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quarta-feira, 31 de março de 2021

O QUE HÁ PARA CELEBRAR-SE NESTE DIA, SENHOR MINISTRO? UMA ABOMINAÇÃO?

M
anda uma ordem-do-dia do  ministro da Defesa recém-empossado para uma permanência mínima no cargo,  pois o governo ao qual serve agoniza, que seja hoje (31) comemorado o aniversário da virada de mesa institucional responsável por 21 anos perdidos e por um festival de horrores que até hoje envergonha os brasileiros civilizados. 

O blog terá prazer em dar sua colaboração, recapitulando-a para os contemporâneos da infâmia e apresentando para as novas gerações o que foi a usurpação de poder verdadeiramente consumada no dia da mentira de 1964 e não na véspera (vide aqui), bem como a nada branda ditadura dela resultante, ainda hoje reverenciada por seus carrascos impunes, incensada por suas patéticas viúvas e louvada pelos cuervos  que o totalitarismo criou.

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, caberia a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morresse – mas, pelo contrário, servisse de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do despotismo. 

Infelizmente, não estivemos nos últimos anos à altura de nossa missão, daí a catástrofe que se abateu sobre o Brasil, com um herdeiro espiritual do pesadelo anterior produzindo o maior morticínio gratuito da nossa dolorosa História (pouco importa se o chamarmos de genocídio ou de crime contra a humanidade, as discussões semânticas são um escárnio num momento  destes!). 

Mais de 100 mil conterrâneos já morreram de óbitos que poderiam ter sido evitados se o gerenciamento da pior crise sanitária de nossa História não estivesse entregue a um insano negacionista, sabotador dos esforços para a salvação de vidas. 

E é incerto o número de mortes escamoteadas das estatísticas oficiais, a ponto de já terem sido desmascaradas tramoias para o ocultamento de cadáveres sob os tapetes burocráticos (quem nos garante que outras tramoias do mesmo tipo não tenham escapado à vigilância dos cidadãos decentes?).

Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontânea nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.


Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultradireita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.
Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e 
eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo. 

Mas, refugaram diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.
O líder estudantil Vladimir Palmeira discursando na histórica passeata dos 100 mil
Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados 
grupos dos 11 brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado contragolpe preventivo, mas, tão somente, um golpe de Estado para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA, como os documentos sigilosos que foram sendo revelados ao longo destes 57 anos comprovaram cabalmente.. 

Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e do Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. 
Licença para matar: o golpe dentro do golpe
desembestou de vez o terrorismo de Estado 
Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio momentâneo da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando às chacinas a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970, teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.
Pelo menos 20 mil brasileiros foram torturados por motivos políticos durante a ditadura militar
As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente ordens homicidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (os chamados Esquadrões da Morte).
O último ditador militar deixou o poder com a economia estagnada, impopularidade
  crescente e querendo ser esquecido. O ministro Braga Netto prefere celebrar os fiascos
 
O aparato repressivo implantado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada 
subversivo preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor em posse dos resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de Estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. 

Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos fartos do autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda 
das diretas-já.

Foi responsável pela morte dos 434 opositores relacionados pela Comissão Nacional da Verdade, pela prisão arbitrária de uns 50 mil brasileiros e pela tortura de, no mínimo, 20 mil cidadãos, afora ocorrências praticamente impossíveis de quantificar, como os abusos sexuais.

[Há quem sustente consistentemente que outros 600 camponeses, sindicalistas, líderes rurais e religiosos, padres, advogados e ambientalistas tenham sido assassinados por motivos políticos nos grotões do país entre 1961 e 1988. 

E respeitados antropólogos denunciam a ocorrência de um verdadeiro genocídio indígena nos anos de chumbo.]

É esta efeméride sinistra que sua ordem do dia manda ser comemorada nos quartéis, senhor general?  

Isto me indigna tanto, como participante e vítimas desses acontecimentos –até hoje lesionado e até hoje inconformado com a morte de duas dezenas de estimados companheiros que entregaram a vida em nome da dignidade nacional!–, que evitarei dar-lhe uma resposta ditada por minhas emoções. 
[Correria o risco de fornecer pretexto para uma intimidação como as muitas que têm sido perpetradas contra blogueiros e articulistas, lastreadas em lei que não passa de um repulsivo entulho autoritário.]

