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sexta-feira, 26 de janeiro de 2024

ATÉ QUANDO O CAPITALISMO DEVASTARÁ O MUNDO?

 

Dia 21 de janeiro último completou-se 100 anos da morte de Lênin, o grande líder da revolução russa. Mais que celebrar sua memória ou falar de seu pensamento, a data apenas me evocou o quanto em um século o mundo ficou pior e a  revolução socialista foi totalmente derrotada em todos os cantos do planeta. 

Tal sentimento de desalento e de pessimismo me fez não escrever nada no dia 21, pois simplesmente se prestar à exaltação à sua memória seria fazer mais verborragia, em pouco acrescentando às inúmeras análises encontradas por aí. 

A URSS que deveria ter encaminhado o novo mundo sem classes e sem Estado logo após a morte de Lênin se afundou na contrarrevolução estalinista, gerando um dos regimes mais despóticos do século XX. Pior, pois acabou servindo de modelo para outros regimes no mundo, além de contribuir decisivamente para a deturpação do pensamento marxista. O resultado desse processo foi o afastamento de grandes parcelas das massas trabalhadoras dos países europeus e dos EUA do socialismo, pois passaram a associa-lo à ditadura e à repressão, impedindo o avanço da revolução para os decisivos países centrais do capitalismo.  

Pela inflexão vivida após a derrota da revolução russa, os movimentos socialistas acabaram no século passado atravessados por duas tendências conflitantes: as organizações burocratizadas, associadas à URSS, e os movimentos independentes que buscavam um caminho alternativo sem, contudo, alcançar um nível decisivo de condução dos processos políticos. A uns faltava democracia, a outros organicidade. 

Nesse embate interior às forças socialistas, o capital conseguiu avançar, transformando-se e ampliando-se. Concedeu aqui e ali melhorias pontuais às populações, caso da experiência do Estado de Bem-Estar Social na Europa, retomadas posteriormente quando o contexto lhe era mais vantajoso. Quando finalmente o Muro de Berlim caiu e a URSS desapareceu, resultado das complexas contradições acumuladas nos regimes estalinistas, o capitalismo se acreditou plenamente vitorioso e o socialismo foi escorraçado do mundo como coisa jurássica

O resultado do triunfo capitalista pode ser visto hoje por qualquer um: milhões morrem de fome e não possuem casas, mesmos nos EUA e em países europeus; as guerras explodem descontroladamente; o egoísmo e a podridão humanas crescem vertiginosamente; o meio ambiente é destruído e ecossistemas inteiros são varridos do mapa; a xenofobia, o racismo, a homofobia, a violência e a crueldade se tornam elementos comuns do dia-a-dia; o irracionalismo chegou ao nível de se negarem o uso de vacinas; etc. 

Na realidade, a dita vitória do capitalismo só pode levar à devastação e desumanização total. Estamos hoje mais próximos de uma Era de barbárie extrema e depravação completa da vida e poderemos assistir ao nascimento de um dos momentos mais terríveis da história humana e do próprio planeta. O capital é incontrolável e busca o crescimento infinito, custe o que custar. Por isso, nenhuma alternativa reformista ou de controle do capitalismo jamais terá efeito, nenhuma lei ou legislação fará o capitalismo refrear seu ímpeto desumano e aniquilador. O capitalismo é força material irrefreável e só pode ser parado com sua destruição completa, mas sua destruição só é possível mediante a revolução socialista

Após um longo período hibernando, o socialismo retorna à cena, mas ainda indeciso e sem clareza. O peso do passado ainda cobra forte ônus e a desesperança do presente imobiliza. É preciso, no entanto, se fiar nas palavras de Marx, de que a revolução não tira sua poesia do passado, mas do futuro. O que devemos fazer, portanto, agora, não deve ser uma repetição do já feito, mas aquilo que melhor possa nos conduzir a um futuro luminoso, mais humano e pleno. 

Respostas para como fazer isso não são fáceis, mas acredito que o primeiro passo é perder as esperanças. Sim, as esperanças de que um mundo capitalista possa nos dar algum futuro, pois não dará. O segundo passo, e decisivo, é ter clareza de que nossa missão revolucionária não diz respeito apenas a nós pessoalmente, mas ao futuro do próprio gênero humano e, por isso, só pode ser conduzido com a consciência da gravidade histórica vivida por nós neste começo de século XXI: ou transitamos para o socialismo ou não haverá mais nada. (por David Coelho)


quinta-feira, 17 de agosto de 2023

APENAS ATRAVÉS DA CRÍTICA DO VALOR SERÁ POSSÍVEL ALCANÇAR O SOCIALISMO

 


O
marxismo tradicional considerou que bastaria eliminar a extração de mais-valia privada, que assim passaria para as mãos do Estado pretensamente proletário, para que tudo pudesse caminhar para uma sociedade futura sem classes sociais distintas, sem Estado e sem o partido da classe operária, ou seja, para uma sociedade comunista. 

Concluído o processo de revolução armada, com a destituição do poder burguês - ou até mesmo feudal, como no caso da Rússia dos czares e da China dos Mandarins -, seria trilhado o caminho seguro para o comunismo preconizado por Karl Marx. 

Em países continentais como a Rússia e a China foi possível o fechamento das respectivas fronteiras contra o assédio e pressão contrarrevolucionária externa e interna e obter a consolidação de um poder político capaz de promover um avanço tecnológico contra o atraso e a miséria social desses países precursores da experiência marxista tradicional.  

Houve êxitos neste aspecto, tanto assim que a Rússia pode se contrapor militarmente com poderio armamentista até então desconhecido contra a Alemanha de Hitler e ajudar substancialmente o mundo a se livrar do domínio nazifascista.  

