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sexta-feira, 9 de setembro de 2022

ANUIR AO RUIM (PRETENSÃO DE HEGEMONIA) PARA EVITAR O PIOR (O AUTORITARISMO)?

madeleine lacsko
BRASIL ESTÁ ENTRE A CARICATURA DA DIREITA
E A ESQUERDA QUE A DIREITA GOSTA
A
ntes de começar a coluna em si, cumpre esclarecer quem inventou os adjetivos. Faço para evitar que paquitas de político percam tempo xingando a pessoa errada por ter criticado seu populista irretocável. 

caricatura da direita vem da minha boca, embora não seja de minha autoria. Circula por aí. É a turma que se diz conservadora fazendo o avesso do que pregam e pregaram todos os teóricos do conservadorismo.

Dizem defender o liberalismo enquanto praticam estatismo e capitalismo de compadrio. Juntam-se aos fiéis seguidores do Evangelho Segundo Quentin Tarantino, o único em que Jesus é pistoleiro. Defendem a família formando várias. 

Pregam abertamente o fim do sistema de freios e contrapesos entre os três Poderes, a sobreposição da vontade dos seus à dos demais e tudo quanto é teoria autoritária que julgávamos repousar no lixo da história. 

Já o termo a esquerda que a direita gosta não vem de mim, é da autoria de Darcy Ribeiro. Leonel Brizola fez, em 27 de fevereiro de 1994, um artigo na Folha de S. Paulo sobre o PT intitulado Como a Direita Gosta

Passeava pelas origens trabalhadoras do PT, lembrando que o partido pretendia cortar a história com uma tesoura para que ela fosse recontada dando a ele o posto de primeiro grande defensor dos trabalhadores. 

As greves do ABC onde Lula despontou vieram 10 anos depois das greves de Osasco, do ferroviário José Ibrahim, fundador do PT e da CUT, que enfrentou a linha dura da ditadura militar de 1968. 

É um herói sindical que posteriormente se meteu em movimentos guerrilheiros. 

Abandonou o PT em 1990. Na última entrevista que deu em 2013 antes de morrer, a um portal de esquerda, explicou: 
"Eu disse ao Lula e ao Zé Dirceu: 'Vocês não me deixam filiar trabalhadores que estão à esquerda de vocês. Assim, é melhor eu ir embora'".
E foi.

Na década de 1990, os grandes nomes da esquerda nem consideravam mais o PT como esquerda. Alegavam que se agachava demais aos interesses da elite nacional, que pretendia manter a ordem econômica intacta. Leonel Brizola, p. ex., dizia:
"As cúpulas dirigentes do PT são formadas por uma espécie de pequena burguesia radicalizada. Daí vem seu grande apoio nos bairros de alto padrão das grandes cidades"
O processo jamais foi revertido, muito pelo contrário. Acabou aprofundado também na militância, o que promoveu um distanciamento do povo. 

Em 2018, o rapper Mano Brown, que apoia o PT, aconselhou publicamente o partido a voltar às bases. Disse que o contato com o povo estava se rompendo e não era possível tratar todo evangélico brasileiro como se fosse um clone de Silas Malafaia. 

O parque de areia antialérgica jamais iria se misturar com povo. Não se misturou e acelerou nas pautas progressistas que não são aceitas pela maioria da população.  

Sobrou pauta sem representante. A direita caricata e autoritária assumiu todas elas sem dificuldade, inclusive negando o que pregava.

Jair Bolsonaro espertamente diz que é contra o aborto, a liberação das drogas e a ideologia de gênero. Alega ser a favor dos valores cristãos e da família. 

Essas não são pautas nem de direita nem de esquerda. Há representantes das duas vertentes políticas no mundo todo que se posicionam de formas diferentes sobre esses temas. 

Aqui no Brasil, para a esquerda que a direita gosta, é obrigatório ser a favor do aborto, da liberação das drogas, dizer que ideologia de gênero é coisa de doido, tirar sarro de cristão e falar que a família não presta.
 
E quanto à estrutura econômica e um projeto de Brasil? Não vamos incomodar o Leblon e a Vila Madalena com essas bobagens de pobre. 

