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quinta-feira, 8 de agosto de 2013

OS 5 ANOS DE UM BLOGUE DE RESISTÊNCIA

O blogue Náufrago da Utopia completa cinco anos de existência nesta 5ª feira, 8.

No post inaugural (vide aqui), com a sinceridade habitual, eu admiti que nunca almejara ser blogueiro, mas foi a opção que me restou quando minhas maiores metas não deslancharam:
"Em novembro/2005, ao lançar meu livro de estréia, 'Náufrago da Utopia', acreditava ter desimpedido os caminhos para meu projeto maior: propor um novo ideário para a esquerda, retomando, num contexto mais propício, as propostas neo-anarquistas da geração 68. 
Mas, passados dois anos e meio, nada marchou como eu esperava. 
O 'Náufrago' não concretizou seu potencial, mantendo-se apenas como um cult para algumas dezenas de pessoas e uma referência para alunos e professores de História.
Não encontrei espaço para meu  great come back  à grande imprensa, sonho que jamais abandonei. Só que, como nunca, as tribunas estão hermeticamente fechadas para os articulistas de esquerda, salvo os que construíram sua reputação num passado distante e continuarão sendo suportados enquanto durarem, mas não substituídos.
Vai daí que a nova utopia singra os mares meio sem rumo, incapaz de encontrar seu porto seguro".
Na minha visão daquele momento, um blogue de verdade serviria para ir acumulando forças, à espera de dias melhores. O que eu tinha, O Rebate, era apenas um depósito dos textos que eu redigia semanalmente para o site coletivo homônimo. Decidi fazer as coisas direito, produzindo textos diários, para conquistar um público mais amplo e mantê-lo interessado.

O projeto acabou me encantando, pois veio ao encontro de outra antiga paixão: os circuitos marginais. Quantos esforços desenvolvemos, na década de 1970, para difundir nossas obras diretamente às pessoas, escapando do controle da indústria cultural! 

As precárias coletâneas que editávamos com tiragem de mil exemplares continuam pegando pó na minha estante, como marcos de uma fase talvez ingênua, mas muito gratificante. O que encarávamos como resistência cultural era, também, uma forma de travarmos o bom combate. Se não produziu resultados mais expressivos, ao menos ajudou-nos a manter a sanidade, durante as terríveis trevas ditatoriais.

Então, aos poucos, o blogue foi tomando forma.

De um lado, cumprindo meu dever de sobrevivente de uma guerra trágica, defendi a memória da resistência à ditadura militar e prestei tributo aos companheiros que nela lutaram, aproveitando todas as oportunidades para lembrar seus nomes e seus feitos, honrando seu sacrifício. 

Muitas informações sequer registradas em livros estão presentes no blogue, pois, mais que o antigo Repórter Esso, posso me considerar uma  testemunha ocular da História: estava no palco dos acontecimentos e os observei com os olhos do jornalista que viria a me tornar, tanto quanto com o olhar do militante em ação (para ser absolutamente sincero, eles ficaram impressos na minha memória, mas os desafios imediatos exigiam tanto de mim que só os pude digerir, interpretar e aprofundar depois, no recesso compulsório, qual sejam as intermináveis horas que tinha para preencher nos cárceres militares, passada a fase dramática das torturas).

Também resgatei e trouxe para o blogue o melhor da minha experiência  jornalística, chegando a digitar e atualizar longos textos que escrevera profissionalmente, como o dedicado à época de ouro da MPB, tão extenso que fui obrigado a dividi-lo em cinco posts.

E, se nunca se criaram as condições para lançar meu sonhado livro teórico com mínima possibilidade de atingir um público mais amplo do que as poucas centenas de leitores que habitualmente consomem tais obras (veneno  para as livrarias) no Brasil, fui colocando no blogue, pouco a pouco, tudo que eu tinha para dizer. Talvez sejam irrelevâncias, talvez ainda venham servir para apontar caminhos às novas gerações de revolucionários. Quem sabe?

Mas, ao alertar para as terríveis ameaças que o capitalismo nos inflige, ao sobreviver muito além de sua  vida útil, tornando-se cada vez mais parasitário e nefasto, creio ter, pelo menos, cumprido o papel de estimular discussões extremamente necessárias.

Poucos se dão conta de quão grande é o risco da espécie humana não subsistir por mais um século, nem da premência com que precisamos agir, para salvarmos a humanidade da extinção. O meu papel eu tenho cumprido.

Finalmente, o Náufrago serviu como tribuna para as muitas lutas que tenho travado, algumas vitoriosas, outras não. Esta é a sua faceta mais conhecida, daí eu considerar dispensável estender-me no assunto. 

Basta mencionar que, além dos aproximadamente 250 diferentes textos redigidos ao longo da cruzada pela liberdade de Cesare Battisti, o blogue defendeu o ex-etarra Joseba Gotzon, vítima menor do mesmo espírito revanchista da direita européia; Julian Assange, Bradley Manning e Edward Snowden, que escancararam para o mundo a nudez do rei; a iraniana Sakineh Ashtiani, quase-vítima da intolerância medieval; o cineasta Roman Polanski, quase-vítima do moralismo mais rançoso; o movimento estudantil em geral e os universitários da USP em particular (pois submetidos a controle policial como nos piores tempos da ditadura militar); e outros humilhados e ofendidos no dia a dia brasileiro.   

Acredito que o balanço seja positivo. E peço encarecidamente aos companheiros e amigos que ajudem a difundir o acervo nele armazenado, pois não basta plantarmos as sementes, elas precisam ser irrigadas. E a colheita almejada está muito além do alcance dos meus esforços pessoais. 

sábado, 18 de fevereiro de 2012

RECADO AOS PATRULHEIROS DO MORALISMO RANÇOSO

Deu n'O Globo:
"Num encontro marcado por cobranças dos parlamentares e pelo constrangimento, o ministro da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, fez (...) um movimento de reaproximação com a bancada evangélica e mandou uma mensagem da presidente Dilma Rousseff: de que mantém todos os compromissos assumidos com o setor durante a campanha eleitoral, como o de que o governo não irá patrocinar mudanças na atual legislação sobre aborto.

Gilberto ainda pediu desculpas aos parlamentares da Frente Parlamentar Evangélica pelo efeito de declarações dadas durante o Fórum Social Mundial...

- A presidente Dilma pediu que reafirmasse à bancada evangélica que a posição sobre o aborto é a posição que ela assumiu já na campanha. A posição do governo está absolutamente clara e assim vai continuar - disse Carvalho".
Eu não peço perdão a bancada evangélica nenhuma, nem a quaisquer fanáticos religiosos que queiram impor suas crenças à coletividade.

Aqui não é estado teocrático --felizmente!!! Se não preservarmos os valores da civilização, acabaremos apedrejando adúlteras, como ainda ocorre em nações espiritualmente ancoradas na Idade Média.

Defenderei sempre, incondicionalmente, o direito da mulher e seu companheiro decidirem por si sós se deve ou não ser levada até o fim a gravidez pela qual são responsáveis.

Nem o Estado nem quaisquer abelhudos têm legitimidade para se imiscuírem nesta questão (detalhe: eu não aprovo o aborto, mas abomino o autoritarismo).

Sou radicalmente contrário à homofobia, que é crime e deve mesmo ser punida como tal.

E favorável a que se ensine a coletividade a conviver harmoniosamente com as diferenças de gênero, pois ainda há preconceitos muito arraigados, a ponto de parlamentares assumirem o grotesco papel de patrulheiros do moralismo rançoso, chantageando partidos e governos em nome desses preconceitos.

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

CUBA NUMA SINUCA DE BICO: ITAMARATY AUTORIZA ENTRADA DA BLOGUEIRA

Para sair de uma sinuca dessas, só o
  lendário  Carne Frita (ver vídeo abaixo)...
Como eu venho dizendo desde o primeiro momento, fez-se uma tempestade em copo d'água acerca da viagem da blogueira Yoani Sánchez ao Brasil. Se as autoridades cubanas houvessem tido o bom senso de não atrapalharem um mero evento cultural (a estréia do documentário Conexão Cuba-Honduras, no próximo dia 10), seria apenas e tão somente uma noticia de pequena relevância, como tantas outras.

