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terça-feira, 29 de agosto de 2023

GOSTARIA DE CRER QUE ERA O DIA DA GRAÇA DO FAUSTÃO. MAS QUEM ASSINA CHEQUE EM BRANCO UM DIA ACORDA DEBAIXO DA PONTE

No último grande festival de música popular realizado antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o IV da TV Record, Sérgio Ricardo foi obrigado a alterar versos de sua Dia da Graça por imposição da censura.

A letra falava num "dia de alegria", com "a cidade diferente da normalidade", sem os acontecimentos habituais daquela época turbulenta: "nenhum militar de arma em punho", "nenhum estudante morreu", "nenhum inocente foi julgado e ninguém se matou". 

Mas, bem no finalzinho, o autor da inesquecível trilha musical de Deus e o Diabo na Terra do Sol esclarece que se tratava de um "canto que eu conto pra mentir, de 1º de abril".

Já os acontecimentos positivos daquele dia hipotético seriam, entre outros, estes: "retoma o povo o seu lugar na praça", "o Brasil exportou toda banana e o café solúvel", "funcionários e operários ganham novo aumento" e... "o novo coração do paciente batendo apaixonadamente pela enfermeira"..

Bem, o Faustão viveu o seu dia da graça neste 27/08 e muitos textos pipocaram pela imprensa discutindo a possibilidade de a lista de pacientes à espera de transplante do coração haver sido por ele furada.

Como nunca tive tal lista em mãos, não posso, em sã consciência, dizer se anteontem existiam ou não pacientes mais merecedores do transplante além daquele que, em primeiro lugar na relação, teria desistido da graça a ele concedida.  

Mas, como se trata de uma questão de vida ou morte e como existe uma clamorosa tendência a se privilegiarem no Brasil os magnatas, os poderosos e os famosos em questões desse tipo, afirmo que só  ingênuos descartam a possibilidade de autoridades da área médica, ou de quaisquer outras áreas, se vergarem ao populismo reinante no país. 

Aqui é o fim do mundo, Torquato Neto dixit e eu canso de repetir.

Então, também nessa dramática escolha entre os que vão viver e os que vão morrer deveria haver alguém isento verificando se as decisões tomadas foram imparciais como teriam obrigatoriamente de ser. 

Ou seja, uma espécie de ombudsman ou ouvidor, como existem no jornalismo e em várias outras atividades. 

Nada contra o Faustão, que parece ser uma pessoa de bem. Não me desagrada nem um pouco a sua salvação. 

Mas, se havia 386 pessoas esperando por um coração, é pertinente indagarmos se era mesmo ele a segunda mais necessitada de uma solução imediata.

O sistema de seleção (vide aqui) parece estar imune a intervenções por baixo do pano para que sejam contemplados os mais iguais. A coisa dependeria toda de médicos e computadores. Só que...
...só que nestes tristes trópicos, depois de todas as decepções que tivemos durante a recente pandemia, ficamos logo com uma pulga atrás da orelha quando um famoso parece ter sido beneficiado indevidamente. 

Se foi clamorosamente falseada a quantidade de óbitos resultantes da covid, a ponto de grandes órgãos de imprensa terem de formar uma equipe conjunta para conferir as totalizações do Ministério da Saúde (o que só dificultava a manipulação dos dados na reta de chegada, mas nada podia fazer quando municípios e estados já tivessem enviado os números devidamente maquilados), então tudo é possível.   

No Brasil, quem assina cheque em branco um dia acorda embaixo da ponte. E quem põe as mãos no fogo acaba maneta  (por Celso Lungaretti)
A canção Dia da Graça está na altura de 4:06

quinta-feira, 2 de janeiro de 2020

DE BOLSONARO SÓ PODEMOS ESPERAR UM ULTRAJE POR SEMANA, ATÉ O AMARGO FIM

leonardo sakamoto
DEMOCRACIA RESISTE A BOLSONARO? O TESTE NÃO FOI 2019, SERÁ 2022
Quando a vitória de Jair Bolsonaro à presidência da República despontava no horizonte, em outubro de 2018, durante uma campanha em que ele não teve pudores de atacar direitos fundamentais, 31% da população diziam haver muita chance de ocorrer uma nova ditadura, segundo o Datafolha. O número contrastava com os 15%, de fevereiro de 2014. 

