Mostrando postagens com marcador sci-fi. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador sci-fi. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 6 de novembro de 2024

O MUNDO MARCHA PARA O FIM...

...é o título nacional de The Satan Bug, filme de ficção científica dirigido por John Sturges em 1965, sobre uma arma bacteriológica que vinha sendo desenvolvida secretamente no deserto para inclusão no arsenal da guerra fria,  mas é roubada do laboratório e tem potencial para extinguir a humanidade.

Hoje estamos exatamente nesse clima: espalhamos bugs da destruição de nossa espécie como cogumelos e, quando precisamos desesperadamente de esforços conjuntos das gentes e das nações para colocá-los sob controle, o país mais poderoso do planeta elege um presidente  ultradireitista que, irracionalmente, tudo fará para maximizar as ameaças.

O filme de quase seis décadas atrás mostra uma fictícia corrida contra o tempo. A real, estamos perdendo de goleada. 

E o happy end parece cada vez mais improvável. Será que nem sequer lutaremos por nossas vidas?

Estaremos tão ocos que o desfecho se dará à maneira do T. S. Eliot? É assim que acaba o mundo. Não com estrondo, mas com um suspiro. (por Celso Lungaretti) 

sexta-feira, 25 de outubro de 2024

GARGALHADA NO INFINITO (um conto distopico de Celso Lungaretti)

 Contar-lhes ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. 

Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. 

E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. 

Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. "E eu, quão repulsivo deveria parecer?" – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. 

A produção de cereais era cada vez menor. 

Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

"Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?" – propôs Druso. 

"Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação..."

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação.
Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. "Ou eu estava deliberadamente me alheando?"

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos.

Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. 

Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo.

Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. 
Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. 

Pai da AstronaveArquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável.
 

Ao amanhecer, com Ilana em sono profundo, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). 

Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.
Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. 
"Não merecemos sobreviver", constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.
E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. 
"Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo" – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o voo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. "Céus, quanto tempo desperdicei!" – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.
O
bservações 
–  Já nem lembrava mais de haver escrito este conto nos anos 70, quando eu era devorador compulsivo das obras dos mestres do gênero sci-fi, como Philip K. Dick, Robert Heinlein, Kurt Vonnegut Jr., Richard Matheson, Robert Silverberg, Ray Bradbury, Joseph Heller e Ken Kesey, dentre outros.

Foi filho único. Fiz o melhor que pude, mas, trabalho pronto, percebi que ficara muito aquém dos autores a quem admirava. Resolvi que não era este o meu caminho na literatura.

Então, estou republicando-o agora apenas como uma curiosidade, já que o companheiro Dalton acaba de fazer também sua incursão pela ficção científica.

Olhando para trás, costumo refletir sobre o que seria da minha vida se tomasse decisões que cogitei e acabei descartando. 

Como a de ir reconstruir a minha vida no exterior tão logo me livrasse dos quatro processos a que respondia na Justiça Militar por minha militância revolucionária. Tendo isto demorado vários anos para acontecer, veio-me a esperança de que logo o Brasil se redemocratizaria e resolvi esperar para participar das obras de reconstrução.

E se houvesse aceitado a proposta do cineasta Roberto Santos, que me convidou para ser seu assistente de direção, teria me dado bem como roteirista e provavelmente diretor  de filmes? 

Sei lá, mas, como bem disse o Abel Silva, nada do que posso me alucina tanto quanto o que não fiz... (CL)

quinta-feira, 21 de maio de 2020

O PALHAÇO SINISTRO LAVA SUAS MÃOS E ENTREGA A BACIA IMUNDA AOS MÉDICOS; PARA OS BRASILEIROS SOBRAM AS CRUZES

josias de souza
BOLSONARO RESPONDE ÀS MORTES COM FICÇÃO-CIENTÍFICA
O novo protocolo do Ministério da Saúde sobre o uso da cloroquina no tratamento da covid-19 não é uma peça médica. Trata-se de um documento marcial. 

Eduardo Pazuello, o general improvisado interinamente no cargo de ministro da Saúde, cumpriu uma ordem de Jair Bolsonaro, comandante em chefe das Forças Armadas. Isso tem a ver não com a saúde dos pacientes, mas com a guerra ideológica que o presidente criou para ocupar o tempo vago que ele obteve quando abriu mão de presidir a crise do coronavírus. 

