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sexta-feira, 2 de dezembro de 2022

A CONTAGEM REGRESSIVA PARA O FIM DA ESPÉCIE HUMANA ESTÁ EM CURSO

flávio tavares
BEM PIOR DO QUE BRINCAR COM FOGO
A imagem que os homens geralmente
têm da destruição final é apocalíptica...
 
O
palavrório rebuscado e genérico, tão comum nas reuniões internacionais e que, em verdade, não revela compromissos, mas apenas meras intenções, reapareceu agora no documento final da conferência sobre o clima realizada em Sharm el-Sheikh, no Egito.

As mudanças climáticas evidenciam a ameaça maior à continuidade da vida no planeta, mas desprezamos os alertas da ciência. 

Em verdade, permitimos que nossos governantes se comportem como burocratas nos quais as palavras apenas disfarçam ou encobrem a falta de ações concretas. Assim ocorreu no documento conclusivo da reunião no Egito, no final de novembro.

As conclusões não estabelecem nenhum compromisso de cortar as emissões de combustíveis fósseis, como carvão e petróleo, responsáveis diretos pelo aquecimento global.

Ao inaugurar a reunião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, havia alertado que o planeta está no limite máximo de sua resistência e acentuou ser obsceno que os governos continuem a financiar a destruição ao darem subsídios ou isenções à exploração dos combustíveis fósseis, como carvão e petróleo.

Há muito o papa Francisco adverte sobre os cuidados com a Casa Comum (o planeta) e prega a conversão ecológica da humanidade para preservar a vida como um todo.

As advertências do papa apenas reafirmam as da própria ciência, mas dão a elas uma característica moral e ética que as amplia por si sós, sem que possam ser vistas como simples números estatísticos.

Sob pressão dos chamados países industrializados (responsáveis pela maior parte das emissões geradoras do perigoso efeito estufa), a reunião do Egito acabou desconhecendo a principal ameaça à estabilidade da vida no planeta. 
...mas a possibilidade de desertificação do planeta também inspira pesadelos...
Desconheceu, de fato, o próprio
Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas das Nações Unidas, que estabeleceu o ano de 2025 como limite máximo para que a média anual global das emissões de gases de efeito estufa atinja o ponto de inflexão e comece a cair.

Em suma: a conferência do Egito preocupou-se apenas com as consequências, nunca com as causas do efeito estufa e do aquecimento global que provoca. A invasão da Ucrânia pela Rússia dificultou o abastecimento da União Europeia com gás russo e, assim, próximo do inverno no Hemisfério Norte, as consequências da guerra chegaram também à reunião do clima.

Criou-se, porém, um fundo para socorrer os países insulares que irão simplesmente desaparecer com a elevação do nível dos mares. 

Esses pequenos países-ilhas, localizados quase todos no Oceano Pacífico, não sobreviverão, porém, com nenhum fundo, por mais milionário que possa ser. Dinheiro algum vai conter a elevação dos mares provocada pelo derretimento (gerado pelo efeito estufa) das geleiras do Ártico e da Antártica.
...e uma nova Era Glacial igualmente não pode ser descartada.
Na Antártica, onde o Brasil tem uma base científica, a cada ano aparece mais
terra preta em substituição ao gelo. Já não é necessário nenhum sofisticado aparelho de medição, pois o aquecimento é visível a olho nu. 

No extremo norte, no Ártico, desaparecem paulatinamente os ursos polares e toda a fauna típica da região. 

Tudo isso é muito pior do que a infantilidade de brincar com fogo, mas nos portamos como crianças, sem capacidade ou condições de medir as consequências. 

Nem sequer a brutalidade dos números nos impressiona. P. ex., entre 2010 e 2019, a média anual das emissões de monóxido de carbono atingiu os níveis mais altos de toda a História, e a tendência é de que continue a subir de forma avassaladora. Assim, a meta de limitar a alta da temperatura a 1,5ºC até 2030 torna-se totalmente descartada.

A grande contribuição do Brasil para essa meta está na preservação da Amazônia, cujas florestas têm o poder inato de sequestrar da atmosfera o temível monóxido de carbono. 

Entre nós, porém, a degradação da Floresta Amazônica se acentuou sob a presidência de Jair Bolsonaro e, mesmo com sua derrota na tentativa de reeleição, não se conhecem até agora os rumos da futura gestão de Lula da Silva na área ambiental.

O candidato vitorioso presenciou parte da conferência do clima no Egito, e, mesmo numa visita rápida, assumiu publicamente o compromisso de preservar a Amazônia. No entanto, enquanto não indicar o futuro ministro do Meio Ambiente e os rumos a adotar, permanece a incógnita – e, com ela, até as incertezas.
A destruição ambiental para favorecer interesses particulares marcou o governo do Bozo 
Sim, pois a permissividade do governo Bolsonaro quanto à devastação ambiental fez com que, tão só em abril deste ano, exatos 
1.012,5 km² de florestas fossem derrubados na Amazônia. Além disso, calcula-se que, de 2020 a 2021, a devastação da Mata Atlântica aumentou mais de 66%. 

De fato, é assunto de segurança nacional, para usar o jargão utilizado para proteger as fronteiras do País. No caso da devastação florestal, trata-se das fronteiras da vida.

Brincar com fogo é tão só um passatempo infantil, impossível de ser adotado como regra de Estado ou de governo. (por Flávio Tavares, jornalista e escritor que, em 1969, foi um dos 15 presos políticos libertados pela ditadura militar em troca do embaixador Charles Elbrick)

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

A INCREDULIDADE SUICIDA DO BOZO

Se o presidente Jair Bolsonaro não acreditava nem no vírus e nem na vacina, por que iria acreditar no aquecimento climático do planeta e aceitar fazer alguma coisa contra isso? 

Existe, portanto, uma óbvia incompatibilidade do Bolsonaro com a ciência, decorrente talvez do currículo exigido na sua formação militar, ou voluntária, movida por interesses econômicos. 

