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terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

LEONARDO SAKAMOTO: "AS MARRETADAS DO PADRE JÚLIO LANCELLOTI CONSTROEM UM FUTURO MENOS SOMBRIO PARA SP"

A
s imagens do padre Júlio Lancellotti derrubando, nesta 3ª feira (2), pedras colocadas pela Prefeitura de São Paulo para impedir que pessoas em situação de rua pudessem descansar na Zona Leste da capital viralizaram nas redes sociais. 

Se, por um lado, elas demonstram o pior da insensibilidade e do elitismo de nossa maior cidade, por outro deixam claro que a resistência segue viva, derrubando pedras embaixo do viaduto a marretadas, nas palavras do próprio coordenador da Pastoral do Povo de Rua. 

A administração municipal disse à Folha de S. Paulo que exonerou o responsável pela obra, sem dizer quem foi o gênio, e começou a retirada das pedras. Em última instância, contudo, o verdadeiro responsável não é anônimo: estava assistindo a Palmeiras e Santos, numa aglomerada arquibancada do estádio do Maracanã, neste sábado de pandemia. 

São Paulo sobrepõe preocupações estéticas aos princípios éticos no trato com a coisa pública. E, portanto, a zeladoria de um lugar acaba se tornando mais relevante do que o cuidado com os cidadãos mais vulneráveis que lá estão. Bruno Covas não foi o primeiro e não será o último. 

Em julho de 2017, após a capital paulista ter registrado a madrugada mais fria do ano até então, equipes da gestão João Doria lavaram a Praça da Sé com jatos de água, molhando as pessoas em situação de rua que dormiam por lá, além de seus cobertores e pertences. 

Em 2014, a gestão Fernando Haddad implementou paralelepípedos ao redor das pilastras do metrô na Zona Norte de São Paulo, local onde pessoas em situação de rua costumavam dormir. 

Tanto os prefeitos Gilberto Kassab quanto José Serra ergueram estruturas bisonhas que ficaram conhecidas como
rampas antimendigo, impedindo que seres humanos por lá descansassem. 

O padre Júlio é uma pedra no sapato de muita gente. Eu, que não creio, dou graças a Deus por ele existir. 

Seu trabalho incansável, muitas vezes realizado sob ameaça de morte, me lembra uma citação atribuída a outro gigante, Hélder Câmara, arcebispo de Olinda e Recife, que lutou contra a ditadura e esteve sempre ao lado dos mais pobres: "Se falo dos famintos, todos me chamam de cristão, mas se falo das causas da fome, me chamam de comunista". (um artigo de Leonardo Sakamoto)
TOQUE DO EDITOR – Se as únicas opções dadas aos mendigos (detesto eufemismos, a rua não é situação para ninguém!!!) forem a de se deitar sobre pedras ou sair em busca de um lugar onde não tenham de imitar faquires, é óbvio que o padre Júlio fez muito bem.

Mas, tendo morado durante duas décadas ao lado de um vão do minhocão no qual os mendigos se concentravam por causa da distribuição de alimentos ali realizada pela pastoral, nunca me conformei em ver seres humanos abandonados para irem morrendo aos poucos, em nome do direito que eles teriam de dispor como bem entendessem de suas sofridas existências.
Cracolândia, no centro velho de Sampa: nela os viciados exercem o direito de agonizarem em público.
O exercício de tal direito prevalecia sobre o nosso, os moradores da região, de não termos nossas crianças expostas a cenas degradantes como as de os mendigos consumirem crack, transarem e defecarem em público; agredirem quem lá residia ou por lá passava (sim, existiam os doidos furiosos que perseguiam as pessoas pacíficas com porretes!); roubarem roupas nos varais, etc. 

Eu jamais me conformei com tal solução, de as autoridades lavarem as mãos, permitindo que eles vivessem e morressem onde lhes desse na telha, sem real empenho em recolhê-los, alimentá-los e tratá-los. 

Era óbvio que, se os mendigos detestavam tanto os recolhimentos à sua disposição, era porque lá sofriam espancamentos e maus tratos tais que, a neles permaneceram, preferiam sujeitar-se ao frio, à chuva, à crueldade humana (como a dos pivetes que lhes tacavam fogo) e a longas caminhadas diárias até pontos de distribuição de alimentos.
Quando a polícia os expulsava, saíam arrastando-se como zumbis pelas ruas da cidade, mas logo voltavam.
Mas, a responsabilidade do Estado, de dar-lhes tratamento de gente e não de animais nos canis públicos, continuava existindo. E, porque tal omissão era tolerada pelas pastorais por motivos ideológicos, a coisa degenerou em cracolândias e chacinas.

Tudo errado. E a cultura da insensibilidade preparou psicologicamente os cidadãos para pouco se revoltarem diante de uma omissão maior ainda, a do genocida governo federal (bem como de aprendizes de genocídio estaduais e municipais) diante das mortes causadas pela pandemia.