No entanto, negaram a Yoani Sánchez autorização para sair do país, esta apelou à presidente Dilma Rousseff, o senador Eduardo Suplicy acionou a Comissão de Relações Exteriores e o caso acabou assumindo proporções que não deveria nem precisava ter.

Agora o Itamaraty acaba de anunciar a concessão do visto de entrada a Yoani.

O ônus da intransigência foi esta sinuca de bico na qual Cuba se colocou: ou cede e dá o braço a torcer, ou não cede e cria um atrito totalmente desnecessário com um governo que lhe tem sido simpático.

Cuba causa muito mais mal a si mesma
do que Yoani seria capaz de lhe causar
Alguns criticarão a decisão da presidente Dilma Rousseff, sem atentarem para o fato de que era pra lá de previsível: depois de repudiar enfaticamente o apedrejamento de Sakineh Ashtiani e prometer que não relativizaria o respeito aos direitos humanos, o que mais ela poderia fazer? Desmoralizar-se na primeira  prova dos nove  a que seu discurso é submetido?

Falharam, isto sim, os diplomatas cubanos, que não souberam passar aos dirigentes do seu país um quadro mais realista do lado brasileiro do  imbroglio, deixando que perseverassem no erro.

O Carlos Lungarzo e eu temos sido atacados por assumirmos posição diferente da dos que se colocam incondicionalmente ao lado dos governos que lhes são simpáticos, mesmo quando estes estão viajando na maionese.

No criticado artigo Minha posição sobre a blogueira cubana (ver aqui), eu tentava justamente evitar que um episódio menor se tornasse um pomo da discórdia entre os dois países. Vale lembrar:
"...eu prefiro que a pressão [para autorizarem a viagem de Yoani] seja de esquerdistas autênticos (sem vezo autoritário) sobre o governo cubano. Não da presidente Dilma, do Senado, nem mesmo de parlamentares bem (Suplicy) ou mal intencionados.

Não é uma questão entre nações, mas sim de visões diferentes sobre como deve ser exercido o poder popular".
Moral da história: nem sempre os capachos, os bajuladores e os fanáticos são os que prestam o melhor serviço a quem tem de posicionar-se em situações delicadas. Foi o que os reis aprenderam da pior maneira possível, às vezes perdendo a coroa e até a cabeça no curso do aprendizado...

 Se você acha que a foto foi só um pretexto para eu
colocar este vídeo do Carne Frita... acertou em cheio!

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

ISRAEL RISES AGAIN? TUDO INDICA QUE SIM.

Serei sempre contra o autoritarismo, em todo e qualquer país.

Considerarei sempre os estados teocráticos um medievalismo sem lugar no século 21.

Lutarei sempre contra aberrações como a execução de uma mulher apenas e tão somente por ser adúltera (o resto, no caso de Sakineh Ashtiani, foram invencionices acrescentadas depois que o mundo inteiro condenou a sentença bestial).

São princípios dos quais jamais abrirei mão, pois os tenho como indissociáveis de minha opção revolucionária.

Mas, não sou maniqueísta --até porque ninguém que leu e absorveu os clássicos do marxismo o pode ser.

Então, coloco-me inteiramente ao lado do Irã quando ameaçado ou atingido pela imposição da  lei do mais forte  nas relações internacionais.

Como, desde meados do século passado, Israel vem sendo o pior estado transgressor das normas civilizadas e aquele que mais vezes teve suas práticas repudiadas pela ONU --só se salvando de punições concretas graças aos vetos estadunidenses no Conselho de Segurança--, não faz nenhum sentido impedir-se o Irã de ter a bomba atômica, já que os desequilibrados israelenses a possuem.

Que confiança merecem quem foi capaz de desencadear um genocídio tão escabroso quanto o da faixa (gueto?) de Gaza, na virada de 2008 para 2009? E de lançar ataque pirata contra uma embarcação de auxílio humanitário, assassinando pacifistas? E de, em 1975, oferecer petardos nucleares ao execrável regime do apartheid sul-africano?

Desarmamento, sim. Unilateral, não. Fanáticos por fanáticos, o arsenal nuclear de Israel representa perigo tão grande para a humanidade quanto o que alegadamente o Irã estaria tentando criar. É, sem sombra de dúvida, a primeira nação em qualquer relação honesta das que precisam ser desarmadas, pois se trata da que massacra sistematicamente os vizinhos.

O genocídio de Gaza jamais será esquecido
Quanto aos assassinatos de cientistas e técnicos que tocam o programa nuclear iraniano, merece o meu mais veemente repúdio.

Tudo leva a crer que o culpado seja mesmo o mordomo. A tradição israelense de desrespeito à soberania alheia vem de muito longe --quem não se lembra, p. ex., do ultrajante sequestro de Adolf Eichmann na Argentina, em 1960? Ou da Operação Entebbe, em 1976?

É um estado que prima por agir, na vida real, como a  Spectre  das fantasias de James Bond. E, pior, seu serviço secreto (o Mossad) é muito mais eficiente do que a CIA na implementação dessas ações piratas.

Então, são mais do que justificadas as suspeitas de que provenha de Israel o atentado que matou, na última 4ª feira (11), o cientista Mostafa Ahmadi-Roshan, o quinto funcionário importante do programa nuclear iraniano assassinado desde 2007.

Além das matanças seletivas, direcionadas contra alvos específicos, houve também a carnificina indiscriminada na instalação nuclear de Isfahan, explosão cujo saldo foi um general e 16 pessoas dizimadas, em novembro último.

Já se passaram alguns anos desde que qualifiquei Israel de IV Reich. Infelizmente, continua fazendo por merecer a  láurea.

Quanto ao Irã, tem minha total solidariedade com relação a tais atentados terroristas, o que não me impedirá de continuar repudiando incisivamente suas violações de direitos humanos e direitos civis. Uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Em ambos os casos sigo meus princípios, que não distinguem países e regimes, aplicando-se a qualquer um que incorra em práticas condenáveis. Não há nenhuma justificativa admissível para a barbárie e revolucionários de verdade jamais devem  aliviar   para os que nela incidam.

domingo, 8 de janeiro de 2012

MINHA POSIÇÃO SOBRE A BLOGUEIRA CUBANA

"Liberdade é sempre, fundamentalmente, a liberdade de quem discorda de nós."

A máxima de Rosa Luxemburgo jamais deve ser esquecida. É a vacina e o antídoto contra o despotismo.

Então, peço aos dirigentes cubanos que reconsiderem sua decisão sobre a blogueira dissidente Yoani Sánchez.

Como ela não está sob prisão domiciliar, tem o direito de viajar ao Brasil e para onde mais quiser, quando quiser.

É totalmente inconcebível e inaceitável que ela haja pedido autorização para deixar Cuba 18 vezes, e nas 18 vezes a tenham negado.

De resto, eu prefiro que a pressão seja de esquerdistas autênticos (sem vezo autoritário) sobre o governo cubano. Não da presidente Dilma, do Senado, nem mesmo de parlamentares bem (Suplicy) ou mal intencionados.

Não é uma questão entre nações, mas sim de visões diferentes sobre como deve ser exercido o poder popular. Então, revolucionários devem se posicionar como revolucionários, não em nome de seus países.

Só em casos extremos --impedir uma execução grotesca e bestial como a de Sakineh Ashtiani, p. ex.-- é que se justifica a intervenção de governos.

Acredito que a justiça social possa coexistir com a liberdade e com o respeito aos direitos humanos. Os que pensam como eu, que enderecem suas mensagens aos governantes cubanos. São eles os destinatários corretos.

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

DITADOR SÍRIO É CLONE DE PINOCHET

Bashar al Assad: a mesma carranca...
O ditador sírio Bashar al Assad esmera-se em imitar, detalhe por detalhe, o carniceiro chileno Augusto Pinochet: seu regime genocida não só liquidou o Victor Jara do seu país, como está despejando presos políticos em estádios de futebol.

Compositor e cantor de músicas que combinavam ritmos folclóricos com mensagens de protesto, Jara lembrava muito o nosso Geraldo Vandré, também assassinado por uma ditadura bestial, embora por outros meios: dele só exterminaram a alma, deixando o corpo a perambular como zumbi.

