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quarta-feira, 10 de julho de 2024

MACRON SE RECUSA A RECONHECER DERROTA E GANHA TEMPO



 Rui Martins

Antes de partir para Washington, onde participa de uma reunião da OTAN, o presidente francês Emmanuel Macron deixou uma carta dirigida a todos os franceses, na qual pede aos eleitos no último domingo para se reunirem em torno dos valores republicanos, com ideias e programas acima de suas ambições pessoais, numa crítica velada às exigências do líder da França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon.

Só depois de encontrado esse denominador comum, Macron tratará da nomeação do primeiro-ministro, "isso supõe se deixar passar um pouco de tempo às forças políticas para construírem compromissos com serenidade e respeito". Enquanto isso, permanecerá, não se sabe por quanto tempo, o atual governo de Gabriel Atall, cujo partido, o mesmo do presidente, ficou em segundo lugar nas eleições. Essa carta já provocou uma série de protestos, que poderão ser seguidos de convocações para manifestações populares.

Ao mesmo tempo, temerosos de que os deputados da França Insubmissa se aproveitem do clima para assumir a direção da Nova Frente Popular, os deputados ecologistas e socialistas programam se reunir para fazer face.

Existem lições a tirar para a esquerda brasileira da reviravolta nas eleições legislativas francesas de domingo?

Talvez a mais importante seja a de se evitar o extremismo, provocador de divisões e de medos. Ao contrário dos entusiasmos mostrados por certas redes sociais brasileiras, o líder do partido LFI ou França Insubmissa, Jean Luc Mélenchon, considerado de extrema esquerda, não é um aglutinador de forças contra a extrema direita e nem foi o único chefe do movimento de união dos partidos de esquerda e direita.

Bem ao contrário! Mélenchon pode ser considerado como um dos inspiradores da vitoriosa Nova Frente Popular, porém, ao mesmo tempo, suas declarações extremas e egocêntricas fizeram muitos eleitores socialistas e de direita estarem dispostos a votar a contragosto na extrema-direita de Marine Le Pen.

O caso mais comentado foi o do "caçador de nazistas" Serge Klarsfeld que, na hipótese de uma final entre a extrema direita e extrema-esquerda, preferiria votar no partido de Le Pen e não seguir o voto nulo, indicado pelas instituições judaicas. Essa declaração provocou escândalo pois seu pai, Arno Klarsfeld, judeu, morreu em Auschwitz, para onde tinha sido deportado da França.

A razão dessa estranha opção foram as declarações de Jean Luc Mélenchon, consideradas antissemitas pelas forças conservadoras da França, sem ter declarado terrorista o ataque do 7 de outubro por parte do Hamas. Embora Mélenchon não seja um aglutinador, tanto que a maioria dos deputados eleitos pela Nova Frente Popular rejeita sua indicação para primeiro-ministro, uma parte da esquerda brasileira vê nele um líder a ser imitado.

Pelo menos um líder do PT, Paulo Paim, e uma líder do PSB, Lídice da Mata, ponderam pela moderação ao comentarem a vitória da esquerda na França. Nada a ver com o líder do que se poderia chamar de extrema esquerda brasileira, Rui Costa Pimenta, do Partido da Causa Operária que, embora sem a mesma verve seria a versão nacional do tribuno populista Mélenchon. Pimenta foi a favor da invasão da Ucrânia pela Rússia de Putin e aplaudiu o terrorismo do Hamas no 7 de outubro.

A lição das legislativas antecipadas na França para a esquerda brasileira poderia ser a de não encampar a linguagem extremada de um Mélenchon, como bem sintetiza Paulo Paim "precisamos entender a importância de trabalhar uma frente ampla de centro-esquerda porque senão, daqui dois anos, poderemos ter um retrocesso ainda maior no parlamento brasileiro em relação à realidade de hoje".

Talvez Celso Amorim e o presidente Lula devessem analisar como o discurso provocativo de Mélenchon estava assustando os franceses e os levando ao RN da extrema-direita, enquanto a linguagem conciliadora de Raphael Glucksmann funcionava como calmante.

O jornal Le Monde conta como toda a Europa teve um alívio diante dos primeiros resultados das eleições francesas, com exceção da italiana Melloni, do húngaro Orban e do russo Putin. O ambivalente Putin que consegue ser apoiado pela extrema direita de Orban e por países do Sul Global e por alguns países e teocracias do Brics.

