"Lula derrotou a greve [da Educação Federal], mas junto condenou seu próprio governo ao fiasco. Depois de suas ações, nunca mais poderá dizer que defende a educação ou os trabalhadores.
Ao pisar na garganta de um setor historicamente aliado, enquanto valorizou os bolsonaristas, o presidente mostrou seu desprezo pelos aliados e seu delírio de onipotência.
A conta já chegará nas eleições de outubro deste ano." (David Coelho, editor deste blog e um dos líderes da greve,neste post)
Foi alentadora a retomada das palestras que eu fazia com muita frequência no período 2006-2012 e depois foram se tornando mais escassas, até acabarem de vez com a chegada da pandemia.
Durante quase quatro horas conversei com a juventude animada e combativa de um bairro operário de Santo André, SP, no Centro de Cultura Social Vira-Lata Caramelo.
E percebi que há vida e há esperança fora do universo da política institucional e da esquerda que trocou a transformação em profundidade da sociedade pela obtenção de migalhas de poder coonestando as eleições de cartas marcadas da democracia burguesa.
Afora responder às perguntas sobre o que foi a luta armada nos anos de chumbo e como eram alguns dos seus principais personagens (aqueles que conheci pessoalmente), procurei dar uma ideia de como foi sacrificada a trajetória dos que pegamos em armas para resistir à tirania e ao terrorismo de estado.
É algo que relatos apologéticos e heroicistas escamoteiam, mas eu faço sempre questão de enfatizar, não para desestimular ninguém (longe disto!), mas para que as novas gerações saibam os horrores que eventualmente haverão de encarar; e, se adiante tiverem a mesma encruzilhada pela frente, façam uma opção consciente sobre o caminho que estão aptas a trilhar.
Tomei conhecimento:
— de que, minimizadas ou ignoradas pela grande imprensa, têm ocorrido escaramuças localizadas em vários pontos do território brasileiro; e
— que elas exercem um previsível fascínio sobre os esquerdistas que já não se conformam em apoiar Lula para barrar Bolsonaro e, indiretamente, acumpliciarem-se com o avassalamento ao centrão, que já detinha o poder antes e continua detendo hoje.
Lembrei que a organização brasileira mais capacitada para travar a luta armada em todos os tempos, a VPR, não conseguiu resistir à esmagadora superioridade em efetivos e recursos da repressão ditatorial.
Daquela vez, a luta armada ainda engatinhava, mas a assinatura do hediondo AI-5 a colocou de um momento para outro como a única possibilidade de combatermos efetivamente o arbítrio desembestado. E acabou sendo fatal deixarmos o inimigo escolher por nós o momento da batalha.
Então, a minha recomendação aos jovens companheiros de ideais é a de que concentrem seus melhores esforços em iniciativas para engajar mais contingentes na perspectiva anticapitalista, pois é fundamental forjarmos uma nova esquerda em substituição àquela que caducou; e de que evitem pacientemente provocar enfrentamentos em situações nos quais a correlação de forças nos seja desfavorável.
Mas, não a ponto de se dar a outra face quando agredido ou permanecer passivo quando baleado. Todos temos o direito de nos defender da violência bestial da extrema-direita com reação à altura dos ataques que estivermos sofrendo.
[Não devemos, contudo, ultrapassar tal medida, pois aí seria fazermos o jogo do inimigo, fornecendo-lhe valiosos trunfos propagandísticos.]
Afinal, estamos numa fase que, nos velhos tempos, qualificaríamos de defensiva estratégica. Na qual, repito, é de máxima importância levarmos sempre em conta a correlação de forças. (por Celso Lungaretti)
"O alerta sobre os neofascistas nos faz perder de vista
a questão real: grandes massas de eleitores, há
décadas, demonstram desconfiança nas
instituições democráticas liberais"
(Antonio Scurati, biógrafo de
Benito Mussolini)
Às vezes revejo cenas do holocausto, que os negacionistas nazifascistas dizem não ter existido, apesar das imagens, provas irrefutáveis e depoimentos de pessoas que traziam (muitas já nos deixaram após terem sobrevivido aos campos de concentração) ou que ainda trazem seus números da morte gravados como tatuagem tosca nos braços.
Fico pensando na passividade da paralisia humana causada pelo medo (e descrédito dos alemães no que estava posto) do exército hitlerista e sua terrível Gestapo, a polícia militarizada do maior criminoso da história da humanidade.
