sábado, 31 de agosto de 2019

PRESIDENTE OFENDE ATÉ A SOMBRA

Uma mulher notável...
Um seguidor de Jair Bolsonaro comparou a primeira-dama Brigitte, com 25 anos a mais do que Emmanuel Macron, à Michelle, que tem 27 anos menos do que o presidente brasileiro e é a sua terceira esposa.

Fez a comparação valendo-se de fotos de cada uma com os respectivos maridos. E publicou: “Entende agora por que Macron persegue Bolsonaro?” E o presidente que nos envergonha continuamente respondeu: “Não humilha, cara. Kkkkkkk”.

Não é preciso dizer que a imprensa estrangeira ficou indignada e o acusou de sexismo. Neste caso, foi discriminação contra uma mulher idosa. 

Vale lembrar que Emmanuel fez o possível e o impossível para se casar com Brigitte, que ele conheceu aos 15 anos, em Amiens, norte da França. Ela era a sua professora de francês e latim. Além de ensinar, animava um grupo de teatro, do qual ele participou. Os dois montaram uma peça juntos, e a história de amor começou.

Os familiares eram contrários à relação. Além de mais velha, Brigitte era casada e mãe de três filhos. Os rumores não paravam, mas a afeição era profunda. Só deixaram de se ver quando Emmanuel foi terminar os estudos em Paris. 

Em 2006, ela finalmente se divorciou. Emmanuel pediu a sua mão, dizendo: “Aconteça o que acontecer, vou casar com você”. Um ano depois, o casamento foi oficializado no civil. 

...e um homem abominável.
Com o seu ridículo Kkkkkkk, Bolsonaro desqualificou o amor e fez a apologia da beleza, que é passageira. Deu a entender, com o seu humor negro, que não é a qualidade da mulher, mas o físico que importa. 

Após ter facilitado os incêndios na Amazônia, acendeu uma fogueira para as idosas, exercitando-se na sua especialidade: a exclusão. 

Macron reagiu ao Kkkkkkk. Disse que, por ser presidente da França, ele não ofende os de outros países. Acrescentou que tem grande consideração pelos brasileiros e espera que logo tenham um presidente digno. 

Como o fogo na Amazônia, o panelaço se espraiou pelo Brasil e pelo mundo… Bolsonaro ofendeu todas as mulheres, das recém-nascidas às que um dia serão idosas. Na sua insensatez, ofendeu também a mãe.
Macaco, olha o teu rabo!

A entrevista de Macron após o encontro do G7 mostra que é uma sorte ter no mundo um político como ele. Foi capaz de fechar o evento com Donald Trump, que prometeu aderir ao tratado do clima e negociar com o Irã para evitar a guerra. 

Um chefe de Estado que não sabe o peso das palavras e se vale de brincadeiras —que pode ser um recurso civilizatório— para ofender o próximo não é digno do cargo. Ao injuriar Brigitte Macron, Bolsonaro injuriou todas as mulheres. 

Tão lamentável quanto ter dito, no passado, que as mulheres só devem ser violadas se forem bonitas e devem ganhar menos porque engravidam.

Até quando será necessário aceitar, no Brasil, um presidente que usa a palavra mais do que indevidamente e abusa de seu cargo, fazendo pouco dos que o elegeram? Até quando seremos vítimas do seu Kkkkkkk perverso? 

Depois de ter-se ridicularizado em Davos, na Suíça, Bolsonaro se ridicularizou em Biarritz, na França. (por Betty Milan)
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Toque do editor: eu considerava que este assunto já dera o que tinha para dar até ler este ótimo artigo da escritora e psicanalista Betty Milan. Porém, houve um motivo a mais para eu decidir disponibilizá-lo aos leitores do blog.

É que, ao ser libertado das prisões militares nos anos de chumbo, fui juntar os cacos numa comunidade alternativa, convidado por um amigo e colega de colégio que atuara ao meu lado no movimento estudantil. E lá conheci um estranho casal, ambos na faixa de uns vinte e poucos anos.

A I, no entanto, tinha uma rara doença que a fazia envelhecer rapidamente, então já aparentava ser mãe do S. O que não os impedia de se amarem muito. Tanto que chegavam a me comover.

Com o fim da comunidade, distanciamo-nos. Uns 15 anos depois, encontrei o S num ponto de ônibus. Estava com um namorado e ficou visivelmente sem graça.

A chegada do ônibus me livrou de uma  situação constrangedora e nem cheguei a perguntar-lhe o que acontecera com a I, mas era óbvio que o envelhecimento acelerado acabara detonando a relação (caso ainda estivesse viva, ela pareceria uma anciã). 

