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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

REPRIMIDOS PELA DITADURA TEOCRÁTICA, OS CINEASTAS IRANIANOS RESISTEM!

"
Me mandaram uma carta
pelo correio da manhã
e nessa carta me dizem 
que foi preso meu irmão
e sem compaixão, com grilhões,
pelas ruas o arrastaram, sim!

A carta disse o delito
que Roberto cometeu:
haver apoiado a paralisação
que já  havia terminado.
Se esse é um motivo, 
presa vou também, sargento, sim!"
(Violeta Parra, A Carta)
Foi preso em Teerã o cineasta Mehdi Mahmoudian, militante pelos direitos humanos e coautor do roteiro do filme iraniano Foi Apenas um Acidente, Palma de Ouro em Cannes, inspirado nos seus anos de prisão. 

Motivo da detenção: ter assinado um manifesto contra o ditador Ali Khamenei, o chamado líder supremo da ditadura teocrática iraniana.

Isso não é novidade no Irã: o diretor desse mesmo filme, Jafar Panahi, já passou um longo período na prisão e, se retornar ao Irã, terá de cumprir pena de um ano de prisão.

O Irã acaba de viver uma revolta popular, na qual foram presas 40 mil pessoas e executadas de 20 a 30 mil, por terem se manifestado nas ruas, que se tingiram de sangue. Foram dias de repressão extremada, durante os quais até quem tentasse ajudar os feridos era aprisionado.

Revolta popular, censura de filmes, prisão de artistas nos lembram os anos negros da nossa ditadura militar, na qual houve violência e mortes contra os opositores.
Mehdi Mahmoudian, alvo da repressão teocrática.

Aqui não ocorreram, contudo, tantos óbitos quanto os lá registrados nestas últimas semanas, em razão da atuação bestial do Corpo de Guardas da Revolução Islâmica, que é como  o regime denomina sua polícia.

A ditadura iraniana foi criada em 1979 pelo aiatolá Ruhollah Khomeini, tendo depois se transformado numa teocracia sanguinária.

Faz alguns dias, a União Europeia qualificou, de maneira unânime, esses Guardas da Revolução como movimento terrorista.

Interessante lembrar que o filme Foi Apenas um Acidente poderia ser resumido como o rapto e detenção de um importante torturador do regime iraniano por suas vítimas. Como se os brasileiros torturados no Doi-Codi tivessem capturado seu torturador.

[O filme brasileiro Ação Entre Amigos, do Beto Brant, veio bem antes, em 1998, e tem tema similar: quatro ex-militantes sequestram seu torturador de outrora]

Vale acrescentar que existem, dentro da esquerda brasileira, alguns líderes ou guru engolindo a versão da ditadura iraniana, segundo a qual teriam sido agitadores de fora que provocaram o governo; ou, pior, que muitos dos mortos seriam fiéis ao aiatolá, mártires vitimados pelos agitadores.

Enquanto certos canais de esquerda passam o pano no massacre e justificam a reação do aiatolá Ali Khamenei, mesmo que em 1979, como o segundo nome do governo em importância, este haja perseguido e mesmo assassinado comunistas, socialistas e homossexuais.

Nem o líder da esquerda francesa, Jean-Luc Mélenchon, aprova o regime religioso iraniano, qualificando-o de ditadura islâmica e preconizando um governo laico para o país. 
Os ridículos soldadinhos de chumbo da ditadura iraniana

Outra iniquidade é tantos aqui aceitarem, como prova de progresso (!) no Irã, as pressões e encorajamentos  aos trans para submeterem-se à operação para mudar de sexo. Isto para não falarmos da igualmente minimizada situação inferior das mulheres na sociedade iraniana. 

Fica difícil de entender como certos influenciadores ditos progressistas ignoram o papel importante dos cineastas iranianos na denúncia da ditadura religiosa iraniana, sem querer reconhecer a importância de Jafar Panahi, Mohammad Rasoulof ou Keywan Karimi

Causa, ainda, pasmo  haver pessoas de esquerda apoiando uma ditadura religiosa sangrenta contra uma revolta popular! Os defensores da teoria do domínio do fato e os financiadores do terrorismo de estado iraniano não são farinha do mesmo saco?

