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sábado, 18 de janeiro de 2025

APÓS MOSTRARMOS AO MUNDO NOSSA PIOR IMAGEM COM O BOLSONARISMO, "AINDA ESTAMOS AQUI" VEIO NOS REDIMIR.

 dalton rosado
AINDA ESTAMOS AQUI 
"
O teatro e a educação devem caminhar juntos; educar não é só ensinar a ler e escrever;
é ensinar a pensar e sentir o mundo de
outras formas" (Fernanda Montenegro) 
A Justiça Militar enviou ao Supremo Tribunal Federal  uma carta assinada por 37 militares, inclusive dois coronéis da ativa e dois da reserva, na qual faziam críticas ao judiciário e incitavam à quebra da institucionalidade constitucional. Foi o ponto de partida para a instrução e julgamento de tal prática golpista. 

Além de evidenciar a necessidade de uma apuração militar por quebra de hierarquia (pois militares da ativa não podem se dirigir aos seus superiores nesses termos de clara ingerência política, ainda mais estando o governo recheado de fardados em postos de comando), a Justiça Militar entendeu que o referido documento fugia à alçada de crime militar para caracterizar também crime comum,  passível de punição dentro da legislação penal brasileira.   

Na verdade, Jair Bolsonaro se via incomodado com a constatação de que seu governo tinha menos poder do que supunha como presidente: o ignaro desconhecia que, no regime republicano a serviço do capital, é o próprio capital quem manda nas questões mais relevantes, cabendo aos militares apenas darem suporte à garantia da ordem burguesa exploradora.

Quando os fardados se investem de poder político, o fazem de modo arbitrário, amiúde gerando conflitos administrativos nocivos para as pessoas e para a própria lógica funcional capitalista.  
Militarismo à brasileira: o fumacê num 7 de setembro

O militar, adestrado para a guerra, é administrador arbitrário que confronta o senso da lógica capitalista e termina por ser ineficaz tanto para o povo quanto para o próprio capital a que serve).     

As amarras institucionais da democracia burguesa se formataram de tal maneira que garantiram a impessoalidade do poder político diluindo-o em instâncias de departamentos, de modo que o capital não sofresse eventualmente a rebeldia de um governante que ameaçasse a sua hegemonia.  

Os militares, não raro, se acham poderosos por terem as armas e querem inverter, de modo político absolutista, aquilo que o capitalismo vem aperfeiçoando ao longo dos últimos 200 anos, ou seja, o capital defende o lema descentralizar, para governar, de forma que todos os seus servos (civis e militares) se tornem membros voluntários do seu absolutismo.  

Presos à lógica do capital, os militares, quando se imiscuem na política, ficam estressados com a divisão institucional burguesa porque querem governar fora de quaisquer amarras; então, acabam fazendo das suas vontades a lei,  como se fosse possível um retorno personalíssimo ao absolutismo monárquico-eclesiástico feudal. 

Representam politicamente o retrocesso da história, principalmente neste momento de crise do capital no qual os governantes sofrem o desgaste cada vez mais acentuado da ingovernabilidade sob a relação social capitalista, dando ensejo a que surjam oportunistas salvadores da pátria para anunciar uma pretensa solução sob a mesma lógica autoritária por sua natureza exploradora e que somente piora o que está irremediavelmente arruinado: o sistema produtor de mercadoria.  
"A ditadura dos generais, de triste memória, terminaria
com os militares indo embora pela porta dos fundos"

Esse é o contexto da tentativa de golpe militar frustrado num país que, apesar de desmemoriado, tornou-se suficientemente ressabiado de uma história republicana marcada: 
--por um golpe militar contra a monarquia que em 1889 instituiu a República pela direita (fato único no mundo); 
--pelos levantes militares que pipocaram desde 1922, tendo o mais importante deles sido o tenentismo, com seus 15 anos de duração; 
--pela volta dos militares ao poder pelas urnas no período 1946/1951, quando Getúlio Vargas, impedido de disputar a eleição presidencial, descarregou os votos que teria no general Eurico Gaspar Dutra, fazendo-o de  seu poste;
--e por mais uma recaída no militarismo em 1964, com a ditadura dos generais, de triste memória, que durou 21 anos e terminou com os fardados indo embora pela porta dos fundos.  

Mas. temos momentos fugazes de glória.  Somos um país carente de conquistas que erradiquem o complexo de vira-latas, e que por isso vibrou com a escolha da nossa Fernanda Torres como melhor atriz dentre as concorrentes ao Globo de Ouro, superando grandes estrelas como Nicole Kidman, Angelina Jolie, Kate Winslet, Tilda Swinton e Pamela Anderson.  Vibramos como se tivéssemos conquistado a Copa do Mundo de futebol pela primeira vez. 

