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quarta-feira, 15 de abril de 2026

SÉRIE "AS CINCO COPAS DO MUNDO QUE O BRASIL CONQUISTOU": 1994. ROMÁRIO CONTRA TUDO E CONTRA TODOS.

Após três conquistas que nos encheram de orgulho, veio o tetra cauteloso do técnico Carlos Alberto Parreira, que nos deixou a lembrança de um Romário decisivo e de uma única atuação memorável da seleção: a contra a Holanda na quarta-de-final. Copo meio cheio e meio vazio.

Que diferença entre as duas finais contra a Itália! Se nosso quarto gol em 1970 foi apropriadamente comparado a um orgasmo, a conquista da Copa sem vitória em 1994, após sonolentos 120 minutos de 0x0 e as emoções baratas da loteria dos pênaltis, esteve mais para um coitus interruptus!

Para piorar, tivemos de aguentar o desabafo raivoso do capitão Dunga, como se nosso escrete houvesse ganhado por 5x2, 3x1 ou 4x1, como fazia quando ainda éramos os melhores do planeta bola...

O Brasil chegou à Copa de 1994, nos EUA, com a responsabilidade de reconquistar a hegemonia do futebol mundial, depois de cinco decepções consecutivas.

Primeiro foi a desagradável surpresa de ver a Seleção totalmente superada pelo carrossel holandês em 1974, na Alemanha. Mereceu perder a semifinal para o timaço de Cruyff e Neeskens, por 2x0.

Consolamo-nos com a avaliação de que havia sido a Copa da entressafra. Uma geração de craques chegara ao fim (Pelé, Gerson, Carlos Alberto, Tostão, Clodoaldo), Jairzinho deixara de ser um furacão e Rivellino não conseguiu resolver tudo sozinho.

Foram os defensores que carregaram o Brasil, aos trancos e barrancos, até o 4º lugar, aceitando só quatro gols. Pena que os atacantes fizeram míseros seis, metade dos quais contra o patético Zaire.

Em 1978, na Argentina, Rivellino estava maduro demais e Zico ainda verde. Mas, depois de empates decepcionantes contra a Suécia e a Espanha, a Seleção do técnico Cláudio Coutinho melhorou. Esteve próxima de derrotar os anfitriões (0x0), além de obter quatro vitórias.
Só não foi à final porque o Peru entregou o jogo para a Argentina, deixando-se golear por 6x0 para que ela alcançasse o saldo de gols necessário.

Por haver terminado a campanha invicto, derrotado apenas nos bastidores mafiosos do futebol, o Brasil autoproclamou-se campeão moral.
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A DERROTA MAIS SOFRIDA, EM 1982
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E seria derrotado novamente em 1982, não por armações extracampo, mas pela fatalidade que se abateu sobre a melhor seleção do Mundial da Espanha. Como a Hungria em 1954 e a Holanda de 1974, o Brasil maravilhou o mundo mas foi sobrepujado por um adversário retranqueiro e calculista em dia de sorte.

Com Falcão, Zico e Sócrates compondo um meio-de-campo notável, o Brasil não se abalou com um frangaço de Valdir Peres, vencendo a URSS de virada por 2x1; goleou como quis a Nova Zelândia (4x0) e a Escócia (4x1); e impôs categóricos 3x1 à Argentina de Maradona, a outra favorita ao título.
Capa histórica do JT 
Três falhas da defesa puseram tudo a perder contra a Itália, apesar dos golaços de Sócrates e Falcão.

Os torcedores brasileiros, que desde 1970 não ficavam tão empolgados com a Seleção, respaldaram a renovação, na Copa seguinte, da aposta do técnico Telê Santana no futebol-arte – caso raro após uma campanha malsucedida em termos práticos.

A volta ao México em 1986 não foi, entretanto, auspiciosa. Sócrates e Falcão já tinham passado do auge, Zico andou contundido. Mesmo assim, acumulamos quatro vitórias até a eliminação noutra partida sumamente infeliz, contra o esquadrão francês de Platini.

Com 1x1 no placar, Zico desperdiçou uma penalidade máxima e a partida foi para a prorrogação, equilibrada até o fim. Na decisão por pênaltis (3x4), brilhou a estrela de Bats, que fez defesa elástica no chute de Sócrates e teve a sorte que faltou ao nosso goleiro: uma cobrança brasileira bateu na trave e saiu, uma francesa bateu na trave, nas costas de Carlos e entrou.

Tão decepcionados ficaram os brasileiros com essa derrota do futebol-espetácuLO que nem se deram conta de que o talento acabara saindo vencedor do duelo contra as rígidas esquematizações táticas: a Argentina foi campeã, com Maradona fulgurante como nunca.

Assim, no Mundial da Itália, em 1990, foi numa rígida esquematização 5-3-2 que o técnico Sebastião Lazaroni apostou, para vê-la ruir como castelo de areia num solitário lampejo do já decadente Maradona.

NOVE ATRÁS E DOIS NA FRENTE.
 
