quarta-feira, 29 de abril de 2009

BAÚ DO CELSÃO: TRIBUTO A AYRTON SENNA

Quis muito escrever um texto memorável sobre Ayrton Senna, para marcar a passagem dos 15 anos de sua morte.

No entanto, todas as tentativas resultaram vãs. A minha técnica como cronista deve ter melhorado desde aquele terrível 1º de maio de 1994, mas nada que eu escreva agora estará tão carregado de emoção quanto o que eu escrevi no calor dos acontecimentos.

Sou perfeccionista: não suporto a idéia de que a crônica antiga seja melhor do que a atual.

Então, como Senna merece esta e todas as homenagens que possamos lhe prestar, acredito que a melhor solução seja reproduzir aqui meu Réquiem Para um Gladiador, publicado pelo Jornal da Tarde (SP) em 04/05/1994:

RÉQUIEM PARA UM GLADIADOR

São indignas de Senna as lágrimas de crocodilo de jorram da mídia, reduzindo uma morte épica à banalidade das telenovelas. Não foi vítima de um destino traiçoeiro nem assassinado pela incúria dos dirigentes do automobilismo mundial. O muro que se agigantou à sua frente o perseguia desde os primórdios da carreira: está nos pesadelos de todos os pilotos. Não existe segurança a 300 quilômetros por hora.

O fascínio da Fórmula 1 tem tudo a ver com o instinto de morte, que Freud detectou como sendo um dos componentes essenciais de nossa psique e de nossa cultura. O herói do volante desafia o perigo a cada curva e o público junto com ele, numa identificação tão mágica quanto cômoda.

São os gladiadores do século XX, correndo riscos em nosso lugar, para que tenhamos uma boa catarse (aliás, até seus trajes e os autódromos -- principalmente os circulares da Fórmula Indy -- lembram o visual das arenas romanas).

Mas, na era da propaganda, tudo isso deve ficar implícito. Galvões e Lucianos se limitam a dissecar pequenos detalhes técnicos que reduziriam ou aumentariam as probabilidades de sobrevivência dos pilotos. Já os próprios, em rasgos de sinceridade, admitem que a linha separando acidentes superficiais dos fatais é tão tênue quanto um fio de cabelo.

Muitos poderiam ter morrido nos oito anos em que a F-1 não registrou óbitos, mas aqueles ínfimos milímetros que decidem a sina do acidentado foram favoráveis. Em Ímola, os deuses não estavam complacentes e tudo saiu da pior maneira possível.

Como Christian Fittipaldi ressaltou, descartando uma maior periculosidade em função da retirada do controle de tração e suspensão ativa: "Ano passado tinha tudo que vimos aqui mas, graças a Deus, ninguém se machucou. (...) O Berger, no GP de Portugal da última temporada, não se matou por milagre. (...) É relativo dizer que hoje o risco é maior".

Eles, os pilotos, sabem. Mesmo assim, entram naquelas estranhas máquinas e, em posições cujo desconforto beira a tortura, percorrem o fio da navalha em velocidades estonteantes, conscientes de que a mínima falha -- sua, dos outros ou do equipamento -- poderá ser fatal.

Pior: sua condição de ídolos depende não apenas de receberem a bandeirada na frente, mas de guiarem com arrojo e agressividade. Os fãs cobram esta atitude temerária. Ai dos Prosts que pensam antes na autopreservação, colocando a vitória em segundo plano! São tidos como covardes.

Senna era um típico gladiador. Assumia todos os riscos e jamais refugava nas ultrapassagens difíceis, nos duelos insensatos. Os mesmos que denunciam a insegurança de Ímola eram os que aclamavam Senna quando ele realizava brilhantes -- e perigosíssimas -- corridas em pista molhada. O muro esteve sempre muito perto dele, até que o alcançou.

Tímido, pouco à vontade no papel de celebridade, jamais aparentando satisfação maior com as coisas simples da vida, Senna atingia a plenitude na arena de suas conquistas e no pódio triunfal. É difícil imaginá-lo aposentado, remoendo o passado e amaldiçoando o presente.

Parafraseando os roqueiros Pete Townshend e Neil Young, talvez no caso de Senna fosse mesmo preferível morrer antes de envelhecer, consumir-se em chamas do que definhar aos poucos. Foi até o fim no rumo que escolheu: gladiador altaneiro, merece respeito e não lamúrias.

segunda-feira, 27 de abril de 2009

RONALDO: DE FENÔMENO A LENDA VIVA

O esporte é pródigo em propiciar dramas humanos impressionantes, como o que está hoje no noticiário: a incrível ressurreição de Ronaldo Fenômeno.

Ele tem uma trajetória marcada por altos (estratosféricos) e baixos (abissais).

Vinha numa fulgurante carreira, incluindo uma Copa do Mundo conquistada como reserva (1994), quando teve convulsões à véspera da decisão do Mundial seguinte e acabou levando a culpa pela derrota brasileira diante da França.

A via crucis prosseguiu com uma sucessão de contusões graves, tornando totalmente insensata a aposta do técnico Felipão de apostar nele como titular para a Copa de 2002.

Magicamente, aquelas poucas semanas foram um breve hiato em suas desventuras: não só teve participação das mais destacadas, como fez os dois gols da partida final contra a Alemanha.

Em seguida, voltaram as contusões, acrescidas de confusões matrimoniais e pessoais, como o episódio da noitada com travestis. Obeso, desmotivado, parecia ter chegado ao fundo do poço.

Como Felipão, o Corinthians apostou em Ronaldo contra todas as evidências. E parecia ter queimado dinheiro quando o jogador teve outra noitada de loucuras, desta vez acompanhando a delegação que foi a Presidente Prudente disputar uma partida pelo Campeonato Paulista.

Depois do fuzuê num bordel, chegou até a tomar um táxi para desertar da cidade e do clube. Mas, mudou de idéia no caminho, mandou o motorista dar meia-volta e apresentou-se para o treino, umas seis horas atrasado...

A redenção começou na partida contra o Palmeiras, quando entrou em campo na metade do segundo tempo e surpreendeu a todos com três lances agudos: um chute de longe no travessão, um centro perfeito para a cabeçada de um companheiro (o goleiro evitou o gol) e o tento de empate no finzinho dos acréscimos.

No primeiro tempo, no banco de reservas, Ronaldo foi focalizado pela tevê logo após o arqueiro palmeirense ter falhado ao tentar interceptar um cruzamento. Ele comentou algo com quem estava ao lado, dando um sorriso.

Quando a partida estava para terminar, houve um escanteio e ele se colocou na segunda trave, exatamente onde a bola chegaria caso fosse cruzada pelo alto e o goleiro falhasse. A possibilidade desenhada na sua mente virou realidade, como se os deuses dos estádios estivessem de plantão para atender seus desejos.

Depois, na semifinal contra o São Paulo, novamente a magia se fez presente: entrou em campo determinado a calar a boca do diretor de futebol adversário que se referira desdenhosamente a ele como ex-jogador.

E conseguiu: um passe longo e perfeito de Ronaldo desmontou a defesa tricolor e deu origem ao primeiro gol. Logo em seguida, com um pique impressionante para um atleta acima do peso, já entrado nos anos e que sofreu contusões muito sérias, ele deixou o zagueiro para trás e fez um tento inacreditável.

Agora, na decisão contra o Santos, atingiu o ápice em seu novo estilo minimalista: participa pouquíssimo do jogo, mas aparece sempre de forma letal.

Primeiramente pegou um espirrão do meio de campo e, com uma matada de bola perfeita, colocou a bola na medida para fazer um disparo certeiro.

Depois, a apoteose: percebendo desde o primeiro tempo que o goleiro adversário adiantava-se muito, teve, finalmente a oportunidade para aproveitar o vacilo, ao receber a bola num contra-ataque, dar um drible desmoralizante no marcador e desferir uma folha seca digna do velho Didi.

Ao renascer novamente das cinzas, ele está escrevendo uma página lendária na história do futebol.

MUHAMMAD ALI E GARRY KASPAROV - Sempre fui fascinado por esses dramas humanos do esporte. Duas situações, em especial, me atraem muito: os grandes veteranos em busca de um canto do cisne à altura e o rito de passagem (momento de afirmação) dos jovens talentos.

Na primeira categoria, claro, a principal proeza foi a vitória de Muhammad Ali sobre George Foreman na maior luta de boxe de todos os tempos.

Depois de passar anos fora dos ringues em razão da injusta pena que recebeu da máfia do pugilismo por se recusar a vestir a farda dos EUA na Guerra do Vietnã, teve de enfrentar um campeão jovem e poderosíssimo.

A apreensão generalizada era de que Ali, além de derrotado, sairia morto do ringue. Mas, com uma força de vontade incomum e um discernimento mais raro ainda entre boxeadores, encontrou a tática capaz de fazer Davi vencer Golias: deixar-se golpear nas cordas por intermináveis assaltos, confiando na sua guarda e esperando o cansaço minar Foreman.

No oitavo round o gigante vacilou e Ali, com uma energia da qual ninguém o julgava ainda capaz, desferiu uma sequência fulminante de golpes em alta velocidade, fazendo Foreman desabar lentamente, como uma torre. Um momento épico.

Poucos notaram, entretanto, que o castigo contínuo a que Ali fora submetido lhe causou até um rápido desmaio durante a comemoração do triunfo. Talvez ele tenha sido o mais próximo que já vimos de um super-homem: um pugilista estilístico, que lutava de forma inteligente e artística mas, ao mesmo tempo, tinha extrema resistência à dor.

Certa vez sua mandíbula foi fraturada no 2º assalto por Ken Norton e, mesmo assim, ele resistiu até o final da luta, para perder apenas por pontos. Foi um assombro no mundo do boxe. Ali não só exibia um ego gigantesco, mas se mostrava sempre à altura do personagem que criara para si próprio...

