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sexta-feira, 16 de agosto de 2024

TIROTEIO CONTRA ALEXANDRE DE MORAES É RECADO PARA LULA: OU SE ENQUADRA OU BOLSONARO VOLTA AO PARÉO

 Nestes últimos dias vieram à tona vazamentos a respeito de ações questionáveis por parte de Alexandre de Moraes em sua atuação à frente do TSE -Tribunal Superior Eleitoral. Forçando a mão em alguns momentos, não cumprindo o rito jurídico em outros e mesmo apelando à imaginação, as revelações mostram algo de conhecimento até das pedras da Praça dos Três Poderes: acima de tudo, as ações contra Bolsonaro e sua turma eram políticas, visando sua neutralização.

Na linguagem empolada da esquerda liberal brasileira, com o lulopetismo à frente, tais ações visavam salvar a democracia. Na linguagem concreta da política revolucionária, é simplesmente a justiça como ela é, com o perdão da cacofonia. A justiça não é algo neutro dentro da realidade social, mas é antes parte intrínseca da dominação burguesa, estrutura do Estado para a hegemonia de classe, em defesa da propriedade privada e do capital. Assim, os interesses da burguesia e de suas frações estão sempre ali presentes, se expressando ora de um modo, ora de outro. 

Alexandre de Moraes sempre foi o vetor de expressão dos interesses da burguesia, particularmente se ligando aos setores conservadores da política de São Paulo, seja integrando o governo de Gilberto Kassab na prefeitura de São Paulo, seja enquanto secretário de segurança pública de Geraldo Alckmin. Nesse posto, inclusive, teve atuação importante na repressão às ocupações estudantis de escolas ocorridas no estado e na leniência às manifestações direitistas em prol do impeachment de Dilma. Pelo seu serviço, foi guindado ao posto de ministro da justiça do governo Temer, de onde acabou guindado ao STF.

Alexandre de Moraes no TSE.

No obscuro acordo político pactuado entre lulismo, tucanato decadente e setores da burguesia que retirou Lula da cadeia e garantiu seu retorno à presidência, Moraes foi figura de proa, cumprindo a função de Xerife-Mor, homem todo poderoso capaz de iniciar processos ex officio, mandar prender e mandar soltar, sempre em decisões monocráticas posteriormente, em alguns casos, submetidas para serem referendadas por seus colegas. É preciso dizer franca e verdadeiramente que o inquérito das Fake News não passa de uma Lava Jato de sinal invertido, dessa vez sem sequer a participação do Ministério Público, tornado supérfluo. 

O objetivo foi e é conter o bolsonarismo e seu líder, os quais se tornaram disfuncionais para uma parte da burguesia brasileira. O grande acordo nacional, nas imortais palavras de Jucá, seguia seu caminho irresoluto, mas algo parece ter mudado. Resta perguntar porquê. 

A hipótese mais clara é que a burguesia está mandando sinais a Lula e ao PT no sentido de enquadra-los no programa econômico e político acordado em 2022. De um lado, o aprofundamento do financismo, mais reformas, mais ataques aos direitos sociais e trabalhistas. De outro, sintonia mais afinada com posições políticas do imperialismo, não sendo gratuito ter essa movimentação acontecido no contexto da polêmica das eleições venezuelanas. 

Não nos esqueçamos de suas origens.

Ao bombardearem Moraes, a burguesia brasileira, através de sua imprensa, envia recado claro que, se for preciso, pode ressuscitar Bolsonaro e sua turma desconstruindo o grande salvador da democracia, tal como fizera anteriormente com Sérgio Moro e seus apaniguados do MPF. Estamos diante de um ensaio geral de uma ação que poderá ser acionada caso o lulopetismo não cumpra fielmente sua parte do pacto. Alexandre de Moraes nisso tudo é apenas mais um serviçal, tão dispensável quanto qualquer outro. 

E isso vem acontecer em um contexto em que Trump poderá voltar à Casa Branca, algo a ser considerado na equação geral. As turbulências apenas estão começando. (por David Coelho)

sábado, 10 de fevereiro de 2024

COLOCANDO ÁGUA NO CHOPE: NUNCA NA HISTÓRIA A EXTREMA DIREITA FOI DERROTADA PELA VIA JURÍDICA

 

As ilusões jurídicas camuflam a impotência política e mais uma vez estamos diante de um espetáculo ruidoso, pirotécnico, mas possivelmente infrutífero. A esquerda, ou o que restou dela, não possuí qualquer tipo de força para derrotar socialmente a extrema-direita, daí precisar da ação canhestra das instituições burguesas, sempre propícias a agir de acordo com os interesses momentâneos e na salvaguarda maior da propriedade privada. 

