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segunda-feira, 14 de novembro de 2022

UM WESTERN PECULIAR, COM ÍDOLO DO ROCK ESTRELANDO E HIPPIES NA TRAMA

Um dos mais curiosos westerns italianos agora está disponível no Youtube: O Especialista, de 1969, que passou com tal título nos cinemas brasileiros, daí eu preferir mantê-lo aqui, ignorando o acréscimo posterior, totalmente dispensável e brega, de O Vingador de Tombstone.

Sergio Corbucci foi quem dirigiu e fez o roteiro (a quatro mãos com Sabatino Ciuffini). Romano, Corbucci iniciou sua carreira em longa-metragens no ano de 1951 e foi passando pelos diversos filões da Cinecittà, desde comédias do Totó até épicos como Romulo e Remo.  

Nem terror ficou faltando, pois em 1964 ele codirigiu com Anthony M. Dawson o ótimo Dança Macabra, embora sua contribuição não lhe tenha sido creditada.
Finalmente, o chamado
spaghetti western o colocou em grande destaque, a partir do sucesso de Django (1965), filme cultuado até hoje e que tem em Quentin Tarantino um dos maiores admiradores. 

Antes, ele já havia feito dois exemplares do gênero (Massacre no Grand Canyon e Minnesota Clay), mas foi com a icônica imagem de um desgrenhado Franco Nero arrastando um caixão de defunto pelas ruas de uma cidade enlameada que Corbucci se alçou para a posição de segundo principal diretor dos bangue-bangues à italiana, atrás apenas de Sergio Leone.

O que O Especialista tem de diferente, contudo, é a inclusão de alguns (pré) hippies que perambulam sem destino e acabam envolvendo-se com a clássica trama de vingança.

Quem a busca é Johnny Hallyday, no papel de um pistoleiro famoso, inconformado com a cidade que linchou seu irmão. 

Tido como o Elvis Presley francês, ele estava na crista da onda graças ao estrondoso sucesso mundial de "Noir c'est noir", mas era cantor e compositor desde os 13 anos e fizera sua primeira aparição no cinema aos 12. 

Nunca Corbucci deixou tão explícita sua adesão ideológica à esquerda tradicional: o filme não só retrata os poderosos do lugar como crápulas repulsivos, como se alinha com a visão preconceituosa que o PCI tinha da nova vanguarda surgida em 1968, ao passar uma imagem igualmente negativa dos jovens andarilhos que, aproveitando o vácuo de poder, tentam dominar a cidade. 

Embora este último enfoque seja diametralmente oposto ao meu, prefiro mil vezes filmes que se posicionem e discutam questões importantes do seu momento do que a redução do cinema a mero entretenimento vazio ou lavagem cerebral para reforçar a domesticação dos videotas. (por Celso Lungaretti) 

domingo, 3 de julho de 2022

SAIU O ASSEDIADOR: OS VIRULENTOS DO 1º ESCALÃO FORAM PARA O INFERNO!

eliane cantanhêde
QUEDA DE PEDRO GUIMARÃES DA CAIXA ENCERRA NÚCLEO IDEOLÓGICO NO
 PRIMEIRO ESCALÃO
Ao se esborrachar na Caixa Econômica Federal, Pedro Guimarães foi praticamente a última cara dos ideológicos no primeiro escalão. 

Jair Bolsonaro elegeu-se com o tripé militar/policial, evangélico e ideológico, mas logo no primeiro ano de governo o núcleo conservador levou um safanão e quem passou a dar as ordens foi o centrão

A nova política foi escanteada no Congresso e vem sendo empurrada para o terceiro e quarto escalões. Já à deriva, os ideológicos afundaram de vez com a morte de Olavo de Carvalho. 

Sem chances, o diplomata Ernesto Araújo, defenestrado do Itamaraty, tenta assumir o papel de Carvalho com sua lenga-lenga apocalíptica sobre o fim do Ocidente, contra a China e a favor de Donald Trump. 

Araújo e Abraham Weintraub, ex-ministro da Educação sem poder ser, esperneiam, mas ninguém dá bola.

Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente sem jamais ter pisado antes na Amazônia, anda mais ocupado em se livrar de inquéritos sobre desvios em São Paulo e relações com madeireiras criminosas. 

