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terça-feira, 5 de maio de 2020

JAIR, QUANDO O IMPEACHMENT CHEGAR, SAIA SEM FAZER BARULHO E QUEM SABE DEUS LHE PERDOA TANTOS DESATINOS...

Outubro de 1991: recordar é viver!
rui martins
E DAÍ, CAPITÃO MESSIAS?
Vamos ser corretos, Capitão! Para se eleger, o Capitão foi até Israel para ser batizado no rio Jordão como Cristo – vi até foto e vídeo – e acabou sendo identificado como o Messias brasileiro, aquele que salvaria o Brasil.

Salvaria do quê, exatamente? Da miséria, da fome, dos baixos salários, da exploração dos trabalhadores? Ah, não é bem isso! Do quê, então? Ah, do comunismo? 

Espera aí, Capitão. Atualmente, não há nem dois dígitos de comunistas no Brasil! Me desculpe, mas isso parece mais conversa para boi dormir… ou para seu gado dormir, como se diz atualmente.

Em compensação, os brasileiros estão precisando urgentemente ser salvos do coronavírus. Na competição internacional para saber quem é o pior país no combate ao vírus, o Brasil melhorou bastante sua posição, neste fim de semana, conquistando o quarto lugar entre os países com maior número diário de contaminações, logo depois dos EUA, Inglaterra e Itália. 

Não sei, Capitão Fracasso, se lhe dou parabéns ou pêsames por tal conquista internacional!

Este Capitão Fracasso é melhor
Volto à questão inicial porque, quando alguns de meus colegas jornalistas quiseram saber qual sua reação diante do aumento do número de mortos em consequência da sua falta de combate ao vírus, foram surpreendidos com sua resposta – “sou Messias, mas não faço milagres”. 

Opa: em outras palavras, é um Messias fajuto? É isso, Capitão? Se não faz milagres, por que se meteu a ser Messias?

Minha outra dúvida é sobre sua atual nacionalidade. Capitão, acabo de ver um vídeo do seu mais recente contato pessoal com seus seguidores, nos qual aparece, como sempre, sem máscara, no domingo, em Brasília. E tive uma surpresa, agora transformada em dúvida.

Explico minha surpresa – até domingo, sempre vi suas fotos e vídeos, sem máscara, com seus fiéis, que se protegem do vírus com orações, tendo ao lado, nas camisas ou nas faixas, a bandeira brasileira ou suas cores predominantes, verde e amarelo. Porém, nessa sua última aparição, o vídeo não me desmente, a bandeira brasileira foi substituída por uma bandeira dos EUA, Estados Unidos da América.

E me veio a dúvida – o Capitão obteve do amigo Trump a cidadania estadunidense, rapidinho, em tempo recorde, como prevenção no caso de precisar sair corrido de improviso de Brasília e viajar para os EUA? Não precisa explicar-se, Capitão, sua plateia não vai ver nenhum mal nisso, os Estados Unidos sempre deram refúgio aos golpistas e ditadores centro e sul-americanos.

Foi quando levaram sua moto? 
Estará, portanto, em boa companhia, mesmo porque os evangélicos estadunidenses vão recebê-lo com gospels e mesmo com folhas de palmeiras (como Cristo na Páscoa, em Jerusalém), provavelmente em Miami, onde tem casa de veraneio seu amigo na fé, ou na prosperidade que a fé ou a suposta fé podem gerar.

Estranho, mas o protestantismo criado pelos reformadores, como Lutero e Calvino, foi, de certa forma, o rompimento com o monopólio da fé cristã por Roma e representou a abertura para as grandes reformas que levariam mesmo ao reconhecimento da democracia, aos direitos humanos e ao fim dos reinados e do poder absoluto.

O evangelismo, esse desvio fanático do cristianismo, cujos excessos inspiraram livros e filmes como Silas Marner, de George Eliot, e A letra escarlate, de Nathaniel Hawthorne, vai no sentido oposto, inspirado por uma sujeição ao absolutismo de Deus.

Ao falar em golpistas e ditadores centro e sul-americanos, lembrei-me, Capitão, de dois deles que lhe devem ser bem familiares. É claro, Capitão, que sua inspiração primeira é a do ícone nazista Adolf Hitler, tanto que o seu lema político é uma cópia e adaptação descarada do lema nazista Deutchland Uber Alles, a Alemanha acima de todos, ao nacionalismo evangélico: O Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.