Entretanto, a relação social intramuros não deixou de ser capitalista, e sob a forma política verticalizada do Estado proprietário dos meios de produção cujos dirigentes viriam do partido da classe operária e o Estado seria gerenciado dentro dos interesses pretensamente proletários. 

 Instalou-se o capitalismo de estado

A pressão contra a transição necessária para uma sociedade livre do agrilhoamento do sistema de produção social sob a forma valor e seu fetichismo da mercadoria não era (e não é) coisa fácil, principalmente quando ainda havia espaço de expansão para tal forma de relação social.  

Tanto assim que Lenin, mesmo com toda a respeitabilidade advinda da condução vitoriosa do processo revolucionário bolchevique que livrou o povo russo de um regime monárquico feudal atrasado, teve que introduzir a NEP Nova Política Econômica –, que nada mais era do que concessões ao capitalismo privado de alguns setores da produção para o combate à fome que solapava a popularidade do regime então instalado. 

Doente, e cada vez mais debilitado por enfermidade que o levou à morte em 1924, aos 53 anos e apenas oito anos após a revolução bolchevique, não se sabe se ele teria tido tempo para fazer a correção de rumo necessária.  

O certo é que em toda a sua obra político-revolucionária, Lenin jamais abordou a questão da crítica da economia política marxiana no que concerne à negatividade intrínseca da forma valor e que diz respeito à necessária superação da relação social sob tal pressuposto e suas categorias fundantes, que permaneceram intactas sob seu breve período de governo.  

A crítica do valor enquanto modo de relação social negativa sob quaisquer formas políticas de governo é parte fundamental da obra da maturidade de Karl Marx e que suponho fosse por ele conhecida como estudioso do marxismo.   

Josef Stalin, que o sucedeu no poder político russo, ao invés de caminhar no sentido da superação das tais categorias capitalistas, preferiu, por comodidade e ambição inerentes ao seu estilo ditatorial que é em tudo e por tudo contrário ao que se preconiza como sociedade revolucionária anticapitalista, de ideal comunista, perseguir antigos revolucionários, como no expurgo dos anos 30 do século passado, e positivou ainda mais o modo de produção social capitalista sob o tacão do Estado pretensamente proletário.  

A fome dos anos 30 jamais justificaria o holodomor, como ficou conhecido o confisco da produção de grãos ucraniana entre 1932 e 1933 para sustentação do regime russo e que levou à morte milhões de pessoas naquela região de agricultura fértil e que ainda hoje vive oprimida pelos seus vizinhos. 

Com a vitória dos aliados na segunda guerra mundial na qual a URSS teve papel preponderante, Stalin pôde se afirmar como grande dirigente dito comunista até a sua morte aos 74 anos em 05 de março de 1953, na Datcha de Kuntsevo, Moscou, logo após 8 anos do término da segunda guerra mundial, quando começaram a vir à tona as atrocidades por ele cometidas em nome da liberdade comunista falseada. 

Na China de Mao Tse Tung, cujo regime revolucionário havia apenas começado - em 1949, quatro anos após o término da segunda guerra mundial e sob os escombros desta -, a admiração à inescrupulosa orientação stalinista serviu como exemplo a ser seguido, numa repetição de métodos e conceitos, até 1976, quando Deng Xiao Ping, promoveu a guinada para o capitalismo privado chinês, mantendo a forma política de centralização de comando sob um partido que se autointitula comunista.  

Nos dois exemplos sabemos todos o que veio a seguir.  

A China acelerou o seu ingresso na economia de mercado até atingir, hoje, o capitalismo de mercado livre sob o regime explorador de mais-valia de agricultores pobres urbanizados para conquistar o mundo com suas mercadorias baratas vendidas na concorrência mundial de mercado, causando um decréscimo na produção global de valor nunca antes experimentado. 

A Rússia seguiu caminho parecido, abrindo-se à economia de mercado, cujo marco de tal comportamento é simbolicamente compreendido como o momento da queda do Muro de Berlim em 1989 e a unificação da Alemanha dividida entre o bloco dito comunista oriental e o bloco capitalista liberal na época da guerra fria.   

É interessante considerar que o capitalismo precisa de expansão comercial de novas fronteiras de produção e comercialização de mercadorias sem o qual não sobrevive e foi justamente tal necessidade que forçou as aberturas capitalistas nestes dois países após cumpridas as etapas de modernizações capitalistas intramuros.  

Mas a expansão capitalista necessária, sem a qual o capitalismo esbarra nas suas próprias fronteiras, não pode suportar a paralisia que lhe é imanente e definha definitivamente!  

É justamente nesse ponto que a teoria marxiana contida n'O Capital  e bem mais detalhada nos rascunhos de estudos de Karl Marx hoje dado ao conhecimento - os GRUNDRISSE, obra que no Brasil somente em 2011 foi dado a conhecer em nosso idioma - encontra seu ponto de maior credibilidade histórica, confirmada pela atual situação de impasse irresolúvel sob a lógica da produção capitalista, equivocadamente considerada como dado ontológico da existência humana e como conquista irreversível da humanidade.  

