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quinta-feira, 10 de agosto de 2023

O CINEMA DIANTE DA CENSURA NO BRASIL E NO IRÃ

 


Funciona um cinema sob uma ditadura? E se essa ditadura for teocrática? Para dar uma resposta correta, o melhor é se basear naquilo que vivemos e conhecemos. E, nesse caso, temos duas respostas. A primeira está relacionada com a ditadura militar, justamente quando o cinema nacional tinha se encontrado com o Cinema Novo e os filmes de Glauber Rocha, Carlos Diegues e Joaquim Pedro de Andrade. Poucos anos antes do Golpe, sob o clima da euforia das Reformas de Base de João Goulart, o cinema brasileiro tem Vidas Secas, de Nelson Pereira dos Santos, Os Fuzis, de Ruy Guerra e chega ao auge com Deus e o Diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha, onde premonitoriamente já se tratava do messianismo.

Com a chegada do golpe militar, o cinema se torna introspectivo e entra na fossa e pessimismo com O Desafio, de Paulo César Sarraceni, e Terra em Transe, outro de Glauber Rocha, personificando as desventuras e desilusões da esquerda.

O cinema brasileiro tinha êxito e reconhecimento no exterior, embora não fosse muito apreciado pela classe média nacional. Os militares não proibiam, mas censuravam. Surgiu o Cinema Marginal com Rogério Sganzerla, Júlio Bressane e Ozualdo Candeias. Nesse clima, Glauber Rocha ganhou em Cannes, em 1969, na categoria de melhor diretor com O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. Mas o cinema nacional caiu em qualidade com a versão patriota no filme Independência ou Morte, de Carlos Coimbra, e resvalou para a pornochanchada. Era o período em que o cinema para sobreviver tinha de conviver com os militares, se industrializar, trabalhar com os empresários, nem sempre dando resposta. Esse é o primeiro motivo para a queda de qualidade. 

O segundo motivo é relacionado com os últimos quatro anos de Bolsonaro, nos quais se acabou com o Ministério da Cultura, se desvirtuou e esvaziou a Ancine, querendo que o cinema sem subvenções fosse obrigado a se vender, focasse suas produções em temas  heróicos ou inspirados em narrativas bíblicas evangélicas, longe das questão de gênero, do feminismo e de sexo, contando baboseiras.

Felizmente não tivemos um segundo governo Bolsonaro, no qual provavelmente a cultura ficaria sob o controle religioso e o cinema teria de se adaptar às exigências de uma teocracia cristã evangélica. No momento, o cinema brasileiro está em convalescença, mas espera-se que logo reapareça com força nos festivais internacionais e nos cinemas nacionais.

O Brasil escapou por pouco de uma nova ditadura, na qual a cultura em geral, o ensino e cinema poderiam ficar sob o controle de uma teocracia evangélica. Vamos focar agora o cinema iraniano, cuja qualidade e sucesso nos festivais nos lembra os anos faustos do cinema brasileiro.

Com o fim da monarquia do Xá Reza Pahlevi, a revolta popular acabou ficando sob o controle religioso do aiatolá Khomeini, criando-se uma censura geral que inclui mesmo uma maneira rigorosa e puritana de se vestir para as mulheres. Em síntese, instaurou-se uma exigente teocracia. Isso complicava nas filmagens, mas as divergências dentro do regime khomeinista no que se referia à cultura e ao sucesso do cinema iraniano no exterior permitiram uma certa ambivalência ou tolerância do governo com relação ao cinema, enquanto os cineastas procuravam - como faziam os cineastas brasileiros durante a ditadura militar - driblar as exigências baseadas na religião islâmica.

Isso incluía a fase da escritura ou roteiro do filme, as roupas das atrizes mesmo fora das filmagens e as palavras e entrevistas do cineasta ao apresentar seu filme nos festivais fora do Irã. Mas, sabendo se insinuar nos meandros das proibições e tocando de leve nos temas mais caros aos governantes, como o nacionalismo e a modernização da islamização, os cineastas iranianos conseguiram manter vivo o prolífico cinema dentro do país com grande sucesso no estrangeiro.

A tal ponto que o cinema iraniano vinha sendo o principal elemento de ligação do Irã com o Ocidente, com presença marcante nos festivais, capaz de garantir uma certa publicidade positiva do país. Os cineastas iranianos se tornaram mestres na arte de driblar a censura local e de jogar com a imaginação do público naquilo que é sugerido pelos filmes.

Entretanto, os líderes religiosos xiitas se radicalizaram. As recentes proibições e prisões de cineastas, agravadas com os assassinatos de manifestantes, entre eles o da jovem Jina Mahsa Amini, morta por ter colocado mal o véu, podem ter criado o clima de ruptura de uma parte da população, formada por muitas jovens, que não aceita mais continuar a se submeter ao regime teocrático iraniano, no poder há 43 anos.

