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quarta-feira, 13 de maio de 2020

DEPOIS DO VENDAVAL – 3: A ESQUERDA PÓS PANDEMIA

(continuação deste post)
José Chasin (foto), importante filósofo marxista, já vaticinava em 1991 que a esquerda estava morta, fazendo referência à esquerda revolucionária. Infelizmente, ele não viveu o bastante para ver a falência também da centro-esquerda brasileira, em primeiro lugar na versão tucana e depois na lulopetista

Deve ficar claro que a centro-esquerda nunca foi revolucionária, tampouco reformista, apesar de um pequeno ensaio de grupos minoritários no PT na década de 80. Contudo, a rigor, a dita esquerda nacional sempre foi melhorista: seu objetivo supremo foi trazer melhoras sociais e políticas  

Por ser melhorista, tal esquerda jamais conseguiu estabelecer um plano autônomo de desenvolvimento social e econômico para o Brasil. Ficou a reboque das diretrizes da burguesia nacional, basicamente resignando-se a continuar com a estrutura herdada da ditadura militar. 

De fato, a única centro-esquerda a ter um projeto nacional efetivo foi o finado nacional-desenvolvimentismo pós-Vargas. Durante a ditadura, a esquerda estava ocupada demais em tentar sobreviver.

Porque não teve projeto autônomo, mantendo-se a reboque, a centro-esquerda acabou se deteriorando nas insolúveis contradições do capitalismo brasileiro e eclipsou-se após exaurir suas energias, igual uma estrela que colapsa após queimar todo o seu hidrogênio. 

No lugar, então, surgiu um buraco negro, a sugar tudo e a todos. Tal buraco negro é o chamado lulopetismo moribundo, o qual não aceita que nada brilhe ao redor, tragando todas as coisas para seu abismo sem fim.  
Os valorosos manifestantes de junho de 2013 tiveram a centro-esquerda contra si
Fosse possível estabelecermos uma data simbólica para o fim desta esquerda e tal data seria junho de 2013.

Ali, diante da explosão das contradições do país, da rachadura entre o topo e a base, e tendo de escolher um lado, a centro-esquerda assumiu o lado da burguesia, dinamitando sua base popular e abrindo caminho para a ascensão da extrema-direita, que surfou na onda popular de indignação. 

A história é conhecida e já foi objeto de artigos meus aqui no blog. Por hoje, basta relembrar que este movimento levou a indignação popular para o campo moralista de luta contra a corrupção, pavimentando o caminho de Bolsonaro, o moralista por excelência. 

Desde aquela data, a dita centro-esquerda morreu, limitando-se hoje a espasmos inúteis. E morreu porque já não tem apoio popular: a classe trabalhadora não lhe dá mais ouvidos e outros setores sociais a odeiam. 

Não deve ser nossa tarefa tentarmos fazer tal esquerda ressurgir. Ao contrário, diria até que nossa tarefa deveria ser a de fazermos o máximo possível para que ela seja sepultada de vez. Ela não tem mais nada a dizer nem a oferecer. 
Antiga torturada, ela foi contra o #naovaitercopa e apertou a mão de um delator do Vladimir Herzog 
A meta da esquerda deve ser pensada no médio e longo prazos. Fato é que o mundo dela nada espera e, já nesta saída da pandemia, uma crise econômica brutal vai desabar sobre a humanidade. 

Qual a força da esquerda de poderia intervir neste processo? Eu diria que quase nenhum. Fracassos de mais de século pesam sobre nossos ombros e a desorganização reina entre nós. 

Pior, pouco se sabe exatamente sobre a dinâmica do mundo atual. A maioria das forças de esquerda ainda se guia por teorias erradas, mistificadoras e antirrevolucionárias. 

Chegam mesmo a ainda grassar entre nós posições estalinistas ou importadas do establishment do antigo PC soviético, isto quase trinta anos depois do fim da URSS! Isto quando não são guiadas por teorias modistas do liberalismo pós-moderno...