Tratou-se também de uma espécie de reparação moral à Fernanda Montenegro, que muitos profissionais importantes da sétima arte consideravam merecedora do Oscar de melhor atriz em 1999, por sua atuação em Central do Brasil 
Fernandinha é bi em Cannes: "Eu sei que vou te amar"... 

Assim comemoramos por vários motivos: 
-- porque ainda faltava um reconhecimento hollywoodiano ao cinema nacional, cujas grandes conquistas até agora se limitavam ao Festival de Cannes (melhor filme de aventura de 1953 para O cangaceiro; palma de ouro de melhor filme de 1962 para O pagador de promessas; prêmio da crítica em 1967 para Terra em transe; prêmio de melhor atriz de 1986 também para Fernanda Torres por Eu sei que vou te amar, só que empatada com Barbara Sukowa; prêmio do júri em 2019 para Bacurau; e prêmio de melhor atriz para Sandra Corveloni em 2008, por Linha de Passe;
-- chancela para o mundo a ascensão do cinema brasileiro, atraindo olhares mundiais para a qualidade da nossa dramaturgia (em parte já conhecida pelas novelas na televisão); 
-- valoriza a tenacidade das mulheres brasileiras representadas no filme por Fernanda Torres, Eunice Paiva e Fernanda Montenegro; 
-- denuncia para o mundo a desumanidade da ditadura dos generais, ao mesmo tempo que provoca uma reflexão nas pessoas incautas que, por ingenuidade ou ignorância, não dimensionaram o perigo de votar numa pessoa capaz de afirmar que a ditadura deveria ter assassinado 30 mil opositores.  

Está na hora de sermos eminentes no exterior por outros talentos, pois até agora a grande maioria dos nossos destaques era na área esportiva.  

Confesso que me emocionei pelo conteúdo humano do filme, paralelamente à denúncia implícita que traz, até porque me considero colega da Eunice Paiva que foi defensora dos direitos humanos como eu ainda sou desde o final da década de 70. 
...e "Ainda estamos aqui".
Como disse a mãe, Fernanda Montenegro,
não é fácil romper a linha do Equador no cinema. Mas, rompemos!   

Obrigado Walter Salles, Selton Melo, todo o elenco e, especialmente, às Fernandas (mãe e filha). 

Bravo, bravíssimo!  

Ainda estamos aqui! (Dalton Rosado)      

terça-feira, 27 de setembro de 2022

DOS PRESSUPOSTOS DE UM GOLPE VITORIOSO, NENHUM ESTÁ PRESENTE – 1

dalton rosado
BRASIL, GRANDEZA E PEQUENEZ
Deodoro da Fonseca dixit
Definitivamente, somos grandes; mas ainda temos o complexo de vira-latas do qual nos falava Nelson Rodrigues.

É claro que já seríamos naturalmente grandes:
— pela nossa magnitude territorial continental;
— por sermos grandes detentores e exportadores de commodities (minérios e alimentos); e
— pela nossa população (temos a metade dos habitantes da América do Sul e Central).

É por isto que em 1964, no auge da guerra fria, os Estados Unidos enviaram à costa brasileira uma frota bélica para ficar de prontidão; era uma força intervencionista de fazer inveja ao plutocrata russo (o qual, aliás, agora está parecendo ser apenas um leão velho e desdentado a miar...).

Os marines estadunidenses estavam estacionados no mar continental, nas proximidades do Espírito Santo, prontos para apoiar o golpe que os militares brasileiros incubavam desde a década anterior.

Baseados em análises equivocadas dos seus informantes diplomáticos e na própria fanfarronice do Luiz Carlos Prestes, os EUA temiam que nosso país se tornasse uma nova Cuba. Depois constataram que bastariam um cabo e um soldado para derrubar Jango, como diria o bolsominion zero à esquerda!

O Brasil tem uma tradição militarista na política, sendo tal característica um traço cultural da nossa pequenez bananeira. 

Somos o único país do mundo que derrubou a monarquia pela direita, com militares apoiados pela elite agrária e política (não é por menos que fomos dos últimos a abolir a escravidão humana direta feudal que substituiu a escravidão indireta do trabalho abstrato capitalista).

A conservadora velha República do
café com leite (já que São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder político) era tutelada pelos militares, até que, em 1930, após a quebra do pacto e a eleição de Júlio Prestes, o tenentismo tomou o poder pela via armada e entronizou Getúlio Vargas, o candidato derrotado, na Presidência da República.

O getulismo tenentista, que logo demonstrou ser simpatizante do fascismo italiano e de suas leis trabalhistas, durou 15 anos, até que os ventos da 2ª Guerra Mundial e a relutância inicial do ditador brasileiro em aderir aos aliados fizeram com que os Estados Unidos apoiassem a deposição de Getúlio no pós-guerra e promovessem uma eleição com dois militares, de modo que tudo ficasse em casa...