O limite interno de expansão capitalista encontra sua fronteira histórica em dois aspectos:  

a) não há mais nenhuma sociedade mundial onde possa se instalar como novidade, e nem se desenvolver substancialmente sob os auspícios da produção mercadorias, vez que nestas sociedades empobrecidas nas quais se instalou tal modo de produção impera a miséria crescente e a barbárie; 

b) a guerra da concorrência mundial de mercado impôs a substituição gradativa da fonte primária da produção de valor capitalista, o trabalho vivo, assalariado, dito abstrato porque produtor de valor econômico, pelo trabalho morto, das máquinas tecnológicas, da era da microeletrônica dos robôs, computadores e satélites de comunicação mundial imediata, que somente  produz valor de modo globalmente decrescente, porque reduz o valor das mercadorias no altar da mão-invisível do mercado sem que haja acesso à compra e venda destas pelos trabalhadores tornados supérfluos na era do desemprego estrutural

Dessa forma, a direita nazifascista, doutrina que se considerava morta e sepultada pela consciência mundial consolidada graças aos horrores produzidos por ela na segunda guerra mundial, ressurge pelas mãos daqueles que temerosos de perderem os privilégios adquiridos na sociedade do capital, ou por mera ignorância histórica, e que sem nenhum pejo defendem os seus postulados, e não raro se expondo com as insígnias que até há bem pouco tempo seriam objeto de repulsa populacional.   

Por sua vez a socialdemocracia em seus vários matizes, incorporando os partidos da esquerda institucional e os partidos dito comunistas, também institucionais, adeptos do marxismo tradicional revogado pelo próprio Marx, preconizam a volta da retomada do desenvolvimento econômico numa demonstração de duas possíveis hipóteses simultâneas ou não, quais sejam:   

- dependência por deliberada e consciente aderência à forma de relação social capitalista da qual se tornaram defensores pretensamente humanistas e administradores políticos por incrustação ou inclusão no orçamento estatal cobrador de impostos - leia-se dinheiro advindo da produção capitalista e cobrado aos explorados assalariados nos quais tal forma de relação social extrai mais-valia, e que ainda financiam a própria opressão estatal; 

- por ignorância do caráter fetichista, egocêntrico, autotélico, onívoro, opressor, socialmente destrutivo e autodestrutivo da forma valor.   

E neste sentido que a crítica do valor não é uma mera corrente de pensamento doutrinário, mas a própria síntese da revolução atual antagônica ao servilismo político bem-intencionado e por ser uma constatação marxiana e que deve ser incorporada pela esquerda revolucionária como condição sine qua non para a superação dos impasses políticos-econômicos-ecológicos atuais e como forma de contraposição à autodestruição da humanidade. 

A crítica capitalista feita pela esquerda tornou-se obsoleta porque se tornou parte integrante do seu próprio objeto: a produção social capitalista. Assim, é a própria esquerda que tem que se reciclar sob pena de sucumbir perante a direita que cresce mundialmente em face do descrédito dos seus opositores de esquerda por estes últimos não apresentarem e defenderem alternativas consistentes.  

Trilhar um caminho pedregoso, com os graves riscos de quem trafega na contramão do sistema, é a única forma de atingirmos aquilo que Karl Marx preconizou como forma de alcançarmos os cimos luminosos que a própria humanidade forjou ao desenvolver os saberes científicos atuais. 

Tais saberes ora adquiridos, caso instalássemos revolucionariamente um modo de produção voltado para a satisfação das necessidades coletivas e não para a já impossível reprodução capitalista do valor no quantum necessário para a sobrevida do sistema de exploração, nos possibilitariam uma vida confortável e sustentável ao invés da barbárie que se instala pela contradição entre tais saberes e o conteúdo da relação social que se tornou obsoleta junto com os postulados políticos ora praticados.  

Não precisamos de salvadores da pátria, nem de pátria;  

não precisamos de estadistas, nem de Estado; 

não precisamos de guerras, mas de paz em uma vida sem armas; 

não precisamos de riqueza abstrata acumulada por poucos, mas de riqueza material acessível a todos; 

não precisamos de eleições para o exercício de um poder delegado e vertical, mas de decisões horizontalizadas, sem transferência de responsabilidades a procuradores infiéis; 

não precisamos de heróis, mas de gente simples e de vida simples compartilhada e solidária; 

não precisamos da morte, mas de vida sustentável, longeva, saudável e feliz! (por Dalton Rosado) 


segunda-feira, 13 de março de 2023

IRRACIONALISMO DO CAPITAL PODE LEVAR O MUNDO À GUERRA NUCLEAR

 


C
uba mantém todas as categorias capitalistas intactas e é por isso que não aceito a pequena ilha como exemplo de caminho para uma sociedade verdadeiramente comunista, ou seja, sem forma valor, Estado, partido político e classes sociais, como preconizou Karl Marx no seu ideário.

Sei também que isto seria impossível de acontecer num país de pouco mais de 10 milhões de habitantes e pequena extensão territorial. A queda do capitalismo se dará a partir da implosão dos seus próprios fundamentos e o castelo tenebroso de cartas deverá ruir por dentro e a partir dos grandes centros capitalistas mundiais. O importante auxílio de eventuais movimentos revolucionários foquistas, de guerrilhas urbanas, trabalhistas, de movimentos sociais civilizatórios, etc., serão complementares.  

Mas sempre me emociono quando leio sobre a bravura de Fidel e Raul Castro, Che Guevara, Camilo Cienfuegos, Faustino Perez, Célia Sanchez e tantos outros revolucionários que tombaram no confronto com o corrupto presidente Fulgêncio Batista, queridinho dos Estados Unidos, numa guerrilha a partir do desembarque em um pequeno barco de 12 metros com 82 revolucionários - com capacidade para no máximo 25 pessoas, o lendário Granma-, sob intenso fogo do exército regular cubano durante e após o desembarque no qual morreram 70 tripulantes. A saga da revolução cubana se iniciou com os 12 sobreviventes, com um precário apoio terrestre e com poucas armas. Uma epopeia digna de respeito. 