O cinema independente iraniano está integrado no movimento Mulher, Vida e Liberdade, palavras de ordem repetidas nas manifestações que prenunciam uma revolução feminista contra um sistema milenar de dominação masculina. Alguns filmes feitos por cineastas independentes não mostram mais mulheres com o véu, porém não são exibidos dentro do Irã.

Acabou o tempo da coabitação de cineastas com o regime xiita teocrata, como foi o caso dos filmes de Abbas Kiarostami. Embora o cineasta Jafar Panahi tenha sido libertado e se refugiado na França, outros foram presos por alguns meses, como Mohammad Rasoulof, Urso de Ouro no Festival de Berlim de 2020, e Mostafa Al-Ahmad, por ativismo antirrevolucionário.

O Festival Internacional de Cinema de Locarno mostrará o filme iraniano Zona Crítica, mas seu realizador, Ali Ahmadzadeh, foi proibido de sair do Irã e não poderá apresentar seu filme e nem conceder entrevistas. Desde o anúncio do seu filme ter sido selecionado para a competição internacional em Locarno, o cineasta vem sendo alvo de pressões do governo iraniano para retirar seu filme do festival. Para o cineasta, que foi convocado pelo Ministério de Segurança iraniano, o filme "é uma reflexão artística sobre a cólera e a raiva da jovem geração iraniana". O filme foi feito sem a autorização das autoridades, antes das recentes manifestações contra o governo em Teerã.

O representante da Luxbox Paris e Sina Ataeian Dena, produtores do filme, receberam mensagens com ameaças exigindo a retirada do filme do festival. Recusando esse tipo de pressão, Dena afirmou que divulgar essa situação é uma forma de proteger o cineasta e mostrar que o filme é a parte mais importante da luta contra a censura.

O filme de Ali Ahmadzadeh mostra o personagem principal, Amir, sendo guiado pela voz de seu GPS e circulando pelos distritos do submundo de Teerã para confortar as almas perturbadas da noite. O realizador iraniano resume seu filme: "em vez de atores, trabalhei com pessoas reais. Na maioria das situações, tivemos que esconder a câmera ou encontrar truques complicados para contornar as proibições. Fazer este filme foi uma grande rebelião. Mostrá-lo no Festival de Locarno significa uma vitória ainda maior para nós". (Rui Martins) 




sexta-feira, 28 de julho de 2023

FENÔMENO BARBIE MOSTRA QUE A COLONIZAÇÃO CULTURAL DO BRASIL ESTÁ NORMALIZADA

claudio leal
A crítica da colonização cultural pode soar defasada nesses dias em que o domínio do mercado brasileiro pela indústria do cinema americano se normalizou e assumiu a feição amável do fenômeno "Barbie", de Greta Gerwig.

O marketing de apelo kitsch da Mattel e o vínculo afetivo com o brinquedo infantil impulsionaram o terceiro melhor desempenho em uma estreia no Brasil, com 4,1 milhões de pessoas entre quinta-feira e domingo desta semana. Só foi superado pelos transatlânticos "Vingadores: Ultimato", de 2019, com 5,5 milhões de pagantes, e "Homem-Aranha: Sem Volta para Casa", de 2021, com 4,5 milhões.

Na Folha, lemos que "Barbie" ocupa 2.056 salas de 767 cinemas; "Oppenheimer", de Christopher Nolan, 710 salas de 511 casas. Segundo a Ancine, a Agência Nacional do Cinema, até o fim do ano passado o país tinha 3.401 salas.

Sem o equilíbrio da cota de tela, os dois longas ocupam juntos mais de 80% dos espaços. Sem contar outros gigantes em cartaz. Esses dados revelam uma concentração escandalosa e um cenário de colonização do imaginário.

No fenômeno "Barbie", boa parte da crítica se surpreendeu com os méritos estéticos e o ingrediente das questões de gênero. Por ora, segue tímido o debate sobre os efeitos mentais e econômicos do avanço desregulado da indústria multinacional de cinema, uma anomalia abafada por acadêmicos, críticos, políticos e cineastas mais atentos às contribuições dos blockbusters à arte do filme.

De saída, as greves de atores e roteiristas de Hollywood invalidam a ideia ingênua de que o sistema industrial estimula um pensamento avançado, ainda que róseo, na superação de desigualdades de qualquer ordem.

A incorporação calculada de pautas identitárias e dos melhores talentos do cinema independente não suprime a cadeia de trabalho depreciado, concentração de renda, controle de mercados periféricos e sujeição da obra de arte à publicidade. Como acréscimo, a inteligência artificial promete aprofundar a exploração da personalidade dos atores com tecnologias de ponta.