Ou seja, pode muito bem acreditar em pretensos seres invisíveis religiosos, mas rejeita a existência de organismos vivos visíveis com microscópios eletrônicos, dependendo do quanto ganha nisso.

Bolsonaro nunca deve ter ouvido falar, mas se ouviu não levou a sério, de um estudo científico australiano, elaborado por cientistas independentes em Melbourne depois de pesquisas iniciadas há sete anos. Trata-se do Breakthrough National Centre for Climate Restoration

Alguns especialistas, nas discussões que se travam em jornais e revistas com o objetivo de levar informações aos leitores leigos em climatologia, acham que pode haver um certo exagero quanto ao tempo ou prazo previsto, mas concordam estarmos vivendo uma situação perigosa em termos de aquecimento climático.
Caso Bolsonaro não tenha sido realmente informado a respeito, a culpa cabe ao ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles, acusado de exportar ilegalmente madeira de lei de árvores derrubadas na região amazônica.

Ao que parece, o ministro aplicava um tipo de desmatamento ecológico, pois evitava o alto calor e as colunas de fumaça provocadas pela queima das árvores, praticada por apressados agricultores e pecuaristas interessados em terem logo acesso aos títulos de propriedade de vastas áreas.

Áreas que, na verdade, ainda pertenciam aos indígenas, habitantes da região muitos séculos antes da dita descoberta por Cabral.

Como se estivesse lendo enquanto escrevo, o presidente Bolsonaro, ora curtindo um fim de semana prolongado nos países árabes, acaba de nos enviar um esclarecimento de Dubai. 

Num encontro com a imprensa e líderes locais, ele lamentou a distorção praticada pela imprensa brasileira e retrucou não ter havido desmatamento na Amazônia. A floresta permanece a mesma que era, num espetáculo maravilhoso de se ver de avião, desde a época do descobrimento.

Chegou até a citar o português Pedro Álvares Cabral, mas omitiu o principal: que já era uma região habitada há muitos séculos. E não explicou aos seus anfitriões árabes por que veem na televisão tantas colunas de fumaça espessa e mesmo altas labaredas saindo do meio da floresta amazônica. 

Gente muito educada; ninguém levantou a mão para desmentir Bolsonaro mas devem ficado ofendidos, porque era mentira e mentira grossa.

Fazia apenas alguns dias, ainda em Glasgow, que tinham circulado entre todos os países participantes da
COP 26 as fotos, filmes, vídeos mostrando as queimadas e desmatamentos acelerados na Amazônia, além de grupos de nativos dando seu testemunho sobre os desmatamentos, expulsões e assassinatos de famílias de indígenas habitantes da região por garimpeiros e agropecuaristas.

Se Bolsonaro lesse os jornais e os noticiários nacionais e internacionais, não precisaria fazer o papel de Pinóquio entre os árabes: o mês de outubro foi o mês no qual mais se desmatou, num total de 877 km2, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais. Em dois anos de governo, já desapareceram cerca de 12 mil km2 de árvores. 

Mas Bolsonaro não mente sozinho: Joaquim Leite, ministro do Meio Ambiente, reconheceu em Glasgow a existência do que chama de desmatamento ilegal, garantindo que será controlado até 2028, sem contar haver sido diminuída a verba destinada ao policiamento e fiscalização das florestas e terem sido anistiados os indiciados e multados por desmatamento ilegal.

Com o aumento dessas áreas desmatadas destinadas rapidamente ao plantio de soja e cereais e à criação de gado de corte, tudo destinado à exportação por grandes grupos, o Brasil vai deixando de ser o pulmão para se tornar o celeiro do mundo. 

Não se sabe se os próprios brasileiros ganham com o fluxo de divisas resultante dessa exportação em massa de alimentos. Os jornais falam em aumento da pobreza e num aumento da fome entre a população.
Sabe-se, porém, que outros fatores vão influenciar daqui para a frente. Ao se lançarem no objetivo de destruir a Amazônia, algo previsível na hipótese de reeleição de Bolsonaro, os agropecuaristas descuidaram, no seu apetite voraz, de prever, p. ex., se haverá água suficiente para irrigar tantos milhares de quilômetros de plantações. 

O clima úmido criado pelas florestas garantia chuvas constantes e abundantes. Ora, o desmatamento tornou o ar seco e o regime de chuvas vai mudar, com chuvas esparsas, períodos de estiagem e seca. Exemplo típico é o do Pantanal.

Mas existem outras causas, provocadas também por outros países, responsáveis pela existência do dióxido de carbono na atmosfera e por outras emissões de gases causadores do efeito estufa como o metano, que deverão ser controladas, segundo o Grupo de Peritos Intergovernamentais sobre Evolução do Clima

A crise do coronavírus, restringindo atividades e viagens durante sua fase mais grave, conteve o aquecimento climático, porém o último relatório do Giec foi alarmante e prevê um aquecimento de 1,5 grau, dentro de nove anos, capaz de provocar desastres climáticos como ondas de calor e inundações sem precedente. 

Nada ou bem pouco sendo feito, como acaba de se decidir no encontro COP 26, o aquecimento climático do planeta vai continuar e poderá não ser mais controlável a partir de 2050. 

Outros países continuam poluindo com a utilização industrial do carvão, mas o desmatamento da Amazônia tem desde já um efeito negativo, pois as terras desmatadas entregues à lavoura ou criação de gado provocam a formação do CO2 e do metano, enquanto antes as florestas exerciam uma função protetora.

Aqui a incredulidade de Bolsonaro, e de outros dirigentes com relação ao aquecimento climático se torna suicida, pois nos leva às previsões catastróficas dos cientistas australianos, David Spratt e Ian Dunlop, responsáveis pelo BNCCR. 

