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sábado, 30 de novembro de 2019

"O IRLANDÊS" É UM FILME DE MÁFIA COMO MUITOS OUTROS. POR QUE TANTO AUÊ?

Pacino (79 anos) e De Niro (76): prodígios da maquilagem
Bem que eu tentei afirmar-me como crítico de cinema, mas a minha paixão pela sétima arte atrapalhou: eu queria ir fundo na análise dos filmes e a indústria cultural já então optava por apenas fornecer indicações para consumo, de forma que o leitor pudesse avaliar se compensava ou não assistir àquele filme.

De 1979 até o final de 1984 (saiba mais sobre tal fase aqui), enquanto tentei oferecer uma alternativa às críticas rasas como poças d'água, com número cada vez menor de linhas, que os críticos-padrão entregavam, tive muito prazer, p. ex., em não rasgar seda para as produções que todos eles endeusavam apenas porque tinham chegado com reputação firmada nos grandes centros cinematográficos.  

Naquele tempo as empresas exibidoras programavam sessões especiais ou cabines para assistirmos a seus lançamentos mais ambiciosos antes da estreia e podermos entregar nossas apreciações a tempo de serem publicadas simultaneamente à entrada em cartaz. Então, várias vezes ouvi os medalhões de então confessarem não ter gostado de um filme importante para depois constatar que, ao escreverem sobre ele, haviam ficado oportunisticamente em cima do muro.

Comigo não, violão. Minha inflexibilidade me acarretou problemas com tais empresas e também com veículos para os quais trabalhei, mas nunca conseguiram obrigar-me a fazer média com seja lá o que ou com quem for.
Jack Nicholson foi o Hoffa de 1992...
Então, se hoje fosse publicado em algum jornalão ou revistona, haveria pelo menos uma voz discrepante desse auê todo para O irlandês

Não passa de mais um filme de máfia como tantos outros:
— inferior a quase todos os realizados por diretores italianos como Francesco Rosi, Damiano Damiani, Elio Petri e Giuliano Montaldo, além do melhor de todos os tempos e países, Era uma vez na América, do genial Sergio Leone; 
 ínfimo diante dos de conterrâneos dele como Francis Ford Coppola e Brian De Palma; e que 
 perde de goleada para um montão de fitas de cineastas japoneses que exploram o filão yakuza.

Scorcese é um diretor superestimadíssimo, que realiza filmes desnecessariamente longos e arrastados, como se isto acrescentasse qualidade. No caso do Sergio Leone, sim, sem dúvida. No dele e do Quentin Tarantino, isto só faz o tédio aumentar a cada minuto. 

O irlandês, p. ex., teria um final até impactante se não fosse o anticlímax de mostrar tudo que sucederia na vida do personagem principal após o acontecimento culminante, só que aí nada mais havia que valesse a pena vermos, ainda mais depois de três horas de filme. Aguentei até o fim porque assistia confortavelmente em casa; no cinema, estaria trocando de posição na poltrona a cada minuto...
...Stallone o de 1978, com o nome de Kovak em vez de Hoffa...

Minha sensação de perda de tempo aumentava por conhecer muito bem a história de Jimmy Hoffa, o poderoso presidente de uma confederação de caminhoneiros dos EUA que fizera carreira em parceria com a máfia e, quando a justiça fechava o cerco sobre ele, teve o destino habitual de quem sabe demais e complicará pessoas perigosas se der com a língua nos dentes como um Odebrecht qualquer. 

Eu acompanhara os relatos jornalísticos em 1975 e já havia visto a história nas telas em duas versões que me agradaram muito mais:  Hoffa - um homem, uma lenda (d. Danny DeVito, 1992) e F.I.S.T. (d. Norman Jewison, 1978). 

A primeira por causa do roteiro superlativo de David Mamet, um dos últimos sinais de vida inteligente na Broadway e em Hollywood (o roteirista de O irlandês, Steven Zaillian, não lhe chega aos pés). 

E a segunda, que não é uma biografia cinematográfica assumida  de Hoffa mas claramente nele se inspira, porque Jewison sempre foi um diretor bem melhor do que Scorcese, ponto.

