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segunda-feira, 27 de dezembro de 2021

COMO O NAZISMO IRROMPEU NA ALEMANHA (no Brasil, o ovo da serpente foi gorado) – 1

E
m 2013 houve manifestações públicas comuns a várias tendências do pensamento político que, reprimidas violentamente pelos governos estaduais (com o beneplácito da Dilma Rousseff), descambaram para uma insanidade em 2018. 

Felizmente, o enredo do que correu na Alemanha anteriormente à 2ª Guerra Mundial não se reproduziu por aqui. 

Ainda assim, é sempre bom relembrarmos os exemplos negativos da história, pois isto nos ajuda a evitarmos que se repitam. 

Foi num ambiente semiclandestino dos subterrâneos do poder político que se gestaram as ideias que, adiante, se configurariam como princípios de um movimento nacional-socialista dos trabalhadores alemães, cuja contradição já aparece no próprio enunciado partidário (posto que, se era nacionalista, não poderia ser socialista, doutrina que por princípio se reivindica internacionalista e proletária).

O nacional-socialismo, que em breve seria apoiado pelos grandes capitalistas da Alemanha, tinha como contrapontos o Partido Comunista Alemão, de Rosa de Luxemburgo e Karl Liebnecht; e os sociais-democratas, divididos entre Partido Social-Democrata e o Partido Social-Democrata Alemão Independente
Na hiperinflação alemã de 1923, valendo quase
nada, o dinheiro era usado como brinquedo

Como consequência da rendição germânica na 1ª Guerra Mundial veio a assinatura do Tratado de Versalhes, que dava às nações vitoriosas o direito a vultosa indenização e à anexação de terras. Tais imposições draconianas levariam o povo alemão a um estado de penúria sem precedentes.

O êxito da revolução russa de 1917, por sua vez,  fazia crescer continuamente o número de adeptos do marxismo na Alemanha, fortalecendo o Partido Comunista Alemão e sua dissidência, a Liga Spartaquista. A instabilidade política no país estimulava tentativas de golpes e mudanças na direção que se instalara após a final da guerra. 

O antigo regime alemão fora destituído, dando lugar à República de Weimar (1919-1933), com a realização de uma Assembleia Constituinte sob a hegemonia da socialdemocracia alemã, 

Ainda foram tentados golpes de Estado totalitários de direta, liderados por militares como o general Kapp, mas eles foram contidos pelos trabalhadores de sindicatos alemães e pelos partidários próximos ao Partido Social-Democrata, que queriam a nacionalização estatal das minas e bancos da Alemanha.

As tentativas de revolução marxista, por sua vez, acabaram abafadas; tanto Rosa Luxemburgo como Karl Liebnecht (duas das suas mais expressivas lideranças) foram executados. 

Neste caldeirão de cultura política e miséria do povo alemão (muito sacrificado pela inflação e desemprego) surgiram as ideias nazistas de soberania e superioridade da raça ariana germânica.

Foi na cidade de Munique, na Baviera, que ocorreram as primeiras manifestações da doutrina e métodos daquilo que viria a ser o nazismo.
putsch da cervejaria flopou de forma tão ridícula quanto, quase um século depois,
 a 
micareta golpista nele inspirada e que teve lugar no Brasil, em 7 de setembro último 
Sem expressão nacional, mas contando com a ajuda de intelectuais e militares que se sentiam traídos pela rendição germânica, 
e aproveitando a relativa autonomia de que gozavam as regiões alemãs e seus governos locais, ocorreu uma tentativa fracassada de tomada do poder local.

Conhecido como putsch (assalto à mão armada) da cervejaria (pois era na famosa cervejaria Burgebräukeller, de Munique, que se reuniam os golpistas), este fiasco foi o marco inicial da escalada nazista e afirmação do líder maior do movimento, embora ele acabasse preso: Adolf Hitler (*).

Paradoxalmente, as ideias nazistas incorporavam elementos do marxismo-leninismo (o partido único e a soberania e importância do trabalho produtor de valor) e do trabalhismo ariano, ainda que se afirmasse defensor ferrenho do capitalismo. Este último aspecto em muito agradava aos capitalistas alemães ameaçados pelo comunismo.
Hitler mandou darem
sumiço em todas as suas
fotos com calças curtas

A constituição da República de Weimar previa eleições diretas para escolha do presidente, que enfeixava grandes poderes. Entretanto, o primeiro presidente, 
Friedrich Ebert, acabou sendo eleito em 1919 pela Assembleia Nacional. 