Então, prefiro encerrar parafraseando a Bíblia (Lucas 23.34), na esperança de que ela não tenha entrado no índex destes tempos hediondos: Pai, perdoai-o, pois ele não sabe o que faz! 
(por Celso Lungaretti, jornalista, escritor e ex-preso político – a foto ao lado foi tirada no DOI-Codi/RJ em 1970, ainda na fase das torturas, durante os 75 dias de incomunicabilidade)

"Revejo nesta hora tudo que ocorreu/ Memória não morrerá"

terça-feira, 3 de setembro de 2019

HÁ 50 ANOS, SOB PRESSÃO DOS EUA, A DITADURA MILITAR FOI OBRIGADA A ENGOLIR UM SAPO DESCOMUNAL

Toque do editor
Um amigo virtual de longa data, o Ângelo Genovesi, insistiu muito para que eu postasse uma matéria sobre o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick ao comemorar-se o cinquentenário do episódio.

O diabo é que minha decepção com o apagão mental de 39% dos eleitores brasileiros em outubro último continua me tirando não só o sono, mas também o ânimo para escrever sobre a luta terrivelmente desigual que um dia travamos, convictos de que valia a pena sacrificarmos nossas vidas e nossa integridade física e psicológica para que o povo brasileiro não tivesse mais de rastejar sob as botas militares.

Não que nós, os que sobrevivemos e os que morreram, teríamos agido diferente se adivinhássemos que um dia tantos mitificariam os autoproclamados herdeiros do Brilhante Ustra. 

Jamais! Nossa convicção era tão profunda que, se não tentássemos nos colocar à altura daquele desafio, seria nossa morte moral, bem pior do que a física. 
Mas, relembro o entusiasmo ardente do Eremias Delizoicov, que eu conhecia desde o curso primário, e fico pensando em como conseguiria explicar-lhe tanta infâmia e tão chocante retrocesso. Creio que não conseguiria. 

Enfim, registrarei a efeméride com um correto texto do Memorial da Democracia e abrindo uma janelinha para o documentário Hércules 56 (2006), do Silvio Da-Rin.

E, como nos nefandos tempos da ditadura militar, continuarei me guardando (e guardando meus melhores textos) pra quando o carnaval chegar. (por Celso Lungaretti)
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O OUSADO SEQUESTRO DO EMBAIXADOR
 DOS EUA
Na mais espetacular ação da guerrilha urbana, um grupo formado por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) captura o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, numa rua de Botafogo, no Rio. 

Em troca do diplomata, as duas organizações passam a exigir a libertação de 15 presos políticos e a divulgação em rádio e TV de um manifesto revolucionário. O prazo fixado para resposta é de 48 horas.

O sequestro surpreendeu a Junta Militar, que havia assumido o poder poucos dias antes. Alguns oficiais das Forças Armadas foram contra a libertação dos presos, mas a pressão do governo dos EUA, fiador do golpe de 64 e da ditadura brasileira, falou mais alto. Washington exigiu que tudo fosse feito para resgatar com vida seu embaixador. 
Durante três dias, o Rio foi tomado por um imenso aparato policial e militar, que vasculhou toda a cidade em busca dos sequestradores e do diplomata norte-americano.

A casa onde eles estavam, na rua Barão de Petrópolis, chegou a ser vigiada por agentes da Marinha, mas não foi invadida — seja porque os agentes da repressão não tinham certeza de que Elbrick se encontrava no local, seja porque as ordens eram claras para que a vida do embaixador não fosse colocada em risco. 

Encurralada, a Junta cedeu às exigências, e os 15 presos foram enviados para o México, que aceitou recebê-los. 
Foram é salvos. Os 15!

Entre os libertados estavam os líderes estudantis Vladimir Palmeira, José Dirceu e Luiz Travassos, o dirigente histórico do PCB Gregório Bezerra, o jornalista Flavio Tavares e o líder da greve de Osasco, José Ibrahim. 

Os demais eram membros de organizações revolucionárias, como a ALN, o MR-8 e a VPR. Para formalizar a libertação de presos, que nem sequer respondiam a processo, foi assinado às pressas o Ato Institucional n° 13, implantando o banimento do país.

O embarque dos banidos num Hércules da FAB e a viagem ao México foram cercados de tensão, devido ao temor de que o avião fosse atacado no solo ou em voo por militares descontentes com a libertação dos presos políticos. 

Depois da chegada do grupo na Cidade do México, o embaixador Elbrick foi libertado pelo comando da ALN e do MR-8. Era um domingo, 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil e da maior humilhação até então imposta à ditadura.

