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domingo, 29 de janeiro de 2023

QUANDO OS SUÍÇOS TIVERAM ESCRAVOS NO BRASIL

 


Q
uando se fala da Suíça no Brasil antigo, a palavra empregada é imigração e logo surge uma cidade pioneira, Nova Friburgo, na montanha perto do Rio de Janeiro, criada pelo rei de Portugal, d. João VI, em 1818, quatro anos antes da independência brasileira.

Seus primeiros habitantes lhe deram o nome de Nova Friburgo em homenagem à cidade suíça de onde tinham vindo. Houve também grupos de imigrantes suíços no sul do país e outros lugares, porém é difícil saber o número exato porque os registros misturavam suíços com alemães.

Mas não se sabia que muitos suíços se comportavam como colonizadores utilizando o trabalho escravo nas terras que receberam também do rei d. João VI no extremo sul da Bahia. Talvez porque do grupo fizessem parte também alemães. O Museu de Etnografia de Genebra organizou uma exposição fotográfica revelando a existência de uma extensa área, dedicada à plantação de café, com o nome de fazenda Helvécia, parte integrante da Colônia Leopoldina, criada em 1818, parte hoje do distrito do município baiano de Nova Viçosa.

As fotos e vídeos mostrados na exposição, aberta ao público durante três meses no Museu de Etnografia de Genebra, com o nome de Helvécia, uma história colonial esquecida, são do suíço-brasileiro Dom Smaz, da cidade suíça de Lausanne, filho de mãe brasileira e pai suíço.

Sua descoberta e seu interesse pelo passado colonial escravagista suíço se devem a uma viagem descoberta ou road trip feita com sua companheira Milena Machado Neves ao sul da Bahia, quando viu uma placa na estrada indicando o distrito de Helvécia, nome original da Suíça, que muitos de seus habitantes desconheciam por terem suas origens na África.

Todas as fotos estão reunidas no livro documentário Uma história colonial suíça no Brasil, editada pela editora Lars Mueller Publishers. Importante documento de um passado suíço desconhecido, que, por sua importância histórica e política, mereceria ter um prefácio de apresentação de Jean Ziegler. As principais pesquisas e as entrevistas com moradores locais foram feitas por Milena Machado Neves.

A exposição mostra também depoimentos em vídeo capazes de nos fazer recuar duzentos anos e descobrir a existência de fazendas de café que enriqueceram colonizadores brancos, nas quais trabalharam  gerações milhares de escravos trazidos da África em terríveis navios negreiros.

Quando foi abolida a escravidão no Brasil, em 1888, muitos dos fazendeiros escravocratas retornaram à Europa. Restaram ali no sul da Bahia alguns nomes e alguns descendentes das misturas que ocorreram, legais ou clandestinas, de patrões e capatazes suíços com suas escravas, naquelas terras que acabaram sendo abandonadas por seus proprietários. O fim da escravidão tinha tornado não lucrativas as plantações de café.

A escravidão foi fundamental para o capitalismo suíço. Os banqueiros suíços 
Jacob Zellweger, Isaac Thellusson e Jacques-Louis Pourtalès ficaram
ricos com o tráfico negreiro.  

Os escravos libertos passaram a utilizar as terras para o plantio diversificado dos cereais e legumes necessários à sobrevivência e, felizmente, alguns dos habitantes mais instruídos decidiram pedir a concessão à comunidade do título de quilombo à Fundação Cultural Palmares, obtido em 2005.

Geralmente são consideradas quilombolas os lugares onde se refugiaram escravos negros em fuga. Helvécia, contudo, ex-Leopoldina, constituía uma exceção, porque foram os proprietários das terras e escravos a abandonar a região em busca de lugares mais lucrativos ou de retorno à Alemanha e Suíça. O mais original é um antigo quilombo, com quase toda população pobre e negra, ter o nome de Helvécia,  nome original herdado da rica e branca Suíça, assinala Smaz, num dos comentários inseridos entre as fotos.

