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quinta-feira, 20 de outubro de 2022

DISPUTA DO MUNDIAL 2022 NO CATAR SERÁ UM CHUTE NOS DIREITOS HUMANOS

País conservador e intolerante, o Catar mantém práticas inaceitáveis no mundo moderno...
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entro de um mês, começará Mundial da Fifa, pela primeira vez num país árabe sem tradição futebolística e onde nem todos os direitos humanos reconhecidos pela ONU são respeitados.

A organização Human Rights Watch fala mesmo em Copa do Mundo da Vergonha, citando principalmente a perseguição aos homossexuais no Catar. Mas, nem todos os brasileiros veem esta e outras intolerâncias como um problema.

Faz um ano, numa entrevista ao Le Monde, o ex-presidente suíço da Fifa dizia ter sido um erro tal escolha, mas esta já era sua opinião ao abrir o envelope em favor do Catar, em 2010. Segundo Joseph Blatter, o plano era outro, bem mais prestigioso: depois do Mundial na Rússia seria a vez dos Estados Unidos.

Quem mudou tudo, contou Blatter, foi o então presidente da França, Nicolas Sarkozy, exercendo pressão sobre o compatriota Michel Platini (ex-jogador que presidia a Uefa), num jantar com o príncipe herdeiro catari. A influência de Platini foi decisiva.
...como o apedrejamento de adúlteros.

Terá sido mesmo um erro? As acusações se avolumam, relacionadas com o clima, com a situação dos homossexuais e mulheres no Catar, com a corrupção e com o desrespeito aos direitos humanos e direitos trabalhistas durante a construção dos estádios. 

Tanto que diversas cidades francesas decidiram não instalar telões para o grande público poder acompanhar ao vivo, em praças públicas, o desenrolar dos jogos. Da mesma forma, muitos restaurantes e bares europeus desta vez não disponibilizarão as transmissões de TV dentro de seus estabelecimentos.

Chegou-se a conjeturar um boicote da Copa do Catar. Embora esta medida extrema não tenha sido aprovada, algumas associações ainda não chegaram a uma decisão final. 

As críticas graves referem-se aos direitos e ao tratamento dos trabalhadores na construção dos estádios, denunciando-se a ocorrência de 6.500 óbitos nos canteiros de obras, uma grande parte como consequência do calor, mas considerados pelas empresas construtoras como mortes causadas por problemas cardíacos, maneira de negarem indenizações às famílias.

Outra questão é ligada aos direitos das pessoas LGBTQIA+, pois no Catar a homossexualidade é proibida e mesmo punida com sete anos de prisão. E será enorme o impacto ambiental causado pelos estádios climatizados e pelo excessivo número de voos previstos durante a competição (incluindo, cerca de 160 voos extras diários).

Então, o boicote do Mundial do Catar seria uma boa opção? A Anistia Internacional discorda, considerando mais útil negociar com a Fifa e com as grandes empresas patrocinadoras para que:
— seja paga uma indenização a todos os trabalhadores vítimas de acidentes de trabalho;
— idem às famílias dos trabalhadores mortos nos canteiros de obras; e
— sejam efetuados os pagamentos pendentes a outros trabalhadores, muitos dos quais recebem menos do que o salário-mínimo fixado pela OIT.
Jogadores da seleção alemã repudiam Copa no Catar
Felizmente, algumas empresas já aceitaram participar desse fundo de indenizações. Mas é bom ficar claro: isto não soluciona a questão dos abusos cometidos nestes anos de construção dos estádios. 

Muito menos os episódios de situações próximas da escravidão em que viviam os trabalhadores, a maioria imigrantes, praticamente impedidos de se demitirem de seus trabalhos e retornaram aos seus países.

Quatro grandes empresas são favoráveis às indenizações, porém nada foi ainda definido, seja quanto ao total de capital necessário, à participação de cada uma delas e às modalidades dessas indenizações. O risco é tudo ficar no âmbito das boas intenções, tão logo terminem as competições em meados de dezembro.

Para a porta-voz da Anistia Internacional na Suíça, Nadia Boehlen, a questão das infrações do Catar aos direitos humanos deveriam fazer parte importante na cobertura desse Mundial pelos jornalistas, comentaristas e dirigentes das federações e associações de futebol, dando tempo e espaço para todo tipo de denúncias, além de não fazerem vista grossa ao constatarem eles próprios abusos nas condições de trabalho nos hotéis onde forem hospedados, nos restaurantes e nas localidades em que estiverem.

