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sábado, 22 de outubro de 2022

O FEDOR DA CAMPANHA DO BOZO EMPESTEOU TODA A COMUNICAÇÃO ELEITORAL

demétrio magnoli
MEIOS E FINS
"
O tema desta campanha
não é economia, são os
temas propostos por Bolsonaro, o que significa
que o presidente venceu o debate desta eleição." 
Ciro Nogueira, ministro da Casa Civil, não erra no diagnóstico. Na TV e nas redes sociais, a campanha de Lula emula a linguagem do bolsonarismo. 

Segundo a síntese do ministro, "Lula não está lutando no campo dele; está travando uma eleição no campo adversário".

A gosma oriunda da campanha bolsonarista espalhou-se por toda a comunicação eleitoral, dos dois lados. Sob o efeito Janones, a campanha lulista transitou da qualificação de genocida, aplicada ao presidente desde a pandemia, para sugestões de que ele teria inclinações ao canibalismo e à pedofilia. 

Jogo empatado? Diferentes pesquisas, que registram discretas quedas nos índices de rejeição a Bolsonaro, indicam que não. O jogo no campo adversário sempre serve ao adversário – eis uma regra universal da política.

A interpretação de texto, mesmo elementar, evidencia níveis deploráveis de distorção. Na entrevista antiga ao New York Times, Bolsonaro pretendia associar (falsamente) indígenas brasileiros à prática do canibalismo e impressionar o interlocutor exibindo-se (pateticamente) como tolerante à diversidade cultural.
Já as declarações do presidente sobre as meninas venezuelanas, expressas na sua vulgaridade habitual, simplesmente atestam arraigados preconceitos, tanto sobre mulheres quanto sobre refugiados. O janonismo, porém, escolheu acusar o presidente de ser um potencial devorador de índios e um adepto, real ou virtual, da pedofilia.

Os expedientes tóxicos do janonismo não comoveram o eleitorado. Entretanto, entusiasmaram comentaristas progressistas engajados, aberta ou veladamente, na campanha lulista. A turma, muito culta, nada entendeu sobre a relação entre meios e fins.

Os fins justificam os meios, assegura uma crença ingênua adotada por pessoas que se imaginam moralmente superiores. De fato, os meios qualificam e moldam os fins. 

O carluxismo é um meio eficiente para produzir um governo extremista, inclinado ao preconceito e propenso ao golpismo. O janonismo, imagem espelhada do carluxismo, não é um meio apropriado para gerar um governo democrático, capaz de respeitar a pluralidade social e a divergência política.

O PT não é neófito na prática de campanhas difamatórias. Nos idos de setembro de 2014, operando em nome de Dilma Rousseff, João Santana montou a célebre peça de TV na qual Marina Silva expropriava a comida dos pobres, transferindo-a aos banqueiros. O recurso à linguagem do esgoto funcionou –e a política brasileira enveredou por um labirinto escuro.

O paralelo é, contudo, imperfeito. A propaganda imunda de 2014 surtiu efeito pois situava-se, ainda, nos limites da esfera da política: o alvo não era a pessoa da candidata, mas sua proposta de conceder independência ao Banco Central. Hoje, o 
janonismo, imitação do carluxismo, move-se no terreno da difamação pessoal.

Numa ofensiva recente, a campanha de Lula divulga um vídeo no qual Bolsonaro homenageia Alfredo Stroessner, acompanhado pela notícia de que o ex-ditador paraguaio era um pedófilo que mantinha meninas como escravas. No caso, o tema não é exatamente a ditadura, mas a pedofilia. A absorção da linguagem bolsonarista tem implicações que ultrapassam o 30 de outubro.

A vida política não se encerra, apoteoticamente, no 2º turno. Depois dele, o Congresso votará leis relevantes, o STF pronunciará sentenças cruciais, os eleitores voltarão às urnas em novas eleições municipais, estaduais e federais. 