E Damares Alves, ex-ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, é candidata a alguma coisa no DF.

Também pastor e da cota dos ideológicos como Damares, Milton Ribeiro já foi preso e jogou o presidente na fogueira duas vezes: ao dizer que foi ele quem meteu no MEC os dois pastores mergulhados até o último fio de cabelo em negociatas e lhe passou informações privilegiadas sobre busca e apreensão.

Até os filhos Eduardo e Carlos Bolsonaro, do núcleo mais ideológico, andam mais discretos. 

Assim, quem manda no governo e faz qualquer coisa pela reeleição são o filho 01, senador Flávio Bolsonaro; o centrão de Ciro Nogueira e Arthur Lira; e o núcleo militar do futuro vice na chapa, general Walter Braga Netto. Enquanto eles trabalham, Bolsonaro atrapalha.

Mas, se os ideológicos sumiram no palco, continuam firmes e fortes em áreas como a Cultura, que concedeu a Medalha do Mérito do Livro para Daniel Silveira, incapaz de ler um livro, quanto mais de escrever um, mas agora ao lado de Carlos Drummond de Andrade.

Enquanto os ideológicos fazem dessas, o centrão dá um golpe de mestre: a PEC da Reeleição, que cria o estado de emergência, faz picadinho da lei eleitoral e do teto de gastos e dá mais R$ 41 bilhões do dinheiro público para Bolsonaro recuperar as chances de vencer.

Com 33 milhões passando fome, essa é a maior urgência do Brasil. Mas só viram agora, como perguntou o senador José Serra, único com coragem para fugir da armadilha? 

Assim como o Senado, a Câmara vai aprovar em peso, e em tempo recorde, a tábua de salvação, não dos miseráveis, mas de Jair Bolsonaro. (por Eliane Cantanhêde)
Às vezes eu disponibilizo um filme apenas para justificar o gracejo no
título do post, mas não é o caso deste western italiano da boa safra
de 1968, a respeito do qual vocês podem ler mais aqui

terça-feira, 11 de janeiro de 2022

AMBIENTADO EM MONTANHAS GELADAS, ESTE FAROESTE EVOCA MASSACRES QUE OS ESTADOS UNIDOS PREFERIAM ESQUECER

Trintignant: um bom ator francês num papel inadequado 
O
vingador silencioso é um western algo errático que Sergio Corbucci co-roteirizou e dirigiu em 1968, com a ação transcorrendo toda em meio à neve e ao frio das montanhas do Utah. 

Traz um dos anti-heróis mais implausíveis de todo o filão: o franzino e nada ameaçador Jean-Louis Trintignant como uma vítima de bandidos (os quais, quando ele era criança, executaram seus pais e lhe cortaram a garganta, tornando-o mudo). 

Adulto, ele se vinga ganhando a vida como caça-prêmios: mil dólares por contrato, para matar ou atirar em ambas as mãos  de malfeitores, de acordo com a gravidade dos seus crimes. [O personagem, Silenzio, na minha opinião, só se equipara ao Aquiles de Brad Pitt em Tróia (d. Wolfgang Peterson, 2004) na categoria de maior inadequação do ator ao seu papel, em termos de physique du rôle...] 

O enredo é convencional e, previsivelmente, o carismático Klaus Kinski rouba a cena, como um bandido desalmado, cínico e manipulador.
Klaus Kinski roubou a cena

O que mais impressiona no filme, contudo, é o seu tom sombrio e pessimista: as paisagens são desoladas e o mal prevalece em toda a linha, como se fosse uma inversão do maniqueísmo tradicional dos faroestes estadunidenses.

Ainda assim, eu nem o inseriria neste festival se não fosse  o mérito de ter chamado a atenção para um dos capítulos mais emblemáticos das injustiças e desigualdades estadunidenses: a chamada Guerra do Condado de Johnson, até então apenas vagamente mencionada nos filmes sobre Billy the Kid, como um acontecimento do seu passado. 

Os massacres finais de O Vingador Silencioso e do posterior O Portal do Paraíso (d. Michael Cimino, 1980) inspiraram-se em matanças ocorridas no curso de tal Guerra, que teve lugar no Wyoming, entre 1889 e 1893.