Eis um trecho do manifesto assinado por Mehdi Mahmoudian e por artistas, logo depois presos:

O assassinato em massa e sistemático de cidadãos que bravamente foram às ruas para pôr fim a um regime ilegítimo constitui um crime de Estado organizado contra a humanidade. 

O uso de munição real contra civis, a morte de dezenas de milhares, a prisão e perseguição de dezenas de milhares, a agressão aos feridos, a obstrução do atendimento médico e o assassinato de manifestantes feridos representam nada menos que um ataque à segurança nacional do Irã e uma traição ao país.                          .         
                               (por Rui Martins)

terça-feira, 21 de agosto de 2018

RELEMBRANDO APOLLO NATALI: QUANTAS SAUDADES DEIXOU A ERA DAS CARTAS MANUSCRITAS!

Cartas manuscritas de outrora resistem ainda. Que bom.

Presidiárias nas gavetas, saudosas, obstinadas em seus mofos, letras apagadas a exalar saudade, a reviver paixões, a eternizar momentos.    

Compiladas na solidão de um quarto por mãos gratas, apaixonadas ou raivosas, são depositários de vida, de festas passadas, de angústias, de males, de canseiras dos mortais. 

No papel amarelecido, caligrafia desenhada, seus personagens se movem ainda.    

Gemem até agora suas vozes distantes.

Do papel de uma velha carta a pequenos bilhetes, saltam vultos com vida.  

De longos e aflitos manuscritos a amigos, parentes, amores, benfeitores, inimigos, pairam sombras, saudades de um corpo, perfume de uma alma, o bater de um coração. 

Hoje tirei do baú uma de amor, uma de horror, uma de torpor. E até uma de leitor.
.
1) DE HORROR
. 
No palco do papel velho a se desfazer, encenam-se as lágrimas de uma formosa dama, que perdeu seus sete amores. Sete sobrinhos. Aids! 

Primeira página 
(a angústia de uma alma a desabar, encurralada 
pela fatalidade, sem ter para onde correr) 

"Querido amigo, tive mais uma terrível decepção, talvez a mais forte de todas e a de piores conseqüências.  Depois de ter perdido e estar por perder tantas pessoas queridas, joguei-me de corpo e alma no projeto naqueles meus gêmeos univitelinos. Dois sobrinhos uniplacentários, portanto do mesmo material genético. Cientistas americanos e franceses curiosos por um ser soropositivo e outro negativo. 

Através do Ministério da Saúde, em Brasília, foi elaborado um projeto em que grandes novidades sobre aids poderiam aflorar. Material exigido, contatos, combinações de horários para o envio de sangue dos dois, enfim, no dia em que fomos tirar sangue deles, ficamos sabendo que o outro, o sadio, também estava contaminado. Fim do projeto. Sétima pessoa da família com aids. Por Deus, não aguento mais!"
Segunda página

"Querido amigo, que lindo receber tua carta, que bom te saber ainda um pouquinho ligado a mim. Foi como orvalho sobre flores e eu te bendigo por isso. Vê bem, escreveste no dia, talvez até na hora, em que eu estava em uma mesa de operação. Não é incrível? Estou ótima. Das cinzas, renasci. Levou tempo. 
.

A depressão tentou me dobrar depois daqueles acontecimentos terríveis. Agora estou nova, forte, corajosa, quero viver, dividir amor, beleza, vibração. Serei luz para quem precisar. Tenho forte consciência do que significa estar aqui. E não desperdiçar essa maravilhosa chance. Como estás? Nada dizes. Alguma coisa transparece em tua queixa (...nosso íntimo choroso de criança...). Ah, deixa eu te abraçar e te mandar como carinho verdadeiro a minha ternura. Te amo e quero que saibas disso. Quando nos veremos?"
.
2) DE AMOR.
Primeira página 
(um sentimento sepulto no coração) 

"Se Deus tivesse querido que eu fosse feliz, teria me dado uma mulher como ela na juventude, para o amor furor, de perpetuação da espécie. Visitei-a num leito de hospital. Doença grave. Embriagado pelo brilho de seus olhos, minhas palavras vagarosas, de encorajamento, não escritas, o vento levou. E também minha proposta de fé, de encaminhamento a um núcleo espiritual, uma milagrosa cura, talvez." 
Segunda página 
(a resposta dela) 

"Querido amigo, cheguei bem, mas todo o tempo vim pensando em você, nas suas palavras. Você conseguiu dar forças a uma pessoa que já havia perdido a esperança de viver. Uma pessoa sem amor, sem carinho, um ser morto. Sem ânimo, sem esperanças de dias melhores. Mas Deus foi bom e pôs você em meu caminho para dizer coisas lindas e verdadeiras. Obrigada, meu grande amigo. 