O que muitos consideram grande mérito de O irlandês, montar um painel das relações entre o crime organizado, os negócios e a política, é que o faz parecer um filme tão velho: este enfoque já foi visto em pelo menos uma centena de fitas e seriados, principalmente a partir da consagração de O poderoso chefão 1 (1972 ) e 2 (1974).  Saturou.
...e Pacino, o de 2019 (o da vida real está à direita)
Deu pena ver Robert De Niro, aos 76 anos, com tintura no cabelo e muita maquilagem para aparentar ter uns 30 e poucos no início do filme. Não engana ninguém; teria sido melhor utilizarem dois atores.

Scorcese é um cineasta que quase sempre me frustra. Dele, a rigor, só gostei mesmo do final de Taxi driver (1976), do documentário musical O último concerto de rock (1978) e de Touro Indomável (1980).

E simplesmente abominei A cor do dinheiro (1986), sequela que é mais uma traição ao filme anterior, um dos meus maiores cults pessoais, Desafio à corrupção (d. Robert Rossen, 1961). 

A sofrida trajetória redentora do personagem principal certamente o tornaria um ser humano diferenciado, então jamais o reencontraríamos, duas ou três décadas depois, como aquele indivíduo meramente ávido por reingressar no universo vicioso  das competições profissionais de sinuca que o filme de Scorcese mostra. 

Se tudo por que havia passado não o tivesse libertado da obsessão pela cor do dinheiro, de que valera, afinal? E qual a razão para nos interessarmos pela sina dele? 

A recusa final do personagem a chafurdar na podridão capitalista simplesmente desapareceu da sequela. Foi uma opção artisticamente inaceitável e moralmente indefensável de Scorcese. (por Celso Lungaretti)

terça-feira, 26 de setembro de 2017

CARLOS LUNGARZO DENUNCIA: 'GESTÕES SIGILOSAS ITALIANAS' ERAM PARTE DE UM NOVO PLANO DE SEQUESTRO DO BATTISTI!

Por Carlos Lungarzo
UMA VENDETA DE 39 ANOS!

O jornal O Globo publicou na última 2ª feira, 25/09, notícia sobre uma nova manobra do governo italiano para extraditar Cesare Battisti, dando continuidade à vendeta internacional que começou em 1978.

A íntegra do texto foi publicada no blog do escritor e jornalista Celso Lungaretti, junto com uma linha do tempo resumida dessa vendeta e com comentários e fotos interessantes.

Quero comentar especialmente dois trechos dessa notícia d'O Globo
"As tratativas para a extradição de Battisti começaram no ano passado. O primeiro-ministro italiano Matteo Renzi chegou a declarar publicamente que esperava por uma mudança de posição brasileira sobre Battisti na gestão de Temer. Na época, Renzi evitou confirmar se sua administração pretendia tomar a iniciativa de pedir a revisão da decisão de Lula. O assunto passou a ser tratado, então, com discrição pelas autoridades". 
Battisti não precisará perder o sono...
"A divulgação do pedido italiano antes de Temer tomar a decisão preocupa as autoridades daquele país  Há receio de que Battisti acione sua rede de proteção no Brasil e tente travar, pela via judicial, um eventual novo ato que o presidente da República poderia tomar".
Mas, por que a divulgação preocupa aos intrépidos caçadores de bruxas?

TENTATIVAS FRACASSADAS – Em 07/08/2016, o primeiro ministro italiano Matteo Renzi concedeu uma entrevista à Folha de S. Paulo, na qual declarou que a extradição de Battisti era o único tema aberto entre o Brasil e a Itália. A partir daí, nunca mais se falou no assunto. Renzi renunciou no 4 de dezembro, após a derrota num referendum (por 41% a 59%) de uma proposta de sua autoria sobre reformas constitucionais.

Seu sucessor, Paolo Gentiloni, da mesma tendência política (neoliberal de centro, confundida às vezes com centro-esquerda), manteve o hermetismo em torno às gestões junto ao novo governo brasileiro (vide aqui).

A estas tramitações secretas se refere a matéria d'O Globo, quando diz que “o assunto passou a ser tratado, então, com discrição pelas autoridades”. 
...se for este o agente italiano na sua cola.

A discrição pode ser entendida como uma precaução normal num processo diplomático de ampla sensibilidade, porém isto não seria explicação suficiente para o transformar num fato totalmente secreto. Ações de busca e repressão ao longo do planeta costumam ser noticiadas pelos governos, embora ocultem os detalhes logísticos das operações.