Foi, como disse certa vez Fidel, protegidos por uma escudo moral intransponível às agressões e uma convicção inabalável na vitória final contra tudo que representava a corrupta democracia burguesa cubana, que todo aquele movimento se estabeleceu e saiu vitorioso. 

Certamente os Estados Unidos pensaram que se tratava apenas de mais um golpe de Estado numa república bananeira caribenha, até que compreendeu a extensão da indignação do povo cubano com tudo que vinha sofrendo por conta de ser considerada a latrina estadunidense, onde corrupção política, prostituição e jogos em cassinos oferecidos aos turistas eram a base comportamental e de sustentação da precária economia daquela ilha caribenha. 

Em seguida à vitória retumbante, Fidel se declarou adepto do socialismo real, preconizado à ´época pela URSS, com comportamento tropical. Quando os Estados Unidos acordaram era tarde.    

A predominante população negra de Cuba  vivia em condições semelhantes às demais na América Central, em um nível profundo de pobreza e de super exploração. Enquanto ainda hoje estas populações vivem assim ou numa situação piorada, em Cuba o negro doutor e a população alfabetizada é fato destoante entre os países da região, apesar dos embargos econômicos de décadas, e este é um fato relevante.

Depois veio a tentativa de invasão estadunidense, somente contida pela ameaça de guerra nuclear após a instalação de mísseis atômicos soviéticos na ilha, numa negociação tensa que quase acionou o gatilho da destruição total. 

Cuba sobreviveu e Fidel morreu de velho, apesar dos embargos econômicos e de se situar a poucos quilômetros da costa estadunidense, e tudo decorreu como a resultante do equilíbrio das forças atômicas da guerra fria.

Agora, vivemos, novamente, uma situação de ameaça de guerra nuclear. 

O trem da Rússia daquela época da guerra fria já havia descarrilhado do rumo comunista e a de hoje nem de longe representa o ideal libertário comunista. Stalin, com Kruschev pelo meio, e Putin são versões políticas de uma mesma degeneração.

O capitalismo russo de hoje, sob uma forma política ditatorial, representa o oposto de todo o corolário do figurino de emancipação humana em busca de uma sociedade sem classes sociais, sem estado, sem partido político e completamente livre. 

Como se admitir como correto, sob qualquer argumento, o bombardeio de civis em várias cidades ucranianas, de leste a oeste, e de norte a sul, de modo unilateral, posto que nenhuma cidade russa foi até agora atingida? 

A Ucrânia vem sofrendo historicamente agressões de seus vizinhos alemães e russo, e não é por menos que muitos ucranianos aplaudiram ingenuamente a invasão hitlerista, até perceberem ser o déspota do oeste tão ofensivo e sanguinário quanto o do leste.

O nacionalismo capitalista em busca de hegemonia econômica é aquilo que está na base de todos estes conflitos, pois o capitalismo é uma guerra de mercado protegida por um Estado lhe dando sustentação jurídica no plano institucional, mas que não hesita em usar a força no plano bélico quando seus interesses econômicos se veem ameaçados. 

Como estamos percebendo, a China, com seu imenso potencial humano e bélico, tem se mantido numa posição dúbia, expressa da seguinte forma:

- ora se alia a uma parceria sem limites com a Rússia, se abstendo de condenar explicitamente a indefensável invasão ucraniana, além de criticar a ajuda ocidental militar, como justificativa para uma possível ajuda militar chinesa aos russos;

- ora medindo os seus vínculos comerciais e financeiros com o ocidente num mundo de economia globalizada, agindo de modo pretensamente equidistante de uma intervenção direta do conflito. 

O que se conclui de tais posicionamentos é que a questão moral humana se queda diante de interesses mesquinhos de lado a lado; é o capital dando ordens desumanas aos seus súditos humanos e, assim, a humanidade se vê à mercê de tais interesses e de ameaça tenebrosa de extinção. 

Em resumo: qualquer decisão de apoio a qualquer dos lados está previamente contaminada pelo equívoco essencial e básico, raciocinar sob a lógica do capital ao invés de negá-la peremptoriamente

A conclusão é que desde a crise nuclear cubana, passando pela dissolução na União Soviética, pela virada chinesa sob Deng Xiao Ping para a abertura de mercado e pela queda do muro de Berlim, nada mudou, ou seja, o capital comanda a ordem mercantil internacional e a relação entre os povos de modo xenófobo, numa briga na qual os dois lados estão previamente errados.    

Nós estamos como alguém que estando em São Paulo e querendo chegar ao Paraná, num veículo novo e possante, pega a via Dutra para o Rio de Janeiro e, quanto mais acelera, mais se distancia do destino correto. 

Precisamos de um novo parâmetro de referência social que não passa nem pelo totalitarismo político anticivilizatório, nem pela pretensamente boa, mas maliciosa, ou ingênua, intenção da democracia liberal burguesa de humanização de algo que é visceralmente desumano: a relação social produtora de mercadorias e a ordem jurídica que lhe dá sustentação

Acordemos da nossa teimosa letargia secular capitalista que nos impede de ver o óbvio. (por Dalton Rosado


domingo, 10 de outubro de 2021

O TIRANO DO BIGODÃO NÃO DIFERE TANTO DO GENOCIDA DE BIGODINHO, MAS O VELHO BARBUDO NADA TEM A VER COM ESSES DOIS

josé ovejero
O MANIFESTO COMUNISTA E O 
MEIN KAMPF SÃO COMPARÁVEIS?
"
Agora vamos ver se você traduz Mein Kampf", provocavam-me recentemente, após eu publicar uma edição do Manifesto Comunista, além de me jogarem na minha cara que estava difundindo uma obra que causou milhões de mortos. 