O destino foi sábio quando dotou o Jair de um sobrenome que, aplicado a ele, imediatamente nos faz lembrar o adjetivo ignaro. (por Celso Lungaretti)

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

UM CALA-BOCA FEMININO NO BOLSONARO

Bolsonaro zombou de Macron por ser casado com uma mulher mais velha.

Ao debochar da primeira-dama francesa, o presidente ofende a todas nós mulheres. Como se não tivéssemos a opção de envelhecer. Para Bolsonaro, só valemos algo se tivermos uma aparência jovem.

Nada nos diferencia de uma foto de revista masculina.

O raciocínio de Bolsonaro é tão parco que ele é incapaz de concluir que está na mesma situação que a primeira-dama, mas sem o colágeno, as pernas de sílfide e o bronzeado do Mediterrâneo. 

Se seguirmos a mesma lógica, que mulher se casaria com um homem de 64 anos com aparência de 80 e que, desde os 5, já tem cara de 70?
Ele não é nada além disto...

Quem gostaria de viver ao lado de um sujeito incapaz de desenvolver um assunto e que resume qualquer coisa com isso daí?

“Querido, como foi o seu dia?” “Foi isso daí.” “Amor, você pode me dar um conselho?” “Tem que fazer isso daí.”

Como invejar ser casada com um homem com um cabelo no estilo mamãe cortou pra mim, que parece ver a cara do chuveiro a cada três dias? 

Que vive rodeado pelos filhos, garotos de mais de 30 anos, tão dependentes que devem dormir na cama do casal quando têm pesadelos?
...mas deve iludir-se com a propaganda enganosa.
Que mulher, em plena consciência, ficaria ao lado de um homem misógino, que acha que mulheres merecem ser estupradas, que usa dinheiro público para comer gente e  que chama sua única filha de fraquejada?

Se seguir o pensamento chulo de Bolsonaro, quem deveria responder aos memes comparando os dois maridos é Brigitte Macron.

Não humilha mana, kkkk. (por Flávia Boggio, roteirista da Globo)

AOS TRANCOS E BARRANCOS, O BRASIL SOBREVIVEU A 8 MESES DE DESGOVERNO, CAOS E RETROCESSO. AGUENTARÁ MAIS 40?

fernando canzian
CHEGOU A HORA DE CULPAR CADA
VEZ MAIS BOLSONARO PELA CRISE
A crise dos últimos anos quebrou uma longa sequência de redução da pobreza extrema no Brasil, recolocando o país ao lado de nações africanas que ainda mantêm parcelas importantes de sua população na miséria.

Entre o lançamento do Plano Real em 1994 e o começo da recessão em 2014, o total de brasileiros vivendo com menos de US$ 1,90 (R$ 7,90) ao dia havia caído de 35% para 8,4%. Com a crise, voltamos a 11,2% de miseráveis, ou 23,3 milhões nessa condição –o equivalente à população da Austrália. 
A culpa disso não é de Jair Bolsonaro, mas de Dilma Rousseff.

Mas as perspectivas para o Brasil parecem cada vez mais sombrias no governo do presidente, com sua equipe econômica de bom nível e um Congresso responsável sabotados a todo momento por suas atitudes —dentro e fora do país.

Desde a posse, Bolsonaro liquidou as melhores expectativas positivas que setores empresariais haviam depositado nele. 

E os eventos deprimentes que agora protagoniza mundialmente vêm embalados em um sério risco de desaquecimento ou recessão nas principais economias.

Entre o primeiro e o segundo trimestre, quase todos os 35 países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico registraram queda na atividade. Isso ocorreu antes mesmo do acirramento da guerra comercial entre EUA e China, que redobrou o pessimismo global.

O governo Bolsonaro foi eleito prometendo zerar o déficit fiscal no primeiro ano e revolucionar a economia, juras que ninguém razoável esperava cumpridas no curto prazo. 
Mas se não tivesse perturbado tanto o cenário econômico enquanto a situação externa ainda era favorável, certamente estaríamos bem melhor em termos de emprego, renda e expectativas futuras.

Hoje, ao contrário, o sentimento é que Bolsonaro não tem mesmo jeito, algo já refletido em sua avaliação negativa, que dobrou para 39,5% entre fevereiro e agosto na última pesquisa CNT/DMA. Diante disso, o que pensarão os que planejavam investir ou contratar? 

Em seu tempo, Dilma culpou o mundo pelos seus fracassos. Bolsonaro talvez faça o mesmo, mas a petista não chegou a lugar nenhum com isso. (por Fernando Canzian)

quinta-feira, 29 de agosto de 2019

ESTAMOS SENDO GOVERNADOS PELOS ÚLTIMOS DA CLASSE, QUE PASSAM A VIDA INVENTANDO ESTUPIDEZES E BOÇALIDADES

contardo calligaris
OS PREGUIÇOSOS
Nos anos 1950 e 1960, os alunos que não estudavam, não prestavam atenção, não faziam os deveres de casa etc. eram, obviamente uns baita preguiçosos.

