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terça-feira, 29 de agosto de 2023

GOSTARIA DE CRER QUE ERA O DIA DA GRAÇA DO FAUSTÃO. MAS QUEM ASSINA CHEQUE EM BRANCO UM DIA ACORDA DEBAIXO DA PONTE

No último grande festival de música popular realizado antes da decretação do Ato Institucional nº 5, o IV da TV Record, Sérgio Ricardo foi obrigado a alterar versos de sua Dia da Graça por imposição da censura.

A letra falava num "dia de alegria", com "a cidade diferente da normalidade", sem os acontecimentos habituais daquela época turbulenta: "nenhum militar de arma em punho", "nenhum estudante morreu", "nenhum inocente foi julgado e ninguém se matou". 

Mas, bem no finalzinho, o autor da inesquecível trilha musical de Deus e o Diabo na Terra do Sol esclarece que se tratava de um "canto que eu conto pra mentir, de 1º de abril".

Já os acontecimentos positivos daquele dia hipotético seriam, entre outros, estes: "retoma o povo o seu lugar na praça", "o Brasil exportou toda banana e o café solúvel", "funcionários e operários ganham novo aumento" e... "o novo coração do paciente batendo apaixonadamente pela enfermeira"..

Bem, o Faustão viveu o seu dia da graça neste 27/08 e muitos textos pipocaram pela imprensa discutindo a possibilidade de a lista de pacientes à espera de transplante do coração haver sido por ele furada.

Como nunca tive tal lista em mãos, não posso, em sã consciência, dizer se anteontem existiam ou não pacientes mais merecedores do transplante além daquele que, em primeiro lugar na relação, teria desistido da graça a ele concedida.  

Mas, como se trata de uma questão de vida ou morte e como existe uma clamorosa tendência a se privilegiarem no Brasil os magnatas, os poderosos e os famosos em questões desse tipo, afirmo que só  ingênuos descartam a possibilidade de autoridades da área médica, ou de quaisquer outras áreas, se vergarem ao populismo reinante no país. 

Aqui é o fim do mundo, Torquato Neto dixit e eu canso de repetir.

Então, também nessa dramática escolha entre os que vão viver e os que vão morrer deveria haver alguém isento verificando se as decisões tomadas foram imparciais como teriam obrigatoriamente de ser. 

Ou seja, uma espécie de ombudsman ou ouvidor, como existem no jornalismo e em várias outras atividades. 

Nada contra o Faustão, que parece ser uma pessoa de bem. Não me desagrada nem um pouco a sua salvação. 

Mas, se havia 386 pessoas esperando por um coração, é pertinente indagarmos se era mesmo ele a segunda mais necessitada de uma solução imediata.

O sistema de seleção (vide aqui) parece estar imune a intervenções por baixo do pano para que sejam contemplados os mais iguais. A coisa dependeria toda de médicos e computadores. Só que...
...só que nestes tristes trópicos, depois de todas as decepções que tivemos durante a recente pandemia, ficamos logo com uma pulga atrás da orelha quando um famoso parece ter sido beneficiado indevidamente. 

Se foi clamorosamente falseada a quantidade de óbitos resultantes da covid, a ponto de grandes órgãos de imprensa terem de formar uma equipe conjunta para conferir as totalizações do Ministério da Saúde (o que só dificultava a manipulação dos dados na reta de chegada, mas nada podia fazer quando municípios e estados já tivessem enviado os números devidamente maquilados), então tudo é possível.   

No Brasil, quem assina cheque em branco um dia acorda embaixo da ponte. E quem põe as mãos no fogo acaba maneta  (por Celso Lungaretti)
A canção Dia da Graça está na altura de 4:06

sábado, 16 de abril de 2022

A ARCA DO LULA NAVEGA SEM PRUMO NEM RUMO NUM MINGAU DE PALAVRAS

mário sérgio conti
ENQUANTO LULA DESCAMBA PARA O PALAVRÓRIO,
MÉLENCHON APRESENTOU UM PROGRAMA PARA A FRANÇA
Mélenchon: um candidato de esquerda que
propôs um consistente programa de esquerda.
A
derrota não inspira, abate. A fala com que Jean-Luc Mélenchon admitiu que não iria ao 2º turno foi uma exceção. 

O candidato da França Insubmissa até puxou o coro a luta continua, um clássico da esquerda vencida. Mas não semeou ilusões.

"Não vamos esconder a violência da decepção", disse. Ele perdeu de Marine Le Pen por 421 mil votos, menos de 1% do eleitorado. 

