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segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

O QUE VOCÊ VAI SER DEPOIS DE MAIO, QUANDO O SONHO ACABAR?

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
Cineastas dando fim prematuro ao Festival de Cannes de 68 
Há na internet uma infinidade de posts listando os filmes mais sintonizados com a Primavera de Paris.

Para quem compartilhou os sonhos da geração 68 e foi fundo no empenho de tornar-se, de corpo e alma, um homem novo, amargando depois os terríveis retrocessos dos anos 70, os dois filmes mais emblemáticos são A chinesa (1967), do parisiense Jean-Luc Godard, uma espécie de trailer de tudo que estava para acontecer; e Jonas, que terá 25 anos no ano 2000 (1976), do suíço Alain Tanner,  aquele que mais poeticamente acenou com a esperança de que um novo 1968 estaria inscrito em nosso futuro.

Depois de maio (2012), do parisiense Olivier Assayas, não é nenhuma obra-prima, mas dá ao leitor de hoje uma boa nação do que era estar no meio do turbilhão de 1968 e ter de reconstruir-se quando o sonho acabou, daí minha decisão de postá-lo também.

Para introduzi-lo, aproveito trechos da boa crítica de Érico Borgo no site Omelete:

"Olivier Assayas (...), retorna ao tema de seu primeiro filme aclamado, Água Fria (1994): as revoluções culturais e políticas buscadas pela juventude estudantil na França no início dos anos 1970.

A obra começa em 1971, nos arredores de Paris, onde o aspirante a pintor Gilles (Clément Métayer) e seus amigos Alain (Félix Armand), Jean-Pierre (Hugo Conzelmann) e Christine (Lola Créton), trabalham na disseminação de ideias revolucionárias e anarquistas. 

Quando um protesto dá errado, porém, eles precisam afastar-se da cidade em que vivem. Iniciam então jornadas distintas de conhecimento, de busca por ideias, inspiração e aprendizado.

...A trama acompanha Gilles enquanto ele amadurece sutilmente seu apreço pelo cinema, arte que no começo do filme é motivo de debates acalorados entre os movimentos de esquerda, que a enxergam como 'pequeno-burguesa' e rechaçam até mesmo essa linguagem ('do inimigo') como maneira de narrar histórias importantes para seus movimentos.

...o filme tem uma estrutura solta, orgânica, sem arcos de personagens ou uma trama convencional estabelecida. A história interessa-se apenas em acompanhar pessoas em busca de quem são – que mudam de amizades, relacionamentos e ideologias a cada passo. 

Os personagens não têm grande profundidade, mas isso funciona favoravelmente ao filme, já que ele está muito mais interessado em mostrar o processo dessa construção de personalidades do que o resultado em si.

Assim, ao final, Depois de Maio é sobre o desejo de experimentar, de descobrir-se e deixar sua marca no mundo. 

'Você tem sorte, sabe o que vai ser', diz um dos personagens a Gilles. Mas saber o seu desejo não significa conhecer todas as etapas do processo e as fascinações que podem desviá-lo do caminho.

É justamente isto que interessa a Assayas".

"HOUVE UMA INSURREIÇÃO DE JOVENS PLANETÁRIA, NUMA ÉPOCA EM QUE NÃO EXISTIA INTERNET"

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
Zuenir Ventura: "Foi um ano mítico"
"Há 50 anos, esse ano não acaba de não acabar. O [filósofo francês] Edgar Morin, que acompanhou o movimento na França e no Brasil, dizia que vamos precisar de muitos e muitos anos para entender o que aconteceu. E 50 anos, na História, não são nada. Até hoje estamos discutindo o que aconteceu. Foi um ano mítico.

O maior mistério é que houve uma insurreição de jovens planetária, numa época em que não existia internet, a TV não tinha esse alcance de hoje. Jovens dos países comunistas, democráticos, autoritários, França, EUA, México, Japão, em um determinado momento, sem as conexões que existem hoje, ficaram com o mesmo corte de cabelo, ouvindo as mesmas músicas, pensando da mesma maneira, agindo do mesmo jeito.
O idealismo subsiste, só não está poder

Era uma geração carregada de ambições e sonhos, o que ficou disso, dessa aventura deles? Ficaram pelo menos quatro movimentos importantes, que ou nasceram ou se solidificaram em 68 —movimento feminista, gay, negro e ecológico. Esses movimentos estão mais atuantes do que nunca.