"a esquerda poderá retornar à cena liderando os indignados"
Por isso, acredito que o primeiro passo seja reassumirmos a teoria revolucionária, tomando pé da realidade e compreendendo com exatidão onde estamos, por que, e o que devemos fazer.

Entender a lógica capitalista do século 21 e a especificidade do Brasil é tarefa fundamental para a ação da esquerda. 

Em paralelo a isto, faz-se necessário analisar criticamente o passado da esquerda e da centro-esquerda, passando a limpo erros e acertos e nos defrontando de fato com o pesado passivo herdado. Só assim será possível falarmos de novo à população. 

Este processo deve estar no curto e médio prazo, fase em que não deveria ser nossa preocupação assumir a dianteira em ações políticas ou de mobilização. Melhor ficarmos na retaguarda, apoiando, lateralmente, este ou aquele candidato, esta ou aquela força política, que mais próximo de nossas posições possam estar, sem, contudo, jamais abrirmos mão de nossas posições. Ou seja, ser aliado político, mas manter a independência programática. 

No longo prazo, a esquerda poderá retornar à cena, liderando os indignados com uma explicação clara e certa sobre a natureza da crise, sua raiz na exploração capitalista e o caminho revolucionário. 
Portanto, a tarefa maior da esquerda no pós-pandemia é se reerguer, superando de vez o passivo da esquerda stalinista e da centro-esquerda nacional, e retornando a compreensão adequada da realidade atual e da saída emancipatória possível para este mundo decadente e desumano. (por David Emanuel de Souza Coelho) 
Observação: esta série inclui os posts (clique p/ abrir) O mundo que emergirá da pandemia e O Brasil pós-pandemia.

segunda-feira, 11 de novembro de 2019

QUER DIZER QUE DE NADA ADIANTOU HAVER TRAÍDO BATTISTI E TER VINDO ABANAR O RABO NA POSSE DO BOLSONARO?!

Touro Castrado envergonhando a tribo...
Embora o saldo de seu governo tenha sido positivo em termos de melhorar a situação econômica e social da paupérrima Bolívia, o populista Evo Morales repetiu o erro de tantos outros populistas que veem a si próprios como homens providenciais, os únicos capazes de fazerem felizes seus povos. 

Então, fincam os dentes no poder como um buldogue morde seu osso e evitam projetar seguidores à sua altura para não terem quem lhes faça sombra nas próprias fileiras.

Geralmente pagam caro por colocarem a si mesmos acima da causa dos explorados. 

...o grande Touro Sentado...
Lula, p. ex., despencou porque, percebendo que uma tentativa de mudar as regras do jogo para possibilitar nova reeleição abriria seu flanco às investidas da direita, escolheu o poste errado para o substituir enquanto cumpria o ritual de alternância no poder: Dilma Rousseff, cuja gestão econômica desastrosa acabaria, aí sim, levantando a bola para o inimigo marcar o ponto. 

Ou seja, desejando um(a) boneco(a) de ventríloquo e não um petista minimamente qualificado para exercer a Presidência, optou por alguém que avaliava como tão carente de carisma e de brilhantismo que seria  obrigada a seguir obedientemente suas determinações, não causando grandes estragos nem se tornando sua concorrente. Mas, não sabia com que ego descomunal estava lidando...

Por que comparo as situações? Porque foram dois governos até então sólidos que desmancharam no ar graças a lambanças constrangedoras: a de Dilma, ao tentar exumar o anacrônico e superado nacional-desenvolvimentismo; e a de Morales, ao botar os pés pelas mãos no afã de evitar um 2º turno que provavelmente venceria com certa facilidade.

...e o lendário Tupac Amaru II.
Nos dois casos, a conta foi paga pelo povo: o brasileiro, que amarga o presidente mais tosco e desequilibrado de sua História; e o boliviano, que parece destinado a muito sofrer por não existir ninguém capaz de preencher adequadamente o vazio de poder que se desenha, ainda mais com o acirramento das tensões decorrente da forma como ele foi defenestrado. 