Então, a leitura do segundo parágrafo acima citado pode dar um indício. As autoridades italianas se preocuparam com a divulgação da notícia porque isto poderia ser um empecilho para uma operação-surpresa que não desse a Battisti tempo para se defender.

Em termos mais claros, a Itália preparava um NOVO PLANO DE SEQUESTRO CONTRA CESARE BATTISTI.

Por que novo? Os que têm alguma familiaridade com o Caso Battisti devem lembrar que já houve várias tentativas de sequestro do escritor italiano, algumas fora do Brasil e outras dentro. Entre 2004 e 2006, o delegado italiano Gaetano Saya, chefe de um grupo parapolicial, tentou capturar Battisti em território francês, mas seu grupo se desentendeu por questões de dinheiro. Houve outros casos, confusamente relatados, na América Central.

Os mais relevantes para a situação atual foram DUAS TENTATIVAS SE SEQUESTRO EM TERRITÓRIO BRASILEIRO, das quais uma é bem conhecida e foi difundida pela mídia. A primeira tentativa de sequestro aconteceu em 12 de março de 2015.

A segunda tentativa (cuja armadilha não deu certo) foi mantida no maior sigilo pelas autoridades diplomáticas italianas, tendo sido  gerada numa legação diplomática da América do Sul.

Voltando para casa, após tramoia de 2015 ruir
PRIMEIRA TENTATIVA – Os italianos planejam extraditar Battisti desde pouco antes de o então presidente Lula assinar [no último dia de 2010] a rejeição do pedido italiano. Quiçá este seja um dos motivos pelos quais o então presidente do STF [Cezar Peluso] adiasse de maneira ilegal e escandalosa a soltura de Cesare em 2011. 

Finalmente, a ação decidida do advogado de defesa Barroso conseguiu pressionar o inquisidor, que entregou de má vontade o mandato de soltura em junho daquele ano, mesmo após o STF ter aprovado esta ação por 6 votos contra 3.

Segundo membros do movimento europeu de solidariedade com Battisti, alguns setores do governo italiano estariam cogitando um sequestro logo após a libertação (ou talvez durante o próprio processo de soltura), mas se desconhecem os detalhes do assunto. 

Todavia, alguns meses depois de ser solto, Battisti foi alvo de uma tentativa de extradição muito estridente e amplamente comentada na mídia brasileira, francesa e italiana.

Um procurador, em combinação com uma juíza, ambos do DF, forjaram uma suposta infração que tornaria ilegal a residência permanente de Battisti no Brasil, com base numa distorcida interpretação do Estatuto do Estrangeiro. Apesar de protocolada em outubro de 2011, a ação do procurador não foi julgada em seguida. A jogada era deixar a questão esquecida, esperando o momento certo.

Mas a ação ficou como uma ferramenta nas mãos de outro procurador da República, Vladimir Aras, um sujeito conhecido por um blogue sobre temas jurídicos, que atuou como operativo no grupo de Rodrigo Janot que colaborava com a Lava Jato. Mas, experto em assuntos invisíveis, Aras parece ter comandado a operação de sequestro. 
Procurador Vladimir Aras: um conspirador malogrado?
Detalhes da mesma foram dados por ele ao periódico italiano L’Indro. Na época, o sigilo tinha perdido sentido e, como se depreende de sua conversa com a jornalista, Aras precisava desabafar para não absorver sozinho seu fracasso, que aconteceu por apenas minutos de demora.

Como parte de um acordo para extraditar Henrique Pizzolato, o procurador Aras, que estava incumbido dos aspectos internacionais da Lava Jato, parece ter sido o negociador principal na extradição para o Brasil do ex-funcionário do BB, e os fatos mostram que Battisti jogava o papel de moeda de troca com os chacais italianos.  

Os leitores talvez lembrem que Pizzolato foi julgado várias vezes e só foi condenado em definitivo em outubro de 2015, após numerosas solturas e novas detenções. Não é necessário especial conhecimento de psicologia para entender que houve um processo de barganha entre as máfias políticas que só culminou no final de 2015, com a repatriação do detento.

Entretanto, no começo de março de 2015, ainda não tinha sido usada a ação do procurador de Brasília no sentido de processar o governo brasileiro pela concessão de residência permanente (imigração) ao ex-refugiado Cesare Battisti.  Os três anos e meio de paciência recompensaram, pois naquele momento a denúncia foi usada com o objetivo de sequestrar Battisti e dar uma amostra de boa vontade para a Itália.
Muito se especulou sobre uma troca de Pizzolato por Battisti

Os fatos se sucederam com enorme velocidade.