...idealizamos a herança de 68, como se fossem só personagens bons. Teve do bom e do pior. Teve gente como Vladimir Palmeira, um dos líderes do movimento, foi do PT, rompeu com o partido por divergências morais. E teve gente condenada, como Zé Dirceu.

À distância, temos a impressão de que havia uma geração unanimemente honesta, mas existem desvios. Ainda temos conosco a paixão pela coisa pública que movia muitos em 1968. Isso existe ainda, só não está no poder."

(trechos de entrevista publicada neste dia 1º pela Folha de S. Paulo, do
escritor e jornalista Zuenir Ventura, autor de 1968 – o ano que não terminou)

"O PODER HAVIA ESCAPADO DAS MÃOS DOS LEGISLADORES E ESTAVA NAS RUAS"

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
"A efervescência entre os estudantes era apenas a manifestação mais evidente do descontentamento da sociedade francesa. Apesar do auge econômico, os empresários franceses haviam aplicado uma pressão violenta sobre os trabalhadores. Abaixo da superfície de aparente calma existia um enorme acúmulo de descontentamento, rancor e frustração. Já em janeiro houve violentos conflitos durante uma manifestação de grevistas em Caen.

A greve geral de 13 de maio marcou um ponto de inflexão qualitativo. Centenas de milhares de estudantes e trabalhadores se lançaram às ruas de Paris. Uma ideia da situação é a descrição que se segue da poderosa manifestação de um milhão de pessoas que tomaram as ruas de Paris no dia 13 de maio:
'Fileiras passavam incessantemente. Havia seções inteiras de trabalhadores de hospitais com seus jalecos brancos, alguns carregavam cartazes onde se podia ler Où sont les disparus des hôpitaux? (Onde estão os feridos que desapareceram dos hospitais?). 
Cada fábrica, cada centro de trabalho importante parecia estar representado. Havia numerosos grupos de ferroviários, carteiros, gráficos, metroviários, aeroportuários, eletricistas, comerciários, advogados, garis, bancários, trabalhadores da construção civil, vidreiros, químicos, faxineiros, empregados municipais, pintores e decoradores, trabalhadores do gás, balconistas, escriturários, trabalhadores do cinema, motoristas de ônibus, professores, trabalhadores das novas indústrias de plástico, todos eles em fila, o sangue da sociedade capitalista moderna, uma massa interminável, uma força que podia arrastar tudo que estivesse em seu caminho, se assim o desejasse'. 
Os dirigentes dos sindicatos esperavam que esta manifestação fosse suficiente para deter o movimento, não tinham intenção de continuar e estender a greve geral. Para eles, a manifestação era apenas uma maneira de liberar vapor. Porém, uma vez iniciado o movimento imediatamente ganhou vida própria. A convocatória de greve geral foi como uma grande rocha lançada sobre um lago tranquilo. As ondas se estenderam a cada canto da França. Ainda que houvesse apenas aproximadamente 3 milhões de trabalhadores organizados em sindicatos, participaram da greve cerca de 10 milhões e começou uma série de ocupações de fábricas em toda França.

No dia 14 de maio, um dia depois da manifestação de massas em Paris, os trabalhadores ocuparam a Sud-Aviation em Nantes e a fábrica da Renault em Cléon, seguidos pelos trabalhadores da Renault em Flins, Le Mans e Boulogne-Billancourt. Greves foram iniciadas em outras fábricas por toda a França, como em RATP e SNCF. Os jornais não saíram. 

No dia 18 de maio, os mineiros do carvão pararam de trabalhar e o transporte público ficou paralisado em Paris e em outras cidades importantes. Os trens foram os seguintes, depois o transporte aéreo, os estaleiros, os trabalhadores do gás e da eletricidade (que decidiram manter o abastecimento doméstico), os correios e as barcas que atravessam o Canal da Mancha.