Cada vez que Jair Bolsonaro provoca, consegue um recibo do progressismo gourmet. Com essa ajuda e mais o uso indecente da máquina pública a seu favor, já ultrapassa Lula em São Paulo. 

Muitos de nós querem acreditar que fazem parte de uma guerra do bem contra o mal. Cada um têm a mais firme convicção de ser o lado do bem. 

Infelizmente, estamos entre ruim e pior, entre pretensão de hegemonia e autoritarismo. Abrimos mão da política para nos agarrar a pais da pátria. Acabaremos tendo de decidir entre uma caricatura autoritária da direita e a esquerda que a direita gosta. (Madeleine Lacsko é escritora, jornalista, youtuber e colunista do UOL)
Grevistas saindo da Cobrasma sob a mira dos soldados
T
oque do editor 
– O artigo da Madeleine tem algumas boas colocações, como a de que a esquerda domesticada, que se tornou reformista, populista e identitária (três maneiras de não confrontar pra valer a dominação burguesa), contribuiu em muito para a volta da extrema-direita ao poder institucional.

No entanto, nascida 10 anos depois das jornadas de 1968, ela deveria informar-se melhor sobre o ano que foi um verdadeiro divisor de águas entre a velha esquerda que caducou e a nova esquerda que ousou lutar quando tantos se omitiam, recolocando a revolução no centro das preocupações dos que querem realmente mudar nossa História trágica. 

Não seja, Madeleine, como o PT que você acertamente critica, preconceituosa com relação aos que pegamos em armas para travar uma luta tão desigual e arriscada. Só de companheiros que conheci pessoalmente, duas dezenas foram assassinados nos anos de chumbo. E dos sobreviventes, quase todos, como eu, passaram pelas piores torturas e saíram estropiados. 

De resto, não menospreze a opção do companheiro José Ibrahim, como se tivesse sido um sindicalista que teve uma loucura momentânea quando "se meteu em movimentos guerrilheiros", recuperando depois a razão.

O metalúrgico José Ibrahim (trabalhar na Cobrasma, indústria que produzia materiais ferroviários, não fazia dele um ferroviário), como presidente do Sindicato dos Matalúrgicos de Osasco, liderou em 1968, ao lado do Zequinha Barreto, a primeira greve com ocupação de fábrica na ditadura militar. 
Os 15 trocados por Elbrick. Ibrahim é o 3º, da esq. p/ a
dir., na fileira do alto, entre o Zé Dirceu e o Onofre Pinto.
Osasco foi tomada pela repressão e os trabalhadores evacuados sob a mira de fuzis. Ibrahim, demitido da Cobrasma, teve os direitos políticos cassados e, com a promulgação do AI-5, tomou o único caminho para continuar lutando contra o estado de exceção: ele e o Barreto ingressaram na VPR. 

Preso, seria um dos 15 prisioneiros políticos libertados quando do sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick. Voltou para o Brasil com a anistia de 1979 e ajudou a fundar o PT.

Foi ele, aliás, quem no início de 1969 apresentou a VPR ao nosso grupo de oito militantes secundaristas que discutíamos com as organizações armadas para escolher em qual entraríamos, já que avaliávamos ser impossível tocar o movimento estudantil adiante em meio ao terrorismo de Estado desembestado. Convenceu-nos: optamos pela VPR. (por Celso Lungaretti)   

sábado, 11 de julho de 2020

CURIOSIDADE: UM ARTIGO QUE ESCREVI PARA CIRCULAÇÃO INTERNA NA VPR VOLTA ÀS MINHAS MÃOS MEIO SÉCULO DEPOIS – 3

(continuação deste post)
Bento manchado de sangue, após prisão 
O artigo que redigi em janeiro de 1970 e voltou agora às minhas mãos (acessem-no aqui) era o capítulo final de uma série criada para vender aos nossos quadros e a outros militantes de esquerda a ideia de que as Teses do Jamil, depois incorporadas ao programa da nova VPR, seriam a culminância da trajetória evolutiva do pensamento revolucionário no Brasil. Mas, não me culpem por tal exagero, também as outras organizações se promoviam assim, enfeitando demais o pavão.

O que o Jamil fez foi, isto sim, um primor de pragmatismo, varrendo as teias de aranha teóricas que atrapalhavam a união da esquerda contra o inimigo principal.