Na categoria de rito de passagem, o mais exemplar foi o de Garry Kasparov. Ousado no xadrez e na vida, ele era visto como uma ovelha negra pelos trombas do regime soviético, pois não se prostrava à burocracia dominante.

Então, ao desafiar o conformista Anatoly Karpov pelo posto de nº 1 do xadrez mundial, os fatores esportivos e políticos se confundiram na disputa. Era um franco-atirador enfrentando o poderoso stablishment enxadrístico da URSS.

Burocrático no xadrez como na política, Karpov começou se defendendo bem e aproveitando os erros de Kasparov, que se lançava com volúpia ao ataque. Colocou 5 x 1 no marcador. Precisava só da sexta vitória para vencer o match.

Aí Kasparov resolveu responder na mesma moeda: retrancou o seu jogo e não correu mais risco nenhum. Deu-se, então, uma sequência infernal de empates, uns vinte, se bem me lembro.

O franzino Karpov tinha menos resistência física e mental: na 47ª partida começou a desmoronar. Perdeu essa e a seguinte. Como as regras não admitiam interrupção por decisão médica, só lhe restava entregar os pontos ou ir para o tabuleiro sofrer mais três derrotas. Estava inapelavelmente vencido.

Foi quando o presidente da federação, um filipino, anulou o match por "desumanidade". Decisão criticadíssima. E, quando nova disputa se travou a partir do zero, alguns meses depois, Kasparov, claro, massacrou Karpov.

Um enxadrista brasileiro (talvez Helder Câmara), comentando diariamente o match no Jornal da Tarde, avaliou: ao superar seu maior desafio, caminhando no fio da navalha, o menino Kasparov se tornara um homem. Perfeito.

Nos últimos anos, torci muito para que Andre Agassi e Zinedine Zidaine tivessem cantos do cisne fulgurantes; subi nas paredes quando uma maldita quebra do motor impediu Michael Schumacher de encerrar a carreira como campeão; e fiquei imensamente frustrado por Oscar Schmidt ter abandonado as quadras sem o reconhecimento oficial de que foi o maior cestinha de todos os tempos.

Agora, estou torcendo para Federer e Ronaldinho Gaúcho darem a volta por cima; para o menino Messi sair-se bem no seu rito de passagem, tornando-se um novo Maradona (falta a prova de fogo de uma Copa do Mundo); e para Ronaldo continuar escrevendo seu épico, ao qual acrescentou ontem um novo capítulo (gol de placa).

sábado, 25 de abril de 2009

"FOLHA" ADMITE MAIS ERROS CRASSOS NA REPORTAGEM SOBRE SEQUESTRO DO DELFIM

A Folha de S. Paulo admitiu na edição de sábado (25) ter cometido dois erros ao ilustrar a reportagem Grupo de Dilma planejou sequestro de Delfim Netto com o que seria uma ficha policial de Dilma Rousseff dos tempos da ditadura:
"O primeiro erro foi afirmar na primeira página que a origem da ficha era o 'arquivo [do] Dops'. Na verdade, o jornal recebeu a imagem por e-mail. O segundo erro foi tratar como autêntica uma ficha cuja autenticidade, pelas informações hoje disponíveis, não pode ser assegurada - bem como não pode ser descartada".
Em carta que enviou nos últimos dias ao ombudsman da Folha, Dilma protesta por não ter sido levada em conta, no título da matéria, sua "veemente negativa". E completou: "[a reportagem] tem características de 'factóide', uma vez que o fato, que teria se dado há 40 anos, simplesmente não ocorreu".

Dilma disse que, suspeitando da autenticidade da ficha, tentou rastrear sua origem:
"Solicitei formalmente os documentos sob a guarda do Arquivo Público de São Paulo que dizem respeito a minha pessoa e, em especial, cópia da referida ficha. Na pesquisa, não foi encontrada qualquer ficha com o rol de ações como a publicada na edição de 5.abr.2009. Cabe destacar que os assaltos e ações armadas que constam da ficha veiculada pela Folha de S. Paulo foram de responsabilidade de organizações revolucionárias nas quais não militei. Além disso, elas ocorreram em São Paulo em datas em que eu morava em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro. Ressalte-se que todas essas ações foram objeto de processos judiciais nos quais não fui indiciada e, portanto, não sofri qualquer condenação".
Dilma concluiu que seja uma falsificação. E, vindo ao encontro do que eu já dissera, acrescentou:
"Essa falsificação circula pelo menos desde 30 de novembro do ano passado na internet, postada no site www.ternuma.com.br, atribuindo-me diversas ações que não cometi e pelas quais nunca respondi, nem nos constantes interrogatórios, nem nas sessões de tortura a que fui submetida quando fui presa pela ditadura. Registre-se também que nunca fui denunciada ou processada pelos atos mencionados na ficha falsa".
A Folha afiança a afirmação da ministra da Casa Civil: "Dilma integrou organizações de oposição aos governos militares, entre as quais a VAR-Palmares, um dos principais grupos da luta armada. A ministra não participou, no entanto, das ações descritas na ficha".

O jornal, que reconhece ser a ficha "originária de e-mail enviado à repórter por uma fonte", foi verificar se algo semelhante constava do acervo do antigo Dops, com resultado negativo:

"Essa ficha não existe no acervo", diz o coordenador do arquivo, Carlos de Almeida Prado Bacellar. "Nem essa ficha nem nenhuma outra ficha de outra pessoa com esse modelo. Esse modelo de ficha a gente não conhece".

A Folha apurou também que os indícios apontam na direção de que as viúvas da ditadura seriam responsáveis pela difusão do documento:
"O Grupo Inconfidência, de Minas Gerais, mantém no ar uma reprodução da ficha. A entidade reúne militares e civis que defendem o regime instaurado em 1964. Seu criador, o tenente-coronel reformado do Exército Carlos Claudio Miguez, afirma que a ficha está circulando na internet há mais de ano."
O jornal também confirmou uma afirmação que faço há anos: a de que os antigos torturadores conservaram consigo parte da documentação das investigações da repressão e o utilizam para montar textos falaciosos denegrindo quem participou da resistência ao regime militar. Diz a Folha: "Apenas parte dos acervos dos velhos Dops está nos arquivos públicos. Muitos documentos foram desviados por funcionários e hoje constituem arquivos privados".

Quem lê o blogue Náufrago da Utopia, não precisou esperar tanto tempo pelo esclarecimento do episódio. Já no sábado passado (18) eu matara praticamente toda a charada:
Na verdade, essa ficha circula na internet desde a segunda quinzena de novembro, amplamente postada, publicada e repassada pelos antipetistas.
No dia 20/11/2008, publiquei aqui neste blogue o artigo Ficha da ditadura é munição para ataque virtual a Dilma Roussef que foi reproduzido até no site de campanha da própria Dilma. Esclareci que pelo menos quatro das acusações feitas a ela eram falsas, pois tinham sido ações da VPR, à qual Dilma nunca pertenceu; sobre as demais eu não tinha elementos para opinar.

Enfim, não é nos arquivos policiais que tem de ser buscada essa ficha, mas sim nas redes de extrema-direita que atuam na web. Se chegar-se a quem a colocou em circulação, poderá se saber de onde saiu.

Não é necessariamente falsificada. Pode ser uma ficha operacional que não deixaram no arquivo exatamente por estar recheada de erros crassos.

Mas que teria permanecido nas mãos dos antigos torturadores, os quais hoje utilizam esse entulho ditatorial para redigir as peças de propaganda enganosa dos sites ultradireitistas. Depois, os discípulos os pulverizam nas redes de e-mails.

Então, se o Governo ou a Folha quiserem mesmo rastrear a origem dessa infâmia, não precisarão ir muito longe.

O FMI DESEJA UM FELIZ 2010... PARA OS SOBREVIVENTES DE 2009!

A crise global do capitalismo "está longe de acabar", afirmou o diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional, Dominique Strauss-Kahn, acrescentando que, apesar de alguns sinais positivos na economia estadunidense, ainda teremos pela frente um longo período de dificuldades econômicas.

O FMI, que três meses atrás projetava um aumento do PIB mundial da ordem de 0,5% em 2009, agora prevê que o crescimento será, pelo contrário, negativo: -1,3%.

Com isto, até 90 milhões de seres humanos passarão a vegetar na extrema pobreza, tendo de viver com menos de US$ 1,25 por dia.

Os fragelados de 2009 vão somar-se aos 100 milhões de sofredores que as crises dos alimentos e dos combustíveis conduziram à miséria no ano passado.

"A economia mundial atravessa uma grande recessão causada por uma crise financeira em massa e uma perda de confiança aguda", avaliou o FMI em seu recém-divulgado Panorama Econômico Mundial.

Segundo o estudo, a recuperação da economia mundial ficou para 2010 e será "somente parcial", alavancada pelos países emergentes e em desenvolvimento. Nos países desenvolvidos, a estagnação deverá persistir.

Quanto aos alardeados Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (metas estabelecidas em 2000 pelos países membros da ONU), já foram para o espaço, segundo o documento: ao ritmo atual, os países em desenvolvimento serão incapazes de alcançar a maioria dos objetivos propostos, entre eles a redução das taxas de mortalidade, o desenvolvimento da educação e o progresso do combate à proliferação de doenças como aids e malária.

sexta-feira, 24 de abril de 2009

GILMAR MENDES SEM RETOQUES

Talvez por ser também juiz, Wálter Fanganiello Maierovitch não faz coro ao auê com que a direita saúda seu novo líder informal, Gilmar Mendes. Pelo contrário, critica incisivamente seus desvios da liturgia do cargo que ocupa, o de presidente do STF. Eis alguns comentários interessantes de Maierovitch:

"Mendes também notabilizou-se pelo mau hábito de prejulgar. Hábito, aliás, que um juiz não deve cultivar e serve como indicativo seguro de inaptidão funcional. O prejulgamento por magistrado, grosso modo, é de gravidade igual à do sacerdote que aponta o 'pecador' e conta os segredos revelados por ele no confessionário. Sobre antecipações de juízos, Mendes teceu considerações fora de autos sobre financiamentos aos sem-terra e sobre a revisão da Lei de Anistia, feita para a autoproteção de torturadores.

