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terça-feira, 8 de dezembro de 2020

OS SAUDOSOS DA SANTA INQUISIÇÃO E OS PATRULHEIROS CRICRIS SÃO APENAS DUAS FACES DA MESMA MOEDA: A VIL CENSURA! – 1

joão pereira coutinho
CASOS DE J. P. CUENCA E MONTEIRO LOBATO
REVELAM MALES: LITERALISMO E CENSURA
O
Brasil sempre me surpreende. Nos últimos dias, tenho acompanhado com interesse obsessivo as odisseias de J. P. Cuenca (vivo) e Monteiro Lobato (morto). 

Se o leitor não sabe do que estou falando, eu conto rápido.

O escritor J.P. Cuenca fez uma postagem nas redes em que afirmava: 
"O brasileiro só será livre quando o último Bolsonaro for enforcado nas tripas do último pastor da Igreja Universal".
Antigamente, uma pessoa medianamente ilustrada identificaria sem esforço a origem da paráfrase: ela pertence a Jean Meslier (1664-1729) e foi repetida, consoante os contextos, por nomes tão diversos como Diderot, Voltaire ou Garibaldi.

J. P. Cuenca é apenas o mais recente na fila e a metáfora é cristalina: ele deseja um Brasil sem Bolsonaros e sem a Igreja Universal –e não, como é óbvio, o enforcamento e o esventramento de um presidente e de um bispo.

Azar: parece que Cuenca está sendo processado em 21 estados por pastores evangélicos. O valor da indenização ascende a R$ 2,3 milhões.

O caso de Monteiro Lobato é igualmente interessante: nos últimos anos, e à semelhança do que sucede com Mark Twain, a obra do escritor brasileiro tem sido acusada de racismo. Que fazer?

Pessoalmente, discutir o assunto em liberdade, mas jamais mexer no conteúdo das obras. Quando muito, explicar apenas o contexto histórico, intelectual e mental em que os personagens de Monteiro Lobato foram criados.

A bisneta tem outras ideias: quer apagar o racismo pela exclusão ou alteração dos trechos mais problemáticos. 

Também aqui não há originalidade. George Orwell, no seu 1984, já tinha atribuído ao personagem de Winston esse nobre trabalho: apagar e reeditar o passado, continuamente, de forma a que ele se ajuste às sensibilidades políticas do presente.

Se os casos de J. P. Cuenca e Monteiro Lobato prenderam a minha atenção é porque eles revelam, de forma quase perfeita, os dois principais males intelectuais do nosso tempo: o literalismo e a censura. Ou, simplificando, a vontade absoluta de respeitar as palavras e a vontade igualmente absoluta de as destruir. Obviamente, as duas estão ligadas.

O literalismo é a incapacidade de ir além do texto –ou, inversamente, a incapacidade de aceitar o poder libertador da metáfora. Não interessa se falamos de um literalista religioso ou ideológico.

O que interessa é o tipo de mundo que ambos desejam: um deserto de ideias, arte, ciência, criatividade ou ironia.
No caso do literalista religioso, isso é duplamente aberrante: a metáfora que ele recusa aos outros é a linguagem preferencial de Jesus na Bíblia. Ou será que ele encara as parábolas como literais, afastando-se assim do seu real significado?

Mas a destruição do pensamento não se faz apenas por literalismo. Também se exerce pela censura de obras literárias. Diane Ravitch, já há alguns anos, escreveu um livro (The Language Police) em que mostrava os sucessivos atos de vandalismo perpetrados nos Estados Unidos sobre autores canônicos.

O caso mais célebre pertenceu a Thomas Bowdler e a Henrietta Maria Bowdler que, nos inícios do século 19, resolveram fazer uma edição familiar das obras de Shakespeare. Sexo, profanidades ou religião foram jogados no lixo, de tal forma que o apelido dos censores virou verbo: to bowdlerize, nos dicionários contemporâneos, significa cortar, expurgar, destruir.

É uma escola que deixou herdeiros no século 21: conta Ravitch que as editoras de livros escolares, tuteladas por agências federais ou estaduais, evitam uma longa lista de palavras, estereótipos ou assuntos que estão proibidos pela sensibilidade histérica do tempo: nigger, gipsy ou indian são candidatos óbvios.
Mas também há casos cômicos: onde antigamente se lia
Adão e Eva, deve ler-se Eva e Adão porque homens não têm prioridade sobre mulheres.