Já do expoente máximo da  Nueva Canción Chilena  os militares ensandecidos tiraram também a vida.

pinochetazzo  o surpreendeu na universidade, sendo lá sequestrado pelas tropas golpistas, juntamente com outros alunos e professores.

Levaram-no ao Estádio Chile (não confundir com o Estádio Nacional do Chile), onde eram amontoados os seguidores do presidente legítimo Salvador Allende. Uma boa idéia dos horrores que lá tiveram lugar é dada no filme O Desaparecido - um grande mistério (d. Costa Gravas,  1982), cujas sequências mais chocantes são as que mostram as pilhas de cadáveres dos cidadãos executados pelos fascistas.

A versão mais difundida da morte de Jara é a que aparece em outro filme, Chove Sobre Santiago (1976), do chileno Helvio Soto: ele é desafiado a cantar para seu público, reunido nas arquibancadas do estádio sinistro -- e o faz. Então, os verdugos o espancam até a morte.

Seu corpo foi exumado em 2009, quando ficou comprovado que realmente esmagaram-lhe as mãos a coronhadas.

Teve seus restos mortais atirados num matagal de beira de estrada, mas acabaram sendo encontrados e levados à câmara mortuária. Depois que a esposa o identificou, foi enterrado no Cemitério Geral de Santiago.

...e a mesma bestialidade de Pinochet.
Enfim, tratou-se de um destino bem semelhante ao que acaba de ter o músico sírio responsável pelo  hino  das manifestações contra a tirania do seu país -- cujo título, numa tradução livre, seria 'Pede pra sair, Basher'.

O cadáver do autor da canção, Ibrahim Qashoush, apareceu boiando num rio, no início do mês passado.

Agora, chega a notícia de que as tropas do ditador sírio estão invadindo casas num distrito sunita do porto de Latakia, prendendo pessoas às centenas e as levando para os estádios da Cidade Esportiva de al-Raml, sede dos Jogos Mediterrâneos na década de 1980.

"Os estádios da Cidade Esportiva estão servindo de abrigo para refugiados, para impedir que eles fujam de Latakia e, tal qual vimos em outras cidades atacadas, também como um centro de detenção", disse o diretor do observatório Rami Abdelrahman à agência Reuters.

Os relatos de torturas provêm de todos os lados. Só não foram confirmadas, por enquanto, execuções nos estádios-masmorras.

É só o que falta para Bashar al Assad igualar-se a Pinochet em tudo e por tudo.

Quanto à presidente Dilma Rousseff, o que falta é ela confirmar a alardeada priorização dos direitos humanos, repudiando a ditadura síria com a mesma firmeza adotada em relação à congênere iraniana.

Afinal, para quem é ou foi revolucionário(a), não importa o sexo da vítima ou se a forma de execução é particularmente cruel (caso do apedrejamento). Temos o dever moral de nos posicionar contra as matanças, a barbárie e o despotismo em si mesmos, sob quaisquer circunstâncias e independentemente das conveniências econômicas.

segunda-feira, 14 de março de 2011

O PIOR ASSESSOR DE IMPRENSA DO MUNDO...

...está no Brasil para defender o apedrejamento até a morte de Sakineh Ashanti (dir.), verdadeiramente por adultério e alegadamente por homicídio (acusação inventada pelo estado teocrático do Irã depois que o mundo inteiro repudiou a punição bestial e arcaica).

Trata-se do chefe de Imprensa do Governo do Irã e um dos principais conselheiros presidenciais, Ali Akbar Javanfekr (esq.) que, entrevistado por Eliane Cantanhêde, da Folha de S. Paulo, disse tudo que precisava dizer para os inimigos brotarem como cogumelos.

SOBRE O BRASIL
"Esse não é o caminho correto [criticar direitos humanos], é um caminho que não tem fim. Existem 2.500 Sakinehs nas prisões brasileiras, acusadas de homicídio. Nos EUA, uma mulher foi executada recentemente. Se a presidente está preocupada, também podia criticar os EUA." COMENTÁRIO: CRITICAR OS DIREITOS HUMANOS É REALMENTE UM CAMINHO SEM FIM... NO IRÃ, QUE OS INFRINGE SISTEMATICAMENTE. DE RESTO, COMO BRASILEIRO, CONSIDERO UM INSULTO COLOCAR NO MESMO PLANO OS PROCESSOS POR HOMICÍDIO DE MEU PAÍS E A FALSIDADE COM QUE OS AIATOLÁS ENSANDECIDOS TENTARAM JUSTIFICAR O INJUSTIFICÁVEL. E A FORMA COMO JAVANFEKR SE REFERE À NOSSA PRESIDENTE É TÃO DESRESPEITOSA QUE ELE DEVERIA SER CONVIDADO A RETIRAR-SE IMEDIATAMENTE DO BRASIL

SOBRE O HOLOCAUSTO
"Se o Holocausto é uma realidade histórica, por que não se permite que seja estudado? Qualquer pessoa que questiona é logo condenada. Devemos ficar preocupados com a distorção da história." COMENTÁRIO: O HOLOCAUSTO É UMA VERDADE HISTÓRICA QUE SÓ OS FANÁTICOS MAIS DELIRANTES PÕEM EM DÚVIDA. DEVE, SIM, SER CRITICADO O USO E ABUSO DO HOLOCAUSTO, POR PARTE DE ISRAEL, COMO ÁLIBI PARA MASSACRAR OUTROS POVOS. MAS, QUE O HOLOCAUSTO EXISTIU, EXISTIU.

SOBRE OS GAYS
"Na República Islâmica do Irã, não há. Nossa visão sobre esse tema é diferente da de vocês. É um ato feio, que nenhuma das religiões divinas aceita. Temos a responsabilidade humana, até divina, de não aceitar esse tipo de comportamento. Existe uma ameaça sobre a saúde da humanidade. A Aids, por exemplo. Uma das raízes é esse tipo de relacionamento... vi que no Carnaval [brasileiro] foram distribuídos 90 milhões de preservativos, e isso é muito feio. Não é a favor da saúde da humanidade." COMENTÁRIO: TUDO DE QUE NÃO PRECISAMOS SÃO LIÇÕES DE INTOLERÂNCIA. VÁ INSUFLAR PRECONCEITOS NOUTRA FREGUESIA!

SOBRE A LIBERDADE ARTÍSTICA
"Temos milhares de cineastas trabalhando no Irã, produzindo filmes, ganhando prêmios em festivais internacionais. Se um deles [Jafar Panah] pratica um crime que tem punição pela lei, será que é uma restrição das atividades do cineasta? Ser cineasta significa ter imunidade? Esse senhor praticou um ato ilegal. COMENTÁRIO: VERDADEIROS ARTISTAS PROPÕEM VISÕES ALTERNATIVAS ÀS OFICIAIS [O "ATO ILEGAL" QUE O LEVOU À MASMORRA, ANTES MESMO DE INICIAR AS FILMAGENS!!!]. ASSIM COMO O ADULTÉRIO DE SAKINEH, O QUE PANAH FEZ SÓ DESPERTA REAÇÃO TÃO BIZARRA EM NAÇÕES QUE AINDA NÃO SAIRAM DAS TREVAS MEDIEVAIS.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

INTENSIFICA-SE A CAMPANHA MUNDIAL CONTRA A EXECUÇÃO DE SAKINEH

Sakineh Mohammadi Ashtiani, que o estado teocrático do Irã quer executar em nome de usos e costumes medievais, recebe solidariedade cada vez maior de governos, entidades e cidadãos com espírito de justiça em todo o mundo.

A cruzada se intensificou depois que Sakineh, na semana passada, foi conduzida à sua casa para a gravação de um documentário falacioso da TV iraniana. ONG's chegaram até a anunciar, erroneamente, sua libertação.

A realidade era bem outra: coagiram-na a coonestar o que haviam inventado a seu respeito os aiatolás ensandecidos, depois que a sentença de morte por apedrejamento (como punição por um mero adultério) provocou indignação universal.

Foi obrigada a uma encenação lesiva a seus interesses e, exatamente por isto, inaceitável segundo os preceitos civilizados de Justiça. Assim, admitiu ter aplicado uma injeção de sedativo no marido, para que depois, supostamente, fosse eletrocutado por seu amante.