Sempre será possível asseverar que algo decisivo –inclusive a democracia– pende por um fio. A alegação utilizada para justificar o jogo sujo no campo adversário ressurgirá em múltiplas oportunidades. O bolsonarismo terá triunfado –mesmo após a derrota. (por Demétrio Magnoli)
Cara do Janones...
T
OQUE DO EDITOR: JANONES NÃO ME REPRESENTA 
– O que existe entre meios e fins é uma interação dialética, então o uso de meios ignóbeis contamina os fins: torna-os igualmente vis.

Mas, quem disse que o PT tem compromisso com a democracia? Na verdade, a real ideologia petista é exatamente o utilitarismo: vale tudo para conquistar posições no Executivo e no Legislativo e, assim, desfrutar as benesses e privilégios que o capitalismo disponibiliza para seus serviçais.

Revolução? É uma hipótese de difícil concretização, que só vinga esporadicamente. Pragmáticos não apostam nela.

Assim é que o PT abriu mão dos ideais de transformação da putrefata sociedade burguesa, trocando-os pela conveniência de levar vantagem dentro dela. 

Já na década de 1980 começou a expurgar as tendências esquerdistas que trazia em seu seio, insuflando o reformismo e o populismo, até chegar ao estágio atual, quando precisa esconder em campanha sua proposta de política econômica (pois não passa de mais do mesmo) e não ousa revelar quem será ministro da Economia (pois vai escolher um dos costumeiros).

Nada a estranhar, portanto, no paralelismo de sua comunicação com a do genocida ensandecido. 
...focinho do Carluxo

Lula e o Bozo não passam das duas faces da moeda capitalista, mas a face bestial implica extermínios como o de uns 400 mil brasileiros imolados no altar do obscurantismo durante a pandemia que matou 1 milhão dos nossos compatriotas (uso as projeções confiáveis de instituições estrangeiras, não os viciados dados brasileiros). 

Somos obrigados a tapar o nariz e votar no Lula, porque ainda estamos tentando evitar o apocalypse now e não antecipá-lo. Mas, faço questão de deixar registrado: Janones não me representa! (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 8 de maio de 2018

SOBRE A MORAL REVOLUCIONÁRIA E O IMPERATIVO DE SERMOS VISTOS COMO ALTERNATIVA À PODRIDÃO BURGUESA – 2

(continuação deste post)
"O MEIO NÃO PODE SER JUSTIFICADO SENÃO PELO FIM. 
MAS TAMBÉM O FIM PRECISA DE JUSTIFICAÇÃO"
Por Leon Trotsky
A ordem dos jesuítas, fundada na primeira metade do século 16 para combater o protestantismo, nunca ensinou que qualquer meio, mesmo o mais delituoso, de acordo com a moral católica, seja admissível, contanto que leve ao fim, isto é, ao triunfo do catolicismo. 

Esta doutrina contraditória e psicologicamente inconcebível foi malignamente atribuída aos jesuítas pelos seus adversários protestantes – e, às vezes, católicos –, os quais, por sua vez, pouco se preocupavam com escrúpulos na escolha dos meios para atingir seus próprios fins. 

Os teólogos jesuítas – preocupados, como os de outras escolas, com o problema do livre arbítrio – ensinavam na realidade que o meio, considerado em si mesmo, pode ser insignificante, mas que a sua justificação ou condenação moral depende do que se procura alcançar. 

Assim, um tiro de arma de fogo é, em si, um fato sem importância; já disparado sobre um cão raivoso que tenta morder uma criança é um ato louvável; e disparado para matar ou praticar violência é um crime....
Aristóteles, Kant e John Stuart Mill

O meio não pode ser justificado senão pelo fim. Mas também o fim precisa de justificação. Do ponto de vista do marxismo, que exprime os interesses históricos do proletariado, o fim está justificado se levar ao reforço do poder do homem sobre a natureza e à supressão do poder do homem sobre o homem. 