Até aqui, o Ministério da Saúde restringia o uso da cloroquina apenas para pacientes hospitalizados e em estágio grave da doença. O novo protocolo indica a cloroquina para todas as fases da covid-19, inclusive para doentes não hospitalizados, com sintomas leves de contaminação. 

Não há no protocolo o aval de nenhum médico. O documento faz questão de anotar que não existem análises ou ensaios clínicos que comprovem os "benefícios inequívocos" da cloroquina no tratamento da covid-19. E deixa a critério dos médicos a prescrição, exigindo a concordância por escrito dos pacientes. 

Não é que o governo esteja lavando as mãos. O problema é que o protocolo autoriza os médicos a ensaboarem suas mãos na mesma bacia. E ainda esconde o sabonete dos pacientes e dos seus familiares.

Se isso fosse levado a sério, o que não deve ocorrer, na hipótese de que alguém tivesse complicações cardíacas ou hepáticas em função do uso da cloroquina, não poderia culpar senão a si mesmo. A irresponsabilidade do Ministério da Saúde e dos médicos estaria escorada no protocolo editado por ordem de Bolsonaro. 

Ao anunciar a mudança numa entrevista, Bolsonaro fez piada. Quem é de direita, disse ele, toma cloroquina. Quem é de esquerda toma tubaína. O presidente deu gargalhadas num instante em que o número de mortos num único dia passou de mil. 

O drama sanitário vai ganhando contornos de tragédia histórica. E Bolsonaro trata a ciência como ficção-científica. 

Ele não se deu conta, mas nessa matéria a fronteira da imaginação é a realidade. Os fatos apresentarão a Bolsonaro uma conta pelo seu comportamento. O preço político aumenta na proporção direta do crescimento do número de mortes. (por Josias de Souza)

quarta-feira, 1 de janeiro de 2020

DISTOPIA CINEMATOGRÁFICA NOS MOSTROU COMO CANIBAIS INVOLUNTÁRIOS EM 2020

No mundo de 2020 é que não estamos, felizmente!

O filme, um sci-fi menor dirigido em 1973 por Richard Fleischer e hoje praticamente esquecido, só destacou o ano de 2020 em seu título brasileiro. O original era Soylent Green, nome do alimento principal nesse distópico futuro.

Charlton Heston, um policial devotado ao dever, investiga a fundo o assassinato do presidente da companhia que produz tal alimento sintético em larga escala e acaba descobrindo um segredo guardado a sete chaves: o de que a proteína utilizada é humana, com os idosos sendo induzidos, mediante doutrinação religiosa, a se deixarem matar para aumentarem a chance de sobrevivência dos jovens.

O autor da novela, um tal Harry Harrison, evidentemente foi influenciado pelas teorias do economista britânico Thomas Maltus (1766-1834), segundo quem a população mundial aumentava em progressão geométrica (ex: 2-4-8-16-32...) e a produção de alimentos em progressão aritmética (ex: 2-4-6-8-10...), daí a necessidade de um eficiente controle populacional para evitar-se a escalada da fome. 

Marx destruiu sua argumentação provando que o desenvolvimento das forças produtivas, desde que libertadas da tirania do lucro, seria mais do que suficiente para proporcionar alimentos em quantidade suficiente para cada habitante do planeta.

Mas, com o otimismo característico dos revolucionários, ele jamais imaginaria imaginaria uma tão prolongada agonia do capitalismo, a ponto de o desenvolvimento das forças produtivas se dar até hoje sob o tacão do lucro, deixando em plano secundário a preservação do meio ambiente. 

Havendo um mínimo de vontade política, seria tarefa facílima erradicar-se a fome no mundo inteiro. 

Já impedir que a devastação do nosso patrimônio natural e a emissão desembestada dos gazes dos combustível fósseis extingam a espécie humana (ou parte significativa dela) se torna cada vez mais difícil, pois o atraso na tomada das providências necessárias é enorme e cada vez mais nos aproximamos de um ponto de não-retorno. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 22 de setembro de 2019

JÁ NEM ME LEMBRAVA DESTE CONTO SCI-FI QUE ESCREVI BEM LÁ ATRÁS. MAS, É COMO DISTOPIA QUE O AMANHÃ SE DELINEIA...