Embora o Catar possa alegar ter havido algumas melhoras nos sistemas empregatícios e na Kafala, que regula os contratos com empregadas e empregados estrangeiros, a Anistia Internacional as considera insuficientes: 
Ativistas LGBTQIA+ também fizeram atos de protesto
"Não existem garantias e cometem-se muitos abusos. Os empregadores se aproveitam de um clima geral de impunidade, não havendo contra eles qualquer punição em caso de violações"
A Fifa não exerceu a vigilância esperada pela Anistia, embora, segundo os princípios dos direitos humanos da ONU, seja dela a responsabilidade de controlar as federações de futebol parceiras na realização de um Mundial, incluindo o respeito aos direitos trabalhistas de todos os envolvidos na realização do Mundial e a aplicação das indenizações no caso de não cumprimento ou violação desses direitos.

Será importante a Fifa fazer exigências básicas aos países interessados em sediar as próximas Copas do Mundo, principalmente àqueles mais autoritários e/ou que mantêm crenças religiosas retrógradas. 

De maneira geral, essa é a expectativa da imprensa europeia, como ressaltou o jornal Le Monde em recente editorial, exortando no sentido de que a expectativa do lucro e o gigantismo dos eventos não se sobreponham à inteireza do esporte, sacrificando princípios básicos dos direitos humanos. (por Rui Martins)

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

INTENSIFICA-SE A CAMPANHA MUNDIAL CONTRA A EXECUÇÃO DE SAKINEH

Sakineh Mohammadi Ashtiani, que o estado teocrático do Irã quer executar em nome de usos e costumes medievais, recebe solidariedade cada vez maior de governos, entidades e cidadãos com espírito de justiça em todo o mundo.

A cruzada se intensificou depois que Sakineh, na semana passada, foi conduzida à sua casa para a gravação de um documentário falacioso da TV iraniana. ONG's chegaram até a anunciar, erroneamente, sua libertação.

A realidade era bem outra: coagiram-na a coonestar o que haviam inventado a seu respeito os aiatolás ensandecidos, depois que a sentença de morte por apedrejamento (como punição por um mero adultério) provocou indignação universal.

Foi obrigada a uma encenação lesiva a seus interesses e, exatamente por isto, inaceitável segundo os preceitos civilizados de Justiça. Assim, admitiu ter aplicado uma injeção de sedativo no marido, para que depois, supostamente, fosse eletrocutado por seu amante.

Nada disto, nem mesmo que tenha havido assassinato, subsiste à luz do Direito contemporâneo. O paralelo mais adequado ao que passa por justiça no Irã é o Tribunal do Santo Ofício (a Inquisição).

Para Mina Ahadi, do Comitê Internacional contra a Pena de Morte, "o programa de TV foi uma farsa brutal". Assino embaixo.

Exatamente porque esses Torquemadas com turbante não têm a mais ínfima credibilidade, o Parlamento Europeu decidiu enviar uma comitiva internacional de advogados a Teerã

Liderado pelo italiano Bruno Malattia, o grupo de cinco juristas aguarda a permissão do governo do Irã para o ingresso no país.

Dificilmente a terá. Quem prende o advogado de uma ré para deixá-la indefesa, e o seu filho para deixá-la sem apoio, não passa de linchador. E linchadores agem nas sombras, tudo fazendo para não serem expostos à luz.

Afora isto, mais de 80 artistas, acadêmicos e políticos -- incluindo os atores Robert Redford e Robert De Niro, o cantor Sting, o prêmio Nobel de literatura Wole Soyinka e o ministro das Relações Exteriores francês Bernard Kouchner -- acabam de pedir a libertação de Sakineh.

"Sakineh Mohammadi Ashtiani já sofreu o suficiente. Nós pedimos ao governo do Irã para libertar imediatamente Sakineh, seu filho Sajad Ghaderzade e seu advogado Javid Houtan Kian", dizem em carta aberta ao aiatolá Ali Khamenei e ao presidente Mahmoud Ahmadinejad, que o Times publicou.

