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domingo, 25 de maio de 2025

O CRÍTICO ACIDENTAL TAMBÉM APONTA OS 10 MELHORES FILMES DE TODOS OS TEMPOS

O
 UOL ultimamente tem publicado listas de
10 melhores filmes de todos os tempos, elaboradas por cineastas como Guillermo Del Toro, Martin Scorcese,  Oliver Stone e Sofia Coppola.

Não sou nenhum mestre do ofício, quanto muito um crítico acidental (vide aqui), nem imaginava que minhas preferências pudessem acrescentar algo às escolhas desses profissionais consagrados, então ia me limitando a somente ler e meditar sobre tais listagens.

Só que percebi um pequeno detalhe: os 10 mais desse pessoal nem de longe estavam com essa bola toda. Lista por lista, uma minha seria até melhor. 

O que, lembrei-me depois, já percebera noutros carnavais. As opiniões de críticos costumam ser bem melhores que as dos técnicos e artistas que atuam na área, pois estes últimos valorizam exatamente aqueles concorrentes ou antecessores com os quais se identificam ou se identificaram. Na verdade, estão votando em si mesmos ao votarem nos outros.

Já os críticos somos mais propensos a reconhecer a genialidade de quem nos desagrada. Acho um pé no saco os aclamados
filmes de gangstêres do Martin Scorcese, mas nunca os qualificaria de irrelevantes. E aplaudo em pé os muitos que ele faz sobre o blues e quase ninguém vê (só O Último Concerto de Rock, de 1978, foi bem nas bilheterias). 

Eis minha lista. Quem discordar, pode detoná-la à vontade nos comentários:

1º    Cidadão Kane (dirigido por Orson Welles e lançado em 1941): um divisor de águas, estava tão adiante de sua época que só começou a ser alcançado por outros cineastas na década de 1960. Mostra a chamada coisificação de um ricaço que, idealista no início, sofre tais tragédias pessoais que acaba se enclausurando amargurado numa ilha de quinquilharias valiosas e nelas projetando sua humanidade até nada restar além de uma palavra enigmática a ser decifrada. 
2º   Oito e meio  (d. Federico Fellini, 1963): pura genialidade e irreverência desde o título zombeteiro, pois apenas quer dizer que se trata do oitavo filme dirigido por Fellini, além do seu episódio numa obra conjunta. Visão delirante de um cineasta em crise criativa e tentando colocar uma ordem no seu emaranhado de lembranças dolorosas e desafios presentes, é um arraso e o seu desfecho, um dos melhores da história do cinema. 
3º    A ponte do rio Kwai (d. David Lean, 1957): nunca o cinema explorou tão bem o drama de indivíduos com talentos superlativos, mas capazes de passar sem sequer perceberem de heróis a traidores por sua vulnerabilidade às armadilhas do ego (no caso, a necessidade obsessiva de afirmar superioridade sobre outros povos, vista como uma característica de caráter inglesa). Outro filme com desfecho de arrepiar. 
4º    
Era uma vez na América (d. Sergio Leone, 1984): uma aula de história do século 20, com a trajetória, desde a meninice, de quatro amigos judeus-estadunidenses simbolizando a transição dos pequenos negócios aventureiros para as grandes corporações implacáveis. A América que deixou de existir é a dos ideais dos fundadores e a que tomou seu lugar, a do crime organizado. Nada melhor para entendermos como se chegou ao pesadelo trumpiano. E se trata de um épico sobre gangsterismo  que, por comparação, pulveriza a pieguice rasteira dos chefões de Francis Ford Coppola e Mario Puzo.
5º    Stalker (d. Andrei Tarkovsky, 1979): provavelmente o filme de ficção científica mais ambicioso de todos os tempos, ao colocar em discussão os grandes temas da humanidade ao longo da incursão por uma zona proibida de um guia místico, um professor para quem nada existe além da ciência e um escritor em busca de inspiração. A fé, a ciência e a arte numa difícil jornada por uma terra devastada, para chegarem a um quarto que, após ser atingido por um meteorito, se tornou local em que a verdade é revelada e os desejos, atendidos.    
6º    Blow-Up (d. Michelangelo Antonioni, 1966): fotógrafo descobre, ao revelar o filme com fotos tiradas num parque, que casualmente registrou um assassinato.  Mas a descoberta seguinte é ainda mais surpreendente: ninguém está interessado. Depois de muito empenhar-se em trazer o caso à tona, conforma-se em também acreditar nas ilusões, como todos os outros, ao invés de afligir-se com as realidades desagradáveis. É uma parábola devastadora sobre a exacerbação do narcisismo e da alienação na sociedade de consumo, outro filme que nos ajuda a compreender o pesadelo atual.   
7º    Aguirre, a cólera dos deuses (d. Werner Herzog, 1972): é Herzog encontrando um paralelo perfeito para Adolf Hitler no aventureiro Lope de Aguirre, que em 1561 assume violentamente a liderança de uma expedição espanhola na América quando o comandante já decidira ordenar o retorno. Apesar de todos os seus rompantes de autoritarismo e de a inutilidade dos esforços evidenciar-se cada vez mais, todos se resignam. A vontade alucinada de um único homem arrasta os demais insensivelmente para a destruição, assim como o povo alemão continuou hipnotizado pelo führer mesmo quando já saltava aos olhos o fracasso iminente. 
8º    Terra em transe (d. Glauber Rocha, 1967): continua sendo até hoje o melhor de todos os filmes sobre a tragédia latino-americana, por ir corajosamente ao fundo da questão, ao apontar as culpas de uma direita totalmente desumana e predatória ao extremo, de uma esquerda que amiúde fracassa nos momentos decisivos além de facilmente se deixar seduzir por farsantes populistas e/ou autoritários e de povos que não ousam tomar o destino nas próprias mãos, eternamente dependentes de quem os guie. E mesmo o poeta, que é capaz de perceber tal tragédia em toda a sua extensão, não consegue escapar da armadilha e destravar a História. Como a esquerda armada poderia dizer de si própria, só lhe restou imolar-se em nome da beleza e da justiça, quanto muito deixando um exemplo mais digno para os pósteros.
9º    O sétimo selo (d. Ingmar Bergman, 1957): se Deus não existe e o homem é o lobo do homem, o que resta? O bravo cavaleiro percorre as terras devastadas da Idade Média à procura de uma resposta que nunca surge, enquanto os horrores se renovam e acumulam cada vez mais. Seu tempo restante de vida depende da partida de xadrez que disputa com a Morte, mas aos poucos vai se compenetrando de que não reencontrará a esperança em lugar nenhum. Um dos filmes mais pessimistas que conheço, mas é impossível deixarmos de admirar a integridade com que Bergman expõe suas próprias dúvidas e o domínio que tinha de sua arte.   
10º  O demônio das Onze Horas (d. Jean-Luc Godard, 1965): não poderia faltar o cineasta mais influente do último grande período revolucionário da humanidade, a segunda metade da década de 1960. Godard inspirou cineastas por todo o planeta, desconstruiu o cinema convencional e deu asas à imaginação como ninguém até então fizera. É difícil colocar um único de seus filmes entre os melhores de todos os tempos, na verdade o principal legado que deixou foi o conjunto de sua obra. Mas, talvez por mera questão de momento, os dois mais marcantes acabaram sendo este e A Chinesa (1967).  E talvez sua obra-prima haja sido interromper o Festival de Cannes de 1968 porque aquilo que realmente importava estava acontecendo lá fora, nas ruas e nas barricadas de Paris. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 20 de janeiro de 2023

PARA CELEBRAR O ANIVERSÁRIO DE FELLINI, VEJA UM DE SEUS MAIORES CLÁSSICOS


 Na data de hoje, 20 de janeiro, celebram-se os 103 anos de Federico Fellini, um dos grandes mestres do cinema mundial. 