O seu primeiro ano de governo tentou, das formas mais criativas e sem nenhuma cerimônia, retroceder em garantias a proteções sociais. 

Em alguns casos, foi bem sucedido, principalmente naqueles que dependiam diretamente da ação ou inação do Poder Executivo. P. ex.,  com o desmonte das estruturas de fiscalização, monitoramento e controle, o aumento na devastação ambiental já foi sentido internacionalmente. Enquanto isso, a liberação desenfreada de agrotóxicos será sentida no corpo desta e das futuras gerações. 

O Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal funcionaram, de acordo com seus interesses, como freios e contrapesos a propostas bizarras do governo. Como no bloqueio aos decretos que garantiriam um libera-geral para armas e munições, no projeto de lei que transformava rodovias em campos de batalha e na tentativa de implementar o cada um por si e Deus por todos da capitalização na Reforma da Previdência

Enquanto isso, o discurso de apoio à letalidade e à impunidade empoderou a banda podre de policiais e militares, que se sentiu mais livre para atirar primeiro e checar depois. 

Da mesma forma, encheu de coragem grileiros, madeireiros, garimpeiros e latifundiários que operam fora da lei a passar por cima de qualquer um no caminho do progresso

Coquetéis-molotov foram atirados. Jornalistas, artistas e intelectuais, atacados. Mas isso nem se compara ao que aconteceu com camponeses e populações tradicionais, como os Guajajara, assassinados em série. 

Ou com a população negra periférica – que se tornou carne ainda mais barata no mercado –, a exemplo das execuções absurdas do músico Evaldo dos Santos e do catador de recicláveis Luciano Macedo, em Guadalupe, e da estudante Ágatha Félix, no Complexo do Alemão, todos no RJ. 

O grosso da população incendiada no período eleitoral voltou ao normal após a apuração dos votos da mesma forma que houve uma descompressão após o impeachment. A percepção de que as instituições e a sociedade não seriam suficientemente fortes para impedir uma ditadura foi se desfazendo ao longo do ano. 

O Datafolha aponta, em pesquisa divulgada nesta quarta (01), que caiu para 21% a parcela da população que acredita haver muitas chances de uma nova ditadura. Menos que em 2018, mais que em 2014. 

Mesmo com o deputado federal Eduardo Bolsonaro e o ministro Paulo Guedes enchendo a boca para falar do AI-5 com o objetivo de desestimular manifestações de rua contra o governo e contra as reformas, 49% dos brasileiros não acreditam na chance de uma nova ditadura, contra  42% em outubro de 2018.
Detalhe: a esmagadora maioria dos brasileiros não sabe o que foi o AI-5, segundo a pesquisa. 

O general Augusto Heleno, ministro-chefe do Gabinete de Segurança Institucional, começou a falar como Olavo de Carvalho, normalizando o AI-5, negando números do desmatamento, discursando em carros de som de manifestações, mas as Forças Armadas não se mostraram interessadas em referendar todos os pendores autoritários do presidente. E eles foram muitos.
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DESPREZO PELA DEMOCRACIA  "Por vias democráticas a transformação que o Brasil quer não acontecerá na velocidade que almejamos... e se isso acontecer. Só vejo todo dia a roda girando em torno do próprio eixo e os que sempre nos dominaram continuam nos dominando de jeitos diferentes!" 

A declaração do vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente da República, postada em seu Twitter, em setembro, foi prontamente rechaçada por políticos de vários matizes ideológicos e pela Ordem dos Advogados do Brasil. Não causaria tanto arrepio se o governo de seu pai não manifestasse desprezo por instituições democráticas. 