Depois de Hitler, com certeza, Capitão, seus heróis são o ditador dominicano Rafael Trujillo e o ditador chileno Augusto Pinochet. Permita-me um jogo de palavras: Messias contra o Salvador Allende. 
Deus estava puxando pro fundo?
Sua preferência, Capitão, é por Pinochet, ditador de país maior, que governou durante 17 anos com todos os poderes, matando e prendendo quem se atrevesse a criticá-lo.

É também essa sua atração pela violência e brutalidade a razão de sua admiração por Rafael Trujillo, ditador por 30 anos.

Deus absoluto e o Capitão, também absoluto! Cabe até, me perdoe, Capitão, uma outra brincadeira com as palavras – Deus e o Diabo na terra do sol. Não importa que não tenha entendido e nem sua ignorante plateia, mas talvez a quase ex-secretária da Cultura entenda: trata-se de um filme de Glauber Rocha.

Ah, Capitão, se não pode fazer milagres, por que se meteu a ser Messias e salvador do Brasil? Dizem que vai tentar dar um golpe, não sabemos com quem, porque o Exército, pelo que li e ouvi, não vai entrar nessa maluquice. 

Outros dizem que o Capitão, um tanto maluco e desequilibrado, capaz de tornar amigos em inimigos (ainda bem!), vai ser apeado do poder com um impeachment. Logo, bem logo.

Apenas um pedido, Capitão: quando a hora do impedimento – ou, no inglês de Trump, quando o impeachment – chegar, faça como o verdadeiro Messias. Saia sem fazer barulho. 

Não provoque uma guerra civil desnecessária, mesmo que o Brasil esteja cheio de evangélicos querendo ir para o céu. Poupe-nos disso. Quem sabe Deus lhe perdoa tantos desatinos. 
(por Rui Martins, de Genebra)

quinta-feira, 6 de abril de 2017

A NOVA BESTIALIDADE DO CARNICEIRO DE DAMASCO

Já lá se vão 11 anos que eu divulgo sistematicamente meus artigos na internet. Uma posição que mantenho desde o início e da qual jamais abrirei mão é a de colocar os princípios revolucionários acima de todas e quaisquer conveniências. Quem vai ao povo pregar a luta contra a desumanidade não pode, ele mesmo, compactuar com práticas desumanas.

Pouco se me dão as alianças firmadas por ditadores sanguinários como Bashar al-Assad, o carniceiro de Damasco. Mesmo que sua permanência no poder incomode EUA, Israel, as nações ricas da Europa Ocidental ou qualquer outro grande vilão da esquerda, ainda assim ele tem de ser afastado o quanto antes. 

Não passa de um réprobo da civilização, um genocida e um psicopata, tanto quanto Adolf Hitler. ou Pol-Pot. Deveria estar num tribunal como o de Nuremberg, sendo julgado por crimes contra a humanidade.

Das muitas distorções em que incorre a esquerda desvirtuada do pós-1968, uma das piores é avaliar os acontecimentos internacionais sob a ótica desumana da realpolitik, como se o mundo fosse um enorme tabuleiro de xadrez. Ao copiarmos a amoralidade estadunidense (expressa de forma emblemática na frase do secretário de Estado Cordell Hull a respeito do ditador dominicano Rafael Trujillo, “ele pode ser um filho da puta, mas é nosso filho da puta”), deixamos os melhores seres humanos sem motivos para nos seguirem. 
Exemplo de realismo político: pacto Hitler-Stalin de 1939.

Bom para quem quer convencer o povo de que os políticos são todos farinha do mesmo saco e que é melhor cada um de nós cuidar da própria vida. Péssimo para quem precisa reavivar as esperanças de que, unidos, possamos dar um fim à exploração do homem pelo homem.

Revolucionários existem para conduzirem a humanidade a um estágio superior de civilização. Traem sua missão quando compactuam com a barbárie, seja lá qual for o pretexto. Ponto final. 

