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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

BRASIL DA NECROPOLÍTICA VAI SE TORNANDO UMA APOTEÓSE DO HORROR

josias de souza
NO PAÍS DA INTOLERÂNCIA, MORTES CHEGAM
PONTUALMENTE NAS HORAS MAIS INCERTAS
Há ódio demais no noticiário. A campanha eleitoral cheira a enxofre. 

O Brasil passou a conviver com uma expectativa fúnebre: quem será o próximo cadáver? Não se sabe qual será a sua aparência, seu gênero, sua idade, sua raça ou quem o matará. Ele está andando por aí neste instante sem suspeitar que corre o risco de virar defunto e coadjuvante do noticiário político. 

É um fantasma esperando na fila para acontecer. Se tiver sorte, o próximo morto pode não morrer. Mas tudo parece conspirar a favor da sua condenação. 

Nas pegadas de um 7 de setembro em que Bolsonaro chamou seu principal rival de quadrilheiro de nove dedos, exortando a multidão a extirpar da conjuntura esse tipo de gente, um eleitor de Lula foi morto a facadas no Mato Grosso por um colega de trabalho devoto do bolsonarismo. Após esfaquear, o assassino confesso tentou decapitar a vítima a golpes de machado. 
Um delegado de polícia resumiu a tragédia: 
O que levou ao crime foi a opinião política divergente. A vítima estava defendendo o Lula, e o autor, defendendo o Bolsonaro.
No tempo em que ocupou o trono, Lula cultivou a política do nós contra eles. Bolsonaro deu concretude à metafórica guerra do bem contra o mal. Adicionou à retórica pólvora e gatilhos. O povo armado jamais será escravizado, costuma dizer, para justificar os decretos e portarias que editou para distribuir fuzis, pistolas e munição. 

O morto anterior, um tesoureiro petista de Foz do Iguaçu, foi passado nas armas por um bolsonarista que se abespinhou com a decoração petista de uma festa de aniversário. Antes de morrer, o cadáver do Paraná atirou contra o seu assassino, chutado e pisoteado pelos convidados da festa. 

Concebida como alternativa civilizatória às guerras, a política é subvertida ao redor do mundo. No Brasil, a atividade sempre teve suas facções, organizadas em partidos. O conflito era parte do jogo. Mas nenhuma facção tinha a pretensão de silenciar ou extirpar– adversários. Mesmo os políticos que não se respeitam sabiam que deveriam se enfrentar com respeito. 

Havia exceções desonrosas. Bolsonaro era uma delas. O capitão se fez na política cultivando o ódio. Na Câmara, defendeu o fuzilamento de FHC, lamentou que os índios brasileiros não tivessem sido massacrados como os estadunidenses, enalteceu torturadores, homenageou milicianos, disse que não estupraria uma deputada por falta de merecimento... 

O diabo é que a exceção ganhou musculatura política. Migrou do baixíssimo clero da Câmara para o Planalto. Prevaleceu numa campanha em que falou em fuzilar a petralhada e enviar opositores para a ponta da praia, onde a ditadura desovava os seus cadáveres. 

A emanação da morte vem do apodrecimento da atividade política. Nem o sórdido atentado que Bolsonaro sofreu em Juiz de Fora o fez retirar o ódio do seu pudim. 

Paradoxalmente, a facada de 2018 vem servindo de capital de giro para manter em funcionamento o empreendimento político que industrializa o ódio a partir da Presidência da República. 

Até outro dia, esse ódio vadiava pelas redes sociais. Agora, circula pelas ruas à procura de encrenca. Tratada como instrumento político banal, a raiva contamina a sociedade. 

Pesquisa nacional feita pela Quaest por encomenda de um grupo de estudiosos da Universidade de São Paulo indica que já não se pode criticar os líderes políticos e continuar tratando o eleitorado com punhos de renda. 

Descobriu-se que um em cada cinco eleitores considera muito justificado ou um pouco justificado o uso de violência se o adversário sair vitorioso nas urnas. Vale para os eleitores do capitão da direita e do coronel da esquerda. 

Quer dizer: a intolerância política deixou de ser mero discurso de político aloprado para se tornar um dado da realidade brasileira. Uma realidade que leva ao noticiário um novo cadáver num instante em que o defunto anterior ainda nem esfriou nas manchetes. 