O primeiro suíço a se instalar na região foi Abraham Langhans, nascido em Berna, em 1819, atraído pela fertilidade da terra, onde se podia plantar arroz, mandioca, laranjas, limões, bananas, frutas exóticas e ter grandes colheitas. As boas notícias logo chegaram à Suíça e outros conterrâneos logo vieram de Neuchâtel, como Pierre-Henri Beguin e Philippe Huguenin. O nome da região provém da enorme fazenda  Helvetia, de Johann Martin Flach, doada pelo governo brasileiro aos imigrantes, algo comum à época. 

Em pouco tempo, a região se transformou numa das maiores exportadoras do café, fazendo a Suíça criar numa cidade portuária próxima, Caravelas, uma agência consular. O sucesso era extremamente lucrativo para os fazendeiros, com um custo mínimo na produção, pois os plantadores, colhedores, ensacadores e transportadores eram escravos vindos da África. Escravos submetidos ao tratamento do chicote, como contava o fazendeiro David Pache numa carta à sua irmã.

Em 1850, o médico da região, Karl August Toelsner empregava 200 brancos e mais de 2000 escravos negros, repartidos em 40 fazendas.

Sete anos depois da abolição da escravidão, 1895, a Suíça fechou o vice-consulado de Caravelas, aproveitando da demissão de Luis Bornand de seu cargo. Nessa altura, a exportação do café, sem escravidão, não era tão lucrativa. A exploração escravagista não era boa escola, pois o filho suíço do último vice-consul, Edgar Bornand, foi condenado em 1947, na França, como colaborador nazista. Com a partida dos suíços, só ficaram alguns nomes de descendentes como Sulz, Krull, Metsker e Krygsman mestiçados nas últimas gerações.

A história da exploração de negros trazidos da África amarrados, muitos deles desembarcando perto de Caravelas e sendo dirigidos para as fazendas de café de colonos alemães e suíços não parou. Hoje, o café foi substituído pela monocultura do eucalipto naquela região. E existem trabalhos de pesquisas de universitários reproduzindo a maneira como os negros reconhecidos como descendentes dos escravos de Helvécia lutam para não terem suas terras, reconhecidas por lei e pelo estatuto de quilombo, tomadas por grupos do agronegócio madeireiro dos eucaliptos como Aracruz Celulose e Suzano Bahia Sul Celulose.

Destaco o trabalho de pesquisa feita há alguns anos pela professora Liliane Fernandes Gomes da Universidade do Estado da Bahia sobre a Atuação da Associação Quilombola de Helvécia frente às empresas de Eucalipto. E uma entrevista bem recente do presidente da Associação Quilombola Volta Miúda e da Cooperativa Quilombola do Extremo Sul de da Bahia na qual se revela como a Suzano, maior empresa de papel e celulose do mundo, continua operando com graves violações e ilegalidades. As comunidades continuam lutando para recuperar suas terras.

Outro trabalho, de há alguns anos, é o de Paulo Vinicius Brito dos Santos Oliveira, que trata do Quilombo de Helvécia, lugar de memória e resistência, num relato da luta dos descendentes dos escravos contra a monocultura dos eucaliptos que acabou com os peixes no rio e com a fertilidade das terras, além de ser muito poluente.

Estes pontos unem a exploração do passado às lutas do presente, na busca dos moradores por preservar suas terras e suas memórias. (por Rui Martins



domingo, 5 de novembro de 2017

MAIOR EMIGRAÇÃO FORÇADA DA HISTÓRIA DA HUMANIDADE, A ESCRAVIDÃO NO BRASIL É TEMA DE UM DOCUMENTÁRIO EXEMPLAR.

Toque do editor
Recebi esta mensagem, acompanhada do link do vídeo abaixo, do companheiro José De Souza:
"Olá, Celso! Vai aqui mais uma pérola que achei no Youtube e gostaria de compartilhar com os amigos. Trata-se do documentário da BBC, Brasil, uma história inconveniente (totalmente legendado em português), sobre a barbárie de nossas elites de escravocratas e o impacto que isso vem tendo até hoje na nossa vida social. Eu acho que esse tipo de fonte para discussão jamais passaria na TV comercial. Espero que você goste e, se gostar, divulgar para outros".
Agradeço e já estou colocando no ar (juntamente com outro vídeo que vem bem a calhar, o da trilha sonora da obra máxima do teatro brasileiro sobre a escravidão, a peça Arena conta Zumbi). Para ganhar tempo, aproveitarei a apresentação do site Acutalatina, cuja equipe cumprimento pelo ótimo trabalho.