Dois dias depois, foi baixado o AI-14, instituindo a pena de morte e a prisão perpétua em casos de “guerra revolucionária e subversiva”. Nos anos seguintes, em ações cada vez mais desgastantes e arriscadas, seriam sequestrados e trocados por presos políticos os embaixadores da Alemanha e da Suíça e o cônsul do Japão em São Paulo.
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terça-feira, 26 de junho de 2018

RIO DE JANEIRO EM TRANSE: A 6ª FEIRA SANGRENTA E A PASSEATA DOS 100 MIL – 2

(continuação deste post)
"DE UM LADO, CASSETETES E CHUTES DE COTURNO. DO OUTRO, BOLINHAS DE GUDE DERRUBANDO CAVALOS" – O vendaval parisiense chegou ao Brasil principalmente por via de influência da contracultura, mas, segundo o historiador e ex-militante estudantil Daniel Aarão Reis, não teve impacto no que se viu nas ruas do Rio de Janeiro em junho. “O alvo principal do movimento estudantil em 1968 era a política educacional do governo e a reivindicação por mais verbas era algo bem distante do que acontecia em Paris”, diz Aarão Reis.
6ª feira sangrenta: manifestantes enfrentando a repressão com paus e pedras.


Contudo, como Ventura lembra em seu livro, se as mobilizações francesas não foram determinantes para o ano brasileiro, “Costa e Silva, patético, prometia: ‘Enquanto eu estiver aqui, não permitirei que o Rio se transforme em uma nova Paris”. A declaração do presidente militar é de 12 de junho e, passada apenas uma semana, no dia 19, 4ª feira, foi dado início aos acontecimentos que levaram até a 6ª feira sangrenta, 21.

Tudo começou com um grupo de estudantes que foi ao Ministério da Educação, então no Rio de Janeiro, para expor as pautas do movimento estudantil. A iniciativa terminou em repressão policial, que, pela primeira vez, foi respondida também com violência e não apenas com dispersão. 
Palmeira: "Batemos na polícia pela primeira vez"

“Quando a polícia veio, naquele passo terrível, largo, aqueles passos de ganso, resolvemos resistir. Batemos na polícia pela primeira vez”, lembra Vladimir Palmeira, então presidente da União Metropolitana dos Estudantes, no mesmo Memória do Movimento Estudantil. 

O que se seguiu foram horas de perseguição e enfrentamento. De um lado, cassetetes e chutes de coturno. Do outro, bolinhas de gude derrubando cavalos.

Já no dia 20, 5ª feira, cerca de 400 estudantes foram presos após uma assembleia geral no Teatro de Arena da Faculdade de Economia. No campo do Botafogo, eles foram enfileirados e humilhados. “A descrição de soldados urinando sobre corpos indefesos ou passeando o cassetete entre as pernas das moças, junto às imagens de jovens de mãos na cabeça, ajoelhados ou deitados de bruços com o rosto na grama, eram uma alegoria da profanação”, escreve Ventura. 

O que começou com a morte de Edson Luís, quando uma questão universitária relativa ao restaurante Calabouço cresceu para além das assembleias estudantis, ficou ainda mais intenso após os dias 19 e 20.
Aí, então, veio a 6ª feira sangrenta. “Nesse dia, o Rio não ficou nada a dever à Paris das barricadas – e não por mimetismo, como temiam as autoridades militares. A motivação estava aqui mesmo”, escreve Ventura. 

Tudo teve início com um pequeno protesto, às oito da manhã, na praça Tiradentes, centro da capital carioca, contra os eventos de 4ª e 5ª feira; e acabou se transformando numa batalha de cerca de 12 horas, em plena avenida Rio Branco.

Quando a repressão policial chegou, já depois do horário do almoço, a população tomou partido e começou a jogar objetos das janelas contra os policiais. Tudo começou com alguns gelos arremessados, até que passaram a cair máquinas de escrever, garrafas, cinzeiros, cadeiras e vasos de flores. 

“Participei como cidadão comum naquele dia, em que foi possível ver de tudo: de carros da polícia virados até garotos montando cavalos, com capacetes de policiais militares caídos, galopando pelas ruas centrais da cidade” relembra Aarão Reis. 