Naquele momento, o filósofo Paulo Arantes, um dos mais importantes pensadores brasileiros, conversou com esta coluna sobre o componente revolucionário no bolsonarismo e como o presidente estava comendo instituições – Ministério Público, Receita Federal, Coaf, Polícia Federal – em nome de seu projeto de poder. Avaliou:
"Pode chegar o momento, daqui a três anos, em que Bolsonaro vai dizer 'não admito nenhuma alternativa que não seja minha reeleição'. Como já disse 'não admito qualquer coisa que não seja minha vitória', na eleição do ano passado"
Ele fez uma comparação com o bolivarianismo do nosso vizinho ao Norte.
"No sentido mais exagerado, o espelho simétrico de um bolsonarismo consolidado e triunfante, com uma reeleição em 2022 e uma outra eleição, possivelmente com o filho, em 2026, é a Venezuela." 
Para ele, a direita liberal não sabe o que fazer. Pois, se há desgosto diante de temas de costumes e comportamentos, para os quais ela torce o nariz, por outro lado Bolsonaro está realizando o programa econômico dela junto com o Congresso. 
"E ele sabe que o cacife dele é o único capaz de conter uma volta daqueles que eles consideram a esquerda, a oposição — que, também na visão deles, voltará com sangue nos olhos. Então, ele vai ser assim todo dia, um ultraje por semana." 
Questionado por mim se o presidente odiava a democracia, ele afirmou: 
"Odiar a democracia pressupõe que ele tem um conhecimento a respeito da natureza intrínseca daquilo que está enfrentando. Ele não está nem aí, isso não existe para ele. Para ele, isso é alguma idiossincrasia vocabular de jornalista, mais nada" 
Se, por um lado, vem crescendo a quantidade de pessoas que afirma que a ditadura deixou mais realizações negativas do que positivas (46% em 2014, 51% em 2018 e 59% agora), a pesquisa Datafolha  mostrou que caiu o apoio à democracia sobre qualquer outra forma de governo – de 69% em outubro de 2018, para 62% após um ano de Bolsonaro. O número de pessoas indiferentes se o país vive sob uma democracia ou uma ditadura subiu de 13% para 22%. 

Descontando aqueles que não têm ideia do que seja uma democracia, sobram os autoritários e os que não veem benefícios no atual regime devido à sua condição social e econômica. Esse último grupo deseja mudança, não importa para onde. 

Tal sentimento ajudou a alimentar a campanha eleitoral de Bolsonaro. O (hoje) presidente tenta continuar capitalizando isso a seu favor, mesmo estando no poder. Para tanto, quer provar que está em uma guerra contra o mal, representado por tudo o que veio antes dele, inclusive a Constituição. 

Ele não apenas chama conquistas históricas de direitos de entraves ao crescimento, mas reclama dos freios e contrapesos da democracia. Quer liberdade total
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AS ESCOLAS COMO TRINCHEIRAS DA DEMOCRACIA  A ditadura é tema que não faz parte de nosso cotidiano em comparação com outros países que viveram realidades semelhantes e que almejam ser democracias. Passadas mais de três décadas de seu término, começamos a esquecer e a relativizar. 

O presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli, disse que se sente mais confortável de chamar o golpe de 1964 de movimento. Bolsonaro já afirmou que concorda com a tortura –tortura, que é a prova de que um Estado não obedece regras e, portanto, qualquer cidadão pode ser vítima de arbitrariedade, quanto ao seu corpo, suas crenças, suas propriedades. 

Lidamos com o passado como se ele tivesse automaticamente feito as pazes com o presente. Não, não fez. E agora estamos mergulhados numa aventura autoritária, achando que três décadas de construção de instituições vão nos manter seguros. 

Por enquanto, ajudaram a manter uma democracia capenga, que protege mais homens brancos do que o restante. Mas as instituições [não] estão funcionando normalmente. Há fraturas e elas podem ser demolidas. 

Os resultados do Datafolha mostram o quão importante é a defesa da democracia nas escolas de todo o país. O governo e seus aliados travam uma batalha na educação, com o objetivo de impor sua visão de mundo limitada e avessa à pluralidade. Na internet, onde esse conflito já existia, eles vêm conquistando corações e mentes de jovens que acham quer ser vanguarda é ser reacionário. 

A história do período entre 1964 e 1985 deve ser contada nas escolas até entrarem nos ossos e vísceras de nossas crianças e adolescentes a fim de que nunca esqueçam que a liberdade do qual desfrutam não foi de mão beijada. Mas custou o sangue, a carne e a saudade de muita gente. 

Só dessa forma, poderemos garantir que a minoria de 12% que acha preferível a volta da ditadura continue a ser vista pelo restante da sociedade como mal informada ou fora de si – e tratada com todo o carinho possível e paciência. 