Eram chamados os últimos da classe —últimos nas notas e sentados na última fileira da sala.

Bagunçavam as aulas, mandavam os professores à merda, iam para a direção zombando e falavam de sexo (desafiando o pudor de meninas e meninos). Muitos eram repetentes, visto que, na época, não se avançava de ano por senioridade.

Eles inspiravam em nós (das primeiras fileiras da classe) uma ponta de admiração porque pareciam não sentir culpa alguma.

Desde o fim dos anos 1960, não há mais jovens preguiçosos.

preguiça, se existe, não é mais um defeito moral, ela deve ser o efeito de dificuldades cognitivas, familiares ou sociais.

Ao redor da questão da preguiça, seria possível dividir esquerda e direita. 

Para a esquerda, em tese, os preguiçosos são só vítimas, paralisadas por injustiças e violências. 

Para a direita, injustiças etc. são desculpas para vagabundo fugir do pé na bunda, que é a única coisa da qual ele precisaria.

Nesse debate, não é preciso tomar uma posição firme. Já diagnostiquei uma dislexia onde os pais e a escola só viam a prova de que o filho era vagabundo. 

Conheci crianças supostamente desatentas, mas que, de fato, não enxergavam a lousa porque eram míopes. 

Também é óbvio que crescer numa casa em que todos leem e trabalham é muito melhor do que crescer numa casa em que ninguém lê e o pai dorme até tarde porque vira a noite jogando videogames.

Já mencionei que os últimos da minha classe pareciam não sentir culpa alguma. A preguiça escolar deles era possível porque eles não internalizavam a lei, ou seja, porque tinham uma dose precoce de psicopatia.
Injustiças sofridas ou psicopatia, nada disso suprime a responsabilidade do indivíduo, que estuda ou não, faz a lição de casa ou não, respeita a lei ou não.

[Um aparte antes de avançar: entre os séculos 19 e 20, a preguiça foi elogiada como um valor oposto à ética do trabalho, que triunfava no capitalismo e triunfaria, logo depois, no socialismo. Os que elogiaram a preguiça, desde a antiguidade grega ou latina até Paul Lafargue (O Direito à Preguiça), não tinham simpatia alguma pelos últimos da classe. O lazer que eles defendiam era o do Jardim de Epicuro: lazer significava tempo para focar o que importa, tempo para ler, escrever, pensar…]

Volto aos meus preguiçosos. Aprendi com eles que a preguiça é seletiva: ela não se confunde com uma depressão que deixaria qualquer um na incapacidade de sair da cama.

Os últimos da classe não eram deprimidos nem inertes. Ao contrário, numa atividade incessante, eram implacáveis na invenção de estupidezes e boçalidades assim como na composição de alianças e inimizades. Sua vida social era a razão de um empenho constante.

P. ex., na própria sala de aula, eles mantinham um show permanente; era só se virar, e havia um com o membro na mão (tentando chamar a atenção de uma menina) ou outro mostrando a bunda enquanto um professor escrevia na lousa. Nos corredores ou na rua, bullying e gozações eram os instrumentos de uma incessante política de alianças e rompimentos.

Por isso, eles eram irremediavelmente medíocres, mas desenvoltos, soltos e, aos olhos de alguns, invejáveis.

Mas por que, logo hoje, penso nos últimos da classe? É por causa da Amazônia. 

Cada dia mais, se confirma a impressão de que estamos sendo governados pelos últimos da classe, os preguiçosos seletivos que se dedicam a uma atividade incessante de provocações, declarações, contradeclarações, reuniões, alianças e rompimentos sem nenhum interesse pelo que seria preciso estudar. 

No caso, o que seria preciso estudar são os relatórios, que apodrecem em cima das mesas dos preguiçosos e que são desmentidos e recusados antes de serem lidos.

Para os preguiçosos, qualquer esforço político (aliança com os grileiros, as mineradoras ou os ongueiros?) ou retórico (a Amazônia é nossa, taratatá!) parece preferível ao suplício de ler e pensar. Aliás, para evitar ler e pensar, melhor desacreditar as próprias agências do Estado que fornecem dados técnicos básicos sobre fogo e desmatamento.

