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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

O CENTRÃO JÁ ESTUDA FÓRMULAS PARA TOMAR DOS TRABALHADORES O QUE ELES POSSAM GANHAR COM O FIM DA ESCALA 6x1

Em países que não estão na idade da pedra, as jornadas de trabalho são de 35 a 40 horas semanais (Alemanha), 35 horas (França), médias próximas a 32 horas (Canadá e Austrália) e média de 36,6 horas (Japão).

Já a semana de 4 dias foi assumida pela Islândia a partir de testes efetuados entre 2015 e 2019, com 90% dos trabalhadores hoje se beneficiando de jornadas reduzidas; a Bélgica foi a primeira nação a institucionalizar a opção de 4 dias, em 2022; na Alemanha, 73% das empresas já optaram pela jornada de 4 dias. 

Escócia, Espanha, Nova Zelândia e Reino Unido desenvolvem projetos pilotos visando à redução da jornada; e até no Brasil, que Torquato Neto definiu com um estribilho antológico (Aqui é o fim do mundo), algumas empresas já realizam projetos pilotos para se direcionarem à jornada de 4 dias. 

Como era de esperar-se, contudo, o fim da jornada 6x1 é mal visto pela parte mais retrógrada do empresariado, mas a Câmara e o Senado dificilmente ousarão flertar com retrocesso num ano eleitoral. Afinal, a prioridade máxima de deputados e senadores é sempre a reeleição, todo o resto vem depois.
No centrão há quem defenda que a jornada de cinco dias totalize 44 horas semanais. 

Pretexto: não aumentar o custo Brasil. Só que, nos países que estão atendendo os reclamos dos trabalhadores, houve ganho de produtividade, maior do que qualquer prejuízo 

O ministro Guilherme Boulos (Secretaria Geral) bate pesado nos recalcitrantes:
É claro que haverá oposição no Congresso, mas restrita à extrema-direita. Quem se opuser à redução da escala terá que prestar contas nas urnas em outubro.

Os setores empresariais contrÁRIOS Aos direitos dos trabalhadores repetem os mesmos argumentos surrados desde a abolição da escravidão, passando pela criação da CLT, 13º salário, férias etc.

Evidentemente, o capitalismo não se redime cada vez que cede algumas migalhas do seu banquete para quem lhe garante toda a riqueza da qual desfruta. Mas, os trabalhadores ainda não sentem-se prontos para irem buscar tudo que lhes é negado. É pena.
Como não rezo pela cartilha do quanto pior, melhor, estou ao lado deles nesta pendenga. Que tenham um pouco mais de tempo para curtir o que a vida pode lhes oferecer. Espero que o utilizem bem, não o vendendo de volta para os patrões.  

os privilégios e a DESIGUALDADE - 
De resto, quando comecei a trabalhar em 1973, a jornada já era de 40 horas semanais nas empresas de comunicação empresarial, 

Mais tarde, nas grandes redações, já se cumpria o estipulado numa lei de 1969:  5 horas diárias e, num eventual acordo com o patrão, poderia passar a 7 horas, mas remuneradas como se fossem 9 horas (as 2 extras eram pagas em dobro).

Eu me considerava merecedor de tudo que pagavam, até o último centavo; mas detestava que, atuando no setor terciário, desfrutasse de várias vantagens com relação aos trabalhadores rurais e aos operários industriais. Nunca vi motivo para, nem me sentia  feliz sendo, um privilegiado.

Essa desigualdade me incomodava ainda mais porque meu pai, contra-mestre de tecelagem, não só era obrigado a cumprir religiosamente as 48 horas semanais, como tinha de submeter-se à divisão por turmas que prejudicava muito seu sono: numa semana trabalhava das 5 às 13 horas. noutra semana das 13 às 21 horas. (por Celso Lungaretti)

sábado, 15 de novembro de 2025

UM BRASILEIRO CHAMADO REYNALDO LUNGARETTI

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia troça com seu nome: "rei, nada!".

Hoje estaria comemorando mais um aniversário. É doloroso pensar em como o destino o tratou mal.

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser ser tão feliz quanto então.

Aconteceu assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem, veio tentar a sorte no Brasil. Trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando  sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.

Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, na Mooca. À saída, a multidão lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os Companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de  outrora (Tom Mix, Hot Gibson, Ken Maynard, etc.), dizia que "agora não têm a mesma graça").

