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quarta-feira, 23 de agosto de 2023

CRACOLÂNDIA E O CAPITALISMO APODRECIDO

 

A imagem de uma multidão de zumbis nas praças e calçadas de lojas e de prédios, fechados ou não, tem algo em comum: a negatividade da relação social capitalista.  

As lojas estão fechadas pela depressão capitalista aliada ao novo método de vendas eletrônicas com entregas de mercadorias por domicílio; já a multidão de viciados tornados dependentes do crack é o paraíso dos vendedores dessa mercadoria maldita, uma das poucas em ascensão de venda e consumo. 

É a mercadoria dinheiro o objeto primeiro das duas constatações. No caso das lojas a falta de compradores sob tal método lojista; no caso da cracolândia a cobiça dos traficantes em ganhar dinheiro com a miséria alheia. 

A motivação da produção de cocaína, da qual seus produtores extraem um derivado mais barato e maléfico como o crack, são os exorbitantes lucros em dinheiro gerados aos traficantes de drogas e fonte da eterna corrupção econômico-político-policial que circula nessa operação mercadológica. 

A tragédia social causada pelas drogas jamais poderá ser eficazmente debelada pela criminalização e atuação policial preventiva e punitiva justamente porque o fetichismo da mercadoria impele todo um conjunto de segmentos que se beneficia dessa forma de escravização humana pela dependência de entorpecentes do mesmo modo que a humanidade se escraviza por viver sob uma relação social fetichista da qual se torna dependente e escravizada sem sequer conhecer a negatividade que lhe é imanente. 

As pessoas adoram o dinheiro, que lhes traz poder e comodidade quando acumulado, mas sequer o conhecem na sua essência constitutiva. O toxicômano é enganado pelo torpor do êxtase das drogas que o torna quimicamente dependente sem que conheça ou queira conhecer os mecanismos deletérios no seu organismo provocado perlo consumo delas.  

Ambas são mercadorias, a mercadoria droga e a droga mercadoria.  

A farmácia, invadida pelos drogados da cracolândia recentemente em São Paulo, vende os remédios que curam as doenças sem perceber que a mercadoria remédio é também uma droga no sentido econômico-fetichista da palavra e tão nociva quanto a substância nela contida que visa curar outras doenças. 

Quando nos debruçamos sobre o período da lei seca nos Estados Unidos, que visava proibir totalmente o uso de álcool pela população, o que se viu foi o crescimento da criminalidade e do crime organizado personificados na pessoa do lendário Al Capone, um mafioso novaiorquino filho de  imigrantes italianos.  

A conclusão a que se pode chegar é que o combate às drogas somente seria realmente eficaz se vivêssemos numa sociedade sem a mediação ilusoriamente tentadora, ou fetichista, do dinheiro e na qual ocorresse a justiça social e o exemplo para os jovens de valores morais elevados, o que evidentemente não ocorre na sociedade do capital. 

O comércio de drogas encontra na pobreza juvenil da periferia o seu combustível de propagação, seja pela oferta de dinheiro fácil, os famosos aviões do tráfico, ou pela fuga de uma realidade negativa que não quer reproduzir graças ao exemplo vivenciado ao ver seu pai trabalhador chegar à velhice após anos de trabalho assalariado e carente de tudo.  

Para os jovens é difícil acreditar na possibilidade de justiça social na sociedade do capital graças à discrepância de capacidade de consumo havida entre os filhos da classe média alta, bem remunerada, e a grande maioria da população.  

Para ele é desestimulante continuar a ter uma vida de carência daquilo que seria o básico de uma existência minimamente sustentável: boa moradia, boa alimentação, segurança contra uma violência urbana que só cresce justamente nos segmentos sociais mais empobrecidos, boa assistência médica e educacional, sistema de transporte coletivo eficaz e confiança num futuro promissor.      

Sob o capital, a autoridade instituída é constantemente questionada pela juventude pelo mau exemplo que representam. Em tais condições morais, éticas e existenciais a fuga para o consumo de drogas ou possibilidade de descolar uma grana fácil, mesmo com a sua comercialização criminalizada, é um forte atrativo para quem é carente de tudo.  

A pergunta que se coloca diante de tudo isso é: alguém produziria e comercializaria drogas somente para enlouquecer e receber o escárnio social da comunidade se não fosse o interesse em acumular dinheiro que advém de tal produção e comercialização?  

O traficante que distribui dinheiro na comunidade sofrida para protegê-lo teria o aplauso e poder que tem sem o dito cujo?   

