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domingo, 13 de abril de 2025

ESQUEÇAM JOHN FORD: NENHUM DIRETOR ESTADUNIDENSE DE WESTERNS FOI MAIOR QUE SAM PECKINPAH. VEJAM E CONSTATEM

John Ford tem uma baita lista de westerns no seu currículo e alguns foram muito marcantes, como No tempo das diligências (1939), Paixão dos fortes (1946), Rastros de ódio (1956) e O homem que matou o facínora (1962).

Bem maior, contudo, é a relação dos seus bangue-bangues convencionais, feitos para serem exibidos nas matinês de domingo e depois esquecidos. 

Afora terem abordagens ingênuas, na linha da imagem que a classe média dos EUA cultivava de si própria, bem como cativas dos valores que o cinema de Hollywood era obrigado a martelar na cabeça de seus públicos (caso da prevalência da lei e da ordem em territórios que, na verdade, estavam mais para grotões selvagens, onde a verdadeira lei era a do mais forte).

Então, embora com um número bem menor de títulos do gênero, em termos qualitativos Sam Peckinpah foi o cineasta mais foi fiel ao velho Oeste como ele era e não na visão bonitinha mas ordinária que os estadunidenses adoram projetar. 

Pôde fazê-lo por ter-se afirmado exatamente na década de 1960, quando o cinema dos EUA começou a voltar-se para enfoques críticos, deixando de ser a fábrica de ilusões de até então. Peckinpah, descendente dos índios paiutes, era bem o diretor capaz de mostrar aquilo que antes era escondido debaixo do tapete. 

E o fez de forma magnífica, em westerns tais quais Pistoleiros do entardecer (1962), Meu ódio será sua herança (1969), Pat Garrett e Billy the Kid (1973) e Tragam-me a cabeça de Alfredo Garcia (1974)

[Isto sem falar noutros tantos clássicos ambientados na atualidade (Sob o domínio do medo/1971, Cruz de Ferro/1977, etc.)]

A visão de Peckinpah sobre esses dois personagens lendários do velho Oeste destaca o aspecto de terem sido ambos foragidos e amigos antes de Garrett (James Coburn), sentindo o peso dos anos e ansiando por uma vida mais tranquila, tornar-se xerife e ser obrigado a perseguir Billy (Kris Kristofferson).

Cheio de remorsos por estar desempenhando um papel que lhe repugna, ele parece mais velho e acabado a cada aparição na tela. É um faroeste outonal sobre a má consciência e tem uma trilha musical magistral de Bob Dylan (que também atua como ator secundário) realçando a melancolia da longa perseguição por um enorme território, o que torna muito difícil seus caminhos se cruzarem.

Lamentavelmente, tanto no lançamento cinematográfico no Brasil quanto na primeira versão em VHS havia um corte de quase 20 minutos, mutilando a poesia do filme. Fazia enorme diferença. (por Celso Lungaretti)   

Clique aqui para ver Pat Garrett e Billy the Kid completo no Youtube

terça-feira, 13 de novembro de 2018

CONHEÇA O FILME DE DESPEDIDA DE JOHN WAYNE, QUE ACABOU ANTECIPANDO AS CIRCUNSTÂNCIAS DE SUA MORTE...

Mesmo não simpatizando com o indivíduo Marion Robert Morrison nem vendo John Wayne (seu nome artístico) como um grande ator, considero excelente a sua fita de despedida, O último pistoleiro, de 1976, que tenho muita satisfação em incluir na relação dos filmes para ver no blogue.

Ele começou em 1926, com três papéis tão secundários que não lhe foram creditados, e foi fazendo sucessivas pontas até 1929, quando seu nome finalmente apareceu nos letreiros iniciais de Letra e Música (dirigido por James Tiling), uma comédia musical. Era sua 15ª atuação em Hollywood, tendo ficado incógnito nas 14 primeiras e também nas seis seguintes. 

Apesar de um início de carreira tão pouco promissor, a sorte lhe sorriu em 1930, quando, sem escala intermediária, passou de coadjuvante nem sequer mencionado a protagonista com nome em destaque nos cartazes, começando por um filme sobre caravana de pioneiros em território selvagem, A grande jornada (d. Raoul Walsh). 

A partir daí foi deslanchando sua carreira de meio século e 177 aparições nas telas, com ênfase nos bangue-bangues – ainda mais depois de interpretar Johnny Ringo no clássico de John Ford que praticamente definiu as características do gênero western: No tempo das diligências (1939).