Seu desencanto não foi com o PS, o PCF e os Verdes. Se tivessem se juntado a ele, venceriam a candidata racista e empatariam com o dos ricos, Macron.

Sua decepção era com o amanhã, com o "que poderia ser feito e não será". Quanto ao futuro mais à frente, alertou:
"Como o mais velho entre vocês, é meu dever dizer que nossa única tarefa é a que o mito de Sísifo realiza: o rochedo cai no barranco, e o puxamos para cima".
Falar que o futuro será íngreme e não se triunfa sem engajamento é um realismo raro na política. Mas algo foi feito:
"Temos uma estratégia, a do polo popular. Temos um programa. Temos outras eleições à frente". 
Com 70 anos, Mélenchon passou a tocha para os jovens: "Façam melhor".

Ele foi o preferido entre de 18 a 34 anos. Teve mais votos que a soma dos adversários nos departamentos de ultramar. Venceu na Grande Paris, em Marselha e Lyon, em Lille e Toulouse. Tinha um programa e as palavras certas para convencer as gentes.

Lula: lembra mais um animador de auditório,
como Sílvio Santos e Faustão, do que um líder.
Para Mélenchon, a França está dividida em três polos. O do liberalismo predatório de Macron. O da extrema direita de Le Pen. E o polo popular da França Insubmissa

Defendeu que o país vive quatro crises combinadas: social, energética, europeia e política.

Para enfrentar a primeira, propôs aumentar o salário mínimo para 1.400 euros; aposentadoria aos 60 anos (Macron a quer aos 65, e Le Pen, mantê-la aos 62); taxação das grandes fortunas; mais verbas para escolas e hospitais. Na energia, queria trocar usinas nucleares por combustível limpo.

No plano continental, pregou que a França saia da Otan –o que exorcizaria guerras– e que a União Europeia sirva aos povos, e não ao capital. Contra a Constituição caduca, convocaria uma assembleia constituinte soberana para fundar uma república livre, fraterna e igualitária.

Nada disso tem a ver com o Brasil. O polo liberal daqui é uma briga de foice no escuro. Já o da extrema-direita tem começo (provocação), meio (putsch milico-miliciano se perder a eleição) e fim (ditadura). Aposta na arruaça, em instituições lassas e em liberais tíbios.

O PT poderia pôr de pé o polo popular, mas prefere abarrotar de cobras e lagartos uma arca de Noé maior que o Maracanã. Sua meta é vencer Bolsonaro por meio de conchavos com bichos do arco da velha. E tome coquetéis com monstros furta-cor e furta-tudo. Se alguém critica, lá vem o berro: senta que o leão é manso!

Caso a nau bolsonarista vá a pique, a arca de Lula se verá num dilúvio sem o mapa de um programa. Por isso ziguezagueia e solta pombas para achar um porto. Jura que, se o mar fosse de cerveja, Putin não invadiria a Ucrânia. Profetiza um tempo sem maremotos.

A arca do polo sem prumo nem rumo navega num mingau de palavras. Não cabem comparações à França porque a palavra política tem pesos diversos. Lá, ela está colada à luta. Cá, é deixa-disso pastoso.
Lá: a oratória popular se assenta numa história de embates que remonta a 1789. Passa pelo regicídio de Luís 16 e a Comuna de Paris, pela resistência ao nazismo e o maio de 1968. 

Ainda ontem, pulsava na fronda dos coletes amarelos. Tribuno nato, Mélenchon é fruto dessa tradição.

Cá: à força de escravidão e analfabetismo, as classes dominantes fizeram da palavra política uma ferramenta de dominação. Vide o rococó dos preclaros confrades, as bacharelices que prostram e engabelam a malta.

A verve elétrica de Lula vem do sindicalismo combativo, mas às vezes descamba para o palavrório de Silvio Santos e Faustão. Ele parece se deliciar com a algaravia, lembra mais um animador de auditório que um líder. Orra, meu.

A diferença é nítida nos comícios. Em Paris, Mélenchon falou uma hora num palanque sem papagaios de pirata. O som era claro e dezenas de milhares o escutaram em silêncio. Sem vulgaridades, convenceu-os que só persuadindo quem não estava ali poderiam vencer.

Mesmo após a proibição de
showmícios, há no Brasil mais gente no palco que na plateia. Partidos se estapeiam numa cacofonia de palavras de ordem e bandeiras. O som é horrível e não se ouve o orador. 