Após a sua morte, em fevereiro de 1925, foram convocadas eleições nas quais sete candidatos disputaram o 1º turno. Representando os nazistas, o militar graduado Erich Ludendorff obteve apenas 1,1% dos votos. 

Como ninguém houvesse alcançado a maioria, fez-se necessário o 2º turno, que terminou em abril de 1925, com a eleição de Paul Von Hinderburg, de uma coalizão de direita (48,3% dos votos), seguido por Wilhelm Marx, do centro católico (45,3%) e Ernest Thälmann, do Partido Comunista da Alemanha (6,4%).

Mas, a insatisfação do povo alemão com o novo regime continuava a ser o fermento de revoltas e adesão a partidos e doutrinas políticas que apontassem saídas. Embora o Partido Nazista fosse pouco expressivo eleitoralmente, sua cantilena de resgate da superioridade alemão, somada às críticas ao governo e à organização de milícias agressivas que provocavam tumultos, ganhava adeptos num país que ainda se recuperava. (por Dalton Rosado  continua neste post) 
Hitler - a ascensão do mal (d. Christian Duguay, 2003) dá uma boa noção 
da escalada nazista, embora satanize tanto Hitler que o torna caricatural
* Austríaco de Braunau am inn, Hitler (1889-1945) participou como cabo da 1ª Guerra Mundial, tornando-se posteriormente militante político das ideais nazistas de Dietrch Eckart e outros. 
Foi dirigente do Partido Nacional Socialista dos Trabalhadores da Alemanha,  chanceler do Reich (1933-1945) e führer da Alemanha Nazista (1934-1945), tendo desenvolvido uma escalada de conquistas dos países vizinhos que descambou para a 2ª Guerra Mundial
Hitler é considerado o maior genocida da história por ter dado início ao conflito que resultou na morte de cerca de 50 milhões de pessoas e o grande responsável pelo holocausto (o extermínio, sob várias formas, de aproximadamente 6 milhões de judeus, o maior genocídio racial da história da humanidade).
Suicidou-se no seu bunker, enquanto ouvia o estrondo das bombas do Exército Vermelho, juntamente com sua amante Eva Braun; os corpos de ambos foram cremados com gasolina numa vala próxima.
É de autoria do Dalton o "Rock da Emancipação", faixa-título
do CD que acaba de ser lançado pela cantora Graça Santos 

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

PARA LER E REFLETIR: COMO A INTRANSIGÊNCIA DA ESQUERDA ALEMÃ ABRIU CAMINHO PARA A VITÓRIA DE HITLER

"...os eventos que tiveram lugar na Alemanha a partir do final dos anos 1920 ganham nova perspectiva, sobretudo agora, quando a extrema-direita levanta novamente a cabeça em diversas partes do mundo. 

O nazismo venceu no início dos anos 1930, em parte porque durante os dez anos anteriores realizou um intenso e escrupuloso trabalho de agitação e propaganda sobre as massas pequeno-burguesas e declassés de uma Alemanha dilacerada e humilhada pelo tratado de Versalhes. Em parte, porque faltou inteligência e iniciativa revolucionária aos chefes do proletariado.

É preciso lembrar que o nazismo não era a única força política na Alemanha daqueles anos e nem sequer a maior. Ao lado do NSDAP, o partido de Hitler, havia duas outras poderosas forças: os social-democratas do SPD e os comunistas do KPD, que, juntas, abarcavam a imensa maioria da classe operária alemã. 

Esta, por sua vez, mesmo após três levantes derrotados (1919, 1921 e 1923), continuava sendo a principal força social e política do país. Uma política justa por parte da direção do proletariado poderia ter barrado o caminho de Hitler ao poder e transformado a crise terminal da república de Weimar numa terceira revolução alemã, ou ao menos impedido a ascensão do nazismo.