Terminada a guerra, Getúlio foi deposto à brasileira, ou seja, apoiou eleitoralmente quem o depusera do poder, ajudando a eleger o general Eurico Gaspar Dutra.

Como a memória populista de Vargas ainda estivesse presente como pai dos pobres, veio o processo eleitoral e a sua vitória em 1950, seguida de nova tentativa de golpe em 1954, que ele abortou suicidando-se com um tiro no peito. 

Dez anos após, com o trabalhista getulista João Goulart no poder, as condições conjunturais da guerra fria propiciaram um novo golpe militar que durou 21 anos.
A história é incontestável: temos uma tradição militarista de poder, sendo isto o que nos assemelha às repúblicas bananeiras latino-americanas como aspecto da nossa pequenez político-institucional-democrática, e em contraste com a nossa grandeza natural (material e cultural).

Dentre nossos presidentes, dez deles foram membros das Forças Armadas, mas apenas três chegaram ao poder pela via das urnas e não das armas: Hermes da Fonseca, em 1910; Eurico Gaspar Dutra, em 1946; e Jair Bolsonaro, em 2018.

Contudo, apesar da nossa tradição de tutela militar (exercendo diretamente o poder ou influenciando o dirigente, o momento é de convergência para o respeito ao estado democrático de direito. Concordo com o Jânio de Freitas, quando ele (do alto dos seus 90 anos de vida e 67 como articulista de jornais) diz que a hora do golpe passou, mas acrescento: momentaneamente. (por Dalton Rosado – continua neste post)

sexta-feira, 6 de maio de 2016

ANALISANDO AS OPÇÕES: IMPEACHMENT, RENÚNCIA, NOVAS "DIRETAS JÁ", ELEIÇÕES GERAIS... O QUE VEM POR AÍ?

Em cartaz nas locadoras: A Queda...
Dilma Rousseff tenta tornar sua descida da rampa um momento solene, mas é faca de dois gumes: tende a vir ao encontro da imagem que o povo já tem dela, de alguém que está descendo a ladeira há muitos e muitos meses, com sua popularidade caindo cada vez mais enquanto os índices econômicos despencam para o fundo do poço.

O simbolismo que ela escolheu, provavelmente sem noção de como impactará nas pessoas comuns, é perfeito: vai para baixo, para as profundezas, exatamente onde algumas religiões costumam situar o inferno, enquanto o paraíso estaria lá no alto. 

Ou seja, Dilma está fornecendo aos humoristas profissionais e aos brincalhões da internet a chamada piada pronta. E precisa tomar cuidado para não tropeçar na própria soberba e levar um tombo durante o trajeto. Seria o desfecho mais emblemático para a comédia de erros que ela protagonizou.

O Senado vai afastá-la do cargo por até 180 dias na sessão marcada para a próxima 4ª feira (11) e que deverá estender-se madrugada adentro. Depois, no 4º trimestre, haverá nova votação no Senado, que optará pela perda definitiva do mandato ou por sua recondução à Presidência.

Em termos imediatos, não há diferença nenhuma em Dilma sair por decisão dos senadores ou por vontade própria (renúncia). Quem assume é o vice Michel Temer, nas duas hipóteses.

No entanto, muitos consideramos Temer o presidente errado na hora errada. Independentemente de possíveis envolvimentos em ilegalidades, pois não há como prevermos o que resultará das investigações em curso, há o fato de que os brasileiros não o escolheram conscientemente para desempenhar tal função, muito menos num momento tão dramático como o atual.

Em termos formais é errado dizer que ele não teve voto nenhum, pois a escolha se deu entre chapas: os 54,5 milhões de brasileiros que votaram em Dilma para presidente, automaticamente votaram em Temer para vice-presidente. Era diferente até 1960, quando os eleitores votavam separadamente para presidente e para vice, com o risco de elegerem personagens visceralmente conflitantes.
...A Hora do Pesadelo 2...

Político que se movimenta com habilidade nos meandros do poder mas é zero à esquerda nas ruas, Temer dificilmente venceria qualquer eleição para prefeito ou governador, muito menos para presidente; só mesmo se pegasse carona na popularidade alheia, como o poste Dutra foi eleito graças a Getúlio Vargas e o poste Dilma graças a Lula.

Ademais, o estado de beligerância entre PT e PMDB/PSDB continuaria minando qualquer possibilidade de união nacional em torno de uma saída para a terrível crise econômica que nos fustiga. Ao invés de encararmos a política como um Fla-Flu de nossas paixões, temos de pensar, em primeiro lugar, nas aflições dos ainda empregados e na penúria dos mais de 11 milhões de desempregados.