Mesmo cineastas brasileiros,
não colocam a questão do capitalismo
em suas produções, ao contrário de um
Paulo Emílio Sales.

A crítica ao pendor imperial de Hollywood não inviabiliza o reconhecimento de suas inovações formais. Além do reconhecimento de mestres como John Ford e Alfred Hitchcock, o imaginário dos filmes americanos influenciou as vanguardas do século 20.

A dimensão mítica da indústria convive, porém, com o cerco dramático à diversidade das criações nacionais em países consumidores. Durante muitos anos foi fácil encarnar o diabo na figura do lobista Harry Stone, o representante no Brasil da Motion Picture Association of America, a associação dos principais estúdios de cinema de Hollywood, entre eles Warner, Fox e MGM. Inimigo da cota de tela, Stone era o dragão da maldade contra o santo guerreiro do cinema novo.

Nos dias correntes, a colonização transcorre em termos mais abstratos, numa atmosfera de normalidade. A crítica ao capitalismo perdeu força nos filmes e nos discursos extrafímilcos da maioria dos cineastas em atividade.

A tradição de pensadores robustos do subdesenvolvimento envolve Paulo Emílio Sales Gomes, Glauber Rocha e Ismail Xavier, mas esse manancial crítico adormece na irrelevância pública das discussões sobre a dimensão socioeconômica dos filmes e a alienação e letargia da esquerda diante do colonialismo high-tech.

Nas últimas décadas, houve um avanço no reconhecimento da qualidade técnica de nossos filmes pelos espectadores, mas o quadro colonial oscila sem se abalar.

Os críticos da monocultura industrial são fixados, com frequência, no espectro do nacionalismo, mas essa armadilha precisa ser denunciada no enfrentamento da colonização cultural. E não deve ser temida, pois os nossos principais movimentos artísticos absorveram programas antinacionalistas.

A bossa nova, o cinema novo, a tropicália e o cinema marginal contribuíram para a emancipação simbólica do país sem renunciar à influência estrangeira e, sobretudo na música, sem se negar a conflitos dentro da indústria cultural. O hip-hop também exibe suas conquistas. Mas cabe questionar se o estágio de libertação antropofágica do cinema se encontra agora em processo de recuo.

O cinema marginal se desenvolveu na
chamada Boca do Lixo, em São Paulo.

Os blockbusters devolvem espectadores às salas esvaziadas pela pandemia, mas, ao as ocupar sem freios, oprimem a vida comercial do filme brasileiro, à margem da margem na própria sociedade que julga refletir e representar.

Sem condições de competir no marketing, o cineasta brasileiro enfrenta a asfixia econômica e a inexpressividade do debate crítico de suas obras. Esse lugar de inferioridade se repete ainda no confronto com filmes europeus independentes.

Aos realizadores nacionais resta a frustração com a aparente inutilidade de seus esforços. Os editais do estado atendem à realidade física do filme, mas não revertem a sua trajetória fantasmagórica, nem os privilégios de grandes produtoras e distribuidoras.

Outro sintoma da colonização cultural atinge a crítica e o jornalismo, que, para responder ao público imantado pela indústria do entretenimento, passam a discutir mais a realidade estrangeira que não alcançam do que a pensar as imagens de um país estranho à sua frente. O advento do streaming sugere uma piora nesse domínio de imaginários.

A inconsciência da desigualdade faz com que militantes celebrem ganhos para o debate de gênero em blockbusters que contribuem para reduzir a vida comercial de obras de diretoras como Anna Muylaert, Sandra Kogut, Helena Solberg, Paula Gaitán, Grace Passô, Lô Politi, Petra Costa, Ana Carolina, Juliana Rojas, Helena Ignez, Gabriela Amaral Almeida, Viviane Ferreira, Laís Bodanzky, Tata Amaral, Júlia Murat, Carolina Markowicz, Eliane Caffé, Monique Gardenberg, entre outras a filmar sob a luz tropical.

O Cinema Novo tentava pensar a realidade
brasileira. 
Esse desarranjo afetou ainda o acesso dos espectadores à poética independente de cineastas estrangeiras como Agnès Varda, Chantal Akerman e Claire Denis.

As exceções são sitiadas. Com poucos recursos financeiros, a Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro oferece um contraponto a esse quadro colonial, com a melhor programação de instituições do gênero no país, insistindo no pensamento sobre o cinema brasileiro.