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

Só se empolgou uma vez na política, com Getúlio Vargas. Chorou  no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.). 

Era contra os patrões e a dominação estrangeira, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar. cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito. 

A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.


Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.

Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparando-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam o seu trabalho e cotizaram-se para emprestar-lhe o capital inicial de seu próprio negócio. 

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde espinafrado como acomodado por minha mãe.

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. De pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar preso na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. 

Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois havia morado no vizinho bairro de Deodoro.

Já lá se vão 22 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.

Morreu aos 83 anos, depois de quatro derrames lhe tirarem, nos últimos tempos, qualquer prazer que pudesse ter em estar vivo. 

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só bem poucos se realizam plenamente. (por Celso Lungaretti)

domingo, 24 de agosto de 2025

TUDO NELES NOS REVIRA O ESTÔMAGO! MAS COM GENTE É DIFERENTE...

Sei que parecerá oportunismo de minha parte, mas, mesmo assim, vou contar como o conflito de gerações se desenrolava entre civilizados no seu momento mais agudo. Pois as baixarias com as quais ele agora se trava entre os ratos de esgoto dão-me ganas de vomitar.

Depois de sair quase destruído dos porões da ditadura, fiquei pouquíssimo tempo com meus pais. Estava uma pilha de nervos. Queria de qualquer forma reagir ao achatamento de personalidade que sofrera. Precisava desabafar, mas como? Com quem? Nunca sentira tanto ódio me corroendo por dentro.

Aí, provavelmente por meu pai ter tentado me acalmar, reagi de uma maneira injusta: toquei várias vezes seguidas na vitrola a canção Sr. Cidadão, do TomZé.

Como se meu pai fosse um conservador; só que não era. 

E como se eu não tivesse um enorme dever de gratidão pelo ano que ele passara indo a cada duas semanas me visitar na PE da Vila Militar, com seu velho fusca caindo aos pedaços, só por milagre não quebrando na serra das Araras (Via Dutra).

Ele ouvira a música quieto, mas algumas horas depois pediu para eu tocá-la de novo. Percebi que me excedera e disse para não levar aquilo a sério, tinha sido só coisa de momento. 

Mas, adiante, até muito tempo depois, ele continuava pedindo para ouvir de novo o Tomzé. Deve ter-se tornado uma espécie de símbolo para ele. Da minha ingratidão? Provavelmente.

Também eu tirei uma conclusão do ocorrido: percebi que não me encontrava em condições de viver com a família, estava explosivo demais. Alguns dias depois fui com o pouco que consegui botar nua sacola para a comunidade alternativa que amigos haviam montado no Jardim Bonfiglioli, próxima à USP, para a qual haviam me convidado.

Decisão providencial. Eles sim sabiam o que eu estava passando e como me ajudar naquele momento. Todos, de uma ou outra forma, estávamos alterados pela necessidade de não
darmos bandeira fora das quatro paredes entre as quais, e só entre elas, podíamos ser nós mesmos naquele período nefando.

Mesmo assim, não passava as 24 horas do dia na comunidade, e foi a minha pior fase de loucuras. Como se procurasse o perigo, para sentir que ainda conseguia derrotá-lo. 

E vinha utilizando o LSD que eventualmente conseguia obter para aclarar a minha mente (tinha até dúvidas sobre lembranças do DOI-Codi que não sabia se eram reais ou meros pesadelos), então corri reais riscos de ser preso de novo, como dependente químico. 

Só que, de alguma forma, o inferno pelo qual passara me dotara de uma capacidade que antes não tinha de safar-me dos perigos. Era um kamikaze teimando em sobreviver. Até que numa viagem dessas, vi uma ponte à minha frente e sabia que, se a atravessasse, ficaria para sempre naquele limbo. Resolvi não o fazer. E nunca mais repeti esse tipo de viagem. 

Passei a juntar os cacos da minha existência, até porque nesse exato período a comunidade implodiu e tive de buscar meu caminho sem a família e sem os velhos companheiros. Acabei alugando uma pequena quitinete com minha última namorada e arrumando um emprego em assessoria de imprensa. Decidira sobreviver, com a esperança de um dia lutar de novo.