Por isso, para celebrar a efeméride, o blog indica um dos primeiros grandes clássicos do diretor: Os Boas Vidas (I vitelloni), de 1953, que pode ser assistido na janela ao final do post. 

Filme inserido no chamado neorealismo italiano, a película acompanha um grupo de cinco amigos - Fausto, Alberto, Leopoldo, Ricardo e Moraldo - em uma cidadezinha do interior da Itália do pós Segunda Guerra Mundial. 

Filhos da classe média baixa local, vivem na ociosidade, sem se ocupar com empregos, estudos ou negócios. Não buscam assumir qualquer compromisso e, mesmo quando forçados a isso, buscam ao máximo a evasão, se recusando a arcar com os preços de seus objetivos e ações. 

Assim, Fausto, obrigado a se casar com a irmã de Moraldo após engravida-la, recusa sua condição de pai de família, e persiste na vida de boêmia e flertes. Alberto deseja comandar a irmã, mas vive do salário dela. Ricardo troça de trabalhadores braçais, mas foge quando por eles confrontado. Leopoldo deseja fazer sucesso no teatro, mas se abomina com a sugestão sexual de um diretor renomado. Já Moraldo surpreende-se com o fato de alguém acordar às três da manhã para trabalhar. 

Na realidade, o grupo expressa em sua superficialidade e descompromisso a própria condição dos jovens da classe média italiana -e mesmo europeia - após anos de terror fascista e de guerra destrutiva. Embalados na era dourada de crescimento acelerado capitalista, graças à reconstrução do que fora devastado na guerra, acalentados pela paz perpétua e pelo recém instituído Estado de Bem-Estar Social, não havia muito no que se engajar ou pelo qual lutar. 

Da mesma época, o filme Juventude Transviada (Rebel Without a Cause), de 1955, do diretor Nicholas Ray,  aborda nos EUA o mesmo fenômeno desta juventude desenraizada e cuja essência é ser pura potencialidade irrealizável. Os valores tradicionais foram liquidados pelo turbilhão da Guerra, o mundo está definitivamente dividido em socialismo e capitalismo, não há mais revoluções a lutar ou inimigos a combater, mas também não existem perspectivas para quem deseja ser mais que uma simples peça do quebra-cabeças da nova ordem social. 

Por óbvio, este suposto estado de bem aventurança era mera ilusão, aparência sem substância logo posto abaixo a partir da década de 1960, quando o crescimento capitalista bateu no teto e a virada neoliberal rompeu a cena apontando o caos a ser vivido nas décadas seguintes, continuado até hoje. No percurso houve a Guerra do Vietnã, as ditaduras, guerras de independência, as guerrilhas e brigadas. 

Esta ilusão, inclusive, é mostrada por Fellini de modo magistral no próprio sentimento de inadequação atravessando o grupo de amigos, uns sentido mais, outros menos. Será Moraldo quem sentirá este sentimento com mais intensidade, motivo do seu desfecho e de sua recusa a seguir aquela vida com os amigos. 

Curiosamente, este final remete também às últimas cenas de La Dolce Vita (1960), outro clássico do diretor e cujo tema é idêntico ao de Os Boas Vidas, apenas mudando o foco para a juventude intelectualizada e artística de Roma. Enquanto Moraldo parte em busca da realidade, é ela própria quem chega a Marcello Rubini em uma praia após mais uma noite de boêmia. Ou seja, caso não se busque romper o muro da ilusão, a própria feiura do mundo encontra um jeito de invadir a cidadela.

Para os dias de hoje, Os Boas Vidas é um filme necessário a todos que ainda se negam a encarar o mundo de frente, persistindo na eterna adolescência do descompromisso, seja na vida pessoal ou no âmbito político.