É evidente que não, e esse é mais um exemplo simples e prático da negatividade intrínseca à relação social mediada pelo valor, que pode ser ampliado para todas as outras áreas do crime, como aquele original que é a descriminalizada apropriação indébita da riqueza material - tornada abstrata, concomitantemente - socialmente produzida e que ora se encontra na sua fase histórica de final de vida.  

Se quisermos acabar com a cracolândia teremos que primeiro superar o modo de relação social sob a forma valor, e tudo começa pela negação das categorias capitalistas sob as quais se ergue todo o edifício fantasmagórico de uma sociedade coletivamente tão doente quanto aqueles pobres coitados que se viciaram e que se tornaram zumbis perambulantes que expõem as chagas sociais que todo o establishment não quer enxergar.  

Todos nós somos zumbis que acordam pelas manhãs para ganhar dinheiro sem conhecer a sua essência constitutiva tóxica; os drogados da Cracolândia são apenas uma das partes visíveis de um sistema apodrecido. (por Dalton Rosado) 




sábado, 27 de maio de 2017

A CONEXÃO DA CRACOLÂNDIA COM O REINO DA CORRUPÇÃO

"Nada é permanente nesse mundo cruel. Nem
mesmo os nossos problemas" (Charlie Chaplin)
.
Há 22 anos moro no mesmo lugar, sempre fazendo o mesmo percurso de casa até o escritório. Assim, tendo de passar sempre pelo mesmo semáforo, pude acompanhar a evolução (ou involução) daquele menino de 14 anos, saudável, que lavava pára-brisas para ganhar alguns trocados. 

Papeávamos. Éramos antagonistas futebolísticos, então ele sempre zoava comigo quando o Ceará (meu time) perdia, recebendo o troco nas derrotas do Fortaleza. perdia. Tínhamos uma relação cordial.

Com tempo ele foi decaindo: os dentes, antes sadios, ficaram cheios de cáries; a roupa, cada vez mais suja e rota; a barba crescendo de modo descuidado; e o seu ar já não era alegre, mas sombrio. O crack fez dele um zumbi ambulante, desinteressado pelo que acontecia ao redor, esquecido do futebol.

Assisti, impotente, à sua decadência física e mental, até o dia em que não mais o vi no semáforo. Havia sido assassinado por um traficante, por não poder pagar-lhe o que devia.

Esta história é real e se repete com um incontável número de meninos e meninas jogados(as) na rua por um sistema segregacionista que os marginaliza. É-lhes introjetado na mente, subliminar ou diretamente, o repúdio a uma ordem social injusta, cuja injustiça, contudo, eles não compreendem, acabando por internalizar uma culpa pessoal que na verdade não têm. Isso os leva a buscar na droga o prazer e a liberdade que jamais tiveram;  e se tornam cada vez mais escravos do vício. Uma armadilha social.
O que assusta mais, a ficção dos filmes de zumbis...

Nós todos somos culpados pela morte do menino do semáforo, tendo o traficante que o matou sido um instrumento da nossa indiferença com relação à injustiça social sistêmica. A indiferença que fabricou os dois personagens. 

Quem é mais criminoso? O grande empresário do tipo Joesley Batista, que movimenta bilhões de dólares graças ao meteórico enriquecimento obtido com o desvio de verbas que deveriam ser utilizadas em benefício da população, em falcatruas facilitadas pela omissão do Estado e intermediada por políticos? Ou o favelado que, para escapar da miséria ambiente, foi atrás do lucro fácil (e perigoso) do tráfico de drogas?

Todos esses criminosos, tanto os de colarinho branco e jatinho de milhões de dólares quanto os de fuzil AR-15 nas mãos dentro do gueto, são gerados no ventre da serpente capitalista. O móvel da corrupção praticada por empresários em conluio com políticos e da corrupção de menores e adultos pelas drogas é o mesmo: o dinheiro ou poder (que, finalmente, se traduz em dinheiro e vice-versa). 

A superação da forma-mercadoria, célula germinal de toda a corrupção social (mas que parece, aos olhos ingênuos e desavisados, algo tão natural como o ato de respirar), é o único modo de acabarmos com a produção e comércio internacional cada vez mais intenso das drogas, que nenhuma polícia é capaz de conter (lembram-se da escalada do gangsterismo durante a década de 1930, quando a lei seca vigorava nos Estados Unidos?).
...ou a realidade dos expulsos da cracolândia se arrastando pelas ruas paulistanas?