Morales (seguindo as pegadas de Dilma) coloca tudo na conta de um golpe branco, o que acaba parecendo desculpa de mau pagador, para desviar a atenção do peso que as próprias trapalhadas tiveram na sua desgraça. Um pouco de humildade cairia bem para ambos. 

A única opção sensata agora seria a convocação de nova eleição presidencial, com Morales participando apenas como apoiador do candidato por ele escolhido (com nossa torcida para que apostasse em alguém bem diferente da Dilma).

Não consigo sentir pena de quem traiu Cesare Battisti e veio balançar o rabo na posse do Bozo. Mas, nem todos os líderes de origem indígena podem ter a estatura moral, a coerência e a coragem de um Tupac Amaru II ou de um Touro Sentado. (por Celso Lungaretti)
Tributo de Vandré aos quechuas, tamoios, mapuches, tabajaras, guaranis,
incas, astecas, maias, aimarás e tupis (povos exterminados): "Por sus
mujeres y tierras, sus flores y amores/ Quiere ser mi canto
alegre frente a los dolores/ De América, de América".

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

A ESQUERDA ZUMBI E SEUS MANIFESTOS

Por David Emanuel Coelho
Em 1990, o marxista brasileiro José Chasin vaticinava a morte da esquerda. Apontava a falência de sua teoria e de sua prática. Para ele, no entanto, ainda restava uma certa esquerda burguesa, isto é, circunscrita aos limites do regime capitalista, não revolucionária, mas ansiosa por imprimir mudanças na estrutura social do capitalismo.  Chasin não viveu o suficiente para ver a morte até mesmo desta esquerda. 

Estamos numa época em que não parece ser espantoso mortos voltarem à vida. Porém, para infortúnio destes, costumam voltar na forma de zumbis: criaturas nem vivas, nem mortas. Ademais, conforme George Romero ensinou no filme que reergueu o gênero em 1968, A Noite dos Mortos-Vivos, o perigo maior não é o apocalipse zumbi, mas o que vem depois dele. 

Lembrei-me disto ao ler o Manifesto para reconstruir o Brasil, documento lançado recentemente por fundações de quatro partidos brasileiros, autointitulados de esquerda

Para resumir o mote geral do manifesto, poderíamos dizer que seus signatários defendem uma espécie de capitalismo nacionalista, pressupondo uma burguesia nacional trabalhando conjugadamente com a classe trabalhadora brasileira em prol do desenvolvimento do país. Deste modo, dizem, seria possível, ao mesmo tempo, diminuir as desigualdades sociais e fazer o Brasil crescer. Ou melhor, falando no jargão pomposo do manifesto, as desigualdades sociais seriam diminuídas através do crescimento da economia nacional. Praticamente um projeto nacional-desenvolvimentista recauchutado.
O filme de 1968 do Romero é mais moderno do que o tal manifesto...

Ao que parece, os signatários do manifesto ignoram a história e a dinâmica do capitalismo. Desconhecem o fracasso histórico da política de conciliação de classes enquanto mecanismo de emancipação dos trabalhadores. 

O Brasil nunca chegou a desenvolver-se de modo autônomo e nunca o fez porque sua burguesia jamais aspirou a ser mais do que sócia minoritária das burguesias centrais. Isto perdurou durante todo o período em que uma transformação verdadeiramente nacional poderia ser possível e foi solidificado após o último processo de globalização, iniciado na década de 90 do século passado. 

Após tal globalização, os mercados se unificaram ao redor do mundo, barreiras protecionistas foram derrubadas e o capital passou a se mover livremente, indo onde seria mais vantajoso para ele. 

Neste quadro ocorre a desindustrialização brasileira, conjugada a uma financeirização generalizada e a um recuo da economia sobre bases primárias. 

É preciso levar em conta que a industrialização brasileira foi um processo feito pelo capital internacional, não pelo capital nativo. Isto vale não apenas para a industrialização do pós-guerra, operada diretamente por empresas multinacionais, mas também para a industrialização da era Vargas, a qual ocorreu com financiamento externo – estadunidense e alemão.
Não só a industrialização dos Anos JK...