Só um bom e querido amigo como você poderia fazer isso. Você não avalia o tanto que lhe quero. Você me foi enviado por Deus. A porta que Deus me abriu foi você, de quem aprendi como viver. Sem rancor, sem revolta e com minha doença. Sigo seus conselhos. Irei onde você disse e seja como Deus quiser. 

Gostaria tanto de ter você sempre junto a mim, para ouvir você falar coisas boas, como naquele dia. Sabe, viajei muito feliz e aliviada. Adorei estar com você naqueles minutos no hospital. Creia-me, esta carta foi escrita com carinho e afeição."
.
3) DE TORPOR  

Foram 45 anos de Estadão daquele meu amigo. O maior pauteiro e repórter que eu já conheci. Jornalista apaixonado, vibrante, incansável. Uma criança hiperativa, de peito aberto. Escrevia para o jornalão e também para o meu serviço na Agência Estado. Por conta própria (o Estadão não pagou a viagem mesmo depois de ter coberto várias Copas do Mundo) entrevistou técnicos e jogadores no mundial do México para saber quais foram considerados os melhores. Telé Santana e Butragrenho. 

As famílias dos muitos amigos se refestelavam durante décadas no seu sítio à beira do rio. O vozerio das crianças povoava os dois casarões, duas piscinas, pomar, balanços, escorregadores. Apenas um amigo do Estadão o visitou no Unicor depois do AVC: eu.
.
.    
Ato contínuo ao AVC, um câncer de pele desfigurou seu rosto. Apenas um amigo ia papear com ele no alpendre de sua casa estilo mediterrâneo, no interior paulista: eu. O intenso perfume das flores do seu jardim não afastava minha tristeza. No velório e na missa, apenas um amigo do Estadão: eu. 

O fotógrafo famoso que o acompanhou nas coberturas de todas as Copas do Mundo de futebol e tanto frequentou com a família sua casa e seu sítio, não deu nem um telefonema ao inaugurar exposição de fotos na sua cidadezinha. Então, eu vi meu amigo chorar. A meu pedido, Julinho Mesquita publicou de graça no Estadão dois grandes anúncios, quinta-feira e domingo, para a venda do seu sítio. 

A carta é de sua esposa. 

"Apóllo, nosso querido amigo, que permaneceu em nosso campo de visão e escuta, nós te agradecemos por essa perseverança, por esse carinho e atenção, aliviando nosso estado de torpor provocado pela tristeza sem remédio que nos invadiu. Você merece e te desejamos que o novo ano te traga muitas alegrias, novas descobertas no mundo espiritual e esperanças sempre fortes e renovadas. Um abraço, grande irmão!"
.
4) DE LEITOR
.
Gênero jornalístico opinativo. É a este interessante status jornalístico que a carta de leitor é erguida por alguns acadêmicos, como o professor da USP José Marques de Melo. Além da carta de leitor, os outros gêneros opinativos, segundo o mesmo acadêmico, são o editorial, a crônica, comentário, coluna, resenha, caricatura. 

Os gêneros informativos, que constituem a matéria-prima básica do jornalismo, são a nota e a notícia. Os interpretativos são a reportagem, a entrevista e o livro-reportagem, segundo o professor. Isso tudo para me gabar de que escrevo esse gênero opinativo, cartas para jornais, desde os 13 anos – estou com 80 – movido pela indignação diante de coisas erradas. 