Boçalnaro, o ignaro, ao chegar ao poder político estatal com o discurso de morte (afirmou sem nenhum pejo que a ditadura militar deveria ter matado 30 mil opositores); incensando torturadores; empunhando armas e invertendo os conceitos virtuosos dos ganhos civilizatórios conquistados a duras penas pela humanidade, tornou-se ainda mais escravo da retórica nefanda com a qual saiu vitorioso.
Assim, tenta reproduzir no governo os mesmos absurdos anteriores, sem compreender que as bravatas eleitorais não se adaptam às exigências de bem governar, ainda que governar sob o capitalismo signifique sempre oprimir (mesmo que sob o cabresto mais frouxo da social democracia).
É incapaz, contudo, de perceber que a mesma insatisfação popular causada pela crise do capital em seu estágio de contradição inconciliável, que leva os governos de todos os matizes ao desgaste (vide os protestos de 2013, sob o PT), é a mesma que está afasta as massas do seu projeto golpista.
Não há como administrar a escassez de recursos quando estes são insuficientes (daí o crescente endividamento público mundial) e são estes os únicos instrumentos capazes de prover as demandas sociais, todas elas dimensionados pelo critério da compra de mercadorias, ou seja, com dinheiro.
Ademais, os gastos orçamentários não discricionários (folha de pagamento, gastos orçamentários com educação, saúde e segurança pública, verbas para o sustento dos caros poderes da república e armas militares, gastos com a previdência social deficitária, juros da dívida pública, funcionamento da máquina estatal, pagamento de precatórios de condenações judiciais, repasse de verbas constitucionais aos estados e municípios, etc.) são tão discrepantes da arrecadação de impostos que nada sobra para o atendimento das demandas sociais assistenciais, deixando os governantes sem margem de escolha.
E o Estado falido acaba sendo visto como um mero opressor subvencionado pelos impostos pagos pela população empobrecida.
Não devemos ter medo; não devemos aceitar a ditadura sob qualquer pretexto; não devemos aceitar a democracia burguesa e seus cassetetes democráticos por medo do fascismo militarista que blefa com o fantasma de um golpe no dia 7 de setembro, mero rugir de um leão velho, doente e desdentado.
Só devemos ter medo é de ter medo, como já diziam os gladiadores de Spartacus ao lutarem contra o aparentemente indestrutível poderio militar do império romano.
A fumaça da insatisfação popular com o desastrado governo atual já não esconde o fogo que promoverá a queda política que se aproxima.
Agora, por medo de um poder militar inconsistentemente anunciado (mesmo que ainda existam viúvas dos 21 anos da ditadura militar mais recente) anuncia-se em uníssono o vigor das instituições democrático-burguesas em funcionamento.
Entretanto, quando se olha para a economia mundial e, principalmente, para a economia brasileira, vê-se claramente que a insatisfação popular continuará, representada:
— pelo desemprego estrutural que o capitalismo na sua fase disfuncional (para usar uma expressão da inaceitável nota da entidade dos praças das polícias militares);
— pela volta da inflação causada pela emissão de moeda sem lastro e endividamento público crescente;
— pela paralisia econômica anteriormente existente mas que se intensifica com a pandemia renitente;
— pelos juros altos que pagamos da nossa dívida;
— pela corrupção política endêmica com o dinheiro dito público (que nunca foi e não é do povo, na sua maior parte);
— pela aviltante concentração de renda dos vitoriosos na guerra concorrencial de mercado, que, com a inflação alta, beneficia os donos do capital (principalmente os bancos);
— pela redução de salários da grande maioria dos trabalhadores, causada pela regra capitalista da oferta e procura de mercadorias, que avilta os salários dos empregados (o salário é também uma mercadoria) quando há um mar de desempregados; e
— pela crise hídrica causada pelo aquecimento global decorrente de um modo de produção ecocida que provoca o efeito estufa, encarecendo a energia elétrica hidráulica, desertificando a terra e reduzindo a produtividade de alimentos, além de causar incêndios, furacões, enchentes, secas e nevascas intensas, etc.
Como afirmar-se a governabilidade estatal e a estabilidade das instituições dependentes da economia, quando esta última se assenta sobre uma decomposição estrutural, decorrente do colapso dos seus próprios fundamentos?
Os golpistas de direita, sempre ávidos por poder absoluto, estão à espreita das oportunidades para se apresentarem como salvadores da pátria. Foi assim que o pato da Fiesp gerou seus ovos podres, ora rejeitados pela mesma entidade de classe patronal em nota contra aqueles que supunha representarem os seus interesses, apesar da contradição entre os conceitos ultraliberais e o nacionalismo estatizante que simultaneamente defendiam (me engana que eu gosto)?