Segundo eles, o aquecimento climático tornará a maior parte do planeta inabitável, provocando destruição e êxodo de grande parte das populações africanas e sul-americanas, com conflitos, guerras e o fim de muitos países. (por Rui Martins)

quinta-feira, 24 de junho de 2021

RICARDO SALLES CORRE DA POLÍCIA

Q
ueridinho do presidente Jair Bolsonaro, mas alvo de inquéritos e investigações em São Paulo e em Brasília, o polêmico Ricardo Salles, o ministro da boiada, caiu. 

E logo num momento em que o Supremo Tribunal Federal aperta o torniquete contra ele e que a CPI da Covid acua o próprio Bolsonaro por causa da explosiva compra da vacina Covaxin! 

O script da demissão a pedido de Salles – que nestes dois anos e meio foi mero executor da política criminosa de Bolsonaro para o meio ambiente – não é novidade no atual governo. O ministro entra na mira da justiça e da mídia, passa a ser elogiado e a participar de atos com o presidente e, quando todo mundo está distraído em outras frentes, finalmente cai. 

Na lista de alvos, destacam-se três que, como o próprio Salles, exercitaram bravamente a máxima do 
um manda, o outro obedece: Abraham Weintraub (Educação), Ernesto Araújo (Relações Exteriores) e o general da ativa Eduardo Pazzuelo (Saúde). 

Todos perderam seus cargos, mas levando troféus para pendurar na parede: as fotos de véspera, sorridentes, com o presidente amigão.

Em comum, também, o fato de que todos eram as pessoas erradas, no lugar errado, na hora errada. Weintraub entendia de brigas e armas, nada de educação. Araújo destruiu a política externa e a imagem do Brasil no mundo desenvolvido. Pazzuelo jamais tinha visto uma curva epidemiológica e nem sequer sabia o que era o SUS.

E o que dizer de Salles, um ministro do Meio Ambiente que jamais pusera os pés na Amazônia? Ele não entendia nada da área e, ao contrário, sempre fez o jogo de madeireiros ilegais e de destruidores do ambiente e da própria Amazônia, enquanto agia ativamente contra os biomas, o Ibama e o ICMBio.

Quanto mais errava, mais Salles agradava a Bolsonaro. Sentia-se com costas tão quentes a ponto de chamar o general Luiz Eduardo Ramos (Casa Civil) de Maria fofoca, mas nem Bolsonaro, nem as costas quentes, foram suficientes para salvá-lo das denúncias que vêm dos Estados Unidos, passam pela Polícia Federal e desabam no Supremo. 

A sensação em Brasília é de que Salles se livra do ministério, mas não de uma bomba. E de que o ministro muda, mas a destruição da Amazônia continua. (por Eliane Cantanhêde)
"Cai, cai, cai, cai/ Eu não vou te levantar/ 
Cai, cai, cai, cai/ Quem mandou escorregar?" 

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

PÁRIA AOS OLHOS DO MUNDO, BOLSONERO É EXCLUÍDO DA CÚPULA DO CLIMA

Numa das piores derrotas diplomáticas desde o início de seu governo, o presidente Jair Bolsonaro não foi colocado na lista provisória de quase 80 chefes de Estado e de governo que participarão neste final de semana de uma cúpula do clima, organizada pela ONU, França, Reino Unido, Itália e Chile.

A reunião virtual tem como meta marcar os cinco anos do Acordo de Paris. Mas os organizadores optaram por transformar o evento num marco dos compromissos dos governos e já preparar a cúpula de 2021, em Glasgow. 

A condição para que um líder participe é que ele apresente novas e ambiciosas metas de redução de emissões ou de preservação da floresta. Caso não houvesse nada para anunciar, a recomendação era de que o governo deveria evitar a participação.

O governo brasileiro, em meados da semana, apresentou suas metas de emissões para o ano de 2060 e submeteu seus planos à ONU. Os objetivos foram considerados inferiores ao que se esperava do Brasil. Entre os organizadores da cúpula, o entendimento foi de que tais metas não eram suficientes para incluir o país na lista de participantes. (trechos de notícia de Jamil Chade, colunista do UOL)

terça-feira, 10 de novembro de 2020

A VITÓRIA DE BIDEN SELOU O REFLUXO DA ONDA NEOFASCISTA E O INÍCIO DA VOLTA À CIVILIZAÇÃO. ISTO LÁ É POUCA COISA?!

rui martins
QUANDO NOSSA ESQUERDA FALA COMO BOLSONARO
Estávamos perto da reta da chegada das eleições estadunidenses. A CNN ia juntando, ao vivo, o total dos votos dos grandes eleitores para Trump e Biden, à medida que avançavam as apurações. Faltando ainda contar os votos em seis Estados, percebia-se, pouco a pouco, que aumentava a vantagem de Biden, tornando impossível a Trump recuperar a diferença. Já se via a vitória de Biden, embora ainda faltassem as viradas ocorridas na apuração dos votos da Georgia e Pensilvânia.

Foi nesse momento que recebi pelo WhatsApp uma curta mensagem coletiva, de um conhecido grupo de esquerda, dizendo para ninguém se entusiasmar com a próxima vitória do Biden, porque (para não usar o linguajar chulo) tanto Biden quanto Trump eram farinha do mesmo saco. E a mensagem vinha seguido de um tweet #ForaBiden. No dia seguinte, num WhatsApp, alguém queria me explicar porque Biden e Trump eram a mesma m…, ou farinha do mesmo saco.

Minha primeira impressão foi de desolação por constatar que nossa esquerda falava quase como Bolsonaro, num discurso populista sem profundidade, sem inteligência, destinado a alimentar o fanatismo de seguidores desprovidos de qualquer visão de política internacional. Esse recurso à repetição de chavões me lembra mesmo a descrição do totalitarismo na distopia 1984, de George Orwell, com seus minutos de ódio. Tudo muito elementar. Um populismo delirante.