Pois, talvez um dia compreenda o que significa a liberdade que está diante de seus olhos, mas que não consegue enxergar. (por Leonardo Sakamoto)

terça-feira, 17 de dezembro de 2019

IMPERDÍVEL: O ALERTA DRAMÁTICO DE UM PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

paul krugman
O PARTIDO QUE ARRUINOU O PLANETA
O aspecto mais aterrorizante do drama político dos Estados Unidos não é a revelação de que o presidente abusou de seu poder para obter ganhos pessoais. Se você não viu que isso iria acontecer desde o dia em que Donald Trump foi eleito, não estava prestando atenção.

Não, a verdadeira revelação tem sido a depravação total do Partido Republicano. Essencialmente, todos os funcionários eleitos ou nomeados nesse partido optaram por defender Trump aceitando teorias da conspiração loucas e desmascaradas. 

Ou seja, um dos dois principais partidos dos EUA está além da redenção; diante disso, é difícil ver como a democracia pode durar muito, mesmo que Trump seja derrotado.

No entanto, os relatos mais assustadores que vi recentemente foram sobre ciência, não política. Um novo relatório federal constata que a mudança climática no Ártico está se acelerando, correspondendo ao que costumava ser considerado o pior cenário. (toque do editor: todos os grifos em verde são meus)

E há indícios de que o aquecimento do Ártico pode estar se transformando em uma espiral que se autoalimenta, já que a própria tundra degelada libera grande quantidade de gases do efeito estufa.

Aumento catastrófico do nível do mar, ondas de calor que tornam os principais centros populacionais inabitáveis e outras coisas parecem hoje mais prováveis do que não, e para mais cedo do que mais tarde.

Mas as terríveis notícias políticas e as terríveis notícias climáticas estão intimamente relacionadas.

Por que, afinal, o mundo deixou de agir em relação ao clima e por que ainda está deixando de agir, quando o perigo se torna cada vez mais óbvio? É claro que existem muitos culpados; a ação jamais seria fácil.

Mas um fator se destaca acima de todos os outros: a oposição fanática dos republicanos dos EUA, que são o único grande partido do mundo que nega o clima. Por causa dessa oposição, os Estados Unidos não apenas deixaram de oferecer o tipo de liderança que seria essencial para a ação global, como se tornaram uma força contra a ação.

E a negação republicana do clima está enraizada no mesmo tipo de depravação que estamos vendo em relação a Trump.

Como já escrevi antes, a negação do clima foi, de muitas maneiras, o cadinho do trumpismo. Muito antes dos gritos de notícias falsas, os republicanos se recusavam a aceitar a ciência que contradizia seus preconceitos. 

Muito antes de os republicanos começarem a atribuir cada novo fato negativo às maquinações do Estado profundo, eles insistiam que o aquecimento global era uma farsa gigantesca perpetrada por uma vasta cabala global de cientistas corruptos.

E muito antes de Trump começar a armar o poder presidencial para obter ganhos políticos os republicanos estavam usando seu poder político para assediar os cientistas climáticos e, sempre que possível, criminalizar a prática da própria ciência.
Talvez não surpreendentemente, alguns dos responsáveis por esses abusos estão agora instalados no governo Trump. Notadamente Ken Cuccinelli, que, como procurador-geral da Virgínia se envolveu em uma longa caça às bruxas contra o cientista climático Michael Mann. 

Cuccinelli agora está no Departamento de Segurança Interna, onde defende políticas anti-imigrantes, com "pouca preocupação por restrições legais", como relata o Times.

Mas por que os republicanos se tornaram o partido da condenação do clima? O dinheiro é uma parte importante da resposta: no ciclo atual, os republicanos receberam 97% das contribuições políticas da indústria do carvão, 88% do petróleo e gás. E isso sem contar os préstimos de instituições apoiadas pelos irmãos Koch e outros magnatas dos combustíveis fósseis.

No entanto, não acredito que tenha a ver só com dinheiro. Minha sensação é que os direitistas acreditam, provavelmente com acerto, que há uma espécie de halo em torno de qualquer forma de ação pública. 