A bisneta de Monteiro Lobato julga que está fazendo um favor ao ilustre antepassado. Não está. Ela está abrindo a porta para que gerações futuras, dominadas pelas agendas do futuro, possam continuar o trabalho de corte e costura.

Como aceitar que um ser maléfico como o Saci só tenha uma perna? Não será isso um desrespeito pelos amputados? E etc. etc. –ad infinitum.

Repudiar o assédio judicial sobre J. P. Cuenca e a censura literária sobre Monteiro Lobato faz parte da mesma luta: a luta por uma sociedade adulta e livre. (por João Pereira Coutinho)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

EVIDENCIADA A EXISTÊNCIA DE VÍCIOS IRREPARÁVEIS NO PROCESSO ELEITORAL, HADDAD DEVERIA RETIRAR A CANDIDATURA

dalton rosado
BOLSONARO É A CRIA (PERIGOSA) DA
 DECADÊNCIA SISTÊMICA
A barbárie não é boa conselheira. Em nenhum lugar do mundo onde grassa a miséria se obteve a redenção por meio do processo eleitoral; isto acontece porque tal processo sempre foi dominado pelo poder econômico, o qual, num ambiente de pobreza crescente, concentração de riqueza e desigualdade social se torna ainda mais poderoso.

Trata-se de um cenário em que a chamada classe média, temerosa da perda dos seus recursos e privilégios, se apega conscientemente ao conservadorismo, enquanto os empobrecidos e miserabilizados são alvos fáceis de todo tipo de manipulação.

É chocante vermos um Donald Trump, ainda hoje, referir-se com tamanha insensibilidade à multidão de latinos centro-americanos (homens, mulheres e crianças) caminhando a pé em busca da meca do capitalismo: 
"Os Estados Unidos trabalharam bem. Os outros trabalharam mal e agora querem ameaçar a nossa prosperidade. Mas, vamos contê-los na fronteira e impor restrições econômicas aos seus países"
Fica bem evidenciado quão prepotente e vaidoso é o discurso dos vencedores na guerra capitalista mundial, na qual o capital prepondera como se fosse um modelo a ser seguido. 

Os algozes costumam atribuir às suas vítimas a culpa pelo mal que se lhes impõem. Trump é a imagem acabada da visão supremacista de mundo que considera que:
 —os ricos assim o são independentemente da existência dos pobres; e
— que são seus méritos pessoais que os tornam ricos e não inúmeros mecanismos político-econômicos-financeiros cuja base primária e funcional é a extração de mais-valia pelo trabalho abstrato em fase de obsolescência (a contradição explícita). Toda riqueza abstrata é trabalho abstrato acumulado e apropriado indebitamente.
Boçalnaro, o ignaro é a imagem terceiro-mundista do fanfarrão estadunidense, mais o sentimento militarista disciplinador de Adolf Hitler; e é justamente por isso que não hesita em antecipar (a partir de uma postura ditatorial aberta e anunciada sem pejo) sua intenção de revogar as franquias democráticas ainda existentes numa sociedade essencialmente injusta como a nossa.

Qualquer pessoa que conserve um sentimento mínimo de solidariedade humana fica estarrecida ao constatar a aceitação do discurso do ódio e do arbítrio por parte de brasileiros inconscientes de si mesmos e que, justamente por isto, tornam-se presas fáceis de uma manipulação grosseira mediante mentiras descaradas e bravatas inconsistentes.

Dize-me com quem andas e te direi quem és. Quem são as companhias visíveis e invisíveis de Boçalnaro, o ignaro
Pretenso outsider, ele já passou por 8 partidos, inclusive os de Paulo Maluf e Roberto Jefferson
As visíveis são seus filhos que empilham mandatos como pretendentes a uma dinastia política. Eles agora se danam a dizer sandices que logo depois têm de ser desmentidas por eles mesmos, ainda que as imagens e falas gravadas comprovem o seu verdadeiro conteúdo imbecilizado.

Outros ainda visíveis são militares de altas patentes reformados, que sentem o vazio em suas vidas a partir da troca da farda pelos pijamas e querem recuperar o poder pela via da força. 

Outros mais, seus colegas de profissão, são políticos que representam a escória da vida pública brasileira, sempre ávidos em exercerem o seu fisiologismo aderindo às medidas impopulares, desde que lhes sejam politicamente vantajosas. São aqueles que não mudam nunca porque estão sempre a favor dos governos, quaisquer que seja o partido no poder.