O mesmo raciocínio se aplica, sem tirar nem por, à produção e o comércio de armas. Elas são fabricadas, principalmente nas economias desenvolvidas, porque o capitalismo não pode desprezar qualquer possibilidade de lucro (ainda mais agora, quando o dito cujo se torna escasso!). Até porque, desde o seu surgimento, o capitalismo se impôs à base da violência, da qual é concomitantemente causa e efeito, o que leva à existência de armas cada vez mais sofisticadas. 

A grande indústria bélica obtém seu lucro sangrento causando a morte, geralmente instantânea, de tanta e tanta gente; e as drogas, matando lentamente.  

Vide o que ocorre com políticos e fundamentalistas africanos e árabes, a digladiarem-se entre si na busca de um poder miserável diante de um povo desesperado, já que tornado supérfluo pelo capitalismo (não produz valor e, portanto, não pode consumir valor em qualquer quantidade que seja, mas vive sob a égide do capital). Ou seja, está condenado à morte caso o próprio capitalismo não morra antes).
As batalhas contra os zumbis de mentirinha do cinema...
Este é o caldo de cultura do fundamentalismo religioso arcaico: a incompreensão de qual seja a causa da miséria social. E é por aí também que podemos entender por que crescem tanto as seitas religiosas charlatãs, que fazem da miséria extrema de suas vítimas uma fonte de riqueza para si.      

A produção das mercadorias armas e drogas obedecem a um mesmo critério teleológico (a obtenção de valor, dinheiro, lucro), ainda que se queira separar uma coisa da outra. A cracolândia é uma de suas consequências mais chocantes.
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O INFERNO PAULISTANO
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A existência de verdadeiros guetos de consumidores e traficantes de drogas a céu aberto na cidade de São Paulo reflete um dos muitos sintomas de degradação social na Meca do capitalismo na América do Sul. 

As tragédias sociais existentes em São Paulo têm como causa a mesma lógica do capitalismo que a transformou no maior centro mercantil da América do Sul. Isto explica, p. ex., a existência da favela Heliópolis, tida como uma das maiores do continente sul-americano (120.000 pessoas habitam num emaranhado de vielas e construções toscas fora do padrão recomendável de habitabilidade), bem demonstrando o que é o capitalismo: uma ilha de riqueza cercada por um oceano de pobreza. 
...ou o pau comendo adoidado nas ruas de São Paulo?
Entretanto, os governantes do estado capitalista, submissos à lógica destrutiva da vida social a que servem, jamais podem discutir com seriedade, sem a hipocrisia costumeira, o que está na base desse problema social. Afinal, eles não podem morder a mão do dono (parafraseando Celso Lungaretti, ao ironizar o feitiço virando contra o feiticeiro Reinaldo Azevedo).

Assim, por não poderem debelar as causas do problema, atuam nos seus efeitos, amontoando doentes e criminosos numa mesma vala comum, como se fossem todos párias sociais. 

Episódio parecido, aliás, ocorreu quando o corvo Carlos Lacerda era governador do estado da Guanabara: ele mandou afogar mendigos, por não suportar vê-los enfeiando a cidade. O princípio é o mesmo, embora os aprendizes de feiticeiros atuais ainda não estejam adotando a solução final, talvez por lembrarem que Lacerda acabou se dando mal (a imprensa descobriu).

Devemos insistir na necessidade de discussão do modelo social sob o qual vivemos e que é a causa de todos os males, ao invés de ocultarmos os problemas debaixo do tapete, adotando soluções paliativas que nunca resolvem satisfatoriamente qualquer problema.

Há um aumento redobrado dos antigos problemas sociais, que agora explodem de forma conjunta e sob os mais variados aspectos: cracolândia, redução de direitos trabalhistas e previdenciários, desemprego estrutural, predação ecológica, aumento da violência urbana, corrupção com o dinheiro dito público, falência dos serviços públicos de educação e saúde, crise no topo das instituições do Estado, falência das contas públicas, favelização crescente, etc.
Por Dalton Rosado

Já estamos assistindo, em plena capital do País, a chocantes enfrentamentos de populares com o aparato repressivo, paradoxalmente composto composto por pessoas da mesma origem de classe (afinal os militares são irmãos, primos, namorados, ou amigos dos que protestam). 