E o relacionamento com meus pais voltou ao normal. Toda noite de sábado eu e minha namorada os visitávamos levando pizza e passávamos horas jogando buraco. Mais tarde, quando chegou a onda do VHS, tive a satisfação de conseguir para o velho vários filmes dos mocinhos de bang-bang que ele curtira quando jovem. Era coisa rara, difícil de encontrar.

Na verdade, ele não era conservador. como também não era comunista. Era getulista, portanto nacionalista, de ficar mostrando aos conhecidos o célebre panfleto   Um dia na vida do Brasilino. Chorou quando Vargas cometeu suicídio e amiúde falava cobras e lagartos contra o imperialismo.

Tinha o trauma de haver perdido o pai com 11 anos de idade, assassinado com um tiro nas costas por um subalterno a quem demitira (era mestre de uma tecelagem no RJ)  Assim, da noite para o dia passou a levar vida de adulto, obrigado a trabalhar em período integral para botar o pão na mesa familiar. Parentes ajudaram a conseguir-lhe emprego com a idade que tinha, embora o mínimo legal fosse 14 anos.

A tragédia o tornou cauteloso, tinha receio de ser também assassinado e me legar o mesmo sacrifício. Então admirei-o intensamente ao tomar conhecimento do que se passara quando o DOI-Codi foi finalmente me procurar, em vão porque eu já estava fora de casa havia alguns meses. 

Depois de revistarem tudo e não acharem nada (eu fizera uma limpeza em regra antes de sair), um oficial tentou convencê-lo a me recomendar a rendição, pois só assim eles poderiam me ajudar.

Ele, que passara a vida inteira mantendo-se longe de encrencas, daquela vez não se conteve: "E foi para ajudar o meu filho que vocês vieram aqui em plena madrugada e viraram minha casa de cabeça para baixo, exibindo toda essa artilharia?". 

Quase o levaram preso. (por Celso Lungaretti)
"Ah, senhor cidadão, eu quero saber com
quantos quilos de medo se faz uma tradição" 

segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O DIA EM QUE MEU PAI DESACATOU UM TORTURADOR DA OBAN E QUASE FOI PRESO

S
e meu pai, Reynaldo Lungaretti, ainda fosse vivo, estaríamos comemorando seu 102º  aniversário. 

Nasceu em meados de novembro de 1919 e, como naquele tempo os cartórios tinham de fiar-se no que relatava o declarante, a data ficou sendo a da proclamação da República.. 

Os antigos achavam isso bonito, embora ainda não fosse um feriado. Nem ele nem nenhum dos parentes, inclusive a minha avó, sabia o dia certo. 

Morreu em 2003, após quatro derrames que o deixaram sem vontade nenhuma de prolongar uma existência agônica.

Já escrevi sobre ele (vide aqui), mas faço questão de lembrar a injustiça que sofreu em seus direitos trabalhistas e um episódio no qual ousou desacatar um torturador da ditadura. 

Começou a trabalhar (irregularmente) aos 11 anos de idade no Cotonifício Rodolfo Crespi, um marco da industrialização de São Paulo. Quando este pediu concordata em 1963 e em seguida encerrou atividades, tinha uma dinheirama a receber de aposentadoria.

A grana era descontada do salário mês a mês e tinha como depositária infiel a própria empresa, que raras vezes honrava integralmente seu débito: ou dava um chapéu nos trabalhadores ou lhes pagava quantia bem inferior. 

Foi o que aconteceu ao meu pai. Resistiu enquanto pôde a aceitar o acordo podre, mas, a partir do golpe de 1964, quando o patronato passou a ter a faca e o queijo na mão, insistir seria quixotesco. 

Acabou recebendo mais do que a maioria dos seus colegas, mas nem metade daquilo a que fazia jus. Serviu ao menos para (juntando com poupança e empréstimos levantados) finalmente sairmos do aluguel.

Sendo eu filho único, ele tudo fez para me dissuadir de trilhar o caminho dos revolucionários. Mas, nunca se queixou  de semana sim, semana não, já cinquentão, entrar na via Dutra de madrugada com seu fusquinha, visitar-me pela manhã  na PE da Vila Militar (só quando estava perto de ser libertado me transferiram para um quartel menos sinistro, o da Cavalaria) e pegar a estrada de volta logo em seguida, sem faltar uma vez sequer.

Dava para perceber que, no fundo, no fundo, me respeitava. Tanto que gostava muito de contar à parentela que, quando uma equipe da Operação Bandeirantes foi revistar nossa casa em plena madrugada, não achando nada de aproveitável, o comandante da operação disse à saída: "Tente convencê-lo a entregar-se, nós só queremos o bem dele".