Os extermínios foram consequência da formação de uma associação, a WSGA, que contratou pistoleiros para perseguir (supostamente como ladrões de gado) os pequenos produtores que estavam ameaçando o monopólio dos grandes pecuaristas nela reunidos.

As vítimas de tal violência reagiram criando uma milícia, obviamente com poder de fogo inferior,  e as matanças se sucederam: mais de cem pessoas foram assassinadas até a intervenção apaziguadora de tropas federais. (por Celso Lungaretti)
 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

O ESTRANHO CASO DO WESTERN ITALIANO QUE NÃO FOI UM GRANDE FILME, MAS EXERCEU ENORME INFLUÊNCIA.

Sergio Leone inventou o western italiano com Por um Punhado de Dólares (1964), definindo suas linhas mestras ao contrapor ao moralismo maniqueísta dos bangue-bangues estadunidenses um universo primitivo, carente de quaisquer valores que não fossem a luta pela sobrevivência e a defesa de interesses pessoais por todos os meios, em que o Bem não existia e os maus só se diferenciavam entre si por os piores atuarem em bandos e os menos piores (os anti-heróis) se virarem sozinhos graças às suas habilidades  superiores, principalmente no manejo das armas.

No sétimo dia o deus Leone descansou e o serafim Sergio Corbucci completou a criação, dando a tal universo um visual mais compatível, truculento, sombrio, sujo e enlameado, no qual os únicos poderes são:
— uma gangue que se identifica por suas echarpes e capuzes vermelhos, remanescente dos confederados vencidos na Guerra da Secessão, mas associada pelos signos visuais a sociedades ultradireitistas que viriam bem depois, como a Ku Klux Khan e a Tradição, Família e Propriedade (*); e
— um pequeno contingente de mexicanos que tenta obter recursos e armas para sua participação nas atividades revolucionárias .
A esse grotão decadente chega Django (Franco Nero), um soturno ex-soldado da União, a pé, carregando sua sela e arrastando um caixão, para logo envolver-se casualmente com os litigantes. Primeiro, vê três mexicanos chicoteando uma mulher loura por ela haver tentado fugir do grupo, que presumivelmente a aprisionara e a mantinha como concubina compulsória do líder (José Bordálo). 

Eles são baleados de surpresa por cinco echarpes vermelhas, que pretendem crucificá-la por sua promiscuidade com os inimigos, mas aí Django intervém, trava com eles rápido diálogo e, também sem aviso, não lhes dando a menor chance de reação, mata os cinco com disparos rápidos.

Assim, como se fosse um cavaleiro andante da Idade Média, o impulso de salvar aquela (não) donzela o coloca imediatamente no meio da disputa de poder que lá se trava, dando início à série de acontecimentos que protagonizará meio ao acaso, pois tinha ido lá apenas para fazer negócios com os mexicanos, não para envolver-se na briga deles. 

E isto com uma dose de violência  chocante para a época (hoje o filme passaria em qualquer sessão da tarde) e dois duelos icônicos com os echarpes vermelhas do major Jackson (Eduardo Fajardo), o primeiro na rua central da cidade e o final no cemitério.

Apesar do roteiro tosco e dos diálogos pueris
, foi um filme tão bizarro e impactante para a época que inspiraria fortemente boa parte dos spaghetti westerns vindouros. 

Afora ter gerado uma infinidade de fitas "B" com anti-heróis também chamados Django, mas sem ligação com a equipe do filme inicial e tendo outros atores no papel principal. 

Franco Nero só retomaria o personagem no outonal e meramente mediano Django – a volta do vingador (d. Nello Rossati, 1987).  

Até Quentin Tarantino quis imitar o filme de Corbucci, mas seu Django livre (2012) não tem sequer a desculpa de estar abrindo uma novo caminho: apenas fechou o ciclo da decadência de um cineasta menor, imerecidamente endeusado e que já deveria ter-se despedido da câmara após perpetrar o pastiche histórico Bastardos inglórios (2009), como um garotinho mimado brincando de dar a Hitler a punição que não recebeu da História.  (por Celso Lungaretti)    
o que  não seria de estranhar-se no cinema italiano, pois, p. ex., o delegado interpretado por Gian-Maria Volonté em Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita (d. Elio Petri, 1970) tinha evidentes pontos de contato com fatos da vida do celerado tocaieiro do comandante Marighella, Sérgio Paranhos Fleury.

domingo, 26 de dezembro de 2021

VAMOS A MATAR, COMPAÑEROS? SI O NO? ES LA QUESTION!