1)  A juíza produziu um mandato de prisão administrativa (um recurso usado pela Justiça Militar, obsoleto há décadas) e deportação.

2)  Sob absoluto sigilo, sem deixar transparecer a situação sequer para os advogados, foi  planejado o sequestro de Battisti, em 12 de março de 2015.

3)  Nesse dia, uma patrulha à paisana e sem crachás da PF fez uma operação clandestina na casa de Battisti, tomando a sua mulher e a filha desta de três anos como reféns. Porém, não houve violência contra elas nem contra Battisti.

4)  Battisti foi levado ao aeroporto após um rolê pela cidade, em aparente espera de um avião clandestino para a Europa. Este fato foi notificado depois como “demora para preparar a documentação de Battisti”

5)  O sequestro foi interceptado graças à incrível presteza do advogado Igor Tamasauskas, e do ex senador Suplicy, com a colaboração do Ministério da Justiça.

Pouco depois, um tribunal federal de Brasília aprovou por unanimidade um recurso que fechava definitivamente o pleito.
Ingleses também falharam ao tentarem sequestrar Ronald Biggs
Daí em diante não ficou nenhum pretexto legal para expulsar Battisti. A condição de pai de filho menor brasileiro tem validade absoluta, só tendo sido desrespeitada uma única vez, em 1953. As vias legais estavam fechadas.

Essa é a causa do temor dos italianos quando souberam que seu novo plano de sequestro estava sendo divulgado.

Mas, antes da atual manobra jurídica junto ao STF, houve outra TENTATIVA DE SEQUESTRO na segunda metade de 2016, que quase ninguém conhece. Por este motivo, não vou dar detalhes, mas apenas uma visão geral do assunto.

SEGUNDA TENTATIVA – Entre junho e agosto de 2016, diplomatas italianos de alto nível, lotados perante um país da América do Sul, prepararam um plano para um novo sequestro, em colaboração com a polícia local.

Sucintamente, a trama consistia em vigiar Battisti numa viagem que ele faria a uma cidade perto de uma fronteira para uma visita familiar.
O Buscetta foi embora, mas parece que ela continua aqui

Localizado o alvo, seria detido, levado para o outro lado da fronteira e deportado. O último contato entre diplomatas e policiais deve ter sido entre 3 e 5 de setembro. No entanto, nossa rede de proteção soube da manobra e a viagem para essa cidade brasileira foi cancelada.

Os representantes da cleptocracia italiana nos subestimaram mais uma vez. Embora os governos belicistas e mafiosos tenham excesso de dinheiro e poder, as organizações humanitárias possuem a lealdade de pessoas corajosas e eficientes.

Os membros das corporações mafio-fascistas deveriam aprender uma lição dada por um dos santos da Cosa Nostra: Michael Corleone. No filme O Poderoso Chefão 2, o personagem de Al Pacino, reunido com mafiosos na antiga Cuba, diz: “Os soldados são pagos, mas os revolucionários não são. Então eles podem vencer”.

Isto não impede, no entanto, que uma dose enorme de força bruta possa esmagar a razão e o direito, como acontece em numerosos conflitos sociais mundo afora.

Não sabemos qual será o desfecho, mas a rede de proteção em ambos os lados do Atlântico levará a luta até o final. 
Também é necessário entender que o conflito durará muito mais tempo e que novas tentativas de crime (fantasiadas ou não de legalidade) serão feitas. 

Fascismo, Máfia e Inquisição marcaram (no total), quase um milênio de História, baseada na vingança e na hipocrisia.
(Carlos Lungarzo)

domingo, 7 de maio de 2017

O DUELO MARCADO ENTRE MORO E LULA TEM TUDO A VER COM OS FAROESTES, MAS ME FEZ LEMBRAR OUTRO TIPO DE FILME...

O depoimento do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao juiz Sérgio Moro, marcado para a próxima 4ª feira (10) em Curitiba, desperta nos aficionados de ambos expectativa semelhante à da molecada de outrora quando, nas matinês de domingo, estava prestes a começar o duelo ao amanhecer na rua principal, momento culminante de muitos bangue-bangues de então.