Para terminar, uma coincidência - na França, a dinastia da extrema-direita se chama Le Pen; no Brasil, a extrema direita é também uma dinastia familiar, a de Bolsonaro. (por Rui Martins)

segunda-feira, 10 de abril de 2023

O REI ESTÁ NU!

 

Na fábula do dinamarquês Hans Christian Andersen, um rei ditatorial e vaidoso se admite fantasiosamente vestido com uma roupa deslumbrante descrita por seu alfaiate charlatão, ao que os seus áulicos bajuladores confirmam a fantasia como sendo real e atestam a beleza da vestimenta inexistente. 

Mas um menino descompromissado com o comportamento real e de seu séquito, ao ver o Rei afirma: o Rei está nu! Então, o confronto da realidade com a mentira desnuda a farsa.  

A metáfora da conhecida fábula cai como uma luva para o depoimento do ex-Presidente Boçalnaro, o ignaro, na Polícia Federal, após a sua esvaziada chegada ao Brasil vindo dos Estados Unidos como um derrotado fujão.  

Primeiro ele afirmou: não pedi e nem recebi!, para depois de descoberto o recebimento de uma das três caixas com diamantes valiosos em seu poder, e acossado pelo Tribunal de Contas da União para a devolução de um presente pretensamente de natureza diplomática, ter que devolvê-lo acabrunhado.  

A ex-primeira dama Michele também disse com ar de quem desconhece o fato: isso era tudo meu e eu não sabia?!

O ex-presidente tentou de todas as formas, por intermédio de gente orientada pela alta cúpula do seu (des)governo, retirar o pacote de joias mais valiosas, composto por colar de diamantes e outros badulaques preciosos, que somente foram retidos graças ao comportamento firme e criterioso do funcionário da alfândega aeroportuária após a detecção de tais preciosidades minerais na fila do nada a declarar pelo detector de metais.  

A tentativa de apropriação indébita das joias durou longo período e culminou com uma tentativa bisonha de um militar de baixa patente, sob as ordens de superiores e utilizando avião da Força Aérea Brasileira, de retirá-las das mãos da Receita Federal. 

Tal ato criminoso culminou num último gesto no apagar das luzes de sua opaca administração genocida e com o mandatário maior se preparando para a fuga sorrateira enquanto a sua turma ainda acreditava num golpe militar sob o clamor da volta da ditadura por grupos patéticos de embandeirados a desfilar nas portas dos quarteis e fazer continências para paredes e pneus.  

Indagado na PF, disse não se lembrar de quem e nem de quando foi avisado das joias e da apreensão destas pela Receita Federal, apesar do seu Ministro das Minas e Energia, Almirante Bento Albuquerque, ter afirmado logo após o incidente que ditas joias se referiam a um presente saudita para a primeira dama Michele. 

Perguntado por que teria agido de tal maneira após a evidente contradição de argumentos,  disse que tentou evitar um incidente diplomático constrangedor com o governo da Arábia Saudita.  

Ora, quem deveria estar constrangido era a Arábia  Saudita por ter dado - possivelmente sem protocolo, fato que está sendo apurado - presente tão valioso a um mandatário estrangeiro, com ares de presentes de usos pessoais, prática pouco usual nestes tipos de transições numa negociação entre os dois países.  

Quanto mais se apura a questão vê-se que para cada enxadada sai uma minhoca nova,  e para cada pena extraída aparece uma galinha inteira.  

O Brasil de Boçalnaro, o ignaro, conseguiu superar o beija-mão do ex-governador baiano Otavio Mangabeira ao Presidente dos Estados Unidos, General Dwight Eisenhower, vez que ele nunca foi tão parecido com a antiga submissão brasileira aos Estados Unidos, repetida agora quando o país foi recém-governado pela ultradireita brasileira saudosa do militarismo de triste memória. 

A similaridade com Donald Trump não é pura e mera coincidência, mas parte de um comportamento submisso a uma ordem ditatorial de direita que se conjectura mundialmente a partir do desespero pela autodestrutibilidade da lógica capitalista que se desintegra por dentro. Já não dá para prender comunista como culpado de tudo, mas a retórica maniqueísta continua.  