A conjuntura parece sinalizar que o próximo morto está a caminho. Em Goiânia, dias atrás, um policial militar atirou na perna de um homem, dentro de uma congregação cristã. Alegou estar revoltado com a pregação do pastor, que desaconselhava o voto em vermelhos

Em São Gonçalo, no Rio, um apoiador de Lula esmurrou simpatizante de Bolsonaro que procurava confusão num comício petista. 

No momento, quem procura uma clareira de sensatez na campanha eleitoral tem dificuldades para encontrar. Ao comentar o sequestro do bicentenário da Independência pela campanha do seu rival, Lula achou que seria uma boa ideia desmerecer as multidões que Bolsonaro arrastou para seus comícios. 
O presidenciável petista soou assim: 
Foi uma coisa muito engraçada que o ato de Bolsonaro parecia uma reunião da Ku Klux Klan, Só faltou o capuz. Porque não tinha negro, não tinha pardo, não tinha pobre, não tinha trabalhador.
Posteriormente, um repórter ofereceu a Lula a oportunidade de se reposicionar em cena. Ele alegou que se referia ao palanque de Bolsonaro, não à plateia.
Em Copacabana, pela fotografia que eu vi, e eu só vi na televisão, era supremacia branca no palanque. Eu até comparei que parecia um pouco a Ku Klux Klan. 
Só faltou o capuz, só faltou a máscara. Porque era isso o palanque. É o palanque de uma elite, que tinha um cidadão vestido de Louro José, que era o artista principal da festa, ele pulava, ele gritava, ele animava, ele aplaudia
Lula parecia empenhado em piorar o soneto com sua emenda: 
Eu apenas comparei. Todo filme americano eu vejo isso... Eu vejo muita coisa que aconteceu na guerra racial, e eu vi aquele palanque e eu fiquei assustado. Não tinha povo. Tinha uma elite muito violenta no seu discurso. A começar pelo presidente da República.
Evocar um movimento supremacista surgido na Guerra Civil estadunidense contra um adversário que confunde eleição com conflito armado não parece uma boa ideia. Quem ouve à distância pode ter dificuldades para saber quem é quem. 

O Brasil ajusta-se à sua desgraça. Mas 2022 vai se transformando numa apoteose de horror. No país da intolerância, as mortes chegam pontualmente nas horas mais incertas. As pesquisas sinalizam um 2º turno convertido em gincana de rejeições. 

A fratura política tende a sobreviver às urnas. O brasileiro elegerá um vencedor, não um presidente capaz de reunificar a nação. (por Josias de Souza, no seu melhor artigo de muito tempo para cá)

segunda-feira, 11 de julho de 2022

QUEM INSPIRA UM ASNO A COMETER ASNEIRA? OUTRO ASNO, É CLARO!

leonardo sakamoto
REDES SOCIAIS DE ASSASSINO DE PETISTA
SÃO UMA CAIXA DE ECO DE BOLSONARO
A
s redes sociais do agente penitenciário bolsonarista Jorge Guaranho, que matou o guarda municipal e tesoureiro petista Marcelo Arruda, neste sábado (9), em Foz do Iguaçu (PR), são uma grande caixa de eco dos discursos e declarações de Jair Bolsonaro. 

O crime ocorreu após Guaranho invadir a festa de Arruda, que tinha as cores do PT e imagens de Lula, e discutir com o anfitrião por política. 

Por mais que o presidente da República tenha tentado se desvencilhar do episódio, tuitando, neste domingo, que "dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores", foi ele quem espalhou a seus seguidores que o Brasil precisar passar por uma "limpeza" de petistas. 

E, ao que tudo indica, Guaranho absorveu bem essa intolerância. Um exemplo é a ideia de
limpar o Brasil do PT. O agente postou o seguinte em outubro de 2018 em sua conta no Facebook:
"Vamos todos juntos nessa luta para limpar o Brasil do PT, limpar o país desses corruptos que só buscam perpetuação no poder as custas do bem da maioria. O Brasil é lindo é rico e não pode ser essa chacota que se tornou em saúde, educação, segurança etc. Viva o Brasil!" 
Isso é semelhante aos discursos de Bolsonaro na época. Como, p. ex., num ato eleitoral em São Paulo, do qual ele participou via teleconferência: 
"A faxina agora será muito mais ampla. Essa turma, se quiser que ficar aqui, vai ter que se colocar sob a lei de todos nós. Ou vão pra fora ou vão pra cadeia. Esses marginais vermelhos serão banidos de nossa pátria". 