Bolsonaro não queria a vitória de Joe Biden e continua não querendo, tanto que até agora não reconheceu a vitória do democrata, assim como os dirigentes russos e chineses. Por quê? Porque sua desastrosa política até agora aplicada no Brasil copiava a do desastroso Donald Trump. 

Como um cachorrinho amestrado, vinha imitando seu dono e já via o Brasil participando de um grupo de países conservadores, reacionários e retrógrados europeus, liderados pelos Estados Unidos de Trump.

Não é à-toa que a catástrofe do coronavírus no Brasil se assemelha à dos Estados Unidos. Trump ria das máscaras e Bolsonaro mandava seu gado tomar cloroquina para se curar da gripezinha. Tanto um como o outro são responsáveis pelo grande número de mortos registrado nos EUA e no Brasil e pelo abandono da Organização Mundial da Saúde. 

Bolsonaro e seu ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles queriam prosseguir, com a benção de Trump, devastando a Amazônia e mostrando o dedo do meio para quem falasse em aquecimento global e necessidade de se salvar o planeta com a aplicação do Acordo de Paris sobre o Clima. Bolsonaro seguia Trump por sentir-se livre de qualquer inibição ao mandar às favas os direitos humanos.

E o que significa para nós a vitória de Biden? A necessidade de o Brasil levar a sério as recomendações da OMS de proteção à população e de combate ao coronavírus. Ou existe um nacionalismo verde-amarelo contra a OMS, em favor da cloroquina e de um recorde mundial em número de mortes? Será antipatriótico apagar-se o fogo na Amazônia sob pressão estadunidense?

Nossos coleguinhas dessa esquerda delirante queriam mesmo a derrota do Trump ou acreditam que, quanto pior é o inimigo, é melhor para quem quer fazer a revolução? 

Sentem-se agora decepcionados com a perspectiva de terem um inimigo diferente, com propostas aceitáveis, capazes de comprometer o impacto das campanhas anti-imperialistas, esquecendo-se de que vivemos todos numa comunidade global, onde cada avanço, em cada país, contribui para o avanço em todo o planeta? 

Enquanto escrevia, me chegavam por WhatsApp acusações, distribuídas por setores da esquerda, também contra a vice-presidente Kamala Harris, dando as razões pelas quais nos devemos opor a ela. Daqui a pouco, vai circular outro tweet #ForaKamalaHarris ou será o filho do Bolsonaro quem está atacando Biden e Kamala, na esperança de um vitória tardia de Trump?

Fora das repercussões no Brasil, no que o governo de Biden será diferente do dirigido até agora pelo Trump? 

Ele pretende engajar toda força dos EUA na defesa do clima e dotar o país de geradores eólicos de eletricidade, limpos e sem combustíveis, acionados pelo vento. Isso é ruim ou bom para o socialismo? 

E manterá os EUA no Acordo de Paris, uma medida criará centenas de milhares de empregos, diminuirá a poluição atmosférica e será mais saudável para quem vive nos centros urbanos. Serão ações contra-revolucionárias?
Biden pretende baixar os impostos para a classe média e aumentar para os mais ricos e para as grandes empresas. Com isto também poderá aumentar em 200 dólares o salário-mínimo federal.

Outro setor visado por Biden é o da saúde. Existem nos EUA 21 milhões de pessoas sem seguro de saúde e, por isso, sem médico e sem hospital. Os EUA, mesmo com o
Obamacare, não têm um seguro de saúde para todos como nosso SUS, que o Bolsonaro queria destruir.

Nos EUA, é necessária a participação em convênios de saúde, ao qual a camada mais pobre não tem acesso. Biden pretende aplicar milhões de dólares numa expansão do Obamacare, ao qual se terá acesso pagando-se 8,5% do salário. Se aplicada como está no programa de governo, esta medida revolucionará o setor da saúde nos EUA. Biden não é contra o aborto, como os evangélicos, conservadores e a extrema-direita de Trump.

Ele também preconiza um governo sem preferências raciais ou de gênero. A prova é ter feito parceria com Kamala Harris de origem indiana e jamaicana, ampliando o caminho da representação das mulheres brancas ou negras na política. Biden não pretende anular tudo quanto foi feito por Trump, assim será mantido o recente acordo multilateral assinado com Israel e países árabes.

Biden não é um presidente de esquerda, não fará a revolução socialista nos EUA, nem fará jogo mole com o Brasil no comércio internacional, nem usará de ameaças nas relações com a China. Mas, para o povo estadunidense, deverá ser bem melhor que Trump. E as eleições, apesar de todas ameaças e tentativas de pressões de Trump, confirmaram a democracia existente no país. 

É nesse quadro que nossa esquerda deve propor, com inteligência e sem o uso do populismo e do fanatismo, suas reformas. E preparar-se para os shows, comédias e ameaças que Bolsonaro fará dentro de dois anos, quando, por certo, não será reeleito.
(por Rui Martins)
TOQUE DO EDITOR – Está certíssimo o amigo Rui quanto a ser totalmente equivocada a posição desses sectários que igualam Biden a Trump. É coisa de scholars que elucubram no mundo etéreo de suas fantasias, sem a mais remota noção de como se travam as batalhas políticas no mundo real. 

Espanta-me o pouquíssimo apreço que mostram ter pela vida humana, pois simplesmente parecem ter esquecido o adicional de dezenas de milhares de mortes evitáveis que os desastrosos Trump e Bolsonaro acrescentaram à já terrível tragédia da pandemia; ou do enorme risco que a humanidade está correndo de ser varrida da face da Terra pelas catástrofes que o desprezo pelo clima por parte desses dois genocidas está incubando.

Há óbvias diferenças entre os interesses capitalistas selvagens representados pelo Partido Republicano e os interesses capitalistas mais civilizados representados pelo Partido Democrata. Daí os primeiros quererem voltar para o tempo em que a cegueira nacionalista causava guerras mundiais e os segundos serem globalistas.