Poderia não quer dizer que certamente seria. Mas é preciso saber que esteve colocada essa possibilidade. A vitória do nazismo nunca foi inevitável. 
O putsch da cervejaria, em 1923, deveria ter servido de alerta para a esquerda alemã... 

Ela ocorreu por uma complexa combinação de fatores, em que um dos mais importantes foi a política adotada pelo KPD stalinizado, que considerava a social-democracia como a principal inimiga da classe trabalhadora e por isso se recusava terminantemente a realizar com ela qualquer frente única para barrar a ascensão de Hitler.

...A fase de crescimento vertiginoso da influência do nazismo coincide no tempo com o que o stalinismo convencionou chamar de terceiro período. O termo foi cunhado em 1928 e corresponderia ao período de agonia final do capitalismo, etapa na qual o capitalismo seria fatalmente destruído pela revolução proletária. 

A conclusão lógica dessa avaliação foi que as massas se encontravam em um gigantesco ascenso, e que, portanto, toda e qualquer frente com outras forças e movimentos deveria ser descartada. Os partidos comunistas deveriam marchar sozinhos, rumo à tomada do poder. 
...assim como a componente golpista da paralisação dos caminhoneiros não acordou nossa esquerda 
Qualquer frente ou acordo seria uma traição e significaria a entrega da revolução. Sendo assim, a luta contra os inimigos internos ao movimento operário deveria ser intensificada e até elevada ao primeiro plano. Desta forma, toda a política dos partidos comunistas deveria ser direcionada contra o principal concorrente dentro do movimento operário: a social-democracia e os partidos socialistas.

Vale a pena lembrar que esta política de delimitação absoluta com os reformistas já havia sido condenada pelo III Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1921, no qual se definiu pela atuação em conjunto, sob certas condições, com os partidos da social-democracia internacional. Esta política de unidade de classe para enfrentamento do inimigo comum entrou para a história com o nome de Frente Única.

Desde a sua elaboração, a política ultra-esquerdista do terceiro período foi aplicada a fundo na Alemanha. Isso significou a recusa a qualquer unidade de ação entre o SPD e o KPD para enfrentar física e politicamente o nazismo. 
Bolsonaro é insignificante demais?

Em todas as situações e em qualquer lugar, a social-democracia era considerada o inimigo principal. O reformismo foi igualado ao nazismo; surgiram e se propagaram expressões estúpidas e rasteiras como social-fascismoala moderada do fascismo (para se referir ao Partido Socialista) e outras.

Como desenvolvimento lógico dessa lamentável teoria, se afirmava que a vitória sobre o fascismo (que se reconhecia como inimigo) não seria possível sem que antes se derrotasse a social-democracia. A social-democracia era, segundo a teoria de Stalin, o pior inimigo, pois estava infiltrada nas fileiras do movimento operário, enquanto o fascismo era um elemento externo e, por isso, menos perigoso.

...a direção do KPD e da Internacional Comunista acreditava que os nazistas, uma vez no poder, se desgastariam tão rapidamente, que isso abriria, quase que imediatamente, a possibilidade de um governo do KPD. Coerente com essa previsão, em 1931 [o dirigente comunista alemão Ernst] Thälmann lança mais uma fórmula: “Depois de Hitler, será nossa vez!” Foi o último erro daquela direção.

Um mês depois da nomeação de Hitler como chanceler da Alemanha, o KPD já estava na ilegalidade, suas sedes estavam destruídas e seus líderes já estavam na prisão. O Partido Nazista, por sua vez, em novas eleições, conquistou a maioria definitiva no Reichstag, com mais de 17 milhões de votos. A vitória nazista estava consolidada. 

...Não seria um exagero dizer que a história não conhece até hoje maior exemplo de estupidez e cegueira política. O preço deste erro foi pago com o esmagamento do movimento operário alemão e com a 2ª Guerra Mundial." 
(trechos do excelente artigo As lições de Trotski na luta contra o fascismode Henrique Canary, publicado
em 2017 no site Esquerda OnLinecuja íntegra 
pode ser acessada aqui)

sexta-feira, 24 de junho de 2016

O PESADELO SE TORNOU REALIDADE: RELEIA O QUE MAGNOLI E LUNGARETTI AUGURAVAM CASO O BREXIT VENCESSE.