"No exercício da presidência do STF e do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), Mendes estabeleceu e sedimenta uma ditadura judiciária nunca vista no País."

Pena que Maierovitch não mostre o mesmo espírito crítico ao posicionar-se sobre o Caso Battisti.

Também esclarecedora é esta revelação da colunista Eliana Catênhede, da Folha de S. Paulo: "Gilmar e Barbosa vieram do Ministério Público e da mesma turma - o presidente do Supremo espalha que tirou primeiro lugar, enquanto Barbosa ficou 'entre os últimos'."

Qual a avaliação moral que o leitor faz de um figurão que trombeteia uma irrelevância dessas sobre um desafeto? E que reação se pode esperar deste último, depois de ser atacado pelas costas e esnobado pela frente?

Joaquim Barbosa merece toda nossa solidariedade.

DANIELLE MITTERRAND: EXTRADIÇÃO DE BATTISTI ABRIRIA "PRECEDENTE MUITO GRAVE"

Deu no Estadão: "A ex-primeira dama da França e presidente da fundação France Liberté, Danielle Mitterrand, defendeu a manutenção do refúgio político concedido pelo governo brasileiro ao italiano Cesare Battisti. Segundo Danielle, 'o estatuto de refugiados políticos deve ser respeitado'."

Acrescentou que "seria um precedente muito grave para o Judiciário brasileiro se o Supremo Tribunal Federal não reconhecesse o estatuto de refugiados políticos e extraditasse Cesare Battisti".

Fica o registro.

Como sempre, o tratamento dado pela imprensa burguesa aos posicionamentos dos seres humanos solidários e íntegros é noticiá-los sem destaque (O Estado de S. Paulo) ou ignorá-los por completo (Folha de S. Paulo).

quinta-feira, 23 de abril de 2009

ATÉ MINISTRO DO STF JÁ ACUSA GILMAR MENDES DE PAVÃO

"Vossa Excelência está na mídia, destruindo a credibilidade do Judiciário brasileiro", foi a acusação que o ministro Joaquim Barbosa fez ao presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes, durante o acalorado bate-boca entre ambos na sessão desta quarta-feira (23).

O que posso dizer? Correndo o risco de ser chamado de cabotino, não deixarei passar em branco o fato de que fui dos primeiros a alertar que Mendes não está à altura da posição que ocupa e já deveria há muito tempo ter sido dela expelido.

Como acontece nestes tristes tempos de blindagem da grande imprensa contra os articulistas de esquerda, meus textos jamais repercutiram nos jornalões e revistonas. Então, agora a mídia deverá chegar aonde estou há muito tempo.

Caso, p. ex., de Wálter Fanganiello Maierovitch que, embora atue como escudeiro de Mino Carta na tendenciosa campanha que a Carta Capital move contra o escritor italiano Cesare Battisti, já deu a mão à palmatória quanto a Mendes: embora seja o presidente do Supremo quem encabeça as articulações para que seja atendido o inaceitável pedido de extradição da Itália, ainda assim Maierovitch o considera tão nocivo ao Judiciário que chegou a sugerir, implicitamente, seu impeachment.

Em 05/11/2008, quando Mendes meteu o bedelho no debate sobre punição dos torturadores da ditadura militar, repetindo a cantilena da extrema-direita ao referir-se aos resistentes que pegaram em armas como terroristas, eu já rebati:

"É chocante a indigência jurídica ou o desconhecimento histórico daquele que preside o mais alto tribunal do País!

"...por terem golpistas vitoriosos detonado a ordem constitucional e esmagado o Estado Democrático sob seus tanques de guerra, todos os cidadãos brasileiros tinham não só o direito, como até o dever, de resistirem a eles, como soldados da democracia, armados ou não.

"Se Gilmar Mendes ignora tudo isso, repito, é indigno de sua posição atual e deveria dela ser removido."

Quanto à obsessão de Mendes em aparecer no noticiário, metendo-se a opinar até sobre assuntos que invevitavelmente desembocarão no STF (comprometendo sua isenção para julgar depois tais processos), levou-me a qualificá-lo desdenhosamente de "parceiro das divas" em 11/11/2008, quando ressaltei que ele "inspira as piores suspeitas e uma certeza: a de que, falando pelos cotovelos para atrair holofotes, comporta-se de forma a mais incompatível com a dignidade de sua posição".

Em 22/01/2009, denunciei que Mendes tramava a usurpação do direito que a Lei do Refúgio confere ao Executivo, de decidir quais pleiteantes do refúgio humanitário sofrem acusações devido à atuação política por eles desenvolvida. E adverti:

"A Lei do Refúgio é claríssima, não dando margem a nenhum contorcionismo jurídico que possa compatibilizá-la com a pretensão de Mendes. O que ele quer, em última análise, é alterá-la em essência, o que não é nem nunca será atribuição do STF.

"Espera-se que os ministros do Supremo rejeitem mais uma vez o casuísmo proposto por Mendes, evitando mergulhar o País numa crise institucional apenas porque um alto magistrado insiste em impor-lhes sua vontade e confrontar o Executivo."

E o engajamento de Mendes, como ponta-de-lança de uma campanha midiática contra o MST, levou-me a comentar, em 04/03/2009: "Acusando o Governo Federal de acumpliciar-se com ilegalidades ao liberar recursos para o MST, Mendes extrapolou, flagrantemente, a esfera de competência de um presidente do STF. Fez declarações tempestuosas, típicas de um político em campanha e, portanto, altamente impróprias para um magistrado que tem a obrigação de manter a serenidade".

As declarações do presidente do STF quando sabatinado pela Folha de S. Paulo, em 24/03/2009, foram imediatamente rebatidas pelo meu artigo Casuísmos de Gilmar Mendes não têm limites.

Ressaltei que ele cometera um erro crasso ao explicitar sua disposição de amoldar a decisão do Supremo às conveniências momentâneas, quando declarou que "se for confirmada a extradição, ela será compulsória e o governo deverá extraditá-lo".

Nada, na legislação atual e na jurisprudência consolidada em várias decisões do próprio Supremo, autorizava essa afirmação, que se refere não ao que já existe, mas sim à mudança que Mendes pretende introduzir nessa jurisprudência quando do julgamento do Caso Battisti. Ou seja, ele deu como favas contadas o que dependerá da anuência dos outros ministros, como se estes fossem vaquinhas de presépio.

Merece ou não as acusações que lhe fez Joaquim Barbosa?

quarta-feira, 22 de abril de 2009

COMBATE À CORRUPÇÃO É BANDEIRA DA DIREITA

A notícia do momento é mais um escândalo de uso dos recursos públicos para finalidades pessoais de congressistas. Desta vez, a lama respingou até no Gabeira e na Luciana Genro.

É o tipo de assunto do qual mantenho sempre distância. Antes de mim, que eu me lembre, o Paulo Francis adotava a mesma posição.

Por um motivo simples: a desproporção entre o dano causado ao cidadão comum pelos ladrões de galinha da política e as atividades corriqueiras dos capitalistas é incomensurável.

O capitalismo nos acarreta:
  • emergências ecológicas como as alterações climáticas que ameaçam a própria sobrevivência da nossa espécie;
  • recessões desnecessárias como a atual (que ainda não se sabe se evoluirá ou não para depressão);
  • a condenação de parcela considerável da humanidade a vegetar em condições subumanas;
  • o desperdício criminoso do potencial ora existente para assegurar-se a cada habitante deste sofrido planeta o mínimo condizente com uma sobrevivência digna;
  • a mobilização permanente dos homens para atividades improdutivas e desnecessárias ao invés da redução da jornada de trabalho para que todos possam desenvolver-se plenamente como seres humanos;
  • etc. (muitos, muitos etcetera!).
E, se quisermos ficar no confronto simplista de números, ainda assim o peso da corrupção política no orçamento de cada família continuará sendo uma fração ínfima do custo do capitalismo.

Eis um exemplo bem didático: levantamento da Associação Nacional dos Executivos de finanças, Administração e Contabilidade, numa pesquisa de junho a agosto 2002, constatou que os gastos mensais com despesas financeiras atingiam 35,43% da renda familiar para as situadas entre 1 e 5 salários mínimos, que compram mais a prazo do que os ricos; 33,62% para famílias entre 5 e 10 salários mínimos; e 32,95% para famílias com renda familiar entre 10 e 20 salários mínimos. A média geral para todas as faixas de renda é 29,83%.

Ou seja, apenas o ágio que nos é extorquido pelos agiotas do sistema financeiro já consome ao redor de um terço da nossa renda familiar.

E a estratosférica desproporção entre o custo de fabricação de cada produto e seu preço final? Vejam uma interessante avaliação do economista Ladislau Dowbor sobre o preço de produtos como os Redoxons e Cebions:

"Por caixa, em média, esses produtos têm R$ 0,03 de ácido ascórbico. Você paga R$ 7,00 a caixa, ou seja, o custo do produto é multiplicado por cerca de 200 (multiplicado, não estou falando em 200%). E, com isso, você está tirando do mercado a vitamina C, um produto sumamente importante para a saúde de dois terços da população brasileira. No entanto, o consumidor está financiando o papelzinho dourado, a embalagem, a propaganda." (ensaio Economia da Comunicação, 2002)

Então, interessa aos defensores do capitalismo fazer a patuléia acreditar que a razão maior de seus apuros econômicos são os impostos, que estes acabam sendo em grande parte desviados pelos políticos e que isto, só isto, impediria nosso país de deslanchar.

Ademais, as intermináveis denúncias de corrupção acabam minando as esperanças do cidadão comum na transformação da realidade por meio da ação política. Se tudo não passa de um lodaçal, as pessoas de bem devem mesmo é cuidar de sua vida...