Para ele, aquele momento, em que a população apoiou os estudantes espontaneamente, é uma marca da insatisfação que parte da classe média vinha mostrando com os rumos econômicos e autoritários da ditadura. “Eram setores que acreditavam que 1964 seria apenas uma operação cirúrgica destinada a varrer os comunistas e trabalhistas”, diz.
Junho de 1968, depois da 6ª feira sangrenta, ficaria definitivamente marcado como o mês das grandes mobilizações de rua. Cinco dias depois, em 26 de junho, aconteceu a famosa passeata dos 100 mil, que reuniu estudantes, artistas, intelectuais, religiosos e população em geral para protestar contra as violências da ditadura.

As fotografias desse dia, muitas feitas também por Evandro Teixeira, que registrou a 6ª feira sangrenta, são simbólicas. Numa imagem, aparecem Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinícius de Moraes, Paulo Autran, José Celso Martinez… 

Noutra um estudante, numa das foto mais conhecidas do período, picha: Abaixo a ditadura nos muros do Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Dessa vez, a resposta do regime militar não viria nas ruas, mas em um processo de recrudescimento cada vez maior que acontecia nos corredores de Brasília. 

“Já no segundo semestre, sem forças, os movimentos começaram a declinar. O estouro do 30º Congresso da UNE, em outubro, só fez consolidar a curto prazo, este declínio”, diz Aarão Reis.

Junho de 1968 foi o ápice do movimento, a 6ª feira sangrenta o momento mais próximo de uma insurreição popular e a passeata dos 100 mil uma amostra irrefutável do descontentamento geral contra a ditadura. 

A partir de junho, contudo, as coisas esfriaram. O movimento estudantil debatia próximos passos internamente e a repressão avançava. Em outubro, como relembra Aarão, um congresso da UNE, em Ibiúna, interior de São Paulo, foi invadido pela repressão e os principais líderes estudantis presos. Alguns falam em até 900 presos. Todos seriam fichados no Dops, a polícia política do regime.

As mobilizações do Rio de Janeiro não foram um caso isolado naquele ano. P. ex., no próprio segundo semestre, em outubro também, houve a conhecida batalha da rua Maria Antonia, em São Paulo, quando estudantes da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP entraram em confronto com os do Mackenzie, apoiados pelo Comando de Caça aos Comunistas. 

Na verdadeira guerra campal que se abriu na rua, que abrigava as duas universidades, um estudante morreu.

Em Brasília e Belo Horizonte, as universidades federais também foram palco de movimentações estudantis e invasões militares, em diferentes meses do ano. 

E o movimento sindical, embora enfraquecido na época, também se mobilizou, tendo ocupado fábricas na cidade mineira Contagem, em abril, e na paulista Osasco, em julho.

“Tudo tinha uma marca forte de improvisação, era um processo muito embrionário de mobilizações. A rigor, todos estes movimentos, embora apresentando aspectos novos, devem ser vistos, quando a gente pensa neles em conjunto, como um último sopro dos processos sociais mais densos que se verificaram antes de 1964”, diz Aarão Reis. 

O AI-5 colocaria todos na ilegalidade, a UNE continuaria seu trabalho sempre na clandestinidade e a luta armada surgiria como opção contra um regime que, como visto em junho, sofria de impopularidade em diferentes setores da sociedade.

RIO DE JANEIRO EM TRANSE: A 6ª FEIRA SANGRENTA E A PASSEATA DOS 100 MIL – 1

Por Celso Lungaretti
Este blog jamais poderia deixar os 50 anos da passeata dos 100 mil passarem em branco. Num primeiro momento, pensei até em publicar o trecho do meu livro Náufrago da Utopia a ela dedicado. 

Mas, avaliando melhor tal possibilidade, conclui que seria pouco, um relato de quem acompanhou a passeata à distância, mais focado no que rolava no movimento estudantil de São Paulo, meu campo de atuação (daí, no livro, tê-la descrito com base em reportagens jornalísticas e livros). 

O que eu não soube por leituras, mas testemunhei e me impressionou, foi a meteórica notoriedade que o Vladimir Palmeira adquiriu entre nós; até então, era uma referência distante.

Também me ficou na lembrança o que o valoroso companheiro José Raimundo da Costa, o Moisés, último comandante da VPR (dissolvida após sua morte), me contou. 
O saudoso Moisés

Àquela altura, perseguido intensamente pela repressão (um desafeto dele se tornara figurão do Cenimar), trabalhava sob identidade falsa como gerente de uma empresa de transportes. E, percebendo que algo muito importante estava para acontecer, não teve dúvidas: foi para o aeroporto, com o terno que estava usando no serviço. 