Cristo disse que os últimos seriam os primeiros. Ora, 1) isso está previsto para o reino dos céus, não para o Brasil, 2) tudo indica que ele pensava nos humildes, não nos últimos da classe. 
(por Contardo Calligaris)

GOVERNO OU MOSTRENGO IDEOLÓGICO? O PRESIDENTE TEM VIÉS DITATORIAL E O GURU ECONÔMICO É UM LIBERAL ANACRÔNICO – 6

(continuação deste post)
Sobre a questão das demandas sociais – Por mais absolutista que fosse o governo, o Estado sempre se apresentou (falaciosamente) como protetor daquele que o sustenta: o povo. Os monarcas invariavelmente quiseram passar a imagem enganosa de que faziam o melhor que podiam no sentido de zelar por seu povo e protegê-lo, seja internamente ou contra agressões externas. 

Nas sociedades ditas modernas, a coisa não se diferencia muito, pois é o povo quem sustenta a sua própria opressão. 

A manutenção da ordem interna segregacionista do capital necessita de braços militares contra as eventuais insurgências próprias às sociedades cindidas entre detentores de capital de um lado; e assalariados e desempregados empobrecidos, do outro. Graças a isto, faz-se necessário que o povo sustente economicamente as forças militares que agem contra as tensões sociais próprias a tal cisão  combatem a criminalidade cada vez mais intensa face à vida social estar em permanente conflito. 

As policiais militares e os exércitos regulares foram, portanto, criados sob a justificativa da necessidade de proteção contra agressões internas e externas, e tudo dentro de um espectro de segregação social interna e sentimento nacionalista dos países, com cada nação vendo a outra como inimiga (o que expressa-se, p. ex., no repulsivo slogan América first, do presidente destrumpelhado dos Estados Unidos. 

Ressalte-se, desde logo, que o transnacionalismo da humanidade é absolutamente contrário a tudo que se refere ao ânimo beligerante capitalista, que é a gênese do estado dito moderno. 

Aliás, essa é mais um contradição do capital, que é segregacionista de modo internacional, globalizante e privado, e se choca permanentemente com a ideia de nacionalismo estatal, ambos socialmente nefastos.

Mas, seria pouco convincente a defesa e justificativa da cobrança dos escorchantes impostos que recaem sobre uma população já exaurida pela extração de mais-valia, se tal sangria fosse apenas para financiar os gastos militares. 

Faz-se, portanto, necessário dourar tal pílula amarga sob a justificativa que os impostos servem para o financiamento das demandas sociais e outros serviços públicos. Assim é que a educação e a saúde públicas e gratuitas são inseridas nos códigos constitucionais dos países estruturados a partir da produção de mercadorias sob a égide do capital, ainda que tais serviços ditos públicos estejam cada vez mais precarizados como consequência da falência estatal. 

Mas, como são priorizados o suprimento eficaz das despesas públicas de interesse precípuo da ordem capitalista (quais sejam a manutenção da força militar, da institucionalidade legislativa e judiciária) e os gastos com infraestrutura da produção (estradas, portos, aeroportos, energia, abastecimento d’água, etc.), fica evidentemente relegado a segundo plano o suprimento eficaz das demandas sociais de incumbência do Estado.

Então, face à evidente depauperação das finanças públicas (decorrente da dessubstancialização do capital e da recessão econômica), aos contribuintes exauridos é proporcionado um atendimento dos mais insatisfatórios das demandas sociais básicas. 

Ainda assim, são-lhes religiosamente cobrados tais serviços (nos quais estão embutidos os impostos, numa flagrante bitributação), sob pena de morrerem à míngua por falta de tratamento médico-hospitalar ou permanecerem com baixo nível de escolaridade.

Isto é o que se observa após 500 anos de evolução de uma relação social que vem ocupando todos os espaços da vida social mundial e que ora atinge o seu limite interno de expansão (as contradições dos seus fundamentos irracionais chegaram ao ápice).
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Sobre a questão eleitoral e politico-partidária – Há determinados fenômenos sociais que são claramente perceptíveis pela população, daí advindo, p. ex., a descrença popular nos políticos. Se perguntarmos a qualquer transeunte o que ele acha dos ditos cujos, ele certamente responderá que são, em sua grande maioria, corruptos e enganadores. 

Entretanto, como no Brasil o voto é obrigatório, os eleitores exercem tal pretenso direito (que é, na verdade, uma imposição) sem se aperceberem do que isso significa na sua essência mais recôndita. 

Isto porque o processo eleitoral é dominado pelo poder econômico, político e midiático, isto se dá de forma tão proibitiva para o exercício da livre vontade do eleitor aculturado sob tais condições, que, desinformado, ele é levado a escolher entre o que já lhe foi previamente escolhido, ou seja, é obrigado a ratificar e legitimar pelo veto, sem soberania de vontade, um político inserido numa ordem econômico-político-social que lhe é opressora. 
Os políticos são serviçais do capital, ainda que alguns bradem contra o capitalismo. 