A negação da eficácia do isolamento das pessoas diante da propagação do vírus da covid-19, como forma de manutenção do fluxo econômico já depressivo desde antes por lá, foi o mesmo de cá, sendo que aqui se condenou a vacinação e se comprou cloroquina em quantidades e valores proibitivos, o que provocou a morte evitável de pelo menos 300 mil pessoas. 

A previsão de fraude eleitoral como antídoto para uma possível e previsível derrota eleitoral de lá, e que se confirmou, foi a mesma de cá: lá com o questionamento do voto pelo correio, por aqui com a afirmação fantasiosa de fraude nas urnas eletrônicas que elegeram grande número de seus apoiadores para governos estaduais e parlamento.

Após a derrota do destrumpelhado, por lá veio o 6 de janeiro e a invasão ao Capitólio com cinco mortes e um presidente tentando deixar as suas digitais do evento apagadas; por aqui, o 08 de janeiro, com o acumpliciamento do seu ex-Ministro da Justiça, então Secretário de Segurança do DF, ora preso e processado.  

Nunca fomos tão plagiadores do mal e submissos ao Tio Sam como neste (des)governo de triste memória que felizmente foi derrotado, apesar das evidentes manipulações do poder econômico e institucional nas eleições por ele praticado - sem que isto represente a nossa redenção sob Lula.  

 Diferentemente do que disse o guru da família Bolsonaro e de tantos outros terraplanistas - o charlatão de triste memória, Olavo de Carvalho, que afirmava haver uma conspiração comunista internacional -, devemos considerar existir um crescimento da direita em face da incapacidade de social-democracia de tornar palatável o capitalismo em fim de feira.  

Já agora na França cresce a popularidade da direita com Marine Le Pen, conforme divulgou o jornal francês Le Figaro, em face da decisão de Emmanuel Macron de aumentar a idade para a aposentadoria dos trabalhadores franceses como medida para minimizar o desequilíbrio do déficit crescente das contas previdenciárias. Algo similar ao ocorrido por aqui. 

Governar, atualmente, é administrar a escassez, e é por isto que Lula já se defronta com o empacamento da pretendida retomada do desenvolvimento econômico - leia-se mais capitalismo, pretensamente próspero - nos seus 100 dias de governo. 

Se Boçalnaro, o ignaro, perdeu credibilidade e prestígio como afirmam as pesquisas de opinião pública, e as demonstrações de seu isolamento do cenário político a que estamos observando dão provas disto, não significa estar a direita brasileira, historicamente influente e numerosa, morta e sepultada.  

O vácuo deste segmento conservador já está sendo ocupado por herdeiros do espólio boçalnarista, como se pode inferir das posições de Romeu Zema, governador de Minas Gerais, e Tarcísio Freitas, governador de São Paulo, que com discursos republicanos de relações com o governo Lula, e com acenos discretos ao antigo chefe, também pretende ocupar o espaço existente na liderança deste segmento político.   

Lula tenta se alçar à condição de estadista com a sua intervenção e participação nos BRICS, num mundo em que as lideranças dos países hegemônicos perdem prestígio interno por conta da crise capitalista. Mas a sua esperteza de político sagaz que usa as insígnias históricas do anticapitalismo, mas propõe o impossível desenvolvimento do dito cujo, tem fôlego curto. 

Atenção Lula! Não se trata aqui de pessimismo derrotista ou otimismo bobo, mas de realismo esperançoso -como diria Ariano Suassuna -, e com crença firme na possibilidade de superação dos nossos problemas sociais sob parâmetro anticapitalista de produção social e organização jurídica de base na sua essência definitiva, como solução unicamente possível de alternativa inafastável.  

E sem medo de ser feliz! (por Dalton Rosado)

domingo, 22 de outubro de 2017

DALTON ROSADO ÀS VOLTAS COM O ENIGMA: POR QUE OS TEMPOS MODERNOS SE TORNARAM TÃO REGRESSIVOS?

"As pessoas acham que o mundo é feito assim e se lhes dissermos que não é assim, cai-lhes o teto em cima
e talvez a nossa cabeça ao chão" (David C. Mitchell)

Que tempos estranhos estamos vivendo!

Contudo, ao analisarmos com mais profundidade a história social dos últimos séculos, concluímos que os cenários atuais, embora nos pareçam estranhos, não passam de uma reedição piorada de outros tempos vividos na trajetória sangrenta do capitalismo.