E nosso ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reiterou que a oferta do presidente Lula, de asilo no Brasil, continua em pé.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

O DISCURSO IRANIANO SERIA CÔMICO, SE O CASO SAKINEH NÃO FOSSE TRÁGICO

O porta-mentiras do governo do Irã, Rahmin Mehmanparast, insiste em tentar impingir a  cascata  de que Sakineh Mohammadi Ashtiani teria participado do assassinato do marido.

A respeitadíssima Anistia Internacional e um sem-número de organizações de defesa dos direitos humanos garantem que ela foi condenada por adultério e, face à repulsa mundial diante da sentença de apedrejamento até a morte por prática que nem delito constitui para pessoas civilizadas, os ensandecidos fanáticos religiosos iranianos forjaram a nova acusação.

Como tais organizações têm enorme credibilidade e o governo iraniano, nenhuma, perde tempo o arauto da quadratura do círculo. Não cola.

Além disto, o tal Mehmanparast acredita que, se o tal envolvimento com homicídio existisse mesmo, o apedrejamento não seria "questão de direitos humanos".

Com seu horizonte mental limitado às trevas medievais, ignora a Declaração Universal dos Direitos Humanos, cujo Artigo V reza:
"Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante".
Sakineh já foi torturada com 99 chibatadas e agora querem assassiná-la da forma mais cruel, desumana e degradante. Isto é ou não é  questão de direitos humanos?

Vai além o porta-mentiras:
"Se a libertação de todos os que cometeram homicídios será vista como questão de direitos humanos, então todos os países europeus deveriam soltar todos os assassinos nesses países".
Algum indivíduo caridoso deveria explicar-lhe, talvez com desenhos, que na Europa são soltos apenas os que foram presos sem motivo, como é o caso de Sakineh; e que lá ninguém recebe chibatadas nem é apedrejado, pois se trata de bestialidades que a História deixou para trás, felizmente.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

RUI MARTINS: ESQUERDA NÃO PODE SER CONIVENTE COM APEDREJAMENTOS!

Foi motivo de enorme orgulho para mim a demonstração de confiança recebida do companheiro Rui Martins: depois de sustentar praticamente sozinho a batalha de opinião pública em favor de Cesare Battisti de 2007 a 2009, com a minha entrada na luta ele avaliou que eu daria conta do recado, tendo a vantagem de atuar no Brasil. Então, deixou de encará-la como sua prioridade maior, para poder dedicar mais tempo a outras causas igualmente cruciais.

Isto me envaidece porque o Rui é um grande jornalista e um exemplar homem de esquerda, como se constata no artigo abaixo, que reproduzo na íntegra por concordar com cada palavra:

MULHERES IRANIANAS, IRÃ E ESQUERDA BRASILEIRA

Rui Martins (*)

O episódio envolvendo a mulher iraniana, Sakineh, ameaçada de morte por apedrejamento, o presidente iraniano Ahmadinejad e o nosso presidente Lula, tem o grande mérito de esclarecer certas tomadas de posição da esquerda brasileira.

Embora eu tenha lido que a embaixada iraniana no Brasil vai fazer uma campanha de esclarecimento, ja há coisas bastante claras. Mas vamos começar do princípio – um postulado básico do posicionamento da esquerda e mesmo objetivo de sua luta política é o respeito a um princípio não negociável, os direitos humanos.

A longa trajetória da esquerda no mundo tem sido marcada por campanhas que foram contra a escravidão, como a memorável luta dos escravos comandados por Spartacus; pela liberdade do pensamento, na qual Erasmo, Guttenberg, Lutero tiveram relevância; pela ação de pacifistas em favor do respeito da dignidade humana e contra o imperialismo, como Cristo e Gandhi; pelas mulheres que, ainda recentemente, conquistaram o reconhecimento de serem iguais aos homens, como Simone de Beauvoir, a ex-ministra francesa Simone Weil, a advogada francotunisiana Gisele Halimi, por terem conquistado o direito legal de abortar; e outros tantos homens e mulheres que, aqui na Europa e nas Américas, acabaram com os casamentos arranjados e forçados, e chegam mesmo a reconhecer o direito da mulher vender o prazer sexual se a isso não for obrigada.

Esta luta das mulheres,cujos resultados têm sido colhidos nos nossos dias, tem sido uma das mais difíceis, porque mesmo entre esquerdistas notórios, revolucionários e militantes pelos operários, o reconhecimento da igualdade entre homens e mulheres não foi automático. Por absurdo que possa parecer, as mulheres militantes na Revolução Espanhola, na Revolução de Outubro tinham escalão inferior, clima que existia também entre muitos marxistas.

