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terça-feira, 27 de setembro de 2022

DOS PRESSUPOSTOS DE UM GOLPE VITORIOSO, NENHUM ESTÁ PRESENTE – 1

dalton rosado
BRASIL, GRANDEZA E PEQUENEZ
Deodoro da Fonseca dixit
Definitivamente, somos grandes; mas ainda temos o complexo de vira-latas do qual nos falava Nelson Rodrigues.

É claro que já seríamos naturalmente grandes:
— pela nossa magnitude territorial continental;
— por sermos grandes detentores e exportadores de commodities (minérios e alimentos); e
— pela nossa população (temos a metade dos habitantes da América do Sul e Central).

É por isto que em 1964, no auge da guerra fria, os Estados Unidos enviaram à costa brasileira uma frota bélica para ficar de prontidão; era uma força intervencionista de fazer inveja ao plutocrata russo (o qual, aliás, agora está parecendo ser apenas um leão velho e desdentado a miar...).

Os marines estadunidenses estavam estacionados no mar continental, nas proximidades do Espírito Santo, prontos para apoiar o golpe que os militares brasileiros incubavam desde a década anterior.

Baseados em análises equivocadas dos seus informantes diplomáticos e na própria fanfarronice do Luiz Carlos Prestes, os EUA temiam que nosso país se tornasse uma nova Cuba. Depois constataram que bastariam um cabo e um soldado para derrubar Jango, como diria o bolsominion zero à esquerda!

O Brasil tem uma tradição militarista na política, sendo tal característica um traço cultural da nossa pequenez bananeira. 

Somos o único país do mundo que derrubou a monarquia pela direita, com militares apoiados pela elite agrária e política (não é por menos que fomos dos últimos a abolir a escravidão humana direta feudal que substituiu a escravidão indireta do trabalho abstrato capitalista).

A conservadora velha República do
café com leite (já que São Paulo e Minas Gerais se revezavam no poder político) era tutelada pelos militares, até que, em 1930, após a quebra do pacto e a eleição de Júlio Prestes, o tenentismo tomou o poder pela via armada e entronizou Getúlio Vargas, o candidato derrotado, na Presidência da República.

O getulismo tenentista, que logo demonstrou ser simpatizante do fascismo italiano e de suas leis trabalhistas, durou 15 anos, até que os ventos da 2ª Guerra Mundial e a relutância inicial do ditador brasileiro em aderir aos aliados fizeram com que os Estados Unidos apoiassem a deposição de Getúlio no pós-guerra e promovessem uma eleição com dois militares, de modo que tudo ficasse em casa...

Terminada a guerra, Getúlio foi deposto à brasileira, ou seja, apoiou eleitoralmente quem o depusera do poder, ajudando a eleger o general Eurico Gaspar Dutra.

Como a memória populista de Vargas ainda estivesse presente como pai dos pobres, veio o processo eleitoral e a sua vitória em 1950, seguida de nova tentativa de golpe em 1954, que ele abortou suicidando-se com um tiro no peito. 

Dez anos após, com o trabalhista getulista João Goulart no poder, as condições conjunturais da guerra fria propiciaram um novo golpe militar que durou 21 anos.
A história é incontestável: temos uma tradição militarista de poder, sendo isto o que nos assemelha às repúblicas bananeiras latino-americanas como aspecto da nossa pequenez político-institucional-democrática, e em contraste com a nossa grandeza natural (material e cultural).

Dentre nossos presidentes, dez deles foram membros das Forças Armadas, mas apenas três chegaram ao poder pela via das urnas e não das armas: Hermes da Fonseca, em 1910; Eurico Gaspar Dutra, em 1946; e Jair Bolsonaro, em 2018.

Contudo, apesar da nossa tradição de tutela militar (exercendo diretamente o poder ou influenciando o dirigente, o momento é de convergência para o respeito ao estado democrático de direito. Concordo com o Jânio de Freitas, quando ele (do alto dos seus 90 anos de vida e 67 como articulista de jornais) diz que a hora do golpe passou, mas acrescento: momentaneamente. (por Dalton Rosado – continua neste post)

sábado, 23 de novembro de 2019

AVESSOS À MODERNIDADE, BOLSONARISTAS QUEREM A VOLTA AO BRASIL DE ANTES DA PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA...

demétrio magnoli
A ALMA INTEIRA NUM TUÍTE
Abraham Weintraub, o moleque malcriado da sexta série que ocupa a pasta da Educação, chamou a mãe de uma internauta de “égua sarnenta e desdentada”. Aqui e ali pedem sua demissão, como se fosse possível, por essa via, lavar com sabão a boca do governo Bolsonaro. 

