no site do grupo Terrorismo Nunca Mais (www.ternuma.com.br).
É um grupo obviamente engajado, como ele se define: 'Um punhado de democratas civis e militares inconformados com a omissão das autoridades legais e indignados com a desfaçatez dos esquerdistas revanchistas'".
As aparências enganam: este AINDA
não é o mais novo editor da Folha
Seria cômico, se não fosse trágico: o autoproclamado maior jornal do País abre suas páginas para os herdeiros de Adolf Hitler e Vlad Dracul se proclamarem democratas!!!

Mas, no caso do Grupo Folha, trata-se apenas de uma volta às origens: no auge do terrorismo de estado no Brasil, não só cedia viaturas para camuflarem o serviço sujo da repressão, como até facilitava o sequestro dos jornalístas da empresa (ao contrário da família proprietária de O Estado de S. Paulo, que ajudou a golpear as instituições em 1964 mas nunca permitiu que seus profissionais fossem caçados pelos torturadores no ambiente de trabalho).

A Folha mudou um pouco a linha editorial no governo do ditador Geisel por orientação do próprio Golbery do Couto e Silva, que capitaneava a  abertura lenta, gladual e segura  do regime de exceção.

Mas, a nostalgia dos velhos tempos tem batido tão forte nos últimos anos que a Folha não resistiu: arrancou a pele de cordeiro e está reassumindo sua monstruosidade intrínseca.

Aguarda-se para os próximos dias a confirmação de Carlos Alberto Brilhante Ustra como seu novo secretário de redação ou editor de Poder...

domingo, 4 de março de 2012

DOI-CODI E TERNUMA MARCAM PRESENÇA NO "MANIFESTO BRILHANTE USTRA"

Matando as saudades do
DOI-Codi: o chefão de SP...
O site do único torturador declarado como tal pela Justiça brasileira acaba de colocar no ar uma relação atualizada de signatários do papelucho pomposamente intitulado de Alerta à Nação, mas que eu preferi batizar com o nome do seu grande inspirador, divulgador e provável autor:  Manifesto Brilhante Ustra.

Agora, o recenseamento de remanescentes e de  viúvas  da ditadura, mais os cuervos  por ela criados, abarca 61 generais, 1 desembargador, 258  coronéis, 55 tenentes-coronéis, 11  majores, 17 capitães, 20 tenentes, 15 subtenentes, 15 sargentos, 2 cabos, 1 soldado e 191 civis (provavelmente com expressiva participação do Opus Dei e da TFP, embora não constem os nomes do Geraldo Alckmin, do Ives Gandra Martins e do João Grandino Rodas).

Duas inclusões significativas na lista: o general Valmir Fonseca Azevedo Pereira, presidente do Ternuma, entidade que dispensa apresentações; e o general Maynard Marques de Santa Rosa, outro veterano do DOI-Codi, merecidamente afastado do serviço ativo em 2010.

O último personagem aparece nas relações de antigos torturadores como integrante da 2ª Seção (Inteligência) do Regimento de Obuses, requisitado para a equipe de buscas do DOI-Codi-RJ em 1971/72. E andou frequentando o noticiário como um encrenqueiro  de caderneta:
se reencontrou com um  bom
companheiro 
do RJ.
  • em 2007 criticou a conduta do Governo Lula na demarcação da reserva indígena Raposa Serra do Sol, em Roraima;
  • em 2009, juntamente com dois outros generais linha-dura, combateu o novo organograma das Forças Armadas, alegando que afastava os militares do poder; e
  • em fevereiro/2010, qualificou a Comissão Nacional da Verdade de "Comissão da Calúnia" num e-mail que vazou para a imprensa ou foi nela  plantado.
As duas primeiras indisciplinas saíram relativamente baratas, mas a terceira lhe acarretou a humilhante exoneração do Departamento-Geral de Pessoal do Exército, para encerrar a carreira "indo fazer nada no gabinete do comandante até 31 de março, quando cai na reserva", conforme escreveu na época a colunista Eliane Cantanhêde.

Para quem quiser refrescar a memória sobre ele, eis um interessante artigo: General Maynard diz que Dilma assaltou, torturou e matou (clique para abrir)

Dize-me com quem andas...

segunda-feira, 27 de junho de 2011

BAÚ DO CELSÃO: PROPAGANDA ENGANOSA E PREGAÇÕES GOLPISTAS NA WEB

Joseph Goebbels, o ministro da
Propaganda de Hitler, fez escola...
Divulgado em 28/06/2007, este artigo -- no qual contei 
com a colaboração do ótimo pesquisador que  é
Ismar C. de Souza --  foi a 1ª denúncia
pública mais consistente
da ação totalitária dos
sites de extrema
direita.