Ora, na marcha da História, onde existem recaídas e retrocessos, o reconhecimento da dignidade das mulheres, do seu direito à liberdade para viver, casar e divorciar, ter ou não ter filhos, ser ou não fiel ao amante ou marido, é assegurado num número reduzido de países. E no próprio Brasil ainda não é de todo reconhecido.

Faz pouco anos, todos os autores de crimes passionais eram absolvidos. O caso mais flagrante da justiça machista brasileira é o do ex-diretor do jornal O Estado de S. Paulo, Pimenta das Neves que matou pelas costas sua ex-amante, a jornalista Sandra Gomide, por ter sido por ela preterido e, embora condenado, vive em liberdade aguardando uma decisão do STF que, pelo jeito, nunca virá. No Brasil, não se apedreja Sakineh ou Sandra, mata-se a faca ou a tiros, e fica por isso mesmo, porque a justiça e a sociedade fazem vista grossa.

Ora, onde eu quero chegar? O posicionamento de esquerda não deve e não pode permitir o caucionamento de regimes e governos ainda na idade da pedra e dos apedrejamentos em questões de direitos humanos que incluem, é óbvio, as mulheres.

Mesmo quando se trata de manobra tática política, o contrapeso é excessivamente pesado.

Apoiar regimes que lapidam mulheres, obrigadas a serem fiéis a maridos que lhes foram impostos, ou simplesmente vítimas de suspeitas ou de tramas familiares é um contrassenso e não ajudará esses países a promover as reformas necessárias em favor das mulheres, livrando-as do jugo de religiosos retrógrados.

Apoiar regimes que cortam mãos, pés e cortam o nariz e orelhas da mulher que declara querer se divorciar, é ser conivente e cúmplice. Isso não quer dizer que o imperialista Bush podia invadir e ocupar países do Oriente Médio. Cada país tem direito à sua autodeterminação e a evoluir. A Europa queimava hereges na fogueira, caçava bruxas e punia as adúlteras, isso ainda há trezentos anos. O Afganistão e a milenar Pérsia vão evoluir sem precisar de soldados ocidentais, ao contrário a ocupação americanoeuropéia só vai atrasar essa evolução.

Outra coisa, não é porque Israel tem governo de extrema-direita, aplica uma indecente política de colonização e humilha os palestinos que o Hamas se transformará no movimento revolucionário exemplar e que a Palestina governada pelo Hamas será o paraíso. Ninguém é obrigado a ser por Israel ou pelo Hamas, é muito mais coerente e correto ser contra os dois. Não é porque não aceito o prepotente Natanyaou, que vou justificar o Hamas religioso, que vem acabando com o laicismo do Fatha e com as conquistas das mulheres palestinas da época de Arafat.

Sakineh, a mulher iraniana ameaçada de morrer apedrejada não é a primeira e nem vai ser a última. Já houve mobilizações mundiais em favor de mulheres condenadas ao apedrejamento em países islamitas africanos.

Quem viu o filme baseado no romance de Khaled Osseini, sobre o Afganistão de antes da invasão soviética (não se deve esquecer) até a atual ocupação ocidental, lembra-se da cena da mulher lapidada. Ainda há uns cinco anos, um professor em Genebra, justificava no jornal Le Monde o apedrejamento de mulheres adúlteras até a morte. Era Hani Ramadan, filho do criador do movimento islamita fundamentalistas Irmãos Muçulmanos e irmão do líder islamita na Europa, Tarik Ramadan, que até hoje não deixou claro se apoia ou não esse tipo de punição ditada pela chariá do Corão.

O caso da mulher iraniana ameaçada de ter seu rosto e cabeça destruídos por pedras lançadas por homens não é apenas a resposta iraniana maleducada ao nosso presidente Lula, por ter oferecido refúgio à iraniana.

É muito mais que isso – é a existência no nosso planeta de regiões e religiões que consideram as mulheres seres inferiores, que as escondem sob o manto escuro da burca e as matam a pedradas. Não vejo como poderia apoiar ou justificar, mesmo como tática política, tais países. Só com condenações e denúncias (não guerras ou invasões) poderão evoluir.