Ocorre que o capitalismo internacional migrou sua base industrial do Brasil para outros países onde a produção poderia se consolidar de modo mais barato. Em troca, transformou o Brasil em produtor das commodities usadas pelas indústrias e em barriga de aluguel do sistema financeiro internacional, gerando riqueza abstrata mediante o pagamento de altas taxas de juros. 

Os geniais signatários do manifesto defendem que seria necessário romper com a lógica financeira em prol da lógica produtiva. Porém, não percebem que não há contradição entre estes dois âmbitos. Eles apenas foram redivididos pelo capitalismo internacional. 

Para perceber isto, seria necessário analisar a dinâmica do capitalismo enquanto um sistema mundialmente interligado e não enquanto uma série de sistemas nacionais em competição, como fazem os signatários do manifesto. 

Não atentam também para o fato de justamente a financeirização ter sido a responsável pela relativa melhora do quadro social da população brasileira, pois propiciou o acesso de largos contingentes populacionais a bens de consumo mediante o crédito abundante. Bens de consumo largamente fabricados fora do país, nos lugares para onde as indústrias foram movidas pelo capitalismo internacional.
...como também a da Era Vargas teve financiamento externo.

O quadro de pobreza do povo brasileiro, porém, não se modificou. Houve apenas um golpe de vista, resultado do brilho permitido pelo acesso aos bens de consumo. 

A solução para mudar o estado de pobreza, dizem os signatários, seria promover uma distribuição da riqueza mediante coparticipação do Estado. 

Ora, conforme Marx já ensinava, a distribuição de riqueza está diretamente relacionada à participação produtiva. Como seria possível, portanto, distribuir riqueza sem tocar na questão da propriedade privada dos meios de produção? E como tocar nesta questão sem levar em conta a dinâmica mundial do capitalismo?

Tal esquerda zumbificada parece acreditar piamente na possibilidade de domar o capital e fazê-lo criar por mágica o que não se pode fazer por meios realistas. É assim que deposita sua fé na ação, ao mesmo tempo, construtiva e reguladora do Estado, como se tal entidade não fosse profundamente ligada ao próprio capital, funcionando em prol de seus interesses e não em prol de um suposto interesse geral. 

A existência do Estado é fundamentalmente para garantir a propriedade privada, do ponto de vista jurídico; e a reprodução continuada do capital, do ponto de vista econômico. Sua relação com os trabalhadores é, antes de tudo, coercitiva. Se ele concede benefícios, o faz apenas no interesse da pacificação social e sempre de modo temporário. Permanente, para ele, é apenas o lucro privado. 
A própria democracia, elevada a totem no manifesto, é limitada, pois não consegue ser exercida no terreno interno da propriedade privada. Ali reina, perdoem-me o trocadilho, a ditadura do proprietariado

Na verdade, a tão idolatrada democracia nada mais é do que as várias frações da burguesia em disputa, se orientando na via política para resolver suas disputas. Com a monopolização da economia, no entanto, a via política tende a se tornar cada vez mais restrita, com sistemas representativos que pouquíssimo divergem entre si, altamente cooptadas pelo grande capital. 

Daí ser profundamente ingênuo acreditar no Estado enquanto condutor de transformação. Num momento que as instituições políticas foram liquidificadas pelo poder titânico do capitalismo monopolista internacional, acreditar numa transformação pelo sistema institucional é como acreditar que um leão abandonará seu instinto carnívoro se orarmos muito. 
Rasteira do capital: Fiesp apoiando a derrubada de Dilma

O mais espantoso é perceber que tal proposta vem justamente após uma rasteira dada pelo capital a esta mesma esquerda. Afinal, não foram eles expulsos do condomínio do poder em 2016 justamente quando acreditavam que a burguesia nacional teria encampado o desenvolvimentismo?