(por David Emanuel Coelho) 





sábado, 8 de outubro de 2022

A RECEITA QUE DEI HÁ 4 ANOS CONTRA A DESTRUIÇÃO DO BRASIL CONTINUA VÁLIDA

Ensaio de orquestra –filme raríssimo, mas que vocês ainda podem acessar, completo e legendado, clicando aqui–  é, seguramente, o mais amargo de Federico Fellini, um dos maiores diretores de todos os tempos, cujo Oito e Meio (1963) está entre os monumentos da sétima arte.

Realizado em 1978, é inusualmente curto (só tem 69 minutos), não conta com grandes nomes no elenco, nem eles fazem falta. Basta a força da história, a criatividade delirante de Fellini e a genialidade musical de Nino Rota.

Expressa magnificamente um dos piores momentos da vida italiana, quando a esquerda tradicional se avacalhou e os agrupamentos mais combativos embarcaram na desastrosa aventura da luta armada.

Não sobrou nada. Os partidos de direita estavam emporcalhados até a medula, envolvidos com a máfia, as negociatas do Vaticano, a corrupção desenfreada. 

O PCI jogara seus ideais e sua história no lixo para dividir o poder com a putrefata Democracia Cristã. 

A extrema-esquerda facilitava a própria destruição ao tomar decisões insensatas como a de executar Aldo Moro.

O sensível Fellini respondeu a este quadro desolador com uma parábola devastadora. Mostra uma orquestra que se rebela contra o diretor tirânico mas, depois de o expulsar, não sabe o que fazer com a liberdade conquistada. 

Direciona-se cada vez mais para a irracionalidade e o caos, até que o diretor escorraçado volta para evitar o pior: um buraco negro que ameaça a todos tragar. 

Mas, sua liderança logo deixa de ser comedida e conciliatória; mal restabelece a ordem, vai se tornando cada vez mais autoritário e odioso. É a volta ao ponto de partida.

Aparentemente, Fellini concluiu que a sociedade não tinha mais jeito, oscilando entre o chicote e o esfarelamento.

Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência. Se o Brasil sair da eleição  como entrou, cindido em duas metades irreconciliáveis, a etapa seguinte será o confronto aberto e depois o vencedor terá de implantar alguma forma de ditadura, mesmo que não queira, pois vai estar sob ameaça de uma revanche do vencido.

É isto que queremos, a autofagia? Não? Então, temos de mandar um firme recado aos antagonistas: chega de ódio! Precisamos do diálogo e do entendimento entre as partes para escaparmos do buraco negro que  poderá nos destruir a todos. 

Quem conseguir passar esta mensagem à sociedade de forma convincente, vencerá o 2º turno. 
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Por Celso Lungaretti
(post publicado neste blog em 7 de outubro de 2018, mostrando um quadro semelhante ao atual, com algumas diferenças como o de que a destruição do Brasil e o retrocesso civilizatório avançaram acentuadamente, tornando ainda pior o que já era um pesadelo, além de o confronto aberto não ter vindo depois daquela eleição nem tender a vir depois desta, continuando, contudo, a drenar dia após dia as energias de que nosso país precisa para sair do fundo do poço)

domingo, 7 de outubro de 2018

UM FILME ASSUSTADOR DE FELLINI E A DICA QUE ELE DÁ SOBRE COMO VENCER A ELEIÇÃO

Ensaio de orquestra –que vocês ver na janelinha abaixo, completo e legendado–  é, seguramente, o filme mais amargo do mestre Federico Fellini, um dos maiores diretores de todos os tempos, cujo Oito e Meio (1963) está entre os monumentos da sétima arte.

Realizado em 1978, é inusualmente curto (só tem 69 minutos), não conta com grandes nomes no elenco, nem eles fazem falta. Basta a força da história, a criatividade delirante de Fellini e a genialidade musical de Nino Rota.