Esquece-se, no processo, a fonte da controvérsia e do insulto. O tuíte inicial do ministro, uma faísca de nonsense antirrepublicano, ilumina a alma inteira do novo partido de Bolsonaro.

A peça acusa o “traidor” Deodoro da Fonseca de, pela proclamação da República, entregar o Brasil “às famílias oligarcas que, além do poderio econômico, queriam a supremacia política”. Junto, a imagem de Deodoro ao lado da montagem fotográfica de um Lula na farda, na barba e no bigode do marechal.

Na superfície, é guerra cultural barata: uma operação de descontextualização histórica destinada a atacar a elite política (“famílias oligarcas”), associando-a ao lulismo, para promover a ideia de um poder superior capaz de personificar a unidade da nação (Bolsonaro).

No fundo, é a exposição mais completa que um seguidor inculto de Olavo de Carvalho conseguiu produzir do ralo mingau filosófico do mestre. Trata-se, portanto, de uma imagem radiográfica das ideias que circulam no núcleo do bolsonarismo.
Lula + Deodoro = besteirol

O contexto evita enganos. Lula, um dia, elogiou o “planejamento de longo prazo” do governo Geisel; Bolsonaro, todo dia, elogia a tortura do regime militar. Nenhum deles faz da ditadura militar sua referência política. O primeiro identifica-se com o nacionalismo estatista; o segundo exalta a violência e a aversão à democracia. 

O tuíte de Weintraub diz tudo. O inimigo ideológico de Bolsonaro é a República —não, precisamente, a república brasileira de 1889, mas o próprio conceito de República.

As repúblicas podem ser democráticas, oligárquicas, caudilhescas, autoritárias ou totalitárias. Mas no cerne do conceito está a ideia de soberania popular. A semente remota, cravada na fronteira entre história e mito, encontra-se no estabelecimento da República Romana (510 a.C.). As repúblicas contemporâneas nasceram nos EUA (1776) e na França (1792). 

A lei geral, a igualdade perante a lei —eis o fundamento filosófico da República. É contra isso que se insurge a filosofia do bruxo da Virgínia.

No rastro da Revolução Francesa, pensadores ultraconservadores deploraram o caráter “antinatural” da insurreição (Edmund Burke, 1791), a “abolição de todas as distinções e funções hereditárias” (Joseph De Maistre, 1796), a “degradação moral” derivada da “marcha combinada do ateísmo, do materialismo e do republicanismo” (Louis de Bonald, 1796).

A nostalgia das tradições antigas, das hierarquias petrificadas, da família patriarcal, de um mundo regido pela espada e pela cruz emergiu da turbulência revolucionária. O bruxo da Virgínia goteja a água dessa poça nas línguas secas de seus alunos ignorantes. 

Um artigo de Roberto Romano [acesse-o aqui] ajuda a entender as origens medievais da extrema direita. Nos delírios do núcleo bolsonarista, trata-se de restaurar uma ordem perdida, assentada numa escala de privilégios naturais, protegida pela palavra dos sacerdotes (bispos) e pelos exércitos privados dos nobres (milícias).

O problema de Weintraub não é Deodoro, mas a ruptura política que inaugurou a modernidade. A República, cidade sem Deus, conduz a Lula —eis o que o ministro da falta de educação aprendeu com o mestre charlatão.

Lá atrás, o charlatão lançou um alerta sobre os generais de Bolsonaro, mirando a cartilha de Comte e Constant: “o problema é que o positivismo abre as portas para o comunismo”. Hoje, desse lado, ele não tem motivos para se preocupar. Nos 130 anos da República, os militares da Esplanada seguem fiéis a um presidente antirrepublicano pois esqueceram o que aprenderam e queimaram o que adoraram. (por Demétrio Magnoli)
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