Em 1994, o técnico Carlos Alberto Parreira avaliou que o fundamental era interromper a série de fracassos, mesmo que sacrificando a beleza e a ousadia novamente reivindicadas pelos brasileiros. 
Clique aqui e veja o melhor de Brasil 3x2 Holanda
Comparando as estilísticas exibições da 
Era Telê com a perda total na chamada Era Dunga em 1990 (feia retranca, futebol burocrático e desclassificação precoce), os torcedores haviam voltado a preferir a primeira opção.

Parreira ficou no meio termo. Descartou esquemas pretensiosos que engessavam o time, como os de Cláudio Coutinho e Lazaroni; mas evitou expor a Seleção em demasia.

Optou por um futebol pragmático e cauteloso, com defesa sólida e ataque que aproveitasse bem as poucas chances criadas.

Nos seus planos não cabia Romário, o maior atacante brasileiro então em atividade (no Barcelona), mas tido como independente em demasia. Na verdade, Romário tinha consciência de que podia fazer mais pelo time do que qualquer técnico e, pouco dado à diplomacia, trombeteava tal convicção.

Ao final de uma péssima campanha na eliminatória, entretanto, o Brasil não poderia perder do Uruguai no Maracanã, caso contrário se repetiria a tragédia de 1950. Parreira tremeu. E, a contragosto, atendeu ao clamor unânime dos torcedores brasileiros pelo craque Romário.

Aconteceu o previsível: o baixinho exorcizou os fantasmas com dois belos gols e garantiu seu lugar na Copa, contra a vontade de técnico e cartolas.
A dupla funcionou bem nos contra-ataques

Sobre ele e Bebeto recaía a responsabilidade de fazerem os gols, como únicos atacantes avançados. Para servi-los, Mazinho e Zinho, o que não era grande coisa. 

Tecnicamente superior, Raí estava em má fase: começou como titular e acabou na reserva.

Romário abriu caminho para a vitória contra a Rússia, sofrendo, depois, o pênalti que culminou no gol de Raí. 2x0.

Repetiu a dose contra a empolgada mas ingênua seleção de Camarões. Márcio Santos e Bebeto fecharam o placar: 3x0.

E, assinalando o gol de empate, evitou pelo menos uma derrota diante da Suécia: 1x1.

Também foi dele o tento que mandou os suecos para casa, na semifinal. 1x0. Se em 1958 os fizemos de saco de pancadas, em 1994 tivemos de suar sangue para derrotá-los pelo placar mínimo.

Bebeto, por sua vez, despachou os anfitriões, nas oitavas-de-final. A vitória sofrida (outro 1x0!) contra os incipientes estadunidenses dá bem uma ideia de como o futebol brasileiro minguava sob Parreira.

A partida inesquecível da nossa Seleção em 1994 foi a pedreira contra os holandeses, nas quartas-de-final. O Brasil começou melhor o 2º tempo e, em ótima jornada, Romário e Bebeto marcaram. Com 2x0, parecia tudo decidido.

De repente, a sólida defesa brasileira desmanchou no ar, tomando gol até em escanteio alçado para a pequena área.
Assista aqui ao melhor de Brasil 0(3) x Itália (02) 
Jogo empatado e se aproximando da prorrogação, quem salvou a pátria foi o lateral Branco, cavando uma falta na intermediária e a cobrando com um petardo indefensável. 3x2.

Quanto à final contra a Itália – 120 minutos de quase nada –, foi o que se poderia esperar de duas seleções com medo de atacar.

Aliás, a escalação do Brasil já diz tudo: Taffarel; Branco, Aldair, Márcio Santos e Jorginho; Dunga, Mauro Silva, Zinho e Mazinho; Romário e Bebeto.

Deu no que deu, Romário e Bebeto brigando sempre com uns 4 ou 5 italianos, enquanto quem deveria ajudá-los estava pregado lá atrás...

Já na prorrogação, com a Itália caindo de cansaço, Parreira ousou colocar um terceiro atacante, Viola, deixando o Brasil bem mais perto do gol; e os brasileiros, com a nítida sensação de que uma vitória de verdade teria sido possível.

Nos pênaltis deu Brasil, porque a Itália abusou do direito de errar, desperdiçando três deles. Até o craque do time, Baggio, isolou o seu...
Eis, em compacto, a campanha inteira
Pelo Brasil marcaram Romário, Branco e Dunga. Márcio Santos desperdiçou e nossa quinta cobrança foi desnecessária. 0x0 no jogo, 0x0 na prorrogação e 3x2 nos pênaltis.

Os deuses do futebol nos pregaram uma peça, devolvendo pela metade o título que tomaram em 1982: veio a taça, mas não o orgulho de tê-la conquistado com o brilhantismo a que nos havíamos acostumado. 

O fundo do poço, contudo, ainda estava distante. Só chegaríamos a ele 20 anos depois, quando a blitzkrieg alemã nos reduziu a picadinho em pleno Mineirão. Celso Lungaretti)

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domingo, 24 de novembro de 2019

CAMPANHA DOS CRONISTAS ESPORTIVOS DE DIREITA NÃO DERRUBA TITE. E ELE PODE LIVRAR-SE DA NEYMARDEPENDÊNCIA

Bruno Henrique e Gabigol vivem momento mágico
O que todos comentam é a virada eletrizante do Flamengo sobre o rival argentino nos minutos finais da partida que decidia a Copa Libertadores da América.

