quinta-feira, 28 de março de 2024

O DIA EM QUE COMEÇAMOS A CARREGAR UMA FEDORENTA MALA SEM ALÇA , DA QUAL SÓ NOS LIVRARÍAMOS 21 ANOS DEPOIS

"Auriverde pendão de minha terra...  antes te houvessem roto
na batalha que servires a um povo de mortalha" (Castro Alves)
Eu tinha 13 anos no dia 1º de abril de 1964, verdadeira data da usurpação do poder por parte de conspiradores que a vinham tentando praticamente desde 1954.

Os pretextos que alegaram para derrubar o presidente legítimo João Goulart eram mentirosos, daí terem intitulado a quartelada de Revolução de 31 de março, embora nem fosse revolução, nem tivesse ocorrido na véspera do Dia da Mentira, mas sim no próprio.

Foi uma vã tentativa de evitarem a piada pronta. A utilização descarada de fake news por parte dos ultradireitistas vem de longe...

Puxando pela memória, só consigo me lembrar de que a TV vendia o golpe de estado em grande estilo, insuflando tamanha euforia patrioteira que os cordeirinhos faziam fila para atender ao apelo dê ouro para o bem do Brasil!.

Matronas iam orgulhosamente tirar suas alianças e oferecê-las aos salvadores da Pátria, torcendo para que as câmeras as estivessem focalizando naquele momento solene.

Desde muito cedo eu peguei bronca dessas situações em que a multidão se move segundo uma coreografia traçada por alguém acima dela, com cada pessoa tanto esforçando-se para representar tão bem seu papel... que acaba parecendo, isto sim, artificial e canhestra.
De paradas de 7 de setembro a procissões, eu não suportava a falsa uniformidade. Gostava de ver cada indivíduo sendo ele próprio, igual a todos e diferente de todos ao mesmo tempo.

No mais, dê ouro para quê? Para a compra de instrumentos de tortura?! Era mais do que previsível e foi o que acabou acontecendo. Ingenuidade demais não cheira bem.

E, na preparação do clima para a sedição, houvera a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade. Aquelas senhoras embonecadas e aqueles senhores engravatados me pareceram sumamente ridículos.

Aqui cabe uma explicação: duas fortes influências me indispunham contra o patético desfile daquela classe média abasta(rda)da, que detestava tanto o comunismo quanto o samba, talvez porque fosse ruim da cabeça e doente do pé.

Minha família era kardecista e, quando eu tinha oito, nove anos, me levava num centro espírita cujo orador falava muito bem... e era anticatólico visceral.
Já dizia P. T. Barnum: nasce um otário a cada minuto
A cada semana recriminava a riqueza e a falta de caridade da Igreja, contrastando-a com a miséria do seu rebanho. Cansava de repetir que Cristo expulsara os vendilhões do templo, mas estes estavam todos encastelados no Vaticano.

Vai daí que, cabeça feita por esse devoto tardio do cristianismo das catacumbas, eu jamais poderia aplaudir um movimento de católicos opulentos.

E devorara a obra infantil de Monteiro Lobato inteira. Com ele aprendera a prezar a simplicidade, desprezando a ostentação e o luxo; a respeitar os sábios e artistas, de preferência aos ganhadores de dinheiro.

Mas, afora essa rejeição, digamos,  estética, eu não tinha opinião sobre a tal da  Redentora.

Escutava meu avô dizendo que, se viesse o comunismo, ele teria de dividir sua casa com uma família de baianos (o termo pejorativo com que os paulistas botavam num mesmo saco a maioria dos excluídos da época, predominantemente nordestinos).

Registrava a informação, que me parecia um tanto fantasiosa, mas não tinha certeza de que Vovô estivesse errado.

O certo é que os grandes acontecimentos nacionais me interessavam muito pouco, pois pertenciam à realidade ainda distante do mundo adulto.
Marcha da Família, 1964: já vi enterros mais animados 

Na canção em que Caetano descreveu sua partida de Santo Amaro da Purificação para tentar a sorte na cidade grande, ele disse que 
"no dia que eu vim-me embora/ não teve nada de mais", afora um detalhe prosaico: "sentia apenas que a mala/ de couro que eu carregava/ embora estando forrada/ fedia, cheirava mal".

Da mesma forma, o dia que mudou todo meu futuro – seja o 31 de março do calendário dos déspotas, seja o 1º de abril em que a mentira tomou conta da Nação – não teve nada de mais.

Gostaria de poder afirmar que, logo no primeiro momento, percebi a tragédia que se abatera sobre nós: estávamos começando a carregar uma fedorenta mala sem alça, da qual só nos livraríamos 21 intermináveis anos depois.

Mas, seria abusar da licença poética e eu não minto, nem para tornar mais charmosas as minhas crônicas.

Os mentirosos eram os outros. Os fardados, as embonecadas e os engravatados. (por Celso Lungaretti)
"Pega na mentira, pega na mentira / Corta o rabo
dela, pisa em cima / Bate nela, pega na mentira"

4 comentários:

SF disse...

***
Dia aziago... neste dia morreu minha filha.
E com ela minha fé no futuro.
***
Concomitantemente os militares destruíram o nosso futuro ao erradicar mais de 4500 km de ferrovias.
*
"O coronel do Exército e ministro dos Transportes entre 1967 e 1974, Mário Andreazza, foi o maior expoente dessa política. Com a ajuda de Eliseu Resende, que chefiava o Gesfra, Andreazza e a ditadura militar eliminaram 4.881 quilômetros de estrada de ferro, consideradas “deficitárias” pelo regime".
*
Hoje tudo é mais caro por causa dessa decisão.
***
Mataram o BR e o transformaram em banânia.
O que foi bem merecido, pois, tirando alguns que lutaram, a maioria era e continua abastardada.
Achando que há saída no modal que temos.
Se o PIB crescer mesmo não temos como atender a demanda.
*
Cito Bituca que, pelo menos, algo falou em Ponta de Areia.
*
Diverso da dialética dos eruditos a coisa é causal.
*

celsolungaretti disse...

Lamento muito o ocorrido com sua filha. Nem posso imaginar algo assim acontecendo com uma das minhas duas. Seria um golpe pior do que todos que já recebi.

O Andreazza era muito falado no tempo da ditadura, como mutreteiro. E rola muita grana em grandes obras como a inacabada Transamazônica, de reputação horrorosa.

Neves disse...

SF também lamento pela sua perda. Abraço
Celso! depois de tantos anos e tantas perdas... o que comentar?Abraço
https://www.theguardian.com/world/2024/mar/29/lula-brazil-coup-anniversary-dictatorship

Anônimo disse...

em tempo...
https://www2.unifap.br/poscult/files/2018/08/VALENTE_Os_Fuzis_e_as_Flechas_-_Historia_de_sangue_e_resis.pdf

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