Por Celso Lungaretti
O jornalista Hélio Fernandes, irmão do Millôr, dizia ser capaz de escrever um jornal inteiro, desde o editorial até os necrológios.

Por obrigação ou diversão, acabei também fazendo quase tudo com a palavra escrita: autobiografia, textos jornalísticos, cases, discursos, teses, manifestos, panfletos, crítica artística, ensaios, crônicas, poesias, roteiros, etc.

Como este conto de umas quatro décadas atrás, quando eu era devorador compulsivo das obras de Philip K. Dick, Robert Heinlein, Kurt Vonnegut Jr., Richard Matheson, Robert Silverberg e Ray Bradbury.

Desde então, as ameaças à humanidade só aumentaram, o que o faz, para infelicidade minha e de todos que estão cientes de quão sombrios são cenários que nos esperam adiante, até mais pertinente do que então... 
.
GARGALHADA NO INFINITO
Contar ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. “E eu, quão repulsivo deveria parecer?” – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. A produção de cereais era cada vez menor. Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

“Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?” – propôs Druso. 

“Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação...”

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação. Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. “Ou eu estava deliberadamente me alheando?”

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos.

Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.

Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo. Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. Pai da AstronaveArquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável. 
Ao amanhecer, enquanto Ilana dormia profundamente, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.

Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. “Não merecemos sobreviver”, constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.

E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. “Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo” – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o vôo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. “Céus, quanto tempo desperdicei!” – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

UM CONTO DO LUNGARETTI: "GARGALHADA NO INFINITO"

Contar ou não a verdade?

Andrônicus vê sua face no espelho, os fios grisalhos se espalhando pela barba, as rugas na testa, o olhar cansado. Lá fora as vozes excitadas, os votos de boa sorte para quem fica e quem vai, o início das despedidas.

Uma hora para a partida. Ou sessenta minutos. Ou três mil e seiscentos segundos. Três mil e seiscentas ocasiões para dizer a primeira palavra, à qual iria seguir-se outra, e outra, e outra, até que ele desembuchasse tudo. E a festa acabaria nesse exato instante, substituída pelo desespero, talvez pancadaria, provável prostração.

De que lhes serviria a verdade? Por que destruir os planos elaborados com tanta argúcia e infinitos cuidados pelos Doze?

Andrônicus olha atentamente o auto-refletor, verificando se estão impressas em seu rosto as marcas do cinismo. Lembra de uma história que foi estudada em sua classe de Antiguidade Cultural, sobre alguém que fez um pacto com uma força maligna para permanecer eternamente jovem, enquanto uma imagem bidimensional sua é que envelhecia e se transformava.

Cada vez que aquele tal... Florian?... cometia um ato vil, hipócrita ou criminoso, a imagem ficava mais feia e repulsiva. “E eu, quão repulsivo deveria parecer?” – atormenta-se Andrônicus. Mas, malgrado seu estado de espírito, o que vê são as feições de um homem digno, apesar dos traços de fadiga e desânimo.

Quando Druso lhe expôs o plano, entretanto, tudo pareceu lógico e justificável.

O solo do Território se exauria de mês a mês, de semana a semana. A produção de cereais era cada vez menor. Verduras e frutas, então, haviam se tornado raríssimas. E as severas medidas anticoncepcionais foram tomadas demasiadamente tarde.

A Colônia estava com 1.248 habitantes. Em um ano, todos estariam se alimentando mal. Em dois, haveria fome e os mais fracos começariam a sucumbir. Em três, a subnutrição, doenças e matanças coletivas acabariam reduzindo a população a menos de cem pessoas. E, mesmo para estas, a perspectiva de vida seria pouco animadora – no máximo, cinco anos.

“Por que não administrarmos esse processo, evitando o sofrimento inútil?” – propôs Druso. “Podemos fazer uma seleção científica dos indivíduos que mais merecem sobreviver e eliminar os outros de maneira rápida e indolor. Reduzindo-se imediatamente o consumo de alimentos, o horizonte de vida dos remanescentes se ampliará para uns vinte anos. Talvez dê tempo para surgir alguma salvação...”