O PCB passara décadas pregando que, não tendo o Brasil passado por uma revolução burguesa típica, sobravam resquícios feudais no campo e existiria uma burguesia nacional tão indisposta com o imperialismo a ponto de o enfrentar.

Duas bobagens. Se o trabalhador rural brasileiro aspirava a ter sua terrinha, isto não implicava que, tão logo a possuísse, se tornaria inimigo figadal dos socialistas; ele estaria ocupado demais, tentando sobreviver à concorrência desigual com os grandes proprietários e com os grandes empreendimentos rurais. 

Nada indicava que, proclamando-nos socialistas e dispondo-nos a contribuir para que ele obtivesse a sonhada terra, ele dissesse não, com vocês não quero papo...     

Quanto aos resmungos de industriais e comerciantes genuinamente brasileiros contra o maior poder de fogo das multinacionais, eram superestimados pelo PCB que, por sinal, sempre se deu bem demais com os ditos cujos e foi por eles financiado... 
A burguesia nacional, na visão de Glauber Rocha

Na verdade, tal nacionalismo de araque ia até receberem oferta melhor do imperialismo, como Glauber Rocha magnificamente exemplificou em sua obra-prima Terra em Transe: o magnata das comunicações Julio Fuentes (Paulo Gracindo) confronta a multinacional que domina o país até que esta o seduz propondo-se a anunciar maciçamente nos seus veículos. 

Aí Fuentes retira a escada do esquerdista Paulo Martins (Jardel Filho), que ditava a linha editorial, deixando-o pendurado na brocha.

Mas, para não assustar os camponeses (que nem ligariam) e a burguesia nacional (que, no frigir dos ovos, optaria pelo lado inimigo), o PCB adotava a linha cautelosa que explodiu na sua cara em 1964, evitando falar em revolução e em darmos um fim à exploração capitalista. Falava em povo e nos dias que o Brasilino passava consumindo produtos e serviços estrangeiros a cada momento...

No processo de crítica e autocrítica subsequente ao golpe de 1964 (sim, naquele tempo não nos conformávamos passivamente com as grandes derrotas que sofríamos e as discutíamos aprofundada e apaixonadamente, para detectar nossos erros e aperfeiçoar nossa atuação), os contingentes da esquerda mais dispostos à luta contra a ditadura foram substituindo os manuais de Nelson Werneck Sodré, Josué de Castro e que tais pelo A revolução brasileira, de Caio Prado Jr., que proclamava enfaticamente o caráter socialista da revolução.

Jamil foi além:
Greve de Osasco, 1968; seus 2 líderes ingressariam na VPR
— se era impossível afirmar-se por aqui um capitalismo nacional, independente do imperialismo, por que temê-lo? 
— se os pequenos proprietários rurais não conseguiriam competir com os grandes empreendimentos capitalistas no campo, por que vê-los como adversários em potencial, caso conseguissem o que queriam?
— se uma revolução democrático-burguesa já deixara de ser possível no Brasil (se é que algum dia o fora...), por que deveriam os defensores do estágio socialista perder tempo e dispersar esforços combatendo os contingentes de esquerda que a defendiam, pregando a revolução popular ao invés da revolução socialista?

Enfim, o melhor era acreditarmos que, uma vez desencadeada a revolução, sua dinâmica necessariamente conduziria ao socialismo, daí ser desnecessário e desgastante batalharmos por isso. Travando uma luta contra inimigo mais poderoso, teríamos de unir todos que pudéssemos mobilizar contra ele, ao invés de afastar os que não rezassem por cartilha idêntica à nossa nos mínimos detalhes.

A derrubada da ditadura não seria fruto de uma guerrilha nos moldes cubanos, da guerra popular maoísta nem da greve geral leninista, mas sim da conjugação de uma miríade de ações revolucionárias no campo e nas cidades. Assim como Guevara recomendava que se criassem no mundo um, dois, três, mil Vietnãs, deveríamos estimular o afloramento de focos de resistência por todo o Brasil.  
Livro que foi muito influente

E se perdêssemos o controle desse processo e outra tendência acabasse se tornando a dominante após a vitória da revolução? Era um risco a corrermos. Não poderíamos nem deveríamos tentar controlar todo o processo, mas sim deixar que as iniciativas dos outros brotarem, apoiando-as na medida do possível. E confiar que a nossa coerência nos colocaria em posição destacada depois.