Por Demétrio Magnoli
BREXIT, O FIM DO MUNDO.
imagem de uma multidão de refugiados caminhando pela estrada, sob o slogan Ponto de ruptura –eis a mais recente peça publicitária de Nigel Farage, líder do ultranacionalista Ukip, em campanha contra a permanência britânica na União Europeia. 

Tudo ainda pode mudar, graças a uma onda de participação de eleitores jovens e ao genuíno engajamento do Partido Trabalhista na reta final da campanha. Contudo, faltando dias para o referendo, a média das sondagens indica vantagem para a proposta de ruptura. O Brexit (Britain exit, saída britânica) não significaria o fim do mundo –mas seria, em diversos sentidos, o fim do mundo que conhecemos.

"Nós, poucos; nós, felizes poucos": a mítica exortação de Henrique 5º a seus soldados, na versão de Shakespeare, ganharia um sentido desafortunado. O Brexit significaria o fim do Reino Unido, pois deflagraria um novo plebiscito na Escócia, com triunfo assegurado do separatismo. Os escoceses renunciariam ao Tratado de União de 1706 para permanecer na Europa, redefinindo sua identidade nacional. 

Longe da Europa, o Reino Desunido –"esta pedra preciosa depositada no mar prateado", "este pequeno mundo"– estaria condenado a declinar sob o cetro de uma triunfante direita nativista constituída pela soma do Ukip com os detritos xenófobos do Partido Conservador.

"O voto pela saída abalaria a União", estimulando "um nacionalismo que opõe os Estados europeus uns aos outros", alertou o ministro do Exterior alemão Frank-Walter Steinmeier. A UE é menos um fruto de Stalin, uma resposta à ameaça soviética da Guerra Fria, que um fruto de Hitler: a alternativa liberal aos nacionalismos descontrolados que reduziram a civilização europeia a uma pilha de ruínas. O Brexit não significaria necessariamente a implosão da UE, mas irrigaria um solo contaminado.

De Farage a Le Pen, na outra margem do Canal da Mancha, espraiando-se pelo AfD, na Alemanha, o FPO, na Áustria, o SVP, na Suíça, o DPP, na Dinamarca, e o Jobbik, na Hungria, florescem partidos ultranacionalistas inspirados pela política do sangue

No interior da Europa aberta, supranacional, inventada no pós-guerra, emerge a sombra da Europa de Putin: uma coleção de nações ciosas de suas soberanias, fechadas nos seus casulos de fronteiras, hipnotizadas pelo romance de suas culturas ancestrais. Atrás da visível decomposição do tecido geopolítico da UE, processa-se uma erosão de valores –ou, precisamente, uma regressão agônica rumo ao porto de outra época, que parecia enterrada.

Brexit, hoje; Donald Trump amanhã? A peça publicitária do Ukip funcionaria perfeitamente como estandarte da campanha de Trump, com a mera substituição dos refugiados sírios pelos imigrantes mexicanos. O nativismo circula dos dois lados do Atlântico, como um sintoma da crise geral das democracias ocidentais. Na invocação histérica do "perigo estrangeiro", muçulmano ou hispânico, encontra-se a lógica de uma gramática política que desafia o contrato de direitos e liberdades concluído na sequência das sangrentas catástrofes do século 20.

As fontes superficiais da crise das democracias podem ser identificadas na depressão econômica precipitada pelo crash de 2008, mas suas raízes são bem anteriores. As tendências conexas da crescente desigualdade de renda e estagnação dos salários reais desenvolvem-se há um quarto de século, movidas tanto pela revolução tecnológica quanto pelo ingresso da China no palco da globalização. Numa dinâmica não linear, pontuada por injeções anabolizantes de crédito e dívida pública, as classes médias experimentam contração de longo prazo.