Com as cartas aos jornais, meu objetivo sempre foi denunciar para provocar uma melhora, uma correção, uma  mudança de situação. Tal é a missão, creio, desses seres especiais chamados jornalistas, em seu trabalho diário. É o impulso sempre a mover o jornalista Ricardo Kotscho, me lembro, em suas humanas reportagens. Informar para transformar, ensina ele. No meu caso, sempre procurei exercer o jornalismo de resultado. O que reporto, o que escrevo, o que edito, tem de contribuir para trazer um resultado, uma solução. Não condene a escuridão, acenda uma luz. 

Em meio à metástase de corrupção no meio político que leva os brasileiros às lágrimas e que empurra o Brasil para o naufrágio, chorei este soneto:. 
O QUE O POVO MAIS QUER
.O que é, o que é, que o povo deseja:
casa, comida, um emprego, é certo,
conta no banco, viver sem aperto,
estar feliz, de ninguém ter inveja,
comer, beber, ficar com os amigos,
filhos na escola, a creche bem perto,
não às dívidas, ficar é esperto,
rezar e rezar, atento aos perigos... 
Mas é só perguntar, e ver e saber,
o que o povo mais quer, e não remedeia,
e diz o que quer, toda hora, hora e meia,
tudo, tudinho, o que ele mais quer
e mostra firmeza, diz, não rodeia:
quer é político ladrão na cadeia!

 .
(sempre às terças-feiras, este blog está republicando as melhores crônicas
do seu inestimável colaborador Apollo Natali, falecido em 31/07/2018)

sábado, 21 de julho de 2018

CONDENAÇÃO DE 23 MANIFESTANTES DE 2013 E 2014 REVELA QUE O PODER ESTÁ CADA VEZ MAIS BRUTAL CONTRA QUEM O QUESTIONA

vladimir safatle
UMA PERSONALIDADE DISTORCIDA
Sininho está entre os 23 condenados
"A ré tem uma personalidade distorcida, voltada ao desrespeito aos Poderes constituídos, o que pode ser constatado, no tocante ao Judiciário, por ter descumprido uma das medidas cautelares impostas pela 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (proibição de frequentar manifestações e protestos), o que acarretou a decretação de sua prisão preventiva... 
.
"Já o desrespeito ao Poder Executivo pode ser evidenciado, p. ex., pelo enfrentamento aos policiais militares nas passeatas e ao Ocupa Cabral (é inacreditável o então governador deste estado e sua família terem ficado com o direito de ir e vir restringido). O desrespeito ao Poder Legislativo, por sua vez, pode ser verificado, p. ex., pelo Ocupa Câmara."

Estes são trechos da sentença do juiz Flavio Itabaiana contra 23 manifestantes que participaram das manifestações de 2013 e 2014, condenando-os a penas de cinco e sete anos de prisão em regime fechado por formação de quadrilha, corrupção de menores, dano qualificado e lesão corporal.

Nenhum policial foi condenado por incitação à violência, por infiltração em grupos de manifestantes com o intuito claro de iniciar confrontos, por lesão corporal contra manifestantes que ficaram cegos ou tiveram ferimentos graves.

Mas há uma condenação de manifestantes que lutavam contra aumentos abusivos de tarifas de transportes, contra o esvaziamento da democracia parlamentar, contra os gastos com a Copa do Mundo e a corrupção.
"Psicologismo mais rasteiro a serviço da servidão"

De toda forma, a pérola escrita pelo referido juiz expõe, de forma didática, a matriz do pensamento autoritário nacional, assim como o caráter meramente formal da democracia que impera em nossas terras.

Ao que se vê, na sociedade que o senhor Itabaiana defende, alguém que desrespeita "Poderes constituídos", que se manifesta em frente à casa de um governador corrupto, que não admite ser limitado em seu direito de se manifestar e protestar só pode ter uma "personalidade distorcida".

Nesse caso, podemos nos perguntar o que seria uma personalidade não distorcida. Alguém para quem os ditos Poderes nunca devem ser criticados de forma aberta e através de manifestações populares? Alguém que faz deferência quando um governador passa na rua?

No entanto, a "personalidade distorcida" em questão é exatamente aquela que a democracia produz, ou deveria produzir. Como dizia Condorcet na aurora da Revolução Francesa: "A função da educação pública é tornar o povo indócil e difícil de governar".

Um povo indócil faz barricada, impede o direito de ir e vir dos governantes, quebra vidraças de banco quando precisa se fazer ouvir, pois sabe que para um poder surdo essa é a única linguagem compreensível.

