sábado, 21 de outubro de 2017

AQUELA NOITE EM 67 COMPLETA 50 ANOS NESTE SÁBADO: SAIBA E VEJA COMO FOI O 3º FESTIVAL DE MPB DA RECORD.

Este sábado (21) marca o cinquentenário da finalíssima de um dos grandes festivais de música brasileira da década de 1967, não exatamente o mais importante de todos, mas aquele que as novas gerações podem conhecer melhor, graças ao bom documentário Uma noite em 67, que pode ser assistido, quase completo, na janelinha abaixo.

Não que falte qualquer trecho do filme de Renato Terra e Ricardo Calil; os 85 minutos e 5 segundos estão todos aí. Mas, tanto o filme quanto uma gravação do dito festival que a TV Record restaurou e exibiu no final da década passada têm uma lacuna imperdoável: não aparece uma das 12 finalistas, "De como um homem perdeu seu cavalo e continuou andando" (também chamada de "Ventania"), do Geraldo Vandré. 

Isto também serve para os jovens perceberem como eram nossos anos de chumbo. Nunca tínhamos certeza de que o filme visto num dia não sumiria de todas as salas, cinematecas inclusas, no dia seguinte; ou que certas músicas subitamente deixassem de ser encontradas nas lojas e passassem a ser disputadas a peso de ouro nos sebos, cujos proprietários as retiravam das prateleiras e tomavam o cuidado de não alardearem sua posse, só oferecendo-as os clientes mais confiáveis.  
O documentário mostra todas as finalistas do Festival da Record de 67...

3º Festival da Música Popular Brasileira se iniciou exatamente no mês em que os estudantes desafiavam os dispositivos policiais e voltavam às ruas, nas famosas  setembradas  de 1967.

A partir daí o movimento de massas iria se intensificar e radicalizar até a promulgação do AI-5.

O certame da Record foi marcado por um dos episódios mais deprimentes de toda a história dos festivais: o público pespegou monumental vaia numa composição que abordava com muita propriedade o fenômeno futebol.

Sérgio Ricardo, compositor idealista e talentoso, autor de clássicos como "Zelão" e "Esse mundo é meu", além de haver dado magnífica contribuição musical para duas obras-primas de Glauber Rocha (Deus e o diabo na terra do sol e Terra em transe), cansou de tentar interpretar sua "Beto bom de bola". Que não era nem de longe alienada, tratando-se, isto sim, de uma veemente denúncia da engrenagem esportiva que triturava ingênuos como Garrincha.
...menos uma, a do Vandré, cujo sumiço foi pra lá de suspeito!
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Afinal, o artista explodiu: "Vocês são uns animais!". E, arrebentando seu violão, atirou-o contra os espectadores. [A manchete jocosa de um jornal sensacionalista foi "Violada no palco"...]

O festival da Record de 1967 trouxe à tona, ainda, uma aguda cisão no front da música popular:
  • de um lado os defensores dos ritmos genuinamente brasileiros e das canções engajadas às lutas sociais; e
  • do outro, os adeptos do chamado som universal, da liberdade temática e das experiências formais.
Em teoria, a posição dos tropicalistas era inatacável: as raízes culturais só se mantêm vivas e puras em comunidades fechadas, não no Brasil de 1967, com sua economia integrada ao bloco ocidental e as informações chegando de todos os lados.
Músicos protestam contra as guitarras elétricas dos colegas

Na prática, entretanto, a contestação ao autoritarismo das lideranças políticas foi, para muitos, um pretexto conveniente para delas se afastarem, servindo-lhes, portanto, como justificativa para se omitirem durante um período crítico da vida brasileira.


A derrota, sabemos hoje, custou-nos seis anos de trevas absolutas. Mas, seria um exagero imputá-la apenas aos jovens que se desgarraram do rebanho ao verem o lobo se aproximando...

O próprio tropicalismo foi, por sinal, contraditório, ora pregando a revolta jovem ("É proibido proibir") e fazendo a apologia da guerrilha ("Soy loco por ti, América", "Questão de Ordem"), ora se embasbacando com as vitrines e outros signos da sociedade de consumo.

Em tempos normais, seria uma mistura de Semana de 1922 com psicodelismo à Beatles.

Em meio ao transe brasileiro, assumiu posturas às vezes mais radicais que a daqueles (os puros) que faziam passeatas contra as guitarras elétricas.