Num paradoxo dos algoritmos, este artigo não escapa à dinâmica frágil de nossa cinematografia. Pode engrossar o caldo crítico de "Barbie" e "Oppenheimer", ainda que deseje denunciar seus efeitos mentais e econômicos desastrosos. (por Claudio Leal, na Folha de São Paulo) 


quinta-feira, 2 de março de 2023

RUI MARTINS ENTREVISTA DIRETOR DANIEL BANDEIRA A RESPEITO DE SEU NOVO TRABALHO

 


D
aniel Bandeira estudou Publicidade na Universidade Federal de Pernambuco, e é membro da produtora de cinema e audiovisual Símio Filmes. Dirigiu curtas-metragens, como Contratempo (2004) e A Terceira Sombra (2006) antes de fazer o seu primeiro longa, Amigos de Risco (2007), que estreou no Festival de Brasília. Atualmente dedica-se ao cinema, onde atua em diversas áreas e trabalha como montador de filmes em Pernambuco.

Seu mais novo filme, Propriedade, apresentado na mostra paralela Panorama,  foi um dos mais fortes e mais marcantes do Festival de Cinema de Berlim. O filme, uma alegoria ou parábola de como ocorre uma revolução, foi bastante aplaudido após sua exibição no cinema Cubix. Mostra, com cenas de violência, a revolta dos trabalhadores numa fazenda, com o assassinato do capataz e dos proprietários. Entrevistado, seu realizador Daniel Bandeira externou seu desejo de que o filme pudesse funcionar como um estopim conscientizador contra a exploração dos trabalhadores. Abaixo, segue a entrevista com o diretor.

Rui Martins – Daniel Bandeira, você fez um filme forte e tocante, que trata de maneira genérica de uma questão importante: a da propriedade daquelas terras em que tantos trabalharam, inclusive escravos. Filme que demorou quatro anos para ser feito e que quase estreou ainda no governo Bolsonaro.

Daniel Bandeira – Ficamos muito ansiosos com a possibilidade de estrear o filme na gestão Bolsonaro. De fato, é um filme que aborda a questão da escravidão, mas principalmente, a atualização da escravidão. As camadas de escravidão vão se acumulando e chegam até o presente através de uma relação que pressupõe uma hierarquia social de trabalho muito desigual e muito dura. Esse estado de tensão diário, acho que a gente já vive de certa maneira e só transpusemos para o cinema.

Rui Martins– Você conseguiu reunir num só filme toda uma desesperança que existe entre os trabalhadores. Mesmo no Sul do país existem os Uber, toda essa gente é explorada, como é que você chegou a conceber essa revolta?

Daniel Bandeira– Eu sinto esse clima de tensão na minha vivência pessoal desde a primeira eleição de Dilma, que mostrou o país dividido entre o Norte e o Sul. Foi esse o momento em que senti essa situação. O projeto já existia, mas apenas a partir da ótica dessa mulher presa dentro do carro. Mas eu sentia a necessidade de entender quem são essas pessoas que estão do lado de fora, quais são suas motivações, desejos, medos, como vivem. Então, o projeto acabou se transformando numa balança entre esses dois lados, entre essa polarização, que faltou nessa década, sem comunicação entre eles a ponto de um se tornar o vilão do outro. Um acaba se transformando no inimigo do outro. Essa é uma situação, para mim, de não ganhadores, essa é uma situação que tende, para mim, num futuro próximo, a um conflito muito tenso. A gente já teve uma situação muito dura, agora no começo do ano, com a invasão dos prédios dos Três Poderes, e isso, para mim, foi a manifestação dessa tensão e dessa incomunicabilidade. Eu acho que se a gente não abre essa janela para as pessoas conversarem e entenderem o que o outro está passando, a tendência é a de explosões mais intensas de tensão social.

Rui Martins – No ataque em Brasília houve manipulação, mas no seu filme trata-se de uma revolta popular. Como você vê esse risco no Brasil?

Daniel Bandeira– Eu tenho contatos com intelectuais de esquerda que acreditam na conscientização popular e na educação popular. Eu também acredito nisso, mas leva muito tempo para criar essa estrutura. E eu acho que essa tensão não vai esperar esse tempo todo. Vai ser preciso haver concessões para que as necessidades básicas sejam satisfeitas. Se a gente não começar a se entender, se a gente não começar a fazer concessões de ambos os lados, poderemos chegar a uma situação de não retorno. Há quatro anos convivemos com essa situação de quase não retorno, mas ainda é uma situação na qual devemos ficar atentos.

Rui Martins– Não haveria um antídoto, uns panos quentes que poderíamos utilizar, no caso, os evangélicos, adiando para depois a revolta dos pobres? Vocês sofrem, mas quando forem para o céu estará tudo resolvido. Tenho escrito que o foco da extrema-direita evangélica está na porta e no púlpito das igrejas evangélicas.