Isto significa então que, para atingir este fim, tudo é permitido? – perguntará sarcasticamente o filisteu, demonstrando que não entendeu nada. 

É permitido, responderemos, tudo aquilo que leve realmente à libertação dos homens. Já que este fim não pode ser atingido senão por via revolucionária, a moral emancipadora do proletariado tem necessariamente um caráter revolucionário. 

Como aos dogmas da religião, esta moral se opõe a todos os fetiches do idealismo, gendarmes filosóficos da classe dominante. Ela deduz as normas de conduta das leis do desenvolvimento social, isto é, antes de tudo, da luta de classes, que é a lei das leis.

O moralista ainda insiste: Isto significa então que, na luta de classes contra o capitalismo, são permissíveis todos os meios? A mentira, a falsificação, a traição, o assassínio, etc.?

Respondemos: são admissíveis e obrigatórios apenas os meios que aumentam a coesão do proletariado, inflamam sua consciência com um ódio inextinguível a toda forma de opressão, ensinam-lhe a desprezar a moral oficial e seus arautos democráticos, dão-lhe plena consciência de sua missão histórica e aumentam sua coragem e sua abnegação. Donde se conclui, afinal, que nem todos os meios são válidos.

Quando dizemos que o fim justifica os meios, disto deriva para nós que o grande fim revolucionário repudia os procedimentos e os meios indignos que lançam uma parte da classe operária contra outra; ou que tentam fazer a felicidade das massas sem a sua organização, substituindo-as pela adoração dos chefes

Acima de qualquer outra coisa, a moral revolucionária condena irredutivelmente o servilismo para com a burguesia e o desprezo para com os trabalhadores, que é uma das características mais arraigadas na mentalidade dos pedantes e dos moralistas pequeno-burgueses.

Estes critérios, é obvio, não definem o que é consentido ou não em cada situação determinada. Não existem respostas automáticas deste tipo. As questões da moral revolucionária confundem-se com as questões da estratégia e tática revolucionárias. Somente a experiência viva do movimento, iluminada pela teoria, pode dar a resposta certa a tais problemas.

O materialismo dialético não separa os fins dos meios. O fim é deduzido de maneira natural do dever histórico. Os meios estão organicamente subordinados ao fim. O fim imediato transforma-se no meio do fim ulterior. 

Ferdinand Lassalle, em seu drama Franz von Sickingen, faz um de seus personagens dizer:

Lassale
"Não indiques apenas o fim,
mas mostra também o caminho
porque o fim e o caminho
tão unidos estão
que um muda com o outro
e com ele se move
– e cada novo caminho
revela um novo fim"

Obs.: trechos selecionados do panfleto A moral deles e a nossa, escrito por Trotsky em 1938 e que foi lançado no brasil também com o título alternativo de Moral e revolução.

SOBRE A MORAL REVOLUCIONÁRIA E O IMPERATIVO DE SERMOS VISTOS COMO ALTERNATIVA À PODRIDÃO BURGUESA – 1

Como às vezes uso em meus textos a expressão moral revolucionária, um companheiro me perguntou o que isto significava.

Fiquei meio encabulado, pois não se trata de algo que eu possa atribuir a texto(s) específico(s), mas sim a várias experiências vividas e observações feitas ao longo deste meio século em que venho travando o bom combate.

E as lições que extraí dessa prática tiveram também alguma influência de uma infinidade de análises que li, espalhadas pelos trabalhos de vários autores que dissecaram a imoralidade suprema do nosso campo, o stalinismo. Era o exemplo negativo que jamais poderia se repetir, então minha geração se empenhou muito em discernir como aquele mostrengo totalitário se engendrara, para prover os antídotos.