E, no final, acabaram todos vítimas dos mesmos algozes, frequentando as mesmas prisões e amargando o mesmo exílio.
Caetano Veloso foi quem trouxe a canção mais inovadora
A canção-manifesto do tropicalismo foi "Alegria, alegria", de Caetano, que ele interpretou acompanhado pelos Beat Boys, conjunto de iê-iê-iê cujos integrantes ostentavam enormes e desgrenhadas cabeleiras.

[Um deles era o guitarrista e cantor Tony Osanah, que parecia não saber exatamente em qual América se encontravam suas raíces, daí seguir pulando de galho em galho...]

Flagra o estado de perplexidade resultante do bombardeio de informações, contrapondo-lhe o descompromisso de caminhar "contra o vento, sem lenço, sem documento". Ficou em 4º lugar.

"Domingo no Parque" é uma música descritiva, propondo imagens cinematográficas e nada mais. Gil, aliás, já fizera coisa semelhante em "Água de Meninos". O que ela teve de tropicalista foram as guitarras elétricas dos Mutantes.

Numa total inversão de valores, o júri atribuiu-lhe a 2ª colocação, à frente da incomparavelmente superior "Alegria, alegria".

A vitória coube a "Ponteio", de Edu Lobo e Capinam, um dos temas da trilha musical do filme A Vida Provisória, de Maurício Gomes Leite.
"Água de Meninos": quase um rascunho da "Domingo no Parque".
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Metafórica (a viola a cujo ponteio os versos aludem é a metralhadora guerrilheira), correta, com ótimo arranjo e as presenças simpáticas de Edu Lobo e Marília Medalha, foi a solução encontrada para não se premiar a sensação tropicalista; em termos criativos, não avançou um milímetro em relação ao que já se fazia.

Em 3º lugar, Chico Buarque com "Roda Viva", composta para a peça homônima (aquela cuja encenação foi vandalizada por uma horda do CCC) e defendida pelo autor com o MPB-4.

No 5º, a xaroposa "Maria, carnaval e cinzas", de Luís Carlos Paraná, por Roberto Carlos e O Grupo.

Como melhor letra, prêmio merecidíssimo para "A Estrada e o Violeiro", do precocemente falecido Sidney Muller.
Que letrista superlativo perdemos com a morte precoce de Sidney Muller!

Finalmente, uma última palavrinha sobre o cadê a música que estava aqui? O gato comeu ou o fósforo queimou? 

É realmente muito estranho que este seja o festival do qual se conservaram mais e melhores gravações, com a única exceção de "Ventania", de Geraldo Vandré, cujo sumiço pode ter sido imposição dos militares, mas também uma mera pirraça dos mandachuvas da TV Record (vide aqui).

Assim como é estranho somente eu haver percebido a omissão e escrito sobre ela. Parece que os críticos musicais se tornaram politicamente corretos desde criancinhas, não se incomodando com o boicote de ontem e de hoje a um grande artista que o autoritarismo destruiu, mesmo sem o matar.
Este é o vídeo salvo do incêndio que a TV Record restaurou e exibiu

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

ACUSADOR DE BATTISTI NA MÍDIA FINGE SER SUA VÍTIMA, MAS JÁ ADMITIU QUE ELE NÃO PARTICIPOU DO ATENTADO EM QUESTÃO.

Para os leitores terem uma ideia de como opera a indústria cultural na satanização de Cesare Battisti e de quaisquer cidadãos que se tenham tornados símbolos da luta contra a exploração do homem pelo homem, um caso exemplar é o de Alberto Torregiani, que parece ser guardado num ataúde de vampiro e dele retirado só quando é hora de prestar serviços propagandísticos aos inquisidores do Santo Ofício contemporâneo.

Desta vez quem o retirou do sono dos injustos foi a BBC Brasil, para publicar uma entrevista que até os fanáticos por novelas mexicanas devem ter achado piegas demais: esta aqui.

Assim é introduzido o lobo em pele de cordeiro cadeirante: 
"Paraplégico há mais de 35 anos, Alberto Torregiani é o principal representante das vítimas de ataques atribuídos pela Justiça a Cesare Battisti na Itália. Ele luta há anos para ver o fugitivo italiano, condenado pelo atentado que o deixou paralisado e matou seu pai, atrás das grades".
Pergunto-me por que se deram ao trabalho de ouvi-lo de novo, já que nada mais fez do que repetir a lengalenga de sempre:
"Não tenho ódio e não busco vingança. É uma questão de justiça. Tento encontrar uma lógica para o fato de viver em cadeira de rodas por culpa de alguém", etc. e tal.
Bem, chega de conversa mole e vamos à verdade dos fatos.