Daniel Bandeira– A religião evangélica vem ganhando popularidade, nas últimas décadas, por um vácuo da administração pública do Estado. Eu espero que os evangélicos reflitam sobre o que sua própria denominação, seus pastores, vem orientando e vem nutrindo seus fiéis. Se houver um discurso de beligerância, então eu recomendo que reflitam, que questionem seus colegas e não aceitem tacitamente tudo aquilo que vem do pastor. Cada um deve questionar a estrutura do poder em que vive para podermos olhar um para o outro e orientar nossa relação pessoal.

Rui Martins– Quando foi a estreia do filme?

Daniel Bandeira– Na semana seguinte à eleição de Lula, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. O último dia de filmagem foi no primeiro turno das eleições.

Rui Martins– E qual foi a reação?

Daniel Bandeira– No Festival do Rio as pessoas ainda estavam encharcadas com a campanha eleitoral, que foi uma campanha muito dura. Embora o filme não mostre necessariamente tender para uma ou outra posição, para um lado ou para o outro, acho que ele carrega uma pulsão de violência, na qual a gente viveu esse tempo todo, e ele não oferece uma catarse, mas um tipo de manifestação que estava sendo necessária, para se entender como estado de tensão, irromper mesmo que o resultado seja desastroso, porque viver sempre oprimido, isso não é vida. Faz quinhentos anos que se vive essa vida. Quando se fala em violência justificada, deve haver um certo código moral. Mas quem oferece esse código moral? Quanto devo apanhar para poder revidar? E de que maneira posso revidar para ser justificada minha revolta? Toda vez que acontece uma greve, quem é pobre é considerado vagabundo porque não trabalha o suficiente para ser rico. Então existem distorções que levam ao aumento da pressão.

Rui Martins – Mas voltando à sua estreia no Rio, os bolsonaristas poderiam utilizar o filme para dizer vejam aí como pode acontecer…

Daniel Bandeira– É que eles costumam distorcer, mas como vejo meu papel pessoal e como realizador do filme? Eu pessoalmente penso meu filme como um estopim, eu não quero ensinar ninguém a como lidar com essas situações. não é meu objetivo sequer instigar a um grande levante ou que haja uma violência. Eu gosto de ver o filme como um estopim, uma bomba: qual será o efeito dessa bomba, se vai estourar ou não, qual será o seu raio, quem sairá machucado, ou se a bomba simplesmente não vai explodir, disso não sei, não tenho uma noção muito clara, mas quero sim instigar algum tipo de ação, seja qual for.

Rui Martins – E Lula é uma esperança?

Daniel Bandeira– Acho que sim. Porque de qualquer forma a gente saiu de um governo sem qualquer parâmetro de governo. A gente saiu de um estado de barbárie completa, eu acho que vivemos um estado de exceção. Agora, agora é a oportunidade de revermos a forma como lidamos com a política, como a praticamos e como a exercemos todo o dia e não só no dia da eleição. A forma como nos relacionamos com o governo. Ganhamos quatro anos para ver a forma como nos relacionamos com a política.

Rui Martins – Como foi feita a seleção dos atores? O trabalho foi muito bem-feito, embora sendo muitos, tudo foi bem sincronizado…

Daniel Bandeira– Para o papel da Teresa, que ficou presa dentro do carro, procurei uma atriz já conhecida do público, como a Malu Galli, que tem um trabalho consistente na televisão, mas também no teatro. No nosso primeiro contato, quando ela tomou conhecimento da história do filme, houve uma grande compreensão entre nós, mesmo porque se relacionava com o momento político. Com relação aos atores trabalhadores na fazenda, contei com o apoio do Samuel Santos, também ator no filme e coordenador de um grupo de teatro no Recife; utilizando seus contatos chegamos ao conjunto de atores. E também com a colaboração de Marcelo Caetano, que nos ajudou muito. Com essas parcerias chegamos ao conjunto dos atores. Muitos deles possuem uma convivência direta com o trabalho rural e conhecem bem essa realidade. Isso foi reforçado com o trabalho de preparação do elenco.

Rui Martins – Você se baseou em alguma revolta já ocorrida?

Daniel Bandeira– Revoltas de trabalhadores contra seus empregadores são coisas que acontecem desde sempre e isso faz parte da história do Brasil. Só que é uma parte de nossa história com a qual não temos muito contato. Não se fala se essas revoltas são possíveis e nem que se pode pressionar tanto a esse nível a ponto de se causar revoltas que podem ser violentas. Existem diversos movimentos desse tipo, mas pouco conhecidos. Os movimentos grevistas nas últimas décadas foram muito sufocados. O filme causa maior impacto quando apresentamos essa classe trabalhadora que se insurge de tal maneira. Na vida real já aconteceu de os trabalhadores não só se amotinaram como assassinarem os proprietários das terras.