Neste sentido, só um(a) presidente saído(a) das urnas conseguirá unir o País ou, pelo menos, fazer com que o lado frustrado hesite (porque isto pegaria muito mal) sabotar explicitamente, desde o primeiro momento, o lado vencedor.

Já tramita no Senado uma Proposta de Emenda à Constituição antecipando a próxima eleição presidencial para outubro de 2016, de forma a coincidir com o pleito municipal. Segundo O Globo, Dilma cogitou apresentar também sua PEC, mas depois decidiu apoiar a que já existe.

Ocorre que o tempo é muito curto para conseguir-se o apoio de três quintos dos senadores e outro tanto dos deputados. Só mesmo uma mobilização nacional maior ainda que as diretas já poderia, talvez, produzir tal resultado.

Mas, o fato de que Dilma e o PT entrariam nesta campanha só pela metade pois continuariam com o outro olho na batalha derradeira acerca do mandato dela, a travar-se no Senadodificultaria ainda mais a conquista de apoios fora do universo da esquerda, que nem de longe tem hoje capacidade para colocar tanta gente nas ruas quanto seria necessária.
...e Apocalypse Now.

Ademais, quem quer a nova eleição mas não quer Dilma, ficaria com uma pulga atrás da orelha: e se a PEC não passar e o Senado a reconduzir ao poder? Vale a pena contribuir para o fortalecimento político do PT e correr o risco de tal mobilização acabar ajudando a salvar o mandato da queimadíssima Dilma?

Então, não vejo chance nenhuma de a PEC decolar sem a renúncia, e AGORA, de Dilma. Quanto mais ela refugar, menores serão as possibilidades de conseguirmos uma proeza que, mesmo sem tal empecilho, já é das mais difíceis, quase impossível.

Quanto à proposta de eleições gerais, fascina uma parte da esquerda e foi vocalizada nesta 6ª feira (6) pelo filósofo Vladimir Safatle, com sua habitual eloquência:
"... o Congresso representa apenas suas próprias distorções e sua forma de controlar o jogo da representação a fim de se reproduzir como casta. O resultado não poderia ser outro: um Congresso composto por 80% de homens brancos, quase 50% de milionários, mais de 30% de ruralistas. Isto não representa Brasil algum.
Contra esse cenário de horror que se avizinha, a única resposta possível é fazer eleições gerais já. Que os embates políticos voltem à rua, que é seu lugar natural".
Em tese, não há como discordarmos. Mas, numa situação tão crítica como a atual, poderemos suportar mais sete meses e tanto de paralisia governamental, com o universo político voltado obsessivamente para a disputa eleitoral, depois para a remontagem dos governos, enquanto a recessão atingiria os píncaros e a violência dos desesperados eclodiria das ruas?

Para mim, isso parece mais um cenário apocalíptico. Temos uma espada de Dâmocles pendente sobre nossas cabeças e é hora de resolvermos o problema da Presidência da República, já que a maioria dos brasileiros está contra Dilma e a Câmara Federal aprovou seu impeachment.

Quando sairmos do estado de emergência atual, poderemos começar a acertar as outras contas pendentes. São muitas e serão também muitos os nós a desatarmos. Mas, cada coisa a seu tempo.
.
P.S. Na véspera do dia D surgiu a notícia de que Lula teria dissuadido Dilma de descer a rampa, argumentando que seria um mau simbolismo.  Exatamente como eu sustento nos três primeiros parágrafos.

terça-feira, 19 de abril de 2016

AS LÁGRIMAS DOS TRABALHADORES ME COMOVEM. A AUTO-VITIMIZAÇÃO DOS PODEROSOS, NÃO!

Então, ficamos assim: Dilma Rousseff desistiu de convencer os cidadãos conscientes e politizados de que mereça continuar presidente da República, passando a direcionar seu discurso para os indivíduos despolitizados e suscetíveis de se deixarem iludir pela demagogia rasteira. 

Mas, claro, a penúria para a qual deu enorme contribuição é um considerável empecilho. Papo furado não bota pão na mesa. E quando falta pão, poucos se satisfazem com embromação.

Ela protesta inocência, mas sua culpa é imensa: assumiu a Presidência quando os cenários econômicos mundiais começavam a se tornar desfavoráveis para o Brasil e quis porque quis exumar o vetusto nacional-desenvolvimentismo da década de 1950, tentando fazer a economia deslanchar graças a  perdulários estímulos estatais. 

Como a História só se repete em farsa, o resultado foi péssimo: retração dos investimentos, perda de competitividade, evolução incipiente (e depois negativa) do PIB, tendência inflacionária só mitigada pela queda de poder aquisitivo dos consumidores. 

Resumindo: quebrou a cara  e engatilhou uma forte recessão para o quadriênio 2015/18. 