Havia voo disponível, chegou na Cidade Maravilhosa em tempo e deu tudo certo, menos um certo desconforto por alguns manifestantes olharem para ele de esguelha, suspeitando que fosse policial à paisana.

Enfim, dando uma peneirada em tudo que encontrei sobre a passeata na busca virtual, acabei chegando a um artigo impecável, o de André de Oliveira, repórter do jornal El País. A ele, pois! 

MAIO DE 1968 NÃO FOI UM MÊS
NO BRASIL, MAS UM ANO INTEIRO
Por André de Oliveira
Maio de 1968 foi diferente para os estudantes brasileiros. A começar pelo fato de não ter sido um mês, mas um ano intenso de muito mais perdas do que ganhos. 

Lá fora, a panela de pressão misturava movimentos de contracultura, palavras de ordem anti-sistema, reivindicações de cunho identitário e protestos contra a Guerra do Vietnã; aqui, o inimigo era mais palpável: a ditadura militar. 

“Por isso, a nossa geração de 68 foi a que mais caro pagou por sua rebeldia, através de prisões, tortura, exílio e até morte”, escreve Zuenir Ventura em seu clássico 1968 — o ano que não terminou. Se durante o ano houve dezenas de mobilizações estudantis, tudo acabou em 13 de dezembro, com o Ato Institucional nº 5, que inaugurou o período de maior repressão da ditadura.

Uma foto dessas mobilizações é conhecidíssima. Dois militares, cassetetes na mão, perseguem de perto um homem que, caindo, joelhos dobrados, óculos voando alguns centímetros à frente, um pé já tocando o chão e braços abertos em cruz, está prestes a se esborrachar. 

Um policial, o da esquerda, corre com os lábios presos, talvez, pronto para desferir uma cacetada. O outro, com uma das mãos espalmada, parece querer agarrar pela camisa o homem barbudo, que dificilmente conseguirá escapar das pancadas que certamente levará. 

Ao longe, no meio da rua, um careca vara pau observa a cena calmamente. Mais para trás, vê-se um aglomerado difuso de gente, que sugere corre-corre.

A imagem de Evandro Teixeira, no centro do Rio de Janeiro, é de 21 de junho, a data que ficou conhecida como a sexta-feira sangrenta, um dos pontos culminantes daquele 1968. Contudo, para se chegar a esse dia, quando os estudantes, com participação espontânea de um bom número de civis, travaram uma batalha de horas contra os militares no centro carioca – deixando um saldo, em uma das versões, de ao menos cinco pessoas mortas, entre estudantes e policia – é preciso falar de acontecimentos anteriores (e também posteriores) que sumarizam todo o ano de mobilizações estudantis.

Um ponto de partida possível é Edson Luís. Secundarista, Edson Luís foi morto em 28 de março, aos 18 anos, durante a invasão militar do restaurante estudantil Calabouço – que era alvo de reivindicações pois teve o preço das refeições aumentado. 

A morte do estudante, que sequer participava de algum movimento organizado e estava no local porque, filho de uma família pobre do Pará, vivia ali de favor para poder cursar o 2º grau na capital carioca, gerou grande indignação. 

No documentário Memória do Movimento Estudantil, o então presidente da União Nacional dos Estudantes, Jean Marc Van Der Weid, lembra que o assassinato de Edson Luís foi o gatilho para uma série de eventos que atraiu, inclusive, a simpatia de setores da classe média que, até então, mantinham-se alheios à repressão da ditadura. 
À pauta do movimento estudantil, que pedia mais verbas para a educação, além de travar uma luta pelos excedentes –quem havia passado no vestibular, mas não encontrava vaga na Universidade– somava-se à denúncia contra a violência militar sob as palavras: “E se fosse um filho seu?”.

Um dia depois da morte do secundarista, o cortejo de seu enterro reuniu 50 mil pessoas, que caminharam da Assembleia Legislativa, no centro do Rio de Janeiro, até o cemitério São João Batista, no bairro de Botafogo, zona sul. 

Houve, entre estudantes e figuras conhecidas, quem passasse a noite inteira velando o corpo do secundarista, como fez o intelectual Otto Maria Carpeaux, que na época não era nenhum menino, tinha 68 anos. 