Confesso que me deixou perplexo essa equiparação entre os dois livros, que também encontrei em artigos de opinião. 

São eles comparáveis, exceto por sua enorme influência histórica? São igualmente imperdoáveis? É imoral traduzir e difundir o Manifesto?

Por mais diferentes que sejam, é inegável que têm aspectos comuns: são antiburgueses, defendem a revolução e o uso da violência, desconfiam da democracia parlamentar e expressam o desejo de melhorar a situação da classe operária. 

Mas, o que mais escandaliza os críticos do Manifesto é que também esta obra foi utilizada por regimes totalitários culpados de torturas e milhões de mortos.

Uma defesa bem-intencionada da obra de Marx consiste em observar que ele é tão pouco responsável pelos desmandos das ditaduras comunistas como Adam Smith pelos mortos provocados pelos regimes liberais em suas colônias. 

Hitler não só escreveu um texto que influenciou sistemas políticos posteriores; ele foi sobretudo o instigador de uma guerra que causou dezenas de milhões de mortos e da tentativa de exterminar os judeus. 

Embora a acusação a Hitler seja óbvia, a defesa de Marx não é totalmente suficiente. Não estamos falando de seus trabalhos mais teóricos, como
O Capital; embora o Manifesto inclua um esboço do materialismo histórico e uma breve análise da sociedade burguesa e do capitalismo, seu objetivo principal é orientar a ação dos movimentos proletários; assim é, em parte, responsável pelos atos que possa ter inspirado. 

Mas pode-se atribuir a ele a culpa pelo que fizeram décadas depois os revolucionários que agitam o livro vermelho de Marx?

Ponhamos as coisas em seu contexto: quando a Liga dos Comunistas encarrega Marx de redigir seu manifesto, as associações operárias são ilegais em numerosos países e os trabalhadores não podem votar; ou seja, não existe uma forma de representação pacífica de seus interesses; tal representação só foi obtida mediante enfrentamentos com as forças repressivas e com revoluções como a de 1848. 

Além disso, nos encontramos numa época em que a situação da classe trabalhadora é de miséria, desnutrição, moradias insalubres... A luta operária persegue a própria sobrevivência dos operários e suas famílias. Embora a evolução posterior tornasse obsoletas partes do Manifesto, é inegável sua contribuição para reduzir a exploração e melhorar a justiça social.

No entanto, são diferentes não apenas as condições nas quais ambos os livros foram escritos –quanto à liberdade de imprensa ou de associação e participação política, mas também o seu conteúdo. 

Mein Kampf defende a guerra da raça ariana contra todas as demais, especialmente a judaica, a repressão a qualquer dissidência e uma política internacional baseada na força. Seu nacionalismo feroz só conhece um fim: impor a cultura e a hegemonia alemãs. Nada de bom saiu daquele livro, nenhuma conquista social, nenhuma forma de convivência nem de progresso pacífico. 
Já graças ao movimento operário impulsionado pelo Manifesto desfrutamos de boa parte dos direitos sociais que hoje nos parecem evidentes.

Não se trata de justificar os crimes do stalinismo pondo-os na balança com avanços sociais. É que seria absurdo culpar o Manifesto por tais crimes. Muitas interpretações partidárias e interessadas dos textos marxistas pouco têm a ver com as teorias de seu autor.

Tomemos como exemplo há muitos outros a surrada ditadura do proletariado. Marx não a menciona no Manifesto, mas sim a necessidade de que os operários assumam todo o poder para transformar o Estado. 

Apesar do uso dado a esse conceito por quem recorre a Marx para justificar suas políticas revolucionárias e/ou ditatoriais, ele não se refere a uma ditadura tal como a entendemos hoje, quando temos a experiência das terríveis ditaduras do século XX. Ele está pensando numa forma de república democrática tal como a descreverá em A guerra civil na França

Para Marx, em meados do século 19 se dá uma ditadura da burguesia, pois é a única que pode impor seus interesses nos Parlamentos.

A classe operária, mais numerosa, depois de ter acesso ao governo mediante eleições – o que lhe parecia preferível – ou mediante ações revolucionárias, imporá uma democracia operária, transformará as relações econômicas até eliminar as diferenças de classe e alcançar a sociedade comunista; então o Estado já não será mais necessário. 

A ditadura do proletariado seria uma fase transitória em que novos servidores públicos plenamente responsáveis, e remunerados como operários, substituiriam os funcionários impostos pela burguesia. Marx nunca desejou a ditadura de partido único, e menos ainda a de uma só pessoa.

Por estas razões, e muitas outras, equiparar a obra do ditador nazista ao manifesto comunista exige ter muito má intenção ou não ter lido nenhuma das duas, como provavelmente é o caso. (por José Ovejero, na edição brasileira do jornal global El Pais)

terça-feira, 7 de maio de 2019

É HORA DE ROMPERMOS O DIQUE DA SEGREGAÇÃO HUMANA MILENAR!

dalton rosado
SOBRE A NATUREZA DAS MUTAÇÕES SOCIAIS
"Se um processo comporta várias contradições, existe necessariamente uma delas que é a principal e desempenha o papel dirigente, determinante, enquanto outras ocupam apenas uma 
posição secundária, subordinada" 
(Mao Tsé-Tung)
processo de evolução humana, calculado em cerca de 4,5 bilhões de anos, vem desde o surgimento de micro-organismos formadores da vida animal até os dias de hoje, quando os hominídeos se apresentam como a forma animal racional predominante; constitui-se no agregado de condições nas quais cada etapa é o pressuposto básico para o surgimento de uma nova etapa.