E qual o papel que nos caberia nessa luta pulverizada? Como a organização militarmente mais capacitada, as de:
— lançarmos uma coluna móvel estratégica (que não se fixaria em determinada região, mas se movimentaria sempre, atacando o inimigo para desgastá-lo e para exemplificar que era possível derrotar as Forças Armadas e, com isto,  alimentar a chama da resistência em todo o país); e
— a de fazer propaganda armada nas cidades (tomando supermercados para que o povo pudesse saqueá-los, sequestrando ricaços para obrigar suas famílias a distribuírem mantimentos nas favelas, etc,).

Enfim, a partir da modernidade revolucionária que presenciara na Europa; de influências como os livros A revolução na revolução, de Regis Debray e O desenvolvimento do subdesenvolvimento, de Gunder Frank; e da proposta da coluna móvel estratégica do Cesar, o Jamil criou o melhor programa possível para o estágio da luta que atravessávamos naquele momento. 

Realmente, perdíamos cada vez mais a iniciativa e mal conseguíamos realizar ações de grande porte sem a participação conjunta duas ou mais organizações, daí ser tão oportuna tal conclamação à união da esquerda, para que ninguém tentasse ocupar posição hegemônica como a do PCB até 1964, as organizações cooperassem umas com as outras ao invés de competirem estupidamente, as iniciativas isoladas surgissem em todo lugar e, numa etapa mais avançada do processo, se desse a união de todas essas forças para a derrubada da ditadura.

Infelizmente, já era tarde demais. 
Moraes desmentiu a versão de suicídio da irmã, Iara Iavelberg 
O Moisés e eu não fomos páreo para o Max e o Bento que, com os poderes de comandantes nacionais, conseguiram fazer com que fosse anulada nossa auto-indicação como delegados para o congresso nacional da VAR-Palmares que teve lugar em Teresópolis (RJ), setembro/1970, enquanto transcorria o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick pela ALN.

É que, com o caos pelo qual passava a Organização em SP devido à queda e morte do Elias, os três comandantes remanescentes decidimos ser temerária a realização de uma conferência nacional e optarmos por indicarmos nós mesmos os dois delegados. O Moraes, adepto da posição massista, insistiu que fôssemos ele e um de nós, o Moisés ou eu. 

O Moisés ficou tentado a ceder-lhe a vez, mas argumentei que duas vozes num congresso de umas 40 já teriam enorme dificuldade para prevalecerem; uma, menos ainda. Inconformado, o Moraes recorreu depois ao Max e ao Bento, que contra-atacaram com seu maior poder de fogo. 

Resultado: nossa auto-delegação foi cassada e acabamos permanecendo em Teresópolis apenas como seguranças, com direito a assistirmos aos debates com o bico calado quando não estivéssemos vigiando durante horas e horas os caminhos pelos quais a repressão eventualmente chegaria, para darmos o alarme e sermos os primeiros a morrer...   
O Mário Japa depois casou com a viúva do Juvenal

E os massistas iam vencendo ponto por ponto até que, ao perceber que a guerrilha rural deixaria mesmo de ser, na prática, a prioridade suprema, reduzindo-o a uma rainha da Inglaterra, o Cesar se decidiu a romper com a VAR, encabeçando aquele que seria chamado de racha dos sete: ele, o Alberto (José Araújo da Nóbrega), o Léo (Darcy Rodrigues), o Mário Japa (Shizuo Ozawa), o Matos (Cláudio de Souza Ribeiro),  o Moisés e eu.   

Ambos tivemos, então, reconhecido nosso papel: o Cesar se desculpou por não ter percebido antes que, ao invés de sermos os golpistas alegados pelo Bento e pelo Max, nós é que estávamos com a posição correta. 

O nosso novo programa teve realmente como espinha dorsal as Teses do Jamil, a organização passou realmente a ocupar-se apenas das tarefas armadas e a VPR foi realmente restaurada. Só erramos ao supor que o Colina fosse inteiramente massista e devêssemos nos separar in totum da metade VAR; parte viria, em seguida, para o nosso lado, como o Juvenal (Juarez Guimarães de Brito), a Lia (sua esposa Maria do Carmo) e o Virgulino (Wellington Moreira Diniz). 