A missa de sétimo dia de Edson Luís foi outro acontecimento. Centenas de pessoas foram à Igreja da Candelária prestar homenagens e se despedir, mas na saída acabaram reprimidas pelos militares. Depois disso, vieram os ventos franceses de Maio de 1968. (continua neste post)

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

"HOUVE UMA INSURREIÇÃO DE JOVENS PLANETÁRIA, NUMA ÉPOCA EM QUE NÃO EXISTIA INTERNET"

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
Zuenir Ventura: "Foi um ano mítico"
"Há 50 anos, esse ano não acaba de não acabar. O [filósofo francês] Edgar Morin, que acompanhou o movimento na França e no Brasil, dizia que vamos precisar de muitos e muitos anos para entender o que aconteceu. E 50 anos, na História, não são nada. Até hoje estamos discutindo o que aconteceu. Foi um ano mítico.

O maior mistério é que houve uma insurreição de jovens planetária, numa época em que não existia internet, a TV não tinha esse alcance de hoje. Jovens dos países comunistas, democráticos, autoritários, França, EUA, México, Japão, em um determinado momento, sem as conexões que existem hoje, ficaram com o mesmo corte de cabelo, ouvindo as mesmas músicas, pensando da mesma maneira, agindo do mesmo jeito.
O idealismo subsiste, só não está poder

Era uma geração carregada de ambições e sonhos, o que ficou disso, dessa aventura deles? Ficaram pelo menos quatro movimentos importantes, que ou nasceram ou se solidificaram em 68 —movimento feminista, gay, negro e ecológico. Esses movimentos estão mais atuantes do que nunca.

...idealizamos a herança de 68, como se fossem só personagens bons. Teve do bom e do pior. Teve gente como Vladimir Palmeira, um dos líderes do movimento, foi do PT, rompeu com o partido por divergências morais. E teve gente condenada, como Zé Dirceu.

À distância, temos a impressão de que havia uma geração unanimemente honesta, mas existem desvios. Ainda temos conosco a paixão pela coisa pública que movia muitos em 1968. Isso existe ainda, só não está no poder."

(trechos de entrevista publicada neste dia 1º pela Folha de S. Paulo, do
escritor e jornalista Zuenir Ventura, autor de 1968 – o ano que não terminou)

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

A CENSURA INEXPLICÁVEL E ILEGAL DO FACEBOOK A UM ARTIGO DE ESQUERDA CONTRA O PT

Acabo de colocar no ar, em meu blogue, um excelente artigo  (leia-o aqui) de Vladimir Palmeira, um dos principais líderes do movimento estudantil de 1968, sem absolutamente nada que justificasse sua censura ao tentar publicá-lo no Facebook – a menos que o dito cujo esteja ajudando o PT a ocultar dos internautas as consequências desastrosas dos seus governos e a extrema necessidade de a esquerda fazer uma profunda autocrítica, caso contrário marchará inexoravelmente para a irrelevância.

Eis o que apareceu na tela:
  • "Esta mensagem contém conteúdo que foi bloqueado pelos nossos sistemas de segurança".
Quero registrar meu mais veemente protesto contra uma empresa estrangeira que atua no Brasil, ganha muita grana no Brasil e não respeita a Constituição brasileira.

Vale, mais uma vez, lembrar: a censura prévia é proibida em nosso país e é a nossa legislação que prevalece em tal caso, não a de nenhuma outra nação! 

Celso Lungaretti (que, nos anos de chumbo, respondeu a processo com base na censura do regime militar, bem como a quatro outros por haver lutado contra o arbítrio e a dominação imperialista)
.

Observação: estranhamente, tanto o post baseado no artigo do Palmeira quanto este aqui foram
vetados quando cliquei no ícone do Facebook existente no meu blogue, botei
uma frase de apresentação e os tentei enviar para o Face. Acabo de 
constatar, contudo, que ambos foram colocados no ar, mas sem 
a apresentação que mandei (mera repetição entre aspas de
um trecho do texto do Palmeira). Vá entender...

LÍDER DA 'PASSEATA DOS 100 MIL' EM 1968, VLADIMIR PALMEIRA PEGA O PT NA MENTIRA.

DESMASCARANDO A NARRATIVA: AS VERSÕES E OS FATOS SOBRE O FIM DO CICLO DO PT.