Porém, incapazes de digerir o que aconteceu, preferem acreditar numa fábula: teriam sido vítimas de um golpe perpetrado pelo judiciário e por setores da elite, articulados pelo imperialismo invejoso dos avanços nacionais. Neste quadro, claro, a burguesia brasileira também seria vítima. 

Na verdade, tal esquerda é incapaz de visualizar a estrutura fundamental do regime capitalista, particularmente o brasileiro; e é incapaz porque se mantém nos limites burgueses. Se visualizasse, el teria de se tornar revolucionária, mas a revolução é algo que abomina. Para ela, fora do capitalismo existe apenas utopia desvairada. Só lhe resta, então, aplanar as cruezas de uma sociedade desumana. 

Aí reside toda sua tragédia, pois o único caminho para seus objetivos é contar com o apoio de uma burguesia nacional, coisa inexistente, pois não há contradição entre o capitalismo nacional e o internacional (ambos operam de forma articulada). Nossa burguesia participa como sócia, embora minoritária, de um grande grupo mundial de investimentos e sair deste negócio seria o mesmo que se suicidar enquanto classe.
Esquerda zumbi acompanha a música do capital internacional

O que resta, então, à esquerda zumbi? Repetir ideias que pairam no ar e, uma vez no poder, seguir exatamente o ritmo da música tocada pelo capital internacional. 

Assim, o desenvolvimentismo – que já teve seus dias de possibilidade real nos idos de 60 – torna-se, nos manifestos de saudosos do poder, um cadáver insepulto. 

Uma verdadeira posição de esquerda, no entanto, ainda espera para renascer, não enquanto um zumbi, mas enquanto uma espécie de Lázaro retornando à vida plena. 

sexta-feira, 23 de junho de 2017

OS REFORMISTAS E A PICADA DA MOSCA AZUL DO PODER

"Reformar o capitalismo é como
perfumar merda" (pichação de muro)
.
A pior crise mundial do capitalismo desde a grande depressão da década 1930, com reflexos substantivos no Brasil, tem o condão de tornar explícito o colaboracionismo da esquerda reformista: ela não tem pejo de voltar a propor medidas salvacionistas que não vão à raiz do problema, deixando intacta a dominação capitalista. 

Ou seja, cada vez que uma crise econômica mais aguda se abate sobre o Brasil, os reformistas correm a exumar o seu antigo e surrado discurso anti-imperialista, que jamais passou de um contraponto ao liberalismo burguês. Na verdade, o capitalismo liberal (ou neoliberal) e a esquerda keynesiana reformista são espécies políticas de um mesmo gênero: o capitalismo.

Estamos assistindo novamente ao desespero da esquerda colaboracionista, que tanto se desmoralizou no passado por praticar um populismo atrasado que acendia uma vela ao diabo (o empresariado nacional e estrangeiro financiador de campanhas eleitorais e enriquecimento ilícito de muita gente) e outra a Deus (a ajuda aos coitadezas dependentes dos programas sociais de combate à miséria absoluta). Ela quer ressurgir das cinzas, fazendo-se passar por alternativa aos seus igualmente desgastados adversários políticos neoliberais.

É incrível como os aparentemente diferentes se igualam na essência quando se trata de salvar o capitalismo, para que possam continuar alternando-se no controle do poder político estatal que lhes dá sustentação.

Noticia-se uma articulação parlamentar (não seria para lamentar?) visando à criação de uma pretensiosa Frente de defesa da soberania nacionalista sem xenofobia, que, encabeçada por Lula e Roberto Requião, concorreria à eleição presidencial de 2018 com um programa anti-imperialista.