Nada disto, nem mesmo que tenha havido assassinato, subsiste à luz do Direito contemporâneo. O paralelo mais adequado ao que passa por justiça no Irã é o Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição).

Para Mina Ahadi, do Comitê Internacional contra a Pena de Morte, "o programa de TV foi uma farsa brutal". Assino embaixo.

Exatamente porque esses Torquemadas com turbante não têm a mais ínfima credibilidade, o Parlamento Europeu decidiu enviar uma comitiva internacional de advogados a Teerã

Liderado pelo italiano Bruno Malattia, o grupo de cinco juristas aguarda a permissão do governo do Irã para o ingresso no país.

Dificilmente a terá. Quem prende o advogado de uma ré para deixá-la indefesa, e o seu filho para deixá-la sem apoio, não passa de linchador. E linchadores agem nas sombras, tudo fazendo para não serem expostos à luz.

Afora isto, mais de 80 artistas, acadêmicos e políticos -- incluindo os atores Robert Redford e Robert De Niro, o cantor Sting, o prêmio Nobel de literatura Wole Soyinka e o ministro das Relações Exteriores francês Bernard Kouchner -- acabam de pedir a libertação de Sakineh.

"Sakineh Mohammadi Ashtiani já sofreu o suficiente. Nós pedimos ao governo do Irã para libertar imediatamente Sakineh, seu filho Sajad Ghaderzade e seu advogado Javid Houtan Kian", dizem em carta aberta ao aiatolá Ali Khamenei e ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, que o Times publicou.

E nosso ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reiterou que a oferta do presidente Lula, de asilo no Brasil, continua em pé.

domingo, 12 de dezembro de 2010

IRÃ INSISTE EM SATANIZAR SAKINEH E PERSEGUIR JORNALISTAS

Se alguém ainda precisava de motivos para deplorar o estado teocrático iraniano como uma excrescência medieval sem lugar no século 21, os aiatolás ensandecidos trataram de os fornecer.

Foram duas demonstrações a mais de despotismo gritante, aberrante e aviltante.

Coagiram Sakineh Mohammadi Ashtiani a participar, na TV, de uma farsa em que ela fingiu aplicar no finado marido uma injeção de sedativo, para que seu amante depois o eletrocutasse.

Sendo, como são, totalmente inconfiáveis os Torquemadas iranianos, useiros e vezeiros em forjarem e propagarem mentiras como justificativas para suas práticas sanguinárias, não dá para acreditarmos sequer que o finado morreu de morte matada...

O certo é que Ashtiane foi condenada à execução por apedrejamento APENAS E TÃO SOMENTE em função de haver cometido adultério.

TODO O MAIS VEIO DEPOIS. Quando o mundo inteiro repudiava, horrorizado, esta sentença bestial, foram acrescentadas (o que tudo leva a crer não passarem de) sórdidas invencionices. 

Tentou-se fazer dela uma assassina, para dourar a pílula. Satanizou-se a vítima para melhorar a imagem dos carrascos. É como sempre agem os linchadores travestidos de otoridades.

Em vão. Para quem não é fanático religioso, misógino exacerbado ou sádico enrustido, nem mesmo esta pretensa cumplicidade em assassinato justificaria a condenação ao apedrejamento.

E, claro, o fedor da farsa era tamanho e tão inconfundível que ninguém dotado de perspicácia e espírito de justiça acreditou, alhures.

Agora, ao torturá-la (ou ameaçá-la com novas torturas, contando com o trauma que lhe causaram as já sofridas) para que produza trunfos propagandísticos contra si própria, participando de uma grotesca encenação, o regime iraniano apenas consegue se tornar mais repulsivo ainda aos olhos do mundo.

Lembra a Alemanha de Hitler, a Itália de Mussolini, o Chile de Pinochet ou o Camboja de Pol-Pot. Merece o que está tendo: o mais veemente repúdio do mundo civilizado.

De quebra, a  Santa Inquisição Iraniana  acaba de condenar o presidente da Associação de Jornalistas do Irã, Mashallah Shamsolvaezin, a 16 meses de prisão por ter cumprindo seu dever como profissional de imprensa e como representante da categoria. Eis o seu próprio relato:
"Fui condenado a um ano de prisão sob a acusação de ter minado o regime, dando entrevistas para televisões e agências de notícias estrangeiras. Também fui condenado a quatro meses de prisão por me referir a Ahmadinejad como 'megalomaníaco' numa entrevista em árabe à [rede] Al Arabiya".
Como revolucionário formado na tradição marxista (e, portanto, visceralmente avesso a medievalismos), como defensor dos direitos humanos em quaisquer circunstâncias, como homem civilizado e como jornalista,  manifesto meu veemente repúdio a mais esta condenação iníqua.

De resto, cabe lembrar uma argumentação correta que os companheiros estão utilizando no caso de Julian Assange: é inaceitável a intimidação de quem apenas divulgou aquilo que os governos foram incompetentes em proteger.

Da mesma forma, não somos nós que temos de zelar pela imagem do Irã, ameaçado de intervenção externa contra seu programa nuclear. São os próprios dirigentes iranianos.

Se eles insistem em fornecer, de mão beijada, tudo de que os propagandistas ocidentais necessitam para criar um ânimo belicoso em relação ao Irã, não faria sentido traírmos nossos princípios e negarmos o óbvio ululante a pretexto de dificultar os planos dos EUA e Israel.

Comportarmo-nos como cegos ou como avestruzes nos tiraria toda credibilidade, jogando-nos na mesma vala comum em que está o truculento Irã.

É certo que, por pior que seja tal regime, ainda assim a tarefa de regenerá-lo cabe ao próprio povo iraniano, devendo ser firmemente repudiada qualquer intervenção militar estrangeira, sob qualquer pretexto.

Mas, daí a compactuarmos com o extermínio legalizado  de oposicionistas, torturas, estupros, apedrejamentos e todo tipo de violação dos direitos humanos e direitos civis, vai uma grande distância.

A pressão moral temos, sim, o direito e a obrigação de exercer. A mais incisiva possível.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

DILMA É INCISIVA: NÃO COMPACTUARÁ COM AS PRÁTICAS MEDIEVAIS DO IRÃ

De tudo que se delineia sobre o Governo Dilma Rousseff, o mais alvissareiro é a perspectiva de que a política externa brasileira volte a se reger pela priorização dos direitos humanos que está inscrita em nossa Constituição.

Assim, em entrevista ao Washington Post, ela condenou enfaticamente a abstenção brasileira quando, duas semanas atrás, foi votada e aprovada na ONU uma resolução contra as torturas, penas de morte, violência contra mulheres e perseguição a minorias étnicas e religiosas por parte do estado teocrático iraniano.

Nossa diplomacia vinha defendendo a posição de que é mais fácil demover-se países como o Irã, Sri Lanka, Mianmar e Sudão de suas práticas brutais por meio de gestões discretas do que com execração e pressões ostensivas.

Faltou, entretanto, Mahamoud Ahmadinejad colaborar com Lula, quando este se prontificou a receber Sakineh Ashanti no Brasil; se ele, sensatamente, atendesse tal pedido, nosso presidente teria um resultado concreto para mostrar.

Ao morder a mão que o alimentava (o Brasil vem sendo um dos principais obstáculos à adoção de uma solução de força contra o programa nuclear iraniano), o premiê Ahmadinejad debilitou o posicionamento de Lula aos olhos do mundo, deixando-o totalmente à mercê das críticas estadunidenses. Quem tem um aliado desses, não precisa de inimigos...

Se faltava a pá de cal nessa postura equivocada, Dilma a providenciou:
'Não sou a presidente do Brasil, mas me sentiria desconfortável, como uma mulher eleita presidente, em não dizer nada contra o apedrejamento' [a que está condenada Sakineh, por mero adultério, tendo a péssima repercussão da sentença levado os aiatolás sinistros a tentarem tapar o sol com a peneira, acrescentando nova acusação, uma pretensa cumplicidade no assassinato do marido, que a ninguém convenceu].

'Eu não concordo com práticas que tenham características medievais [no que diz respeito] às mulheres. Não há nuances. Não farei nenhuma concessão nesse assunto'.