Quando se é parte de uma ordem constitucional que defende a permanência de todas as categorias capitalistas (Estado, propriedade, trabalho abstrato, dinheiro, mercadoria, mercado, etc.) como expressões materializadas do valor, por mais que se vocifere contra as injustiças sociais enquanto político detentor de mandato eletivo, tais performances estão inseridos na imanência capitalista. 

Os políticos, portanto, mais não são do que meros coadjuvantes: suas presenças no mundo político-institucional apenas o legitimam, ainda que disto bem poucos deles se apercebam.

Aliás, tal entendimento é valido tanto para o exercício político de cargos executivos (que administram a contabilidade dos impostos, as regras do capital e o controle monetário em seu nome), como para os cargos legislativos, considerando-se, principalmente, no que tange a estes últimos, que jamais haverá parlamento burguês sem a correspondente hegemonia dos representantes assumidos da burguesia. 

Mas, voltemos à análise da incredulidade popular nos políticos.

A população entende que os políticos são corruptos por falta de princípios de honestidade ou por necessidade estrutural.

Ora, constituindo-se a corrupção numa condição existencial inerente à corrida eleitoral e sendo o Estado ineficaz no atendimento das demandas sociais básicas, pergunta-se:
— por que continuarmos insistindo nesse conjunto de subsistemas da política (Estado, políticos, partidos, eleição, etc.)? 
 por que continuarmos insistindo num processo eleitoral que apenas ratifica a alternância cíclica no poder político (pois uma permanência mais longa no cargo quase sempre exaure a paciência dos eleitores),  de governantes que exercem suas funções de serviçais da ordem capitalista, independentemente de se rotularem como esquerdistas, centristas ou direitistas, correndo, ademais, o risco de elegermos déspotas como Hitler, Trump, Bolsonaro, Salvini e que tais?

Impõe-se, portanto:
 o desmascaramento do Estado e de suas instituições; 
 a recusa à participação eleitoral (fenômeno que já vem sendo observado, mesmo diante das ameaças de punição a quem não exercita o voto); 
 a recusa à participação em partidos políticos e ao oportunismo destes nas manifestações populares de insatisfações econômico-político-socais (se seus membros assim o quiserem, que participem como indivíduos sociais contributivos e apoiadores);
por Dalton Rosado
 a manifestação popular contra tudo que represente injustiça social e repressão político-militar;
 a emancipação humana a partir de um modo de produção social participativo e distributivo, que elimine o modo de relação social mediante o qual se desenvolvem todas as formas de dominação representada pela forma-mercadoria. 
(continua neste post)

quarta-feira, 28 de agosto de 2019

VAIAS PARA DOM BOZOTE, QUE ELE MERECE!

hélio schwartsman
A TRISTE FIGURA
Numa das mais conhecidas passagens de Dom Quixote, o herói que dá título ao livro toma um conjunto de moinhos de vento por gigantes e, apesar de alertado da ilusão por seu escudeiro, Sancho Pança, se lança em carga para enfrentá-los. O fidalgo e seu cavalo, Rocinante, são derrubados por uma das pás.

Sancho corre em socorro do mestre e o recrimina pelo engano. O cavaleiro da triste figura reconhece que estava diante de moinhos, mas insiste em seu delírio, afirmando que um mago transformara os gigantes nas engenhocas apenas para roubar-lhe a glória de derrotá-los.

Na literatura, o descompasso entre as ilusões do protagonista e a realidade produz um efeito cômico; no planeta Terra, as consequências tendem a ser menos risíveis. Como o leitor já deve ter intuído, falo de Jair Bolsonaro.
Suas ideias delirantes sobre um país dividido entre comunistas e homens de bem e em que o aquecimento global é uma mentira destinada a nos roubar a Amazônia até que lhe serviram bem durante a campanha, que tem mesmo uma dimensão ficcional. Mas, quando, na Presidência, tenta levar essas fantasias à realidade, as coisas já não funcionam tão bem.

A reação mundial às políticas ambientais de Bolsonaro, potencializada pela retórica beligerante do presidente, é um bom exemplo de choque de realidade. Nosso dom Jair encontrou sua pá de moinho —e caiu do cavalo. 

Ainda que por breves instantes, Bolsonaro teve de recuar de seu insensato negacionismo e, premido pela ameaça de boicote, aceitou que é preciso combater os incêndios. Mas, logo em seguida, um pouco como Quixote pondo a culpa no mago, o presidente sugeriu que foi o pessoal do Ibama que pôs fogo na floresta e embarcou numa onda de comentários ofensivos à mulher de Macron.