Depois de aceitar que precisamos de políticas para proteger o meio ambiente, é mais provável que você aceite a ideia de que devemos ter políticas para garantir o acesso a tratamentos de saúde, cuidados infantis e muito mais. Portanto, o governo deve ser impedido de fazer algo de bom para que não legitime uma agenda progressista mais ampla.

Ainda assim, quaisquer que sejam os ganhos políticos em curto prazo, é preciso um tipo especial de depravação para buscar esses ganhos negando fatos, adotando teorias conspiratórias insanas e pondo em risco o próprio futuro da civilização.

Infelizmente, esse tipo de depravação não está presente apenas no moderno Partido Republicano, mas com efeito dominou toda a instituição. Costumava haver pelo menos alguns republicanos com princípios; em 2008, o senador John McCain copatrocinou uma legislação séria sobre a mudança climática. Mas essas pessoas sofreram um colapso moral total (olá, senador Graham!) ou deixaram o partido.

A verdade é que, mesmo agora, não entendo completamente como as coisas ficaram tão ruins. Mas a realidade é clara: os republicanos modernos são irrecuperáveis, desprovidos de princípios ou vergonha. E não há, como eu disse, razão para acreditar que isso mudará, mesmo que Trump seja derrotado no próximo ano.

A única maneira pela qual a democracia americana ou um planeta habitável podem sobreviver é se o Partido Republicano como ele existe hoje for efetivamente desmantelado e substituído por algo melhor –talvez por um partido com o mesmo nome, mas valores completamente diferentes. Pode parecer um sonho impossível. Mas é a única esperança que temos. (por Paul Krugman, Prêmio Nobel de Economia, em sua coluna no jornal New York Times)

segunda-feira, 13 de maio de 2019

MORO QUE MUITO PULA, QUER CHUMBO...

luiz weber
MORO EM IMPEDIMENTO
O presidente Bolsonaro furou o balão de Moro. Sobra agora apenas aquele barulho agudo, do ar escapando fino, desinflando aos poucos a figura do superministro da Justiça.

A indicação de Moro para a próxima vaga no STF (que, salvo o acaso, só ocorrerá daqui a 18 meses, com a aposentadoria de Celso de Mello), submete-o desde já ao ritual do beija-mão.

De presidenciável em 2022, passa a refém da política miúda. A regra explica. Cabe ao Senado, em sessão secreta e por 41 votos, aprovar o indicado do presidente ao Supremo.

No passado, outros ministros da Justiça foram nomeados para o STF e todos os candidatos se submetem ao périplo dos gabinetes. Mas nunca com tanta antecedência. No jargão da velha política, exposição prematura leva o nome de fritura.
Moro se referiu ao STF como uma loteria. Quando se quer muito algo, o pedágio imposto pelo Congresso é maior. Para tirar seu bilhete premiado, o ministro vai insistir na aprovação do projeto anticrime que afetará o status quo político?

Detentor de notável saber jurídico, reputação ilibada, Moro possui credenciais para ser ministro do STF. Mas essa promoção está atrelada a um projeto chancelado pelas urnas de combate à criminalidade que fica comprometido pelo calendário encurtado definido por Bolsonaro. Moro terá no máximo dois anos para apresentar resultados.

Se de fato trocou Curitiba apenas por uma vaga no Supremo, Moro agiu como um deputado do centrão: hipotecou sua imagem para lustrar um governo em troca de uma sinecura. O discurso era só discurso.

Dezoito meses é tempo demais na política. É uma eternidade num governo Bolsonaro. Sem um cartão de visitas para apresentar, talvez sua imagem —e a de Bolsonaro— não esteja tão imantada de prestígio popular a ponto de tornar sua aprovação no Senado algo fácil. 

Ao se mexer tão cedo, colocou-se em impedimento. E juiz uma vez impedido, sempre impedido. 

(por Luiz Weber, jornalista, especialista em Direito Constitucional e mestre
em Ciência Política)

domingo, 29 de julho de 2018

AMARGANDO O DESALENTO DE UMA DÉCADA PERDIDA, FERIDO PELAS PESSOAS OCAS QUE O CAPITALISMO ENGENDRA

"Às vezes eu me sinto tão sem inspiração/ Às vezes eu sinto vontade de desistir / Às vezes me sinto tão cansado/ Às vezes me sinto como se já houvesse tido o suficiente/ Às vezes você sente-se como se tivesse sido contratado/ Às vezes você sente-se como se tivesse sido comprado/ Às vezes você sente que seu quarto foi mudado/ Às vezes você sente como se tivesse sido apanhado..."