Este quadro de deterioração social cada vez mais acentuada e acelerada somente poderá ser revertido com a superação e o fim daquilo que lhe origina: a mediação social feita pelo dinheiro, que se tornou criminosa, obsoleta e inviável.

domingo, 1 de abril de 2012

DISSECANDO UM MOSTRENGO

Uma frase célebre de Hermann Goering, o segundo personagem mais poderoso da Alemanha nazista: "Quando ouço falar em cultura, quero logo puxar meu revólver".

Sabe-se lá o motivo de rejeição tão visceral, aparentemente maior ainda que a dos nazistas comuns --todos eles, afinal, eram avessos à arte, ao pensamento e às luzes do espírito, preferindo os preconceitos mais tacanhos e as fantasias medievais.

O certo é que todos temos calos doloridos.

Um dos meus é a tutela imposta a adultos. Era-me extremamente penoso ter de suportar o ambiente sufocante da ditadura militar, depois de tê-la enfrentado de peito aberto, mas sem sucesso.

Anos intermináveis em que  otoridades  as mais obtusas decidiam aquilo que poderíamos fazer, o que falar e o que calar, quais filmes nos seria permitido ver, quais músicas ouvir, etc.

Um ridículo processo a que respondi na Justiça Civil --depois dos quatro em auditorias militares por ter pegado em armas contra a tirania-- porque um promotor asnático, além de ser fiel servidor do arbítrio, não entendia nada de jornalismo: responsabilizou-me por um anúncio publicitário e por um conto com autoria identificada, publicados numa revista da qual eu era redator.

Como num enredo kafkiano, não bastou eu explicar, logo na primeira audiência, que ambos não tinham nada a ver com minhas atribuições profissionais. Tive de suportar umas cinco audiências intragáveis. Para piorar, eu e o dono da revista éramos convocados para as 13 horas mas a palhaçada ficava sempre para o final da tarde, pois os processos com réus presos tinham preferência.

E a própria sensação de insegurança nos reduzia à condição de crianças. Sabíamo-nos o tempo todo espionados, vigiados, discriminados.

Não foi surpresa nenhuma haver encontrado depois, nos arquivos oficiais, relatório da visita periódica que faziam ao edifício no qual eu morava, para indagar de zelador e porteiros quais eram meus hábitos (e os pobres coitados, tamanha era a sua paúra, nem ousaram me contar...).

Resumindo, depois das torturas e da prisão, eu sofria a cada dia com as restrições que nos eram impostas a todos e com a percepção de ser, individualmente,  persona non grata, com os mastins permanentemente farejando à cata de um pretexto para me estraçalharem.

Então, quando ouço falar em aberrações autoritárias como a Lei Seca, quero logo puxar meu revólver retórico. Agora, pelo menos, posso protestar contra elas, fazendo soar bem alta minha indignação.

E ela é tamanha que nem sequer me ocorre dissecar o mostrengo, como fez, brilhantemente, o veterano colega Jânio de Freitas em sua coluna deste domingo, Elitismo autoritário.

Trata-se, por isso mesmo, de um perfeito complemento para meu artigo STJ fulmina a Lei Seca. Bravíssimo!!!. Daí reproduzi-lo na íntegra e recomendá-lo enfaticamente: 
"A Lei Seca veio embaralhar, de uma parte, a combinação bebedeira/automóvel e, de outra, o autoritarismo.
Para começar, é uma lei elitista típica do Brasil. Quem dispõe de mordomias por posses próprias ou pagas pelo Tesouro Nacional, como é o caso dos congressistas que impuseram a lei, está livre para beber à vontade, a qualquer hora, e transpor qualquer blitz. Suas posses ou o dinheiro oficial lhe proporcionam o serviçal conveniente para as circunstâncias: o motorista.

A lei é, portanto, contra a classe média. Essa que beberica como uma pequena distensão, como um lazer à falta de melhores.