De quebra, fornecem pretextos para quarteladas, sempre que os meios de controle democráticos das massas não estão funcionando a contento.

Então, Paulo Francis dizia e eu assino embaixo: denúncias de corrupção política são bandeira da direita, que acaba sendo sempre sua beneficiária final, a despeito dos ganhos momentâneos que proporcionem à esquerda.

Esta deveria, isto sim, demonstrar que o capitalismo em si causa prejuízos imensamente maiores para o cidadão comum do que os desvios de recursos dos cofres públicos; e que a moralização da política não se dará com medidas policiais, mas sim com uma transformação maior da sociedade.

Não o faz. Desatinadamente, algumas de suas tendências reforçaram as denúncias que culminaram no suicídio de Getúlio Vargas em 1954 e as que deram pretexto à dita redentora de 1964 (que, claro, nada mudou exceto a relação dos beneficiários do butim).

Agora, o PSOL chega a acompanhar o apocalíptico delegado Protógenes Queiroz em sua tentativa de implodir o sistema, provocando uma crise que não deixaria pedra sobre pedra no Executivo, Legislativo e Judiciário.

Ingenuamente, parece crer que se beneficiará com o descrédito absoluto das instituições, sem perceber que isto criaria, isto sim, cenários favoráveis ao golpismo de extrema-direita.

Então, digo e repito: em vez de pegar carona nos temas que a imprensa burguesa prefere magnificar, cabe à esquerda definir sua própria pauta e explicá-la aos cidadãos.

A corrupção política não é nossa prioridade, mas sim o combate ao capitalismo, verdadeira raiz dos principais males que infelicitam os brasileiros.

Precisamos ter a coragem de assumir a posição correta diante do povo, ao invés de tentar combater o inimigo num jogo de cartas marcadas, travado no terreno que só a ele convém.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

TORTURAS CONTAMINAM E INVALIDAM SENTENÇAS ITALIANAS DOS ANOS DE CHUMBO

A defesa de Cesare Battisti anexará ao processo de extradição que tramita no Supremo Tribunal Federal documentação comprovando que "a tortura de presos políticos era uma prática recorrente na Itália dos anos 1970", informa a IstoÉ, em excelente reportagem da Luiza Villaméa ( http://www.terra.com.br/istoe/edicoes/2057/artigo131206-1.htm ).

A revista cita uma declaração do advogado Luiz Eduardo Greenhalgh, segundo quem "é uma falácia o argumento de que, como era uma democracia, não ocorriam perseguições políticas e torturas na Itália".

A Anistia Internacional, efetivamente, recebeu na época várias denúncias de que militantes das organizações de ultraesquerda italianas eram espancados, queimados com pontas de cigarro, obrigados a beber água salgada, expostos a jatos de água gelada, etc. Agora tudo isso constará do processo movido pela Itália contra Battisti, cujo julgamento ainda não foi marcado pelo STF.

O ministro da Justiça Tarso Genro, ao tomar a decisão de conceder refúgio humanitário ao escritor e perseguido político italiano (a qual, pela jurisprudência estabelecida no Brasil por várias decisões anteriores, inclusive do próprio STF, deveria determinar o arquivamento do processo e a imediata libertação de Battisti), já apontara o fato notório de que os ultras haviam sido torturados nos escabrosos processos que marcaram o período dos anos de chumbo na Itália.

Segundo Genro, assim como sucedia "tragicamente" no Brasil de então, também na Itália "ocorreram aqueles momentos da História em que o 'poder oculto' aparece nas sombras e nos porões, e então supera e excede a própria exceção legal", daí resultando "flagrantes ilegitimidades em casos concretos".

Afora isso, houve também flagrantes aberrações jurídicas, conforme reconheceu um dos luminares do Direito, Norberto Bobbio, de quem Genro citou um parágrafo dos mais esclarecedores:

“A magistratura italiana foi então dotada de todo um arsenal de poderes de polícia e de leis de exceção: a invenção de novos delitos como a ‘associação criminal terrorista e de subversão da ordem constitucional’ (...) veio se somar e redobrar as numerosas infrações já existentes – ‘associação subversiva’, ‘quadrilha armada’, ‘insurreição armada contra os poderes do Estado’ etc. Ora, esta dilatação da qualificação penal dos fatos garantia toda uma estratégia de ‘arrastão judiciário’ a permitir o encarceramento com base em simples hipóteses, e isto para detenções preventivas, permitidas (...) por uma duração máxima de dez anos e oito meses".

Foi assim que muitos réus, como Cesare Battisti, sofreram verdadeiros linchamentos com verniz de legalidade durante o escabroso período do macartismo à italiana:
  • com pesadas condenações lastreadas unicamente nos depoimentos interesseiros de outros réus, dispostos a tudo para colherem os benefícios da delação premiada;
  • com o uso da tortura para extorquir confissões e para coagir militantes menos indignos a engrossarem as fileiras dos delatores premiados; e
  • com processos que eram verdadeiros jogos de cartas marcadas, já que a Lei fora distorcida a ponto de admitir penas com efeito retroativo e prisões preventivas que duravam mais de dez anos.
A confirmação do refúgio concedido pelo Brasil a Cesare Battisti não só é a única decisão cabível à luz das leis de nosso país e da generosa tradição de acolhermos de braços abertos os perseguidos políticos de todas as nações e tendências ideológicas, como também um imperativo moral: o de, em nome da civilização, rejeitarmos de forma cabal quaisquer procedimentos jurídicos contaminados pela prática hedionda da tortura.

sábado, 18 de abril de 2009

NOVELA POLICIAL: O CASO DA FICHA DIFAMATÓRIA

Dilma Roussef acusou: "é falsa, é uma montagem recente" a ficha policial supostamente de algum órgão de segurança da ditadura que a Folha de S. Paulo utilizou para ilustrar a controvertida reportagem Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim, no domingo retrasado ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0504200908.htm ). Acrescenta que o documento não consta dos arquivos do regime militar que foram pesquisados a seu pedido.

A Folha de S. Paulo, por sua vez, publicou nota esclarecendo que vai fazer agora aquilo que deveria ter feito antes de reproduzir um item ilustrativo de origem suspeitíssima, que certamente criaria prevenções contra Dilma: "Tão logo a ministra colocou em dúvida a autenticidade de uma das reproduções publicadas, a Folha escalou repórteres para esclarecer o caso e publicará o resultado dessa apuração numa próxima edição" ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc1804200920.htm ).

Na ficha, Dilma é qualificada de "terrorista/assaltante de bancos" e aparece uma relação de ações armadas das quais ela teria participado. Como legenda, a Folha colocou: "Ficha de Dilma após ser presa com crimes atribuídos a ela, mas que ela não cometeu".

Na verdade, essa ficha circula na internet desde a segunda quinzena de novembro, amplamente postada, publicada e repassada pelos antipetistas.

No dia 20/11/2008, publiquei aqui neste blogue o artigo Ficha da ditadura é munição para ataque virtual a Dilma Roussef ( http://naufrago-da-utopia.blogspot.com/2008/11/ficha-da-ditadura-munio-para-ataque.html ) que foi reproduzido até no site de campanha da própria Dilma. Esclareci que pelo menos quatro das acusações feitas a ela eram falsas, pois tinham sido ações da VPR, à qual Dilma nunca pertenceu; sobre as demais eu não tinha elementos para opinar.

Enfim, não é nos arquivos policiais que tem de ser buscada essa ficha, mas sim nas redes de extrema-direita que atuam na web. Se chegar-se a quem a colocou em circulação, poderá se saber de onde saiu.

Não é necessariamente falsificada. Pode ser uma ficha operacional que não deixaram no arquivo exatamente por estar recheada de erros crassos.

Mas que teria permanecido nas mãos dos antigos torturadores, os quais hoje utilizam esse entulho ditatorial para redigir as peças de propaganda enganosa dos sites ultradireitistas. Depois, os discípulos os pulverizam nas redes de e-mails.

Então, se o Governo ou a Folha quiserem mesmo rastrear a origem dessa infâmia, não precisarão ir muito longe.

De resto, companheiros já me repassaram novas montagens acusando Dilma de responsabilidade nas mortes de Alberto Mendes Jr. e Mário Kozel Filho que, é público e notório, igualmente nada tiveram a ver com ela.

A campanha eleitoral de 2010 já começou... imunda!

CASO BATTISTI: O JORNAL DA "DITABRANDA" BRIGA COM A NOTÍCIA

O jornal da ditabranda serve como paradigma do tratamento que a imprensa brasileira está dando ao Caso Battisti: trombetear todas as notícias desfavoráveis (quase sempre tendenciosas) e minimizar as que reponham a verdade dos fatos.

Assim, a Folha de S. Paulo nem sequer noticiou que a OAB acaba de posicionar-se consistentemente a favor da decisão do Governo brasileiro, que concedeu refúgio humanitário ao escritor italiano; e contra a estapafúrdia pretensão do presidente do STF Gilmar Mendes, de mudar a jurisprudência sobre o refúgio, consolidada em várias decisões do próprio Supremo, para atender a pressões estrangeiras e à grita histérica da direita brasileira.

Relegou a informação indesejável ao Folha On Line, como sempre faz quando está brigando com a notícia e quer ter uma atenuante para as críticas que inevitavelmente lhe farão.

Nem o velho Estadão, que em 1964 participou ativamente da trama para derrubada do governo legítimo de João Goulart, espezinha hoje tão desavergonhadamente as boas práticas jornalísticas: a tomada de posição da OAB entrou na edição escrita, com tratamento editorial correto, sem distorções.

Vale lembrar que, na Folha de S. Paulo, as notícias negativas sobre Battisti vinham com chamada de capa qualificando-o de "terrorista", numa óbvia tentativa de fazer o leitor desiformado crer que se tratasse de outro Bin Laden -- e não de alguém que depôs as armas há três décadas sem nunca tê-las disparado e, desde então, vem levando vida pacata e sofrida.