Homem pacífico, que nunca superou totalmente o trauma de haver ficado órfão aos 11 anos de idade (meu avô paterno foi assassinado com um tiro nas costas por haver demitido um funcionário desordeiro da fábrica que gerenciava), ele daquela vez não se conteve: "E foi pelo bem do meu filho que vocês vieram nos tirar da cama trazendo toda essa artilharia?". 

Quase o levaram preso. (CL)   

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

PAPAI FAZ 100 ANOS (um tributo)

Por estes dias meu pai estaria completando um século de existência. 

Exatamente quando, nem mesmo ele sabia. Era costume dos antigos, se os filhos nasciam perto de feriados, colocarem a data festejada na certidão de nascimento. 

Então, mais tarde, a única coisa de que ele tinha certeza é de não haver vindo ao mundo no dia da proclamação da República, conforme constava dos seus documentos.

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser totalmente feliz.

Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

No Tiro de Guerra  
Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.

Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a debandada de uma torcida de futebol após a partida. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao encerrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de outrora (Tom Mix, Hoot Gibson, Ken Maynard e que tais, dizia que "agora não têm a mesma graça").

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

A grande greve de 1917 começou no Crespi
Só se empolgou uma vez com a política, na pessoa de Getúlio Vargas. Chorou no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª Guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.). 

Era contra os patrões e o imperialismo, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar, cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito. 

A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 

E, como todos os seus colegas, foi tungado. Naquele tempo, os patrões eram os (in)fiéis depositários da aposentadoria dos trabalhadores. Então, a família proprietária aproveitou o golpe militar para pedir falência e, com o sindicato receoso e impotente, coagir os operários a péssimos acordos.

Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.

E, como móveis e utensílios da velha indústria, foi permanecendo lá, primeiramente a serviço do turco que alugou parte das instalações para montar uma tecelagem menor. Depois, do judeu que utilizou o mesmo espaço como loja de tecidos. 

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.

Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.

Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para emprestar o capital inicial de seu próprio negócio. 

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde espinafrado como acomodado por minha mãe.

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. De pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. 

Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois havia morado no vizinho bairro de Deodoro.

Já lá se vão 16 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.

Morreu aos 83 anos, depois de quatro derrames lhe tirarem, nos últimos tempos, qualquer prazer que pudesse ter em estar vivo. 

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só uns poucos se realizam plenamente. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

MEU TIO PATINHAS MORREU

"A fortuna favorece os fortes"... condenando-os ao amargor?
Somente ontem (5ª feira, 23) fiquei sabendo que meu tio rico morreu no dia 13 de dezembro do ano passado. 

Isto porque ninguém se deu ao trabalho de informar a parte da família que ele excluiu de sua vida. Então, a ilustração ao lado é só uma ilustração. A coisa provavelmente terá sido mais melancólica ainda.

Meu avô paterno era técnico italiano de alto nível e foi contratado para comandar uma fábrica têxtil no Rio de Janeiro. Num sábado de 1930, quando caminhava numa feira livre, foi baleado pelas costas por um operário que demitira.

Minha avó e os três filhos vieram para São Paulo, onde havia parentes que a poderiam ajudar em sua viuvez. Um deles, bem colocado no Cotonifício Crespi, conseguiu empregar lá meu pai, burlando a lei que vedava a contratação de menores de 14 anos. 

Meu pai estava com 11 e teve de sacrificar-se por ser o primogênito. Meu tio, portanto, fez carreira sem a obrigação de botar comida na mesa familiar, até porque a minha avó casara de novo, também com um viúvo. Mesmo assim, meu pai não parou de trabalhar. 46 anos seguidos.

Dos meus primeiros anos lembro-me desse tio morando a três quarteirões de distância de nós, já bem de vida. Era na casa dele que festejávamos o Natal. Empanturrava-me de chantilly, que naquele tempo se comprava em docerias, um gasto que meus pais não podiam bancar.

Eu deveria ter uns sete ou oito anos quando o lado paterno da minha família se estilhaçou: meu tio se descobriu traído e expulsou a esposa de casa. A maioria considerou-o severo em demasia e ele cortou relações para sempre. Meu pai ficou ao lado dele, mas a efusividade deixou de existir. O tio rico decidiu que família não lhe fazia falta.