"Please, don't go!", apelou em manchete o semanário alemão Der Spiegel, numa edição especial sobre o Brexit. Os britânicos ainda podem evitar o desastroso desenlace, oferecendo uma segunda chance ao mundo que conhecemos.
.
A palavra do editor
VERSALHES, O FIM DO MUNDO.
Nada a acrescentar à análise do Demétrio Magnoli propriamente dita. É impecável, servindo como um alerta para a possibilidade de estar finalmente se materializando o augúrio sinistro de Friedrich Engels: quando um sistema econômico caducou mas não existe uma força histórica capaz de fazer a sociedade avançar para uma etapa superior de desenvolvimento, subindo outro degrau da escada da civilização, pode, pelo contrário, sobrevir a barbárie.

Foi o que aconteceu com o Império Romano, cujas forças produtivas só poderiam ser destravadas pelo fim da escravidão –tendo Spartacus e seus gladiadores encarnado a única esperança existente de que isto pudesse ocorrer.

Não ocorreu. Os revoltosos foram aniquilados e Roma não parou mais de decair, até o castelo de cartas ser derrubado pelos bárbaros que rondavam suas fronteiras, ensejando a pior regressão da história da humanidade até hoje: um milênio de trevas.
O capitalismo já passou até da fase terminal: está apodrecendo a olhos vistos, como bem o provam as acuradas análises do Dalton Rosado neste blogue. Se continuar se arrastando por aí como um zumbi. poderemos estar mesmo marchando para o horror, o horror!

No mínimo, uma repetição das turbulências subsequentes à 1ª Guerra Mundial, quando as condições draconianas impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes engendraram o nazismo, a desintegração da Rússia (após a prevalência dos ideais revolucionários entre 1917 e 1923) pariu Stalin, a instabilidade política e social pavimentou o caminho para Mussolini e os EUA amargaram uma década inteira de depressão econômica, tudo isso desembocando na 2ª Guerra Mundial (um morticínio em escala nunca vista!), no Holocausto e nos petardos atômicos que quase deram fim à humanidade em 1962.

E não estão descartados cenários piores ainda do que aqueles a que agonicamente sobrevivemos no século 20. Principalmente se houver a conjugação da mãe de todas as crises econômicas que há muito se prenuncia com as catástrofes ambientais decorrentes das alterações climáticas.  (por Celso Lungaretti)

sábado, 18 de junho de 2016

HÁ UMA TEMPESTADE PERFEITA SE FORMANDO NO HORIZONTE. EXATAMENTE COMO UM SÉCULO ATRÁS.

Por Demétrio Magnoli
BREXIT, O FIM DO MUNDO.
A imagem de uma multidão de refugiados caminhando pela estrada, sob o slogan Ponto de ruptura –eis a mais recente peça publicitária de Nigel Farage, líder do ultranacionalista Ukip, em campanha contra a permanência britânica na União Europeia. 

Tudo ainda pode mudar, graças a uma onda de participação de eleitores jovens e ao genuíno engajamento do Partido Trabalhista na reta final da campanha. Contudo, faltando dias para o referendo, a média das sondagens indica vantagem para a proposta de ruptura. O Brexit (Britain exit, saída britânica) não significaria o fim do mundo –mas seria, em diversos sentidos, o fim do mundo que conhecemos.

"Nós, poucos; nós, felizes poucos": a mítica exortação de Henrique 5º a seus soldados, na versão de Shakespeare, ganharia um sentido desafortunado. O Brexit significaria o fim do Reino Unido, pois deflagraria um novo plebiscito na Escócia, com triunfo assegurado do separatismo. Os escoceses renunciariam ao Tratado de União de 1706 para permanecer na Europa, redefinindo sua identidade nacional. 

Longe da Europa, o Reino Desunido –"esta pedra preciosa depositada no mar prateado", "este pequeno mundo"– estaria condenado a declinar sob o cetro de uma triunfante direita nativista constituída pela soma do Ukip com os detritos xenófobos do Partido Conservador.

"O voto pela saída abalaria a União", estimulando "um nacionalismo que opõe os Estados europeus uns aos outros", alertou o ministro do Exterior alemão Frank-Walter Steinmeier. A UE é menos um fruto de Stalin, uma resposta à ameaça soviética da Guerra Fria, que um fruto de Hitler: a alternativa liberal aos nacionalismos descontrolados que reduziram a civilização europeia a uma pilha de ruínas. O Brexit não significaria necessariamente a implosão da UE, mas irrigaria um solo contaminado.