A destruição do Iraque, país laico, pelos americanos favoreceu o islamismo ortodoxo iraniano. E hoje, em lugar dos não religiosos Nasser, Arafat e Sadam Hussein, o líder da região é Ahmadinejad apoiado por molás e imãs, como na nossa Idade Média de reis e imperadores apoiados pelo Vaticano.

* Rui Martins, jornalista, escritor, ex-CBN e ex-Estadão, exilado durante a ditadura, é líder emigrante. Criou os movimentos Brasileirinhos Apátridas e Estado dos Emigrantes, vive em Berna, na Suíça.

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

CASO SAKINEH: RESPOSTA DO IRÃ A LULA FOI GROSSEIRA

É inaceitável o comunicado do Irã em resposta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que ofereceu asilo a Sakineh Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento em função de mero adultério.

Supondo que sejamos perfeitos otários, as autoridades iranianas insistem na invencionice posterior de que a pena capital se deveu a cumplicidade em assassinato, embora a sentença reze o contrário. Não cola.

Mahmoud Ahmadinejad se nega a transferir um "problema" para Lula, como se nosso presidente fosse um incapaz necessitado de tutela externa ao tomar suas decisões.

Pior ainda foi o comunicado oficial, no qual o Irã simplesmente nos insultou, ao fazer indagações ofensivas e acintosas:
"Em relação à presença ou ao exílio de Sakineh Mohamadi no Brasil, é necessário considerar alguns pontos e questões significativas. Quais são as consequências desse tipo de tratamento aos criminosos e assassinos?

"Esse ato não promoverá e não incitará criminosos a praticar crimes?

"Será que a sociedade brasileira e o Brasil precisarão ter, no futuro, um lugar para os criminosos de outros países em seu território?"
Mereciam receber uma resposta sincera: oferecemos asilo a Sakineh porque temos certeza de que não se trata de nenhuma criminosa, mas sim do alvo da vez de psicopatas que utilizam a religião para acobertar seus impulsos sádicos e homicidas.

Não consigo imaginar seres humanos tão vis e covardes a ponto de apedrejarem uma mulher até a morte. Estão mais para bestas-feras.

Quanto ao  lugar para os criminosos de outros países em território brasileiro, prometo lutar até o fim para que nele não sejam admitidos os responsáveis por atos tão hediondos, quando o povo iraniano finalmente os escorraçar como merecem.

Infelizmente, estavam certos os que criticaram Lula por tentar introduzir um pouco de racionalidade na discussão sobre sanções ao Irã.

Nosso presidente tinha ótimas intenções, mas se desgastou inutilmente tentando ajudar fanáticos delirantes, ingratos ao extremo. Perda total.

A mesma boa vontade ele mostrou ao se dispor a receber Sakineh, não só pela compaixão  que seu caso naturalmente inspira, mas também para oferecer ao Irã uma saída honrosa de um episódio que está deixando sua imagem em cacos.

Os mandatários iranianos, se utilizassem a desculpa de estarem atendendo o pedido de um governante amigo, salvariam as aparências.

Mas, preferiram insistir em sua intransigência obtusa.

Agora, ou assassinam Sakineh e serão vistos pelo mundo inteiro como trogloditas.

Ou poupam Sakineh e darão apenas demonstração de fraqueza, pois parecerá que se vergaram a pressões, embora continuassem errados nas convicções.

Em qualquer das hipóteses, o mal está feito: haverá bem menos solidariedade ao Irã, se os EUA desfecharem um ataque para que os israelenses possam dormir sem pesadelos com bombas atômicas (já os vizinhos perderem o sono por causa dos petardos judeus faz parte da ordem natural das coisas...).

E a imprensa informa que as pressões por uma intervenção militar estão aumentando nos EUA.

Ahmadinejad e sua trupe sinistra mostram um talento todo especial... para marcarem gols contra.

De quebra, trataram a pontapés o único presidente de uma grande nação que lhes estendeu a mão.

REAÇÃO BRASILEIRA
 
O ministro dos Direitos Humanos, Paulo Vannuchi, respondeu à altura, afirmando que o Brasil continuará empenhando-se para que o caso de Sakineh tenha uma solução humanitária e se referindo a Mahmoud Ahmadinejad como o que ele realmente é: um  ditador. Bravo!

Vocês já viram esses pobres tolos enterrando-se cada vez mais nos caça-níqueis, sem ânimo para ir embora porque já perderam durante horas a fio e querem acreditar que a sorte acabará virando?