E também disse: "Será uma limpeza nunca vista na história do Brasil"

Outro ponto em que há influência é o ataque ao sistema eletrônico de votação. Desde a eleição de 2018, Jair Bolsonaro fala de fraude eleitoral, Guaranho também. 

No dia 16 de setembro de 2018, o então candidato atacou as urnas eletrônicas, afirmando que "a grande preocupação não é perder no voto, é perder na fraude. Então, essa possibilidade de fraude no 2º turno, talvez até no 1º, é concreta"

Em outubro daquele ano, Guaranho publicou no Facebook: "Depois da fraude, claro que ia ter 2º turno. Jair Bolsonaro e Fernando Haddad. Fraude! Não terá fraude no 2º".

E também: "Estão tentando de todas as formas fraudar o Bolsonaro. Não vamos permitir! 16:30 estarei indo fotografar os boletins de urna"

Não houve fraude, segundo o Tribunal Superior Eleitoral, mas os seguidores do presidente não acreditam nisso por conta das acusações de Bolsonaro. 

O compartilhamento de postagens de Guaranho em seu Twitter sobre fraudes nas urnas eletrônicas se tornou mais frequente nos últimos dois anos quando o presidente intensificou os ataques ao TSE. Pelas publicações, constata-se que ele é um entusiasta do voto impresso. 

São apenas dois exemplos. Analisando suas contas nessas duas redes sociais é possível constatar a autoridade do presidente sobre o agente penitenciário federal numa série de temas. 

Ele atacava com frequência jornalistas, como Miriam Leitão e Ricardo Noblat; artistas críticos ao presidente, como Luísa Sonsa e Zélia Duncan; ex-aliados, como o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub e o ex-juiz Sergio Moro; e ministros do STF e TSE, especialmente Alexandre de Moraes e Luís Roberto Barroso. 

O padrão é o mesmo do presidente. Até o papa Francisco se tornou alvo, e mais de uma vez. 

Também defendeu uma ruptura via Forças Armadas, foi misógino com mulheres na política e fez troça com o suicídio de um adolescente que sofria bullying dizendo que era apenas 
"seleção natural"

Bolsonaro pediu, neste domingo (10), que "as autoridades apurem seriamente o ocorrido e tomem todas as providências cabíveis, assim como contra caluniadores que agem como urubus para tentar nos prejudicar 24 horas por dia". Está irritado por ser apontado por muitos como responsável pela violência cometida por seus seguidores. 

Ele não manda ninguém cometer esse tipo de crime. Contudo, a sobreposição de seus discursos ao longo do tempo, fomentando ódio contra políticos, magistrados, jornalistas, entre outros, distorce a visão de mundo de seus seguidores e torna a agressão necessária para tirar o país do caos e extirpar o mal, alimentando a violência. 

Por conta disso, o presidente vai ser cobrado para que se manifeste de forma mais incisiva, indo além de dizer que "dispensamos qualquer tipo de apoio de quem pratica violência contra opositores"

O que significa, p. ex., evitar o complemento que ele fez:
"A esse tipo de gente, peço que por coerência mude de lado e apoie a esquerda, que acumula um histórico inegável de episódios violentos"
Pois isso, nada mais é, do que reforçar os discursos que fomentam o ódio contra seus críticos e adversários. (por Leandro Sakamoto)

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

ESTÁ NA HORA DE DEUS FAZER O UPGRADE DOS MANDAMENTOS E INCLUIR O 11º: "NÃO SERÁS CONIVENTE COM O MAL E OS MAUS".

bruno boghossian
PARAGUAI ENSINA UMA LIÇÃO AO
EXPULSAR SENADOR EXTREMISTA
Este monstrinho foi expelido do Senado paraguaio
Quando senadores paraguaios abriram o primeiro processo contra Payo Cubas, em abril, um parlamentar fez um alerta. Ele disse que o colega tinha as características do fascismo, do autoritarismo e da intolerância. Acrescentou que, se nenhuma medida fosse tomada, aquele  "monstrinho" cresceria.

Cubas foi suspenso do Senado por dois meses. Ele recebeu a punição por ter xingado outros legisladores e por ter atirado copos d’água no chefe da Polícia Nacional e no ministro do Interior durante uma reunião.