De Farage a Le Pen, na outra margem do Canal da Mancha, espraiando-se pelo AfD, na Alemanha, o FPO, na Áustria, o SVP, na Suíça, o DPP, na Dinamarca, e o Jobbik, na Hungria, florescem partidos ultranacionalistas inspirados pela política do sangue

No interior da Europa aberta, supranacional, inventada no pós-guerra, emerge a sombra da Europa de Putin: uma coleção de nações ciosas de suas soberanias, fechadas nos seus casulos de fronteiras, hipnotizadas pelo romance de suas culturas ancestrais. Atrás da visível decomposição do tecido geopolítico da UE, processa-se uma erosão de valores –ou, precisamente, uma regressão agônica rumo ao porto de outra época, que parecia enterrada.

Brexit, hoje; Donald Trump amanhã? A peça publicitária do Ukip funcionaria perfeitamente como estandarte da campanha de Trump, com a mera substituição dos refugiados sírios pelos imigrantes mexicanos. O nativismo circula dos dois lados do Atlântico, como um sintoma da crise geral das democracias ocidentais. Na invocação histérica do "perigo estrangeiro", muçulmano ou hispânico, encontra-se a lógica de uma gramática política que desafia o contrato de direitos e liberdades concluído na sequência das sangrentas catástrofes do século 20.

As fontes superficiais da crise das democracias podem ser identificadas na depressão econômica precipitada pelo crash de 2008, mas suas raízes são bem anteriores. As tendências conexas da crescente desigualdade de renda e estagnação dos salários reais desenvolvem-se há um quarto de século, movidas tanto pela revolução tecnológica quanto pelo ingresso da China no palco da globalização. Numa dinâmica não linear, pontuada por injeções anabolizantes de crédito e dívida pública, as classes médias experimentam contração de longo prazo.

"Please, don't go!", apelou em manchete o semanário alemão Der Spiegel, numa edição especial sobre o Brexit. Os britânicos ainda podem evitar o desastroso desenlace, oferecendo uma segunda chance ao mundo que conhecemos.
.
A palavra do editor
VERSALHES, O FIM DO MUNDO.
Nada a acrescentar à análise do Demétrio Magnoli propriamente dita. É impecável, servindo como um alerta para a possibilidade de estar finalmente se materializando o augúrio sinistro de Friedrich Engels: quando um sistema econômico caducou mas não existe uma força histórica capaz de fazer a sociedade avançar para uma etapa superior de desenvolvimento, subindo outro degrau da escada da civilização, pode, pelo contrário, sobrevir a barbárie.

Foi o que aconteceu com o Império Romano, cujas forças produtivas só poderiam ser destravadas pelo fim da escravidão –tendo Spartacus e seus gladiadores encarnado a única esperança existente de que isto pudesse ocorrer.

Não ocorreu. Os revoltosos foram aniquilados e Roma não parou mais de decair, até o castelo de cartas ser derrubado pelos bárbaros que rondavam suas fronteiras, ensejando a pior regressão da história da humanidade até hoje: um milênio de trevas.
O capitalismo já passou até da fase terminal: está apodrecendo a olhos vistos, como bem o provam as acuradas análises do Dalton Rosado neste blogue. Se continuar se arrastando por aí como um zumbi. poderemos estar mesmo marchando para o horror, o horror!

No mínimo, uma repetição das turbulências subsequentes à 1ª Guerra Mundial, quando as condições draconianas impostas à Alemanha pelo Tratado de Versalhes engendraram o nazismo, a desintegração da Rússia (após a prevalência dos ideais revolucionários entre 1917 e 1923) pariu Stalin, a instabilidade política e social pavimentou o caminho para Mussolini e os EUA amargaram uma década inteira de depressão econômica, tudo isso desembocando na 2ª Guerra Mundial (um morticínio em escala nunca vista!), no Holocausto e nos petardos atômicos que quase deram fim à humanidade em 1962.

E não estão descartados cenários piores ainda do que aqueles a que agonicamente sobrevivemos no século 20. Principalmente se houver a conjugação da mãe de todas as crises econômicas que há muito se prenuncia com as catástrofes ambientais decorrentes das alterações climáticas.  (por Celso Lungaretti)
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