Eis duas maneiras totalmente distintas de relatar a morte de um policial durante o assalto simultâneo a dois bancos por parte da Vanguarda Popular Revolucionária:
Na enésima hora Lamarca resolve participar, temeroso do que poderia ocorrer com tantos calouros estreando de uma só vez. Estaciona o carro e fica bebendo café num bar, a 50 metros de distância dos bancos, com seu .38 cano longo de competição guardado na bolsa capanga.
Um transeunte percebe o que está acontecendo e alerta um guarda de trânsito. Inexperiente, o policial saca a arma e vai para a porta do banco, pronto para atirar no primeiro assaltante que sair.
Lamarca retira o revólver da bolsa e atira daquela distância mesmo, pois não tem tempo para posicionar-se melhor. Pensa ter errado o primeiro tiro e dispara novamente. Crava uma bala na testa e outra na nuca do guarda.
Depois, joga o revólver no carro e pega um fuzil. Com uma rajada para o alto, pára o trânsito e facilita a fuga dos companheiros. E, mandando os motoristas continuarem imóveis, vai calmamente até seu carro e dá a partida. (Celso Lungaretti, Náufrago da Utopia, Geração Editorial, 2005)
“Na tarde de 09 de maio, Lamarca comandou o assalto simultâneo aos bancos Federal Itaú Sul-Americano e Mercantil de São Paulo, na Rua Piratininga, bairro da Moóca, cujo gerente, Norberto Draconetti, foi esfaqueado e o guarda-civil, Orlando Pinto Saraiva, morto com dois tiros, um na nuca e outro na testa, disparados por Lamarca, que se encontrava escondido atrás de uma banca de jornais. No final da ação, disparou uma rajada de metralhadora para o ar, como a marcar, ruidosa e pomposamente, o seu primeiro assalto a banco e o seu primeiro assassinato.” (site Terrorismo Nunca Mais, Lamarca: a Trajetória de um Desertor).
O totalitarismo nunca morre: temos de
continuar esmagando os ovos da serpente
Tal acontecimento foi notícia de primeira página nos jornais de todo o País em 1969. No entanto, durante a recente polêmica sobre a anistia do ex-guerrilheiro Carlos Lamarca, muitos veículos da grande imprensa, desconsiderando a informação correta facilmente encontrável em seus próprios arquivos, encamparam a insinuação do Ternuma, que omite o fato de terem se tratado de dois disparos a enorme distância.

A impressão que o texto capcioso do site de extrema-direita transmite é a de que Lamarca sai de trás de uma banca de jornal e fulmina o policial com dois tiros à queima-roupa. E a mídia acaba de embarcar nessa canoa furada: a menção ao “tiro na nuca” foi generalizada; a referência ao “tiro de longe”, praticamente inexistente.

Curioso, recorri aos sites de busca, atrás das fontes que induziram redatores e editorialistas ao erro ou lhes deram inspiração para agirem com má fé. Não precisei procurar muito. Eram, evidentemente, os Ternuma, Usina de Letras, Mídia Sem Máscara e A Verdade Sufocada da vida, que colocaram no ar um sem-número de textos protestando contra o que apresentaram como uma afronta do Governo Federal aos militares, convenientemente omitindo que tanto a anistia quanto a promoção póstuma de Lamarca a coronel já haviam sido decididas pela Justiça.

A propaganda enganosa chegou ao ápice no texto Atentado ao QG do II Exército, no qual o Ternuma faz uma comparação entre as trajetórias do recruta que morreu nessa ação da VPR e Lamarca, com toque melodramáticos do tipo “o destino dos dois vai se cruzar tragicamente”.

Para sustentar esse enredo folhetinesco, não hesita em mudar a cronologia dos acontecimentos. Logo na primeira linha, diz que “em 1969, o jovem Mário Kosel Filho, conhecido em sua casa como ‘Kuka’, é convocado para servir à Pátria e defendê-la (1)”. Só se for o fantasma do pobre Kuka, já que o próprio morrera em junho de 1968!