E a mudança de guarda na Casa Branca facilitará imensamente a faxina no Palácio do Planalto. 
As chances agora de que o Bozo caia em 2021 devem estar na casa de uns 99%, pois país pobre não consegue atravessar uma depressão econômica devastadora como a que sofreremos no ano que vem sem o apoio de uma nação poderosa.

Só que o bloco europeu não quer ver o Bozo nem pintado de anjo, a China se move apenas por interesses negociais e a Rússia é indiferente ao Brasil. Então, o poder econômico dará um jeito de remover o Bozo simplesmente por ele estar ferrando nossa economia com seus disparates insanos.

E, a julgar pela quase nenhuma combatividade da nossa esquerda ao longo de 2020, a ponto de depender de secundaristas e dos Gaviões da Fiel para a reconquista das ruas, precisaremos mesmo que outros façam o serviço por nós. 

É vergonhoso ao extremo que não tenhamos expelido o genocida até agora! (CL)

sábado, 7 de novembro de 2020

BIDEN RETIRARÁ OS EUA DA LISTA DE VILÃOS DO CLIMA E O BRASIL PASSARÁ A SER O Nº 1

marcelo leite
MUDANÇA DO CLIMA COM BIDEN NÃO SERÁ NENHUM REFRESCO
N
a 4ª feira (4), com o mundo mesmerizado pelo páreo eleitoral bizantino nos EUA, o país deixou formalmente o Acordo de Paris. De saída, Donald Trump cumpriu a promessa isolacionista e largou uma batata quente para Joe Biden descascar.

O democrata ambiciona dar uma guinada nas políticas ambientais dos EUA, investindo em energia limpa US$ 2 trilhões (cerca de R$ 11 tri, ou 1,5 vez o PIB do Brasil). Pisa fundo na direção do Green New Deal defendido pela esquerda de seu partido.

No Senado, o ressentimento republicano pode fulminar propostas de Biden. Além disso, ele verá as iniciativas questionadas na Suprema Corte com maioria conservadora e nos tribunais federais onde Trump instalou duas centenas de juízes.

Medidas para combater o aquecimento global costumam ser rotuladas como socialistas pela direita empedernida, pois envolvem incentivos e subsídios –p. ex., para a energia solar. Enfrentando resistência em seu país, restará ao novo presidente perfilar-se como mocinho na cena internacional.

Um dia depois da eleição, o democrata mandou em rede social:
"Hoje a administração Trump deixou oficialmente o Acordo do Clima de Paris. E em exatamente 77 dias a administração Biden vai voltar a ele".
Retornando à mesa, poderá justificar a contumaz lerdeza dos EUA nas negociações alegando que o antecessor republicano atrapalhou tudo.

Biden, assim como outros governantes de países ricos que arrastam os pés nas tratativas globais, terão alvo fácil para abater na próxima cúpula, dentro de um ano, em Glasgow: Jair Bolsonaro. 

Será irresistível disparar contra um presidente que nega a mudança climática, incentiva a destruição da Amazônia e ainda se declara para Trump.

O brasileiro levará na bagagem coleção de más notícias. A primeira saiu nesta 6ª feira (6): o país descumprirá meta de reduzir sua contribuição nacional para desequilibrar o clima do planeta, segundo o Sistema de Estimativas de Emissões de Gases do Efeito Estufa.

Pelos cálculos dessa iniciativa, que reúne 56 organizações, o Brasil lançou 2,2 bilhões de toneladas de CO2 (GtCO2eq) na atmosfera em 2019, 10% mais que no ano anterior. Descontado o carbono que matas reabsorvem, a emissão líquida foi 1,6 GtCO2eq, acima da 1,3 GtCO2eq com que se comprometeu em Paris como objetivo para 2020 (e a emissão vai aumentar de novo neste ano!).

O grosso da poluição climática brasileira resulta do desmatamento da floresta amazônica, 44% do total de CO2. Se incluídos os 28% da pecuária e da agricultura, chega-se a 72% de contribuição do agronegócio para desarranjar o clima planetário –embora o setor produza só 21% do PIB.

As emissões aumentaram, em resumo, porque a devastação disparou no primeiro ano de Bolsonaro, à taxa de 34,4% sobre o ano anterior. Atingiu 10.129 km2, maior área destruída desde 2008.

Dessa estatística anual virá também a segunda má nova do Brasil para o mundo: em 2020, o desmatamento terá saltado de novo, para algo como 13.000 km2, cifra que o Planalto deverá anunciar nos próximos dias ou semanas.

O Brasil passou da 6ª para a 5ª posição como maior poluidor do clima mundial, deixando para trás a Indonésia. Os quatro primeiros são China, EUA, Índia e Rússia.

A diferença: no quarteto campeão, 2/3 das emissões de carbono procedem dos setores de energia e indústria, que geram empregos e desenvolvimento. Por aqui, o desmatamento só beneficia grileiros, pecuaristas, madeireiros e garimpeiros ilegais.​ (por Marcelo Leite)

terça-feira, 22 de setembro de 2020

É DIFÍCIL CALCULAR O QUE MAIS HAVIA NO VÍDEO DO BOZO: MENTIRAS OU ASNEIRAS?

Não resisti à tentação de apresentar um gracejo como a melhor de todas as coberturas do discurso inaugural do Bozo na Assembleia Geral da ONU. 

Porque é o que grande parte dos jornalistas gostaria de poder fazer com as não-notícias sobre as quais têm de escrever algo obrigatoriamente, fingindo dar importância àquilo que nunca a teve ou já não tem  mais nenhuma.

Quantas vezes eu cheguei na redação desanimado por saber que me caberia espichar ainda mais um assunto que já se tinha esgotado, mas ainda despertava a curiosidade dos leitores comuns! 