Ora, é mais que clara a existência de um movimento golpista junto às hostes bolsonaristas pois o próprio bolsonarismo nasceu da corrente mais extremada da ditadura militar, corrente que nunca deixou de se lamuriar pela redemocratização através de análises, discussões e circulares do clubesco militar, espécie de grêmio recreativo dos milicos de pijama. No entanto, o golpismo aqui e agora nunca fez parte da estratégia atual dos militares em sua volta ao poder, pois há muito se articularam em torno de um processo de tomada do Estado via eleições, paulatinamente. Assim, a tramoia desvendada não conseguiu o apoio necessário justamente porque não estava nos planos um golpe militar clássico. 

Talvez nunca saibamos dos detalhes do grande
acordo nacional que libertou Lula
e selou a "Frente Ampla".
Não que as Forças Armadas sejam legalistas. A propaganda da mídia nos faz crer que a resistência de um punhado de generais legalistas teria impedido o golpe em planejamento. Fosse assim, tais generais deveriam ter vindo à público denunciar a orquestração e, no mínimo, desbaratado eles mesmos a conspirata. Nada disso foi feito, ao contrário, os ditos golpistas foram protegidos e os acampamentos bolsonaristas tolerados país afora. Isso porque um golpe sempre estará nos planos militares, mas apenas caso a situação se mostre incontrolável, leia-se, caso haja um contexto revolucionário em que o capitalismo brasileiro esteja à beira da morte. 

Para os militares, a democracia brasileira é apenas tolerada dentro de certos limites. Lula respeita plenamente tais limites e é tão submisso aos milicos quanto um cãozinho ao seu dono. Ele também é o mais humilde servo dos capitalistas e do imperialismo, cumprindo fielmente o programa neoliberal de ferrar o povo para salvar os bilionários. Então, qual o sentido de dar um custoso golpe contra quem não é nem de longe ameaça a nada?

Mais ainda que Lula tinha, e tem, o apoio de fatia de peso dos capitalistas brasileiros, a mesma que o colocou em cana em 2018, mas o retirou da cadeia posteriormente quando o plano Alckmin fracassou rotundamente nas urnas. Sua saída foi possível mediante um grande acordo nacional - nas imortais palavras de Romero Jucá -, cujo teor ainda nos escapa, envolvendo STF, mídia, bancos, EUA e uniu o resto do antigo PSDB ao lulismo. O perigo era Bolsonaro e sua fúria disruptiva que, aceita, colocaria o país em um turbilhão incontrolável. Quem sabe o que poderia acontecer caso o ímpeto revolucionário do bolsonarismo fosse executado? A burguesia brasileira, por sua origem comercial e mercantilista, sempre foi avessa ao risco e prefere sempre dar o passo de forma absolutamente segura. 

No entanto, estamos assistindo a um filme sem qualquer originalidade, igual aqueles enlatados de Hollywood. Os personagens são diferentes, o enredo também, o tema é outro, mas a dinâmica é a mesma. Se trata do padrão lava jato reaplicado, mas agora pela democracia. A lava jato terminou com os corruptos e corruptores de volta ao mesmo lugar em que estavam. A operação pela democracia terá o mesmo destino? O tempo dirá. 

Preso, ficou ainda mais popular. No fim, os 
mesmos que o prenderam o puseram no poder.
Na verdade, não podemos nunca nos esquecer que Bolsonaro, Lula e cia limitada são personagens da história, mas não seus autores. O autor da história, ao menos até aqui, é fundamentalmente a luta de classes e é em seu interior que se decidirá o futuro das nações e dos povos. Os relegados de hoje podem ser os exaltados de amanhã e vice-versa, tudo depende da dinâmica concreta da sociedade. Nunca, até hoje, a extrema direita foi derrotada juridicamente e nem mesmo a prisão anulou a ascendência de seus líderes sobre as massas. Ela só pode ser derrotada se as estruturas sociais que as alimentam forem destruídas. 

Nesse sentido, é desalentador as tendências atuais. Longe do militarismo, um dos pilares do bolsonarismo, ser enfraquecido, ele tem sido reforçado, com uma nova lei orgânica das Polícias Militares, aprovada por Lula, que amplia a inserção e o escopo dos militares na vida brasileira. As igrejas evangélicas, segundo pilar do bolsonarismo, seguem a todo vapor e acabam de conseguir mais isenções fiscais junto a Lula. Por fim, o coração econômico do bolsonarismo, o agronegócio, tem ampliado seu poder no país, a ponto de ter sua própria propaganda doutrinária na TV Globo.