A coisa chegou a tal ponto que Moro divulgou uma mensagem em vídeo pedindo à sua torcida organizada para se desmobilizar. Eis um trecho:
"Eu tenho ouvido que muita gente que apoia a Operação Lava Jato pretende vir a Curitiba manifestar esse apoio... 
Eu diria o seguinte, esse apoio sempre foi importante, mas nessa data ele não é necessário. Tudo que se quer evitar, nessa data, é alguma espécie de confusão e conflito. 
Acima de tudo, não quero que ninguém se machuque em eventual discussão ou conflito nessa data. Por isso, a minha sugestão é a de que não venham. Não precisa. Deixem a Justiça fazer o seu trabalho".
A mim, contudo, o espetáculo da próxima 4ª feira fez lembrar um filme bem diferente dos westerns: um clássico do cinema político italiano!

Se o leitor estranhar, dou-lhe toda razão. É que, como o Raul Seixas, devo ser mesmo um chato. Pelo menos no sentido desta estrofe de Ouro de Tolo, o primeiro grande sucesso do Raulzito: "Mas que sujeito chato sou eu/ Que não acha nada engraçado/ Macaco, praia, carro/ Jornal, tobogã/ Eu acho tudo isso um saco". 

Tenho certeza de que, vivo, ele estaria achando também a torcida contra e a favor da Lava-Jato um saco...
Estes atores até que são esforçados...
E a que filme italiano, afinal, me refiro? A Esse Crime Chamado Justiça (1971), o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, do grande Dino Risi (*).

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e o remake estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e uma visão compassiva da realidade.

Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver vacilado e descumprido o pacto de suicídio com outro veterano, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa desde que uma bomba lhe explodira na cara, tirando sua visão (por não suportar que sentissem pena dele, a todos afastava com cafajestadas e grosserias).

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse, com a mesma dignidade de Gassman, a desorientação e fragilidade do personagem quando finalmente cai sua máscara.
...mas não chegam nem perto destes!

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase "o horror, o horror!", em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pela ganância e insensibilidade predatórias do empresário.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.
Não haveria lugar melhor que um tribunal para tal espetáculo?
Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer aquela que crê ser a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão muito nocivo a seus semelhantes.

Tenho a impressão de que Moro se vê exatamente como o procurador honesto. E que ele tenha do Lula uma imagem tão negativa (embora por outros motivos) quanto a que o personagem do Ugo Tognazzi tinha do personagem do Vittorio Gassman.

Sou totalmente contrário ao maniqueísmo, como deve ser qualquer revolucionário que conheça o bê-a-bá do marxismo e do anarquismo. Então, desprezo as emoções primárias do big gundown e a banalidade das teorias da conspiração que pululam de lado a lado. 

Vejo no episódio da próxima 4ª feira apenas o encontro de dois personagens que geralmente agiram de acordo com seus valores, mas que, em determinadas circunstâncias, sentiram-se no direito de serem infiéis a eles, ultrapassando limites que jamais deveriam ter ultrapassado.
.
Obs. – Para não ficar falando de filmes inacessíveis aos leitores, informo que o raro Perfume de Mulher de 1974 pode ser baixado aqui, com legenda em português; e o raríssimo Esse Crime Chamado Justiça, com legenda espanhola, aqui ou aqui.

terça-feira, 14 de setembro de 2010

FEDOR DE GRANA

Perfume de Mulher (1974), do grande Dino Risi, é uma obra-prima do cinema italiano. Memorável. Inesquecível.

Como Hollywood há muito não produz enredos remotamente comparáveis aos europeus, em desespero de causa, apropria-se deles para fazer remakes... sofríveis.

Então, quando saiu a bobagem estadunidense, em 1992, nem me dei ao trabalho de assistir.

Pois não é por acaso que Martin Brest dirigiu apenas oito filmes em quase três décadas de carreira: não passa de um artesão, mediano como centenas de outros. Nunca esperem um lampejo de gênio em suas fitas, pois seria como tirar leite de pedra.

E Al Pacino, mesmo sendo um dos poucos atores de verdade dos EUA, jamais deveria expor-se a uma comparação com Vittorio Gassman.

Já que estamos falando de cinema, vale lembrar um bordão do  Dirty Harry/Clint Eastwood: "Um homem deve conhecer suas limitações".

No final de clássico de Risi, há um dos maiores  tours-de-forces  interpretativos que já tive a felicidade de ver.

O capitão reformado que adota a agressividade e a vulgaridade como defesas, falha em cumprir um pacto de suicídio com um velho amigo.