Além disto, o boato de que tal atentado teria sido orquestrado por Lamarca, trombeteado até hoje pela direita troglodita, não sobreviveu à reconstituição da história do período, que só pôde ser empreendida com metodologia científica depois do fim da ditadura militar, quando provas e depoimentos ficaram, enfim, disponíveis.

Os sites ultradireitistas, que apóiam o Cabo
Anselmo, chamam a anistia federal de  farra
Já se sabe que Lamarca, então ainda servindo como capitão no 4º RI, só passou a interessar-se pela VPR ao tomar conhecimento de que fora autora do roubo de armas de um hospital militar, quatro dias antes do episódio do QG.

Foi quando ele resolveu procurar contato com a VPR. Supor que, em tão curto espaço de tempo, ele conseguisse alcançar uma organização clandestina, convencê-la de que não era um espião inimigo e ser admitido no planejamento de uma ação armada é simplesmente inadmissível para quem conhece as práticas e as regras de segurança dos grupos guerrilheiros.

Lamarca ainda passaria meses indeciso entre a VPR e a ALN, só optando pela primeira no final do ano. E seu ingresso no Comando da VPR aconteceria em abril de 1969. Então, as decisões relativas àquela ação do QG devem, isto sim, ser imputadas aos comandantes da VPR em meados de 1968, principalmente o também falecido Onofre Pinto. Mas, para quem continua até hoje obcecado em satanizar Lamarca, o que importa a verdade histórica?

Aliás, há alguns anos tentei fazer o Ternuma corrigir uma dessas fantasias tendenciosas que coloca no ar. No artigo  O fracassado seqüestro do cônsul dos EUA, um tal F. Dumont afirma que, na iminência de seqüestrar o cônsul Curtis Carly Cutter, a VPR teria me incumbido de, antecipadamente, redigir um comunicado informando que o diplomata, interrogado pelos militantes, admitira sua condição de agente da CIA e a cumplicidade da espionagem estadunidense com a repressão da ditadura. Ou seja, atribuíram-me a participação numa farsa inconcebível tanto para mim quanto para a VPR.

Depois de um grande esforço de memória, consegui me lembrar de que o Juarez Guimarães de Brito realmente me pedira para escrever o texto do panfleto a ser deixado no local de uma não especificada ação de seqüestro (que acabou não acontecendo), para explicar seu significado político: a troca do diplomata por companheiros que estavam sofrendo torturas atrozes e correndo o risco de serem executados. Mandei um e-mail pedindo que corrigissem aquele besteirol ou o tirassem do ar. Em vão, claro.

Então, é assim que os sites dos antigos torturadores e dos novos integralistas tratam os acontecimentos dos  anos de chumbo, infestando a Internet com proselitismo na linha de Goebbels ("uma mentira dita mil vezes torna-se uma verdade"): as informações extraídas dos famigerados Inquéritos Policiais-Militares e da documentação secreta cujo paradeiro o Governo Lula diz desconhecer são misturadas a falsidades e interpretadas da forma mais distorcida possível, para servir aos objetivos propagandísticos da extrema-direita no presente.

"MILITARES NO PODER JÁ!"

E quais são esses objetivos?

O principal deles é a acumulação de forças para um novo golpe militar, pregado ostensivamente por entidades como o Grupo Guararapes e o Partido Vergonha na Cara.

O primeiro, que faz proselitismo no seio das Forças Armadas desde 1991, acaba de lançar esta sediciosa conclamação Às Forças Armadas do Brasil, amplamente divulgada nos sites, blogs e comunidades dos radicais de direita:
A pergunta que não quer calar: Lamarca desertou do
Exército ou foi o Exército que desertou da democracia?
 Não temos governo. A anarquia inicia-se dentro do Gabinete da Presidência da República, onde o ocupante maior usa a mentira para se defender. Não é um estadista e sim um medíocre. Um fantoche nas mãos daqueles que desejam implantar um regime de força no País. O caso Lamarca, que fere o pundonor e a honra militar, é de sua inteira responsabilidade, como o chefe maior (...), e que acoberta seu Ministro da Justiça, um conhecido marxista, leninista e gransmicista.
O Presidente Lula não merece mais o nosso respeito (...). Não o consideramos nosso chefe, pois ele não respeita nem cumpre a Lei, não merecendo nossa subordinação(...).
O Grupo Guararapes, em defesa da honra da Nação brasileira, espera que as Forças Armadas revertam tal afronta. A honra ou a morte!
Já o Partido Vergonha na Cara, cujos integrantes atuam principalmente no Orkut e usam narizes de palhaço em atos públicos, acaba de divulgar uma Carta Aberta aos Militares (2), pedindo que “as Forças Armadas cumpram o seu papel histórico e constitucional de proteger o Brasil de comunistas e assaltantes e criminosos que ameaçam o nosso país”. E termina seu manifesto com a exortação de “Militares no poder já!”.