Aí bateu o desespero e ela mandou seus valores esquerdistas às urtigas, adotando a racionália do inimigo de classe.

Primeiramente fez campanha à reeleição escondendo do povo a situação crítica da economia e a decisão já tomada de dar uma guinada de 180º à direita. Pelo contrário, acusou Marina Silva e Aécio Neves de pretenderem fazer o que ela já havia resolvido fazer. Ou seja, o compromisso dos revolucionários com a verdade virou pó de traque. E os trabalhadores que seu partido deveria representar foram tratados como otários.

Foi o estelionato eleitoral mais grotesco da política brasileira em todos os tempos, pior ainda do que quando a campanha de Eurico Gaspar Dutra atribuiu em 1945 a Eduardo Gomes uma afirmação que este jamais fizera, a de que não necessitaria dos "votos de marmiteiros [operários]". 

Tão logo foi empossada, Dilma jogou as bandeiras econômicas do PT no lixo e aderiu ao neoliberalismo de Milton Friedman, Ronald Reagan, Margaret Thatcher e Augusto Pinochet tendo, ainda por cima, a implementá-lo um economista inexpressivo que o presidente do Bradesco, Luís Carlos Trabuco, indicou, depois de declinar o convite para pilotar ele próprio a barca furada.

Desde o primeiro momento alertei que jamais daria certo, pois um partido originário na esquerda não consegue governar com uma política econômica escrachadamente de direita. 

Foi o que João Goulart aprendeu da maneira mais difícil: ele pretendia ir transformando o Brasil com as reformas de base (vide aqui), enquanto, em termos imediatos, mantinha diretrizes econômicas convencionais, aplicadas por ministros moderados como Carvalho Pinto e San Tiago Dantas. Mas, o fogo amigo de Brizola e do PCB inviabilizou tal intenção e afugentou tais ministros, colocando o governo na rota da radicalização (que era tudo de que os golpistas precisavam para o sucesso da quartelada há tanto tramada...).

A História se repetiu: Joaquim Levy não conseguiu socar o ajuste fiscal goela dos brasileiros adentro e a situação econômica brasileira não cessa de piorar ao longo deste segundo governo de Dilma.

É difícil quantificar algo assim, mas o ziguezague de Dilma na condução da economia seguramente aumentou em milhões o número de desempregados, que seria considerável de qualquer forma, mas não tanto (uma pista: na comparação do quarto trimestre de 2014 com idêntico período de 2015, aumentou em 2,6 milhões o número de pessoas procurando emprego sem encontrar).

Por que considero Dilma pessoalmente responsável pelo desastre econômico?

Primeiramente, pela arrogância & ignorância com que tentou fazer a História retroceder mais de meio século, como se a globalização dos mercados não houvesse mudado a face da economia capitalista nesse meio tempo. 

O delírio retrô de Dilma acabou resultando num formidável tiro pela culatra: o símbolo maior do nacionalismo dos anos 50, a Petrobrás, foi praticamente destruído sob sua tutela, como presidente do Conselho de Administração (2003/2010), ministra das Minas e Energia (2003/2005), chefe da Casa Civil (2005/2010) e presidente da República (desde 2011).

E, após suas diretrizes econômicas do primeiro mandato terem sido pulverizadas pela realidade, por ter tentado conciliar duas grandezas incompatíveis entre si. Deveria governar como petista no segundo mandato ou afastar-se do PT e buscar o apoio de tucanos e peemedebistas para seu ajuste fiscal. Não fez uma coisa nem outra, acabando por nos conduzir ao pior dos mundos possíveis.

O estelionato eleitoral que a reelegeu e o desastre econômico que protagonizou a fazem totalmente merecedora do impeachment ou cassação do seu mandato, pois o País não pode continuar paralisado como está há 15 meses e meio. Blablablá legalista não altera o fato de que nações não se suicidam, nas circunstâncias extremas fazem o necessário para sobreviver (justificativas legais sempre são encontráveis).

E, o principal: o povo sofredor não merece tamanho aumento dos seus tormentos, nem tem como aguentar isso por muito tempo mais.  

Dilma jura inocência pessoal, como se fosse uma autista que ignorava todas as ilegalidades que ocorriam sob seu nariz e como se isto importasse alguma coisa em contraste com a devastação que causou. E os milhões de desempregados, eram culpados de alguma coisa? 

Como revolucionário, estarei sempre ao lado dos coitadezas contra os poderosos. Tenho dedicado toda minha vida consciente à causa dos explorados, não à defesa de governantes omissos e incompetentes. Mantenho minha opção.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2015

VICTOR LULENSTEIN OPTOU POR DESTRUIR SUA CRIATURA IMPERFEITA

A facção dilmista tudo fez para que o PT salvasse Eduardo Cunha no Conselho de Ética, pois este era o preço a ser pago para que o dito cujo não tocasse adiante o impeachment presidencial.