Despretensiosamente, alinhavo algumas conclusões a que cheguei e estão mais ou menos no espírito do tema:

— devemos resistir sempre à tentação de transmitir a nossos públicos visões simplificadas, mais fáceis de entender, mas que na verdade sejam manipulatórias e mentirosas. Tanto a comunicação do Hitler quanto a do Stalin operavam dessa maneira. 
Em termos teóricos, é fundamental jamais esquecermos que somos dialéticos e não maniqueístas, portanto nunca devemos nos colocar como portadores de toda a verdade e satanizar desmedidamente os inimigos. 
Nossa comunicação, enfim, deve ser esclarecedora, consistente e veraz, não eficaz e conveniente mas falsa. A verdade é revolucionária. E, como não somos utilitaristas, para nós os fins não justificam os meios, estando, isto sim, em interação dialética com os ditos cujos, de forma que, se utilizarmos meios infames, nossos fins ficarão inevitavelmente amalgamados com a infâmia.

— as polêmicas com adversários pertencentes ao campo da esquerda devem ser travadas sempre respeitosamente, visando convencê-los e atraí-los para nossas posições. Discussões agressivas, implacáveis, só cabem contra os inimigos de classe e os pregadores da barbárie.

— as disputas pela hegemonia dentro de nossas organizações devem sempre ser travadas, pelas tendências existentes, com foco nas idéias. É altamente negativa a disputa de nichos de poder com a utilização de todos e quaisquer meios e fazendo vistas grossas ao jogo sujo. Se nem entre nós conseguirmos estabelecer relacionamentos civilizados e realmente democráticos, o que teremos para transmitir à sociedade?
Seria fácil, mas fatal, surfarmos também na onda da corrupção

— nossas organizações devem sempre estimular e propiciar as discussões esclarecedoras, ao invés de achatá-las com o peso da autoridade dos dirigentes. O pensamento crítico é vital para nós, pois sem ele estagnamos, tornando-nos repetitivos e, com o tempo, irrelevantes.

— a democracia interna e a transparência devem ser as máximas possíveis, só limitadas por imperativos de segurança (e precavendo-nos para que falsas alegações de riscos de segurança não sirvam de pretexto para os dirigentes se livrarem de questionamentos indesejáveis).

— travamos uma luta de amplitude mundial e temos o dever de não só dar apoio efetivo a outros povos, como também aos companheiros estrangeiros que estejam sofrendo discriminação e perseguições em nosso país. A solidariedade revolucionária é sagrada para nós e como tal deve ser encarada, respeitada e praticada!

— e, óbvio ululante, temos a obrigação de jamais cedermos às tentações e facilidades da sociedade atual, já que servimos de (e somos vistos como) exemplos vivos dos ideais que pregamos. Então, p. ex., mesmo sabendo que os recursos públicos são quase sempre mal gastos, não podemos jamais aproveitar as posições que tenhamos obtido no aparelho de Estado burguês para desviá-los em benefício de nossas organizações ou, pior ainda, de nós mesmos.
"Jamais cedermos às tentações da sociedade atual"

Seria bem mais fácil surfarmos também na onda da corrupção do que sustentarmos nossas atividades com doações de companheiros, promovendo rifas, espetáculos, festas, etc. Mas, é fatal. Coloca nas mãos dos inimigos armas poderosas para destruírem nossa credibilidade aos olhos do povo.

No passado já aprendêramos tal lição mas, alunos relapsos que somos, tivemos de recebê-la de novo, da pior maneira possível. É absolutamente indispensável mantermo-nos e sermos vistos como alternativa à podridão da sociedade burguesa, e não como cúmplices ou condescendentes com ela.

Enfim, estas foram algumas das lições que aprendi na minha longa prática; outras certamente devem existir, que não me tenham ocorrido neste momento. 

Para finalizar, fui dar uma passada de olhos no livro A moral deles e a nossa, escrito por Trotsky no fim da vida (1938) e, provavelmente, a melhor sistematização dos valores éticos dos revolucionários. 

Na segunda parte deste post, apresentarei uma seleção de trechos que vale a pena citar neste contexto, alguns até coincidentes com minhas mal traçadas linhas (mas, sinceramente, fazia uma eternidade que não os lia...).
(continua neste post)
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