Os trabalhadores tomaram o controle dos recursos petroleiros em Nantes, negaram a entrada a todos os caminhões-tanques que não tivessem a autorização do comitê de greve. Foi formado um piquete no único fornecedor de gasolina que funcionava na cidade, assim garantiu-se que o único combustível liberado era para os médicos. Foram estabelecidos contatos com as organizações camponesas nas zonas periféricas, organizou-se o abastecimento de comida, os preços foram fixados pelos trabalhadores e camponeses. 

Para evitar a especulação, as lojas tinham que deixar à vista um adesivo com as palavras: Esta loja está autorizada a abrir. Os preços estão sob supervisão permanente dos sindicatos. O adesivo ia assinado pela CGT, CFDT e FO. Um litro de leite era vendido por 50 centavos, seu preço normal era de 80 centavos. O quilo da batata baixou de 70 para 12 centavos. O quilo da cenoura passou de 80 a 50 centavos e assim por diante.

Os estudantes, os professores, os profissionais, camponeses, cientistas, jogadores de futebol, até mesmo as bailarinas do Folies Bergères foram à luta. Em  Paris os estudantes ocuparam a Sorbonne. O teatro l'Odeon foi ocupado por 2.500 estudantes e os estudantes do ensino médio ocuparam suas escolas:
'A febre de ocupação afetou a intelligentsia. Os médicos radicais ocuparam as sedes da Associação Médica, os arquitetos radicais proclamaram a dissolução de sua associação, os atores fecharam todos os teatros da capital, os escritores encabeçados por Michel Butor ocuparam a Societe de Gens de Lettres no Hotel de Massa. Inclusive os executivos das empresas participaram ocupando durante um tempo o edifício do Conseil National du Patronat Français, depois se deslocaram para a Confederation Generale des Cadres' (David Caute). 
Como as escolas estavam fechadas, os professores e os estudantes organizaram vigílias, brincadeiras, comidas gratuitas e atividades para os filhos dos grevistas. Foram criados comitês de mulheres de grevistas que tiveram um papel importante na organização do abastecimento de alimentos. Não só os estudantes, como também os advogados profissionais estavam infectados pelo vírus da revolução. 

Os astrônomos ocuparam um observatório. Houve uma greve no centro de pesquisa nuclear de Saclay, onde a maioria dos 10 mil empregados eram pesquisadores, técnicos, engenheiros e cientistas. Até a igreja foi afetada. No Quartier Latin, jovens católicos ocuparam a igreja e exigiam debates no lugar das missas.

O PODER NAS RUAS

Os distúrbios continuavam em Paris, os trabalhadores e estudantes desafiavam o gás lacrimogêneo e as baterias de policiais. Numa só noite houve 795 presos e 456 feridos. Os manifestantes tentaram incendiar a Bolsa de Paris, considerada um símbolo odiado do capitalismo. Um comissário de polícia foi morto em Lyon, atropelado por um caminhão.

Uma vez na luta, os trabalhadores começaram a ter iniciativas que iam mais além dos limites de uma greve normal. 

Um elemento fundamental na equação foram os meios de comunicação de massas. Formalmente, são armas poderosas nas mãos do Estado, mas também dependem dos trabalhadores, que fazem funcionar as emissoras de rádio e televisão. No dia 25 de maio, a rádio televisão estatal, a ORTF, entrou em greve. Suprimiram as notícias das oito da noite. Os gráficos e jornalistas impuseram uma espécie de controle operário sobre a imprensa. Os jornais burgueses tinham que submeter seus editoriais ao escrutínio e deviam publicar as declarações dos comitês de trabalhadores.

A Assembleia Nacional discutiu a crise universitária e as batalhas do Quartier Latin. Porém, os debates nos salões da assembleia já eram irrelevantes. O poder havia escapado das mãos dos legisladores e estava nas ruas. 

No dia 24 de maio, o presidente De Gaulle anunciou o referendo no rádio e na televisão. O plano de De Gaulle, de realizar um referendo, foi frustrado pela ação dos trabalhadores. O general foi incapaz até mesmo de imprimir as cédulas do referendo devido à greve dos trabalhadores das gráficas franceses e a negativa de seus colegas belgas de atuarem como fura-greves. 

Este não foi o único exemplo de solidariedade internacional. Os condutores de trens alemães e belgas detinham seus trens na fronteira francesa para não romper a greve.