Vale a pena analisar criticamente cada ponto desse programa reformista que está fadado a resultados nefastos para a vida do povo e ao amortecimento da luta revolucionária pela emancipação humana. Diz um documento dos organizadores:
Um cartaz de campanha já está pronto
"...está soando bem aos soldados de primeira hora da Frente – partidos, centrais sindicais, associações, movimentos sociais, estudantes, etc. etc.  o programa Brasil Nação, esboçado por intelectuais nacionalistas, de esquerda etc., coordenados pelo economista Bresser Pereira, dissidente tucano, no qual pontifica-se fundamentalmente três pontos: 1 – remoção urgente do congelamento neoliberal de gastos públicos; 2 – aumento dos salários; e 3 – política cambial competitiva".
O texto propõe um "cavalo de pau no neoliberalismo de Temer/Meirelles, imposto (...) pelo Consenso de Washington, para sucatear o Brasil de bandeja para as multinacionais". E argumenta que, com o "congelamento de gastos para vigorar durante 20 anos, como empurrado goela abaixo no Congresso, (...) abre-se mão (...) do poder do Estado, por meio do qual torna-se possível equalizar a luta de classes (!), mediante aposta em programas sociais – a força de Lula – que determinam pujança dos mercados internos (!!), sem os quais inexiste capitalismo nacional social democrata (!!!)". Todos os grifos são meus. De resto, será que esta ode ao Tio Patinhas não soaria melhor se acompanhada por plangentes violinos? 

Eis outras bobagens:
"A política social compreende (...) respeito total às conquistas sociais e econômicas inscritas na Constituição de 1988, como fator de estabilidade geral. Elas são responsáveis por estabelecer o estado do bem estar social, que Lula-Dilma perseguiram, até serem derrubados pela direita golpista, em 2016" [Esqueceram de dizer que o Estado do bem-estar social só funcionou a contento nos países escandinavos, hoje não passando de uma miragem que se dissipou com o agravamento da crise capitalista em escala mundial.] 
Ué, o ajuste fiscal não era execrado pela esquerda?
"Ao lado da promoção dos programas sociais, (...) aumento dos salários decorrerá do descongelamento dos gastos públicos, fator de impulso à demanda global. Indispensável será adoção de ajuste fiscal (!) como fator de fortalecimento e não de enfraquecimento do Estado, destacou Bresser. A esquerda, diz ele, não pode ter medo de ajuste fiscal (!!), desde que seja fator de fortalecimento dos agentes econômicos – Estado, trabalhadores e empresários. O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado (!!!), na exata proporção do fortalecimento dos setores sociais, geradores de renda disponível para assegurar a interatividade econômica, produção, distribuição, circulação e consumo, essência do capitalismo. Trata-se de equilíbrio dinâmico"
"Por fim, faz-se necessária (...) política cambial competitiva anti-populista. A moeda nacional ligeiramente desvalorizada para estimular exportações capazes de gerar superávits em contas correntes do balanço de pagamento ao lado de ajuste fiscal capaz de assegurar oferta e demanda com relativo controle de preços e juros no patamar internacional, mais uma margem de lucro para os investidores. Seria essa, diz Bresser, a alternativa capaz de recuperar sustentavelmente a indústria nacional, em bancarrota desde os anos 1990 (...). Com isso, destacou, será possível acumular, anos afora, superávits em contas correntes, como faz a China, faz mais de trinta anos, configurando o desenvolvimento capitalista de maior sucesso na história da humanidade, orientado pelo estado indutor desenvolvimentista (!)". 
Estes também sonham com a união cívico-militar
E, por último, esta pérola:
"Estado mínimo, como impõe os neoliberais, precisará ser removido com união cívico-militar, segundo o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ)"[Já não bastaram os 21 anos perdidos devido à união cívico-militar de 1964? O PSOL também vai fazer o papel de vivandeira de quartel?!]
DENTRO DA IMANÊNCIA CAPITALISTA NÃO HÁ SALVAÇÃO
.
Vamos destrinchar todo este besteirol cheirando a mofo e naftalina, começando por dizer que todo nacionalismo é xenófobo, ainda que envergonhado de tal condição. Historicamente, a defesa dos interesses nacionais, dentro da concorrência de mercado capitalista que criou o nacionalismo, significa que os nacionais devem ser protegidos contra o interesse econômico dos outros nacionais estrangeiros São, portanto, adversários e concorrentes implícitos, embora não o declarem.