Pois é, nunca vira e eles despencam até o fundo do poço.

A situação é a mesma. O Brasil já perdeu muito apostando no Irã e perderá mais ainda  insistindo. É hora de respeitar a si próprio e de se fazer respeitar por estrangeiros insolentes.

Então, espero que o Itamaraty não atrapalhe: Vannuchi  está falando pelo Brasil.

TREVAS MEDIEVAIS

Está no noticiário da BBC Brasil: Talebã executa casal 'adúltero' por apedrejamento:
"Autoridades da província de Kunduz, no Afeganistão, afirmaram nesta segunda-feira que um homem e uma mulher foram executados a pedradas em um vilarejo sob controle do Talebã.
"Ambos foram executados após serem acusados de ter um caso. Segundo os relatos, o homem tinha uma esposa e a mulher estava noiva.

"Testemunhas disseram à BBC que o casal foi apedrejado em um mercado lotado no vilarejo de Mullah Quli no domingo.

"Antes da execução da sentença, membros do Talebã afirmaram que o casal confessou o caso.

"No início deste mês, relatos deram conta de que o Talebã castigou com chicotadas e depois matou uma mulher grávida na província de Baghdis".
É óbvio que há um interesse não propriamente humanitário da imprensa ocidental em martelar notícias como esta.

E é igualmente óbvio que o governo iraniano e o Talebã, ao perpetuarem práticas bestiais, repulsivas aos olhos de qualquer pessoa civilizada, levantam a bola para o inimigo marcar pontos e mais pontos.

Frase imortal do Paulo Francis: quem é burro, pede a Deus que o mate e ao diabo que o carregue

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

BÁRBAROS EMPEDERNIDOS E CRUÉIS ASSASSINOS

Quando saí dos cárceres da ditadura militar, com uma lesão física permanente, muitos problemas psicológicos e terríveis danos morais, havia aclarado meu conceito sobre ditaduras.

Antes já repudiava as de direita, claro, mas me deixara iludir pelos textos que impingiam, como mal necessário, uma ditadura do proletariado, atenuada nas ressalvas: seria tão cirúrgica quanto possível, durando apenas o tempo necessário para se criarem os pré-requisitos de sua abolição.

A experiência vivida falou mais alto do que qualquer argumento: decidi que nada, absolutamente nada, justificava que um indivíduo fosse colocado na condição de vítima indefesa do Estado, qualquer que fosse o Estado.

Meus algozes podiam me torturar como e quando bem entendessem.

Privar-me do sono, de roupas, de alimentos, de higiene, de assistência médica e até da luz solar.

Ameaçar-me de estupro (com as mulheres, muitas vezes iam às vias de fato).

Simular roletas russas e fuzilamentos.

Emitir comunicados mentirosos a meu respeito.

E me matar, seja por excessos involuntários nas sessões de tortura, seja por tédio.

Aos 19 anos, estive próximo de um enfarte no terceiro dia de prisão, quando, após medirem minha pressão, suspenderam as torturas e me encheram de calmantes.

Ao contrário do que aconteceria a partir de 1971, ainda não haviam partido para a matança indiscriminada -- não por respeito à vida humana, mas porque as mortes chocantes davam ensejo a campanhas humanitárias exortando governos estrangeiros a suspenderem linhas de crédito para o Brasil.

A partir do quarto diplomata trocado por presos políticos, no entanto, os tiranos decidiram absorver os prejuízos de ordem econômica, de preferência a exilar militantes que pudessem depois voltar e contribuir para a libertação do povo brasileiro.

Então, ao invés de oficializar suas prisões, passaram a sequestrá-los, levá-los para centros de tortura clandestinos, submetê-los aos piores suplícios, executá-los e dar sumiço nos cadáveres.

Mesmo quando a ordem ainda não era matar, contudo, houve oficial que me incentivou a tentar a fuga, "agora que ninguém está olhando", para me fuzilar pelas costas e depois apresentar seu ato como necessário. Por quê? Porque havia tido um mau dia e estava enfastiado...

A PRIMEIRA BRECHA

Enfim, percebi que jamais se deveria conceder ao Estado tamanho poder sobre o cidadão, por não haver garantia nenhuma de que, mesmo sendo fixados limites, estes não seriam ultrapassados ao sabor dos acontecimentos.