No final do romance, depois de bater inúmeras vezes contra a realidade, dom Quixote recobra a razão, mas só quando já estava a um passo da morte. (por hélio schwartsman)

"PESSOAS COMO TRUMP E BOLSONARO QUEREM MATAR TODA A SOCIEDADE, DESTRUIR TUDO E TER LUCROS"

Para Noam Chomsky, ainda mais nefastos que Hitler... 
"...a esquerda brasileira está completamente desordenada, há muita apatia, as pessoas estão apenas assistindo a tudo que está acontecendo, pensando não podemos fazer nada, então vamos esperar passar.

...o Brasil ainda não desenvolveu uma oposição [a Bolsonaro]. Talvez agora, no contexto de duras críticas internacionais à destruição da Amazônia, isso surja. Talvez a partir disso surja a oposição real que deveria estar sendo feita. 

É preciso que a crise na Amazônia funcione como um ponto de inflexão para a oposição. Se a crise na Amazônia continuar, o mundo inteiro vai sofrer. 
...são os expoentes da ultradireita atual"

Estamos chegando a um ponto em que os danos ambientais são irreversíveis. Se passar disso, será o fim da vida humana organizada no planeta. 

E temos gente como Trump e Bolsonaro negando que exista aquecimento global e adotando políticas que o exacerbam.

Para mim, eles são os maiores criminosos da história. Hitler queria matar todos os judeus, mas essas pessoas estão dizendo: Vamos matar toda a sociedade, destruir tudo e ter lucros." (por Noam Chomsky, filósofo, sociólogo, linguista e cientista cognitivo)

terça-feira, 27 de agosto de 2019

CHOCANTE! VEJA QUANTOS DAQUELES NOS QUAIS CONFIÁVAMOS SE ACUMPLICIARAM COM A IMPUNIDADE DOS TORTURADORES!

EM VÍDEO, JOBIM DETALHA COMO ATUOU
 PARA IMPEDIR REVISÃO DA LEI DA ANISTIA
“Eu vou tentar fazer uma espécie de testemunho de coisas que eu ouvi e de coisas em que eu fui ator. Ou seja, fui personagem desse processo todo que envolve essa legislação, essas discussões políticas do governo sobre o problema da anistia.”

Ex-ocupante de alguns dos principais cargos da República nos últimos 30 anos, Nelson Jobim, 73, estava à vontade em novembro de 2014, em um encontro com advogados em Ilhabela (SP), quando detalhou como ajudou a impedir a revisão da Lei da Anistia em pelo menos três oportunidades nos governos FHC (1995-2002) e Lula (2003-2010).

Promulgada em 1979 pelo último presidente da ditadura militar (1964-1985), o general João Figueiredo, após uma ampla mobilização da sociedade civil e de líderes da oposição, a lei completa 40 anos nesta quarta-feira (28).

O texto concedeu anistia “a todos quantos [...] cometeram crimes políticos ou conexos com estes” de 1961 a 1979. Permitiu o regresso de diversos políticos da oposição que estavam exilados no exterior.

Desde o primeiro momento, contudo, a impunidade de militares que participaram da repressão à esquerda passou a ser questionada por familiares de mortos e desaparecidos.

O tema estava no ar quando Jobim proferiu a palestra restrita a cerca de 50 pessoas em um seminário promovido pelo advogado Tercio Sampaio Ferraz Jr. O depoimento foi filmado –no ar há mais de quatro anos, o vídeo de 35 minutos tinha apenas 190 acessos no YouTube até dia 21.

Jobim foi ministro da Justiça do governo Fernando Henrique Cardoso (PSDB) de 1995 a 1997, ministro do STF indicado por FHC de 1997 a 2006 e ministro da Defesa nos governos Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Dilma Rousseff (PT) de 2007 a 2011.

Em meados dos anos 1990 surgiu o primeiro esforço do governo federal para apurar os crimes da ditadura com a criação, em dezembro de 1995, da Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada à Presidência da República. A comissão reconhecia as vítimas em razão de suas atividades políticas e autorizava indenizações pecuniárias.

Em Ilhabela, Jobim contou que encarregou o general Tamoyo Pereira das Neves, que atuava em seu gabinete no Ministério da Justiça por indicação do então ministro do Exército, Zenildo Zoroastro Lucena, de “fazer a conversação dentro do âmbito militar” antes de a lei ser aprovada.

Jobim disse aos generais que era preciso enfrentar “o problema dos mortos e desaparecidos” mas, ao mesmo tempo, acalmou os ânimos: “Nós precisávamos, para superar o problema, enfrentar o assunto de frente sem retaliação. Ou seja, nós sabíamos que, para construir uma solução de futuro, não se constrói retaliando o passado”.
Jobim contou que, antes de fechar o texto do decreto que criou a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, acertou com os militares a amplitude da medida.