Como na proclamação da República, assistimos a tudo bestializados. (por Mário Sérgio Conti, superlativo!)

domingo, 24 de julho de 2016

HÁ 1.840 MANSÕES EM SÃO PAULO; SUA ÁREA PODERIA ABRIGAR 107 MIL FAMÍLIAS.

A majestosa mansão no Morumbi do antigo dono do Banco Santos. "E o corvo disse: nunca mais!"
Poucos ainda se lembram de que Ary Toledo, hoje com 78 anos, se projetou como um talentoso compositor e intérprete da voga da chamada Moderna Música Popular Brasileira, inclusive emplacando um grande sucesso: "Pau de arara", de Carlos Lyra e Vinícius de Moraes. 

Depois, descobriu um filão mais rentável e a ele, melancolicamente, se limitou: o das músicas pornográficas e escatológicas, que passou a gravar e também a interpretar no teatro (entremeadas com piadas obscenas, de extrema vulgaridade, apropriadas para meninos de 12 anos e adultos com cérebro equivalente).

Pasmem: um dia ele foi artista de verdade!
Uma das pérolas de quando Ary Toledo ainda era um artista de verdade: "O anúncio", de César Roldão Vieira, que ele chegou a cantar, há cerca de meio século,  no saudoso Fino da Bossa.

A canção contrastava dois universos. O do camponês paupérrimo era apresentado nos trechos cantados, tendo versos como estes:

"No sertão a vida é triste,
minha gente sofre muito,
o que mais se tem no mundo é morte,
o que mais se tem na vida é morte,
mas, meu Deus do céu, sou homem,
não vou sair do meu Norte... 
Quando eu era menino, tinha um cachorro
e uma beleza de canarinho.
Tudo passou, daqui a pouco eu morro
e é só tristeza no meu caminho... 
Eu só queria um boi, uma vaca magra
e um casebre para morar,
batendo a foice, facão, enxada,
ganhar da terra o que a terra dá!"
Ferreira ficou sem adega. Tadinho!
Já o dos ricaços do bairro paulistano onde morava a chamada elite quatrocentona, era retratado num anúncio de jornal, apenas lido no meio da canção: 
"Compra-se casa, mansão ou palacete no Jardim América, com um mínimo de 17 quartos para criadagem e sala de estar, de jogar, de dançar, de fumar, de brilhar, salões de chá, café e chocolate, piscina, jardim de inverno e de outono, quintal onde se possa praticar esportes caseiros como hipismo, golfe, tênis e bola-ao-cesto, além de acomodações dignas para cães, gatos e onças de pequeno porte (de preferência com aquecimento interno). É desejável a existência de um pequeno pequeno aeroporto de dimensões internacionais...".
A versão atualizada dessa música, meio século depois, é a notícia publicada na edição dominical da Folha de S. Paulo, segundo a qual existem na capital paulista 1.840 mansões com mais de 700 metros quadrados, cuja área total, equivalente a mais de dois parques Ibirapuera, seria suficiente para construir prédios populares capazes de abrigar 107,2 mil famílias, eliminando, de uma tacada só, quase um terço do déficit habitacional do município.

A segunda maior da lista, com 8.182 m² de área, pertence a Edemar Cid Ferreira, ex-controlador do Banco Santos, que sofreu intervenção do Banco Central em 2004 e teve sua falência decretada no ano seguinte. 
A mansão do Faustão está na lista

Ele foi condenado a 21 anos de prisão, por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta, tendo também respondido a processo na vara de Falências. Já esteve preso, mas o Supremo Tribunal Federal o colocou na rua e, no ano passado, a Justiça Federal decidiu anular toda a fase de interrogatório e a sentença do seu processo, que voltou à estaca zero

A Justiça de São Paulo determinou, em fevereiro de 2015, que sua mansão no Morumbi fosse levada a leilão pelo valor mínimo de R$ 116,5 milhões. Segundo o despacho, a mansão, cujo projeto arquitetônico foi assinado por Ruy Ohtake e conta com paisagismo de Burle Marx, tinha automação gerenciada por sistema eletrônico, incluindo controle remoto da sonorização, sistemas de vídeo, sistemas de iluminação e de segurança. Além disso, todos os ambientes eram climatizados por sistemas centrais de ar-condicionado.

Investidores perderam cerca de US$ 1 bilhão que aplicaram em bancos controlados por Ferreira ou ligados a ele.

Fausto Silva, o Faustão, também possui seu elefante branco, com 4.635 m², avaliado em R$ 22 milhões.
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