Os textos marxistas sobre ditadura do proletariado e, p. ex., nem de longe justificam os massacres de camponeses durante a coletivização forçada na URSS ou os genocídios de Pol Pot no Camboja. No entanto, estes decorreram daqueles.

Vale lembrar uma frase antológica do filme O Julgamento de Nuremberg (d. Stanley Kramer, 1961).

Face ao desabafo de um magistrado alemão, estupefato por as coisas terem saído tanto do controle durante a era nazista, um membro do tribunal explica:
"Esses horrores todos começaram quando o primeiro juiz condenou o primeiro réu que ele sabia ser inocente".
Então, não se pode deixar que seja aberta a primeira brecha, ainda que ínfima, pois haverá sempre os que a alargarão.

Quem luta para criar a sociedade perfeita, com a concretização plena da liberdade e da justiça social, não deve  transigir com nenhuma ditadura e nenhuma forma de desigualdade, seja em que ponto for da caminhada. Caso contrário, não chegará aonde pretendia, mas a lugar bem pior.

FARSA CONTRA SAKINEH

Foram as reflexões que me vieram à mente após ler que as autoridades iranianas exibiram na TV um vídeo com uma suposta Sakineh Ashanti, em fala  ademais dublada, praticamente admitindo a cumplicidade jamais provada no assassinato do seu marido.

Foi condenada a ser apedrejada até a morte por adultério, só por adultério.

Como isso teve a pior repercussão possível junto às pessoas civilizadas do mundo inteiro, armaram uma farsa para justificar a sentença hedionda.

E o fizeram depois de privarem sakineh do seu advogado, com abusos grotescos, inclusive o de aprisionar-lhe os entes queridos para usá-los como reféns.

Assim como quando Stalin fazia condenarem dignos revolucionários sob pretextos os mais falaciosos e ridículos, depois de triturados em seus cárceres, não existe condescendência possível com tais práticas por parte de quem pretende sinceramente transformar o mundo.

Há que se defender, sim, o Irã das ameaças de intervenção armada dos EUA, como represália por seu programa nuclear.

Mas, isto não pode -- jamais!!! -- implicar nossa conivência com o estupro sistemático dos direitos humanos por parte das autoridades iranianas.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu oficialmente asilo a Sakineh, dando aos aloprados do Irã uma saída honrosa neste episódio, ao menos.

Então, o assassinato com requintes de extrema crueldade que tramam só servirá à propaganda dos EUA enquanto eles mantiverem sua postura de fanática/asnática intransigência.

E enquanto a mantiverem, não merecem a simpatia de ninguém. São bárbaros empedernidos e cruéis assassinos. Nada mais.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

IRÃ COLOCA O MUNDO CONTRA SI. GOETHE EXPLICA

"Aqueles a quem os deuses querem perder, primeiramente enlouquecem", disse Goethe.

Quando os EUA tentam convencer a opinião pública mundial da necessidade de uma operação militar contra o Irã, não consigo imaginar procedimento mais estúpido por parte das autoridades daquele país do que teimarem em manter presa e ameaçada de execução horrível uma mulher por algo que nem sequer é crime em nações civilizadas.

Isto projeta uma imagem extremamente negativa do Irã, inspirando todas as desconfianças: quem se dispõe a apedrejar até a morte seu semelhante por uma mera presunção de adultério, que outras barbaridades não será capaz de cometer?

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva bem que tentou remediar a situação, ao oferecer asilo para Sakineh Ashtiani. Sua vida seria salva, com Ahmadinejad podendo sempre alegar aos aloprados de Teerã que atendera a um apelo de aliado importante.

Negativo. O estado teocrático do Irã é impermeável à razão e ao bom senso, como o são sempre os fanáticos religiosos.

Então, por suas sistemáticas violações dos direitos universais do homem, o Irã inspira tanto temor que só conseguirá levar adiante seu projeto nuclear, alegadamente pacífico, se aceitar submeter-se à mais rigorosa fiscalização de organismos internacionais.

E conseguiu o prodígio de fazer com que fosse praticamente esquecido o igualmente bárbaro ataque à flotilha de ajuda humanitária a Gaza, que era grande argumento em seu favor: se um país tão transgressor do Direito internacional como Israel possui artefatos nucleares há décadas, que autoridade moral têm os EUA e a ONU para encarniçarem-se contra o Irã?