As forças da reação, até aquele momento em estado de choque e obrigadas a estar na defensiva, começaram a se organizar. Foram criados Comitês de Defesa da República, como tentativa de mobilizar a classe média contra os trabalhadores e estudantes. 

A correlação de forças de classe não é uma questão puramente numérica do tamanho da classe trabalhadora em relação ao campesinato e da classe média em geral. Uma vez que o proletariado entra na luta decisiva e demonstra ser uma força poderosa na sociedade, atrai rapidamente a massa explorada de camponeses e de pequenos comerciantes que são vítimas dos bancos e dos monopólios. Este fato era evidente em 1968, quando os camponeses levantaram bloqueios nas estradas ao redor de Nantes e distribuíram comida grátis aos grevistas."

(trecho do artigo A Revolução 
Francesa de Maio de 1968,
do escritor e analista político 
britânico Alan Woods, 
editor do site marxist.com)

domingo, 31 de dezembro de 2017

OS DIAS EM QUE A IMAGINAÇÃO QUASE CHEGOU AO PODER

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
"Não trabalhe jamais!"
(frase encontrada nos
muros de Paris)
Já lá se vão 50 anos desde o maio de 1968 na França. 

Tal movimento representou a mais clara manifestação de insatisfação popular contra os valores capitalistas e seu modo de vida, justamente no momento em que a França poderia se jactar de uma predominância econômica sobre seus vizinhos europeus e o restante do mundo, e da possibilidade de confirmação vitoriosa do Estado do bem-estar social. 

Era o ápice dos incríveis e revolucionários anos 60 que, infelizmente, iriam ser eclipsados pela hipocrisia conformista da década seguinte, que em nosso país foi marcada pelo falso milagre brasileiro patrocinado pelo governo militar com o beneplácito dos que estiveram na base do golpe de 1964, os Estados Unidos e sua Operação Condor para a América latina, bem como pela perseguição raivosa e fascista aos que ainda desejavam manter de pé as bandeiras revolucionárias da década anterior.

Aquele movimento contestatório de estudantes e trabalhadores já está sendo encarado como uma segunda revolução francesa, dada a sua importância para o significado do conceito de Estado e da sociedade industrial produtora de mercadorias, 

Isto porque muito mais relevante do que os resultados práticos político-institucionais obtidos pelo movimento.em termos de mudanças na correlação de força e nos organogramas do poder, o maio de 68 mexeu com a cabeça das pessoas, modificando seu modo de pensar e de agir.  

Iniciado a partir de reivindicações estudantis, sob o comando de Daniel Cohn-Bendit, o movimento se alastrou para os trabalhadores de um modo geral, tanto que 10 milhões deles aderiram (cerca de 2/3 de toda a força de trabalho do país) durante 15 dias; e teve tal apoio popular que levou cerca de 1 milhão de pessoas em praça pública.
Saiu, assim, do controle das lideranças sindicais e partidos de esquerda para confrontar não apenas o governo do general Charles De Gaulle (cujo aparelho policial se mostrou impotente para conter as manifestações), mas a própria essência do sistema produtor de mercadorias. 

Nem mesmo o Partido Comunista Francês (que em certo momento tentou direcionar o movimento no sentido de acordos políticos institucionais) conseguiu colocar um freio na avalanche contestatória, que mais pareceu ter a força de uma inundação que tudo arrasta.

Um das frases da Internacional Situacionista, representada por Guy Debord (autor do livro A sociedade do Espetáculo, de 1967), críticas à linha stalinista do marxismo tradicional, inscritas nos muros de Paris, era a que serve de epígrafe para este artigo: Ne travaillez jamais, questionando a essência do sistema produtor de mercadorias, pois negava não apenas o quantum de remuneração dos trabalhadores, mas o trabalho assalariado em si, considerado como fonte de toda a miséria capitalista.
Diante da Sorbonne: sejam realistas, peçam o impossível.

Outro slogan memorável: A imaginação ao poder. Uma heresia para os conformistas que, independentemente de orientações ideológicas, preferiam manter-se nos caminhos rotineiros da política convencional a embarcarem na jornada ao desconhecido proposta pelos jovens.