Depois de muitas queixas de cidadãos com espírito de justiça, o rótulo foi alterado para "ex-terrorista"...

sexta-feira, 17 de abril de 2009

O BRASIL TEM UM PRESO POLÍTICO: CESARE BATTISTI

A ditadura militar acabou em 1985, mas existe atualmente um prisioneiro político no Brasil: o escritor italiano Cesare Battisti.

Desde o último dia 15 de janeiro, quando foi publicada no Diário Oficial a decisão do Governo brasileiro concedendo-lhe refúgio humanitário, ele deveria ter sido colocado em liberdade, para escrever seus livros e viver em paz neste país que sempre se notabilizou pela acolhida generosa aos perseguidos políticos de todas as nações e tendências ideológicas.

Tal entendimento foi reforçado pela Comissão de Estudos Constitucionais do Conselho Federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), ao acatar parecer do jurista José Afonso da Silva, um dos maiores constitucionalistas brasileiros da atualidade, segundo o qual "qualquer que seja a decisão do Supremo Tribunal Federal no processo da extradição, esta não pode mais ser executada, tendo em vista a concessão da condição de refugiado do extraditando".

Cesare Battisti está preso no Brasil há exatos 25 meses, por determinação do STF, que acolheu prontamente um pedido italiano neste sentido.

No entanto, sustenta a OAB, "a decisão do Ministro da Justiça, concedendo a condição de refugiado a Cesare Battisti, sob ser um ato da soberania do Estado brasileiro, está coberta pelos princípios da constitucionalidade e da legalidade".

E, o que é mais importante, "em face dessa decisão, e nos termos do art. 33 da Lei 9.474, de 1997, fica obstada a concessão da extradição, o que implica, de um lado, impedir que o Supremo Tribunal Federal defira o pedido em tramitação perante ele, assim como a entrega do extraditando ao Estado requerente, mesmo que o Supremo Tribunal Federal, apesar da vedação legal, entenda deferir o pedido" (grifo meu).

Foi o que afirmei quando, sabatinado pela Folha de S. Paulo, o presidente do STF Gilmar Mendes admitiu uma hipótese juridicamente indefensável: "Se for confirmada a extradição, ela será compulsória e o governo deverá extraditá-lo".

A imprensa propalara o boato (já que nenhuma fonte o confirmava) de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teria mandado ao STF o recado de que, se fosse para extraditar Battisti, que tratasse de tornar sua decisão definitiva -- pois, cabendo a ele decidir como última instância, Lula se recusaria a arcar com o ônus dessa infâmia.

Mendes correu a sinalizar que o Supremo quebraria o galho, mesmo que tivesse de incidir num aberrante casuísmo.

No mesmo dia, eu adverti:

"...nesse prato feito que Gilmar Mendes pretende enfiar pela goela dos brasileiros adentro, há dois ingredientes altamente indigestos, que implicam uma guinada de 180º nas regras do jogo até hoje seguidas e sacramentadas por decisões anteriores do próprio STF:

* a revogação, na prática, do artigo 33 da Lei nº 9.474, de 22/07/1997 (a chamada Lei do Refúgio), segundo o qual "o reconhecimento da condição de refugiado obstará o seguimento de qualquer pedido de extradição baseado nos fatos que fundamentaram a concessão de refúgio";
* a transformação do julgamento do STF em instância final, em detrimento do Executivo, ao qual sempre coube tal prerrogativa."

A OAB acaba de confirmar integralmente minha avaliação, vindo ao encontro da posição que sustento há meses: ao manter Battisti preso depois da concessão do refúgio humanitário, o STF extrapola suas atribuições e inspira fundados receios de que esteja colocando motivações de ordem política à frente do espírito de justiça e da letra da Lei.

É como muitos brasileiros percebem a atuação do ministro Gilmar Mendes. Será catastrófico para a imagem do Judiciário se o Supremo como instituição o acompanhar nessa faina reacionária.

Obs.: a íntegra do parecer de José Afonso da Silva está em http://www.oab.org.br/noticia.asp?id=16483

quarta-feira, 15 de abril de 2009

HUMAN RIGHTS WATCH EXIGE PUNIÇÃO DOS GENOCIDAS DO ARAGUAIA

Notícia de 19/09/2008:

"O Governo venezuelano expulsou a delegação da Human Rigths Watch no país, um dia depois de a organização de defesa dos direitos humanos ter publicado um relatório em que denuncia a erosão da democracia na Venezuela. A ordem de expulsão visou o chileno José Miguel Vivanco, director para as Américas da HRW (...). Em comunicado o ministro dos Negócios Estrangeiros, Nicolas Maduro, explica que a decisão foi tomada depois de analisadas as declarações proferidas por Vivanco, que considera terem 'violado as leis e a Constituição da Venezuela' e 'agredido as instituições e a democracia' do país, 'imiscuindo-se ilegalmente nos assuntos internos'."

Notícia de 15/04/2009:

"A Human Rights Watch pediu que o governo brasileiro leve a julgamento os responsáveis por violações aos direitos humanos cometidas durante a ditadura militar (1964-1985). O anúncio foi feito ontem, após decisão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, de abrir ação contra o governo brasileiro diante da Corte Interamericana de Direitos Humanos pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento de 70 pessoas ligadas à guerrilha do Araguaia e camponeses que viviam naquela região. 'O Brasil não promoveu julgamentos e nem mesmo instaurou uma comissão da verdade para apurar os crimes muito graves que foram cometidos e está atrasado em relação a outros países da região no que diz respeito à responsabilização por abusos do passado', disse José Miguel Vivanco..."

Quando o HRW lança relatórios desfavoráveis à Venezuela, Cuba, Bolívia, etc., há muitos companheiros que os descartam simplesmente acusando essa conceituada ONG de estar a serviço do imperialismo. É uma saída fácil, confortável, mas que nos descredencia junto às pessoas bem informadas.

Se quisermos recuperar o prestígio que tínhamos nos tempos da redemocratização, QUANDO ÉRAMOS RESPEITADOS ATÉ MESMO PELOS QUE NÃO PERTENCIAM A NOSSAS FILEIRAS, teremos de parar de direcionar os discursos apenas para os já convertidos.

Nem todos que emitem opiniões desfavoráveis aos bolivarianos, p. ex., estão a serviço do inimigo. Há que separar-se o joio do trigo, sempre.

O HRW toma invariavelmente as mesmas posições diante dos mesmos problemas, ocorram em países sob governos de esquerda ou de direita. Existe para defender os direitos humanos e os defende.

Se o desqualificarmos num caso, não poderemos, sem sermos acusados de hipocrisia, apoiá-lo quando está certíssimo, lutando pela posição justa que nós mesmos fomos impotentes para fazer prevalecer, como é o caso da apuração do genocídio do Araguaia.

Então, seria bom colocarmos na cabeça, de uma vez por todas, que a rua é sempre de duas mãos.

Ou, como dizia a inesquecível Rosa Luxemburgo: "Liberdade é, sempre e fundamentalmente, a liberdade de quem discorda de nós".

Com os discordantes de boa fé, temos de dialogar respeitosamente. Os ataques desqualificantes devem ser reservados apenas aos de má fé. E precisamos aprender a avaliar criteriosamente em qual conjunto enquadra-se cada pessoa ou instituição, antes de sairmos disparando insultos a torto e a direito.

Dá mais trabalho? Dá. Mas o retorno que colheremos, em termos de credibilidade, será imenso.

domingo, 12 de abril de 2009

ELUCUBRAÇÕES DE UM BLOGUEIRO ACIDENTAL

Os que acompanham há algum tempo minha trajetória, sabem que nunca pretendi ser blogueiro.

Mas, o nosso bom José Milbs resolveu criar blogs para todos os colaboradores de O Rebate (o combativo site-jornal de Macaé/RJ que foi o primeiro a requerer uma colaboração fixa minha) e eu entrei no pacote, em janeiro/2007.

O blogue inicial servia para eu postar os editoriais que escrevia para O Rebate e artigos avulsos que redigia como colunista de O Rebate. Ou seja, geralmente (e tão-somente) um ou dois textos novos por semana; em circunstâncias excepcionais, três.

Eu me dava por satisfeito com esse blogue (Celso Lungaretti - O Rebate) e a reprodução dos meus artigos em vários portais e sites para os quais eu os oferecia.

Mas, em agosto/2008, constatei que perdera alguns espaços por discordância dos responsáveis em relação a posições que eu havia assumido.

Então, já que os espaços alheios me poderiam ser retirados a qualquer momento, resolvi afirmar meu próprio espaço, para ficar imune a qualquer forma de pressão.

Foi quando criei o blog Náufrago da Utopia, com duas novidades:
  • a definição de princípios que adotei, alinhando o novo blog (e, a partir de então, também o antigo) com os ideais revolucionários, a defesa dos direitos humanos e o exercício do pensamento crítico, colocados em pé de igualdade, sem priorizar qualquer desses valores em detrimento do outro;
  • a promessa de postar um texto novo, pelo menos, em cada dia.
Faltava-me, entretanto, conhecimento e perícia com as coisas de informática. E esta parte foi suprida pela minha estimada prima e devotada colaboradora Nádia Stabile. Foi graças a ela que os dois blogs adquiriram o jeitão mais profissional de agora.

Como se tratava de algo novo e inusitado para mim, não tinha a mínima idéia de onde chegaria.

De repente, a partir do episódio "ditabranda", o blog pulou para uma média de 200 visitas diárias, com piques de até 300. Então, parece que a coisa está andando.

A contribuição que tento dar é trazer para a discussão política atual algo da experiência de uma geração que foi muito fundo na luta revolucionária, inovando práticas e conceitos de uma forma tão abrangente que, ouso dizer, nenhuma outra geração a igualou ao longo do século passado.

O legado da geração 68 é alvejado tanto pela direita quanto por parte da esquerda -- indício seguro de que deva mesmo ter sido o último patamar atingido pela revolução e ponto-de-partida para a nova maré revolucionária que, tenho certeza, um dia virá. Os fios da História hão de ser reatados!