Quando eu participava do movimento estudantil de 1968, aos 17 anos, comecei a passar de vez em quando pela pequena joalheria do meu tio rico no centro financeiro de São Paulo. Por força de suas atividades, ele podia transmitir muita informação útil sobre como funcionava o capitalismo e já então eu queria conhecer bem o inimigo.

Eu ia lá para papear e também para fazer hora antes do início de passeatas marcadas para o centrão (não valia a pena ficar me expondo pela rua, com o visual inconfundível dos estudantes rebeldes, antes de soar o chamamento (O povo na passeata!, O povo na passeata!), quando todos nós parávamos de disfarçar nos arredores e íamos de peito aberto desafiar a repressão.

Foi nesta fase que passei a conhecê-lo melhor. Sua joalheria era um bom negócio, mas não o principal: por baixo do pano, fazia empréstimos. Como todo agiota, chegava a viajar atrás dos caloteiros. Não conseguia imaginá-lo naquele papel. Levaria um capanga consigo?

Seu grande sonho até então fora o de abrir um pequeno banco. Mas, a política econômica dos golpistas de 1964 foi na direção exatamente oposta, a de favorecer a monopolização do setor financeiro. Então, por motivos bem diferentes, tínhamos em comum o ódio à ditadura...

Mas, fiquei decepcionado ao ver um livro interessante exposto na estante da joalheria e, puxando papo sobre ele, ficar sabendo que meu tio tinha um acordo com a livraria do outro lado da rua, que lhe alugava os títulos em maior evidência, substituindo-os periodicamente. 
"A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane...

Ele mesmo não lia nenhum. E eu, que naquele tempo lia tanto, fiquei chocado ao saber que livros, para meu tio, faziam parte da decoração.

Depois de minha passagem pela luta armada, pouco o vi. Mas, certamente era com os contatos e a grana dele que meu pai contava quando, tão logo meu nome e minha foto saíram nos cartazes de terroristas assassinos procurados, mandou-me recado de que poderia me fazer chegar são e salvo a outro país. 

[Os pais às vezes não conhecem os filhos que têm. Mesmo quando a luta tomava rumos cada vez mais adversos para nosso lado, eu não considerei a hipótese de salvar-me sozinho, preferindo afundar junto com o navio.]

Enquanto isto, meu tio descobriu afinal uma maneira de se dar bem durante a ditadura: foi ser corretor na Bolsa de Valores de São Paulo. Ganhou muita grana e quase morreu do coração. Lembro-me de ter ido no hospital mas ele não estar recebendo visitas. Era incerto se, safenado, sobreviveria. Acabou durando mais uns 45 anos e morrendo nonagenário.

Quem morreu de imediato foi o corretor. Alertado de que não seria mais capaz de suportar o estresse da Bovespa, meu tio mudou de atividade, investindo seu polpudo pé de meia na construção de edifícios residenciais para vender ou alugar os apartamentos. Até que se cansou e, já suficientemente rico, pendurou a carteira.
...que foi vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor na busca da felicidade"
Mudou para o último prédio que construiu, ocupando-se, a partir de então, apenas das tarefas de síndico e administrador in loco. 

Teve um filho do primeiro casamento e um de um segundo (que aparentemente foi feliz até a esposa morrer jovem). Fez muito por ambos mas quis controlar a vida deles; quando discordavam, jogava-lhes na cara tudo que com eles gastara. Dignos, cada qual por sua vez se distanciou, pois não precisavam de esmolas. Os meio-irmãos se voltaram contra o pai e se dão bem até hoje.

Isolou-se de uma vez por todas. Chegou a ter uma ou outra mulher morando com ele e acompanhando-o nas viagens pelo mundo que gostava de fazer. 

Quando meu pai morreu, há 15 anos, sumiu definitivamente da minha vida. Nem minha mãe visitava mais. 

Agora, uma pesquisadora brasileira que mora na França e faz tese na Sorbonne me contatou por e-mail a respeito do Caso Longaretti (ela desenvolve um alentado trabalho sobre os sangrentos conflitos entre os fazendeiros brasileiros e os colonos italianos atraídos para nosso pais após o fim da escravidão).

Orientei-a a procurar o meu tio, que estaria bem mais a par do assunto. E foi assim que fiquei sabendo da sua morte.