Ficha Técnica: Propriedade (2022). Direção de Daniel Bandeira, com Malu Galli, Sandro Guerra e Carlos Amorim. Ainda sem data de estreia nos cinemas. 


sábado, 21 de janeiro de 2023

BOLSONARO DESTRUIU O CINEMA NACIONAL DURANTE QUATRO ANOS DE GOVERNO

 

Berlim e o massacre do cinema por Bolsonaro

Dentro de alguns dias, o 73º Festival Internacional de Cinema de Berlim, um dos mais prestigiosos e importantes festivais do mundo, anunciará os filmes selecionados para a competição internacional, escolhidos a dedo entre as maiores produções para este ano.

No Festival de Cinema de Locarno, onde estive em agosto, eu já comentava que os filmes brasileiros ali presentes tiveram de ser feitos com o apoio estrangeiro, principalmente da França. Esse retrocesso do cinema brasileiro, provocado por Bolsonaro, cujo governo não tinha praticamente um ministro da Cultura, ocorreu justamente num momento de grande expansão e aceitação internacional.

Haverá filme brasileiro? Nada transpirou até agora e não tenho bola de cristal, mas uma coisa é certa: durante seus quatro anos de governo, Bolsonaro tudo fez para destruir o cinema brasileiro. 

Em setembro, ao propor o orçamento para este ano, Bolsonaro previa o corte da Contribuição para o Desenvolvimento da Indústria Cinematográfica, Condecine, que arrecada o equivalente a 1,2 bilhão de reais anuais. A maior parte desse dinheiro é destinado à Ancine, a Agência Nacional de Cinema, criada em 2000. O apoio ao cinema com arrecadação pública vinha de 1960 com o Instituto Nacional de Cinema e, em 1980, com a Embrafilme incluindo a participação das televisões. 

O plano geral do ministro Paulo Guedes consistia em enxugar as despesas estatais, privatizar e desonerar o capital privado, e isso incluía, a pretexto de gerar mais competividade, zerar as atividades financiadoras de atividades culturais e restringir ao ensino básico as atividades educacionais. Logo no começo do governo, Guedes falou mesmo na privatização das praias! A medicina, paga ao estilo norte-americano, com o fim do SUS, fazia parte de seus planos. “A cultura, a civilização, elas que se danem…” como ironizava Gilberto Gil de maneira premonitória no seu Brasil Tropical

Mas o assassinato do cinema nacional preconizado por Bolsonaro respondia também aos anseios de sua base religiosa fundamentalista evangélica, insatisfeita com a temática pecadora dos filmes. Entretanto, a opção de se utilizar a Ancine para a produção de filmes bíblicos carolas, como gostariam seus pastores apoiadores, deve ter sido logo descartada – os filmes nunca seriam convidados para os festivais internacionais e se tornariam um marcante fracasso de bilheteria dentro do Brasil. 

A hipótese de serem exibidos nas igrejas seria concorrência desleal com os cinemas, exigindo um alvará especial, e, pior que isso, tiraria dos pastores o palco ao qual estão acostumados. A variante já existente, sem o mesmo impacto, é o uso online doméstico de filmes religiosos ou gospel, capazes de reter um público de fiéis idosos, mas olhados com indiferença pelos jovens.

Vamos agora ter esperança com a ministra Margareth Menezes, da Cultura, cujo orçamento total é de 10 bilhões, pois Bolsonaro dera apenas 1,67 bilhão de reais para a Cultura em 2022. O ex-presidente sem formação, inculto e ignorante, não valorizava atividades intelectuais, não entendia e não apreciava as artes, no que se parece com seus seguidores, que destruíram quadros e objetos de arte no ataque às sedes dos três poderes, dia 8 de janeiro em Brasília.

Estarei no Festival Internacional de Cinema de Berlim, do 16 ao 26 de fevereiro, onde retornarei depois de dois anos de ausência, devido à Pandemia, e uns 30 anos de presença. (por Rui Martins

quarta-feira, 22 de agosto de 2018

QUER SABER COMO OS BANCOS E GRANDES CORPORAÇÕES DOMINAM O MUNDO? SÍLVIO TENDLER EXPLICA.

Por sugestão do companheiro Maurice Politi, também veterano da resistência à ditadura militar, disponibilizo abaixo Dedo na Ferida, o último longa do melhor documentarista brasileiro, Sílvio Tendler (Os Anos JK, Jango, Utopia e Barbárie, Glauber Rocha O Filme, Labirinto do Brasil).

Realizado em 2017, recebeu o prêmio do júri popular do Festival do Rio daquele ano, mas só estreou no semestre passado. 

Segundo o crítico Daniel Schenker, d'O Globo, "aborda a concentração de poder econômico nas mãos de muito poucos, o lucro crescente dos bancos, num contexto em que a desigualdade social aumenta cada vez mais".