Mas, há também os apoiadores invisíveis. São banqueiros, grandes empresários insensíveis da indústria, do comércio e do agronegócio, segregacionistas por excelência, mas encarados por muitos ingênuos explorados como os empregadores capazes salvá-los da fome e da penúria (não percebendo que suas riquezas advêm justamente do valor do trabalho subtraído e acumulado pelo capital). 
Quão triste é vermos a negação de valores humanistas serem apologeticamente alardeados como medidas virtuosas!

Quão desalentador é presenciarmos alguém que faz questão de identificar-se com um torturador e assassino de presos indefesos (um criminoso vil e hediondo como o coronel Brilhante Ustra!), ser incensado impunemente como defensor da sociedade! 

Um pretenso fim virtuoso justificará a incidência em práticas aviltantes da dignidade humana? Não, nunca! A perversidade é sempre o caminho para atitudes monstruosas, deve ser combatida logo no seu nascedouro.

Como não nos indignarmos quando eleitoras manifestam a intenção de votar em alguém que, do púlpito do parlamento, sob a forma de piada de mau gosto, afirma que mulheres feias e desprovidas de atração sensual não merecem ser por ele estupradas?!

Como admitir-se que um candidato a presidente manifeste a intenção de prender e mandar para o exílio seus opositores? Será que ele só consegue conviver com quem lhe diga amém,  independentemente de pregar ilegalidades? 

Como admitir alguém cujo vice-candidato à Presidência um é um general capaz de afirmar publicamente que índios e negros (base auspiciosa da nossa miscigenação) se constituem como sub-raças culpadas pelos nossos infortúnios históricos? 

Como admitir-se alguém que exerce mandatos políticos há três décadas e levou seus filhos para o mesmo caminho, tendo assim conseguido para sua família um padrão de vida muito superior à grande maioria dos brasileiros, fingir-se agora de inconformado com as mazelas dos políticos profissionais, como se fosse um outsider pronto para chutar o pau da barraca sob a qual se abrigou até hoje (e de inverter as regras constitucionais às quais prestará juramento caso eleito)?

Não, Boçalnaro ignaro. O Brasil é suficientemente grande, rico em riquezas materiais (embora não aproveitadas a contento), populoso e detentor de saberes para não aceitar no pós-eleição um mero estereótipo de ditadorzinho de república das bananas

O povo brasileiro já está sofrido demais para aceitar calado as imposições que o capitalismo em fim de feira faz aos países por ele tratados como secundários e periféricos, que são por ele explorados mas não podem ser por ele atendidos. 

Definitivamente não somos uma república de bananas e, caso você seja eleito, tome posse e consiga governar, a nossa população de mais de 200 milhões de habitantes decerto lhe mostrará com quantos paus se faz uma jangada (para utilizar uma expressão cearense).  
   
Se a barbárie sob a qual vivemos pode induzir o povo, desesperado em sua maioria, a um desvaio eleitoral, a fome de tudo, associada ao processo de conscientização e luta que logo aflorará, vai desfazer as ilusões autoritárias. Não será na força bruta que você vai vergar a nossa gente sofrida. Nosso povo não vai aceitar calado a dor do chicote. 

Os momentos históricos que vivenciamos e aqueles do passado que estudamos a fundo nos ensinam que o padecimento de hoje pode servir para uma virada futura que nos conduza a uma sociedade emancipada.

Diante de todas as iniquidades que estão descaracterizando a disputa eleitoral, com flagrante imposição do poder econômico e fraudes eleitorais as mais diversas, sugiro ao Fernando Haddad que retire a sua candidatura. 

Assim, passaríamos de imediato a questionar a legitimidade desta eleição, unindo os brasileiros civilizados numa frente ampla de resistência às promessas criminosas e às ilegalidades autoritárias apregoadas por Boçalnaro, o ignaro. (por Dalton Rosado)

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

ASSISTA NO BLOG AO FILME QUE COLOCOU AS AUTORIDADES DOS EUA EM PÉ DE GUERRA CONTRA CHAPLIN

Nos dias em que a mesmice domina o noticiário e não encontro nenhum tema inspirador para desenvolver, ou mesmo texto alheio interessante para importar, vou, em desespero de causa, consultar as efemérides próximas, na esperança de encontrar algo aproveitável.

Hoje (1º) se completam 110 anos que o rei Carlos I de Portugal e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em Lisboa por militantes republicanos. 