Prestem atenção nestas três palavrinhas, atribuídos pela Justiça, que colocam uma sutil ressalva à acusação de que seria Battisti o responsável pelos ataques.

Não é novidade nenhuma: a Agência Ansa procedia da mesmíssima maneira em 2009/2010, quando tratava Torregiani como "filho de uma das vítimas de crimes atribuídos a Cesare Battisti".

Eu esclareci, na época, que a Ansa era obrigada ser reticente porque, antes de toda aquela onda, publicara uma notícia na qual esclarecera que Battisti não estava presente no atentado em que o joalheiro Pierluigi Torregiani foi morto e seu filho se tornou hemiplégico:
"...Battisti sempre afirmou sua inocência e sustenta que o disparo que deixou Torregiani numa cadeira de rodas partiu da arma de seu próprio pai. 
'E o que isso tem a ver?', replica Torregiani. 'Battisti não fazia parte do comando, mas é uma questão de responsabilidade. Ele foi condenado por ter participado da tomada de decisão, por ter sido o mandante do crime, e o que importa são as intenções'".
Instado pelo repórter a justificar suas afirmações contraditórias [ficava difícil entender-se o motivo de tão extremada sanha vingativa contra quem, afinal, nem matou seu pai nem lhe causou a hemiplegia], Torregiani o fez da forma mais canhestra: 
"Torregiani revelou que Battisti não participou da ação que culminou no assassinato de seu pai porque havia ido à localidade de Mestre, onde teria matado o açougueiro Lino Sabbadin. 'Está tudo nos autos do processo', explicou".
[A notícia foi distribuída no Brasil em 30/01/2009 pela Ansa e depois retirada do ar, mas certamente ainda deve ser localizável na matriz]

MEMÓRIA SELETIVA

Nas declarações que Torregiani então deu à Ansa houve, ainda, duas omissões significativas. Ele esqueceu de dizer que:
  • segundo os autos do processo (aos quais pomposamente ele se referiu), os dois assassinatos foram planejados na casa do dirigente máximo do grupo Proletários Armados para o Comunismo, Pietro Mutti, numa reunião em que, segundo os promotores, Battisti teria entrado mudo e saído calado (uma vez que, inicialmente, o acusaram apenas de omissão, ou seja, não teria objetado às ações discutidas – talvez porque fosse difícil fazê-lo não tendo ele estado presente naquele encontro...);
Berlusconi com Torregiani: ópera bufa?
  • muitos anos depois e já como delator premiado, Mutti imputou mentirosamente a Battisti a autoria direta dos dois assassinatos, tendo a acusação engolido suas lorotas interesseiras como se fossem a tábua dos 10 mandamentos.
Aí a defesa levantou um pequeno e singelo detalhe: a distância entre as duas localidades (500 quilômetros) não podia ser transposta no intervalo de tempo transcorrido entre as ações (duas horas).

A derrubada de uma das infinitas mentiras de Mutti foi um embaraço? Longe disso. Os procuradores apenas remendaram a peça acusatória, colocando Battisti como assassino de Lino Sabbadin e autor intelectual da morte do joalheiro Pierluigi Torregiani...

Quanto a Mutti, a própria Corte de Milão assim se pronunciaria sobre sua teia de falsidades, em 31/03/1993:
"Este arrependido é afeito a jogos de prestidigitação entre os seus diferentes cúmplices, como quando implica Battisti no assalto de Viale Fulvio Testi para salvar Falcone, ou Battisti e Sebastiano Masala em lugar de Bitti e Marco Masala no assalto à loja de armas Tuttosport, ou ainda Lavazza ou Bergamin em lugar de Marco Masala em dois assaltos em Verona".
VÍTIMA PROFISSIONAL

Finalmente, cabe acrescentar revelação interessante que também veio à tona naquela época, em notícia d'O Estado de S. Paulo": 
Chantagem emocional + sutileza paquidérmica
"Autor do livro Já Estava na Guerra, Mas Não Sabia, em que contou sua experiência, Torregiani entrou há pouco tempo na política. É responsável pelo Departamento de Justiça do Movimento pela Itália, liderado por Daniela Santanchè...".
Para quem não sabe, tratava-se de um agrupamento reacionário cuja líder era coproprietária de um night-club para ricaços da Sardenha, uma neofascista assumida (vide aqui) que rompeu com Berlusconi por considerá-lo demasiado tímido na defesa dos ideais direitistas...