Fragilizado por constatar que não estava, afinal, à altura do esteótipo machista que projetava, acaba  desabando  nos braços da moça que o amava e ele sempre rejeitara (a realmente bela Agostina Belli).

A forma como Gassman conseguiu expressar fisionicamente a queda da máscara do capitão é de arrepiar. Dificlmente uma dor e perplexidade encenadas parecem tão reais, tocam tão fundo nossos próprios sentimentos.

Hoje, por acaso, encontrei a contrafação sendo exibida num canal por assinatura, já no trecho derradeiro.

E não é que, além de copiarem mediocrimente uma obra muito acima de sua capacidade artística, ainda ousaram modificar o final, para oferecerem a suas imaturas platéias um convencional  happy end?!

Em vez do militar libertando-se sofridamente das sequelas psicológicas da cegueira, o que vemos é ele brilhando num conselho disciplinar de colégio, ao salvar de uma punição o jovem que lhe serve de guia.

Os ingleses, decididamente, não cumpriram sua missão civilizatória no Novo Mundo...
P.S.: como não sei se terei ensejo de voltar a este assunto, deixo registrado que heresia comparável os estadunidenses cometeram com uma de suas próprias -- e raras -- culminâncias, Desafio à Corrupção (d. Robert Rossen, 1961). Perpetraram uma sequência indefensável, A Cor do Dinheiro (d. Martin Scorcese, 1986), que  é, praticamente, uma negação da jornada libertadora do personagem Eddie Felsen (Paul Newman) e sua ruptura com o submundo da jogatina e da ganância. O Felsen do início do 2º filme nada tem a ver com o que acabou o 1º. Ninguém regride tanto.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

ESSE CRIME CHAMADO JUSTIÇA...

...foi o título brasileiro de In Nome Del Popolo Italiano, um dos grandes filmes de Dino Risi.

Diretor de obras-primas como Perfume de Mulher (a distância entre o original italiano e a refilmagem estadunidense é a mesma que existe entre o genial Vittorio Gassman e o correto Al Pacino), Risi foi mestre das comédias impregnadas de críticas sociais e visão compassiva da realidade.

Aliás, o Perfume de Mulher de 1974 contém um dos maiores momentos de um ator que vi em toda a vida: é simplesmente de arrepiar a metamorfose do militar cego quando, abalado por haver descumprido o pacto de suicídio com o amigo, não consegue mais manter a postura agressiva que utilizava como defesa.

Não dá sequer para imaginarmos um ator que expressasse a desorientação e fragilidade do personagem com a mesma dignidade de Gassman.

Assim como não nos vem à cabeça ninguém melhor do que Marlon Brando para transmitir a profunda repulsa pela desumanidade que inspira a frase "o horror, o horror!", em Apocalypse Now; ou outro que não Gregory Peck fazendo as alegações finais da defesa do negro injustiçado em O Sol É Para Todos.

Foi também Gassman quem interpretou o repulsivo empresário de Esse Crime Chamado Justiça, 1971. É investigado por um procurador honesto (Ugo Tognazzi), por suspeita de haver assassinado a amante.

No curso do inquérito, vêm à tona sucessivos casos de pessoas destruídas pelo empresário, com sua ganância e insensibilidade predatórias.

Finalmente, quando tudo aponta para sua culpa, cai nas mãos do procurador uma carta que comprova não ter havido crime, mas sim suicídio.

Então, depois de haver seguido fielmente as regras durante toda a sua carreira, o funcionário decide fazer a verdadeira justiça: suprime a prova, para que, por linhas tortas, seja punido um cidadão extremamente nocivo a seus semelhantes.

Este filme, com sua tese controversa, veio-me à lembrança ao ler que quatro aposentados alemães, na faixa de 63 a 79 anos, sequestraram e mantiveram em cativeiro durante quatro dias o consultor de negócios que os induziu a um investimento desastroso.

Forçaram-no a assinar uma confissão de culpa, comprometendo-se a repor as perdas.

Presos, estão sendo agora julgados. E a polícia investiga se o consultor cometeu abuso de confiança.

Caso houvesse verdadeira justiça, os idosos cumpririam uma pequena sentença de prisão domiciliar, pouco penosa para quem tem sua idade; e o consultor seria atirado numa masmorra por uns dez anos.

Mas, claro, não é isto que acontecerá.
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