Hoje vemos o discurso xenófobo nacionalista calar nos corações e mentes de muitos que outrora levavam vidas confortáveis mas agora receiam ser atingidos pela labareda da pobreza que corrói os países periféricos do capitalismo.

Exemplo eloquente disto vem da culta Alemanha, com a ascensão do outrora proscrito partido nazista, de triste memória para a humanidade. Ele volta a ter assento no Reischstag, nome que se dá ao prédio do parlamento alemão, denominado de Bundstag.

O que dizer de um presidente dos Estados Unidos, democraticamente eleito (apesar de não haver tido a maioria dos votos), que tem a insensibilidade de dizer à mãe e à esposa de um dos 6 mil militares estadunidenses mortos em tempos recentes, a última coisa que as coitadas esperavam ouvir num momento tão doloroso?! Isto: "Lamento, mas ele sabia onde estava se metendo!”

Piores ainda do que os despautérios de Trump são suas medidas altamente nocivas à humanidade, como o corte de verbas de órgãos de controles ambientais e a retirada do país do acordo de Paris sobre as mutações do clima.
Alemanha: nazistas de hoje querem bisar pesadelo de ontem.

Como se admitir que figuras repulsivas como Jair Bolsonaro já seduzam muitos cidadão desavisados que andam à procura de um novo salvador da pátria, embora haja sido péssima a experiência com os exemplares antigos da mesma laia?!

Como aceitarmos o afrouxamento de leis que proíbem o trabalho escravo, unicamente para atender ao interesse mesquinho e desumano de empresários rurais movidos pela ganância exacerbada?!

Como se encarar como normal a liberação de áreas amazônicas para a exploração mineral e extração vegetal sem manuseio, mesmo sendo uma região cujo desmatamento sem controle constitui grave ameaça para o equilíbrio ecológico do nosso planeta?!

Como se explicar a volumosa participação de políticos no saque ao erário público brasileiro?! Como não nos indignarmos com o fato de todos os escândalos noticiados pela imprensa e todos os processos contra eles movidos não terem sido suficientes para evitar que continuassem mandando no país?!

Como não nos chocarmos com a possibilidade de que a França, berço do ideário republicano das liberdades democrático-burguesas, venha a ficar sob controle de líderes ascendentes como Marie Le Pen, anos luz à direita de Nicolas Sarkozy (embora este seja adepto de muitas ideias igualmente conservadoras) ?!

Como não se estarrecer com a barbárie terrorista de grupos como o Estado Islâmico, Al Queda, Boko Haram e outros que matam indiscriminadamente em nome de Deus?!
O bestial terrorismo islâmico não distingue civis de combatentes 

Como não se indignar com o avanço do crime organizado no Brasil, a ponto de já dar ordens de comportamento social em muitas localidades e de travar terríveis batalhas (seja contra criminosos concorrentes, seja contra os efetivos policiais e militares) em plena luz do dia, com armas modernas e poder de fogo devastador, indiferente à sorte dos moradores?!

Como se assistir passivamente às milhares de mortes (inclusive de crianças) nos mares que separam a Europa decadente dos migrantes fugidos de governos despóticos fundamentalistas e corruptos que grassam tanto na Ásia quanto na África?!

Como se crer que a economia brasileira viva momento de recuperação, quando a queda da inflação se deve muito mais à deflação causada pela perda do poder aquisitivo do povo do que pela normalidade das finanças públicas (que aponta déficit orçamentário de bilhões de reais e tem um crescimento pífio do PIB após anos de queda livre)?!

Como não ficar enojado diante da cortesia de políticos e da própria institucionalidade para com governos arrogantes do 1º mundo, como o da Itália, que insiste em atropelar as leis brasileiras em sua perseguição sem fim a um militante revolucionário de outrora, que hoje não passa de um escritor pacato e sexagenário escritor, pai de uma criança brasileira?!

Como conviver com uma renitente taxa de desemprego acima dos dois dígitos, que leva ao desespero (e muitas vezes à criminalidade, por falta de alternativa) mais de 13 milhões de cidadãos aptos ao trabalho e dois quais dependem outras dezenas de milhões de brasileiros?!
Emissão de dinheiro sem valor: consequências são devastadoras. 