Não fui com a cara dele desde as matinês do cine Aliança, pulgueiro de minha meninice no bairro da Mooca. Por nenhum motivo específico. Simplesmente preferia mocinhos mais caladões e feiosos, como o Randolph Scott. 
Wayne e James Stewart estavam chegando aos 70 anos
Só bem depois fui me dando conta de que motivos para eu não gostar dele existiam mesmo. Wayne era um reacionário empedernido, anticomunista histérico, símbolo das fantasias heroicas  sobre si mesmos em que os estadunidenses tanto querem acreditar e tanto esforçam-se para fazer com que acreditemos.

E foi responsável por um filme simplesmente repulsivo, Os boinas verdes (1968), criticadíssimo na época, peça de propaganda para tentar tornar simpática a guerra suja que os EUA travavam no Vietnã. Foi um empreendimento familiar, com seu filho mais velho produzindo e ele co-dirigindo, além de atuar como ator principal. 

Traíra por convicção, ficou contra seus colegas de Hollywood perseguidos pelo marcartismo. Então, quando Fred Zinneman realizou o mais digno western estadunidense de todos os tempos (Matar ou morrer, em 1952), fez questão de marcar posição contrária.

Filme-desabafo, com extraordinária atuação de Gary Cooper, Matar ou morrer mostra o estimado xerife Will Kane, prestes a entregar o cargo após a cerimônia de seu casamento, recebendo a notícia de que um bandidão fora libertado da prisão e vinha num trem para vingar-se dele, juntamente com três capangas que aguardavam sua chegada na estação.
Um adversário ilustre no duelo final: Richard Boone

O sentimento de dever obriga Kane a permanecer com a estrela e enfrentar o quarteto. Toda a cidade, sob os mais cínicos pretextos, o abandona à própria sorte. No final, desistindo de buscar auxílio, decide encarar a batalha sozinho. 

Vence e vai imediatamente embora com sua esposa, enojado, atirando a estrela no chão. Era como os artistas perseguidos pelo macartismo sentiam-se, num momento ídolos, no momento seguinte párias. 

Wayne, sem sequer a sinceridade de assumir sua discordância ideológica com os realizadores e atores de Matar ou morrer, questionou publicamente o detalhe de o mocinho não se comportar como o machão típico que se vira sozinho, dispensando ajuda. 

E, mais tarde, fez questão de destacar nas entrevistas que Onde termina o inferno (no qual atuou em 1959, sob a batuta de Howard Hawks) é que era fiel ao que se esperava de um mocinho em tais situações.

Feita esta longa ressalva, falta dizer que, de qualquer maneira, Wayne ajudou a consagrar filmes superlativos como Rastros de ódio (d. John Ford, 1956) e O homem que matou o facínora (d. John Ford, 1962). É justo lhe reconhecermos este mérito.
Um anti-Matar ou morrer? Menos...

E que chega a ser comovente ele, após difícil e vitoriosa luta contra um câncer de pulmão, ter personificado um lendário homem-da-lei canceroso neste O último pistoleiro, do grande diretor Don Siegel. 

Informado de que lhe resta pouco tempo de vida, resolve passá-lo na cidade onde foi consultar o médico (o saudoso James Stewart), hospedando-se na pensão de uma viúva (Lauren Bacall); acaba por se tornar um herói para o jovem filho dela, experimentando, pela primeira vez, a sensação da paternidade. 

Quando percebe que está nas últimas, desafia três bons atiradores a juntos enfrentarem-no num duelo mortal, na esperança de ter um final de vida mais condizente com a existência que levara, ao invés de amargar até o fim uma agonia de enfermo.

Por ironia do destino, em 1979 Wayne morreria como consequência de um tumor diferente, dessa vez no estômago. Estava com 72 anos.

Recentemente ele foi mostrado de forma muito negativa em Trumbo - lista negra (d. Jay Roach, 2015), como o ator fortão que quase agride o franzino roteirista Dalton Trumbo por estar distribuindo panfletos num evento de Hollywood.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

ASSISTA NO BLOG AO FILME QUE COLOCOU AS AUTORIDADES DOS EUA EM PÉ DE GUERRA CONTRA CHAPLIN

Nos dias em que a mesmice domina o noticiário e não encontro nenhum tema inspirador para desenvolver, ou mesmo texto alheio interessante para importar, vou, em desespero de causa, consultar as efemérides próximas, na esperança de encontrar algo aproveitável.

Hoje (1º) se completam 110 anos que o rei Carlos I de Portugal e o príncipe herdeiro Luís Filipe foram assassinados em Lisboa por militantes republicanos. 