'Minha posição não mudará quando eu assumir o cargo. Não concordo com a forma como o Brasil votou [abstendo-se]. Não é a minha posição'.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

JÂNIO DE FREITAS: APEDREJAMENTO É CRIME HEDIONDO

Às vezes, bastam poucas palavras para se dizer tudo sobre um assunto, esgotando-o de vez.

É o caso destes três parágrafos do veterano jornalista Jânio de Freitas, em sua coluna Crimes de lá e de cá:
"...a sentença de morte por apedrejamento é absolutamente contrária aos princípios inscritos na Constituição brasileira. Logo, não pode ser senão condenada pelo Brasil em todos os foros.

Não apenas porque sentença de morte, já repelida pela Constituição. Ninguém parece ter notado que a morte por apedrejamento é tortura até a morte. Pelos princípios brasileiros, crime hediondo.

Se está inscrito em legislação estrangeira ou é praticado à margem de lei, não lhe muda a natureza e a hediondez."

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

NEM PILATOS, NEM AVESTRUZES

Princípios são princípios: se calhar de os piores safados estarem defendendo valores corretos, mesmo que com má fé e calculismo, ainda assim não podemos deixar de nos colocar ao lado da civilização, quando a alternativa é a barbárie.

Então, estão certíssimos os 80 países que aprovaram, na ONU, a resolução do Canadá condenando as sucessivas, grotescas e intermináveis violações dos direitos humanos por parte do estado teocrático iraniano.

E erradíssimo o Brasil ao se omitir, repetindo Pilatos.

Pois o Irã aplica uma justiça medieval que não tem mais lugar no século XXI, executa inocentes após julgamentos farsescos, apedreja mulheres, tortura, mutila, barbariza. Nenhum revolucionário pode, seja lá com qual justificativa for, em circunstância nenhuma, jamais, compactuar com tais atos!

Existimos para conduzir a humanidade a um estágio superior de civilização, não para enfiar a cabeça na areia enquanto déspotas ensandecidos impõem a seu povo o mais retrógrado e repulsivo fanatismo religioso.

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

PRAZER EM TE REENCONTRAR, COMPANHEIRA VANDA!

Sem falsa modéstia, acertei em praticamente tudo que escrevi sobre a campanha e o resultado do 2º turno da eleição presidencial.

Leitores contrariados com a derrota demotucana, entretanto, correram a me rotular de "petista", forma bem brasileira de desqualificar argumentações irrespondíveis.

No terreno minado em que se transformou o debate político na internet, não há mais espaço para nuances e sutilezas.

Caímos no maniqueísmo total: reduz-se tudo a uma disputa entre o Bem e o Mal, só diferindo o entendimento sobre quem seja o  mocinho  e quem seja o bandido.

Para veteranos de outros carnavais, entretanto, há uma infinidade de tons entre o branco e o negro. Foi assim que aprendemos a pensar a realidade e a direcionar nossas ações.

Não mudarei para satisfazer o primarismo de ninguém. Pois, mais do que êxitos, ganhos e prestígio, o que me importa é a coerência. Sou capaz de suportar a reprovação generalizada, quando intimamente sei que estou certo.

Nem imagino o que aconteceria se me sentisse um  safado -- como muitos que abriram mão dos seus ideais devem, lá no fundo, estar cientes de que são, embora finjam acreditar que  evoluíram.

Então, não me incomodei nem um pouco quando alguns me acusaram de ajudar  a direita, ao defender a posição de que cidadãos com convicções revolucionárias deveriam, no 1º turno, votar num dos quatro candidatos assumidamente anticapitalistas, e não na candidatura reformista com chance de liquidar logo a fatura.

E, como tudo confluía para (se houvesse) um 2º turno entre Dilma Rousseff e José Serra, também antecipei que, nesta hipótese, o certo seria apoiarmos a candidatura reformista contra a que, além de ser de centro-direita, englobava suspeitíssimos bolsões neofascistas.

REFORMA OU REVOLUÇÃO

Que eu me lembre, foi no final de 1968, ao redigir meu primeiro documento político mais ou menos autoral, que respondi à celebre questão colocada por Rosa Luxemburgo (reforma ou revolução) alinhando-me com os defensores da segunda, contra os esquerdistas que se conformavam com a primeira.

Para mim, não foi só uma besteirinha alinhavada para um congresso secundarista. Foi uma diretriz para a vida inteira.

Mais tarde, vim também a perceber quão insensata era a postura dos companheiros que faziam oposição meramente destrutiva às por eles chamadas  políticas econômicas burguesas, arriscando-se a atirar o Brasil numa depressão.

Ou seja, num momento de grande fragilidade econômica, sustentavam que seria bom se o caldo entornasse de vez, para as massas aprenderem na carne quão perverso é o capitalismo.

Contra esses eu argumentava que, nas crises econômicas (que eu havia estudado em profundidade para produzir uma série jornalística), a primeira coisa que acontece é o arrefecimento da combatividade dos trabalhadores.

Temerosos de perder o emprego numa época de vacas magras, eles, em sua maioria, abdicam de reivindicações, desertam dos sindicatos e enfiam a cabeça na areia.

Então, eu concluía, seria suicídio contribuírmos para o agravamento de qualquer recessão, além de uma desumanidade em relação aos humildes, que são sempre os que mais sofrem.

Dessa polêmica me veio a certeza de que o "quanto pior, melhor" não deve ter lugar nas lutas políticas e sociais.

Lembrei-me de haver lido, em Isaac Deutscher, que a democracia alemã fora detonada pelo ataque conjunto da direita e da esquerda: os comunistas, qualificando os socialistas de "sociais-fascistas", ajudaram Hitler a varrê-los do poder.

Acreditavam que, alijados os  intermediários, no confronto aberto com o  verdadeiro inimigo  levariam a melhor.

Mas, perderam. E, com sua aposta insensata, pavimentaram o terreno para os horrores da 2ª Guerra Mundial.

Lera sem muita atenção este relato. Mas, minhas próprias opções me levaram a perceber, posteriormente, sua enorme importância. Trata-se de um erro que jamais deveremos repetir.

Assim, no 2º turno, coloquei-me vigorosamente contra o retrocesso, enfatizando os riscos que a democracia brasileira correria na eventualidade de um governo com forte presença do DEM (herdeiro dos  arenosos  apoiadores da ditadura), um vice ultradireitista como o ìndio da Costa e uma relação pouco clara com as correntes virtuais neofascistas.

Isto incomodou aquelas tendências de esquerda que colocam o lulismo praticamente no mesmo plano dos inimigos capitalistas.

Fazer o quê?! Toquei minha caravana adiante. 

CIVILIZAÇÃO x BARBÁRIE

Na antevéspera da votação, com a certeza da eleição de Dilma, antecipei a postura a ser adotada no day after:
"[Dilma} já conseguiu evitar o retrocesso, parabéns!

"Torçamos para que ela seja igualmente bem sucedida em deslanchar o avanço, com determinação e ousadia".
Tornei mais clara ainda esta idéia no domingo da vitória:

"Torço para que a Dilma saiba aproveitar seu grande momento, não sendo apenas uma estátua de Davi, mas sim a aguerrida companheira que:
  • como Chaplin, queria chutar o traseiro dos ociosos;
  • como Cristo, trouxe uma espada para combater a injustiça; e
  • como Marx, pretendia proporcionar a cada trabalhador o necessário para a realização plena como ser humano".
Trocando em miúdos, com seus oito anos de políticas cautelosas, Lula melhorou a vida dos humildes e fez jus à sua gratidão.

Agora, com nossa economia deslanchando como não se via desde os melhores anos do  milagre brasileiro, Dilma pode desarquivar algumas propostas originais do PT que ficaram para trás, à espera de melhor oportunidade.
Tal oportunidade chegou e, se ela a aproveitar, desempenhará um papel de primeira grandeza na História escrita pelos explorados e oprimidos, que é bem diferente da História oficial.

Em sua primeira coletiva à imprensa, houve um momento mágico em que Dilma recolocou os valores humanitários no centro das decisões políticas, descartando o pragmatismo amoral:
"Mesmo considerando usos e costumes de outros países, continua sendo bárbaro o apedrejamento da Sakineh".
Sim, chega dessa relativização obscena que o Itamaraty vinha adotando em questões, estas sim, sem meio termo possível: ou se está ao lado dos homens, ou ao lado das bestas-feras!