Como se engolir a inexistência de discussão sobre temas que deveriam ser obrigatórios nos debates econômicos televisivos e acadêmicos (principalmente nestes últimos, mais adequados para a reflexão verdadeiramente científica, sem preconceitos ideológicos)?! 

Um dos temas dos quais os ditos cientistas políticos e os economistas graduados fogem como o diabo da cruz: a volumosa emissão e exportação de dinheiro sem valor válido (porque não advindo da produção de mercadorias) pelos Bancos Centrais dos Estados Unidos e União Europeia, causando a desintegração política e econômica dos países da periferia do capitalismo que não podem emitir moeda sem lastro sob pena de inflação corrosiva. 

As consequências últimas são as carnificinas desnorteadas e o recuo da civilização, conforme constata Robert Kurz no seu livro Dinheiro sem valor:
" ... depois de o dinheiro ter sofrido uma mutação, convertendo-se de sacrifício simbólico na objectualidade universal do valor no sistema do trabalho abstrato, o dinheiro sem valor, sobre esta base desvalorizada e dessubstancializada, faz agora regressar condições quase arcaicas que, no entanto, já não se inserem dentro de determinadas balizas, mas desembocam no quadro de carnificina desnorteada e num recuo da civilização. 
Kurz: revogam-se todos os elementos civilizacionais anteriores.
Se as metamorfoses do dinheiro, do sacrifício humano até a objetualidade simbólica de substituição, constituíram um processo de civilização parcial no terreno de relações de fetiche não ultrapassadas, o fetiche do capital pôs em marcha um movimento de sacrifício reificado cujo resultado acaba por revogar todos os elementos civilizacionais da história humana anterior. Os sanguinários sacerdotes dos astecas eram inofensivos e amigáveis em comparação com os burocratas do sacrifício ao fetiche do capital global em seu limite interno histórico".  
Seriam infindáveis os exemplos deste quadro dantesco.

Mas, o pior é que há um vazio de projetos sociais que sirvam como referência para a superação do atual modelo capitalista exaurido. É isto que está provocando a reedição de práticas político-sociais abomináveis, que já pareciam superadas ou a caminho de o serem.

A direita quer que o seu discurso conservador e moralista, mais apropriado para o libreto de uma ópera bufa, encontre guarida nas mentes de cidadãos inconformados com a penúria na economia e o mar de lama nos poderes da República, de modo a que possa assumir com legitimidade eleitoral o poder político que lhe dê sustentação e meios de defesa dos seus próprios fundamentos contraditórios: o capitalismo decadente e ecologicamente suicida.
Salvadores da pátria = retrocesso civilizatório chocante

Enquanto o Direito tenta retomar o seu poderio politico de afirmação do capitalismo, no exato momento de seu limite histórico, a esquerda está perdida num discurso de manutenção político-institucional do Estado e das categorias capitalistas (trabalho abstrato, trabalhador, dinheiro, mercadoria, mercado, política, democracia, socialismo). 

Ela tenta humanizar o que é desumano por natureza, ao esforçar-se para viabilizar a justa distribuição do dinheiro, sem compreender a impossibilidade matemática e social de tal desiderato, por desconhecimento dos ensinamentos de Marx esotérico (que insiste em desconhecer, ainda que se afirme marxista). E isto quando não está deliberadamente usando um discurso humanista para encobrir interesses políticos menores e mesquinhos.      

O quadro brasileiro politico-eleitoral que se avizinha, infelizmente, divide-se entre um modelo de ultradireita que se arvora em salvadora da pátria e que embute um retrocesso civilizatório chocante; e uma esquerda conciliadora com o capital, que busca uma convivência harmoniosa com os detentores do poder econômico e acredita que deles possa obter a concessão de algumas benesses sociais que não levam a nada (ou pior ainda, que levam tal esquerda atenuada, cuja corrente mais emblemática é a do lulismo petista, ao descrédito total, por força da inviabilidade econômica do próprio capitalismo).

A nós somente resta a paciente e incansável insistência numa saída que desconstrua as categorias capitalistas, para que, sobre os seus escombros, possamos construir uma sociedade verdadeiramente emancipada. 

Caso contrário, por ação ou omissão, estaremos contribuindo para o agravamento do recuo civilizatório ora em curso.  (por Dalton Rosado)   


Estes tempos modernos eram ruins. Os atuais são muito piores.
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