Quando eu era bem mais jovem, não deixava de ver certa justiça poética na frase do sacerdote católico francês Jean Meslier (1664-1729), às vezes atribuída erroneamente a Voltaire ou a Diderot, segundo a qual "o homem só será livre quando o último rei for enforcado nas tripas do último padre". Mas, o ódio já anda transbordando nas redes sociais, para que destacar mais episódios sangrentos? Deixemos o regicídio pra lá.

O aiatolá Khomeini regressou em 01/02/1979 ao Irã, trazendo o fanatismo religioso medieval na bagagem. O que já era péssimo com o xá Reza Pahlavi ficou ainda pior, se isto é possível, com os fundamentalistas malucos. Também passo. De retrocessos chegam os do Brasil.

Também neste dia, em 2003, o ônibus espacial Columbia se desintegrou ao retornar à Terra, matando seus sete tripulantes. Sempre vi com desagrado o esforço dos seres humanos para tornarem infernal a vida também nos outros planetas. Temos mais é de resolver nossos gravíssimos problemas atuais. Outra pauta descartada.
Assim como os aniversários de nascimento de John Ford, Clark Gable e Boris Iéltsin, e também o de falecimento de Buster Keaton. Nada tenho de especial a dizer sobre nenhum dos quatro.

Fui avançando pelos dias seguintes e a luz só acendeu para mim ao tomar conhecimento de que na próxima 2ª feira (5) se completarão 82 anos desde a estreia da obra-prima de Charlie Chaplin, Tempos modernos, um clássico absoluto, sobre a alienação do trabalhador nas grandes linhas de montagem das fábricas do passado.

Sempre lhe fiz a ressalva de ser demasiadamente parecido com A nós, a liberdade, de René Clair, anterior em cinco anos. Como dizia o Chacrinha, nada se cria, tudo se copia. E, como naquele tempo havia pouquíssima difusão dos filmes franceses nos EUA, temo que Chaplin tenha suposto que, se tomasse de empréstimo uma coisinha ou outra, isto passaria despercebido. Enfim, ninguém é perfeito...

Eis trechos de uma interessante crítica que encontrei, sem assinatura, no site do Partido Comunista Brasileiro:


Tempos Modernos foi o primeiro filme na era da grande indústria cinematográfica a desenvolver uma contundente crítica aos efeitos imediatos do processo de industrialização desencadeado após a chamada 2ª Revolução Industrial, ao mesmo tempo em que pautava, através do humor, as contradições do modelo fordista de produção, então exaltado como padrão de desenvolvimento produtivo e base para a sustentação do modo de vida consumista burguês, o denominado American way of life.

A exaustão humana desencadeada pelos esforços repetitivos na linha de produção, levando ao limiar da loucura; o uso da ciência e da alta tecnologia como ferramentas para otimizar a dominação na indústria; a alienação e o aumento do desemprego estrutural foram sarcasticamente tratados nesse filme. 

Em diversas cidades estadunidenses e europeias o filme foi censurado, causando a Chaplin constrangimentos políticos e prejuízos financeiros. 

Por fazer alusão ao movimento grevista e ao comunismo, num período em que vicejava o patrulhamento ideológico no universo da arte, antes mesmo do macarthismo do pós-guerra, o Departamento de Segurança dos EUA promoveu restrições ao filme e boicote à captação de recursos para outras obras de Chaplin. Durante algum tempo, o cineasta foi alvo de investigações sob a suspeita de propaganda comunista.

Chaplin, mesmo sem ter sido marxista, destacou o fetiche da mercadoria em cenas tais como os momentos em que o personagem Carlitos e a menina órfã sonham com uma vida melhor, cujos referenciais de felicidade, conforto e luxo são os parâmetros difundidos pela burguesia, objetos de desejo inacessíveis à classe trabalhadora, imersa na realidade de trabalho desumano, miséria e violência social, tornada ainda mais insuportável em tempos de crise capitalista.

O filme é irônico até no título, pois toda a modernidade enaltecida naquele período de expansão tecnológica encobria a trágica decadência dos padrões de sociabilidade humana, com as pessoas embrutecidas por uma vida sem sentido, em que o próprio tempo se subordina ao ritmo mecânico da lógica produtivista, voltada unicamente a atender as necessidades do mercado. 