O capitalismo não é imperialista apenas do ponto de vista da defesa dos interesses nacionais (que existem, obviamente), mas, principalmente, do interesse do capital. A globalização da economia nada mais é do que a migração do capital (sempre imperialista, seja ele privado ou estatal) em busca de horizontes de trabalho necessário (aquele remunerado) mais barato, para que possa obter um ganho com o trabalho excedente (trabalho não remunerado, que oportuniza a extração de mais-valia e acumulação do lucro).
Eis um nacionalismo que vingou no Brasil. Alguém o quer de volta?
A defesa de um nacionalismo sem xenofobia, além de representar contradição no seu objeto teleológico, representa também uma impossível tentativa de volta aos primórdios do capitalismo, quando os países que estatizaram as suas economias, orientados pela doxa socialista, fecharam-se nas suas fronteiras para se protegerem dos países capitalistas desenvolvidos (que tinham níveis de produtividade superiores). 

Tais nações obtiveram bons resultados iniciais, mas suas economias não conseguiram acompanhar as evoluções científicas e tecnológicas da segunda metade do século passado, acabando por abrirem-se ao mercado internacional . O capitalismo tem como senhor das ações a sua própria lógica vazia de sentido virtuoso, daí ser impossível domesticá-lo como querem os reformistas de esquerda.

Por outro lado a defesa do descongelamento dos gastos públicos (portanto, estatais) acarreta uma elevação de déficit público, que representa aumento da dívida pública (se não houver receitas estatais e continuarem os gastos públicos). Em resumo, o resultado final são mais juros da dívida a serem pagos pelo contribuinte. 
"O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado". Assim?
Ou seja, os reformistas keynesianos de esquerda querem manter os gastos públicos sem explicarem quem ou o que financia tais gastos. Aí, quando assumem o poder, cinicamente negam o seu discurso, mesmo porque no capitalismo, como dizia o economista burguês Milton Friedman, não há almoço grátis.

Mundialmente os salários decrescem por força da competitividade de mercado, que implica a busca da redução de gastos de produção, a qual somente é possível com a mecanização extrema da produção de mercadorias (que não produz valor) ou com a imposição de salários baixos (como ocorre atualmente na Índia, que é um dos poucos países a ter crescimento do PIB, 7,8% em 2016). 

Assim, como não se aumentam salários por decreto, a proposição da Frente Parlamentar de aumento de salários sem explicação consistente, ou apenas baseada num pretendido crescimento econômico (que ela espera obter com mais capitalismo), é uma falácia eleitoreira destinada a engambelar os agoniados trabalhadores nestes dias de penúria e desemprego estrutural.

As moedas representam (ou devem representar) um determinado quantitativo de valor oriundo do nível médio de remuneração do trabalho abstrato na produção de mercadorias. É graças a isto que os produtos chineses e indianos, fabricados com salários aviltados ao extremo, têm baixo valor (e, consequentemente, baixo preço), qualquer que seja o padrão monetário. Entretanto, a manipulação cambial, que contraria esta regra, é apenas mais um dos muitos engôdos da fratricida concorrência mundial de mercado, que visa ludibriar com fôlego curto as implacáveis regras da economia.
A política econômica dos frentistas dará certo... se eles dispuserem deste requisito fundamental.
Destarte, uma política cambial competitiva, como defende a Frente Parlamentar, é uma postura de capitalismo de cassino, na qual se quer usar artifícios econômicos que, ao invés de serem exaltados, deveriam é estar sendo denunciados como mais um dos muitos dos males do capitalismo. Os que pregam tal subterfúgio, certamente o recriminariam se adotado por seus concorrentes. A esperteza capitalista nunca leva a bons resultados...

O discurso contra o neoliberalismo e suas atrocidades não legitima o discurso keynesiano da tal Frente Parlamentar. Ambos são capitalistas e estão fadados ao fracasso (agora até no curto prazo). Ambos merecem ser rechaçados pelos revolucionários emancipacionistas, aqueles para quem é imperativo adotarmos um novo modo de produção (sem valor, dinheiro, mercadorias e trabalho abstrato) e uma organização social horizontalizada para superarmos as agruras hoje impostas à maioria da população brasileira e mundial.  