Palmeira combateu o arbítrio em 68...
O impeachment de Dilma colocou fim a 13 anos de governos petistas no Brasil. A despeito de avanços alcançados na distribuição da renda do trabalho e na participação desta no total da renda nacional, fruto sobretudo dos primeiros cinco anos do Governo Lula, o saldo final é negativo:
  • nenhuma reforma estrutural da sociedade brasileira foi aprovada em benefício dos trabalhadores;
  • nada de reforma tributária que desonerasse os mais pobres e taxasse os mais ricos;
  • reforma agrária definhando ano a ano, até a completa inanição no Governo Dilma;
  • reforma urbana esquecida, e substituída pelo incentivo à gentrificação, com um programa de moradia que assenta os mais pobres em regiões distantes dos locais de trabalho e da rede de infraestrutura;
  • nada de reforma dos meios de comunicação, para democratizá-los;
  • nada de reforma política para diminuir o poder financeiro nas eleições, fortalecer o debate de projetos em lugar do clientelismo e do personalismo, e ampliar os canais de participação popular nos processos decisórios;
  • nada de reforma administrativa e do Estado, para melhorar os serviços prestados à população e abrir espaço fiscal para o investimento público; e
  • nenhum projeto de desenvolvimento nacional baseado na busca das fronteiras tecnológicas e na preservação ambiental.
As alianças construídas para obter as vitórias eleitorais e a maioria parlamentar não foram feitas tendo nenhum desses pontos como contrapartida. Que não se conseguisse avançar em todas as reformas era natural. Mas se abster de fazer a disputa política em torno de pelo menos parte delas é inaceitável. Durante os dois mandatos de Lula, o PT governou apenas para repartir o orçamento e manter a economia funcionando, aproveitando-se do chamado boom das commodities. Quando veio a Dilma, a coisa degringolou e instaurou-se o desastre. 
...e hoje combate a descaracterização da esquerda

A palavra da moda é narrativa. No fundo, nada mais do que a versão que tenta se sobrepor aos fatos.

Na narrativa do golpe difundida pelos petistas, e da qual parte da antiga oposição de esquerda se tornou caudatária, a versão é que Dilma foi derrubada por fazer um governo que contrariava o interesse das elites em benefício da maior parte da população. 

No mundo real, o fato é que a imensa maior parte dos subsídios e desonerações que fomentaram o descalabro fiscal foi concedida para grandes empresários, sem que isso significasse aumento dos investimentos, já que o crédito privado foi substituído pelo crédito público subsidiado, e nada foi feito dentro de uma política industrial criteriosa (na prática dilmista, quem pedia levava). 

E, enquanto dava subsídios para parte da elite econômica, não tomou nenhuma iniciativa de reforma tributária para taxar essa mesma elite e desonerar os mais pobres e a classe média, setores que são os que pagam mais impostos proporcionalmente no país.

A versão é que Temer entrou para implementar um programa de arrocho que a presidente deposta combateria. 

O fato é que os cortes de Dilma, em seu curto segundo mandato, foram maiores do que os que Temer leva a cabo agora. 

Já há muito defendíamos que era necessário um ajuste fiscal para reorganizar as contas públicas inteiramente avacalhadas por Dilma a partir de 2012 (e não apenas da União, mas também dos estados, que se lambuzaram na leniência fiscal do antigo secretário do Tesouro de Dilma em seu primeiro mandato). 

Mas o ajuste de Levy no primeiro ano do segundo mandato de Dilma praticamente jogou na lona o investimento público e aprofundou a recessão econômica. Os mais pobres e a classe média pagaram a conta do ajuste de Dilma (como pagam a conta do ajuste de Temer), com desemprego, achatamento salarial, diminuição da renda familiar e precarização dos serviços públicos, enquanto os mais ricos eram e são poupados na ausência de uma reforma tributária que taxasse sua renda e suas riquezas, e na presença de juros elevadíssimos remunerando seu capital.

A versão é que Dilma deu lugar a Temer para que fosse feita a reforma da Previdência, estabelecendo a idade mínima para a aposentadoria. 

O fato é que Dilma também defendia publicamente a reforma da Previdência para elevar a idade da aposentadoria. 

E a reforma é mesmo necessária para dar sustentabilidade ao sistema previdenciário no médio e longo prazos, e liberar uma maior parte do orçamento público para investimentos do Estado na indução do desenvolvimento econômico, para a fiscalização da preservação ambiental e para a melhoria dos serviços públicos (todas elas coisas que Temer não indica fazer, e que Dilma não fez). 

O problema é que nem Dilma propunha, nem Temer propõe, a contrapartida da reforma tributária para desonerar o consumo dos mais pobres e da classe média, e fazer os mais ricos contribuírem com uma parte maior das receitas públicas.

A versão é que Temer assumiu a faixa presidencial para privatizar empresas, infraestrutura de transporte e serviços públicos. 