O maio de 68 colocou, portanto, em xeque tanto a direita quanto a esquerda tradicional, que mais se escandalizou do que deslumbrou ao ver a utopia revolucionária ganhar as ruas e erguer barricadas como as da Comuna de Paris de 1871.

O movimento destacava aspectos como sexualidade e prazer na sociedade mercantil, criticando-a por transformar todas as pessoas em peças de uma engrenagem sufocante da vida social. Nada mais atual.   

Naqueles dias todo o sistema capitalista francês, tanto do ponto de vista econômico como institucional sentiu a força de que é capaz a mobilização popular. As fábricas, grande comércio e setores de serviços passaram às mãos do povo, ante a impotência do aparato repressivo.

As forças militares, rechaçadas pelos cidadãos, não tiveram como conter o transbordamento de resistência e alegria dos que lutavam ao tomarem seus destinos seus destinos nas mãos. A greve geral que se seguiu às manifestações levou uma multidão de mais de 1 milhão de pessoas às ruas de Paris, contando com a adesão de quase todas as profissões.

Entretanto, ainda que a insatisfação com o sistema fosse manifesta, o movimento não teve depois continuidade, por falta de uma proposição teórica que soubesse aglutinar todo o potencial revolucionário nele contido. Não estava claro que o passo seguinte deveria ser a abolição dos construtos capitalistas, alicerçados por suas categorias fundantes: trabalho abstrato, trabalhador, dinheiro, mercadorias, mercado, estado e política.

Na esteira do vácuo de encaminhamentos consequentes como a tomada das fábricas para a produção de bens socialmente úteis e serviços necessários ao consumo cotidiano, veio uma retomada do controle por parte dos que entendem que somente pode existir vida social a partir da produção de valor (dinheiro e mercadorias) e de uma organização estatal verticalizada. 

Paulatinamente os trabalhadores recomeçaram a produzir mercadorias; os dirigentes sindicais voltaram à sua rotina de negociação de pedintes de melhoras salariais e consequente afirmação do trabalho abstrato; as instituições do Estado retomaram o discurso hipócrita habitual, de defesa da cidadania; e se restabeleceu o marasmo opressor preexistente.  

Entretanto, como não há mal que dure para sempre, ainda reverberam nos ouvidos dos cidadãos os ecos do maio de 68, até porque a insatisfação popular é agora acirrada pela crise irreversível do capitalismo, com ingredientes novos como a insensatez ecológica suicida.

Por Dalton Rosado
Nunca foi tão necessário reatarmos os fios da História,  com a volta dos cidadãos às ruas, às greves e às barricadas, nestes tempos em que o capitalismo novamente nos apresenta sua face mais medonha e as condições novamente estão dadas para suas vítimas o confrontarem em ampla escala, como naquele ano memorável em que o povo francês, de tantas jornadas libertárias, por algumas semanas tomou conhecimento de sua força.

sábado, 30 de dezembro de 2017

1968 NÃO TERMINOU: OS FIOS DA HISTÓRIA PODERÃO ATÉ SER REATADOS MEIO SÉCULO DEPOIS, POR QUE NÃO?

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
As barricadas parisienses de maio de 1968...
Por um capricho da História, as efemérides dos dois marcos revolucionários mais significativos do século 20 agora se sucederam, como que nos convidando a refletir sobre ambos.

A revolução russa de 1917 foi a mais clássica das revoluções inspiradas pelo marxismo – e também o divisor de águas entre os ideais românticos do século 19 e uma tentativa de atualização que produziria um épico... desvirtuamento!

Até a Comuna de Paris (1871), o avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

O ancien régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
...e as da Comuna de Paris, em 1871.

Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista: necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.
Lênin e Trotsky: enormes acertos e alguns erros.
Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. Em momentos críticos, poucos militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes pesam muito mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: "Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central".

O certo é que a Rússia foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 

— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;

— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;

— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
A liberdade guiando o povo (versão 1968)

— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a Rússia tendo de, em 1918-1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, Judiciário ou Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.
Uma nova esquerda despontou em 2013. E foi tratada a pontapés pela velha...
Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando a década atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.
Este título se revelará profético?

Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como de 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados meio século depois, por que não?  
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