Foi assim que Druso lhe explicou a coisa toda, quando pediu sua adesão ao plano. E Andrônicus, único arquiteto de astronaves que sobrevivera às grandes catástrofes, não parou para avaliar implicações morais; começou logo a pensar nos detalhes práticos do projeto.

Talvez tenha pesado mesmo a possibilidade de voltar a exercer sua velha profissão – que, no caso, estava em estrita sintonia com a vocação. Projetar e dirigir a construção de astronaves era o que melhor fazia, o momento em que sentia graça e desenvoltura no seu corpo habitualmente canhestro.

E tão absorto esteve, construindo a astronave para 1.150 pessoas, que nem tomou conhecimento do processo de seleção. “Ou eu estava deliberadamente me alheando?”

O certo é que sua atitude começou a mudar quando Ilana foi compartilhar de seu leito. Desde que a grande peste levara sua mulher e filhos, Andrônicus se esquivava de relacionamento afetivos. Tudo marchava para o fim e amar uma pessoa era estar sujeito a vê-la morrer antes de si, impotente para mudar o destino. Preferia partir sozinho, não deixando nada e ninguém para trás.

O desfecho, aliás, lhe parecia próximo. Na batalha pelos alimentos, cada vez mais escassos, os fortes alijariam os fracos e a juventude se imporia à velhice. Seus 45 anos não lhe inspiravam grandes ilusões; ademais, achava que já vivera o suficiente. Plantador medíocre, tinha suficiente autocrítica para saber que era um dos membros menos úteis da Colônia.

Trabalhar na construção da astronave lhe devolveu a auto-estima e injetou novo ânimo. Afinal, fazia algo que nenhum outro poderia ou saberia fazer. E, a cada cálculo que realizava ou a cada solução prática encontrada para substituir componentes que já não existiam, mais sentia-se forte e revigorado. Sem o perceber, fazia as pazes consigo mesmo e com a vida, após longos meses de indiferença.

Gostaria de acreditar que foi esta mudança íntima que trouxe a jovem Ilana para o seu leito. Mas, quando conseguia raciocinar friamente, sem a embriaguez do prazer, era obrigado a admitir que ela provavelmente fora atraído por seu novo status. Pai da AstronaveArquiteto da Salvação – assim o chamavam. Tudo muito impressionante para uma moça que crescera no tempo das privações, sem ídolos para cultuar ou heróis para admirar.

Na primeira noite, ele a procurou quatro vezes, surpreendido com a própria virilidade, que parecia retornar com exigências multiplicadas. E por mais que tentasse conservar o equilíbrio, uma parte mais poderosa do seu eu o impelia a se atirar mais e mais sobre aquele corpo macio e tão desejável. Ao amanhecer, enquanto Ilana dormia profundamente, Andrônicus surpreendeu-se a chorar baixinho, sem saber direito por quê. Foi naquele dia que passou a prestar mais atenção no que acontecia ao seu redor.

Agora, fica imensamente pesaroso ao perceber que uma bonita morena, parecida com Ilana, comemora sua inclusão na viagem. Capta o absurdo da situação: os que partem, acreditam que encontrarão a fartura e a possibilidade de começar nova vida em Alpha Centauri, então estão exultantes; os que ficam, recebem isto como uma condenação.

Quais haviam sido mesmo os critérios da seleção? Ah, sim, lembra Andrônicus: iriam se salvar ele próprio, os Doze, os melhores cientistas e técnicos, alguns plantadores vigorosos e três moças férteis para assegurarem a sobrevivência da espécie, caso fosse encontrada uma alternativa para alimentar os pósteros (esperança remota...). Druso dissera que estaria aí a matéria-prima para uma nova civilização, ou, ao menos, para elaborar um registro fiel daquela que se extinguia.

Andrônicus, desde o início, não conseguia evitar o pensamento de que ele só entrara no rol dos sobreviventes pelo fato de ser o único arquiteto de astronaves disponível – caso contrário, ninguém lamentaria que ele explodisse no espaço.

Seu redescoberto interesse pela vida, contudo, despertou-lhe o interesse pelos que morreriam. Vasculha suas lembranças, tentando compor um perfil de cada conhecido designado para a viagem sem volta.