Franco Nero na última cena do filme: memorável! 
O diretor e roteirista Sergio Corbucci foi responsável por nada menos que 13 westerns italianos, embora só três sejam atualmente lembrados: este Companheiros (1970), O vingador silencioso (1968) e Django (1966). 

Era um cineasta que invariavelmente entregava bons entretenimentos, competente no seu ofício, mas sem evidenciar uma afinidade autêntica com quaisquer temas abordados, fosse nos épicos, nas comédias, nos policiais ou nos bangue-bangues. 

Embora a maioria dos seus faroestes tenha algo a ver com a revolução mexicana ou com posicionamentos esquerdistas (críticas à ganância e à opressão dos poderosos; ao extermínio dos indigenas e de pequenos produtores rurais por parte de latifundiários; a hordas truculentas não por acaso parecidas com a Ku Klux Klan e a TFP, etc.), a minha impressão foi sempre de que ele apenas seguia a onda, pois lhe convinha alinhar-se com uma visão que estava na moda no final da década de 60 e início dos '70.
Tomas Milian, ator cubano que sempre fazia
papel de mexicano em faroestes italianos
.
Uma peculiaridade de
 Companheiros foi a de tratar-se de quase um remake de Os violentos vão para o inferno, filme menos ambicioso que Corbucci realizara dois anos antes, sobre as peripécias, em meio à revolução mexicana, de um mercenário polonês (Franco Nro), de um rebelde inexperiente e despolitizado (Tony Musante), de uma musa politizada (Giovanna Ralli) e de um vilão vingativo (Jack Palance).

A fórmula certamente funcionou bem nas bilheterias, daí ter sido repetida, com acréscimos e orçamento visivelmente maior. 

Franco Nero continua sendo um mercenário, só muda de nacionalidade: vira sueco. Ele está no México para vender armas a um bandido que se passa por revolucionário (José Bódalo), mas este depende de recuperar um tesouro trancado num cofre forte para poder pagar-lhe o preço estipulado.

Como uma explosão destruiria a grana, o jeito é o sueco e o rebelde inexperiente (desta vez Tomas Milian, muito mais carismático do que Musante) irem libertar nos EUA um professor revolucionário (Fernando Rey) conhecedor da combinação do cofre, que conscientizou seus alunou e depois foi buscar ajuda para sua causa, mas acabou sendo detido a pedido de ricaços com interesses no México.
Fernando Rey, um dos atores favoritos de Buñuel e Carlos 
Saura, adquiriu prestígio mundial com Operação França

O vilão é novamente Jack Palance, um ótimo canastrão. A musa politizada, Íris Berben, ficou no mesmo nível de Giovanna Ralli, ambas ofuscadas pelos astros em cena. 

Já a inclusão do professor Xantos permitiu estabelecer um interessante contraste entre o idealista íntegro mas que não domina tão bem a prática quanto a teoria, o aventureiro experiente e ambicioso, e o camponês aprendiz de revolucionário. 

As cenas de ação são ótimas; o canção-título (música de Ennio Morricone e letra dos irmãos Sergio e Bruno Corbucci), um arraso, com seu sugestivo refrão Vamos a matar, compañeros! –aliás, nome original do filme, alterado nos EUA e no Brasil por motivos óbvios– grudando nos nossos ouvidos e... é melhor parar por aqui; e a perfeita dosagem de bangue-bangue, aventura e alívios cômicos. 

Corbucci, como os mercenários de seus filmes gêmeos, mesmo se não compartilhava os ideais libertários, tinha tal domínio de sua arte que chegava até a parecer sincero, como no empolgante desfecho de Companheiros (por Celso Lungaretti)  

sábado, 28 de março de 2020

OS VIOLENTOS VÃO PARA O INFERNO (obs: o post é sobre um western italiano, não sobre o clã Bolsonaro e os milicianos do RJ...)