UMA HISTÓRIA INCONVENIENTE SOBRE A ESCRAVIDÃO

Portugal foi responsável pela maior emigração forçada da história da humanidade. De Angola chegou ao Brasil um número 10 vezes superior de escravos, comparado à America do Norte. Este documentário, sobre o passado colonial do Brasil, foi realizado em 2000 por Phil Grabsky, para a BBC History Channel. Ganhou um Gold Remi Award no Houston International Film Festival em 2001. Uma verdade inconveniente da história de Portugal.

Enquanto todo o mundo conhece a história da escravidão nos EUA, poucas pessoas percebem que o Brasil foi, na verdade, o maior participante do comércio de escravos. Quarenta por cento de todos os escravos que sobreviviam à travessia do Atlântico eram destinados ao Brasil, enquanto apenas 4% iam para os EUA. Chegou uma época em que a metade da população brasileira era de escravos. O Brasil foi o último país a abolir a escravidão, em 1888.

O documentário tem depoimentos dos historiadores João José Reis, Cya Teixeira, Marilene Rosa da Silva; do antropologista Peter Fry e outras pessoas que contam os efeitos de séculos de escravidão no Brasil de hoje. Este é um importante documentário sobre a história dos negros, história africana e estudos latino americanos.


TRECHOS MARCANTES DO DOCUMENTÁRIO

Os portugueses tratavam a Africa como uma fonte de recursos. Então, eles importavam, importavam, achando que os recursos jamais se esgotariam.

Quase todas as casas por aqui são enormes armazéns, onde os escravos são depositados e os clientes vêm comprá-los

Gradualmente, ao final do século 16, as plantações aumentaram suas riquezas e tornaram-se capazes de comprar escravos estrangeiros e substituíram a mão de obra nativa que estava sendo usada. Então, Brasil se torna uma grande colônia escravagista.

As vastas terras do Brasil ofereciam oportunidades enormes. Quantidades enormes de açúcar eram enviadas para portos como Antuérpia, Amsterdã e Veneza. 

Em 1598, um viajante na Inglaterra notou o quanto os dentes da rainha Elizabeth estavam escuros de tanto açúcar. A causa dos problemas dentários da rainha era a nova fonte de riqueza dos portugueses. O açúcar era o ouro brasileiro

Os escravos trabalhavam como carpinteiros, construtores e muitas outras ocupações. Enquanto a população negra aumentava nos EUA, no Brasil, apesar da importação maior, ela permanecia a mesma. A expectativa de vida dos que chegavam era de apenas seis ou sete anos e os escravos nascidos no Brasil viviam, em média, só até os 20 anos. 

E quem eram os colonizadores? Muitos eram jovens ou ambiciosos aventureiros que se viram entronizados num mundo de riqueza, liberdade e fornicação. Muitos eram criminosos que Portugal preferia manter longe do país. 
O cruel Domingos Jorge Velho

Se a natureza masculina da colonização portuguesa era um motivo da crueldade, o outro era econômico. Se os escravos morressem, não havia problemas para substituí-los

A necessidade de escravos aumentou vertiginosamente quando, por volta de 1690, o ouro foi descoberto no interior

A nova crescente prosperidade do Brasil foi canalizada para novas vilas e cidades. A integração biológica da mulher africana com homem europeu era natural. Não havia aquela exclusão étnica que era praticada nos EUA. (...) A expansão do relacionamento sexual entre senhor e escravas produziu milhares de crianças mestiças.

Centenas de igrejas foram construídas, para serem usadas pelos brancos e negros recém-convertidos. Essas igrejas eram construídas e decoradas pelos escravos.