Percebe que, mesmo não tendo um verdadeiro amigo em toda a Colônia, era cada vez mais difícil para ele aceitar a morte de pessoas com quem convivera distraidamente nos últimos anos. Até começa a perceber virtudes e méritos em quem antes absolutamente não o atraía.

Faltando 54 minutos para a partida, procura Druso e lhe impõe uma condição: só cumprirá seu papel até o fim se Ilana for excluída da relação de passageiros. O ancião, com um olhar irônico, aceita.

Difícil mesmo é consolar a jovem, que via como uma destinação natural contribuir para a colonização de Alpha Centauri, com seu vigor e fertilidade. Andrônicus fica tentado a contar-lhe a verdade, mas se contém. A muito custo, ainda conserva o autocontrole.

Trinta e oito minutos para a decolagem. Agora, os segundos se escoam rapidamente, a partida cada vez mais próxima e, com ela, a morte física de tantas pessoas e a morte moral de Andrônicus. Ele mal consegue tirar os olhos dos digitais, sentindo duas poderosas forças lutarem dentro de si, anulando-se e paralisando-o nessa espera ansiosa.

Sabe que, quaisquer que sejam as justificativas racionais para a eliminação daquela gente, ele e os Doze serão amaldiçoados pelos deuses. Organizaram tudo com calculismo e má fé, misturando argumentos lógicos e interesses particulares. “Não merecemos sobreviver”, constata Andrônicus.

A alegria de viver, reencontrada com Ilana, volta-se contra ele, na forma de uma acusação: seu ninho amoroso se assentará sobre cadáveres.

E se falar? Aí, estará tirando a última esperança de toda a comunidade. Morrerão todos, do mesmo jeito, e sem nenhuma ilusão. Será um preço justo a pagar para que o cidadão Andrônicus conserve sua integridade moral?

Repassa os prós e contras, enquanto o tempo marcha inexoravelmente. A 28 minutos da decolagem, Ilana vem até ele, chorosa, após ter se despedido da família. “Pelo menos nós continuaremos juntos, é meu único consolo” – diz. Isto faz Andrônicus sair do impasse.

Compreende que o vôo da morte piedosa não é errado em si, mas as pessoas que tomaram uma decisão tão terrível não devem lucrar com ela. Quem é capaz de sacrificar tantos e tantos companheiros em nome de uma lógica abstrata tem algo de desumano dentro de si, não serve como semente de uma nova civilização nem como oficiante do enterro da velha. Há outros mais dignos para esses papéis.

Ademais, a perspectiva de ter Ilana como recompensa de sua ignomínia é demais para Andrônicus. Só existe um caminho para livrá-lo da abjeção absoluta. E ele resolve ir em frente.

Os Doze estão reunidos na Sala do Poder. Compungidos, até chorosos, mas com a inabalável determinação de sobreviverem. Mesmo sabendo que têm poucos anos pela frente; cinicamente, dizem que, para cada um que morrer, mais alimentos sobrarão para os sobreviventes.

Andrônicus não vacila nem se deixa intimidar. Diz aos anciães que, ou anunciam sua decisão de seguirem também na astronave, ou toda a trama vai ser revelada e os Doze acabarão sendo trucidados pelo povo em fúria. O ultimato acaba sendo aceito.

Treze que se preparavam para viajar, são então forçados a desistir. Adrônicus faz questão de indicá-los pessoalmente: filósofos, poetas e músicos, que deles uma nova civilização não pode prescindir.

Na hora do embarque seu último olhar é para Ilana. “Céus, quanto tempo desperdicei!” – reflete, exatamente quando tempo é o que já não tem.

A bordo, é quem com mais veemência fala sobre as delícias que encontrarão em Alpha Centauri. Quase se convence de que seja realmente fértil e habitável, ao invés de mais um entre todos os planetas áridos e desolados que cercam o agonizante Território.

Nos momentos que antecedem a explosão, seus pensamentos são mesmo para o corpo de Ilana. E tão bem o recorda que, a poucos segundos da hora final, tem uma ereção.

Dando-se conta do absurdo da situação, não consegue reprimir um acesso de riso, que vai contagiando um a um os companheiros de viagem, até desembocar numa ruidosa e triunfal gargalhada.
Related Posts with Thumbnails