Para quem está coçando o saco em casa, eis um western italiano de boa safra (1968), que pode servir, no mínimo, como um bom passatempo: Os violentos vão para o inferno.

O diretor é Sergio Corbucci, que fazia o gênero artesão, entregando filmes geralmente razoáveis e às vezes muito bons.

Casos de Romulo e Remo (1961), Dança macabra (clássico do terror italiano que ele co-dirigiu com Anthony Dawon em 1964, sem que sua participação lhe fosse creditada), o primeiro Django (1966), o Vingador silencioso (1968) e o interessantíssimo O especialista (1968), no qual transpôs para o Oeste selvagem sua visão sobre os jovens contestadores que sacudiam a Europa.

Os violentos vão para o inferno, cujo título mais apropriado teria sido O mercenário (como nos cinemas da Itália) tangencia a Revolução Mexicana, mas sem ir fundo como Damiano Damiani em Gringo e Sergio Leone em Quando explode a vingança

Mostra um peão (Tony Musante) que se torna um rebelde foragido após reagir a uma humilhação dos poderosos e, por não entender do ofício, aceita pagar a um mercenário (Franco Nero) para ensinar-lhe a fazer a revolução.

Como vilão reencontramos uma figurinha carimbada dos filmes B estadunidenses, Jack Palance. E a trilha sonora de Ennio Morricone é diferenciada como sempre, com a canção principal destacando... assobios!

Uma curiosidade é que o bom retorno nas bilheterias resultou numa espécie de remake quase imediato (Companheiros, 1970), com enredo semelhante e novamente sob a direção de Sergio Corbucci. 

Franco Nero, mercenário polonês no filme anterior, virou um aventureiro e vendedor de armas sueco. Jack Palance continuou sendo vilão. Entraram Thomas Milian (um cubano no papel de um rebelde mexicano) e Fernando Rey como professor revolucionário.  

O enlace com a Revolução Mexicana foi acentuado. A simpática canção Vamos a matar, compañeros! acabou sendo uma das mais populares do mestre Morricone. E o desempenho nas bilheterias foi ainda melhor, mas não devem ter encontrado nenhum roteirista com imaginação suficiente para vender o mesmo peixe pela terceira vez...

quarta-feira, 16 de setembro de 2015

UMA HISTÓRIA SEMPRE ATUAL: OS ÚLTIMOS DIAS DE POMPÉIA.

Sem dúvida! Tanto que Pompéia foi reconstruída...
Nem só de destaques da sétima arte vive a seção filmes para ver no blogue: hoje apresentarei aqui uma curiosidade.

Trata-se do épico italiano Os últimos dias de Pompéia (1959), um dos produtos mais respeitáveis da Cinecittà numa fase em que os italianos exploravam com avidez o filão da história e lendas da Antiguidade greco-romana. 

Rolavam muitos filmes de Hércules, Maciste, Sansão, Golias, Ursus e outros heróis protagonizados por halterofilistas que davam um duro danado para, remotamente, parecerem atores; o mais conhecido era Steve Reeves, que atua neste aqui, tão majestoso que dá a falsa impressão de ter mais do que seus 1m85.

As produções eram toscas mas, pelo menos, as fitas não tinham a pompa das congêneres estadunidenses; faziam uma mistureba de fatos históricos com mitos e invencionices, jamais cometendo o pecado de levarem-se a sério. Roger Corman deve ter aplaudido em pé.

De quebra, este Os últimos dias de Pompéia marca a estréia na direção de Sergio Leone, que na década seguinte se tornaria o criador e expoente máximo do spaghetti-western. 

Ele já tinha 28 filmes no currículo, como assistente de direção e/ou diretor da 2ª unidade, e na época recebeu o crédito novamente --e apenas-- por estas duas funções; mais tarde, contudo, ficou esclarecido que o verdadeiro realizador havia sido Corbucci e não o veterano Mario Bonnard, tanto que a cópia francesa abaixo disponibilizada com legendas em português já o reconhece como diretor (único).

Mas, não nutram expectativa exagerada. Trata-se de um Leone ainda contido, apenas contando bem sua história. O mesmo aconteceria no épico seguinte (O colosso de Rodes, 1961) e no primeiro faroeste (Por um punhado de dólares, 1964). O estilo personalizado começaria a aflorar em Por uns dólares a mais (1965), preparando o grande salto de qualidade que Leone daria com Três homens em conflito (1966), o maior western de todos os tempos na minha humilde opinião.