Quem bebe um ou dois copos de vinho em várias horas de uma festa ou de um jantar, por exemplo, compõe a imensa maioria dos atingidos pelo rigor arbitrário da lei. Mas, como norma, não são os que causam acidentes por terem ingerido alguma porção alcoólica. Em contrapartida, a probabilidade de deter os que perdem as condições de dirigir é insignificante. Um êxito apenas ocasional, dada a forçosa desproporção entre as blitze possíveis e a área urbana livre para os embriagados trafegarem sem encontrar-se com a malha fina.
 A lei é elitista ainda na sua destinação. Inspirou-se e pretende (em vão, como se tem visto) prevenir acidentes em que motoristas alcoolizados têm feito vítimas chocantes, essencialmente, por sua condição social. E pelos bairros onde mais ocorrem tais acidentes. A frustrada ação repressora o comprova o elitismo: as blitze não são feitas na periferia ou subúrbios, onde -os costumes sugerem- seria farta a coleta de desrespeito ao índice exíguo da lei. Como se deduz do volumoso noticiário de acidentes naquelas áreas. Ou seja, só os bacanas não devem matar e matar-se com seus carros.
A lei confirma o seu elitismo também por outra via trágica: os acidentes terríveis com ônibus intermunicipais e interestaduais estão todos os dias na TV, com dezenas e mais dezenas de mortos, feridos e incapacitados. Os acidentes com carretas e caminhões não chocam menos. Mas a Lei Seca não lhes concedeu sequer a menor menção.

É indispensável que os motoristas de ônibus sejam submetidos ao bafômetro antes da partida. E outra vez ao sair das paradas intermediárias. Os motoristas de carretas e caminhões provocaram a proibição de venda de bebida na beira das estradas, mas nem a restrição é cumprida, nem é suficiente para restringir a guarda da bebida. E nessas omissões da autoridade estão as causas da sucessão de desastres horríveis com veículos pesados. Sem providências contrárias.

Está mais do que provada a ineficácia do autoritarismo como sistema socialmente educativo. O que pode mudar as condutas sociais é a persuasão. A campanha da camisinha é exemplo excelente: persuasiva, por impossibilidade de ser impositiva, pegou com rapidez e criou novo costume. O abandono do cigarro por milhões de fumantes convictos dá outro exemplo: é fácil ouvir que a rejeição veio do conhecimento dos efeitos maléficos, martelados pelos médicos, e não das proibições de fumar ali ou acolá. A maior parte das proibições decorreu já da rejeição que se difundia.
A modalidade da Lei Seca se explica muito por sua origem: a bancada evangélica. A Ação Católica e outras organizações religiosas, dedicadas à influência política, não retornaram ao Congresso e à política na volta da democracia. Com penetração crescente, porém, os novos evangélicos assumiram seus papéis. Extremados no conservadorismo, só admitem leis e regras sujeitas às suas concepções. Nisso, mesmo a qualidade do fazer não parece importar. A Lei Seca e, já andando pelo Congresso, seu extremismo final saíram dessa usina.
A lei elitista anti-etilista é um produto do autoritarismo que não crê em educação social e em formação de civilidade".

quinta-feira, 29 de março de 2012

STJ FULMINA A LEI SECA: BRAVÍSSIMO!!!

Finalmente, uma decisão memorável do Superior Tribunal de Justiça, ao esvaziar, na prática, a famigerada  Lei Seca.

Tão patética quanto a que fez a fortuna dos gangstêres de Chicago, Lei Seca  do volante parte de um princípio inaceitável numa democracia: o de que o cidadão é culpado até que prove sua inocência.

Qualquer motorista era laçado a esmo (na contramão do princípio da igualdade de todos perante a lei) e constrangido à humilhação do bafômetro.

Se, exercendo suas prerrogativas constitucionais, não aceitasse produzir provas contra si mesmo, ainda assim poderia ser processado, condenado, preso, com base nos depoimentos imprecisos de: 
  • testemunhas (nas situações normais sempre há poucas: por comodismo ou por principio, a grande maioria prefere viver e deixar viver); 
  • guardas de trânsito (otoridades  que, quando desobedecidas, ficam furibundas e tudo fazem para retaliar os autores do  crime  de lesa majestade, donde o STJ agiu certíssimo ao cortar-lhes as asas); e 
  • médicos (cujo  exame visual  nada mais é do que um palpite, além de tenderem a, quando a serviço da Polícia, vestirem a camisa de repressores com o ardor de um Harry Shibata).
Crianças são tuteladas.

Adultos são donos do seu nariz.

Que se puna com máximo rigor aqueles que TIVEREM COMETIDO UM CRIME.

Que não se estupre os direitos de ninguém por mera presunção de que EVENTUALMENTE COMETERÁ UM CRIME.

A ditadura acabou em 1985.

O vezo autoritário persiste até hoje e tem de ser extirpado pela raíz, caso contrário crescerá cada vez mais, como erva daninha que é.

Obs.: a faxina só ficará completa quando as blitzes forem totalmente extintas, com os motoristas deixando de ser aleatoriamente pinçados para receber multas e aumentar a pontuação. Mas, o primeiro passo foi dado.
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