os privilégios e a DESIGUALDADE - De resto, quando comecei a trabalhar em 1973, a jornada já era de 40 horas semanais nas empresas de comunicação empresarial,
segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026
O CENTRÃO JÁ ESTUDA FÓRMULAS PARA TOMAR DOS TRABALHADORES O QUE ELES POSSAM GANHAR COM O FIM DA ESCALA 6x1
os privilégios e a DESIGUALDADE - De resto, quando comecei a trabalhar em 1973, a jornada já era de 40 horas semanais nas empresas de comunicação empresarial,
sábado, 15 de novembro de 2025
UM BRASILEIRO CHAMADO REYNALDO LUNGARETTI
Hoje estaria comemorando mais um aniversário. É doloroso pensar em como o destino o tratou mal.
Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.
Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser ser tão feliz quanto então.
Aconteceu assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem, veio tentar a sorte no Brasil. Trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.
Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.
Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.
Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, na Mooca. À saída, a multidão lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.
O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.
Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de outrora (Tom Mix, Hot Gibson, Ken Maynard, etc.), dizia que "agora não têm a mesma graça").
Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).
Só se empolgou uma vez na política, com Getúlio Vargas. Chorou no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.).
Era contra os patrões e a dominação estrangeira, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar. cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito.
Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.
O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!
domingo, 24 de agosto de 2025
TUDO NELES NOS REVIRA O ESTÔMAGO! MAS COM GENTE É DIFERENTE...
Depois de sair quase destruído dos porões da ditadura, fiquei pouquíssimo tempo com meus pais. Estava uma pilha de nervos. Queria de qualquer forma reagir ao achatamento de personalidade que sofrera. Precisava desabafar, mas como? Com quem? Nunca sentira tanto ódio me corroendo por dentro.
Aí, provavelmente por meu pai ter tentado me acalmar, reagi de uma maneira injusta: toquei várias vezes seguidas na vitrola a canção Sr. Cidadão, do TomZé.
Como se meu pai fosse um conservador; só que não era.
E como se eu não tivesse um enorme dever de gratidão pelo ano que ele passara indo a cada duas semanas me visitar na PE da Vila Militar, com seu velho fusca caindo aos pedaços, só por milagre não quebrando na serra das Araras (Via Dutra).
Ele ouvira a música quieto, mas algumas horas depois pediu para eu tocá-la de novo. Percebi que me excedera e disse para não levar aquilo a sério, tinha sido só coisa de momento.
Mas, adiante, até muito tempo depois, ele continuava pedindo para ouvir de novo o Tomzé. Deve ter-se tornado uma espécie de símbolo para ele. Da minha ingratidão? Provavelmente.
Mesmo assim, não passava as 24 horas do dia na comunidade, e foi a minha pior fase de loucuras. Como se procurasse o perigo, para sentir que ainda conseguia derrotá-lo.
E vinha utilizando o LSD que eventualmente conseguia obter para aclarar a minha mente (tinha até dúvidas sobre lembranças do DOI-Codi que não sabia se eram reais ou meros pesadelos), então corri reais riscos de ser preso de novo, como dependente químico.
Só que, de alguma forma, o inferno pelo qual passara me dotara de uma capacidade que antes não tinha de safar-me dos perigos. Era um kamikaze teimando em sobreviver. Até que numa viagem dessas, vi uma ponte à minha frente e sabia que, se a atravessasse, ficaria para sempre naquele limbo. Resolvi não o fazer. E nunca mais repeti esse tipo de viagem.
Passei a juntar os cacos da minha existência, até porque nesse exato período a comunidade implodiu e tive de buscar meu caminho sem a família e sem os velhos companheiros. Acabei alugando uma pequena quitinete com minha última namorada e arrumando um emprego em assessoria de imprensa. Decidira sobreviver, com a esperança de um dia lutar de novo.
E o relacionamento com meus pais voltou ao normal. Toda noite de sábado eu e minha namorada os visitávamos levando pizza e passávamos horas jogando buraco. Mais tarde, quando chegou a onda do VHS, tive a satisfação de conseguir para o velho vários filmes dos mocinhos de bang-bang que ele curtira quando jovem. Era coisa rara, difícil de encontrar.