O que não vi ninguém dizer é que o maior talento futebolístico surgido no Brasil desde Neymar cumpriu com louvor o seu rito de passagem e deve agora livrar Tite da incômoda dependência de um único e complicadíssimo fora-de-série.

Também nisto derrotamos a Argentina, que não tem, no horizonte visível, nenhuma revelação capaz de pôr fim à Messidependência. Só mesmo la pulga poderá levar os hermanos a conquistarem seu terceiro caneco em 2022; se ele estiver contundido ou sentir o peso da idade até lá, serão mais quatro anos na fila. Simples assim.

Já o Brasil, tudo leva a crer, superará com vantagem a Neymardependência. Bruno Henrique é também um fora-de-série, e solidário como a prima donna infantilizada nunca foi e jamais será, ainda que pare de se contundir a cada três meses e não se envolva mais em escândalos, reerguendo sua carreira das cinzas.
Tite poderá deixar de ser babá de marmanjo
A Conmebol, uma vez na vida, acertou: BH foi mesmo o melhor jogador desta Libertadores. 

Eu acrescentaria que, com sua jogada magistral no primeiro gol contra o River Plate, decidiu a final. Aberta a porteira entraria toda a boiada, até porque os argentinos, numa eventual prorrogação, estariam pra lá de inferiorizados, tanto na parte física quanto na anímica.

E o ganho para Tite não foi só este. Gabigol se afirmou como um goleador muito melhor do que Roberto Firmino, Douglas Costa e (o pior de todos) Gabriel Jesus. Com grande chance de vir a disputar a titularidade com outra auspiciosa revelação, o Rodrygo do Real Madrid.

Gerson também fez por merecer uma chance de mostrar seu futebol vestindo a amarelinha;  e Everton Ribeiro e Rodrigo Caio, de voltarem a fazê-lo. Os três nem de longe são inferiores aos atuais reservas (já BH e Gabigol estão um degrau acima, como fortíssimos candidatos à titularidade).

E, por falar em Tite, vou tirar um gênio da garrafa: a campanha infernal de parte da crônica esportiva contra ele tem tudo a ver com o ocupante do Palácio do Planalto ser hoje um reaça exacerbado.
Bozo adoraria que o técnico do escrete fosse seu correligionário

Durante todo o tempo em que trabalhei nas redações, os maiores focos da direita no jornalismo sempre foram as editorias de Polícia e de Esportes. Saí no fim de 2003, mas tudo indica que ainda o sejam, com algumas louváveis exceções.

O certo é que Tite assumiu a Seleção Brasileira quando, nas eliminatórias do último Mundial, estávamos fora da zona de classificação, com 9 pontos ganhos e ridículo aproveitamento de 50% dos disputados nas seis rodadas. Era grande o temor de que, pela primeira vez na História, não nos classificássemos para uma Copa.

Com Tite conquistamos 32 pontos em 36 possíveis (88,9%), um assombro! A campanha memorável encheu de esperanças o povo brasileiro.

Veio o Mundial e a base daquele escrete caíra acentuadamente de produção, seja por contusão (Neymar, Renato Augusto – Daniel Alves foi cortado antes) ou má fase técnica (Gabriel Jesus, Paulinho, Marcelo).
Tite também merece uma 2ª chance
Embora a desclassificação diante da Bélgica por 1x2 tenha sido um banho de água fria no entusiasmo recém-conquistado da torcida brasileira, uma análise isenta leva necessariamente à conclusão de que aquele escrete, mesmo com algumas alterações que Tite deveria ter efetuado (Gabriel Jesus, Fernandinho e Paulinho foram indefensáveis, os jogadores errados na partida errada), caso sobrevivesse às quartas-de-final, só passaria pelos franceses por milagre...

Desde então, a única competição importante disputada por Tite foi a Copa América – e o Brasil ganhou.

Os amistosos caça-niqueis continuaram sendo o que sempre foram, uma completa irrelevância em termos técnicos. Mesmo assim, os bolsonaristas da crônica esportiva satanizaram Tite tanto quanto puderam, num esforço concentrado para derrubá-lo antes das eliminatórias para a próxima Copa, que começarão no semestre que vem.

Face à inexistência de opções tão promissoras assim no Brasil (o mais cotado era o Renato Gaúcho, sobre cujo Grêmio o Flamengo do mister tem passado como um trator...) ou no exterior (os técnicos de ponta dificilmente aceitariam, Sampaoli foi muito pior do que Tite no último Mundial e nada conquistou no Santos, Jorge Jesus seria doido varrido se trocasse a condição de unanimidade no Mengão pela de incógnita na Seleção).

Tite, agora com um elenco bem melhor nas mãos, merece uma segunda chance, tanto quanto Telê Santana em 1986; e ainda é a nossa melhor opção, por mais ruídos que faça a charanga ultradireitista. (por Celso Lungaretti)
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