A VAR tinha cerca de 300 quadros e acabou conservando uns 200. Mas os nossos 100 abrangiam  os mais aptos para as ações armadas, daí termos certeza de que desempenharíamos papel mais relevante no prosseguimento da luta. E a previsão se confirmou.
*  *  * 
Augusto foi homenageado na escola que cursou
Em termos pessoais, esse reencontro com um passado tão distante me fez perceber que formara retrospectivamente uma visão amarga demais do que fora aquele período para mim. A agressividade dos nossos adversários na luta interna, esmagando-nos com o peso de seus cargos e os meios de que dispunham para espalhar versões deturpadas a respeito de nossos objetivos, me chocou.

Depois, à medida que os massistas iam prevalecendo no desenrolar do congresso, refleti que, com a vitória deles, necessariamente exigiriam de mim uma autocrítica que eu jamais faria, inconformado com o jogo sujo que sofrera. 

Mas, procurado em todo o país, com a minha cara nos cartazes (por nós apelidados de galeria dos imortais da Oban), para onde iria? O que faria? Ainda assim, mesmo que tivesse de deixar Teresópolis por minha própria conta, com a grana que tinha no bolso, eu estava decidido a me desligar de imediato.

O Moisés, com sua mania de conservar sempre um trunfo guardado na manga, deveria ter-me contado que já acertara o ingresso de nós dois na Rede Democrática do Bacuri (Eduardo Leite). Só o fez depois de, na enésima hora, a maré ter virado em nosso favor... 

E a maior decepção de todas ocorreu na volta a SP. Recebi a tarefa de explicar a posição VPR aos companheiros, em reuniões conjuntas com o Bento, que defenderia a posição VAR. Nesse ínterim, ficaria abrigado num aparelho da VAR, para o qual fui conduzido, como era nossa norma, de carro e com os olhos fechados.
Sobrevivi para travar outras lutas, como a do Battisti em 2008/11

Depois de uma ou duas dessas reuniões (só me lembro que estava sendo convincente, mas não tenho certeza de quantas foram), o companheiro que deveria me apanhar no pontofurou; e não compareceu nem nas alternativas de meia hora depois e de várias horas depois. 

Abandonado, desnorteado e muito procurado, um incrível acaso me tirou da enrascada, pois, em pleno centro velho de SP, dei de cara com o Henrique (Devanir de Carvalho, do MRT), também procuradíssimo, e ele me prestou ajuda solidária, abrigando-me e me recolocando em contato com a VPR.

Constato agora que, no finzinho de janeiro, eu já havia assimilado todos esses maus momentos (inclusive a participação insatisfatória na equipe precursora da área 1 de Registro e o assassinato do Augusto (Eremias Delizoicov, meu colega desde o curso primário, depois amigo, companheiro de movimento estudantil  e um dos sete que ingressaram comigo na VPR).

No documento, vejo que defendia (o melhor que pude) nosso racha e tentava transmitir otimismo. Por que lembrava dessa série como fora da realidade da VPR, intelectual demais e descabida? Provavelmente porque, depois do Congresso de Teresópolis da VAR, do racha e do novo Congresso que recriou a VPR, baixara na Organização um clima de ojeriza por textos programáticos/teóricos e por congressos, a ponto de eu mesmo ter optado por não participar desse último.  

Aí, quando o Moisés me disse que alguns veteranos estavam considerando minha série um desperdício de papel, acabei ficando com essa imagem na cabeça. Hoje percebo que estava longe de ser tão ruim assim, embora hoje a fizesse menos triunfalista e mais realista.

Mas os jovens são mesmo mais entusiasmados que os idosos e meio século não transcorre sem nos modificar, para melhor ou para pior...  
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(por Celso Lungaretti)

terça-feira, 3 de setembro de 2019

HÁ 50 ANOS, SOB PRESSÃO DOS EUA, A DITADURA MILITAR FOI OBRIGADA A ENGOLIR UM SAPO DESCOMUNAL

Toque do editor
Um amigo virtual de longa data, o Ângelo Genovesi, insistiu muito para que eu postasse uma matéria sobre o sequestro do embaixador estadunidense Charles Elbrick ao comemorar-se o cinquentenário do episódio.