E a volta ao governo de pretensos socialistas que apregoam a retomada do desenvolvimento econômico e, portanto, a falácia do capitalismo do bolo grande para que sobrem algumas migalhas para os deserdados da sorte, constitui-se como alternativa viável à depressão econômica irreversível? Não!
É evidente que ambos os projetos políticos representam apenas a velha contenda entre doutrinas que atuam sob uma mesma base de mediação social que atingiu o seu limite interno e externo de expansão e clama por uma nova ordem de produção social.
Marx tinha total razão quando disse que o modo de produção define o caráter das sociedades. Então, faz-se necessário um novo modo de produção que extirpe de vez o caráter segregacionista da forma-valor e do famigerado mercado, ensejando o surgimento de uma nova ordem jurídico-constitucional que lhe seja consentânea.
A esquerda institucional, de olho nas polpudas verbas partidárias, influência junto aos donos do PIB, e definição de quem vai ocupar os cargos que pode abocanhar caso venha a assumir o poder político, aceita o capitalismo (que deseja incompreensivelmente humanizar) de bom grado, e justifica tal posicionamento democrático-burguês como necessária para derrotar o fascismo.
Este é o discurso do medo sobrepujando a necessária coragem revolucionária, mesmo que estejamos num estágio de fim de festa do capitalismo.
Espero, entretanto, que na hora da verdade os medos cedam lugar a posicionamentos que estejam à altura das transformações sociais que a dialética do movimento social está a reclamar.
(por Dalton Rosado)
Entre as mil e uma canções de sua autoria, Que moral é essa? foi
a escolhida pelo Dalton para ilustrar este artigo.
Um consolo para Lula deve ser o de que, graças aos processos por corrupção a que vem respondendo e, agora, à condenação que o tornará inelegível, pôde se manter como um personagem de destaque da política brasileira mesmo já não tendo respostas para os grandes desafios brasileiros. Marchava para a irrelevância e hoje ocupa de novo todas as manchetes. Compensou? Na década passada, quando o boom das commodities agrícolas permitia tornar ainda mais farto o banquete dos poderosos e, simultaneamente, aumentar um tantinho a quantidade de migalhas na mesa dos explorados, era ele o presidente. A desigualdade econômica até aumentou, mas os coitadezas porventura tomam conhecimento dessas estatísticas? A conciliação de classe chegou mesmo a parecer viável durante algum tempo... Na década atual, contudo, houve nova contração do capitalismo e, numa época de vacas magras, deixaram de existir migalhas para farta distribuição à plebe ignara. Pior: os poderosos decidiram retomar as migalhas de que haviam aberto mão no passado recente. Mas, como Lula entregara a faixa presidencial à Dilma, foi ela quem acabou levando toda a culpa pela degringola econômica.
Finalmente, agora são os inimigos que lhe dão sobrevida. Já que não consegue mais despertar esperanças nem tem nada de relevante para propor, consegue manter-se à tona com a chantagem emocional da vitimização e a promessa de vingança contra Michel Temer (um vilão que manda muito menos do que qualquer grande banqueiro, mas com os banqueiros o PT e Lula não ousam mexer) e de reversão das reformas que o poder econômico exigiu e, com unhas e dentes, impedirá de serem revertidas. Enfim, embora tenhamos pela frente mais uma tediosa temporada de jus sperniandi, com direito a outras tantas derrotas judiciais até que a inelegibilidade do Lula e sua prisão sejam confirmadas, o resultado do julgamento deste dia 24 no TRF-4 marcou o fim de mais um surto de populismo de esquerda, reformismo e conciliação de classe no Brasil (tomara que seja o último!). Teremos muito tempo para discutir as perspectivas para o pós-Lula adiante, à medida que o quadro político se for aclarando.
Mas, no que tange à esquerda, há conclusões que já são bastante evidentes, como a de termos chegado ao melancólico final do caminho que percorremos desde 1985.
Foi quando, traumatizados com os banhos de sangue dos anos de chumbo e temerosos de que quaisquer radicalismos fornecessem pretexto para retrocessos, os líderes da Nova República optaram pela inofensiva social-democracia européia como o exemplo a ser copiado em âmbito interno, enquanto algumas tinturas bolivarianas ajudariam, como diria Erasmo Carlos, os esquerdistas desbotados a manterem "fama de mau" na política externa — sem maiores consequências, claro, apesar de todo o alarmismo do Olavo de Carvalho acerca do Fôro de São Paulo.
