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terça-feira, 14 de setembro de 2010

FEDOR DE GRANA

Perfume de Mulher (1974), do grande Dino Risi, é uma obra-prima do cinema italiano. Memorável. Inesquecível.

Como Hollywood há muito não produz enredos remotamente comparáveis aos europeus, em desespero de causa, apropria-se deles para fazer remakes... sofríveis.

Então, quando saiu a bobagem estadunidense, em 1992, nem me dei ao trabalho de assistir.

Pois não é por acaso que Martin Brest dirigiu apenas oito filmes em quase três décadas de carreira: não passa de um artesão, mediano como centenas de outros. Nunca esperem um lampejo de gênio em suas fitas, pois seria como tirar leite de pedra.

E Al Pacino, mesmo sendo um dos poucos atores de verdade dos EUA, jamais deveria expor-se a uma comparação com Vittorio Gassman.

Já que estamos falando de cinema, vale lembrar um bordão do  Dirty Harry/Clint Eastwood: "Um homem deve conhecer suas limitações".

No final de clássico de Risi, há um dos maiores  tours-de-forces  interpretativos que já tive a felicidade de ver.

O capitão reformado que adota a agressividade e a vulgaridade como defesas, falha em cumprir um pacto de suicídio com um velho amigo.


Fragilizado por constatar que não estava, afinal, à altura do esteótipo machista que projetava, acaba  desabando  nos braços da moça que o amava e ele sempre rejeitara (a realmente bela Agostina Belli).

A forma como Gassman conseguiu expressar fisionicamente a queda da máscara do capitão é de arrepiar. Dificlmente uma dor e perplexidade encenadas parecem tão reais, tocam tão fundo nossos próprios sentimentos.

Hoje, por acaso, encontrei a contrafação sendo exibida num canal por assinatura, já no trecho derradeiro.

E não é que, além de copiarem mediocrimente uma obra muito acima de sua capacidade artística, ainda ousaram modificar o final, para oferecerem a suas imaturas platéias um convencional  happy end?!

Em vez do militar libertando-se sofridamente das sequelas psicológicas da cegueira, o que vemos é ele brilhando num conselho disciplinar de colégio, ao salvar de uma punição o jovem que lhe serve de guia.

Os ingleses, decididamente, não cumpriram sua missão civilizatória no Novo Mundo...
P.S.: como não sei se terei ensejo de voltar a este assunto, deixo registrado que heresia comparável os estadunidenses cometeram com uma de suas próprias -- e raras -- culminâncias, Desafio à Corrupção (d. Robert Rossen, 1961). Perpetraram uma sequência indefensável, A Cor do Dinheiro (d. Martin Scorcese, 1986), que  é, praticamente, uma negação da jornada libertadora do personagem Eddie Felsen (Paul Newman) e sua ruptura com o submundo da jogatina e da ganância. O Felsen do início do 2º filme nada tem a ver com o que acabou o 1º. Ninguém regride tanto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ESSE CRIME CHAMADO JUSTIÇA...

...foi o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, um dos grandes filmes de Dino Risi.

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e a refilmagem estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e visão compassiva da realidade.

Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver descumprido o pacto de suicídio com o amigo, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa.

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse a desorientação e fragilidade do personagem com a mesma dignidade de Gassman.

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase "o horror, o horror!", em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça, 1971. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pelo empresário, com sua ganância e insensibilidade predatórias.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.

Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão extremamente nocivo a seus semelhantes.

Este filme, com sua tese controversa, veio-me à lembrança ao ler que quatro aposentados alemães, na faixa de 63 a 79 anos, sequestraram e mantiveram em cativeiro durante quatro dias o consultor de negócios que os induziu a um investimento desastroso.

Forçaram-no a assinar uma confissão de culpa, comprometendo-se a repor as perdas.

Presos, estão sendo agora julgados. E a polícia investiga se o consultor cometeu abuso de confiança.

Caso houvesse verdadeira justiça, os idosos cumpririam uma pequena sentença de prisão domiciliar, pouco penosa para quem tem sua idade; e o consultor seria atirado numa masmorra por uns dez anos.

Mas, claro, não é isto que acontecerá.
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