O roteirista também viria a ser um dos maiorais do bangue-bangue à italiana: Sergio Corbucci, o diretor de Django (1966), Os violentos vão para o inferno (1968), O vingador silencioso (1968), O especialista (1969) e Companheiros (1970), dentre outros. 

sábado, 19 de janeiro de 2013

É este o novo DJANGO? Deus nos LIVRE...

O carisma que falta para Jamie Fox...
Django Livre (Django unchained, 2012), a última besteirinha de Quentin Tarantino, tem um único mérito: despertar o interesse das novas gerações pelo western italiano, que foi realmente importante.

Já a mixórdia pop de Tarantino, nem de longe o é. Óbvio rato de cinemateca, ele usa e abusa das referências do passado porque nada de significativo tem a dizer sobre o presente.

Seu estilo pode ser resumido em duas palavras: vacuidade pirotécnica. Ou seja, lembrando a frase imortal de William Shakespeare, são filmes que não passam de fábulas contadas por um idiota, cheias de som e fúria, significando nada.

Django (d. Sergio Corbucci, 1966), do qual extraiu a matéria-prima, tinha pelo menos três sequências memoráveis: 
  • a chegada do soturno Django (Franco Nero) a uma cidade decadente e enlameada, a pé, arrastando um caixão de defunto; 
  • o confronto com os 42 seguidores do Major Jackson (Eduardo Fajardo), quando afinal abre o caixão e dele retira uma providencial metralhadora giratória; e
  • seus angustiantes esforços para adequar o colt às mãos feridas e encaixá-lo numa cruz, quando os últimos seis inimigos vêm chegando para o duelo final.
Ou seja, apesar da produção barata e do elenco inexpressivo, Corbucci brilhou intensamente em três momentos, que até hoje estão entre os mais lembrados do bangue-bangue à italiana.

E, num momento em que os extremistas de direita eram bem mais atuantes e perigosos, teve a coragem de caracterizar os efetivos de Jackson como uma mistura de Ku Klux Klan (os capuzes e as cruzes queimadas) e  Tradição, Família e Propriedade (os lenços vermelhos no pescoço).
...Franco Nero tinha de sobra.

Django Livre, noves fora, nada vai legar quando cair no merecido esquecimento, dentro de alguns meses. Afora, talvez, as atuações marcantes de Christopher Waltz (Dr. King Schultz) e Samuel L. Jackson (Stephen), contraponto à inexpressividade de Jamie Foxx (Django) e à canastrice de Leonardo DiCaprio (Calvin Candle).

Spike Lee reclama do excesso de vezes em que os escravos são chamados de  niggers. É a obsessão dos politicamente corretos, exigir que utilizemos eufemismos, como se o importante fosse mudar a forma como nos referimos às coisas do mundo, e não mudar o mundo...

Muito pior para a imagem dos negros (se ninguém os chama de  afro-americanos  nas ruas, por que eu deveria fazê-lo, artificialmente, nos meus textos?) é um ex-escravo (Stephen) se tornar o serviçal mais devotado ao patrão e outro (Django), um vil caçador de recompensas.

É claro que a realidade é bem menos edificante do que a desejada pelos maniqueístas. Dizem, p. ex., que os quilombolas de Palmares também possuíam seus escravos; e todos sabemos terem sido os próprios africanos que supriam os navios negreiros, vendendo os inimigos capturados nas guerras tribais.

Mas, Tarantino vai além, atribuindo ao seu Django uma ignomínia extremamente repulsiva e sem base histórica (não há registro nenhum de negro atuando como caça-prêmios). E o que é pior, apresenta-a como perfeitamente justificável.

Da mesma forma, em Bastardos Inglórios (2009) ele fez a apologia das mais covardes execuções e das torturas mais hediondas, desde que impostas por guerrilheiros judeus aos militares alemães. Se o Brilhante Ustra fizesse um filme sobre DOI-Codi x resistentes, não diferiria muito...