Uma tortura dessas foi o naufrágio da embarcação de turismo Bateau Mouche no réveillon carioca de 1989. Como é um período do ano quase sem notícias relevantes, o assunto ficou ocupando espaço na editoria de Geral do Jornal da Tarde por dias e mais dias, sendo sempre eu o incumbido de, a partir do trabalho dos repórteres, produzir o texto final. Tédio infinito.

Se não precisasse do emprego, teria então feito uma zombaria como a de hoje. Um dos poucos consolos da velhice é o de não precisar jogar mais esse jogo humilhante de ficar provendo
ouro de tolo para os ditos cujos...

Assembleia Geral da ONU é exatamente isso: ouro de tolo. Não tem consequências práticas e os líderes realmente poderosos estão carecas de saber tudo que os coadjuvantes irrelevantes como o Bozo vão dizer e vão esconder.

Então, não foi novidade nenhuma o palhaço ter abastardado um palco que teoricamente deveria ser utilizado para falar ao mundo sobre nosso país, discursando apenas para manter bovinizados seus seguidores brasileiros, aqueles bizarros espécimes cujo QI é negativo e, portanto, são capazes de engolir as mentiras mais cabeludas e de aplaudir as frases mais desconexas.

Daí ser um desperdício de tempo provarmos que o Bozo mais uma vez mentiu descaradamente e funcionou como uma metralhadora de disparar asneiras. Para quê? Fanáticos obtusos nunca se convencem de que estão cultuando ídolos com pés de barro, por mais evidências que lhes apresentarmos.

Para quem ainda tem interesse em saber todas as mentiras que havia na fala (?) do bufão, recomendo a checagem do Estadão (o link é este), que detonou as seguintes falsidades: 
.
— 
que a responsabilidade pela administração caótica e catastrófica da crise do coronavírus seria apenas do STF e dos governadores, quando, na verdade, quem deveria coordenar os esforços em escala nacional era o governo federal, que abdicou de sua responsabilidade e passou o tempo todo disseminando confusão e negacionismo;
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— que o auxílio emergencial aos coitadezas teria proporcionado mil dólares para cada um de 65 milhões de brasileiros (o valor real é US$ 771);
.
— que, graças a ele, Bozo, o Brasil seja líder em conservação de florestas tropicais, quando, na verdade, foi o país que mais perdeu esse tipo de cobertura vegetal primária em 2019;
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— que o Brasil tenha emissão de carbono insignificante para uma das 10 maiores economias do mundo, quando, na verdade, é o sétimo maior emissor de gases causadores do efeito-estufa;
.
— que a Região Amazônica seria maior do que toda a Europa Ocidental (equivale à metade);
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— que os índios e caboclos, e não os trogloditas do agronegócio, seriam os principais responsáveis pelas queimadas;
.
— que o Brasil teria sido vítima de "um criminoso derramamento de óleo venezuelano" em 2019 (acusação jamais provada);
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— que o Brasil utilizaria apenas 27% de seu território para a pecuária e a agricultura (o percentual é maior e bem próximo da média mundial);
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— que tenha havido um aumento do ingresso de investimentos diretos em nosso país no último semestre (aconteceu, isto sim, uma queda de 21% com relação ao primeiro semestre de 2019), etc.

O Bozo também exagerou o número de venezuelanos aqui recebidos graças à
Operação Acolhida e, ao dar destaque às operações de paz da ONU das quais o Brasil tem participado desde 1948, esqueceu de acrescentar que nosso país vem reduzindo drasticamente o orçamento para participação em tais operações (o corte deverá ser de 70% em 2021, com relação a 2020).

O ghost writer do Bozo, depois que terminar a temporada circense no Palácio do Planalto, não conseguirá emprego nem para redigir discurso de vereador de grotão. (por Celso Lungaretti)

sábado, 19 de setembro de 2020

DENÚNCIA GRAVÍSSIMA: AGROTROGLODITAS DESTROEM AS MATAS SOB O COMANDO DE UMA VASTA ORGANIZAÇÃO CRIMINOSA

demétrio magnoli
LABAREDAS NO PANTANAL E NA AMAZÔNIA INDICAM AÇÃO CRIMINOSA E COORDENADA EM LARGA ESCALA 
O fogo devasta as florestas do oeste dos EUA e, em outro hemisfério e outras latitudes, extensas áreas da Amazônia e do Pantanal. 

As mudanças climáticas aproximam os incêndios deles dos nossos. Mas são fogos diferentes: aqui, as labaredas indicam ação criminosa, coordenada em larga escala.

Nos EUA, Trump revela uma vez mais sua aversão à ciência quando nega o papel decisivo das mudanças climáticas. Contudo, tem razão ao mencionar o diagnóstico de técnicos florestais que acusam o ambientalismo fundamentalista pelo agravamento da crise.

Florestas temperadas de clima subúmido exigem permanente manejo para evitar o adensamento excessivo da vegetação. Nas últimas décadas, porém, sob pressão de grupos preservacionistas extremados, reduziu-se tanto a exploração madeireira sustentável como a boa prática de incêndios controlados.

Na sua vastidão, os incêndios florestais nos EUA relacionam-se primariamente com o aquecimento global, mas é difícil negar a contribuição do acúmulo de matéria orgânica, viva e morta, nos estratos inferiores.

Os sistemas ecológicos tropicais da Amazônia e do Pantanal funcionam de forma diversa. O fogo é um componente deles, durante as estações secas, mas o intrincado tecido de superfícies líquidas opera como fator limitante.

Normalmente, focos amplos de incêndio acabam contidos pelos rios, furos, igarapés, corixos e lagoas de vazante. Incêndios tão extensos como os que estão em curso só podem ser explicados por ações humanas persistentes e deliberadas. [todos os grifos são meus (CL)]

O aquecimento global está na base dos incêndios, mas há fogos e fogos. Queimadas comuns para a limpeza de pastos não se confundem com as labaredas ateadas depois da derrubada criminosa de áreas de reserva legal com a finalidade de substituí-las por pastagens. 