Ficou combinado que seriam indenizados apenas os familiares dos mortos ou desaparecidos quando “em estado de detenção”, ou seja, nas mãos do Estado, e não os mortos em supostos confrontos armados.

"Eu fiz uma exposição longa para os oficiais quatro estrelas do Exército que estavam mais envolvidos no tema e consegui, através do ministro Zoroastro de Lucena, a concordância. 'Assim nós aceitamos, assim não dá problema. Vamos superar o assunto e vamos a isso'", disse Jobim.

Na vigência da lei, segundo Jobim, “o momento mais grave” foi quando o então diretor-geral da Polícia Federal, Vicente Chelotti, lhe procurou para dizer que haviam sido encontrados num prédio da PF em Salvador documentos que comprovavam que o guerrilheiro e ex-militar Carlos Lamarca (1937-1971) fora assassinado quando já estava rendido, no sertão da Bahia.
Carlos Lamarca: covardemente executado.
Assim, dentro dos critérios estabelecidos entre Jobim e os militares, Lamarca e família mereciam indenização. Mas, revelou Jobim, ele “não faria isto sem falar com os militares”.

Reuniu-se com os comandantes militares e apresentou o caso. Após olhar os papéis, Lucena teria dito, segundo Jobim: "'Ô Jobim, eles mataram'. E me pergunta: 'O quê que [você] vai fazer?’”. Jobim disse que a intenção era indenizar os familiares. Lucena teria concordado, mas pediu uma semana para “ajeitar a situação dos militares”.

Jobim também procurou pessoas da esquerda para antecipar que o governo não aceitaria revanchismo.

Reuniu-se com os advogados Luiz Carlos Sigmaringa Seixas (1944-2018) e Luiz Eduardo Greenhalgh. O ministro teria dito que “nós vamos decidir no sentido de assumir a responsabilidade, mas eu não quero retaliação. Porque nós estamos, com isso, construindo uma conciliação futura”.
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GOVERNO FHC   Corta para as memórias de FHC. No primeiro volume de Diários da Presidência (Companhia das Letras, 2015), que cobre os anos de 1995 e 1996, ele indica que a posição do então ministro era totalmente aprovada pelo presidente.
Ustra vive na idolatria dos Eduardos Bolsonaros da vida

“Não quero que se reabra um inquérito contra o Exército por causa do Lamarca ou o que seja. [...] Essas questões não devem servir de alavancagem para novos problemas, novos conflitos que não têm mais sentido”, escreveu o então presidente.

FHC achava correta uma apuração sobre o passado, mas nunca com o propósito de punição dos militares. Também não aceitava “fazer o Exército pedir desculpa”, isso “não passou pela cabeça de ninguém [do governo]”.

“Eu entendo a dor dos familiares, mas agora [em 1995] está havendo uma espécie de tentativa de voltar a assuntos que a Lei de Anistia encerrou. Isso nós temos que cortar pela raiz.”

A questão atraiu muita atenção de FHC. Em julho de 1996, ele se referiu aos militantes da esquerda armada como “esses homens equivocados” que “estão dando um cansaço muito grande também nos militares”.

“Realmente há um pouco de exploração política nessa matéria, e tenho medo do desgaste que os militares sofram em função da insistência que existe de [se] recuperar o passado, o que pode ser perigoso.”                                                                                                    
GOVERNO LULA — Funcionou a estratégia do governo FHC de fazer o reconhecimento de crime sem punição. 

Segundo Jobim, o próximo episódio relevante sobre o tema do qual participou ocorreu só no final dos anos 2000, quando a Ordem dos Advogados do Brasil ajuizou uma ação no STF para que fosse reconhecida que a anistia concedida pela lei aos crimes políticos ou conexos “não se estende aos crimes comuns praticados pelos agentes da repressão contra opositores políticos durante o regime militar”.

A ação foi ajuizada em outubro de 2008. Cinco meses antes, o Ministério Público Federal em São Paulo havia ajuizado a primeira ação civil pública contra a União e dois ex-comandantes do DOI-Codi, unidade de repressão do 2º Exército, Carlos Alberto Brilhante Ustra e Audir Santos Maciel, por crimes diversos. Assim, o julgamento no STF seria um momento-chave sobre o futuro da Lei da Anistia.

Na época da ação, Jobim era ministro da Defesa do presidente Lula.

Em Ilhabela, revelou que atuou pessoalmente junto aos ministros do STF, tribunal que ele havia presidido de 2001 a 2003, e apresentou um estudo, segundo ele, baseado em informações fornecidas pelo advogado Sepúlveda Pertence.
Tudo dominado: foi um julgamento engana-trouxas

“Quando a Ordem promoveu a Ação [Arguição] de Descumprimento de Preceito Fundamental junto ao Supremo Tribunal, relator ministro Eros Grau, eu visitei a todos os ministros e fui com eles com todo este material”, disse Jobim.