Expressa magnificamente um dos piores momentos da vida italiana, quando a esquerda tradicional se avacalhou e os agrupamentos mais autênticos embarcaram na desastrosa aventura da luta armada.

Não sobrou nada. Os partidos de direita emporcalhados até a medula, envolvidos com a máfia, as negociatas do Vaticano, a corrupção desenfreada. O PCI que jogara seus ideais e sua história no lixo para dividir o poder com a putrefata Democracia Cristã. A extrema-esquerda que facilitava sua própria destruição ao tomar decisões insensatas como a de executar Aldo Moro.

O sensível Fellini respondeu a este quadro desolador com uma parábola desoladora. Mostra uma orquestra que se rebela contra o diretor tirânico mas, depois de o expulsar, não sabe o que fazer com a liberdade conquistada. 

Direciona-se cada vez mais para a irracionalidade e o caos, até que o diretor escorraçado volta para evitar o pior: um buraco negro que ameaça a todos tragar. Mas, sua liderança logo deixa de ser comedida e conciliatória; mal restabelece a ordem, vai se tornando cada vez mais autoritário e odioso. É a volta ao ponto de partida.

Aparentemente, Fellini concluiu que a sociedade não tinha mais jeito, oscilando entre o chicote e o esfarelamento.

Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência. Se o Brasil sair da eleição  como entrou, cindido em duas metades irreconciliáveis, a etapa seguinte será o confronto aberto e depois o vencedor terá de implantar alguma forma de ditadura, mesmo que não queira, pois vai estar sob ameaça de uma revanche do vencido.

É isto que queremos, a autofagia? Não? Então, temos de mandar um firme recado aos antagonistas: chega de ódio! Precisamos do diálogo e do entendimento entre as partes para escaparmos do buraco negro que  poderá nos destruir a todos.

Quem conseguir passar esta mensagem à sociedade de forma convincente, vencerá o 2º turno. 

E a campanha do Haddad é a que tem melhores condições para trocar a beligerância pelo apelo à sensatez, pois a de Bolsonaro foi alavancada desde sempre pelo ódio e dele se nutre. 

Se não puder apontar inimigos aos seus seguidores, unindo-os na rejeição ao outro lado e pregando a destruição de seres humanos, esvaziará com um balão ao ser furado. 

domingo, 9 de fevereiro de 2014

É UMA OBRA DE GÊNIO. É UM SOCO NO ESTÔMAGO.


Ensaio de orquestra -que vocês agora podem ver no blogue, completo e com legendas em espanhol- é, seguramente, o filme mais amargo do mestre Federico Fellini, um dos maiores diretores de todos os tempos, cujo Oito e Meio (1963) está entre os monumentos da sétima arte.

Realizado em 1978, é inusualmente curto (só tem 69 minutos), não conta com grandes nomes no elenco nem eles fazem falta. Basta a força da história, a criatividade delirante de Fellini e a genialidade musical de Nino Rota.

Expressa magnificamente um dos piores momentos da vida italiana, quando a esquerda tradicional se avacalhou e os agrupamentos mais autênticos embarcaram na desastrosa aventura da luta armada. 

Não sobrou nada. Os partidos de direita emporcalhados até a medula, envolvidos com a máfia, as negociatas do Vaticano, a corrupção desenfreada. O PCI que jogara seus ideais e sua história no lixo para dividir o poder com a putrefata Democracia Cristã. A extrema-esquerda que facilitava sua própria destruição ao tomar decisões insensatas como a de executar Aldo Moro.

O sensível Fellini respondeu a este quadro desolador com uma parábola desoladora. Mostra uma orquestra que se rebela contra o diretor tirânico mas, depois de o expulsar, não sabe o que fazer com a liberdade conquistada. 

Direciona-se cada vez mais para a irracionalidade e o caos, até que o diretor escorraçado volta para evitar o pior: um buraco negro que ameaça a todos tragar. Mas, sua liderança logo deixa de ser comedida e sensata; mal restabelece a ordem, vai se tornando cada vez mais autoritário e odioso. É a volta ao ponto de partida.