O diabo é que minha decepção com o apagão mental de 39% dos eleitores brasileiros em outubro último continua me tirando não só o sono, mas também o ânimo para escrever sobre a luta terrivelmente desigual que um dia travamos, convictos de que valia a pena sacrificarmos nossas vidas e nossa integridade física e psicológica para que o povo brasileiro não tivesse mais de rastejar sob as botas militares.

Não que nós, os que sobrevivemos e os que morreram, teríamos agido diferente se adivinhássemos que um dia tantos mitificariam os autoproclamados herdeiros do Brilhante Ustra. 

Jamais! Nossa convicção era tão profunda que, se não tentássemos nos colocar à altura daquele desafio, seria nossa morte moral, bem pior do que a física. 
Mas, relembro o entusiasmo ardente do Eremias Delizoicov, que eu conhecia desde o curso primário, e fico pensando em como conseguiria explicar-lhe tanta infâmia e tão chocante retrocesso. Creio que não conseguiria. 

Enfim, registrarei a efeméride com um correto texto do Memorial da Democracia e abrindo uma janelinha para o documentário Hércules 56 (2006), do Silvio Da-Rin.

E, como nos nefandos tempos da ditadura militar, continuarei me guardando (e guardando meus melhores textos) pra quando o carnaval chegar. (por Celso Lungaretti)
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O OUSADO SEQUESTRO DO EMBAIXADOR
 DOS EUA
Na mais espetacular ação da guerrilha urbana, um grupo formado por militantes da Ação Libertadora Nacional (ALN) e do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8) captura o embaixador dos Estados Unidos, Charles Burke Elbrick, numa rua de Botafogo, no Rio. 

Em troca do diplomata, as duas organizações passam a exigir a libertação de 15 presos políticos e a divulgação em rádio e TV de um manifesto revolucionário. O prazo fixado para resposta é de 48 horas.

O sequestro surpreendeu a Junta Militar, que havia assumido o poder poucos dias antes. Alguns oficiais das Forças Armadas foram contra a libertação dos presos, mas a pressão do governo dos EUA, fiador do golpe de 64 e da ditadura brasileira, falou mais alto. Washington exigiu que tudo fosse feito para resgatar com vida seu embaixador. 
Durante três dias, o Rio foi tomado por um imenso aparato policial e militar, que vasculhou toda a cidade em busca dos sequestradores e do diplomata norte-americano.

A casa onde eles estavam, na rua Barão de Petrópolis, chegou a ser vigiada por agentes da Marinha, mas não foi invadida — seja porque os agentes da repressão não tinham certeza de que Elbrick se encontrava no local, seja porque as ordens eram claras para que a vida do embaixador não fosse colocada em risco. 

Encurralada, a Junta cedeu às exigências, e os 15 presos foram enviados para o México, que aceitou recebê-los. 
Foram é salvos. Os 15!

Entre os libertados estavam os líderes estudantis Vladimir Palmeira, José Dirceu e Luiz Travassos, o dirigente histórico do PCB Gregório Bezerra, o jornalista Flavio Tavares e o líder da greve de Osasco, José Ibrahim. 

Os demais eram membros de organizações revolucionárias, como a ALN, o MR-8 e a VPR. Para formalizar a libertação de presos, que nem sequer respondiam a processo, foi assinado às pressas o Ato Institucional n° 13, implantando o banimento do país.

O embarque dos banidos num Hércules da FAB e a viagem ao México foram cercados de tensão, devido ao temor de que o avião fosse atacado no solo ou em voo por militares descontentes com a libertação dos presos políticos. 

Depois da chegada do grupo na Cidade do México, o embaixador Elbrick foi libertado pelo comando da ALN e do MR-8. Era um domingo, 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil e da maior humilhação até então imposta à ditadura.

Dois dias depois, foi baixado o AI-14, instituindo a pena de morte e a prisão perpétua em casos de “guerra revolucionária e subversiva”. Nos anos seguintes, em ações cada vez mais desgastantes e arriscadas, seriam sequestrados e trocados por presos políticos os embaixadores da Alemanha e da Suíça e o cônsul do Japão em São Paulo.
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