As sucessivas opções pelo supostamente menos pior em detrimento do realmente melhor vêm conduzindo a humanidade para a beira do abismo e a esquerda para a impotência e até a irrelevância. É hora de voltarmos a nossos clássicos, a Marx, Engels, Proudhon, Lênin, Trotsky, Rosa Luxemburgo e outros deste porte, pois, como aprendizes de Maquiavel, fracassamos miseravelmente.

A indignação do veterano Clóvis Rossi com mais uma bestialidade cometida por Assad é minha também. 

Idem o desalento, pois ele escreveu e eu o subscrevo por mero desencargo de consciência. Ambos estamos carecas de saber que nem desta vez o cão danado será, pelo menos, neutralizado. Continuará barbarizando, continuará mentindo e aqueles que o protegem continuarão fingindo que acreditam. (Celso Lungaretti)
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DITADURAS SÃO SEMPRE TÓXICAS
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É tarde demais para o mundo se horrorizar com o ataque com armas químicas ocorrido na 3ª feira (4) na Síria.

O horror é inerente às ditaduras, de qualquer coloração política, e elas se instalam ou se mantêm ante a indiferença e/ou impotência do mundo civilizado. No caso da Síria, a ditadura do clã Assad já dura 46 anos, primeiro com o pai, Hafez, e a partir de 2000 com o filho Bashar. Que esse horror suba alguns pontos na escala, com ataques com armas químicas, é tudo menos surpreendente.

Até porque já ocorreu antes: o BuzzFeed relata que, em outubro passado, uma investigação conjunta das Nações Unidas e da Organização para a Proibição de Armas Químicas denunciou que forças aliadas ao governo sírio haviam usado armas químicas pelo menos três vezes entre 2014 e 2015.

O caso mais notório ocorreu em 2013, com o uso de gás sarin em Ghouta, nas imediações de Damasco, o que causou a morte de cerca de 500 pessoas. O episódio levou a um acordo, organizado por EUA e Rússia, pelo qual o governo sírio entregou, em tese, todo o seu arsenal de armas químicas para destruição.

Se, como tudo parece indicar, o ataque desta semana é de responsabilidade do governo ou de aliados, fica claro que nem todo o arsenal foi destruído. Escrevo antes de saber o resultado da sessão de emergência das Nações Unidas (*), até porque é desnecessário esperar: se tivesse que agir, a comunidade internacional deveria tê-lo feito no início da crise síria, em março de 2011.
Tratava-se, então, da revolta de parcela importante da sociedade civil contra a ditadura. Revolta pacífica, reprimida, porém, com a violência característica de toda ditadura.

Deu no que deu: os rebeldes pegaram em armas, o regime endureceu ainda mais, outros países se envolveram – e, seis anos depois, "era uma vez um país, a Síria", como escreve o radialista Fouad Roueiha no capítulo sírio do livro Rivoluzioni Violate, editado na Itália a propósito da fracassada Primavera Árabe.

É natural que um ataque com armas químicas acenda sinais de alarme e desperte gritos de indignação, mas o alarme e a indignação deveriam ter ocorrido também (ou principalmente) ante os 470 mil mortos, os 5 milhões de refugiados no exterior e os 6,3 milhões de refugiados internos.

Para ficar só no tema armas químicas, "desde o início do conflito em 2011, mais de 14 mil pessoas foram vítimas de ataques com armas químicas e mais de 1.500 morreram em decorrência", escreve para o New York Times Ahmad Tarakji, da Sociedade Médica Sírio-Americana.

Para um país de cerca de 18 milhões de habitantes, tais números desenham o pior desastre humanitário desde a 2ª Guerra Mundial, como admitem os organismos das Nações Unidas. A ditadura e a guerra que ela atiçou deixaram a Síria com 85% da população na pobreza, com mais de 2/3 em extrema pobreza, e 1,75 milhão de crianças sem escola.

Uma tragédia inenarrável a que o mundo assistiu, às vezes horrorizado, mas sempre passivo. (Clóvis Rossi)
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* Nota do editor: como o Clóvis Rossi previa, a reunião deu em nada, pois o representante russo conseguiu criar um impasse ao sustentar que as armas químicas pertenceriam aos rebeldes, estando estocadas num depósito atingido pelos bombardeios de Assad. Esopo e La Fontaine não fariam melhor. Como alguém consegue mentir tão descaradamente sem sequer enrubescer?! 
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