Depois das férias forçadas, sem receber salário, a criatura voltou ainda mais abominável. Nesta 5ª feira (28), ele foi cassado por ter defendido o assassinato de “pelo menos 100 mil brasileiros” que vivem no país e por ter dado um tapa num policial.

Os paraguaios ensinam uma lição. 
Este monstrinho se tornou o presidente miliciano do Brasil
Cubas é o típico agitador que explora o marketing do ódio como ferramenta política. Os senadores preferiram expulsá-lo do Parlamento a permitir que abusasse do cargo para chafurdar nos próprios desatinos.

No Brasil, políticos boquirrotos fazem fama até chegar ao topo do poder. Deputados com discursos racistas contam com a imunidade parlamentar como proteção.

O caso mostra que não se deve aplicar leniência a agentes públicos que, a distância, podem parecer meros polemistas. 

O senador já havia tentado chamar a atenção quando ameaçou jogar uma banana num colega ou quando atirou água de uma garrafa noutro. Agora lançou uma propaganda nitidamente extremista.
Este monstrinho causou enorme destruição e morticínio

Cubas é membro do Movimento Cruzada Nacional. O repórter Fábio Zanini, que contou a história da cassação, destaca que uma das bandeiras do partido é o combate à presença estrangeira no Paraguai. Nessa onda, Cubas disse que brasileiros deveriam ser mandados "ao paredão”.

O senador cassado ainda tentou surfar no episódio. Escreveu que deixava o “Parlamento sombrio”, rumo ao “país que todos merecemos”. 

Alguns paraguaios lhe deram apoio. Caberá aos eleitores evitar o crescimento de outros monstrinhos. (por Bruno Boghossian)

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

HÁ MAIS DE 5 ANOS O PAÍS SE DEDICA A MULTIPLICAR RISCOS DE DESASTRE

vinícius torre filho
ÓDIO E REVOLTAS,
 COLEÇÃO DE VERÃO
Depois de dois meses de relativa calmaria deprimida ou de exaustão amarga, o país volta ao transe de ódio.

Como se fosse possível, o establishment se desmoraliza ainda mais, dando novos motivos à revolta que levou Jair Bolsonaro ao Planalto.

A política doente do Brasil produz dejetos tais como a ideia de que bastam um cabo e um soldado para fechar o Supremo.

Essa obra do novo pensamento político nacional, de autoria de um Bolsonaro júnior, serviu de mote para os protestos contra a liminar de Marco Aurélio Mello. O ministro do Supremo mandara soltar presos condenados em segunda instância, o que em tese beneficiaria Lula da Silva.

Na tarde desta quarta-feira (19), a expressão (hashtag#umcaboeumsoldado estava entre as mais populares do Twitter. Não vem ao caso que a liminar logo viesse a cair. O vexame continuava de pé.

O lixo tóxico escorria pelas redes insociáveis e desaguava no valão da democracia brasileira, outra vez em época de cheia graças também aos Poderes da República.

Não se trata aqui apenas dessa decisão à matroca de libertar talvez uns 169 mil presidiários de periculosidade incerta e não sabida, um resultado possível da liminar aureliana, afora a baderna jurídica.
A roubança continua, inclusive no entorno dos recém-eleitos
Além disso, há muitas notícias de que a roubança continua, inclusive no entorno dos recém-eleitos.

O Congresso explode pautas-bomba, que em geral passam despercebidas pelo povo comum, que não entende de contas públicas, mas estoura de raiva e desprezo por graças como o reajuste dos ministros do Supremo e de altos servidores.

Essa autodestruição contínua, alienada ou mesmo lunática legitima tanto o protesto quanto os instintos mais primitivos de quem votou contra o establishment, contra as instituições apodrecidas, contra o sistema e tudo isso aí. Talvez agregue mais revoltosos.

Para piorar, motivos outros de revolta não vão faltar em 2019. A julgar pelos planos econômicos de Bolsonaro, haverá reformas para todos os desgostos.

Virá uma impopular reforma da Previdência (se não vier, a economia permanecerá estagnada ou regredirá, o que também será revoltante). Não haverá aumento de carga tributária, mas pode bem ser que pequenos e médios empresários e a classe média altíssima paguem mais impostos.

Haverá medidas contra servidores, o Sistema S, empresas industriais, estatais, leis trabalhistas, talvez contra o salário mínimo. Etc.