Quando eu era bem mais jovem, não deixava de ver certa justiça poética na frase do sacerdote católico francês Jean Meslier (1664-1729), às vezes atribuída erroneamente a Voltaire ou a Diderot, segundo a qual "o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre". Mas, o ódio já anda transbordando nas redes sociais, para que destacar mais episódios sangrentos? Deixemos o regicídio pra lá.

O aiatolá Khomeini regressou em 01/02/1979 ao Irã, trazendo o fanatismo religioso medieval na bagagem. O que já era péssimo com o xá Reza Pahlavi ficou ainda pior, se isto é possível, com os fundamentalistas malucos. Também passo. De retrocessos chegam os do Brasil.

Também neste dia, em 2003, o ônibus espacial Columbia se desintegrou ao retornar à Terra, matando seus sete tripulantes. Sempre vi com desagrado o esforço dos seres humanos para tornarem infernal a vida também nos outros planetas. Temos mais é de resolver nossos gravíssimos problemas atuais. Outra pauta descartada.
Assim como os aniversários de nascimento de John Ford, Clark Gable e Boris Iéltsin, e também o de falecimento de Buster Keaton. Nada tenho de especial a dizer sobre nenhum dos quatro.

Fui avançando pelos dias seguintes e a luz só acendeu para mim ao tomar conhecimento de que na próxima 2ª feira (5) se completarão 82 anos desde a estreia da obra-prima de Charlie Chaplin, Tempos modernos, um clássico absoluto, sobre a alienação do trabalhador nas grandes linhas de montagem das fábricas do passado.

Sempre lhe fiz a ressalva de ser demasiadamente parecido com A nós, a liberdade, de René Clair, anterior em cinco anos. Como dizia o Chacrinha, nada se cria, tudo se copia. E, como naquele tempo havia pouquíssima difusão dos filmes franceses nos EUA, temo que Chaplin tenha suposto que, se tomasse de empréstimo uma coisinha ou outra, isto passaria despercebido. Enfim, ninguém é perfeito...

Eis trechos de uma interessante crítica que encontrei, sem assinatura, no site do Partido Comunista Brasileiro:


Tempos Modernos foi o primeiro filme na era da grande indústria cinematográfica a desenvolver uma contundente crítica aos efeitos imediatos do processo de industrialização desencadeado após a chamada 2ª Revolução Industrial, ao mesmo tempo em que pautava, através do humor, as contradições do modelo fordista de produção, então exaltado como padrão de desenvolvimento produtivo e base para a sustentação do modo de vida consumista burguês, o denominado American way of life.

A exaustão humana desencadeada pelos esforços repetitivos na linha de produção, levando ao limiar da loucura; o uso da ciência e da alta tecnologia como ferramentas para otimizar a dominação na indústria; a alienação e o aumento do desemprego estrutural foram sarcasticamente tratados nesse filme. 

Em diversas cidades estadunidenses e europeias o filme foi censurado, causando a Chaplin constrangimentos políticos e prejuízos financeiros. 

Por fazer alusão ao movimento grevista e ao comunismo, num período em que vicejava o patrulhamento ideológico no universo da arte, antes mesmo do macarthismo do pós-guerra, o Departamento de Segurança dos EUA promoveu restrições ao filme e boicote à captação de recursos para outras obras de Chaplin. Durante algum tempo, o cineasta foi alvo de investigações sob a suspeita de propaganda comunista.

Chaplin, mesmo sem ter sido marxista, destacou o fetiche da mercadoria em cenas tais como os momentos em que o personagem Carlitos e a menina órfã sonham com uma vida melhor, cujos referenciais de felicidade, conforto e luxo são os parâmetros difundidos pela burguesia, objetos de desejo inacessíveis à classe trabalhadora, imersa na realidade de trabalho desumano, miséria e violência social, tornada ainda mais insuportável em tempos de crise capitalista.

O filme é irônico até no título, pois toda a modernidade enaltecida naquele período de expansão tecnológica encobria a trágica decadência dos padrões de sociabilidade humana, com as pessoas embrutecidas por uma vida sem sentido, em que o próprio tempo se subordina ao ritmo mecânico da lógica produtivista, voltada unicamente a atender as necessidades do mercado. 

A primeira cena é um grande relógio ditando o ritmo dos trabalhadores rumo à fábrica, comparados a animais a caminho do abatedouro...

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