A esquerda tem de voltar a alinhar-se, decidida e incondicionalmente, à civilização, contra a barbárie. Só assim tocará de novo os corações e mentes, atraindo para seu campo os melhores seres humanos -- aqueles que são movidos pela esperança num mundo melhor e disposição de contribuir para seu advento.

À Dilma que proferiu tal frase eu dou um voto de confiança: fez-me lembrar a vibrante companheira que conheci nos idos outubro de 1969, durante o Congresso de Teresópolis da VAR-Palmares.

Posso ser um incorrigível sonhador, mas espero sempre o melhor das pessoas.

Então, até prova em contrário, prefiro acreditar que, lá no fundo, sem  dar bandeira  porque isso em nada facilitaria sua jornada, Dilma ainda é Vanda -- e não um ex-Gabeira qualquer.

E mais Vanda será se a ajudarmos a ser Vanda.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O DISCURSO IRANIANO SERIA CÔMICO, SE O CASO SAKINEH NÃO FOSSE TRÁGICO

O porta-mentiras do governo do Irã, Rahmin Mehmanparast, insiste em tentar impingir a  cascata  de que Sakineh Mohammadi Ashtiani teria participado do assassinato do marido.

A respeitadíssima Anistia Internacional e um sem-número de organizações de defesa dos direitos humanos garantem que ela foi condenada por adultério e, face à repulsa mundial diante da sentença de apedrejamento até a morte por prática que nem delito constitui para pessoas civilizadas, os ensandecidos fanáticos religiosos iranianos forjaram a nova acusação.

Como tais organizações têm enorme credibilidade e o governo iraniano, nenhuma, perde tempo o arauto da quadratura do círculo. Não cola.

Além disto, o tal Mehmanparast acredita que, se o tal envolvimento com homicídio existisse mesmo, o apedrejamento não seria "questão de direitos humanos".

Com seu horizonte mental limitado às trevas medievais, ignora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo Artigo V reza:
"Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante".
Sakineh já foi torturada com 99 chibatadas e agora querem assassiná-la da forma mais cruel, desumana e degradante. Isto é ou não é  questão de direitos humanos?

Vai além o porta-mentiras:
"Se a libertação de todos os que cometeram homicídios será vista como questão de direitos humanos, então todos os países europeus deveriam soltar todos os assassinos nesses países".
Algum indivíduo caridoso deveria explicar-lhe, talvez com desenhos, que na Europa são soltos apenas os que foram presos sem motivo, como é o caso de Sakineh; e que lá ninguém recebe chibatadas nem é apedrejado, pois se trata de bestialidades que a História deixou para trás, felizmente.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

RUI MARTINS: ESQUERDA NÃO PODE SER CONIVENTE COM APEDREJAMENTOS!

Foi motivo de enorme orgulho para mim a demonstração de confiança recebida do companheiro Rui Martins: depois de sustentar praticamente sozinho a batalha de opinião pública em favor de Cesare Battisti de 2007 a 2009, com a minha entrada na luta ele avaliou que eu daria conta do recado, tendo a vantagem de atuar no Brasil. Então, deixou de encará-la como sua prioridade maior, para poder dedicar mais tempo a outras causas igualmente cruciais.

Isto me envaidece porque o Rui é um grande jornalista e um exemplar homem de esquerda, como se constata no artigo abaixo, que reproduzo na íntegra por concordar com cada palavra:

MULHERES IRANIANAS, IRÃ E ESQUERDA BRASILEIRA

Rui Martins (*)

O episódio envolvendo a mulher iraniana, Sakineh, ameaçada de morte por apedrejamento, o presidente iraniano Ahmadinejad e o nosso presidente Lula, tem o grande mérito de esclarecer certas tomadas de posição da esquerda brasileira.

Embora eu tenha lido que a embaixada iraniana no Brasil vai fazer uma campanha de esclarecimento, ja há coisas bastante claras. Mas vamos começar do princípio – um postulado básico do posicionamento da esquerda e mesmo objetivo de sua luta política é o respeito a um princípio não negociável, os direitos humanos.

A longa trajetória da esquerda no mundo tem sido marcada por campanhas que foram contra a escravidão, como a memorável luta dos escravos comandados por Spartacus; pela liberdade do pensamento, na qual Erasmo, Guttenberg, Lutero tiveram relevância; pela ação de pacifistas em favor do respeito da dignidade humana e contra o imperialismo, como Cristo e Gandhi; pelas mulheres que, ainda recentemente, conquistaram o reconhecimento de serem iguais aos homens, como Simone de Beauvoir, a ex-ministra francesa Simone Weil, a advogada francotunisiana Gisele Halimi, por terem conquistado o direito legal de abortar; e outros tantos homens e mulheres que, aqui na Europa e nas Américas, acabaram com os casamentos arranjados e forçados, e chegam mesmo a reconhecer o direito da mulher vender o prazer sexual se a isso não for obrigada.

Esta luta das mulheres,cujos resultados têm sido colhidos nos nossos dias, tem sido uma das mais difíceis, porque mesmo entre esquerdistas notórios, revolucionários e militantes pelos operários, o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres não foi automático. Por absurdo que possa parecer, as mulheres militantes na Revolução Espanhola, na Revolução de Outubro tinham escalão inferior, clima que existia também entre muitos marxistas.

Ora, na marcha da História, onde existem recaídas e retrocessos, o reconhecimento da dignidade das mulheres, do seu direito à liberdade para viver, casar e divorciar, ter ou não ter filhos, ser ou não fiel ao amante ou marido, é assegurado num número reduzido de países. E no próprio Brasil ainda não é de todo reconhecido.

Faz pouco anos, todos os autores de crimes passionais eram absolvidos. O caso mais flagrante da justiça machista brasileira é o do ex-diretor do jornal O Estado de S. Paulo, Pimenta das Neves que matou pelas costas sua ex-amante, a jornalista Sandra Gomide, por ter sido por ela preterido e, embora condenado, vive em liberdade aguardando uma decisão do STF que, pelo jeito, nunca virá. No Brasil, não se apedreja Sakineh ou Sandra, mata-se a faca ou a tiros, e fica por isso mesmo, porque a justiça e a sociedade fazem vista grossa.

Ora, onde eu quero chegar? O posicionamento de esquerda não deve e não pode permitir o caucionamento de regimes e governos ainda na idade da pedra e dos apedrejamentos em questões de direitos humanos que incluem, é óbvio, as mulheres.

Mesmo quando se trata de manobra tática política, o contrapeso é excessivamente pesado.

Apoiar regimes que lapidam mulheres, obrigadas a serem fiéis a maridos que lhes foram impostos, ou simplesmente vítimas de suspeitas ou de tramas familiares é um contrassenso e não ajudará esses países a promover as reformas necessárias em favor das mulheres, livrando-as do jugo de religiosos retrógrados.

Apoiar regimes que cortam mãos, pés e cortam o nariz e orelhas da mulher que declara querer se divorciar, é ser conivente e cúmplice. Isso não quer dizer que o imperialista Bush podia invadir e ocupar países do Oriente Médio. Cada país tem direito à sua autodeterminação e a evoluir. A Europa queimava hereges na fogueira, caçava bruxas e punia as adúlteras, isso ainda há trezentos anos. O Afganistão e a milenar Pérsia vão evoluir sem precisar de soldados ocidentais, ao contrário a ocupação americanoeuropéia só vai atrasar essa evolução.

Outra coisa, não é porque Israel tem governo de extrema-direita, aplica uma indecente política de colonização e humilha os palestinos que o Hamas se transformará no movimento revolucionário exemplar e que a Palestina governada pelo Hamas será o paraíso. Ninguém é obrigado a ser por Israel ou pelo Hamas, é muito mais coerente e correto ser contra os dois. Não é porque não aceito o prepotente Natanyaou, que vou justificar o Hamas religioso, que vem acabando com o laicismo do Fatha e com as conquistas das mulheres palestinas da época de Arafat.

Sakineh, a mulher iraniana ameaçada de morrer apedrejada não é a primeira e nem vai ser a última. Já houve mobilizações mundiais em favor de mulheres condenadas ao apedrejamento em países islamitas africanos.