Esse poder só ouve àquilo que não o coloca em questão, a quem, no fundo, procura reforçá-lo. Ou seja, a capacidade de se colocar contra o poder, de não se submeter à violência estatal e ao seu braço armado, é algo que só existe naqueles que entenderam o que afinal está em jogo quando se fala em emancipação e liberdade social.
"Esses 23 manifestantes são claramente presos políticos"
A democracia nunca viu problemas em aceitar essa indocilidade do povo, pois ela sabe que o poder deve temer o povo que ele julga representar, e não o inverso.

Mas, no Brasil, uma das funções principais do Poder Judiciário é procurar, de todas as formas, criminalizar a revolta, nem que seja utilizando um vocabulário digno do psicologismo mais rasteiro à serviço da servidão.

Esses 23 manifestantes que correm o risco de prisão a partir de agora são claramente presos políticos.

À parte a morte acidental de um cinegrafista por um rojão disparado por manifestantes —fato que merece uma análise isolada—, o único crime em questão é a existência política insubmissa.

Algo que em nossas terras parece ser cada vez mais imperdoável. Mas faz parte de um poder cada vez mais ilegítimo ser cada vez mais brutal contra todos aqueles que efetivamente o questionam. (por Vladimir Safatle)
"Si acaso esto es un motivo/ presa también voy, sargento" (Violeta Parra)

segunda-feira, 30 de abril de 2018

POR QUE OS ABATERAM COMO CÃES, AFINAL? PORQUE HAVIA DE MATAR!

Tenho sangue latino. Por força deste destino, um tango argentino
me vai bem melhor que um  blues. Então, sem desmerecer
as vítimas de 1886 em Chicago e as de 1891 na cidade
francesa de Fourmies, escolhi para reverenciar
as lutas dos trabalhadores o movimento
dos desempregados pela indústria
do salitre nos pampas chilenos,
que culminou no terrível
massacre de Iquique,
no ano de 1907.
A Cantata Santa Maria de Iquique foi uma das culminâncias da Nueva Canción Chilena –movimento musical inspirado por Violeta Parra, que aglutinou artistas como Víctor Jara, Patricio Manns, Isabel Parra, Ángel Parra, Osvaldo Gitano Rodríguez, Tito Fernández e os grupos Quilapayún, Inti-Illimani, Illapu e Cuncumén.

Lançado na segunda metade da década de 1960, durou até o pinochetazo de setembro de 1973. Tinha como características básicas a opção pelas raízes musicais chilenas e o engajamento político. 
Composta em 1969 pelo músico Luis Advis, esta cantata popular (que reconstitui o bestial massacre de 3,6 mil trabalhadores por parte do exército chileno, em 1907) correu mundo, na primorosa interpretação do conjunto Quilapayún.

Lembro-me da emoção com que a ouvi pela primeira vez, em meados dos '70, na rádio Cultura FM. Não parei mais de tocar a gravação meio tosca que fiz, ligeiro no gatilho, ao perceber do que se tratava pela introdução do locutor. 

No início dos '80, quando a nossa ditadura entrava na fase de despotismo esclarecido, a gravadora Copacabana pôde, finalmente, lançar as principais obras dessa corrente, inclusive a cantata. Foi um prato cheio para mim, que simpatizara muito com o governo de Allende, horrorizara-me com o golpe sanguinário de Pinochet e tinha (tenho) um bom amigo chileno, que me contava mil detalhes sobre os artistas e a política do seu país.

Victor Jara sempre me pareceu o Geraldo Vandré chileno, seja pelo estilo das composições, pela empostação de voz que nos deixava uma impressão de total sinceridade, e também pelo fim trágico de ambos (um morto fisicamente, o outro espiritualmente).

Já o Angel Parra me decepcionou, mas não por culpa dele. Como só tomei conhecimento do seu dilacerante disco de 1976, Angel Parra de Chile (ouça-o aqui), quando a Copacabana o lançou, uns cinco anos depois, fiquei com a imagem dele como um homem sofredor e amargurado.