A facção lulista tudo fez para que o PT detonasse Cunha, com a consequência óbvia.

Qual a lógica?

Quanto maior for a duração da agonia de Dilma, mais se acentuará a desmoralização do partido, pulverizando as chances de Lula na eleição de 2018.

Se ela cair depressa haverá uma mexida no quadro e, caso o novo governante fracasse, é bem possível que Lula volte daqui a três anos nos braços do povo, erigido em salvador da Pátria.

Então, como na novela célebre de Mary Shelley e no filme ora em cartaz, Victor Frankenstein (ou seria Lulenstein?) optou por destruir sua criatura imperfeita.

A SEQUELA DO ESTELIONATO ELEITORAL: 
O BRASIL ESTÁ INGOVERNÁVEL HÁ 11 MESES.

Não sendo jurista, prefiro me manifestar sempre em consonância com o espírito de Justiça, que Platão dizia ser inerente ao ser humano.

Desde que Dilma Rousseff foi reeleita por pequena margem –38,16% dos eleitores votaram nela, 35,74% em Aécio Neves e 26,10% (abstenções, brancos e nulos) não se animaram a votar em ninguém–, considero sua vitória ilegítima.

O motivo, claro, é o clamoroso estelionato eleitoral. Quantos dos seus 54.501.117 eleitores a teriam escolhido se soubessem que, assim agindo, não estariam escapando do aperto de cinto e das vacas magras? 

A propaganda enganosa petista foi muito eficiente em convencer os incautos de que os adversários abririam as portas do inferno enquanto Dilma botaria pra correr os demônios da ganância. 

Mas, quando ela empossou um neoliberal como ministro da Fazenda, autorizando-o a socar goela dos brasileiros adentro um ajuste recessivo, os perfumes caros de Dilma não conseguiram mais encobrir o odor de enxofre: nem o mais crédulo dos otários é capaz de acreditar que ela só decidiu dar tal guinada de 180º após o 5 de outubro, dia do 2º turno. 

É repulsivo que, em 2014, se tenha cometido tamanha vigarice com o eleitorado, como se o relógio da História houvesse voltado a 1945, quando uma frase deturpada do brigadeiro Eduardo Gomes (ele jamais afirmou que não precisava do voto dos marmiteiros) foi espalhada pelo País inteiro, tendo considerável peso na vitória do general Eurico Gaspar Dutra.

Ao longo dos 11 meses deste desastroso 2º mandato de Dilma foram intensas as pressões da facção lulista e de quase toda a esquerda, no sentido de que ela exonerasse Joaquim Levy e passasse a governar de acordo com as bandeiras históricas do partido; mas encontraram sempre ouvidos moucos. Quem faz a cabeça dela é Luís Carlos Trabuco, o presidente do Bradesco, que nos momentos cruciais aconselha Dilma a continuar arrastando o Brasil para o inferno, de braços dados com o trapalhão Levy.

Então, como ela teimosamente resiste a cumprir as promessas de campanha e isto já gerou a pior recessão brasileira em décadas, com tendência a agravar-se cada vez mais, o processo de impeachment é muito bem-vindo: ou vai fazer com que seja um presidente de direita a governar segundo o ideário da direita, deixando de confundir os brasileiros e de destruir a esquerda, ou forçará Dilma a uma correção de rumo indispensável para salvar seu mandato.

Quanto ao impeachment ter ou não embasamento legal, é paradoxal que o hiper-estelionato eleitoral por ela cometido não constitua motivo suficiente para seu impedimento, mas um mini-estelionato talvez preencha os requisitos constitucionais: trata-se das pedaladas fiscais, que também serviram para iludir o eleitorado, pois a maquilagem das contas públicas impediu que seu descontrole servisse de munição de campanha para os adversários.

Mas, isto é uma discussão para juristas, e a experiência histórica nos ensina que impeachment é uma decisão eminentemente política tanto que a justificativa alegada para o de Fernando Collor acabou não subsistindo no Supremo Tribunal Federal, que, contudo, só a rechaçou quando a perda do mandato já era fato consumado e superado.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

DITADORES NÃO MERECEM LÁGRIMAS

No dia 24 de agosto de 1954, aos 72 anos de idade, o presidente Getúlio Dornelles Vargas se matou com um tiro no coração, após uma tensa reunião com seu ministério, quando teve de assumir o compromisso de licenciar-se do cargo.

Suficientemente perspicaz para saber que era apenas uma fórmula para dourar a pílula de seu definitivo afastamento, preferiu uma saída digna. Como os hermanos diriam, ao menos cojones ele tinha...