Por enquanto, irei fazendo nesta trincheira o que estiver ao meu alcance para que se cumpra a bela profecia de Milton Nascimento, na canção Sentinela: memória não morrerá!

Pelo contrário, pode servir-nos de farol a indicar os caminhos para a construção do futuro sonhado.

quarta-feira, 8 de abril de 2009

SÓ FALTOU A FOLHA DIZER: "ELA É COMUNISTA E COME CRIANCINHA"

No Observatório da Imprensa, um leitor, dizendo-se funcionário público de Brasília, questionou o que lhe pareceu contraditório: minha afirmação de que nada havia de errado na escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro em 1969 e a crítica que fiz à Folha de S. Paulo por trombetear tal episódio.

A resposta que redigi para o OI me permitiu abordar um outro ângulo da questão: o imenso desconhecimento do que foi a ditadura brasileira e a dificuldade para transmitir tais informações ao grande público, já que a indústria cultural não colabora (muito pelo contrário!).

Então, só um público mais seletivo tem uma idéia aproximada da realidade do período. A maioria dos cidadãos fica à mercê da propaganda enganosa da extrema-direita.

Daí eu ter advertido desde o primeiro momento: ruim mesmo seria a utilização panfletária da reportagem da Folha por parte dos sites e correntes de e-mails fascistas.

Quanto aos próprios leitores do matutino, boa parte deles é capaz de perceber as manipulações grosseiras da repórter e chegar a uma conclusão diametralmente oposta àquela que a Folha tentou plantar em sua cabeça.

Quando se fala que os resistentes assaltavam bancos e sequestravam diplomatas, o cidadão comum forma um juízo a partir das circunstâncias atuais. Ele não sabe que isto se passou sob um regime totalitário, nem a indústria cultural cumpre seu dever de inteirá-lo disto (pelo contrário, deturpa a verdade histórica, vendendo gato por lebre, ou seja, ditadura como ditabranda...).

Também ignora o que seja um movimento de resistência à tirania, como o que protagonizamos no Brasil e os que existiram em países submetidos ao nazifascismo.

ALIENAÇÃO E INFANTILIZAÇÃO - Já não existem tantas pessoas vivas que eram adultas nos anos de chumbo; e, menos ainda, que tivessem conhecimento do que acontecia mas não era noticiado por força da censura e das intimidações de todo tipo que a imprensa sofria (desde a prisão de jornalistas até os atentados que os terroristas do CCC cometiam, com a conivência do regime).

Além disto, há a tendência que os idosos têm de colorir as lembranças do passado, apenas porque eram ativos e vigorosos então; e, com avaliações distorcidas pelo saudosismo, eles informam muito mal as novas gerações.

Finalmente, não devemos esquecer que o cidadão comum brasileiro tem muita tolerância ao totalitarismo - tanto que consentiu em viver sob ditadura por mais de um terço do século passado. Há brasileiros que verdadeiramente apreciavam ser reduzidos à infantilização por um regime de força, assim como é frequente encontrarmos velhos italianos elogiando os tempos em que viviam debaixo das botas de Mussolini e "os trens chegavam sempre no horário"...

Devido a todos esses fatores, a pregação demagógica, simplista e falaciosa da extrema-direita é mais facilmente aceita pelos leigos do que a verdade dos historiadores e das pessoas familiarizadas com a jurisprudência internacional e os valores civilizados.

Então, o desserviço prestado pela Folha, magnificando um episódio sem nenhuma relevância jornalística, foi colar na imagem de Dilma Rousseff vários adjetivos que causam imenso mal se não forem compreendidos dentro do contexto dos anos de chumbo.

Quem sabe o que realmente acontecia, tende a concluir que Delfim Netto merecia mesmo ser sequestrado e trocado pelas vítimas de sua canetada infame ao assinar o AI-5, autorizando e coonestando todas as atrocidades cometidas pela repressão ditatorial.

Mas, para quem não tem o quadro real na cabeça, parecerá que Dilma era uma contraventora. E foi exatamente esta a intenção do jornal, imputando-lhe responsabilidade num projeto que, ao que tudo indica, estava sendo desenvolvido apenas pelo Antonio Roberto Espinosa e só seria submetido ao comando Nacional da VAR-Palmares mais tarde; e que, além disto, não saiu da prancheta.

Enfim, a matéria da Folha não passou de uma forçação-de-barra, para reforçar os preconceitos dos desinformados e influir na sucessão presidencial.

MÁ FÉ x INGENUIDADE - Por último, Antonio Roberto Espinosa nos deve a informação mais relevante de todas: o que foi, exatamente, que a repórter da Folha lhe disse, ao procurá-lo para a entrevista? Como o convenceu a falar três horas ao telefone e a dar informações complementares em telefonemas e e-mails, além de autorizá-la por escrito a acessar os arquivos do Superior Tribunal Militar a ele referentes?

Nos seus desmentidos indignados, Espinosa repisa o que já ficou evidenciado para qualquer leitor minimamente perspicaz: ajudou a repórter da Folha a reconstituir esse insignificante episódio histórico (um não-fato, como fui o primeiro a constatar), sem perceber que poderia ser superdimensionado e deturpado para servir como arma contra Dilma Rousseff.

"Esclareço que concedi a entrevista porque defendo a transparência e a clareza histórica", diz Espinosa. Deveria esclarecer, também, qual foi a pauta que a repórter lhe disse estar desenvolvendo. Há duas hipóteses:
  1. Ela já conhecia o plano de sequestro e procurou Espinosa para tratar exatamente deste assunto (tudo leva a crer que não);
  2. Ela procurou Espinosa a pretexto de falar sobre sua militância e, no meio da conversa, ficou sabendo do sequestro e interessou-se pelo mesmo (a mais plausível, tanto que ele afirma ter-lhe dado autorização para investigar no STM os fatos relativos à sua participação na luta armada, "não da ministra Dilma Rousseff").
Em termos de ética jornalística, será muito grave se ficar confirmada a avaliação a que cheguei, a partir das manifestações de ambas as partes: a de que a repórter procurou Espinosa alegando que queria escrever sobre ele, mas estava, isto sim, interessada no que poderia vir à tona sobre Dilma Rousseff.

Como não admito e repudio veementemente que sejam utilizados na minha profissão artifícios típicos de investigações policiais, gostaria muito que Espinosa esclarecesse este detalhe.

P.S.: informações relevantes, surgidas posteriormente, me levaram a atualizar no dia 13/04 este artigo, produzindo uma nova versão que está disponibilizada no blogue Celso Lungaretti - O Rebate, neste link

terça-feira, 7 de abril de 2009

PALPITE INFELIZ

"Porque gado a gente marca,
Tange, ferra, engorda e mata,
Mas com gente é diferente"
("Disparada", Vandré/Theo)

Eu evito o quanto posso comentar aqui a política oficial, pois a considero inócua do ponto de vista revolucionário: o verdadeiro poder, na atual etapa capitalista, é exercido pelas corporações. Presidentes, governadores e prefeitos decidem o secundário e fazem figuração.

É a minha opinião e procuro ser coerente com ela na escolha de temas diários para comentar. Quase sempre ando na contramão dos pauteiros da grande imprensa.

Assim, restrinjo minhas intervenções nos debates da política oficial à defesa dos princípios e valores dos revolucionários da minha geração. É o parâmetro que defini.

P. ex., não me pronuncio sobre os méritos e deméritos da candidatura presidencial do José Serra, mas sou o primeiro a cobrar-lhe coerência com as posturas que um dia adotou e parece ter trocado pelas conveniências.

Se consente que a Rota ufane-se publicamente de sua contribuição à quartelada de 1964, toma o partido dos reacionários no Caso Battisti e trata a manifestação dos ex-presos políticos diante do DOI-Codi como caso de polícia, isso eu não deixo passar em branco. Jamais!

Hoje leio que Marta Suplicy apontou o ex-ministro Antonio Palocci como melhor quadro do Partido dos Trabalhadores para concorrer à sucessão estadual.

Não consigo pensar em nome pior. Os mensaleiros avacalharam as bandeiras éticas do partido, mas Palocci conseguiu atingir um valor ainda mais sagrado: o engajamento na causa dos humildes, contra a arrogância dos poderosos.

Ao mobilizar toda sua influência ministerial para pressionar um mero caseiro, atingindo vários direitos de um coitadeza da vida, Palocci se comportou como um daqueles atrabiliários coronéis nordestinos do tempo de Lampião.

É o anti-PT por excelência -- pelo menos quanto aos ideais que nortearam a fundação do partido

segunda-feira, 6 de abril de 2009

"SÓ FALTOU A FOLHA DIZER: ELA É COMUNISTA E COME CRIANCINHA!"

Se alguém ainda duvidava de que o episódio da ditabranda evidenciasse uma direitização da Folha de S. Paulo, teve no último domingo a confirmação de que é esse mesmo o processo em curso, com tendência a acentuar-se cada vez mais.

Quem tiver paciência para ler com atenção a imensa e extremamente tendenciosa reportagem Grupo de Dilma planejava sequestrar Delfim, perceberá que seu propósito subjacente foi fixar dois conceitos, ambos muito desfavoráveis às pretensões eleitorais da ministra Dilma Roussef, a candidata preferida de Lula para 2010:
  • que ela era uma guerrilheira, envolvida com ações atualmente vistas de forma negativa (sequestros);
  • que ela hoje tem como aliado político alguém que era seu inimigo, exatamente o alvo do sequestro.
Assim, a Dilma militante é mostrada como alguém que "sabe montar e desmontar um fuzil de olhos fechados". E tem mais: "Na clandestinidade, seu grupo planeja uma das ações ousadas da luta armada em 1969 contra a ditadura militar: o sequestro de Delfim Netto, símbolo do milagre econômico e civil mais poderoso do governo federal".