Também me parece gritante a necessidade de a esquerda voltar a organizar o povo para a resistência à ofensiva capitalista em todo o País, ao invés de continuar auto-confinando-se ao terreno minado dos três Poderes, onde, em todas as refregas recentes, tem lutado como nunca e perdido como sempre...
E, com ou sem a autocrítica que o PT nos está devendo desde o impeachment da Dilma, à qual se deveria acrescentar uma autocrítica pela série de lambanças que culminou na duríssima derrota recém-sofrida, é hora de se colocar em discussão um tema crucial: faz algum sentido, depois do 31 de agosto de 2016 e do 24 de janeiro de 2018, continuarmos pisando em ovos para não incomodar os capitalistas e entoando repulsivas loas aos valores republicanos e ao Estado democrático de Direito? Eu não vejo nenhum. Tudo indica que as últimas ilusões tenham agora se dissipado, só nos restando uma opção digna: a de nos reassumirmos como inimigos viscerais do capitalismo, decididos a criar condições para a emancipação do povo e a construção de um novo modelo de sociedade, no qual o bem comum e a realização plena dos seres humanos passem a ser as prioridades supremas.
Há vários meses eu vinha cantando a bola de que a direita, com a faca e o queijo na mão, impediria o terceiro mandato do Lula de qualquer jeito.
A via judicial era o curinga que guardava na manga: caso não tivesse certeza de obter seu intento nas urnas, jogaria a carta da inelegibilidade.
Então, o espetáculo de Porto Alegre foi para mim um tédio só: que graça tem escutar todo aquele blablablá pomposo quando já se sabe o final?
Tentei alertar Lula da inutilidade de sua insistência, quando ele ainda poderia, quem sabe, permanecer fora da prisão. Se admitisse fazer um anúncio público de que desistiria da política para dedicar-se à família, seria uma boa base para um acordo, a ser negociado nos bastidores. A vantagem para o inimigo: evitar a má repercussão no Brasil e no exterior da prisão de um ex-presidente.
Quando Lula preferiu travar um confronto destrambelhado com o mercado, os Poderes da República e a imprensa, todos ao mesmo tempo, percebi que não tinha mais salvação.
Será que ele nutria alguma esperança de que o desfecho viesse a ser diferente? Ou aceitou sacrificar-se para que o PT não sofresse em 2018 esvaziamento comparável ao da eleição anterior?
Sempre o considerei uma âncora puxando a esquerda para as profundezas do seu passado geralmente populista e conciliador (as exceções foram poucas e duraram pouco, como a luta armada dos anos de chumbo).
Mas, incomodava-me saber que Lula era o menor culpado pelo papel histórico que desempenhou: o de um segundo pai dos pobres e mãe dos ricos (que, aliás, gosta de comparar-se com o primeiro, Getúlio Vargas, elogiando "as suas realizações sociais e econômicas e de projeto de país", como se o ditador de 1930/1945, que nutria evidente simpatia pelo nazi-fascismo, fosse um exemplo edificante.
Nunca foi um revolucionário e os dirigentes do PT não tinham quaisquer ilusões a respeito. Mas, ávidos por aproveitar seu potencial como chamariz de votos, decidiram encher ao máximo a bola do Lula, certos de que o manteriam facilmente sob controle.
Os controladores, contudo, foram atingidos em cheio pelas investigações do mensalão e a criatura escapou do laboratório do dr. Frankenstein, passando a fazer tudo que lhe dava na telha. Foi o começo do fim.
Lula poderia até ser presidente da República do Brasil por algum partido de centro ou de direita moderada, mas nunca teve o perfil de um presidente de esquerda. O oportunismo de tal escolha nos saiu caríssimo.
E agora, com a viola em cacos, vamos continuar insistindo nos erros gritantes cometidos, principalmente, na atual década? Ou é o momento de partirmos em busca da identidade perdida?
Pois, ou existimos para dar um fim à exploração do homem pelo homem, ou não somos nada.
Enquanto nos limitamos a gerenciar o capitalismo para os capitalistas, fomos nada. É o que queremos ser indefinidamente?
Temos agora uma chance de começar de novo, ainda que seja do zero.
Se este tiver sido o preço a pagar para voltarmos à trilha revolucionária da qual jamais deveríamos ter-nos desviado, sem dúvida compensou!