Dele se conclui que nada é definitivo, mas tudo se insere num processo de constantes mutações, as quais, por sua vez, não são lineares, já que não há simultaneidade evolutiva nos vários cantos da Terra, daí a dispersão de comportamentos sociais e de apreensão do saber.  

As civilizações maia e asteca são diferentes em forma e conteúdo entre si, bem como das civilizações persa, chinesa, e das africanas. 

Os europeus que chegaram às Américas no final do século 15 tinham culturas e valores sociais absolutamente diferentes dos que a habitavam, sendo inquestionável que é o domínio do saber aquilo que prevalece como cultura dominante quando povos de culturas diferentes se encontram (o que, obviamente, não se confunde com graus de qualidade de civilidade). 
A marcha da humanidade na América Latina...

São as contradições sociais, conjugadas com o ganho do saber delas decorrentes, que impulsionam as mutações sociais, mas a inconsciência sobre o teor das contradições é fator de convivência com elas sem que se consiga superá-las. 

Se os proletários tivessem consciência do seu imenso poder, a primeira coisa a ser superada seria a contradição implícita à sua própria condição de trabalhadores assalariados (a qual é uma categoria capitalista e, como tal, não caberia numa sociedade emancipada). 

É a ignorância do oprimido sobre a natureza da opressão  que permite a existência da opressão e a permanência da contradição que se expressa em aceitá-la de modo submisso. O oprimido é submisso e inconsciente à contradição que o oprime  (e que, ao mesmo tempo, gesta a sua libertação).   

O exemplo mais recente das contradições que impulsionam as mutações são os acontecimentos das últimas quatro décadas na China, com a ascensão ao poder de Deng Xiaoping após a morte de Mao Tsé-Tung em 1976. 

Todos os esforços revolucionários de Mao baseados no maxismo-leninismo, bem como sua oposição ao revisionismo da Rússia sob Stalin e seu sucessor Nikita Kruschev, esbarraram na força ditatorial da lógica do fetichismo da mercadoria não superada, com suas contradições intrínsecas permanecendo em ebulição latente. 
...e no mundo, segundo o muralista David Siqueiros.
Mao era um grande estrategista militar-revolucionário, mas pouco afeito à crítica da economia política marxiana esotérica, tal qual o seu guru Vladimir Lenin, daí não ter convergido para uma produção social fora da lógica do valor, o que seria possível graças à extensão territorial da China.

O mesmo raciocínio se pode usar para a Rússia, principalmente após a 2ª Guerra Mundial, com o incorporação de vários países libertados do nazismo à União Soviética.    

Graças a essa contradição não superada, Deng-Xiaoping, que na França havia sido operário metalúrgico (da Renault) e estudante, pôde assumir o poder e promover a chamada segunda revolução, que nada mais foi do que aproveitar o potencial de mão-de-obra chinesa barata para a produção industrial de mercadorias a preços competitivos de mercado, fato que se constituiu numa contradição antes inimaginável no combate ao capitalismo. 

Isto porque o desenvolvimento industrial chinês foi capaz de reduzir a substância do capital (ou seja, promoveu a redução de valor do trabalho abstrato) e inundar o mundo com suas mercadorias, com isto roubando espaço na concorrência internacional de mercado, ao mesmo tempo que reduzia a massa global de valor e de extração de mais-valia. 

A contradição da sustentação do capitalismo chinês se assenta sob dois pontos:
1. a redução da massa global de valor; e 
2. a colossal dívida pública e privada que se torna insolvável diante do limite de expansão do crescimento de sua produção industrial.
Depois da longa marcha, isto?! 
.
O modelo chinês vem sendo copiado pela Índia, o seu vizinho de igualmente populoso, e está causando mais uma contradição histórica, a volta do protecionismo de mercado, antes tão combatido pelos liberais capitalistas. 

[No momento em que escrevo este artigo, noticia-se que o mundo financeiro foi abalado pelas taxações estadunidenses, com as bolsas de valores do mundo inteiro sofrendo quedas.]

A contradição imanente ao capitalismo se mostra muito mais forte do que a intenção política (que é falha) de sua superação.

A ignorância sobre o significado conceitual de um governo de direita é, p. ex., o que explica o momento atual brasileiro. A população está cega ao domínio conceitual do saber sobre a forma e conteúdo de sua própria mediação social e, ao mesmo tempo, desesperada pela falta de condições de provimento do seu sustento cômodo. 

Isto faz com que subsistam de modo imperceptível as contradições e sejam eleitos aventureiros desqualificados para o comando político-estatal dessa mesma população, que agora paga alto preço pela escolha insensata  a que foi tangida.

Contudo, a contradição entre os bons resultados sociais prometidos e as decepções colhidas promove a busca de um novo conceito de relação social, ainda que o processo se repita de modo pendular entre projetos aparentemente antagônicos (governos de direita e de esquerda), mas que são similares nas suas bases econômicas.

Direita e esquerda, dentro de uma mesma concepção de modo de produção, representam variações políticas dentro de uma mesma base econômica, o que termina por fazê-las convergir tanto em termos de procedimentos quanto de conteúdo. 
"saber para onde e como ir: o único modo de sairmos do labirinto"
Somente com um novo modo de produção poderemos superar os nossos problemas sociais, daí existirem contradições principais sobre as quais devemos nos debruçar prioritariamente (as contradições secundárias, no entanto, não devem ser descuradas). 