Mas, não exageremos. Oportunismo e calculismo (busca descarada de  succès de escandale) à parte, Tarantino quer mesmo é faturar alto, com o beneplácito da indústria cultural.

Então, passou longe, muito longe, de outra característica emblemática do western italiano, a simpatia pelas revoluções. Bater em cachorro morto (racismo, hitlerismo) é sempre mais conveniente.

E até mais vantajoso, quando o presidente da República é negro.

domingo, 26 de agosto de 2012

O QUE EU FAÇO NO MEIO DESTA ELEIÇÃO?

Apesar de existirem milhares de filmes que podemos baixar na internet, ainda não consegui colar no meu álbum algumas  figurinhas carimbadas. Pacientemente, torno a procurá-las de tempos em tempos, apostando em que algum internauta as acabará disponibilizando para download.

Caso de uma western humorístico que vi há quatro décadas, O que eu faço no meio desta revolução?, dirigido por um mestre do bangue-bangue à italiana (Sergio Corbucci) e protagonizado pelo extraordinário Vittorio Gassman. Como ninguém postou legendas, de nada me adianta o torrent do filme, pois não entendo de ouvido o idioma dos meus avós.

Lembro-me remotamente das agruras do ator que, em turnê pelo México, envolve-se casualmente com a revolução de Villa e Zapata, passa o tempo todo tentando safar-se do imbroglio, mas, no final, a acaba assumindo e, parece-me, tendo morte heróica.

É como às vezes me sinto em relação à campanha eleitoral.

A Folha de S. Paulo mancheteia neste domingo que 64% dos paulistanos querem ver mantida a obrigatoriedade do horário eleitoral em rádio e TV. O horror, o horror!

Nem o fato de que qualquer dia aparecerei durante segundos na propaganda do PSOL (o suficiente apenas para cruzar os braços e encarar os telespectadores...), me faz ter a mais remota simpatia pelo interminável desfile de candidatos patéticos, que sempre relacionei a outra fita italiana, esta uma obra-prima de Ettore Scola: Feios, sujos e malvados (1976, c/ Nino Manfredi).

Para quem vê na política o instrumento para transformar a sociedade, no sentido de despertá-la do pesadelo capitalista e propiciar o advento da "terra da amizade, onde o homem ajuda o homem" (belíssimos versos de um dos temas musicais de Arena conta Zumbi), nada pode ser mais depressivo do que tal demagogia grotesca e delirante, tal toma lá o voto sem quase nunca darem cá a ninharia que prometem, tal carnavalização como forma de chamar atenção, tais ambições pequenas de pessoas idem.

O que o Giannazi, um homem idealista, articulado e de trajetória política exemplar, tem em comum com esses farsantes medíocres, esses Russomannos, Haddads e Chalitas? Nada, absolutamente nada. 

É um Gulliver obrigado a disputar espaço com liliputianos... que, se não conseguirmos tirar leite de pedra, acabarão prevalecendo sobre ele por terem poderosas máquinas partidárias, muito mais recursos financeiros, exposição maior na mídia e no horário eleitoral, mensagens que vêm ao encontro das aspirações dos eleitores aferidas em pesquisas qualitativas, etc.

Tratar uma candidatura como produto tem tudo a ver com a sociedade de consumo; é a linguagem a que o grande público está habituado e condicionado. Quem se propõe a aclarar as consciências ao invés de embotá-las leva enorme desvantagem.

O verdadeiro palco para a esquerda sempre foram  as escolas, as ruas, campos e construções, onde o contato com as massas é direto e dramático, não as telinhas que separam  os homens dos outros homens para que, cada um por si, sucumbam mais facilmente à manipulação e à desumanização. 

Mas, se participarmos do mafuá eleitoral gratuíto é ruim, pior ainda seria se nem esta ínfima brecha aproveitássemos para tentar sensibilizar os corações e despertar as mentes.

Em circunstâncias muito raras e especiais, os Davis conseguem vencer os Golias. Só que, se não formos com nossas fundas para o campo de batalha, nunca saberemos se estávamos ou não diante de uma dessas oportunidades únicas. 

Como disse o Vandré numa canção de homenagem ao Che, "Quem afrouxa na saída/ Ou se entrega na chegada/ Não perde nenhuma guerra/ Mas também não ganha nada".
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