Aí ele veio ao Brasil e eu o conheci numa festa. Brincalhão, pândego, dava em cima de todas as meninas. Perguntei-lhe sobre seu disco do exílio e ele respondeu que eram águas passadas, não adiantava ficar remoendo aqueles dramas para sempre.  No momento, fiquei chocado. Depois, refletindo melhor, dei-lhe razão.

É enorme a minha satisfação em disponibilizar este vídeo e a belíssima letra integral da Cantata Santa Maria de Iquique.

1. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores,
venimos a contar,
aquello que la historia
no quiere recordar.
Paso en el norte grande,
fue Iquique la ciudad,
1907 marco fatalidad,
aya al pampino pobre
mataron por matar,
aya al pampino pobre
mataron por matar.

Seremos los hablantes,
diremos la verdad,
verdad que es muerte amarga
de obreros del salar.

Recuerden nuestra historia
de duelo sin perdón,
por mas que el tiempo pase
no hay nunca que olvidar.

Ahora les pedimos que pongan atención,
ahora les pedimos que pongan atención.
2. Prelúdio instrumental

3. Relato: Si contemplan la pampa y sus rincones
Si contemplan la pampa y sus rincones verán las sequedades del silencio, el suelo sin milagro y oficinas vacías como el último desierto. Y si observan la pampa y la imaginan en tiempos de la industria del salitre, verán a la mujer y al figón mustio, al obrero sin cara, al niño triste. También verán la choza mortecina, la vela que alumbraba su carencia, algunas calaminas por paredes y por lecho los sacos y la tierra. También verán castigos humillantes, un cepo en que fijaban al obrero por días y por días contra el sol, no importa si al final se iba muriendo. La culpa del obrero muchas veces era el dolor ambiguo que mostraba rebelión impotente, una insolencia! La ley del patrón rico es ley sagrada. También verán el pago que les daban; dinero no veían, solo fichas, una por cada día trabajado y aquella era cambiada por comida. Cuidado con comprar en otras partes! De ninguna manera se podía, aunque las cosas fuesen mas baratas; lo había prohibido la oficina. El poder comprador de aquella ficha había ido cambiando con el tiempo, pero el mismo jornal seguían pagando. Ni por nada del mundo un aumento! Si contemplan la pampa y sus rincones, verán las sequedades del silencio. Y si observan la pampa como fuera, sentirán destrozados los lamentos.

4. Canção: El sol en desierto grande
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada,
las casas desposeídas
y el obrero que esperaba,
al sueño que era el olvido,
solo espina postergaba,
el viento en la pampa inmensa
nunca mas se terminara,
dureza de sequedades,
para siempre sequedades,
salitre lluvia bendita,
se volvía la palpada,
la pampa pan de los días,
cementerio y tierra amarga.
Seguía pasando el tiempo
y seguía historia mala
de sequedades,
para siempre, sequedades,
El sol en desierto grande
y la sal que nos quemaba,
el frió en las soledades,
camanchaca y noche larga,
el hambre de piedra seca
y quejidos que escuchaban,
la vida de muerte lenta
y la lagrima soldada.
5. Interlúdio instrumental

6. Relato: Se había acumulado mucho daño
Se había acumulado mucho daño, mucha pobreza, muchas injusticias. Ya no podían mas y las palabras tuvieron que pedir lo que pedían. A fines de 1907 se gestaba la huelga en San Lorenzo y, al mismo tiempo, todos escuchaban un grito que volaba en el desierto. De una a otra oficina, como ráfagas, se oían las protestas del obrero. De una a ora oficina los señores, el rostro indiferente o el desprecio. Que les puede importar la rebeldía de los desposeídos, de los parias? Ya pronto volverán arrepentidos; el hambre los traerá, cabeza agacha. Que hacer entonces, si nadie escucha? Hermano con hermano preguntaban. Es justo lo pedido y es tan poco. Tendremos que perder las esperanzas? Así, con el amor y el sufrimiento, se fueron aunando voluntades. En un solo lugar comprenderían: habia que bajar al puerto grande.

7. Canción: Vamos mujer
Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

Toma mujer, mi manta te abrigara,
ponte al niñito en brazos no llorara.
No llorara, confía, va a sonreír.
Le cantaras un canto, se va a dormir.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.