Se caminharmos no sentido de uma produção social marginal ao mercado, ainda que isso se dê de modo lento e experimentando/enfrentando as oposições que o próprio capitalismo oferece (estado e forças do capital), estaremos construindo uma sólida base social e num patamar superior — método que, apesar da maior lentidão, é muito mais eficaz e duradouro do que a revolução armada, que impõe pela força a derrubada de uma outra força armada, sem questionar os fundamentos conceituais mais profundos da força derrubada. 

Saber para onde ir e como ir é o único modo de sairmos do labirinto intrincado que mantém o povo enredado nessa miséria e barbárie que cada vez mais se acentua. 

Vivemos hoje a contradição das contradições no itinerário da humanidade sobre o planeta Terra.  

Por um lado adquirimos, um saber capaz da realização de feitos admiráveis: 
"engenharia genética e clonagem de seres vivos"
— a engenharia genética e clonagem de seres vivos; 
— a produção de Inteligência artificial; 
 a programação de robôs capazes de efetuar diversas tarefas; 
 os prodígios na área da comunicação instantânea e visual; 
 os verdadeiros milagres no campo da medicina; 
— o armazenamento e processamento de informações cibernéticas sem as quais ainda estaríamos patinando nas anotações burocráticas e perecíveis; e
 as descobertas fantásticas no campo da física e da química,  etc., etc., etc.
.
Por outro lado –e exatamente pelo desenvolvimento vertiginoso do saber, a forma de mediação social pelo critério da produção de valor a partir da força de trabalho mensurada por um quantitativo de valor tornou-se algo absolutamente anacrônico, matematicamente inviável e desumano. 

O processo de capital que se transforma em mercadoria e que se transforma novamente em valor aumentado (C-M-C+) no mercado perdeu a sua base de exequibilidade social e está transformando a vida humana num inferno social. Tal fenômeno se consubstancia no vazio fim em si mesmo da valorização do valor com os malefícios sociais daí decorrentes, agora acentuados pelo seu ocaso histórico. 
"necessidade de criação de um novo modo de produção social"
A contradição entre a tese a produção de mercadorias a partir da mercadoria força de trabalho, modo de segregação patrocinado pela forma-valor (questão de forma) e a sua antítese o modo de mediação social tornado obsoleto sob tal critério graças à evolução tecnológica (questão de conteúdo) está a engendrar a síntese, consubstanciada na necessidade de criação de um novo modo de produção social que possa absorver todo a saber da humanidade em benefício da dita cuja. 

Colocar uma cunha entre a fissura que ameaça romper o dique da segregação humana milenar é saber aproveitar as contradições que ora se apresentam como condição da mais importante mutação social em curso neste início de século 21. (por Dalton Rosado)

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

PARA LER E REFLETIR: COMO A INTRANSIGÊNCIA DA ESQUERDA ALEMÃ ABRIU CAMINHO PARA A VITÓRIA DE HITLER

"...os eventos que tiveram lugar na Alemanha a partir do final dos anos 1920 ganham nova perspectiva, sobretudo agora, quando a extrema-direita levanta novamente a cabeça em diversas partes do mundo. 

O nazismo venceu no início dos anos 1930, em parte porque durante os dez anos anteriores realizou um intenso e escrupuloso trabalho de agitação e propaganda sobre as massas pequeno-burguesas e declassés de uma Alemanha dilacerada e humilhada pelo tratado de Versalhes. Em parte, porque faltou inteligência e iniciativa revolucionária aos chefes do proletariado.

É preciso lembrar que o nazismo não era a única força política na Alemanha daqueles anos e nem sequer a maior. Ao lado do NSDAP, o partido de Hitler, havia duas outras poderosas forças: os social-democratas do SPD e os comunistas do KPD, que, juntas, abarcavam a imensa maioria da classe operária alemã. 

Esta, por sua vez, mesmo após três levantes derrotados (1919, 1921 e 1923), continuava sendo a principal força social e política do país. Uma política justa por parte da direção do proletariado poderia ter barrado o caminho de Hitler ao poder e transformado a crise terminal da república de Weimar numa terceira revolução alemã, ou ao menos impedido a ascensão do nazismo.

Poderia não quer dizer que certamente seria. Mas é preciso saber que esteve colocada essa possibilidade. A vitória do nazismo nunca foi inevitável. 
O putsch da cervejaria, em 1923, deveria ter servido de alerta para a esquerda alemã... 

Ela ocorreu por uma complexa combinação de fatores, em que um dos mais importantes foi a política adotada pelo KPD stalinizado, que considerava a social-democracia como a principal inimiga da classe trabalhadora e por isso se recusava terminantemente a realizar com ela qualquer frente única para barrar a ascensão de Hitler.

...A fase de crescimento vertiginoso da influência do nazismo coincide no tempo com o que o stalinismo convencionou chamar de terceiro período. O termo foi cunhado em 1928 e corresponderia ao período de agonia final do capitalismo, etapa na qual o capitalismo seria fatalmente destruído pela revolução proletária. 

A conclusão lógica dessa avaliação foi que as massas se encontravam em um gigantesco ascenso, e que, portanto, toda e qualquer frente com outras forças e movimentos deveria ser descartada. Os partidos comunistas deveriam marchar sozinhos, rumo à tomada do poder. 
...assim como a componente golpista da paralisação dos caminhoneiros não acordou nossa esquerda 
Qualquer frente ou acordo seria uma traição e significaria a entrega da revolução. Sendo assim, a luta contra os inimigos internos ao movimento operário deveria ser intensificada e até elevada ao primeiro plano. Desta forma, toda a política dos partidos comunistas deveria ser direcionada contra o principal concorrente dentro do movimento operário: a social-democracia e os partidos socialistas.