"Sociedades permanecem estranhamente bestificadas"
Por vezes, mesmo passando por maus bocados, sociedades permanecem estranhamente bestificadas, do mesmo modo que explodem de modo surpreendente (junho de 2013).

Noutras situações, diversionismos servem de atenuante de tormentos: caças a degenerados e impuros em geral, bruxas, corruptos, imorais, abortistas, intelectuais, globalistas ou estrangeiros. Ou, talvez, parte significativa da população se beneficie do regime, o bastante para oprimir e manter sob controle a parcela mais esfolada.

Temos riscos espalhados de revolta adiante, muita raiva justa ou doida a ser satisfeita, o que reforça a conversa do presidente eleito.

O establishment não se importa de causar cada vez mais repulsa. Os planos de mudança econômica causarão alguma dor; as reformas conservadoras de Bolsonaro serão socialmente divisivas.

Não, não é previsão de tumulto, ressalte-se. Um bom resultado econômico pode até dopar a fúria. O problema é que, faz mais de cinco anos, o país se dedica a multiplicar riscos de desastre. (por Vinícius Torres Freire)

segunda-feira, 29 de outubro de 2018

MANUAL DE SOBREVIVÊNCIA EM TERRENO MINADO

Só ingênuos esperavam que um Jair Bolsonaro da vida trocasse a retórica miliciana pela de estadista no momento da vitória eleitoral.

Os que priorizamos os interesses maiores do povo brasileiro sabemos que a pacificação dos espíritos é desesperadamente necessária para evitar-se mais derramamento de sangue e ponto de partida para podermos oferecer algum alívio aos pobres, vulneráveis e excluídos que padecem há quatro anos sob a pior recessão da nossa História.

Mas, salta aos olhos que nunca foi esta a intenção dos que moveram os cordéis por trás da cortina para que um inadequadíssimo Bolsonaro ascendesse à presidência da República, com direito ao escamoteamento dos debates eleitorais e a ser beneficiado pelo pior estelionato eleitoral (a fraude das fake news + o abuso de poder econômico que a viabilizou) já perpetrado no Brasil. Caso contrário teriam escolhido um negociador, não um feitor. 

No processo eleitoral de 2014 já exigiam que, fosse quem fosse o(a) eleito(a), impusesse o ajuste fiscal, principalmente as reformas previdenciária e trabalhista. Dilma Rousseff empossou o neoliberal Joaquim Levy como ministro da Fazenda para entregar-lhes a encomenda, mas ambos fracassaram. 

Michel Temer, a opção seguinte, também não conseguiu desarmar a bomba-relógio da Previdência. Então, concluíram que só um Bolsonaro seria capaz de enfiar goela dos trabalhadores adentro medida tão impopular.

Há também as restrições ambientais que predadores gananciosos querem esmagar com seus tratores e derrubar com suas motosserras. E mais privatizações que os tubarões do mercado esperam ver concretizadas em condições extremamente vantajosas para eles, de pai para filho. Para tudo isso precisam de um Bolsonaro.
Que ninguém se iluda: os envolvidos nesse medonho projeto autoritário sabem que haverá protestos pipocando de todo lado e contam com o chicote presidencial para manietar os inconformados. 

Então, o discurso de quem empunhará o látego foi bem coerente. Não havia por que dele esperarmos comportamento diverso, já que até agora vem fazendo exatamente o que prometia. Hitler era assim e muita gente influente também não quis acreditar que estivesse sendo sincero.

Quando um país encontra-se praticamente dividido ao meio e um dos lados tenta impor suas soluções a ferro e fogo, acaba-se chegando a uma guerra civil, a um autogolpe ou a um golpe de Estado dado por outros.

A primeira lição de sobrevivência nos dias difíceis que nos aguardam em 2019 é: não atirarmos as Forças Armadas nos braços do inimigo.

O altos comandantes militares estão cientes de que a situação brasileira é extremamente delicada, de que não há soluções fáceis para fazer a economia voltar a crescer e de que desembestar o uso da força de nada servirá, como nada resolveu na intervenção no Rio de Janeiro (por eles desaconselhada desde o primeiro momento). 

Ademais, não estão dispostos a atrelarem-se a projetos pessoais (conforme Carlos Lacerda constatou em 1964), nem a comprometerem seu prestígio associando-se aos desatinos de um personagem que veladamente excluíram do seu circulo. Quando dão golpes de Estado, põem no poder generais, não capitães.