Já Sérgio Alpendre, da Folha de S. Paulo, destacou o empenho de Tendler no sentido de "identificar de que modo o dinheiro passou a ser a primeira religião, e de que modo as grandes corporações, sobretudo os bancos, dominam o mundo e relegam populações ao empobrecimento ou à miséria". 

Os entrevistados vão desde o cineasta Costa-Gavras, o geógrafo marxista britânico David Harvey e nossos ex-ministros Celso Amorim e Yanis Varoufakis, até um trabalhador que leva vida extremamente sacrificada no RJ e moradores de rua, passando pelo economista Ladislau Dowbor, que hoje poucos sabem ter sido comandante nacional da VPR em 1969/70. 

sábado, 16 de junho de 2018

UMA CRÔNICA ANTOLÓGICA DE NELSON RODRIGUES SOBRE A SEMIFINAL DE 1962

GARRINCHA, PASSARINHO APEDREJADO
Extraída do livro A Pátria de Chuteiras
Amigos, a vitória sobre o Chile fez nascer um penacho em cada cabeça e esporas em cada calcanhar. O brasileiro anda por aí com ares do dragão do Pedro Américo. É a epopeia ventando nas nossas caras. 

Invisíveis cornetas soam por todo o território nacional. Somos uma nação de 75 milhões de almas eretas como lanças. Mas, vamos e venhamos: — o triunfo de 4ª feira merece toda essa euforia nacional. O sujeito que, após os 4 x 2, não chorou lágrimas de esguicho é um mau-caráter. 

Mas eu dizia que foi uma vitória perfeita e irretocável. Os idiotas da objetividade querem colocar a partida em seus termos táticos e técnicos. O futebol, porém, foi um detalhe miserável, um frívolo pretexto. Pior era o que estava por trás. Amigos, o futebol do Chile não ameaçaria, normalmente, nem o Rosita Sofia (1).

O perigo estava no massacre emocional do nosso escrete. Eis o sonho do Chile: — já que perderia no futebol, quis ganhar pela intimidação, pelo sarcasmo, pelo medo e, também, pelo apito. Contra os onze gatos-pingados do nosso time, levantou-se toda uma população. Imaginem vocês a luta desigual: — milhões querendo ver a caveira da equipe brasileira, posta em desesperadora solidão. A guerra das manchetes contra os nossos foi simplesmente hedionda.

Eis o que os jornais diziam, em letras garrafais, tomando todo o alto da página: — “Com Didi ou sem Didi, os brasileiros farão pipi.” A palavra pipi, transmitida num berro gráfico, era de arrepiar.
Expulso, Garrincha seria apedrejado a caminho do vestiário
Ora, o escrete brasileiro tem seus negros plásticos, folclóricos, divinos. Há, no citado Didi, por exemplo, toda a dignidade racial de um príncipe etíope de rancho. Pois bem: — esses negros líricos, ornamentais, eram xingados como se fossem da Mau-Mau (2).

Não havia ninguém, no Chile, disposto a aplaudir ou simplesmente reconhecer os nossos possíveis méritos. Ou, por outra: — fomos tratados a pires de leite até o momento em que os locais venceram os russos e os nossos, os ingleses. E como éramos os adversários, passamos a ser, automaticamente, os anticristos. 

Os piores ventos dos Andes, os ventos mais lívidos e mais pungentes, vinham queimar a nossa delegação. Dir-se-ia que a própria natureza se associava à guerra contra o pobre escrete brasileiro. Aqui, à distância, eu via a hora em que haveria, lá, um terremoto privativo dos brasileiros. Pois bem. E vencemos, amigos. Vencemos contra tudo e contra todos.

E reparem que o escrete do Brasil não podia apresentar a sua máxima potencialidade. Primeiro houve uma baixa medonha. No jogo da Tchecoslováquia, com efeito, contundiu-se o deus Pelé. A notícia de sua distensão parou todo um povo. E viu-se uma coisa inédita para a experiência humana: — uma distensão chorada e velada por toda uma pátria.
Melhores momentos de Brasil 4x2 Chile, no Mundial de 1962

Mas o povo brasileiro é tão formidável que, na vaga de um gênio, pôs outro gênio. Ou, por outras palavras, na vaga de Pelé, arranjou, improvisou outro Pelé: — Amarildo. E, no jogo seguinte, também Amarildo se machuca. Como se não bastasse, abriu-se, nas canelas de Didi, uma constelação de feridas. E que vimos nós? Levando nas pernas chagas deslumbrantes, Didi foi mais um príncipe etíope do que nunca. Contra o Chile, através dos noventa minutos, ele não perdeu, em instante nenhum, a sua ginga maravilhosa de gafieira.