No verdadeiro campo de batalha, estamos perdendo a guerra, enquanto acreditamos que os barulhos de fogos de artifício se igualam a sons de canhões. (por David Coelho) 

terça-feira, 13 de outubro de 2020

ADEUS, LAVA-JATO! A NOVA ENCENAÇÃO DA FARSA DO COMBATE À CORRUPÇÃO SOB O CAPITALISMO TEVE O FINAL DE SEMPRE

BOLSONARISMO SEM BOLSONARO
A base radical bolsonarista está decepcionada com o presidente Jair Bolsonaro. A gota d’água foi a indicação do desembargador Kassio Marques para a vaga no Supremo Tribunal Federal. 

Assim que o nome do magistrado foi anunciado, as redes sociais bolsonaristas entraram em parafuso, e Bolsonaro chegou a ser chamado de traidor. Tudo porque Kassio Marques é considerado petista por ter sido nomeado pela presidente Dilma Rousseff em 2011 para o Tribunal Regional Federal da 1.ª Região.

Para piorar, o senador Renan Calheiros, alvo de 17 inquéritos em curso no Supremo, resolveu dar seu apoio explícito a Bolsonaro, dizendo que o presidente pode deixar um grande legado para o Brasil que é o desmonte desse Estado policialesco que tomou conta de nosso país – em referência à Operação Lava Jato

Segundo Renan Calheiros, a nomeação de Kassio Marques para o Supremo, bem como a de Augusto Aras para a Procuradoria-Geral da República e a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça, faz parte desse desmonte.
O próprio Bolsonaro não se fez de rogado e disse: Acabei com a Lava Jato, porque não tem mais corrupção no governo

Os intérpretes benevolentes da glossolalia bolsonarista podem dizer que o presidente só usou uma força de expressão para enfatizar a desnecessidade da Lava Jato ante a lisura de seu governo; já quem não é bobo viu aí um ato falho que trai um desejo.

Para aqueles que elegeram um político que prometia solenemente levar a Lava Jato para o centro do poder em Brasília – e para isso carregou a tiracolo o juiz símbolo da operação, Sérgio Moro – deve ser mesmo uma decepção e tanto.

O fato é que Bolsonaro está se descolando do chamado bolsonarismo, o movimento que leva seu nome, mas, como a esta altura já está claro, quase nada tem a ver, em essência, com o ex-deputado do baixo clero.

Para os fanáticos bolsonaristas, quase todos os políticos são corruptos, o establishment, dominado por comunistas, é o grande inimigo do País e a própria atividade política é irremediavelmente criminosa, razão pela qual defendem rupturas institucionais e, no limite, a instalação de uma ditadura. Era um discurso reacionário à procura de quem o declamasse sem qualquer pudor.

A certa altura, Bolsonaro se ofereceu como o político que empunharia essa bandeira golpista, em nome do saneamento moral na Nação, e acabou por se viabilizar eleitoralmente, sobretudo em face dos muitos desmandos do PT e dos muitos erros cometidos pelos partidos do centro democrático.

Bolsonaro, contudo, nunca foi bolsonarista, no sentido dado por seus agora abalados seguidores. Mau militar e parlamentar de baixíssima extração, fez carreira medíocre na defesa de corporações de servidores públicos, sendo muito mais bem-sucedido como cabo eleitoral dos filhos.

Era preciso ser muito ingênuo, mal informado ou vesano para acreditar que alguém com essa folha corrida, sem qualquer serviço prestado ao País, fosse de fato liderar um movimento pelo resgate ético do Brasil. 

Passados quase dois anos do mandato, Bolsonaro já parece estar muito mais à vontade para rasgar a fantasia de impoluto defensor dos valores morais da Pátria, que nunca lhe caiu bem, e exibir-se como sempre foi, sem tirar nem pôr.

Bolsonaro caiu nos braços do Centrão, grupo de partidos fisiológicos com os quais tem muito mais afinidade do que os sabujos que o chamam de mito gostariam de admitir. Em meio a políticos que dedicam tempo e energia pensando exclusivamente na eleição seguinte e em como extrair vantagens do poder, o presidente deve estar se sentindo em casa.

Assim, com as bênçãos do sempiterno Renan Calheiros, governista sob qualquer governo, Jair Bolsonaro pode se entregar de corpo e alma a seu projeto de reeleição e concentrar energias na costura para evitar que sua prole, encalacrada na Justiça, responda por seus atos. 

Tudo isso mostra que, para Bolsonaro, o bolsonarismo nunca existiu senão como veículo para seu oportunismo político. Os zelotes desse movimento de araque terão que procurar outro messias para adorar. (editorial d'O Estado de S. Paulo de 13/10/2020) 
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