Largo camino tienes que recorrer,
atravesando cerros, vamos mujer.
Vamos mujer, confía, que hay que llegar,
en la ciudad podremos ver todo el mar.

Dicen que Iquique es grande como un salar,
que hay muchas casas lindas, te gustaran.
Te gustaran, confía, como que hay Dios.
Haya en el puerto todo va a ser mejor.

Que es lo que pasa? Dime, no calles mas.
Vamos mujer, partamos a la ciudad.
Todo será distinto, no hay que dudar.
No hay que dudar, ya vas a ver,
porque en Iquique todos van a entender.

8. Interlúdio instrumental

9. Relato: Del quince al veintiuno
Del 15 al 21 mes de diciembre se hizo el largo viaje por las pendientes. 26.000 bajaron, o tal vez mas, silencios gastados en el salar. Iban bajando ansiosos. Iban llegando los miles de la pampa, los postergados. No mendigaban nada, solo querían respuesta a lo pedido, respuesta limpia. Algunos en Iquique los comprendieron y se unieron a ellos: eran los gremios. Y solidarizaron los carpinteros, los de la maestranza, los carreteros, los pintores y sastres, los jornaleros, lancheros y albañiles, los panaderos, gasfiteros y abasto los cargadores. Gremios de apoyo justo, de gente pobre. Los señores de Iquique tenían miedo. Era mucho pedir ver tanto obrero! El pampino no era hombre cabal, podía ser ladrón, asesinar. Mientras tanto las casas eran cerradas, miraban solamente tras las ventanas. El comercio cerro también sus puertas. Había que cuidarse de tanta bestia! Mejor que los juntaran en algún sitio, si andaban por las calles era un peligro.

10. Interlúdio cantado: se han unido com nosotros
Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos, 
no nos quieren dar la cara. 

Hasta Iquique nos hemos venido, 
pero Iquique nos ve como extraños, 
nos comprenden algunos amigos 
y los otros nos quitan la mano. 

Se han unido con nosotros 
compañeros de esperanza 
y los otros, los mas ricos,  
no nos quieren dar la cara.

11. Relato: El sitio al que los llevaban
El sitio al que los llevaban era una escuela vacía y la escuela se llamaba Santa Maria. Dejaron a los obreros, les dijero con sonrisa que esperarán solo unos días. Los hombres se confiaron, no les faltaba paciencia, ya que habían esperado la vida entera. 7 días esperaron, pero que infierno se vuelven cuando el pan se esta jugando con la muerte! Obrero siempre es peligro, precaverse es necesario. Así, el estado de sitio fue declarado. El aire trajo un anuncio, se oía tambor ausente. Era el día 21 de diciembre.
12. Canção: Soy obrero pampino y soy
Soy obre, soy obrero pampino y soy
tan revie, tan reviejo como el que mas
y comien y comienza a cantar mi voz
con temo, con temores de algo fatal.

Lo que sien,lo que siento en esta ocasión,
lo tendré, lo tendré que comunicar,
algo tri, algo triste va a suceder,
algo horri, algo horrible nos pasara.
El desie, el desierto me ha sido infiel,
solo tie, solo tierra cascada y sal,
tierra amar, tierra amarga de mi dolor,
roca tris, roca triste de sequedad.

Ya no sien, ya no siento mas que mudez
y agoni y agonía de soledad,
solo rui, solo ruinas de ingratitud
y recue, y recuerdos que hacen llorar.

En la vi, en la vida no hay que temer,
lo aprendí, lo aprendido ya con la edad,
pero aden, pero adentro siento un clamor
y que aho, y que ahora me hacen temblar.

Es la mue, es la muerte que surgirá,
galopan, galopando en la oscuridad,
por el mar, por el mar aparecerá,
ya soy vie, ya soy viejo y se que vendrá.
13. Interlúdio instrumental