Aparentemente, Fellini concluiu que a sociedade não tinha mais jeito, oscilando entre o chicote e o esfarelamento.

Qualquer semelhança com o Brasil de hoje não é mera coincidência. Assim como a traição do PCI deixou a Itália sem um norte, a domesticação do PT nos tornou desiludidos, prostrados e macambúzios, assistindo a um retrocesso que parece não ter fim, sem encontrarmos forças para acordar do pesadelo.     

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

VIVA O HUMOR, ABAIXO A CARRANCA!

Desde os tempos de Aparício Torelly (o mui digno Barão de Itararé), a sátira política é um respiradouro para cidadãos sem meios mais efetivos para confrontarem os poderosos.

"Manda quem pode e obedece quem tem juízo", diziam os antigos. Mas, submeter-se ao mandonismo ofende e amargura homens livres. O desabafo na forma de humor é o paliativo que desopila seu fígado e lhes permite conservar o amor próprio.

Vai daí que, depois de um longo e tenebroso inverno, posso finalmente elogiar uma decisão de ministro do Supremo Tribunal Federal: a de Carlos Ayres Britto, concedendo liminar contra o dispositivo casmurro da Justiça Eleitoral, tentando impedir que as emissoras de rádio e TV ridicularizem os sumamente ridículos candidatos ao próximo pleito.

O único erro dos humoristas é a redundância: os integrantes dessa inacreditável legião de feios, sujos e malvados tudo fazem para desmoralizar a si próprios, na caça sôfrega aos votos.

As imagens do programa eleitoral gratuito superam as mais grotescas aberrações concebidas pela genialidade delirante de Federico Fellini.

E, como as ervas daninhas crescem com mais vigor e os maus exemplos sempre frutificam nestes tristes trópicos, sabe-se lá até onde uma escalada censória poderia chegar. Melhor esmagarmos o quanto antes o ovo da serpente.

Preservemos o que ainda resta de cordialidade no brasileiro!

E prestemos tributo a heróis esquecidos como Alvarenga e Ranchinho que, por volta de 1940, depois de exporem em suas apresentações a nudez do ditador Getúlio Vargas, fugiam antes da chegada da Polícia.

[Cheguei a assisti-los, já idosos, detonando o  homem da vassoura  com uma paródia da clássica "Menino de Braçanã", de Luiz Vieira. Em vez de "quem anda com Deus não tem medo de assombração", cantavam "quem já viu o Jânio Quadros não tem medo de assombração"...]


Glória eterna ao grande Sérgio Porto/Stanislaw Ponte Preta, cuja série Febeapá (Festival de Besteiras Que Assola o País) disse tudo que havia a dizer-se sobre a ditadura militar, no tempo em que ela se caracterizava mais pelo besteirol -- a bestialidade só passou a dar a tônica depois da morte do Lalau.

À extraordinária equipe de humoristas de O Pasquim, com destaque para o benjamim que acabou se tornando o melhor da turma: Henfil.

E, claro, também ao menestrel Juca Chaves, autor de sátiras inspiradíssimas como Dona Maria Tereza (conselhos à esposa do então presidente), que bem merece encerrar esta digressão:

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart
que a vida está uma tristeza,
que a fome está de amargar.

E o povo necessitado
precisa um salário novo,
mais baixo pro deputado,
mais alto pro nosso povo.

Dona Maria Tereza,
assim o Brasil vai pra trás,
quem deve falar, fala pouco,
Lacerda já fala demais.

Enquanto feijão dá sumiço,
e o dólar se perde de vista,
o Globo diz que tudo isso
é culpa de comunista.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango porque
o povo vê quase tudo,
só o Parlamento não vê.

Dona Maria Tereza,
diga a seu Jango Goulart,
lugar de feijão é na mesa,
Lacerda é noutro lugar.
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