A trajetória dele lembra bem a do Cidadão Kane: desumanizou-se pouco a pouco, até morrer na ilha na qual se refugiou, vitorioso nos embates econômicos, mas perdedor no que realmente importa: a busca da felicidade. 

Que dinheiro nenhum proporciona. Pelas trilhas da ganância, só conseguimos arrastar-nos pela vida confortavelmente... amargurados!  

domingo, 14 de agosto de 2016

REYNALDO, MEU PAI.

Meu pai era Reynaldo. Quando brigava com ele, minha mãe fazia blague com seu nome: "rei, nada!".

Eu tinha alguma admiração por ele, bastante amor e imensa compaixão.

Sua vida foi praticamente destruída aos 11 anos de idade; passou as sete décadas seguintes lamentando o paraíso perdido, sem nunca ser totalmente feliz.

Foi assim: meu avô Baptista, mestre de fiação e tecelagem que veio tentar a sorte no Brasil, trabalhou primeiramente em São Paulo, onde constituiu família. Depois, contrataram-no para comandar uma fábrica no Rio de Janeiro.

Foi o momento mágico da vida do Reynaldo. Gostava imensamente de Baptista, homem forte, altaneiro, mas carinhoso com os filhos, como costumavam ser os italianos. Numa foto amarelada, única que sobrou, ele aparece imponente, com a indumentária que usava em caçadas.

Além disto, havia todas aquelas brincadeiras da molecada de outrora e, principalmente, o campo de futebol ao lado de sua casa. Reynaldo chegava da escola, atirava seu material por cima do muro e caía na pelada. Levava a vida que todo garoto gostaria de ter.

Mas, um operário demitido por Baptista o tocaiou na feira de sábado, baleando-o pelas costas.

Minha avó teve de voltar para São Paulo, onde contaria com a ajuda de parentes. Um deles conseguiu colocar meu pai como empregado no Cotonifício Crespi, fraudando sua idade para burlar a fiscalização. Em 1930, ingressou pela primeira vez no prédio em que trabalharia até 1976.

No Tiro de Guerra  
Conheci essa indústria gigantesca, que ocupava um quarteirão inteiro, enorme, na Mooca. À saída, a multidão era tamanha que lembrava a de um estádio de futebol. A área de trabalho mal iluminada, com muita poeira de algodão flutuando. Local deprimente, sufocante.

Na década de 1960, era praticamente idêntica à mostrada no filme Os companheiros, de Mario Monicelli, sobre uma greve ocorrida em Turim... no final do século 19! Estávamos bem atrasados. [Temo que, sob o verniz modernoso, ainda estejamos.]

O menino que vivia feliz e despreocupado, jogando bola dia e noite, herdou, de um momento para outro, responsabilidades de homem da casa. Era este o dever de um primogênito, disse-lhe minha avó, ao enterrá-lo numa fábrica medonha.

Adulto, Reynaldo recitava com tristeza a poesia de Casimiro de Abreu: "Ah, que saudades que tenho/ da aurora da minha vida,/ da minha infância querida/ que os anos não trazem mais". E quando eu lhe conseguia fitas VHS dos mocinhos de outrora (Tom Mix, Hoot Gibson, Ken Maynard e que tais, dizia que "agora não têm a mesma graça").

Teve lá seus prazeres e distrações, dançava bem, foi razoável jogador de sinuca, ia no futebol, paquerava na rua da Mooca (o chamado footing, turminhas de homens e turminhas de mulheres passeando pela calçada, até que os mais ousados engatassem um papo, um flerte).

Só se empolgou uma vez na política, com Getúlio Vargas. Chorou no dia de sua morte e guardava um jornal que a noticiou, na mesma caixa de outros marcantes (o do fim da 2ª Guerra Mundial, o da conquista da Copa do Mundo de 1958, etc.). Era contra os patrões e a dominação estrangeira, mas a antipatia por um dos irmãos impostos (minha avó acabou casando de novo, com um viúvo que tinha mais filhos ainda para criar. cinco), comunista dado a discursar aos brados durante as refeições familiares, afastou-o da esquerda. Era complicada a convivência dos oito. 

A grande greve de 1917 começou no Crespi
A síndrome de arrimo da família o tornou cauteloso demais para ter êxito na carreira. Não trocava o certo pelo incerto, então continuou no Crespi até que fechasse, em 1964. 