Tinha o trauma de haver perdido o pai com 11 anos de idade, assassinado com um tiro nas costas por um subalterno a quem demitira (era mestre de uma tecelagem no RJ) Assim, da noite para o dia passou a levar vida de adulto, obrigado a trabalhar em período integral para botar o pão na mesa familiar. Parentes ajudaram a conseguir-lhe emprego com a idade que tinha, embora o mínimo legal fosse 14 anos.
A tragédia o tornou cauteloso, tinha receio de ser também assassinado e me legar o mesmo sacrifício. Então admirei-o intensamente ao tomar conhecimento do que se passara quando o DOI-Codi foi finalmente me procurar, em vão porque eu já estava fora de casa havia alguns meses.
Depois de revistarem tudo e não acharem nada (eu fizera uma limpeza em regra antes de sair), um oficial tentou convencê-lo a me recomendar a rendição, pois só assim eles poderiam me ajudar.
Ele, que passara a vida inteira mantendo-se longe de encrencas, daquela vez não se conteve: "E foi para ajudar o meu filho que vocês vieram aqui em plena madrugada e viraram minha casa de cabeça para baixo, exibindo toda essa artilharia?".
segunda-feira, 15 de novembro de 2021
O DIA EM QUE MEU PAI DESACATOU UM TORTURADOR DA OBAN E QUASE FOI PRESO
quinta-feira, 14 de novembro de 2019
PAPAI FAZ 100 ANOS (um tributo)
Exatamente quando, nem mesmo ele sabia. Era costume dos antigos, se os filhos nasciam perto de feriados, colocarem a data festejada na certidão de nascimento.
Então, mais tarde, a única coisa de que ele tinha certeza é de não haver vindo ao mundo no dia da proclamação da República, conforme constava dos seus documentos.
Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".
Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.
![]() |
| No Tiro de Guerra |
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a debandada de uma torcida de futebol após a partida. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.
Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]
| A grande greve de 1917 começou no Crespi |
Era contra os patrões e o imperialismo, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar, cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito.
A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964.
Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.
Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.
Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.
Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.
Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo.
Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois havia morado no vizinho bairro de Deodoro.
O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
MEU TIO PATINHAS MORREU
| "A fortuna favorece os fortes"... condenando-os ao amargor? |
Eu deveria ter uns sete ou oito anos quando o lado paterno da minha família se estilhaçou: meu tio se descobriu traído e expulsou a esposa de casa. A maioria considerou-o severo em demasia e ele cortou relações para sempre. Meu pai ficou ao lado dele, mas a efusividade deixou de existir. O tio rico decidiu que família não lhe fazia falta.
| "A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane... |
Ele mesmo não lia nenhum. E eu, que naquele tempo lia tanto, fiquei chocado ao saber que livros, para meu tio, faziam parte da decoração.
Depois de minha passagem pela luta armada, pouco o vi. Mas, certamente era com os contatos e a grana dele que meu pai contava quando, tão logo meu nome e minha foto saíram nos cartazes de terroristas assassinos procurados, mandou-me recado de que poderia me fazer chegar são e salvo a outro país.
| ...que foi vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor na busca da felicidade" |
Teve um filho do primeiro casamento e um de um segundo (que aparentemente foi feliz até a esposa morrer jovem). Fez muito por ambos mas quis controlar a vida deles; quando discordavam, jogava-lhes na cara tudo que com eles gastara. Dignos, cada qual por sua vez se distanciou, pois não precisavam de esmolas. Os meio-irmãos se voltaram contra o pai e se dão bem até hoje.
Quando meu pai morreu, há 15 anos, sumiu definitivamente da minha vida. Nem minha mãe visitava mais.
Agora, uma pesquisadora brasileira que mora na França e faz tese na Sorbonne me contatou por e-mail a respeito do Caso Longaretti (ela desenvolve um alentado trabalho sobre os sangrentos conflitos entre os fazendeiros brasileiros e os colonos italianos atraídos para nosso pais após o fim da escravidão).
Orientei-a a procurar o meu tio, que estaria bem mais a par do assunto. E foi assim que fiquei sabendo da sua morte.
domingo, 14 de agosto de 2016
REYNALDO, MEU PAI.
Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.
![]() |
| No Tiro de Guerra |
Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]
| A grande greve de 1917 começou no Crespi |
Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.
.png)