Sendo os mandatários bananas uma expressiva maioria nestes tristes trópicos, não há como deixarmos de admirar a coragem de Vargas e Allende, embora o segundo tivesse muitos outros méritos e o camaleão gaúcho, quase que apenas o de ter sacrificado a vida para assestar um último golpe nos seus inimigos, a famosa carta-testamento que acabou abortando os planos da UDN para assenhorar-se do poder sem eleição nenhuma.

Na maré autoritária subsequente à 1ª guerra mundial e à aguda crise econômica que varreu o mundo na década de 1920, Vargas topou encabeçar um golpe de estado e tornar-se ditador do Brasil a partir de 1930. Exímio equilibrista, manteve-se no poder durante 15 anos, apoiando-se na esquerda contra a direita e vice-versa, ao sabor das circunstâncias.    

Como um Napoleão Bonaparte em miniatura, ficava no centro e manobrava com as extremas, não hesitando em afundá-las para manter-se à tona. Foi o que fez com os integralistas de Plínio Salgado, apesar das evidentes afinidades ideológicas que tinha com eles.

Suas mais sinceras simpatias, assim como as dos principais militares golpistas de 1930, iam para o fascismo de Mussolini, do qual Vargas copiou descaradamente a legislação trabalhista. E, na repressão aos comunistas depois da fracassada Intentona, deu carta branca ao carrasco Filinto faltou-alguém-em-Nuremberg Muller para desencadear um verdadeiro festival de horrores, trailer do que os militares nos imporiam nos anos de chumbo.

Também como equilibrista, ele optou por fazer o contrário do que gostaria, alinhando o Brasil com os Estados Unidos na 2ª guerra mundial; curvou-se à evidência do fato de que o nosso país era um quintal dos EUA. E usou o limão para fazer limonada, arrancando algumas concessões do grande irmão do Norte e obtendo algumas vantagens econômicas.

Mesmo assim, terminado o conflito, os estadunidenses moveram os fios nos bastidores para que sua ditadura fosse deposta por um espécime raro em nossa fauna: um golpe militar redemocratizador.

Continuou influente, fazendo eleger o poste Eurico Gaspar Dutra para tomar conta da cadeira presidencial e retornando depois ao Palácio do Catete pelo voto popular.

A mágoa com os EUA foi determinante na posição nacionalista-estatista que assumiu desde a campanha presidencial, contando com o apoio aberrante do PCB (algo assim como nossa esquerda apoiar o Médici, caso ele tivesse sido apeado do poder e depois pedisse votos colocando uma pele verde-amarela sobre os pelos escuros de lobo...).

Acabou sendo levado à beira do abismo como consequência de uma lambança do aloprado Gregório Fortunato e do famoso mar de lama no qual seu governo, segundo os opositores, teria se transformado.

O verso do poeta-compositor Peter Sinfield cai como uma luva para ele: "confusão será meu epitáfio".

Teve muitas vezes como aliados aqueles que o destruiriam.

Não passou de um conservador e direitista, cujo fim, paradoxalmente, foi precipitado pelas tramoias dos seus iguais.

Pilotou uma ditadura durante 15 anos e acabou recebendo o golpe fatal das mãos de aspirantes a ditadores.

Massacrou a esquerda e foi velado pela esquerda. 

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

DESCONSTRUÇÃO DE MARINA OU DESCONSTRUÇÃO DA ESPERANÇA NA POLÍTICA?

Afinal, a Dilma se referiu a este Collor...
É simplesmente deplorável que os petistas, começando por Dilma Rousseff, estejam desqualificando Marina Silva como o "Collor de saias". Nem mesmo a iminência da derrota justifica esta tentativa desesperada de enfiarem uma falácia, a marteladas, na cabeça dos cidadãos comuns.

Para começo de conversa, qual Collor? O que era o inimigo nº 1 do PT em 1989 ou aquele que é o aliado nº 1 do PT em 2014? O que trombeteou o adultério e filha ilegítima do Lula, ou o que o Lula depois perdoou em nome da politicalha? O que antigamente era de direita e incomodava o PT, ou o que hoje é de direita e o PT não dá a mínima para isto?

Depois, no que, afinal, Marina se assemelha ao Collor (e também ao Jânio Quadros)? Apenas em não dispor hoje de uma razoável bancada de sustentação para o seu provável governo. Mas ela se diferencia, entre outros pontos, por ter sempre pertencido ao campo da esquerda e defendido um projeto coletivo, enquanto os outros dois só podem ser considerados aventureiros de direita com projetos meramente pessoais.

Se fôssemos levar em conta uma única semelhança, poderíamos também dizer que Dilma é a nova Eurico Gaspar Dutra ou Celso Pitta, dois postes que não seriam sequer eleitos síndicos de seus prédios, mas chegaram a presidente e a prefeito tão somente porque Getúlio Vargas e Paulo Maluf assim decidiram. Ou compará-la a Fernando Haddad, o outro sapo que o beijo do Lula transformou em príncipe.
...ou a este aqui?