O segundo fenômeno origina inúmeros dos incêndios amazônicos e pantaneiros. É que o crime compensa, quando o governo simula não vê-lo.

Desta vez, entretanto, a escala do desastre solicita um crime maior. Nos sistemas ecológicos do trópico úmido, incêndios que saltam incontáveis barreiras líquidas só podem nascer de fogos ateados simultaneamente ao longo de arcos de centenas de quilômetros.

Imagens de satélite indicam uma origem coordenada desses incêndios. A PF dispõe de meios para chegar aos organizadores de um crime ambiental aterrador. O obstáculo não é técnico, mas político: os criminosos agem à sombra do poder.

O Ministério do Meio Ambiente é parte do problema, não da solução. Seu titular, Ricardo Salles, não é um fanfarrão ideológico, um adorador de mestres místicos, um Weintraub qualquer, mas um operador profissional que serve aos interesses da devastação ambiental. Sua missão oficiosa consiste em desmontar os aparatos de fiscalização do Ibama e do ICMBio.

Restaria a esperança na ação dos militares, sob o comando de Hamilton Mourão. O vice-presidente fala, para alguns públicos, na proteção da floresta e ensaia a formação de uma força tática da Amazônia
Mas vale a pena apostar na figura que, em parceria com Salles, postou o célebre vídeo negacionista do mico-leão-dourado?

"Nós temos que fazer a contrapropaganda. Isso faz parte do negócio", justificou-se Mourão, confundindo o dever institucional de dizer a verdade com a guerrilha da informação típica do bolsonarismo de redes sociais.

O declínio de um vice que chegou a funcionar como contraponto civilizado de Bolsonaro mancha, inevitavelmente, a imagem das Forças Armadas.

Os militares são um símbolo perene da soberania nacional na Amazônia. A história os colocou na linha de frente da preservação do patrimônio ambiental constituído pelas florestas.

Hoje, porém, em nome de lealdades políticas circunstanciais ou de privilégios corporativos que se acumulam, eles curvam a espinha diante do crime ambiental. 

Isso não faz parte do negócio —e não será esquecido.​ (por Demétrio Magnoli)

terça-feira, 15 de setembro de 2020

SERÁ QUE O BOZO, NA ASSEMBLÉIA GERAL DA ONU, VAI SÓ SERVIR DE ESCADA PARA O PALHAÇO MAIOR QUE ATUARÁ DEPOIS DELE?

eliane cantanhêde
 E SE JOE BIDEN VENCER?
O que pretende o presidente Jair Bolsonaro ao abrir, na próxima 3ª feira (22), por videoconferência, a Assembleia-Geral da ONU:
— defender os interesses nacionais ou fazer o jogo dos Estados Unidos? 
 seguir a regra internacional de não ingerência em assuntos políticos de outros países ou reforçar, nas entrelinhas, a campanha à reeleição de Donald Trump?
  badalar o Brasil e seu enorme potencial ou o seu governo e ele próprio?

Essas perguntas podem parecer sem sentido, pois os presidentes de todas as democracias usam os palcos internacionais para defender os interesses dos seus países. Mas tudo é peculiar com Bolsonaro, inclusive na política externa. 

Para piorar as coisas – e as expectativas – Trump falará logo depois do amigo brasileiro. Ora, ora, se não vai pintar uma dobradinha entre os dois, a um mês e meio da eleição americana...

O tema da assembleia-geral deste ano é multilateralismo, o que ajuda o pas-de-deux, com Trump e Bolsonaro metendo o sarrafo em organizações internacionais fundamentais para reduzir a desigualdade, ainda mais aguda na pandemia, entre regiões, entre países e nos próprios países. Ambos tendem a criticar a Organização Mundial da Saúde, a Organização Mundial do Comércio e, por que não?, a própria ONU e seus organismos de direitos humanos e meio ambiente.

Se é para apostar, o presidente também vai entrar em questões internas, para dizer ao mundo, via ONU, que o Brasil é um sucesso no combate à pandemia, no controle das queimadas e na recuperação econômica. 

A covid-19 já praticamente acabou, ok? E é mentira o que os brasileiros, os EUA, a Europa e o planeta sabem e os satélites confirmam: que as queimadas cresceram mês a mês na Amazônia e estão dizimando a fauna do Pantanal.

O mundo poderá, assim, assistir ao vivo e em cores a aliança entre Bolsonaro e Trump, inclusive contra a realidade. 

O último lance foi o Planalto ceder à Casa Branca e manter por mais três meses a isenção de tarifas para o etanol americano, prejudicando os produtores brasileiros, mas ajudando o apoio dos americanos a Trump em 3 de novembro. Indiretamente, sem saber ou querer, o setor de etanol do Brasil está pagando um preço para reeleger o republicano.

E a lista de favores de Bolsonaro a Trump, contra o Brasil, não para aí. Essa decisão, contrária aos interesses nacionais e ao Ministério da Agricultura, não foi pragmática, foi ideológica, e não é nova nem única. O Brasil já tinha aceitado também uma cota de 750 mil toneladas de trigo americano sem Tarifa Externa Comum do Mercosul.

Mais: o ministro Paulo Guedes havia lançado o brasileiro Rodrigo Xavier para disputar a presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento, mas foi surpreendido duplamente:
— quando Trump anunciou candidato próprio, seu assessor Mauricio Claver-Carone; e
— quando o Planalto e o Itamaraty passaram a trabalhar pela candidatura americana e contra o adiamento da decisão para depois da eleição à Casa Branca.

Além de ser mais uma derrota de Guedes, o que é só detalhe, essa manobra tem potencial explosivo: rompe a tradição de que os EUA não entram no rodízio para a vaga, promove um assessor de Trump sem saber se ele fica ou não na Casa Branca. 