As marretadas devem mesmo ser dadas. Mas, na direção dos verdadeiros responsáveis por toda essa desumanidade com a qual convivemos dia após dia! (por Celso Lungaretti) 

domingo, 24 de janeiro de 2010

A SÃO PAULO, COM AMOR E DOR

"São oito milhões de habitantes
De todo canto em ação
Que se agridem cortesmente
Morrendo a todo vapor
E amando com todo ódio
Se odeiam com todo amor

São oito milhões de habitantes
Aglomerada solidão
Por mil chaminés e carros
Caseados à prestação
Porém com todo defeito
Te carrego no meu peito
São, São Paulo
Meu amor
São, São Paulo
Quanta dor"
(Tom Zé)

A primeira lembrança que tenho de São Paulo é o quarto centenário, em 1954.

Eu estava com três anos e meus pais me levaram na festa que teve lugar no Viaduto do Chá, à noite.

Uma multidão como eu nunca vira e as luzes poderosas, refletidas nos aviõezinhos de papel laminado que jorravam do alto dos edifícios, ficaram gravadas para sempre na minha memória.

E eu soube que vivia numa cidade chamada São Paulo. Que essa cidade fazia 400 anos. E que era muito mais imponente naquele local das festividades do que onde eu residia.

Fui captando melhor esse contraste à medida que crescia.

Morava na Mooca, bairro operário que gravitava em torno de um cotonifício gigantesco, o Crespi, tomando um quarteirão inteiro.

Além disso, havia muitas outras fabriquetas. E na Mooca moravam, principalmente, os operários dessas indústrias e os que nelas haviam trabalhado. Gente simples e austera.

Ao centro eu ia com minha mãe uma vez por mês, pois, naquele tempo, pagava-se o aluguel no escritório do locador.

Bom para mim, que via cenários diferentes e era premiado com uma guloseima do Café Moka, na Praça da Sé.

Sentia-me achatado pelos arranha-céus e estranhava todos aqueles homens de terno passando apressados. Parecia estar num mundo diferente, de grandes lojas, vitrines enfeitadas e movimento incessante.

Aquilo me parecia o progresso, a modernidade, desvalorizando, aos meus olhos de menino, o bairro pobre do meu dia a dia.

O chamado centro histórico de São Paulo, entre as praças da Sé e da República, concentrava comércio, entretenimento e bancos, principalmente.

E a proximidade do Palácio do Governo, nos Campos Elísios, ajudava a manter essa região como a principal da cidade.

Mas, o Palácio se foi para o Morumbi, em 1965.

Os ricaços, aos poucos, mudaram dos arredores. E, a partir da inauguração do Minhocão, em 1971, os Campos Elísios e seu entorno entraram em decadência acelerada.

O comércio moveleiro de alto padrão também migrou da rua das Palmeiras, que ficava ao lado.

Como na agonia do Império Romano, os bárbaros foram tomando os territórios ao redor do centro histórico, cujo brilho só perdurou por um tempinho mais.

A partir da inauguração do Metrô, em 1974, o distrito da Sé se definiu como zona de passagem, atravessada por centenas de milhares de pessoas.

Seu comércio chique debandou e as lojas se adequaram ao perfil de uma clientela mais pobre e menos exigente.

Nos meus quase 60 anos de vida, presenciei a fase derradeira do esplendor do centro histórico e acompanhei cada momento de sua degradação.

Mais ainda do que ao Caetano, alguma coisa acontecia no meu coração ao cruzar a Ipiranga com a avenida São João.

É difícil transmitir, aos que nela já nasceram, a diferença entre a vida antes e depois da sociedade de consumo. Algo assim como interagirmos antes com pessoas, mesmo que não as melhores possíveis, e depois com meros robôs (o homo economicus em sua plenitude...).

Como disse o Tom Zé, São Paulo tinha todo defeito, era uma metrópole em que habitantes vindos de todo canto se agrediam cortesmente, correndo e morrendo a todo vapor, na perseguição frenética da grana.

Mas, ao falar em “aglomerada solidão”, ele exagerou. Pois, a indiferença, a impessoalidade, a falta de calor humano iriam intensificar-se mesmo é de 1978 em diante, ou seja, depois que ele compôs sua música célebre sobre a cidade.

E a região da Avenida Paulista, atual cartão postal de São Paulo, não substitui o centro histórico de outrora num aspecto fundamental: expressa a sociedade motorizada, em que pedestres ficam espremidos e os automóveis reinam imponentes.

Os bancos e os escritórios de grandes empresas agora estão na Paulista, tramando e implementando a desumanização, como sempre.

Quanto ao comércio e ao entretenimento, foram confinados nos shopping centers.

A sensação que me dá é de ter sido expulso das ruas e das praças, que não pertencem mais ao povo, assim como o céu deixou de ser do condor.

Ao mesmo tempo, em tardia autocrítica, percebo que a existência mais aprazível para seres humanos nunca esteve no Centrão endinheirado, mas sim na Mooca humilde da minha infância.

E, hoje, nos bairros distantes onde os vizinhos ainda se falam e conhecem, onde as crianças ainda brincam nas ruas e onde as pessoas ainda fazem parte de uma comunidade, não de um condomínio.
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