É como um dia sentiu-se Steve Winwood, o brilhante tecladista e letrista do conjunto inglês Traffic. E é como me sinto neste domingo em que mais uma vez saí ferido na convivência inescapável com as pessoas ocas que a sociedade de consumo engendra, incapazes de superar o narcisismo infantil, tentando encontrar no que o dinheiro compra a felicidade que só a complementação amorosa, despojada e desinteressada com outros seres humanos proporciona.   

Mas, a 10 dias de completar 10 anos de existência, este blog deveria manter a tradição de trazer pelo menos um post novo a cada novo dia. E, por acaso, dei de cara com o texto abaixo, do início da campanha eleitoral de 2010, que dá uma boa noção de que estamos numa década perdida: tirando detalhes factuais, serve perfeitamente para a campanha eleitoral atual e a mídia atual. Leiam e constatem.
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O INFERNO PAMONHA E O MAFUÁ DA MÍDIA
O capitalismo putrefato consegue ser o pior dos mundos possíveis: à imoral desigualdade, às muitas injustiças e ao criminoso desperdício do potencial hoje existente para assegurar-se uma existência digna a cada habitante do planeta acrescenta a crassa boçalidade induzida pela indústria cultural.

Daí o rótulo definitivo, antológico, que Paulo Francis lhe pespegou.

Pois é mesmo num inferno pamonha que nos debatemos, sem encontrarmos a saída.

E fica mais pamonha ainda nas campanhas eleitorais.

Assim, leio que a Folha de S. Paulo considera informação pertinente os comentários de costureiros (é o que são, embora a mídia os trate pernosticamente como estilistas) sobre como se vestem Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva.

Que importância tem isso para o desempenho do cargo a que aspiram? Nenhuma.

Mas, derrubam-se árvores para a impressão de tolices como a de que não há expressão nos trajes de Serra e Dilma.

Lula teria orientado Dilma a "adotar a sobriedade dos looks clássicos e das cores neutras". Melhor faria orientando-a a informar-se melhor sobre política internacional, antes de deitar falação sobre as armas nucleares que o Irã possuiria.

Serra ficaria melhor com "ombros estruturados" como os de Obama, diz um Walter Rodrigues qualquer. Eu acho que seus ombros continuarão encurvados enquanto carregarem o peso da aliança com os demoníacos herdeiros da Arena, o partido que dizia amém aos genocídios e atrocidades da ditadura militar.

Dilma também se viu obrigada a reformular suas declarações a respeito de credo. Antes da campanha se dizia em dúvida sobre a existência de Deus e negava ter uma religião específica, agora se apresenta como "antes de tudo, cristã" e "num segundo momento, católica".

Trata-se, claro, de uma questão de foro íntimo, que jamais deveria ser exposta à bisbilhotice alheia.
Só que, quando Boris Casoy colocou tal casca de banana no caminho de Fernando Henrique Cardoso, este deu uma resposta digna e perdeu a eleição para prefeito de São Paulo.

Resultado: desde então, nenhum candidato se atreveu mais a replicar que esta questão simplesmente não vem ao caso.

Há que se querer muito a Presidência da República para sujeitar-se ao assédio da mediocridade agressiva.

O mafuá da mídia está cada dia mais repulsivo.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

ASSISTA NO BLOG AO FILME QUE COLOCOU AS AUTORIDADES DOS EUA EM PÉ DE GUERRA CONTRA CHAPLIN

Nos dias em que a mesmice domina o noticiário e não encontro nenhum tema inspirador para desenvolver, ou mesmo texto alheio interessante para importar, vou, em desespero de causa, consultar as efemérides próximas, na esperança de encontrar algo aproveitável.

Hoje (1º) se completam 110 anos que o rei Carlos I de Portugal e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em Lisboa por militantes republicanos. 