E o grande temor é de que os EUA, com ajuda do Brasil, usem o BID como instrumento de pressão para jogar os países da América Latina contra a China.

E o que dizer de Bolsonaro seguindo Trump, passo a passo, na pandemia? É uma gripezinha, não precisa máscara, não ao isolamento social, está no fim (quando nem tinha chegado à metade), a culpa é dos governadores e a cloroquina é a salvação da lavoura. 

Tudo errado, tudo copiado, e deixa não uma interrogação, mas um grito no ar: e se Joe Biden vencer? (por Eliane Cantanhêde)

segunda-feira, 13 de julho de 2020

O CORONAVÍRUS É O GRITO DESESPERADO DA TERRA FERIDA

O coronavírus que está atormentando a humanidade pode ser o grito desesperado da Terra ferida e maltratada. 

Pode ser o duro preço a ser pago pelo desprezo de nosso planeta que nos abriga e que estamos destruindo com nosso modo de vida predatório. 

E não é este colunista que afirma tal coisa. São os grandes cientistas e especialistas que estão dando o alarme.

A verdade é que estamos sofrendo uma das pandemias mais assustadoras da história. Talvez já tenham existido no passado epidemias com maior número de vítimas mortais, mas dessa vez se trata de um vírus dos mais desconcertantes e difíceis de se analisar. E os prognósticos dos especialistas são aterradores.

A cada dia que passa os cientistas nos assustam mais. Dizem que a pandemia só começou, que outros vírus piores surgem no horizonte e que sequer se sabe tudo sobre o coronavírus. 

E mais, se atemoriza os já curados dizendo que podem ficar com sequelas graves físicas e psíquicas para sempre. 

Algo mais? Sim, a incerteza das vacinas, já que existe o temor que dada a rapidez com que o coronavírus muta, as vacinas podem chegar tarde. 

E como se não fosse o suficiente, o fato de que nem mesmo a OMS ainda tem certeza absoluta de como o vírus se transmite. Ainda estamos às escuras em muitas coisas. Talvez o único certo seja que o vírus parece transmitir-se principalmente na aglomeração das pessoas e em ambientes fechados.

O que fica mais claro é que a humanidade que parecia até estar vencendo a morte com a força da medicina acabou ajoelhada diante de um vírus do que desconhecemos com certeza como apareceu e quanto ainda pode se modificar. 

Em dezenas de artigos, os especialistas se perguntaram como nossas vidas poderão mudar após a pandemia e quais novidades trará às novas gerações. Uma coisa, entretanto, parece cada vez mais clara e é o fato de que o coronavírus serviu como um alerta a toda a humanidade. 

É como se nos alertasse de que a Terra não é infinita e que ao desrespeitá-la ela se vingará cada dia mais de nós e de nossa cegueira.

A água e o ar que respiramos, o consumismo desenfreado que inunda a terra de resíduos tóxicos e os alimentos que consumimos não são infinitos. O genocídio de animais e plantas irá nos cobrar uma conta cada dia mais alta e o pequeno planeta logo pode se tornar inabitável.

Se o simples coronavírus está colocando de joelhos os cinco continentes parando a economia e semeando dor e morte não é difícil imaginar o que a humanidade pode esperar. 

Essa pandemia está revelando à ciência, à medicina, à filosofia e à própria religião que o amanhã poderá ser trágico para todos, ricos e pobres. 

É a própria natureza com as incógnitas que está criando e nunca haviam desconcertado tanto a ciência e a medicina, que está nos ensinando que de nada adianta esconder a realidade. Os recursos do planeta não são infinitos e gritam e ameaçam nos sepultar se continuarmos nessa louca e desenfreada corrida ao consumo. 

E as consequências graves da destruição da terra não serão para amanhã. A cada dia que passa, cada nova tragédia natural, é como uma chamada de atenção que nos alerta de que o fim do Planeta Terra pode estar próximo.

Vamos olhar nos olhos das crianças e nos perguntar se queremos deixar-lhes de herança um planeta destroçado, violentado e envergonhado sobre cujos escombros continuamos fechando os olhos em vez de começar já hoje, porque amanhã pode ser tarde demais, a mudar nossos hábitos de vida.

O coronavírus que está afetando toda a humanidade ao mesmo tempo e que pegou de surpresa a ciência e a medicina não é só mais uma gripe como os imbecis continuam falando. Hoje a política, a ciência, a economia e as próprias religiões são responsáveis pelas ameaças globais que nos espreitam.

Esconder a cabeça debaixo da asa é condenar as crianças que são a esperança de um planeta reconciliado consigo mesmo. E abandoná-las a um destino de morte certa por nosso egoísmo de hoje é um genocídio não só do futuro como do presente.

Dessa pandemia, da qual já não restam dúvidas de que é diferente, desconcertante e que pode ser um alarme de algo pior, ou sairemos dela reconciliados com a humanidade pedindo perdão à Mãe Terra por nossas contínuas violências e jurando mudar os hábitos perversos de destruição e hipoteca do futuro e até de nosso presente, ou estaremos caminhando a um novo dilúvio bíblico.

Muito pessimismo? Não, porque acho que a capacidade do ser humano de resgatar a vida e a natureza antes de ser tarde demais é tão grande ou maior que sua força de destruição e niilismo. É só tomar consciência se queremos continuar apostando pela destruição ou pelo resgate universal da vida. Uma vida que será mais feliz à medida que a libertarmos do supérfluo e inútil que ameaçam nos afogar.

A salvação é apostar pelo essencial da vida, para dar mais importância ao intangível do que o tangível resumido no sábio adágio de que menos é mais

A pobreza, a miséria, as abomináveis desigualdades sociais deixariam de existir sem a ganância de uns poucos decididos a monopolizar o que não seriam capazes de consumir mesmo que o destino os fizesse imortais, o que não são. 
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(por Juan Arias, no El Pais)
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