A primeira cena é um grande relógio ditando o ritmo dos trabalhadores rumo à fábrica, comparados a animais a caminho do abatedouro...

sexta-feira, 14 de março de 2014

A MEMÓRIA É TRAIÇOEIRA

Vejam como descrevi uma grande defesa de Gilmar dos Santos Neves, na partida mais difícil que o Brasil travou para conquistar o Mundial da Fifa de 1962, contra a Espanha:
"...bola levantada na área brasileira, o goleiraço Gilmar saiu para esmurrá-la na marca do pênalti, evitando a cabeçada de um atacante adversário. Só que, com ele trombando, foi para o solo e parecia fora de ação.
O talentoso ponta-esquerda Gento apanhou o rebote na meia-lua, deu um chute certeiro por cobertura e se preparava para comemorar o gol quando Gilmar, tomando impulso com a mão e o pé esquerdos, conseguiu alçar-se na perpendicular, saltando como um golfinho, para espalmar a bola com a mão direita.
Assisti ao teipe no dia seguinte, pois ainda não havia transmissão direta pela TV. E foi a defesa mais incrível e inverossímil que vi na vida...."
Bacana, não? Só que, infelizmente para mim, não foi assim que o lance aconteceu. Vocês podem vê-lo no quarto minuto do vídeo abaixo. Uma defesa de puro reflexo do goleiraço brasileiro, dificílima e fundamental para a sorte da nossa seleção naquela Copa, mas sem pulo de golfinho nenhum.


Eu só a assistira daquela vez em que o teipe passou na TV. Meio século depois, a recordação que me ficou era exagerada, como são muitas da nossa meninice (eu estava com 11 anos).

Só agora encontrei no Youtube um vídeo com o registro desta jogada; nem no filme oficial da Fifa entrou. Então, percebi ter sido vítima, mais uma vez, da memória traiçoeira.

Paciência. Não tenho compromisso com a infalibilidade. E o lance que se formara na minha mente, maquilado pela nostalgia de tempos felizes, era ainda mais belo do que o real.

Sem querer, obedeci ao conselho que um experiente editor dá no filme O homem que matou o facínora, de John Ford, lançado, por coincidência, no mesmo ano de 1962: "Quando a lenda é maior do que o fato, publique-se a lenda".

Não tenho, contudo, tanta cara de pau. Quando constato que viajei na maionese, coloco tudo em pratos limpos, como estou fazendo agora.

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

"DEUS E O DIABO NA TERRA DO SOL" FAZ 50 ANOS

Produzido em 1963 e lançado no ano seguinte, Deus e o diabo na terra do sol foi o primeiro filme nacional a atingir o patamar das obras-primas da cinematografia mundial. Estava anos-luz à frente de O Cangaceiro e O pagador de promessas, cuja (pouca) repercussão internacional se devera à condescendência dos gringos para com os exotismos de países subdesenvolvidos.

Espero que a comemoração do seu aniversário seja marcada por muitas iniciativas para despertar o interesse das novas gerações. Elas precisam saber quão consistente e criativo o cinema brasileiro foi, antes de se subjugar à estética televisiva.

O superlativo nordestern de Glauber Rocha, influenciado por John Ford, Sergei Eisenstein e os mestres do neo-realismo italiano, acompanha a jornada do vaqueiro Manuel (Geraldo Del Rey) em busca de um novo destino, pois saíra do trilho normal de sua existência ao matar o coronel da região numa desavença a respeito da partilha do gado.

Engaja-se nos efetivos messiânicos de Deus (o santo Sebastião, interpretado por Lídio Silva e evidentemente baseado em Antônio Conselheiro) e do diabo (o cangaceiro Corisco, personagem que deu oportunidade a um incrível tour de force de Othon Bastos, disparado o melhor ator do elenco).

As autoridades, os latifundiários e a Igreja recorrem ao jagunço Antônio das Mortes (Maurício do Valle) para exterminar os beatos do Monte Santo (Canudos, claro!) e os cangaceiros remanescentes após a morte de Lampião. 

Gigantesco, com capa de boiadeiro e barba cerrada, ele aluga sua papo amarelo calibre 44 para os poderosos, mas acredita estar cumprindo um papel mais nobre: o de desimpedir os caminhos para a guerra que um dia o povo haverá de travar "sem a cegueira de Deus e do diabo".

Manuel sobrevive a ambos os massacres e sai com a convicção de que a libertação do sofrido povo nordestino não passa por cangaceiros e fanáticos, como enfatiza a magnífica canção final de Sérgio Ricardo: "'Tá contada a minha história/ na verdade, imaginação,/ espero que o sinhô tenha tirado uma lição:/ que assim, mal dividido, este mundo anda errado,/ que a terra é do homem, não é de Deus nem do diabo".

Recomendo enfaticamente.
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