Quando eu era bem mais jovem, não deixava de ver certa justiça poética na frase do sacerdote católico francês Jean Meslier (1664-1729), às vezes atribuída erroneamente a Voltaire ou a Diderot, segundo a qual "o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre". Mas, o ódio já anda transbordando nas redes sociais, para que destacar mais episódios sangrentos? Deixemos o regicídio pra lá.

O aiatolá Khomeini regressou em 01/02/1979 ao Irã, trazendo o fanatismo religioso medieval na bagagem. O que já era péssimo com o xá Reza Pahlavi ficou ainda pior, se isto é possível, com os fundamentalistas malucos. Também passo. De retrocessos chegam os do Brasil.

Também neste dia, em 2003, o ônibus espacial Columbia se desintegrou ao retornar à Terra, matando seus sete tripulantes. Sempre vi com desagrado o esforço dos seres humanos para tornarem infernal a vida também nos outros planetas. Temos mais é de resolver nossos gravíssimos problemas atuais. Outra pauta descartada.
Assim como os aniversários de nascimento de John Ford, Clark Gable e Boris Iéltsin, e também o de falecimento de Buster Keaton. Nada tenho de especial a dizer sobre nenhum dos quatro.

Fui avançando pelos dias seguintes e a luz só acendeu para mim ao tomar conhecimento de que na próxima 2ª feira (5) se completarão 82 anos desde a estreia da obra-prima de Charlie Chaplin, Tempos modernos, um clássico absoluto, sobre a alienação do trabalhador nas grandes linhas de montagem das fábricas do passado.

Sempre lhe fiz a ressalva de ser demasiadamente parecido com A nós, a liberdade, de René Clair, anterior em cinco anos. Como dizia o Chacrinha, nada se cria, tudo se copia. E, como naquele tempo havia pouquíssima difusão dos filmes franceses nos EUA, temo que Chaplin tenha suposto que, se tomasse de empréstimo uma coisinha ou outra, isto passaria despercebido. Enfim, ninguém é perfeito...

Eis trechos de uma interessante crítica que encontrei, sem assinatura, no site do Partido Comunista Brasileiro:


Tempos Modernos foi o primeiro filme na era da grande indústria cinematográfica a desenvolver uma contundente crítica aos efeitos imediatos do processo de industrialização desencadeado após a chamada 2ª Revolução Industrial, ao mesmo tempo em que pautava, através do humor, as contradições do modelo fordista de produção, então exaltado como padrão de desenvolvimento produtivo e base para a sustentação do modo de vida consumista burguês, o denominado American way of life.

A exaustão humana desencadeada pelos esforços repetitivos na linha de produção, levando ao limiar da loucura; o uso da ciência e da alta tecnologia como ferramentas para otimizar a dominação na indústria; a alienação e o aumento do desemprego estrutural foram sarcasticamente tratados nesse filme. 

Em diversas cidades estadunidenses e europeias o filme foi censurado, causando a Chaplin constrangimentos políticos e prejuízos financeiros. 

Por fazer alusão ao movimento grevista e ao comunismo, num período em que vicejava o patrulhamento ideológico no universo da arte, antes mesmo do macarthismo do pós-guerra, o Departamento de Segurança dos EUA promoveu restrições ao filme e boicote à captação de recursos para outras obras de Chaplin. Durante algum tempo, o cineasta foi alvo de investigações sob a suspeita de propaganda comunista.

Chaplin, mesmo sem ter sido marxista, destacou o fetiche da mercadoria em cenas tais como os momentos em que o personagem Carlitos e a menina órfã sonham com uma vida melhor, cujos referenciais de felicidade, conforto e luxo são os parâmetros difundidos pela burguesia, objetos de desejo inacessíveis à classe trabalhadora, imersa na realidade de trabalho desumano, miséria e violência social, tornada ainda mais insuportável em tempos de crise capitalista.

O filme é irônico até no título, pois toda a modernidade enaltecida naquele período de expansão tecnológica encobria a trágica decadência dos padrões de sociabilidade humana, com as pessoas embrutecidas por uma vida sem sentido, em que o próprio tempo se subordina ao ritmo mecânico da lógica produtivista, voltada unicamente a atender as necessidades do mercado. 

A primeira cena é um grande relógio ditando o ritmo dos trabalhadores rumo à fábrica, comparados a animais a caminho do abatedouro...

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