Vale a pena lembrar que esta política de delimitação absoluta com os reformistas já havia sido condenada pelo III Congresso da Internacional Comunista, realizado em 1921, no qual se definiu pela atuação em conjunto, sob certas condições, com os partidos da social-democracia internacional. Esta política de unidade de classe para enfrentamento do inimigo comum entrou para a história com o nome de Frente Única.

Desde a sua elaboração, a política ultra-esquerdista do terceiro período foi aplicada a fundo na Alemanha. Isso significou a recusa a qualquer unidade de ação entre o SPD e o KPD para enfrentar física e politicamente o nazismo. 
Bolsonaro é insignificante demais?

Em todas as situações e em qualquer lugar, a social-democracia era considerada o inimigo principal. O reformismo foi igualado ao nazismo; surgiram e se propagaram expressões estúpidas e rasteiras como social-fascismoala moderada do fascismo (para se referir ao Partido Socialista) e outras.

Como desenvolvimento lógico dessa lamentável teoria, se afirmava que a vitória sobre o fascismo (que se reconhecia como inimigo) não seria possível sem que antes se derrotasse a social-democracia. A social-democracia era, segundo a teoria de Stalin, o pior inimigo, pois estava infiltrada nas fileiras do movimento operário, enquanto o fascismo era um elemento externo e, por isso, menos perigoso.

...a direção do KPD e da Internacional Comunista acreditava que os nazistas, uma vez no poder, se desgastariam tão rapidamente, que isso abriria, quase que imediatamente, a possibilidade de um governo do KPD. Coerente com essa previsão, em 1931 [o dirigente comunista alemão Ernst] Thälmann lança mais uma fórmula: “Depois de Hitler, será nossa vez!” Foi o último erro daquela direção.

Um mês depois da nomeação de Hitler como chanceler da Alemanha, o KPD já estava na ilegalidade, suas sedes estavam destruídas e seus líderes já estavam na prisão. O Partido Nazista, por sua vez, em novas eleições, conquistou a maioria definitiva no Reichstag, com mais de 17 milhões de votos. A vitória nazista estava consolidada. 

...Não seria um exagero dizer que a história não conhece até hoje maior exemplo de estupidez e cegueira política. O preço deste erro foi pago com o esmagamento do movimento operário alemão e com a 2ª Guerra Mundial." 
(trechos do excelente artigo As lições de Trotski na luta contra o fascismode Henrique Canary, publicado
em 2017 no site Esquerda OnLinecuja íntegra 
pode ser acessada aqui)

sábado, 30 de junho de 2018

SUBESTIMANDO HITLER, A ESQUERDA ALEMÃ FACILITOU A ESCALADA NAZISTA. E NÓS, SUBESTIMAREMOS BOLSONARO?

Além da justificada catilinária de Josias de Souza contra o presidenciável ultradireitista Jair Bolsonaro, que reproduzimos aqui, outro artigo fundamental  deste sábado, 30, é Lógica sectária, do Demétrio Magnoli, no qual ele crítica a visão de André Singer, de que a eleição deva ser encarada como uma disputa entre a esquerda ("Lula ou quem ele indicar, Ciro, Manuela e Boulos") e a direita ("tal como melancias no caminhão, o sacolejo irá arrumando as relações entre Bolsonaro, Alckmin, Meirelles ou Temer, Maia e Marina").

Assim como eu também já o fiz nesse mesmo contexto, Magnoli lembrou os erros cometidos pela esquerda stalinizada que facilitaram a conquista do poder pelos nazistas:
"Nove décadas atrás, no declínio da Alemanha de Weimar, os comunistas alemães aplicaram a estratégia do terceiro período, ditada a partir de Moscou. De acordo com o dogma inventado por Stálin, a revolução proletária aguardava na esquina —e, diante do espectro da insurreição, os social-democratas convertiam-se em aliados objetivos dos nazistas. Consequentemente, os comunistas rejeitaram a ideia de uma aliança com os social-fascistas, facilitando a ascensão de Hitler"
Ele constata que o PT está fazendo a mesmíssima besteira atualmente:
"No discurso e em certas práticas políticas, o PT parece-se, cada vez mais, com os antigos partidos comunistas. Colocando no saco bolsonarista melancias como Alckmin, Marina, Maia ou Meirelles, Singer pouco esclarece sobre a corrida presidencial, mas revela-nos que o PT percorre o túnel escuro do terceiro período."
E aponta o que mudou nesta eleição, obrigando-nos a deixar de lado a visão que perdurou "durante um quarto de século, [quando] o dilema expressou-se como disputa binária PSDB/PT, ou seja, "sob a forma da concorrência entre os partidários da economia de mercado e os do capitalismo de Estado".

Agora, contudo, temos de repetir Camões: "Cessa tudo que a antiga musa canta/ que outro valor mais alto se alevanta", qual seja a necessidade de barrarmos a pior ameaça à esquerda brasileira desde a redemocratização. 

Neste sentido, será imperativo somarmos forças com as melancias de centro-direita e centro-esquerda, pelo mais simples dos motivos: 
  • tendo-as como adversárias na rotina democrática, sobreviveremos para continuar lutando por nossos objetivos;
  • já se tivermos a direita nostálgica do regime militar como adversária,  a rotina democrática poderá ser trocada por execuções, torturas, estupros e outras atrocidades, com reais possibilidade de não sobrevivermos, politicamente e até fisicamente. 
A opção que devemos escolher me parece inequívoca.
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