E, como todos os seus colegas, foi tungado. Naquele tempo, os patrões eram os (in)fiéis depositários da aposentadoria dos trabalhadores. Então, a família proprietária aproveitou o golpe militar para pedir falência e, com o sindicato receoso e impotente, coagir os operários a péssimos acordos.

Reynaldo resistiu durante bom tempo, mas acabou cedendo ao receber proposta de novo emprego. Conformou-se com uns 45% do que lhe era devido.

E, como móveis e utensílios da velha indústria, foi permanecendo lá, primeiramente a serviço do turco que alugou parte das instalações para montar uma tecelagem menor. Depois, do judeu que utilizou o mesmo espaço como loja de tecidos. 

Enquanto o negócio ainda ia bem, o Crespi submetia os empregados a um revezamento bizarro: numa semana seu turno era das 5h às 13h, na outra das 13h às 21h.

Quando tive de trabalhar alguns meses numa rádio, preparando o noticiário matutino, aquilatei melhor o sacrifício do meu pai, de marchar para o emprego na escuridão da madrugada, quando o corpo pedia mais repouso; afora a dificuldade que ele tinha para adequar-se à mudança do regime de sono, ora uma esticada só, ora dois períodos.

Três patrões, mas sempre o mesmo endereço, durante 46 anos! Eu, que trabalhei nuns vinte lugares diferentes, não consigo nem imaginar o que seja repetir o mesmo trajeto e labutar num ambiente sombrio por mais da metade da vida.

Houve um tempo em que moramos longe do Crespi e ele ia para o serviço de bicicleta. Às vezes era perseguido por cachorros. Às vezes chovia.

Eu era criança e escutava seus relatos com curiosidade, mas não me ocorria lamentar sua sorte, nem me sentiria bem fazendo isso. Agora fico me perguntando se ele esperava de mim elogio ou comiseração. Nunca saberei.

Casou mal, com quem queria mais do que ele poderia oferecer. Sempre comparado-o desfavoravelmente ao pai dela, meu avô Arthur Vannucci, que ergueu uma fabriqueta de móveis graças ao seu indiscutível talento, mas também à sorte: clientes que admiravam-lhe o trabalho cotizaram-se para emprestar o capital inicial de seu próprio negócio. 

Reynaldo trabalhava seis dias por semana e ainda fazia bicos para um parente, recolhendo apostas de corridas de cavalo aos sábados e domingos. Estoicamente, e arriscando-se até a ter problemas com a polícia, embora fosse uma contravenção menor. Ainda assim, era amiúde espinafrado como acomodado por minha mãe.

Lá pelos 35 anos, desistiu dos velhos amigos e passou a se dividir apenas entre a casa e o trabalho.

Já não tinha esperança de alçar voos maiores. Percebia que o ramo têxtil nunca mais recuperaria o antigo esplendor. Pouco valeriam os cursos que concluíra brilhantemente, para passar de operário a contra-mestre (depois mestre), face à decadência do segmento.

Ele, que via os apostadores de fim-de-semana como otários, também fez as apostas erradas no jogo da vida.

Gostaria que eu, o filho único, chegasse aonde ele não pôde: engenheiro. Mas, a vida me conduziu noutra direção. E, já com 50 anos e a resignação habitual, enfrentava a Via Dutra com seu fusquinha para me visitar, preso, na PE da Vila Militar, pegando a estrada de volta no mesmo domingo. Inesperada e melancólica maneira de reencontrar os cenários da infância, pois morara no vizinho bairro de Deodoro.

Já lá se vão 13 anos de sua morte. Os parentes me dizem que estou cada vez mais parecido com ele, exceto por ter conservado os cabelos que Reynaldo perdeu precocemente, devido à poeira da tecelagem.

O seu enterro foi a única ocasião em toda a vida em que eu deveria dizer algo, porém as palavras não me vieram. Nada que eu pudesse dizer lhe faria justiça. Gente é para brilhar, disse o Caetano Veloso; mas, o que fazer quando a oportunidade de ouro nunca chega?!

Era um bom homem, que não concretizou seu potencial nem obteve o pouco com o qual sonhava. Merecia do destino muito mais do que recebeu.

Pensando nele, redobro meus esforços para que a vida não seja mais essa competição inútil e insana, na qual quase todos perdem e só uns poucos se realizam plenamente.
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