Quem viu o filme baseado no romance de Khaled Osseini, sobre o Afganistão de antes da invasão soviética (não se deve esquecer) até a atual ocupação ocidental, lembra-se da cena da mulher lapidada. Ainda há uns cinco anos, um professor em Genebra, justificava no jornal Le Monde o apedrejamento de mulheres adúlteras até a morte. Era Hani Ramadan, filho do criador do movimento islamita fundamentalistas Irmãos Muçulmanos e irmão do líder islamita na Europa, Tarik Ramadan, que até hoje não deixou claro se apoia ou não esse tipo de punição ditada pela chariá do Corão.

O caso da mulher iraniana ameaçada de ter seu rosto e cabeça destruídos por pedras lançadas por homens não é apenas a resposta iraniana maleducada ao nosso presidente Lula, por ter oferecido refúgio à iraniana.

É muito mais que isso – é a existência no nosso planeta de regiões e religiões que consideram as mulheres seres inferiores, que as escondem sob o manto escuro da burca e as matam a pedradas. Não vejo como poderia apoiar ou justificar, mesmo como tática política, tais países. Só com condenações e denúncias (não guerras ou invasões) poderão evoluir.

A destruição do Iraque, país laico, pelos americanos favoreceu o islamismo ortodoxo iraniano. E hoje, em lugar dos não religiosos Nasser, Arafat e Sadam Hussein, o líder da região é Ahmadinejad apoiado por molás e imãs, como na nossa Idade Média de reis e imperadores apoiados pelo Vaticano.

* Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CASO SAKINEH: RESPOSTA DO IRÃ A LULA FOI GROSSEIRA

É inaceitável o comunicado do Irã em resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ofereceu asilo a Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento em função de mero adultério.

Supondo que sejamos perfeitos otários, as autoridades iranianas insistem na invencionice posterior de que a pena capital se deveu a cumplicidade em assassinato, embora a sentença reze o contrário. Não cola.

Mahmoud Ahmadinejad se nega a transferir um "problema" para Lula, como se nosso presidente fosse um incapaz necessitado de tutela externa ao tomar suas decisões.

Pior ainda foi o comunicado oficial, no qual o Irã simplesmente nos insultou, ao fazer indagações ofensivas e acintosas:
"Em relação à presença ou ao exílio de Sakineh Mohamadi no Brasil, é necessário considerar alguns pontos e questões significativas. Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos?

"Esse ato não promoverá e não incitará criminosos a praticar crimes?

"Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?"
Mereciam receber uma resposta sincera: oferecemos asilo a Sakineh porque temos certeza de que não se trata de nenhuma criminosa, mas sim do alvo da vez de psicopatas que utilizam a religião para acobertar seus impulsos sádicos e homicidas.

Não consigo imaginar seres humanos tão vis e covardes a ponto de apedrejarem uma mulher até a morte. Estão mais para bestas-feras.

Quanto ao  lugar para os criminosos de outros países em território brasileiro, prometo lutar até o fim para que nele não sejam admitidos os responsáveis por atos tão hediondos, quando o povo iraniano finalmente os escorraçar como merecem.

Infelizmente, estavam certos os que criticaram Lula por tentar introduzir um pouco de racionalidade na discussão sobre sanções ao Irã.

Nosso presidente tinha ótimas intenções, mas se desgastou inutilmente tentando ajudar fanáticos delirantes, ingratos ao extremo. Perda total.

A mesma boa vontade ele mostrou ao se dispor a receber Sakineh, não só pela compaixão  que seu caso naturalmente inspira, mas também para oferecer ao Irã uma saída honrosa de um episódio que está deixando sua imagem em cacos.

Os mandatários iranianos, se utilizassem a desculpa de estarem atendendo o pedido de um governante amigo, salvariam as aparências.

Mas, preferiram insistir em sua intransigência obtusa.

Agora, ou assassinam Sakineh e serão vistos pelo mundo inteiro como trogloditas.

Ou poupam Sakineh e darão apenas demonstração de fraqueza, pois parecerá que se vergaram a pressões, embora continuassem errados nas convicções.

Em qualquer das hipóteses, o mal está feito: haverá bem menos solidariedade ao Irã, se os EUA desfecharem um ataque para que os israelenses possam dormir sem pesadelos com bombas atômicas (já os vizinhos perderem o sono por causa dos petardos judeus faz parte da ordem natural das coisas...).

E a imprensa informa que as pressões por uma intervenção militar estão aumentando nos EUA.

Ahmadinejad e sua trupe sinistra mostram um talento todo especial... para marcarem gols contra.

De quebra, trataram a pontapés o único presidente de uma grande nação que lhes estendeu a mão.

REAÇÃO BRASILEIRA
 
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, respondeu à altura, afirmando que o Brasil continuará empenhando-se para que o caso de Sakineh tenha uma solução humanitária e se referindo a Mahmoud Ahmadinejad como o que ele realmente é: um  ditador. Bravo!

Vocês já viram esses pobres tolos enterrando-se cada vez mais nos caça-níqueis, sem ânimo para ir embora porque já perderam durante horas a fio e querem acreditar que a sorte acabará virando?

Pois é, nunca vira e eles despencam até o fundo do poço.

A situação é a mesma. O Brasil já perdeu muito apostando no Irã e perderá mais ainda  insistindo. É hora de respeitar a si próprio e de se fazer respeitar por estrangeiros insolentes.

Então, espero que o Itamaraty não atrapalhe: Vannuchi  está falando pelo Brasil.

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

BÁRBAROS EMPEDERNIDOS E CRUÉIS ASSASSINOS

Quando saí dos cárceres da ditadura militar, com uma lesão física permanente, muitos problemas psicológicos e terríveis danos morais, havia aclarado meu conceito sobre ditaduras.

Antes já repudiava as de direita, claro, mas me deixara iludir pelos textos que impingiam, como mal necessário, uma ditadura do proletariado, atenuada nas ressalvas: seria tão cirúrgica quanto possível, durando apenas o tempo necessário para se criarem os pré-requisitos de sua abolição.

A experiência vivida falou mais alto do que qualquer argumento: decidi que nada, absolutamente nada, justificava que um indivíduo fosse colocado na condição de vítima indefesa do Estado, qualquer que fosse o Estado.

Meus algozes podiam me torturar como e quando bem entendessem.

Privar-me do sono, de roupas, de alimentos, de higiene, de assistência médica e até da luz solar.

Ameaçar-me de estupro (com as mulheres, muitas vezes iam às vias de fato).

Simular roletas russas e fuzilamentos.

Emitir comunicados mentirosos a meu respeito.

E me matar, seja por excessos involuntários nas sessões de tortura, seja por tédio.

Aos 19 anos, estive próximo de um enfarte no terceiro dia de prisão, quando, após medirem minha pressão, suspenderam as torturas e me encheram de calmantes.

Ao contrário do que aconteceria a partir de 1971, ainda não haviam partido para a matança indiscriminada -- não por respeito à vida humana, mas porque as mortes chocantes davam ensejo a campanhas humanitárias exortando governos estrangeiros a suspenderem linhas de crédito para o Brasil.

A partir do quarto diplomata trocado por presos políticos, no entanto, os tiranos decidiram absorver os prejuízos de ordem econômica, de preferência a exilar militantes que pudessem depois voltar e contribuir para a libertação do povo brasileiro.

Então, ao invés de oficializar suas prisões, passaram a sequestrá-los, levá-los para centros de tortura clandestinos, submetê-los aos piores suplícios, executá-los e dar sumiço nos cadáveres.

Mesmo quando a ordem ainda não era matar, contudo, houve oficial que me incentivou a tentar a fuga, "agora que ninguém está olhando", para me fuzilar pelas costas e depois apresentar seu ato como necessário. Por quê? Porque havia tido um mau dia e estava enfastiado...

A PRIMEIRA BRECHA

Enfim, percebi que jamais se deveria conceder ao Estado tamanho poder sobre o cidadão, por não haver garantia nenhuma de que, mesmo sendo fixados limites, estes não seriam ultrapassados ao sabor dos acontecimentos.