Mas, se as turbulências gerarem uma situação insustentável, forçando os militares a escolherem entre o governo (que terá se tornado) impopular e os que o estiverem enfrentando nas ruas, os fardados tendem a tomar o partido do primeiro, ainda que a contragosto.
Precisaremos evitar a qualquer preço um confronto fora de hora, com uma correlação de forças totalmente desfavorável a nós, pois isto só beneficiaria nosso pior inimigo. 

Em 1964 o esquema golpista era minoritário nas Forças Armadas, mas o desacato à hierarquia militar por parte de cabos e sargentos (insuflado por provocadores como o Cabo Anselmo) e a relutância do presidente João Goulart em permitir a punição dos revoltosos fizeram os oficiais superiores aderirem em massa à conspiração.

Em 1968 a linha dura da caserna precisava de um pretexto para forçar a radicalização do regime dando um golpe dentro do golpe. Encontrou-o num discurso piegas proferido pelo deputado Márcio Moreira Alves apenas para constar nos anais, durante uma sessão em que a Câmara Federal estava às moscas. Foi o pivô da crise que conduziu à assinatura do AI-5 e ao terrorismo de Estado pleno.

Então, nos dias difíceis que virão, tudo de que não precisaremos vão ser bravatas e inconsequências com resultados desastrosos. Sem estridência, mas com serenidade e determinação, poderemos frustrar os planos mais nefastos do novo governo; e, sem uma base de sustentação real (ele se beneficiou apenas de um estado de espírito passageiro), não tardará a cair, como caiu o disparatado Jânio Quadros e o vazio Fernando Collor. Um Bolsonaro tende a durar tanto quanto eles no poder.
A segunda regra de ouro: buscarmos a união de todos que prefiram viver num país de verdade e não numa terra arrasada. Chega de sectarismo e de disputas canibalescas por nacos de poder! Agora se evidencia de forma gritante a existência de valores comuns que vale a pena preservarmos, ainda que isto implique abrirmos mão de alguns de nossos interesses imediatos. Se conseguirmos reagrupar as forças que se uniram para dar um fim à ditadura de 1964-1985, venceremos de novo. 

A alternativa é monstruosa demais para nem ao menos tentarmos fazer o certo e o necessário. Muito sangue correrá se não formos capazes de produzir uma saída civilizada para os impasses atuais, que doravante só se agravarão.

Por último: nenhum dos alvos das pregações de ódio pode ficar sozinho e desprotegido. Pessoas e agrupamentos deverão estar sempre em contato com seu círculo específico e com outros que os possam ajudar em emergências. Estruturas de apoio devem ser criadas por parlamentares, por jornalistas, por juristas, por pessoal médico, pelo movimento estudantil, etc., pois explosões de violência poderão ocorrer a qualquer momento, em qualquer lugar. A que ponto chegamos!

Enfim, as crises servem para testar-nos e, neste caso, também para reaprendermos verdades óbvias que estávamos esquecendo. Como a de que é imperativo somarmos sempre os nossos esforços aos daqueles que igualmente respiram liberdade e sufocam sob o autoritarismo. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 23 de outubro de 2018

ÀS VÉSPERAS DA ELEIÇÃO, BOLSONARO NÃO CONSEGUE PRODUZIR NADA ALÉM DE RAIVA

josias de souza
BOLSONARO PRECISA PARAR DE INDUSTRIALIZAR O ÓDIO
Jair Bolsonaro e seu círculo de filhos e colaboradores produzem declarações que poderiam ter sido planejadas no quartel-general do petista Fernando Haddad, que se empenha em pregar no adversário-capitão as pechas de miliciano e golpista

A poucos dias da eleição que testará a confiabilidade das pesquisas que o colocam sentado na cadeira de presidente da República, Bolsonaro não consegue produzir nada além de raiva.

Respira-se na campanha um ar eletrificado. Versão nacional de Donald Trump, Bolsonaro diz que as urnas eletrônicas estão sujeitas a fraudes. Seu vice, o general Hamilton Mourão, sonha com uma Constituição redigida por sábios. E um de seus filhos, o deputado Eduardo Bolsonado, diz que “pra fechar o STF basta um cabo e um soldado.”

Embora declare estar “com uma mão na faixa”, Bolsonaro comporta-se não como um futuro presidente, mas como um soldado. 