A verdadeira motivação de Alberto Torregiani se evidenciava até na cadeira de rodas colocada em primeiro plano na capa do seu livro: não passava de uma vítima profissional querendo aparecer o máximo possível no noticiário, já que engatava uma carreira política e literária nas fileiras da extrema-direita italiana. 

Ao que parece deu com os burros n'água, daí continuar até hoje cumprindo o deprimente papel de servir como trunfo propagandístico contra Battisti em momentos como o atual, cada vez mais raros. 

Tomara que, após a próxima 3ª feira, Torregiani volte a hibernar; e que nunca mais seus préstimos voltem a ser requisitados, até porque já está mais do que na hora de se superarem os ressentimentos e rancores de episódios tão longínquos, nos quais os dois lados praticaram crimes mas só um pagou por eles. 

E está pagando até hoje: que o diga o Cesare, cuja perseguição parece não ter fim!

TUDO QUE VOCÊ PRECISA SABER SOBRE O CASO BATTISTI PARA NÃO TER A CABEÇA FEITA PELOS FASCISTAS DE LÁ E DAQUI

EM DEFESA DE CESARE BATTISTI

Por Carlos Lungarzo
Durante a década de 1970, com cerca de 20 anos de idade, Cesare Battisti entrou nos grupos de esquerda que lutavam contra o fascismo em toda a Itália. 

Depois do final da 2ª Guerra Mundial, os fascistas perderam o direito de usar seus símbolos, bandeira, escudos e a denominação Partido Fascista, mas eles continuaram tendo poder e fundaram novos partidos políticos nos quais não aparecia o nome fascista

Seu escudo e outros símbolos foram levemente alterados, para evitar críticas. Porém, sua ideologia e suas tradições continuavam sendo tão fascistas como antes. Aliás, sua ação foi igual ou pior que a de antes da guerra.

Os novos fascistas (chamados neofascistas) queriam evitar o avanço da esquerda, que se tornou muito forte depois da guerra. Tinham o apoio dos grandes magnatas, dos altos escalões da polícia, dos chefes militares e da Igreja. Dispondo, ademais, de muito dinheiro, foram os que produziram os atuais partidos da direita italiana. 

Durante algum tempo, os fascistas tiveram poucos representantes entre os juízes, mas, a partir de 1974, os velhos juízes conservadores e fascistas ficaram donos do espaço jurídico.
Berlusconi: expoente da reaglutinação fascista.

A política fascista consistia em atacar grupos de esquerda, trabalhadores, intelectuais, estudantes, favelados, etc., mas também realizaram numerosos atos terroristas. Esses atos foram chamados de estragos. Num prazo de 12 anos, os estragos fascistas deixaram centenas de mortos e milhares de feridos. 

A polícia assassinou estudantes e trabalhadores numa proporção maior que a ditadura brasileira. Num país com a quinta parte de habitantes do Brasil, as vítimas feitas pela direita foram mais de 1.400 mortos. [No Brasil, essas vítimas são estimadas em mais ou menos um milhar. Ou seja a proporção de mortos na Itália foi cerca de quatro vezes maior.]

Os grupos de jovens que lutavam contra o fascismo eram muitos. Houve na Itália dos anos 70 mais de 100 grupos de esquerda (refiro-me aos grupos que lutavam pelos direitos dos trabalhadores, não àqueles que queriam tomar o poder político, como as Brigadas Vermelhas). 

Battisti entrou num grupo chamado Proletários Armados para o Comunismo, que atuava na região norte da Itália. Apesar de estarem armados, os PAC somente atuavam em defesa própria. 

Os PAC pertenciam a uma tendência ampla, chamada Autonomia, que lutava contra a opressão do Estado. Tal tendência reuniu muitos jovens independentes, além de antigos militantes do Partido Comunista Italiano, que abandonam esta agremiação quando ela guinou à direita, após 1974, na esperança de compartilhar o poder com a Democracia Cristã.
1980: atentado direitista em Bolonha mata 85 e fere 200.

Os PAC tinham um compromisso de não usar violência letal, mas apenas a necessária para neutralizar torturadores, terroristas de Estado e semelhantes. No entanto, em 1978, um grupo de cerca de 20 militantes dos PAC decidiu mudar de filosofia, executando um torturador da polícia (Santoro), e dois membros de grupos terroristas fascistas (Sabbadin e Torregiani). Também mataram um motorista da polícia, sobre cuja participação em tortura não havia nenhuma prova. Essas são as quatro vítimas das que falam os italianos. 