Mas, é extremamente nefasto reduzirmos a campanha sucessória a uma batalha de tortas de lama ou a um torneio de chutes na virilha. Pois, para os militantes de esquerda, o que importa não é a vitória eleitoral a qualquer preço, mas sim o engajamento das massas no processo de transformação da sociedade.

Tal regressão aos métodos nazistas e stalinistas de difamação grosseira dos adversários produz um estrago muito maior do que o ganho objetivado pelos aprendizes de feiticeiro: faz os trabalhadores descrerem da política, passando a encará-la, cada vez mais, como um ninho de ratos ou uma pocilga fedorenta. Existimos para despertar neles a consciência do que são e do que poderiam ser, não para embotá-la ao sabor de conveniências eleitoreiras.

Para a direita, ótimo! Ela quer mesmo é que os trabalhadores continuem céticos e desorganizados --incapazes, portanto, de assumirem seu papel de sujeitos da História (segundo Marx).

Para nós, péssimo! Se os explorados perderem a fé na possibilidade de uma reviravolta, continuaremos conquistando governos e fingindo governar, mas jamais obteremos o poder que verdadeiramente almejamos, qual seja o de transformarmos radicalmente a sociedade, livrando-a da ganância capitalista. Para isto precisamos de seguidores mobilizados e dispostos à luta, não de eleitores que pressionam teclas a cada dois anos.

sábado, 3 de novembro de 2012

CHUMBO GROSSO CONTRA LULA

Na análise que fiz sobre o 2º turno da eleição paulistana (ver aqui), pensei em incluir um alerta ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, recomendando que reforçasse sua segurança.

A vitória de Fernando Haddad, aposta temerária de Lula que deu certo, praticamente afastou qualquer possibilidade de não ser ele o candidato do PT à eleição presidencial de 2014, com enorme chance de conquistar o terceiro mandato.

Ora, há direitistas dispostos a tudo para quebrarem o círculo virtuoso do lulismo.

As analogias históricas não podem ser descartadas, pois as repetições das tragédias ocorrem amiúde --e nem sempre como farsas.

Em 1945, as forças retrógradas pensaram que bastaria uma pequena ajuda estadunidense para se livrarem de Getúlio Vargas, a pretexto da supressão de uma ditadura semelhante às derrotadas nos campos de batalha da II Guerra Mundial.

O objetivo imediato foi conseguido, com o pressionado Vargas abdicando do poder e de concorrer à eleição presidencial imediata. Contudo, ele apoiou o poste Eurico Gaspar Dutra, fazendo com que fosse eleito; depois, sucedeu-o pela via democrática.

Desde setembro a "veja" tudo faz para
que seja aceita a barganha a delação
Os reaças contra-atacaram com a articulação (capitaneada pela UDN) para forçar o seu impeachment, por corrupção, em 1954.

Se tal cartada também tivesse falhado, qual seria o passo seguinte? Sabe-se lá. O certo é que quem vai tão longe, não volta atrás; joga cada vez mais pesado.

O lulismo já está no terceiro mandato presidencial e a conquista do quarto parece ser favas contadas. O escândalo do  mensalão  não produziu o mesmo resultado do  mar de lama, assim como o Cansei! não conseguira bisar a Marcha da Família, com Deus, pela Liberdade.

Então, minha sensibilidade política, no próprio domingo da eleição, era de que alguma ação mais contundente seria tentada pela direita, já que nas urnas ficou bem difícil barrar Lula. Mas, como muita gente confunde  reflexão  com  torcida, acabei deixando pra lá. Estou cansado de ser mal interpretado.

A notícia d'O Estado de S. Paulo, de que o condenado Marcos Valério Fernandes de Souza oferece-se para incriminar Lula em troca de uma vaguinha no programa federal de proteção à testemunha (o que o livraria do xilindró), mostra uma alternativa à  opção Kennedy, com a vantagem de não deixar para trás  perguntas que não querem calar.

Seria baterem de novo na tecla  mar de lama, só que agora com pata de elefante, envolvendo Lula inclusive na morte de um ex-prefeito de Santo André, o arquivo queimado Celso Daniel.

Vamos ver o que decidirão o procurador-geral da República e o Supremo Tribunal Federal. Pode-se depreender que a proposta indecente do traira tendia a não ser aceita, daí terem-na vazado para a imprensa, visando constranger Roberto Gurgel e o STF. Já há ministros do Supremo admitindo que Valério seja protegido.

O certo é que Lula tem um caminho pedregoso pela frente, até a eleição de 2014. Se ainda usasse barbas, deveria botá-las de molho...
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