A afirmação bombástica do 1º parágrafo só é relativizada no 5º, quando ficamos sabendo que Dilma e outros três comandantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares apenas "concordaram" com o plano de sequestrar Delfim Netto. Quem estava à frente desse projeto era o quinto comandante, Antonio Roberto Espinosa, exatamente a fonte principal da bombástica reportagem da Folha.

Ele "assumiu que coordenou o plano", contando à reportagem do jornal "segredos que diz não ter revelado sob tortura". E foram citadas declarações sintomáticas de Espinosa: "O grupo foi informado. Os cinco [ele, Dilma e os outros três dirigentes da VAR] sabiam", "o comando nacional sabia, não houve nenhum veto".

Ou seja, Espinosa acalentou a idéia de sequestrar Delfim Netto e fez alguns levantamentos. Talvez tenha informado o restante do comando da VAR-Palmares de sua intenção. Foi preso antes de qualquer tentativa de concretizar seu propósito. Onde está a revelação estarrecedora que justifique o enorme destaque editorial dado a esse não-acontecimento de quatro décadas atrás?

Mais: por que acreditar tanto nas palavras atribuídas a Espinosa e tão pouco nas de Dilma Roussef? Afinal, inquirida sobre o tal sequestro, ela respondeu: "Acho que o Espinosa fantasiou essa. Sei lá o que ele fez, eu não me lembro disso. (...) Não acredito que tenha existido isso, dessa forma. Isso está no grande grupo de ações que me atribuem. Antes era o negócio do cofre do Adhemar, agora vem o Delfim. Ah, tem dó. Todos os dias arranjam uma ação para mim".

Conheço bem os personagens e, mais ainda, o contexto em que travávamos a luta de resistência ao totalitarismo de estado implantado no Brasil. Espinosa foi quem me recrutou (juntamente com sete companheiros secundaristas) para a Vanguarda Popular Revolucionária.

E, de abril a outubro de 1969, ele fazia a ligação entre o Comando Nacional da organização e o comando estadual de São Paulo, ao qual eu pertencia. Só o perdi de vista quando ficamos em lados opostos no racha do Congresso de Teresópolis: eu na VPR reconstituída, ele na VAR.

Então, posso afirmar que ele estava sempre com um plano mirabolante desses na cabeça. Pode até ser que tenha cientificado os quatro outros comandantes da VAR, mas algo assim só era discutido para valer no momento de ser colocado em prática. Aí, sim, os prós e contras eram minuciosamente avaliados.

Antes, quando se tratava apenas de uma possibilidade dentre tantas outras, ninguém levava muito a sério. Dilma talvez nem tenha mesmo sabido, ou haja esquecido -- dá no mesmo.

As dificuldades para concretizar algo assim eram imensas. Todas as organizações participantes da luta armada, no final de 1969, estavam debilitadas. Foi a fase em que se começaram a juntar vários partidos e organizações para efetuar ações armadas de maior porte, já que um só não dava mais conta do recado.

Então, era inimaginável, para nós, corrermos o risco de trocar tiros com uma escolta poderosa. Não podíamos nos dar ao luxo de perder mais combatentes. Uma ação dessas, na cabeça tanto dos dirigentes da VPR quanto dos da VAR, só se justificaria havendo uma boa chance de alcançar-se o objetivo sem baixas.

Segundo a reportagem da Folha, Delfim seria um "alvo fácil". É uma contradição com a proeminência que o jornal lhe atribui e uma afirmação dura de engolir: desde quando uma ditadura descura da segurança de seus ministros?

E, noutro trecho, diz-se que "Delfim contou à Folha que recebeu recomendações para redobrar o cuidado diante da onda de atentados promovida pela esquerda contra o regime". Quantas contradições numa reportagem só!

Ora, Espinosa não chegou ao estágio de reunir o comando e apresentar-lhe um roteiro de ação aceitável. Foi preso antes. Portanto, o tal sequestro do Delfim Netto não passou de um sonho de uma noite de verão, a exemplo de tantos outros que a guerrilha elucubrava sem ter como concretizar.

Além de Espinosa agora estar declarando, com indignação, que foi vítima de uma armadilha da Folha, salta aos olhos que o material reunido pelo jornal não é nem de longe suficiente para atribuir a Dilma Rousseff uma real responsabilidade por esse plano que não saiu do papel.

Com a experiência de mais de três décadas de atuação jornalística, posso afirmar que, não havendo uma presidenciável na jogada, as supostas revelações de Espinosa teriam um destino certo: o cesto de lixo.

Há histórias muito mais significativas a serem contadas sobre a luta armada, mas à grande imprensa nunca interessou contá-las, porque delas o que sobressai é a bravura e o idealismo de quem travou uma luta tão desigual, contra um inimigo capaz das piores atrocidades.

Para quem quer fazer as novas gerações acreditarem que o regime militar nada mais era do que uma ditabranda, não convém trazer o fundamental do período à tona, mas, apenas, pinçar miudezas que sirvam a seus objetivos.

FOLHA CONFUNDE 1969 COM 1970 - E essa tendenciosidade perpassa toda a reportagem dominical da Folha.

P. ex., a escolha de Delfim Netto como alvo de sequestro se explicaria por ele ser "símbolo do milagre econômico", o ministro da Fazenda "que sustentava a popularidade dos generais com um crescimento econômico de 9,5% em 1969". Ou seja, sugere-se que os guerrilheiros, malvados como eles só, estariam ressentidos com o boom econômico e seu alegado artífice.

A Folha omitiu, entretanto, que nem se falava em milagre brasileiro no ano de 1969. O PIB avançara 9,8% em 1968, mas o salário-mínimo tivera crescimento negativo de 24,78%! A política econômica da ditadura beneficiou, primeiramente, o grande capital; só depois, em 1970, é que as sobras chegaram até a classe média.

No período 1968/1973, mais da metade dos assalariados brasileiros recebia um salário-mínimo ou menos. E, enquanto o PIB cresceu 146,33% nesses seis anos, o salário-mínimo teve de se contentar com apenas 81,52%, pois o modelo era, acentuadamente, concentrador de renda.

O período foi marcado por um aumento dos acidentes de trabalho, conseqüência das horas extras e da maior intensidade produtiva; e até por um agravamento das condições de saúde da maioria da população brasileira, evidenciado, p. ex., no ressurgimento de epidemias como a meningite e no aumento das taxas de mortalidade infantil.

O certo é que, em 1969, nem sequer a classe média estava eufórica com o regime, pois não havia a percepção de uma melhora econômica significativa, depois de tantos anos de vacas magras. E Delfim não sustentava a (inexistente) popularidade dos generais. Tudo isso viria em 1970.

Já uma outra possibilidade bem mais plausível -- o de que Delfim estaria sujeito a ser sequestrado por conta de sua condição de signatário do AI-5, o cheque em branco que a ditadura deu à linha dura militar para praticar todas as atrocidades -- ficou totalmente fora da reportagem da Folha. Por que será?

Afora isto, Dilma é mostrada como a guerrilheira fútil que ia "cortar o cabelo no salão Jambert, que servia champanhe aos clientes"; como a responsável pela queda de quatro companheiros de organização (o que não tem nenhuma relevância em 2009!); e como a incumbida da distribuição do dinheiro da VAR (o que só interessa para quem quer propiciar insinuações malévolas, sem fazê-las diretamente).

E várias perguntas que lhe foram feitas pela repórter têm viés negativo, tipo "a sra. faz algum mea-culpa pela opção pela guerrilha?".

Vale registrar que Dilma respondeu com dignidade a essa indagação descabida: "Não. Por quê? Isso não é ato de confissão, não é religioso. Eu mudei. Não tenho a mesma cabeça que tinha. (...) As pessoas mudam na vida, todos nós. Não mudei de lado não, isso é um orgulho. Mudei de métodos, de visão".

Mas, se a extrema-direita precisava de munição para suas campanhas difamatórias contra Dilma, agora tem de sobra. Suas candentes declarações sobre as torturas que ela e todos os militantes sofríamos serão obviamente omitidas, mas se trombeteará que a "terrorista" antes queria sequestrar o Delfim Netto e agora os dois hipócritas estão irmanados num mesmo projeto político.

Uma mensagem de leitor, publicada na Folha de 06/04/2009, atesta que a reportagem atingiu plenamente seus objetivos: "se meu filho fosse se casar com uma ex-guerrilheira que pretendia sequestrar alguém, mesmo que fosse por motivos ideológicos, eu não aprovaria de jeito nenhum".

Felizmente, ainda há quem não se deixe manipular. "Só faltou a Folha dizer: "Ela é comunista e come criancinha!", escreveu outro leitor, este perspicaz.

domingo, 5 de abril de 2009

POR QUE TANTO ESTARDALHAÇO EM TORNO DE UM SEQUESTRO QUE NÃO HOUVE?

A Folha de S. Paulo publica com grande alarde que a Vanguarda Armada Revolucionária Palmares tramou, mas acabou não executando, o sequestro do ministro Delfim Netto no final de 1969 ( http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0504200906.htm ).

O plano teria entrado na ordem do dia após o racha que reconstituiu a Vanguarda Popular Revolucionária, no Congresso de Teresópolis. Era a ação espetacular com que a VAR contava provar que a saída dos principais quadros de origem militar não teria afetado a capacidade operacional de seus grupos táticos -- pois ficara, para o restante da esquerda, a impressão de que a VPR faria a guerrilha e a VAR se restringiria à atuação junto às massas.

José Raimundo da Costa (o Moisés, que passou à História como o último comandante da VPR) e eu fomos os iniciadores do racha e os mais alvejados pelas críticas do pessoal que ficaria na VAR. Então, teoricamente, nada tenho a ver com essa história. Ela se refere à organização com a qual eu havia rompido e que me endereçara pesadas acusações, como costuma ocorrer nas lutas internas.

Mesmo assim, faço questão de deixar registrado que era uma decisão corretíssima da VAR: por seu papel histórico como signatário do Ato Institucional nº 5, Delfim Netto merecia, sim, servir como moeda de troca para livrar companheiros da tortura e da morte nos cárceres da ditadura.