14. Relato: Nadie diga palabra que llegará
Nadie diga palabra, que llegara un noble militar, un general! El sabrá como hablarles, con el cuidado que trata el caballero a sus lacayos. El general ya llega con mucho boato y muy bien precavido con sus soldados. Las ametralladoras están dispuestas y estratégicamente rodean la escuela. Desde el balcón, les habla con dignidad. Esto es lo que les dice el general: que no sirve de nada tanta comedia; que dejen de inventar tanta miseria; que no entienden deberes, son ignorantes; que perturban el orden, son maleantes; que están contra el país, son traidores; que roban a la patria, son ladrones; que han violado a mujeres, son indignos; que han matado a soldados, son asesinos. Que es mejor que se vayan sin protestar, que aunque pidan y pidan, nada obtendrán. Vayan saliendo entonces de ese lugar, que, si no acatan ordenes, lo sentirán! Desde la escuela, el rucio, obrero ardiente, responde sin vacilar, con voz valiente: "Usted, señor general, no nos entiende. Seguiremos esperando, así nos cueste. Ya no somos animales, ya no rebaños. Levantaremos la mano, el puño en alto, vamos a dar nuevas fuerzas con nuestro ejemplo y el futuro lo sabrá, se lo prometo. Y si quiere amenazar, aquí estoy yo. Dispárele a este obrero al corazón!" El general, que lo escucha, no ha vacilado: con rabia y gesto altanero, le ha disparado. Y el primer disparo es orden para matanza y así comienza el infierno con las descargas.

15. Canção-litânia: Murieron 3.600
Murieron 3.600, uno tras otro.
3.600 mataron, uno tras otro.

La escuela Santa Maria vio sangre obrera,
la sangre que conocía solo miseria.
Serian 3.600 ensordecidos
y fueron 3.600 enmudecidos.

La escuela Santa Maria fue el exterminio
de vida que se moría solo alaridos,
3.600 miradas que se apagaron,
3.600 obreros ¡asesinados!

Un niño juega en la escuela Santa Maria,
si juega a buscar tesoros ¡que encontraría!

16. Canção: A los hombres de la pampa
A los hombres de la pampa, que quisieron protestar,
los mataron como perros, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amigo, es peligroso.
Ser pobre amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.

Las mujeres de la pampa se pusieron a llorar
y también las matarían, porque había que matar.
No hay que ser pobre, amiga, es peligroso.
Ser pobre amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.
No hay que llorar, amiga, es peligroso.

Y a los niños de la pampa, que miraban, nada mas.
También a ellos los mataron, porque había que matar.
No hay que ser pobre, hijito, es peligroso.
Ser pobre, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.
No hay ni que nacer, hijito, es peligroso.

Donde están los asesinos, que mataron por matar?
Lo juramos por la tierra, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la vida, los tendremos que encontrar!
Lo juramos por la muerte, los tendremos que encontrar!
Lo juramos, compañeros, ese día llegara!

17. Pregão: Señoras y señores
Señoras y señores, aquí termina 
la historia de la escuela Santa Maria. 

E ahora, con respeto, les pediría 
que escuchen la canción de despedida.

18. Canção final: Ustedes que ya escucharon
Ustedes que ya escucharon 
la historia que se contó,
no sigan allí sentados, 
pensando que ya paso.

No basta solo el recuerdo, 
el canto no bastara.
No basta solo el lamento, 
miremos la realidad.

Quizás mañana o pasado 
o bien en un tiempo,
la historia que han escuchado
de nuevo sucederá.

Es chile un país tan largo, 
mil cosas pueden pasar
si es que no nos preparamos, 
resueltos para luchar.

Tenemos razones puras, 
tenemos porque pelear,
tenemos las manos duras, 
tenemos porque ganar.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.
Luchemos por los derechos 
que todos deben tener.
Luchemos por lo que es nuestro, 
que nadie vas a ceder.

No hay que ser pobre, amigo, es peligroso.
Ser pobre, amigo, es peligroso. 
No hay ni que hablar, amigo, es peligroso.
Hablar, amigo, es peligroso.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!
La tierra será de todos,
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos,
jamás lo podrán lograr! 
La tierra será de todos, 
también será nuestro el mar,
justicia habrá para todos 
y habrá también libertad.

Luchemos por los derechos 
que todos deben tener,
luchemos por lo que es nuestro,
que nadie vas a de ser.

Unámonos como hermanos, 
que nadie nos vencerá.
Si quieren esclavizarnos, 
jamás lo podrán lograr!

Si quieren esclavizarnos
jamás lo podrán lograr!
si quieren esclavizarnos
jamás lo podrán lograr!
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