Mais explícito, impossível.
  1.  na verdade, dizia. Depois que divulguei meu artigo, eles corrigiram o erro...
  2.  então disponibilizada nas Geocities do Google, tal carta não é mais encontrada na web.
É DEPLORÁVEL QUE ESTA INFÂMIA CONTINUE NO AR!

sexta-feira, 19 de março de 2010

LAMARCA É DIFAMADO NO YOUTUBE

Mitos e Lendas Sobre Carlos Lamarca é o título de uma montagem extremamente injuriosa e difamatória, que foi vista quase 22 mil vezes, desde que a postaram há dois anos no YouTube. Tem oito minutos de duração.

Conscientes de que cometiam um delito, os autores não assumiram a "obra". É estarrecedor que se possa, anonimamente, assacar calúnias tão graves contra um morto. A internet continua uma terra sem lei, infestada de fichas falsas e versões falaciosas. Até quando?

Mas, quem a postou foi tolo a ponto de acrescentar, na sinopse introdutória, uma recomendação que equivale a uma assinatura: "Conheça mais sobre sua trajetória em www.ternuma.com.br".

Está repleta de sórdidas mentiras, como a de que Lamarca enviou sua família a Cuba, não para colocá-la a salvo da sanha dos militares torturadores quando se tornasse conhecida sua adesão aos movimentos de resistência, mas em razão da relação amorosa que já estaria mantendo com Iara Iavelberg.

Esta foi, na verdade, iniciada meio ano depois, quando ele já militava na clandestinidade, sendo um dos líderes revolucionários mais perseguidos pela ditadura.

A infamia dos fascistas virtuais é não só desmascarada pelos relatos dos sobreviventes, como se choca com a própria sistemática da luta armada: tal envolvimento representaria, em 1968, um altíssimo risco de segurança, sendo ele um militar na ativa e ela uma resistente cuja identidade a repressão já conhecia.


Vale acrescentar que manter vida dupla conflitava tanto com a moral revolucionária quanto com o espírito militar, que marcava muito a personalidade de Lamarca.

Ele, inclusive, hesitou durante três meses antes de ceder à atração que surgira entre ambos, o que só veio a acontecer em meados de 1969. E, no final do ano, quando participamos juntos da equipe precursora da instalação de uma escola de guerrilhas em Registro (SP), ainda sentia-se culpado e pesaroso, chegando a chorar quando recebia cartas da família.

Outra invencionice ignóbil é a de que ele teria castrado o tenente Alberto Mendes Jr. e o forçado a engolir os órgãos genitais. Esta patranha fazia parte da propaganda enganosa que os serviços de guerra psicológica das Forças Armadas disseminavam na época, sem comprovação de espécie alguma. Puro Goebbels: martelar tanto uma mentira que ela acabasse passando por verdade.

E quem conhece, por pouco que seja, a política do período, morrerá de rir com a afirmação de que Lamarca estava a soldo de Cuba e da União Soviética.

Não só seria a forma mais arriscada do mundo para alguém ganhar dinheiro, como a URSS era inimiga figadal das guerrilhas latino-americanas: os partidos comunistas sob sua orientação boicotaram a luta de Guevara na Bolívia e tudo fizeram para atrapalhar os planos de Lamarca, inclusive denunciando-o como agente da CIA em seu jornal.

Ridículo extremo é insistirem em que Lamarca teria sido morto em combate, quando já não existe dúvida nenhuma, nem de historiadores idôneos nem do Estado brasileiro, quanto ao fato de ele haver sido executado depois de rendido (a exemplo do que aconteceria com a maioria dos guerrilheiros do Araguaia).

Não só o Ministério Público Federal tem obrigação de apurar o crime que está sendo perpetrado contra a verdade histórica e a memória de um herói nacional, como Chico Buarque e Milton Nascimento não podem consentir que uma imundície dessas utilize na trilha musical suas gravações de "Apesar de Você" e "Cálice".

Raul Seixas, por sua vez, deve estar revirando na cova, face a uso tão repulsivo de sua interpretação de "Era um garoto que como eu amava os Beatles e os Rolling Stones".
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