Ferido na carne e na alma, o escrete do Brasil derrubou o Chile. É possível que até a natureza tivesse preparado algum terremoto contra nós. E ganhamos. Mesmo que atirassem contra o Brasil um furacão da Flórida, sairíamos invictos da batalha. E pior do que o terremoto, pior do que a torcida, pior do que as manchetes, pior do que o escárnio do rádio e da televisão: foi o juiz. Está provado que o árbitro entrou em campo para meter a mão no bolso do Brasil.
Garrincha, alegria do povo (1963), documentário de Joaquim Pedro de Andrade

O ladrão fez o diabo para impedir o triunfo brasileiro. Inventou um pênalti, ou seja, deu um gol de presente ao Chile. Perseguiu os nossos jogadores com um descaro gigantesco. Não se conhece, na história do futebol, um apito tão cínico e tão vil. O seu pecado mais horrendo, porém, foi a expulsão de Garrincha.

Não há no Brasil, não há no mundo, ninguém tão terno, ninguém tão passarinho como o Mané. O sujeito que se aproxima dele tem vontade de oferecer-lhe alpiste na mão. Os pombos aqui da Cinelândia, os pardais do Boulevard 28 de Setembro, diriam: — “Nosso irmão, o Mané.” E Garrincha foi expulso. Mas ganhamos assim mesmo. Pois vencemos o juiz, vencemos o escrete chileno, as manchetes, os terremotos, a cordilheira. Apedrejaram Garrincha, e vencemos. 
Garrincha: estrela solitária (2003), dirigido por Milton Alencar

Eis o mistério do escrete e do Brasil. O time ou o país que tem um Mané é imbatível. Hoje, sabemos que o problema de cada um de nós é ser ou não ser Garrincha. Deslumbrante país seria este, maior que a Rússia, maior que os Estados Unidos, se fôssemos 75 milhões de Garrinchas. (por Nelson Rodrigues)

1) O Sport Club Rosita Sofia foi fundado em 1941, no bairro de Cosmos, na cidade do Rio de Janeiro. O time era conhecido por perder para quase todos os adversários.

(2) A Mau-Mau foi um grupo paramilitar que lutou contra o domínio britânico no Quênia. Entre 1952 e 1960, liderou uma das principais revoltas da descolonização do continente africano

terça-feira, 24 de abril de 2018

O FILME QUE EM 1973 SERVIU DE ANTÍDOTO À SOCIEDADE FASCISTIZADA QUE OS OGROS QUERIAM NOS IMPOR

No ano da (des)graça de 1973 vivíamos em paz no Brasil: a paz dos cemitérios.

O sonho de nos livrarmos de uma tirania boçal e sanguinária virara pó. Quase ninguém acreditava que a última cartada (a guerrilha do Araguaia) fosse virar o jogo em nosso favor, depois das terríveis derrotas que sofrêramos entre 1970 e 1972.

Até para mantermos o ânimo alto face a uma realidade tão deprimente, procurávamos refúgio em comunidades alternativas, nos loucos sonhos dourados e na arte que marchava na contramão da sociedade fascistizada que os ogros queriam nos impor à base do consumismo, da propaganda e da porrada.

Foi quando o ótimo ator Hugo Carvana estreou na direção com Vai trabalhar, vagabundo, uma lufada de ar fresco, evocando e reverenciando um jeito carioca de ser que já se extinguia, infelizmente.

Mostra o charmoso malandro Secundino Meireles, o Dino (Carvana), deixando a prisão e retomando sua rotina de se deliciar com os prazeres da vida e sustentar-se com golpes inofensivos, usando a lábia e a esperteza ao invés das armas. 
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Vem-lhe à mente um projeto bem maior do que os habituais e muito difícil de concretizar: montar a revanche, décadas depois, de uma partida lendária de sinuca, na qual os melhores jogadores da época, o estrategista Babalu (Nelson Xavier) e o intuitivo Russo (Paulo César Peréio), disputaram no pano verde o amor da musa do pedaço, a bela Vitória (Rose Lacreta).

Só que o derrotado Russo está internado num hospício e o vitorioso Babalu se tornou um trabalhador-modelo, que bate ponto e se mantém bem distante da malandragem por exigência da esposa umbandista e moralista.

As peripécias de Dino para recuperar ambos e viabilizar a revanche são hilariantes; o elenco, de primeira, com destaque para figurinhas carimbadas do cast da Embrafilme como Odete Lara, Zezé Motta, Otávio Augusto, Roberto Maia e Wilson Grey, entre outras; e a trilha musical de Chico Buarque, superlativa. Recomendo com entusiasmo!
Clique para assistir a depoimentos sobre o filme, 40 nos depois
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