O ex-ministro disse que, segundo Pertence, “a Lei de Anistia é essencialmente irreversível porque implica tornar não criminosos atos criminosos”.

Em 2010, o plenário do STF, após um parecer favorável à posição dos militares encaminhado pelo então advogado-geral da União, Dias Toffoli, negou seguimento à ação da OAB.
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'CONFLITO POLÍTICO' — A próxima disputa que envolveu Jobim deu-se no final do segundo mandato de Lula, quando o governo passou a considerar a criação de uma Comissão Nacional da Verdade, meta incluída no terceiro Plano Nacional dos Direitos Humanos, em 2009.

Jobim voltou a atuar contra uma comissão que visasse a punição dos militares.

“Houve então um conflito político, de discussão política, eu, pelo Ministério da Defesa, sustentando, primeiro a necessidade da existência da Comissão Nacional da Verdade, mas vejam bem, a existência da comissão como uma forma de solucionar o futuro. [...] Só para exemplo histórico, o assunto está superado. Ou seja, é necessário que venhamos a assumir este problema. [...] Uma coisa é obter informação verdadeira e a outra é tentar tirar consequências de uma informação verdadeira”, disse o ex-ministro em Ilhabela.

Jobim disse que a crise “se agravou” dentro do governo no final de 2009 e sua palavra estava sendo colocada em xeque junto aos comandantes militares.

Jobim então promoveu uma reunião “no aeroporto Santos Dumont com todos os três Altos Comandos das três Forças”. Jobim levou a palavra do presidente Lula que teria lhe dito, segundo o ex-ministro: “Não, vamos mudar tudo isso. Vamos manter o entendimento, eu não me dei conta de que o assunto não foi aquilo que nós combinávamos’.” Lula apoiava a posição dos militares.

No auge do embate, segundo Jobim, o ex-deputado José Genoino (PT-SP) “trabalhou brutalmente no sentido de apaziguar os entendimentos".
Genoíno: de guerrilheiro a apaziguador condecorado

"E conseguimos isso. O artigo primeiro foi escrito por mim, eu ofereci duas alternativas no entendimento, com o ministro-chefe da Secretaria de Direitos Humanos, e estava na mesa, ou indicado por Lula para resolver o assunto, [estava o jornalista] Franklin Martins, exatamente optou por essa solução, já que a instrução de Lula era o seguinte: ‘Vamos para a frente. Se nós começarmos a ver o passado, nós vamos só mexer com aquilo que não vai dar solução, só vai dar conflito’”, disse Jobim. 
(por Rubens Valente, repórter da sucursal da Folha de S. Paulo em Brasília, a partir de frases extraídas do vídeo que encabeça este post e de informações das quais dispunha)
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Toque do editor  Ex-ministro de FHC e de Lula, Nelson Jobim confessou nesse seminário em Ilhabela ter sido um dos principais responsáveis pela perpetuação da impunidade de alguns dos mais bestiais criminosos que o Brasil conheceu e pela humilhante condição do nosso país, de ter ficado na contramão do entendimento das nações civilizados quanto à impossibilidade de ditaduras promulgarem anistias durante a vigência do arbítrio, porque termina sendo sempre um habeas corpus preventivo para os agentes do Estado que incorreram em crimes contra a humanidade.
Por Celso Lungaretti

E, mais uma vez, comprova que FHC e Lula, como homens de poder, não honraram suas biografias: um teve de escafeder-se para o Chile a fim de não ser encarcerado, o outro passou 31 dias preso no Dops em 1980, mas ambos depois incumbiram Jobim de enterrar o passado por temerem consequências no presente.

Não é citada na notícia, mas completa a lista aquela que, dos três pusilânimes, foi quem mais sofreu durante a ditadura, Dilma Rousseff. 

Ela simplesmente ignorou a decisão da Corte Interamericana de Direitos Humanos que, no apagar das luzes do segundo governo do Lula, determinou a apuração das execuções em massa de guerrilheiros do Araguaia, a entrega de seus restos mortais às famílias e a punição dos culpados. Lula legou o abacaxi à sua sucessora e esta optou por atirá-lo na lixeira, ao invés de o descascar. 

Isto não a impediu de depois recorrer à mesmíssima corte para tentar evitar seu impeachment. Se a própria Dilma havia ignorado olimpicamente a decisão da dita cuja em 2010, por que não seria também ignorada uma que lhe fosse favorável quando ela estava com a corda no pescoço?!  
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