Os textos marxistas sobre ditadura do proletariado e, p. ex., nem de longe justificam os massacres de camponeses durante a coletivização forçada na URSS ou os genocídios de Pol Pot no Camboja. No entanto, estes decorreram daqueles.

Vale lembrar uma frase antológica do filme O Julgamento de Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961).

Face ao desabafo de um magistrado alemão, estupefato por as coisas terem saído tanto do controle durante a era nazista, um membro do tribunal explica:
"Esses horrores todos começaram quando o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".
Então, não se pode deixar que seja aberta a primeira brecha, ainda que ínfima, pois haverá sempre os que a alargarão.

Quem luta para criar a sociedade perfeita, com a concretização plena da liberdade e da justiça social, não deve  transigir com nenhuma ditadura e nenhuma forma de desigualdade, seja em que ponto for da caminhada. Caso contrário, não chegará aonde pretendia, mas a lugar bem pior.

FARSA CONTRA SAKINEH

Foram as reflexões que me vieram à mente após ler que as autoridades iranianas exibiram na TV um vídeo com uma suposta Sakineh Ashanti, em fala  ademais dublada, praticamente admitindo a cumplicidade jamais provada no assassinato do seu marido.

Foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério, só por adultério.

Como isso teve a pior repercussão possível junto às pessoas civilizadas do mundo inteiro, armaram uma farsa para justificar a sentença hedionda.

E o fizeram depois de privarem sakineh do seu advogado, com abusos grotescos, inclusive o de aprisionar-lhe os entes queridos para usá-los como reféns.

Assim como quando Stalin fazia condenarem dignos revolucionários sob pretextos os mais falaciosos e ridículos, depois de triturados em seus cárceres, não existe condescendência possível com tais práticas por parte de quem pretende sinceramente transformar o mundo.

Há que se defender, sim, o Irã das ameaças de intervenção armada dos EUA, como represália por seu programa nuclear.

Mas, isto não pode -- jamais!!! -- implicar nossa conivência com o estupro sistemático dos direitos humanos por parte das autoridades iranianas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu oficialmente asilo a Sakineh, dando aos aloprados do Irã uma saída honrosa neste episódio, ao menos.

Então, o assassinato com requintes de extrema crueldade que tramam só servirá à propaganda dos EUA enquanto eles mantiverem sua postura de fanática/asnática intransigência.

E enquanto a mantiverem, não merecem a simpatia de ninguém. São bárbaros empedernidos e cruéis assassinos. Nada mais.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

IRÃ COLOCA O MUNDO CONTRA SI. GOETHE EXPLICA

"Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiramente enlouquecem", disse Goethe.

Quando os EUA tentam convencer a opinião pública mundial da necessidade de uma operação militar contra o Irã, não consigo imaginar procedimento mais estúpido por parte das autoridades daquele país do que teimarem em manter presa e ameaçada de execução horrível uma mulher por algo que nem sequer é crime em nações civilizadas.

Isto projeta uma imagem extremamente negativa do Irã, inspirando todas as desconfianças: quem se dispõe a apedrejar até a morte seu semelhante por uma mera presunção de adultério, que outras barbaridades não será capaz de cometer?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva bem que tentou remediar a situação, ao oferecer asilo para Sakineh Ashtiani. Sua vida seria salva, com Ahmadinejad podendo sempre alegar aos aloprados de Teerã que atendera a um apelo de aliado importante.

Negativo. O estado teocrático do Irã é impermeável à razão e ao bom senso, como o são sempre os fanáticos religiosos.

Então, por suas sistemáticas violações dos direitos universais do homem, o Irã inspira tanto temor que só conseguirá levar adiante seu projeto nuclear, alegadamente pacífico, se aceitar submeter-se à mais rigorosa fiscalização de organismos internacionais.

E conseguiu o prodígio de fazer com que fosse praticamente esquecido o igualmente bárbaro ataque à flotilha de ajuda humanitária a Gaza, que era grande argumento em seu favor: se um país tão transgressor do Direito internacional como Israel possui artefatos nucleares há décadas, que autoridade moral têm os EUA e a ONU para encarniçarem-se contra o Irã?

Enlouquecidos pelos deuses, os dirigentes iranianos veem um abismo abrir-se à frente... e continuam marchando na sua direção.

"NÃO HÁ TESTEMUNHA. É A MAIOR PROVA
DE QUE O PROCESSO NÃO ESTÁ CORRETO"

Uma boa idéia do ambiente irrespirável no Irã é dada pela entrevista que a Folha de S. Paulo fez, por telefone, com o advogado de Sakineh, Mohammad Mostafaei, de notória atuação na defesa dos direitos humanos, que teve de fugir do país para não ser igualmente preso. Eis os principais trechos:
"Há mais de dois anos, sofro uma pressão muito grande. Meus casos tinham importância internacional, sendo o mais recente o de Sakineh. A gota d'água foi pegarem como reféns minha mulher e seu pai. Tenho muito amor pelo Irã e pelo meu trabalho. Posso dizer que já ajudei a salvar a vida de mais de 50 pessoas. Eu quero atuar no Irã, mas, infelizmente, a pressão que sofro é insuportável.

"Minha mulher está em uma solitária há 12 dias, na cela 209 da prisão de Evin. Minha mulher não cometeu nenhum crime e está numa situação muito difícil. Minha filha, agora, não tem a atenção nem do pai nem da mãe.

"Ela [Sakineh] não cometeu crime nenhum. O caso não tem nada a ver com as acusações feitas a ela. Os filhos cuidam do bem-estar dela. Se tivesse havido crime, os filhos seriam os primeiros a se manifestar. Para provar adultério, precisam existir testemunhas de quatro ocasiões [relações sexuais] ou quatro testemunhas de uma mesma ocasião. E não há testemunha. É a maior prova de que o processo não está correto".

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DEPUTADOS BRASILEIROS APELAM AO IRÃ POR SAKINEH

A Câmara Federal aprovou nesta 4ª feira (4) moção apelando pela vida de Sakineh Ashtiani, que o Irã pretende assassinar a pedradas, com requintes de extrema crueldade, por presunção de adultério.

As principais considerações dos deputados brasileiros foram as seguintes:
“Relembrando que o Brasil já ofereceu a Ashtiani e a sua família concessão de asilo político;

“Ressaltando a necessidade de um esforço conjunto com o intuito de banir em todo o mundo as penas de apedrejamento e de morte em todas as suas formas;

“Reafirmando a tradição brasileira de defesa veemente dos direitos humanos;

“Relembrando que nossa Constituição Federal, em seu artigo 4º, estabelece que a República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais, entre outros, pelo princípio da prevalência dos direitos humanos;

“Confiantes da necessidade de o parlamento brasileiro participar ativamente em prol da defesa absoluta dos direitos humanos, em concordância com o princípio da não-indiferença, que adverte não ser possível resignar-se diante do sofrimento alheio;

“Considerando que a defesa dos direitos humanos se coaduna com a doutrina da não-intervenção em assuntos internos dos Estados e que a vida deve ser tratada como valor supremo;

“Exortamos o governo do Irã a libertar Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento”.
ARBITRARIEDADES EM CASCATA

Também nesta 4ª feira, a Alta Corte de Teerã decidiu manter a bárbara, cruel e inaceitável sentença, conforme informação divulgada pelo Comitê Internacional contra Apedrejamento.

Cabe agora ao vice-procurador-geral Saeed Mortazavi decidir se seu país está no 3º Milênio ou no 1º, quando viveu Maomé. Deverá fazê-lo na próxima semana.

Sakineh nem sequer conta com defensor atualmente, pois seu advogado Mohammad Mostafaei precisou fugir do país: foi interrogado durante quatro horas, libertado, mas teve sua prisão decretada três dias depois. Escapou atravessando a fronteira com a Turquia

Os parentes de Mostafaei tiveram menos sorte: não conseguiram escafeder-se em tempo e foram detidos (melhor seria dizer tomados como reféns).

A condenação de Sakineh se deu graças uma estapafúrdia figura jurídica do Irã, chamada de conhecimento do juiz, que dispensa a avaliação de provas e testemunhas. Ou seja, vale mais uma convicção preconceituosa do que mil evidências concretas.

Durante as trevas medievais, era assim em todo o mundo.

Hoje, só em grotões onde a civilização não chegou, como o Irã.
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