Enlouquecidos pelos deuses, os dirigentes iranianos veem um abismo abrir-se à frente... e continuam marchando na sua direção.

"NÃO HÁ TESTEMUNHA. É A MAIOR PROVA
DE QUE O PROCESSO NÃO ESTÁ CORRETO"

Uma boa idéia do ambiente irrespirável no Irã é dada pela entrevista que a Folha de S. Paulo fez, por telefone, com o advogado de Sakineh, Mohammad Mostafaei, de notória atuação na defesa dos direitos humanos, que teve de fugir do país para não ser igualmente preso. Eis os principais trechos:
"Há mais de dois anos, sofro uma pressão muito grande. Meus casos tinham importância internacional, sendo o mais recente o de Sakineh. A gota d'água foi pegarem como reféns minha mulher e seu pai. Tenho muito amor pelo Irã e pelo meu trabalho. Posso dizer que já ajudei a salvar a vida de mais de 50 pessoas. Eu quero atuar no Irã, mas, infelizmente, a pressão que sofro é insuportável.

"Minha mulher está em uma solitária há 12 dias, na cela 209 da prisão de Evin. Minha mulher não cometeu nenhum crime e está numa situação muito difícil. Minha filha, agora, não tem a atenção nem do pai nem da mãe.

"Ela [Sakineh] não cometeu crime nenhum. O caso não tem nada a ver com as acusações feitas a ela. Os filhos cuidam do bem-estar dela. Se tivesse havido crime, os filhos seriam os primeiros a se manifestar. Para provar adultério, precisam existir testemunhas de quatro ocasiões [relações sexuais] ou quatro testemunhas de uma mesma ocasião. E não há testemunha. É a maior prova de que o processo não está correto".

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

DEPUTADOS BRASILEIROS APELAM AO IRÃ POR SAKINEH

A Câmara Federal aprovou nesta 4ª feira (4) moção apelando pela vida de Sakineh Ashtiani, que o Irã pretende assassinar a pedradas, com requintes de extrema crueldade, por presunção de adultério.

As principais considerações dos deputados brasileiros foram as seguintes:
“Relembrando que o Brasil já ofereceu a Ashtiani e a sua família concessão de asilo político;

“Ressaltando a necessidade de um esforço conjunto com o intuito de banir em todo o mundo as penas de apedrejamento e de morte em todas as suas formas;

“Reafirmando a tradição brasileira de defesa veemente dos direitos humanos;

“Relembrando que nossa Constituição Federal, em seu artigo 4º, estabelece que a República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais, entre outros, pelo princípio da prevalência dos direitos humanos;

“Confiantes da necessidade de o parlamento brasileiro participar ativamente em prol da defesa absoluta dos direitos humanos, em concordância com o princípio da não-indiferença, que adverte não ser possível resignar-se diante do sofrimento alheio;

“Considerando que a defesa dos direitos humanos se coaduna com a doutrina da não-intervenção em assuntos internos dos Estados e que a vida deve ser tratada como valor supremo;

“Exortamos o governo do Irã a libertar Sakineh Mohammadi Ashtiani, condenada à morte por apedrejamento”.
ARBITRARIEDADES EM CASCATA

Também nesta 4ª feira, a Alta Corte de Teerã decidiu manter a bárbara, cruel e inaceitável sentença, conforme informação divulgada pelo Comitê Internacional contra Apedrejamento.

Cabe agora ao vice-procurador-geral Saeed Mortazavi decidir se seu país está no 3º Milênio ou no 1º, quando viveu Maomé. Deverá fazê-lo na próxima semana.

Sakineh nem sequer conta com defensor atualmente, pois seu advogado Mohammad Mostafaei precisou fugir do país: foi interrogado durante quatro horas, libertado, mas teve sua prisão decretada três dias depois. Escapou atravessando a fronteira com a Turquia

Os parentes de Mostafaei tiveram menos sorte: não conseguiram escafeder-se em tempo e foram detidos (melhor seria dizer tomados como reféns).

A condenação de Sakineh se deu graças uma estapafúrdia figura jurídica do Irã, chamada de conhecimento do juiz, que dispensa a avaliação de provas e testemunhas. Ou seja, vale mais uma convicção preconceituosa do que mil evidências concretas.

Durante as trevas medievais, era assim em todo o mundo.

Hoje, só em grotões onde a civilização não chegou, como o Irã.
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