Somente o desconhecimento completo da economia política (ou, pior ainda, a desonestidade intelectual) é que pode admitir a equalização da luta de classes por meio do Estado (Roberto Requião), qualquer que seja o seu matiz ideológico e a partir da manutenção do capitalismo e da introdução de programas sociais pelo Estado que a ele serve (não a nós!). 
Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco

Vale lembrar que as demandas sociais no Brasil (e no mundo) estão sendo sucateadas exatamente pela falência do capitalismo e do seu Estado nacional arrecadador de impostos. As políticas econômicas desenvolvimentistas da Frente Parlamentar não passam de uma variante recauchutada daquilo que até Donald Trump defende: o desenvolvimento econômico, ou seja, mais capitalismo para salvar o capitalismo.   

As parcas franquias sociais, algumas meramente falaciosas, contidas na Constituição Federal de 1988, capitalista da sua essência constitutiva (e, portanto, opressora, por força do objeto final por ela defendido) estão sendo negadas na prática justamente pela incapacidade do Estado e da própria mediação social capitalista em distribuir riqueza abstrata (e agora até de produzi-la). Nenhuma Carta Magna capitalista e governo idem será capaz de suprir essa hipossuficiência, justamente porque o Estado não produz valor, mas apenas o regulamenta por meio do controle monetário.

A Frente Parlamentar propor ajuste fiscal humanizado é um acinte à nossa inteligência. Ajustar as receitas públicas decadentes aos custos da pesada máquina estatal (funcionários públicos, poderes institucionais, forças militares, etc.); aos pesados e crescentes juros da dívida pública; ao déficit previdenciário e ao suprimento das demandas sociais, significa cortar gastos naquilo que é economicamente possível. Então, acabam sendo sacrificadas as demandas sociais, cuja precarização se acentua a olhos vistos.
A China é exemplo do quê mesmo?!
Com a maior cara de pau, os frentistas defendem explicitamente o lucro empresarial (que só pode existir a partir da exploração da mais-valia exacerbada dos trabalhadores), afirmando que o lucro empresarial precisa ser estimulado para a promoção do equilíbrio econômico. Diante de tal despropósito, caso a articulação siga adiante com a participação de Lula e do Partido dos Trabalhadores, sugiro atualizarem nome do segundo, alterando-o, p. ex., para Partido dos Livres Empreendedores...

O PSOL também parece viver a mesma crise de identidade, a julgar pela exortação melodramática do deputado Glauber Braga: Precisamos evitar o estado mínimo antes que sejamos engolfados pelo vendaval neoliberal!. Como se o fortalecimento do estado burguês ou keynesiano estatizante fosse saída para nossos sofrimentos coletivos...

As aberrações culminam com o elogio à China, apontada como exemplo de maior desenvolvimento capitalista de sucesso na história da humanidade, a ser, portanto, seguido. Os autores parecem ignorar que a dívida pública e privada chinesa é de 270% do PIB em curva decrescente; a recente redução de sua nota de crédito pela agência de rating Moody’s deverá acarretar o próximo grande abalo do sistema financeiro internacional, muito maior do que o causado pela crise do sub-prime de 2008/2009 (que obrigou os Tesouros dos EUA e da União Europeia a taparem o buraco com moeda sem lastro, adiando o crash vindouro.

Ou Lula, Roberto Requião, Gleise Hoffmann, Glauber Braga, Bresser Pereira e demais reformistas desconhecem a essência da crise econômica acima exposta en passant, estando, portanto, desautorizados a conduzir os destinos da vida social brasileira nesses tempos sombrios, ou assim procedem por terem sido picados pela mosca azul do poder e dele não aceitarem ser desapeados, o que configuraria pura e simples desonestidade intelectual.

Dentro da imanência capitalista não há solução. Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco.
.
(por Dalton Rosado)
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