No domingo, discursou num telão para uma multidão de apoiadores concentrados na Avenida Paulista. Prometeu ''uma limpeza nunca vista na história desse Brasil''. 

Categórico, declarou: ''Vamos varrer do mapa esses bandidos vermelhos do Brasil''.

Bolsonaro ainda não notou, mas tem inimigos mais perigosos à sua frente: uma crise fiscal sem precedentes, uma economia anestesiada e 12,7 milhões de desempregados. 

Perder uma eleição é fácil. Difícil é saber vencer. O primeiro passo é parar de industrializar o ódio. (por Josias de Souza)

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

O DISCURSO DE ÓDIO SE VOLTOU CONTRA QUEM NELE MAIS INCIDIA

dalton rosado
A FACADA EM BOLSONARO, O POLITICAMENTE IGNARO
No sábado passado Bolsonaro prometeu "fuzilar a petralhada". O discurso de ódio se voltou contra ele
A rima do título do comentário sucinto que faço pode até ser pobre (aprofundarei adiante suas propostas de governo em artigo específico da minha série sobre os candidatos), mas seu significado é consistente.

Diz-se que quem semeia vento, colhe tempestadeO discurso do candidato Bolsonaro, hoje, infelizmente, muito comum num mundo marcado pelo ódio gestado pela absoluta incompatibilidade entre forma e conteúdo da mediação social capitalista, empresta credibilidade à sabedoria popular expressa em tal ditado.

Não que Bolsonaro seja um incauto, sem discernimento para aquilatar qual poderia ser a consequência de suas pregações. Alguém que fez curso para oficial graduado na Academia Militar das Agulhas Negras tem nível de escolaridade muito acima do de profissionais formados nas atuais fábricas de doutores do Brasil (estas últimas se transformaram num rendoso negócio, com a educação virando mercadoria).

Ele, como político já antigo que ora se apresenta como anti-político (um pretenso outsider), é ignorante quanto ao que está subjacente à prática de governar. Ou seja, pouco sabe sobre a ingovernabilidade, supondo (como muitos) que os nossos problemas se restringem ao combate à corrupção e ao exercício da disciplina e da força.  

O Bolsonaro que vem sendo alardeado como o Trump brasileiro está mais para um similar tupiniquim imperfeito. A diferença com relação ao produto original é tão grande quanto a que existe entre um pobretão brasileiro e um bilionário estadunidense.

O discurso de ódio em voga mundo afora encontra guarida em dois segmentos sociais:
  • pessoas cultas e ricas, mas perplexas com o fato de que a viabilidade social sob pressupostos que eram minimamente funcionais (a reprodução do valor pelo lucro e extração de mais-valia) já não serem mais tão factíveis como outrora, daí desejarem a restauração do statu quo ante a partir de premissas autoritárias; e
  • pessoas com nível de escolaridade baixo, que engolem a pílula da solução dos seus problemas sociais por meio da força militar vinda da autoridade constituída, uma vez que nem de longe se apercebem das causas do que está em curso e faz crescer dia a dia as suas dificuldades.
Neste sentido, o atentado a Bolsonaro representa uma facada pelas costas no pensamento libertário, emancipacionista, que procura analisar as causas dos atuais infortúnios sociais ao invés de se fixar nas respostas superficiais de salvadores da pátria

Isto porque o candidato Bolsonaro (que fatalmente veria despencar a sua popularidade à medida em que o debate sobre as causas da depressão econômica evidenciasse que o gerenciamento estatal sob tais condições é incompatível com as suas bravatas) agora encontra respaldo num componente emocional da campanha sucessória – a vitimização.

Bolsonaro poderá, enfim, vir a beneficiar-se do mesmo sentimento que faz do Lula um potencial candidato preferido do eleitorado.

Pessoalmente, desejo a completa recuperação de sua saúde, por dois motivos:
  • pelo respeito que tenho pela vida de qualquer ser humano; e
  • para que ele não se torne um mártir e venha a ser substituído por outro Bolsonaro de plantão no imaginário popular.
Existe, de fato, a possibilidade de que seus pensamentos retrógrados passem agora a sensibilizar parte da grande faixa do eleitorado que o rejeitava até ele sofrer o atentado e, assim, possa chegar ao 2º turno das eleições. Vamos aguardar os acontecimentos.

Não vote. Mas, se isto não for possível, vote nulo. (por Dalton Rosado)
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