*    *    *

"Irmãos negros, a escravidão que vocês sofrem por mais dolorosa que seja, ou que pareça ser, é apenas uma meia escravidão. Vocês são escravos apenas na parte exterior, que é o corpo. Contudo, na outra e mais nobre metade, que é a alma, vocês não são escravos, mas livres! Quando vocês servem aos seus senhores, não o fazem como se fosse a um homem, mas sim, como se estivessem servindo a Deus!"
*    *    *

Muitos escravos não seguiam à risca o catolicismo. Eles se esforçavam para manter suas crenças tradicionais, venerar seus próprios santos. Música e dança tornaram-se inseparáveis na identidade brasileira em desenvolvimento.

No início dos anos 1800, ocorreram algumas revoltas ocasionais. (...) Alguns escravos quebravam máquinas, outros ateavam fogo às plantações. Outros simplesmente entravam em greve.
*    *    *

Zumbi e os guerreiros do quilombo de Palmares, símbolos da resistência dos negros à escravidão.
Outros escravos expressavam seu descontentamento fugindo. Escravos que fugiam uniam-se a comunidades de fugitivos chamadas de quilombos. (...) Eram quase independentes. Eles eram sempre alvo da polícia, que tentava eliminá-los.

Uma das tradições que os escravos fizeram questão de manter, era uma arte marcial chamada capoeira. Gangues de capoeiristas dominavam as ruas, usando suas habilidades para atacar o brancos e a polícia. A tensão subiu e então uma nova legislação foi criada (1833). Manter o controle da população de escravos estava se tornando mais difícil. 

Nos anos de 1800, tabaco e café juntam-se ao ouro e ao açúcar para serem a chave de economia.

*    *    *

Em 1822, o Brasil declarou independência de Portugal

Aumentou a pressão internacional para abolir a escravidão. A influência exercida pela Inglaterra na economia brasileira acabou perpetuando-se e ela colaborou com a continuação da escravidão no Brasil. Importava açúcar e café, produzidos por escravos, até o final do século 19

Oferecer liberdade condicional aparentava ser um último suspiro contra a abolição. Durante o século 19, 1 milhão de novos escravos chegou do oeste africano ao Brasil. O continuo confisco britânico de navios escravos e sua restrição ao comércio significava que o transporte de africanos teria de acabarCada vez mais escravos estavam abandonando as plantações.

Em 13 de Maio de 1888, a princesa Isabel proclamou a chamada Lei Áurea. O Brasil foi o ultimo grande país a oficialmente abolir a escravidão.

Embora fossem legalmente livres, ainda estavam economicamente ligados às terras, minas ou outras ocupações.Os negros continuam aprisionados, vivendo nas favelas, não têm empregos. Eles são escravos do sistema.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

A MARINHA IGNORA QUE A ESCRAVIDÃO E A CHIBATA FORAM ABOLIDAS


Meu bom amigo e companheiro Ismar C. de Souza, militante do movimento negro na Bahia, pede uma força na divulgação desta denúncia: a Marinha brasileira, saudosa dos tempos do arbítrio, trata a pontapés a comunidade quilombola Rio dos Macacos, na Base Naval de Aratu.

O terreno pertence à União e há uma decisão da Justiça Federal, de agosto de 2012, determinando a saída dos quilombolas. Mas, mesmo não estando encerrada a disputa judicial, os marinheiros hostilizam sistematicamente os descendentes de escravos.

Rosemeire Silva, que coordena a associação dos moradores da comunidade, queixa-se de ter sido ilegalmente impedida de entrar na área nesta 5ª feira (3), além de haver tido uma máquina fotográfica destruída.

E soldados da Polícia Militar, chamados pelos marujos, ameaçaram inclusive disparar sobre os civis desarmados. “É uma absurdo o que está acontecendo. Somos trabalhadores rurais e não ladrões, para sermos perseguidos dessa forma.”

Ela relata outra forma de intimidação: “Toda vez que saímos de casa percebemos um veículo prata nos seguindo. Não tenho medo de dizer que estamos sendo ameaçados de morte pela Marinha”.
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