O fato é que Dilma abriu diversos processos de concessões de infraestrutura, marcados na maior parte das vezes por sua inépcia e por sua indecisão. 

Iniciava com condições muito duras para os investidores, e depois ia recuando até ceder em praticamente tudo. No fim das contas, o ziguezague gerava incertezas que resultavam em leilões fracassados ou negócios mal feitos, com taxas mínimas de ágio. Dilma não soube fazer as privatizações necessárias. Temer promete vender até o que não deveria.

A versão é que Dilma foi deposta para que o pré-sal fosse privatizado e o sistema de partilha tivesse fim. 

O fato é que a política de petróleo implementada pelos governos petistas foi desastrosa para a Petrobras e para o país. 

Foram cinco anos sem leilões de novos poços, justo no momento em que o preço do barril estava nas alturas, fazendo o Brasil perder uma excelente oportunidade de geração de renda. Ao mesmo tempo, a obrigatoriedade de participação da Petrobras em pelo menos 30% dos consórcios de exploração do pré-sal e o monopólio técnico da exploração foram profundamente maléficos para a estatal. 

Era melhor poder escolher os campos a explorar. Para a Petrobras, seria muito mais vantajoso ter uma participação maior ou até 100% do campo de Libra, por exemplo, abrindo mão de sua participação em outros campos menos rentáveis. Mas o imperativo legal de estar em todos os consórcios faz com que a empresa não tenha fôlego para isso. 

Ao contrário do que diz a narrativa petista, o fato é que foi a política de petróleo implementada pelos governos do PT que contrariaram os interesses nacionais e a Petrobras. 

Isso para não falar da corrupção que lesou a empresa, o erário público e até o plano de previdência dos funcionários da estatal.

A versão é que Dilma foi uma ousada e aguerrida combatente de um projeto popular, mas o fato é que ela foi uma das piores presidentes da história do Brasil republicano, provocando a maior recessão desde 1930, jogando no desemprego milhões de pessoas e fazendo a renda per capita nacional regredir em pouco mais de dois anos mais do que ela regrediu ao longo da chamada década perdida de 1980 (9,7% desde o segundo trimestre de 2014, quando teve início a atual recessão, contra 7,6% registrados no período entre 1981 e 1992). 

Em termos de crescimento do PIB, os anos Dilma só não foram piores do que os períodos de Collor e de Floriano Peixoto à frente da Presidência. O resultado é o retrocesso de boa parte mesmo dos insuficientes avanços alcançados no Governo Lula.

As versões não podem se sobrepor aos fatos, para que o desastroso legado de Dilma não seja encoberto, e para que o PT seja definitivamente suplantado na trajetória da esquerda brasileira. 

Aqueles setores que jogam água no moinho da narrativa construída pelo PT e se submetem à sua hegemonia atrasam a reorganização do campo político que congrega os interesses da maioria do povo brasileiro, justo em um momento de avanço das forças conservadoras e do ideário das elites econômicas encasteladas no cume da pirâmide social.

Nós da Ação Crítica seguimos defendendo, como fazemos desde o primeiro semestre do ano passado, que a saída para a crise política do país é a realização imediata de eleições gerais para a Presidência da República e o Congresso Nacional, processo ao longo do qual sejam amplamente debatidas as propostas e programas para que o Brasil saia do atoleiro em que Dilma nos meteu. 

Só assim, com novas lideranças políticas legitimadas pelo voto popular, e um programa de reformas submetido ao escrutínio das urnas, o país poderá retomar o caminho do desenvolvimento. A esse propósito, em breve divulgaremos um documento com algumas propostas para colaborar no debate.

Pela defesa dessa bandeira das Eleições Gerais Já, fomos duramente atacados pelos petistas e seus satélites ao longo do último ano e meio. Os mesmos que agora erguem a bandeira das Diretas Já. 

Diretas Já sim, mas não sob a hegemonia do PT, e não sem denunciar que foi seu governo que nos trouxe até esta situação, mais do que temerária, tenebrosa.
.

Observação: estranhamente, tanto o post baseado no artigo do Palmeira quanto este aqui foram
vetados quando cliquei no ícone do Facebook existente no meu blogue, botei
uma frase de apresentação e os tentei enviar para o Face. Acabo de 
constatar, contudo, que ambos foram colocados no ar, mas sem 
a apresentação que mandei (mera repetição entre aspas de
um trecho do texto do Palmeira). Vá entender...
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