Pois foi o malfadado AI-5 que deu o sinal verde para a linha dura militar praticar todas as atrocidades do período mais totalitário da História brasileira. Tenho reiteradamente afirmado que, mais que dos próprios torturadores, a responsabilidade por aquele festival de horrores foi de quem retirou a coleira dos pitbulls.

De cães de ataque só se espera que ajam de acordo com sua natureza; quem lhes determina o alvo e os açula é sempre o maior culpado.

Delfim Netto sabia muito bem o que adviria da proibição de habeas corpus para os acusados de "subversão" e da possibilidade de mantê-los presos, incomunicáveis, durante 30 dias (prazo que acabaria sendo ultrapassado na prática, eu mesmo fiquei incomunicável por 75 dias).

Ele não era nenhum inocente útil, mas sim um culpado inútil, com a agravante de que tinha mais discernimento do que a maioria dos participantes daquela ignóbil reunião.

Quanto à Folha, o enorme e injustificável espaço que dedicou a essa Batalha de Itararé (um não-fato, já que o sequestro nem sequer foi tentado) se deve, unicamente, ao fato de que Dilma Rousseff era dirigente da VAR e conhecia o plano.

Evidentemente, forneceu munição para as sórdidas campanhas de difamação que os sites de extrema-direita desencadearão e as correntes de e-mails maximizarão.

Já vim a público denunciar que a ralé fascista espalhara na internet uma ficha policial da ditadura a respeito de Roussef, com várias incorreções (atribuíam-lhe ações armadas praticadas por organização a que ela não pertencia).

Como daquela vez, reitero que, não sendo partidário da candidatura presidencial de Dilma nem tendo afinidade com ela, repudio com veemência o jogo sujo de quem exuma episódios do passado para servirem, preconceituosamente, como arma política no presente.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

A RESPOSTA DO GOVERNO SERRA AO PROTESTO DIANTE DO DOI-CODI: INQUÉRITO POLICIAL

“Me mandaron una carta
por el correo temprano,
en esa carta me dicen
que cayó preso mi hermano,
y sin compasión, con grillos,
por la calle lo arrastraron, sí.

“La carta dice el motivo
de haber prendido a Roberto
haber apoyado el paro
que ya se había resuelto.
Si acaso esto es un motivo
presa voy también, sargento, si.”
(“La Carta”, Violeta Parra)

Se o governador de São Paulo fosse um companheiro de ideais, eu lhe escreveria uma carta aberta, sem o mínimo receio de que tão alta autoridade pudesse se lixar para um mero escriba virtual.

Tenho sempre na lembrança o magnífico exemplo de Salvador Allende: ao ser eleito presidente do Chile, afirmou aos militantes que, para eles, jamais seria Sua Excelência, mas sim o companheiro presidente.

Mudam os tempos, mudam os homens.

Hoje, o ex-presidente da União Nacional dos Estudantes não dá a mínima para os que continuam fiéis às bandeiras que o levaram ao exílio, quatro décadas atrás.

Em outubro do ano passado, enderecei-lhe uma carta para denunciar que a Rota, unidade truculenta da Polícia Militar paulista, continuava ufanando-se em seu espaço virtual de haver secundado as Forças Armadas em atentados contra a democracia cometidos no período 1964/85.

O José Serra da UNE certamente ficaria indignado com esses PMs que, em plena democracia, fazem questão de lembrar que ajudaram a depor um presidente legítimo e a esmagar os movimentos de resistência à tirania.

O José Serra do Poder considerou esse assunto tão irrelevante que a única resposta do seu governo acabou sendo a dada por um tenente à reportagem da Brasil de Fato, em janeiro, prometendo uma “limpeza geral” na página da Rota.

Foram palavras ao vento, pois a página permanece inalterada até hoje:

“Marcando, desde a sua criação, a história desta nação, este Batalhão teve seu efetivo presente em inúmeras operações militares, sempre com participação decisiva e influente, demonstrando a galhardia e lealdade de seus homens, podendo ser citadas, dentre outras, as seguintes campanhas de Guerra: (...) Revolução de 1964, quando participou da derrubada do então Presidente da República João Goulart, dando início à ditadura militar com o Presidente Castelo Branco; Campanha do Vale do Rio Ribeira do Iguape, em 1970, para sufocar a Guerrilha Rural instituída por Carlos Lamarca...”

CESARE BATTISTI É NEGADO DUAS VEZES - Também no Caso Cesare Battisti, verdadeiro divisor de águas entre os cidadãos com espírito de justiça e os reacionários mesmerizados pelas razões de estado, as reações foram as mais decepcionantes.

Primeiramente, a declaração de Serra quando o ministro Tarso Genro acabava de conceder o refúgio humanitário a Battisti, preferindo ficar contra o governo petista do que a favor da soberania nacional, atingida pelas ultrajantes pressões italianas: "Em princípio, não estou de acordo, pelos antecedentes que vi na imprensa. Não olhei os processos, mas me parece um exagero o asilo dado".

Depois foi o consentimento que, calando-se, deu a uma inaceitável declaração do seu secretário de Justiça Luiz Antonio Marrey, que melhor caberia na boca de alguma viúva da ditadura: "Foi absolutamente equivocada a decisão de dar refúgio político a um assassino condenado pela Justiça italiana".

Faço questão de repetir aqui o que escrevi quando o Governo Serra negou Battisti pela segunda vez, aproximando-se da marca célebre de Pedro:

“Se tudo que os estados afirmam sobre seus desafetos deve ser tomado como verdade absoluta, erraram a França e o Chile ao não entregarem o subversivo Serra para os torturadores brasileiros.

”E se a solidariedade entre os combatentes das causas justas virou letra morta, errou o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso que, com suas gestões desesperadas, salvou Serra da morte quando do pinochetazzo.”

"SUSPEITOS": IVAN SEIXAS E IVAN VALENTE - Face a esses precedentes, bem como à emblemática atitude de tratar os movimentos estudantis e sociais como caso de polícia, não nos deve surpreender que, reeditando as práticas da ditadura militar, o Governo Serra tenha instaurado inquérito para apurar responsabilidades pela manifestação realizada em 24 de agosto de 2008, diante da delegacia paulistana que, no período 1969/1976, abrigou a Operação Bandeirantes e seu sucessor, o DOI-Codi/SP.

Para quem não sabe, tratou-se de um dos mais nefandos centros de torturas do período totalitário, responsável pelo assassinato de 47 militantes da resistência à ditadura.

Dos 6.897 cidadãos que passaram por suas garras, a grande maioria sofreu as torturas de praxe (espancamentos, choques elétricos, pau-de-arara, afogamento, asfixia, etc.), acrescida de uma exclusividade do local: a cadeira-do-dragão, cujos assento e encostos para os braços e cabeça eram revestidos de metal, para aumentar a potência das descargas que a vítima, amarrada, recebia.

O episódio atual foi enfocado na edição de março/2009 da Revista Adusp ( http://www.adusp.org.br/revista/44/r44a02.pdf ), valendo a pena citar alguns trechos do excelente relato:

“Naquela tarde de domingo, cidadãs e cidadãos de todas as idades marcharam pela rua e depois fizeram pinturas no chão, para lembrar que durante a Ditadura militar funcionou ali a infame unidade militar que ficou conhecida como DOICODI do II Exército.

“Pois bem: desde o dia seguinte a passeata tornou-se objeto do inquérito policial 609/08, que corre no próprio 36º DP. Os manifestantes teriam danificado espaço público e infringido o artigo 65 da lei 9.605/1998, segundo o qual constitui crime sujeito a pena de até um ano de detenção ‘pichar, grafitar ou por outro meio conspurcar edificação ou monumento urbano’.

“Paulo Fávero, estudante de Artes Plásticas da USP, foi intimado a depor. ‘Os manifestantes pediam para que aquele lugar não continuasse sendo o 36º DP, mas sim um espaço da memória e da resistência’, explicou Fávero (...) ‘Os advogados tiveram acesso ao inquérito antes do meu depoimento e constava lá que eu era suspeito de mandante do ato e que sou representante da Liga Bolchevique Internacionalista (LBI), o que é uma mentira. Eu não sou membro da LBI, e não sei qual seria a relevância se eu fosse da LBI’...

“ (...) No inquérito também são citados Ivan Seixas; Darlan dos Reis, residente no Ceará, que não compareceu ao ato, mas divulgou-o em seu blogue; e o deputado federal Ivan Valente (PSOL-SP), que durante o ato ofereceu testemunho como ex-preso político. O inquérito é instruído com diversas fotografias da manifestação.”

Não escondo que fui o primeiro a propor uma manifestação de protesto diante do DOI-Codi/SP, em 2004, quando quase nada se falava sobre as atrocidades do período ditatorial e o Fórum Permanente dos Presos Políticos de São Paulo tentava recolocar o assunto em evidência no noticiário. A confissão está no meu livro Náufrago da Utopia (Geração Editorial, 2005):

“...aproximando-se o 40º aniversário do golpe militar, sugiro uma iniciativa ousada para o Fórum conseguir, finalmente, espaço na imprensa: um ato público diante da delegacia em que funcionou a Oban, homenageando os companheiros torturados e mortos naquele órgão infame. O Tortura Nunca Mais certamente poderá fornecer a lista dos que foram ali assassinados, Vladimir Herzog e tantos outros. Isto teria impacto e dramaticidade suficientes para atrair muitos jornalistas.”

Não participei do ato de protesto realizado quatro anos depois porque um valor mais alto se alevantou: minha filhinha de quatro meses estava adoentada.

Mas, se até um blogueiro do Ceará está na alça de mira da polícia democrática do Serra, é justo que eu assuma minhas responsabilidades como instigador.

Sempre me sentirei honrado em estar ao lado dos Ivans Seixas e Valente, nas batalhas contra o autoritarismo redivivo.
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