Battisti e vários outros membros do PAC se manifestaram contra esta política, e foram se afastando do grupo. No entanto, Cesare era muito conhecido pelos juízes, promotores e policiais, por tratar-se de um dos mais ativos na denúncia de torturas, do papel da máfia, e dos crimes cometidos pela polícia contra cidadãos pobres (pancadas, estupros, fuzilamentos sumáriso, etc.)

As quatro mortes atribuídas a Battisti tiveram como autores outros membros dos PAC, que foram condenados e cumpriram suas penas há alguns anos. Cesare foi alvo de delatores premiados, que o acusaram de participação e até de ter planejado os quatro crimes. O principal deles, Pietro Mutti (que os juízes chamavam carinhosamente de Pierino) parece ter tido toda sua pena perdoada.
Battisti (esq.): condenado em 1979 e julgado de novo em 1988.  

Cesare foi condenado a duas penas de prisão perpétua em julgamentos marcados por todo tipo de ilegalidades:
1. Ele não estava presente no julgamento. Encontrava-se exilado, e havia casado com uma moça francesa, da qual tem hoje duas filhas adultas; 
2. Ele não teve advogados verdadeiros. Os advogados foram impostos pelos juízes; 
3. Não houve provas nem testemunhas reais que declarassem contra ele. Os autos mencionam depoentes quaisquer, apenas pelo sobrenome. É como se, no Brasil, falassem que elas são Silva, Barbosa, Almeida, etc.; 
4. As únicas denúncias contra ele provieram de delatores premiados, que obtiveram grandes reduções de suas penas;5. Duas procurações usadas no julgamento como se fossem de Battisti não passavam de falsificações.
Durante seu exílio na França, Cesare trabalhou como zelador de prédios e restaurantes, bem como em diversos empregos, todos legais. No final dos anos 80 começou a ter sucesso como romancista, tendo hoje publicados cerca de 20 títulos, deles, três no Brasil, além de um novo em via de publicação, sobre a região de Cananeia, no litoral Sul paulista. 

Battisti diz que pretende passar o resto da vida no Brasil
DESDE 2005
NO BRASIL

Cesare chegou ao Brasil em 2005, e foi capturado pela polícia em 2007, por ordem da Itália. Esteve quatro anos na prisão da Papuda, em Brasília, sendo alvo dos ataques da mídia, dos partidos de direita e de pessoas pagas pela Itália. Seu julgamento foi influenciado pela embaixada italiana e ao menos quatro dos juízes mantinham relações amistosas com os diplomatas.

Em compensação, Cesare fez grandes amigos na esquerda, nos setores populares, entre cidadãos progressistas e intelectuais. A petição por sua liberdade em 2009 conseguiu milhares de assinaturas. Cesare teve muito apoio de sindicatos, partidos de esquerda e de centro-esquerda, ONGs de direitos humanos, de advogados e jornalistas, bem como de todos os movimentos sociais. O PT aprovou uma moção oficial apoiando sua libertação em 2009.

 Já no final de seu mandato (31/12/2010), o presidente Lula assinou um decreto recusando  a extradição exigida pela Itália.

 Esse decreto foi aprovado pelo STF, por 6 votos a favor e apenas 3 contrários.
Os melhores brasileiros estão ao lado de Battisti...
Solto em 2011, Cesare adquiriu o direito de ser residente permanente no Brasil, recebendo documentos normais de validade ilimitada. Até o dia de hoje, Cesare tem vivido dos direitos autorais de seus livros, especialmente dos que provém da França, eleva uma vida totalmente normal. Ele não registra qualquer irregularidade em território brasileiro, salvo uma multa por estacionamento incorreto (mas não por excesso de velocidade).

Tem um filho, Raul Battisti, com quatro anos de idade. Ele nem sempre pode vê-lo, pois no interior da São Paulo, onde a criança vive com sua mãe, Cesare sempre é provocado pela mídia local, por elementos da classe alta, por militantes de partidos de direita (como os tucanos) e, em alguns casos, pela polícia daquele município. 

Cesare precisa tratamento médico regular por causa de sua hepatite, mas tem sofrido discriminação no hospital público de São José do Rio Preto.
...mas os piores italianos, instigados pelos neofascistas, insistem na vendeta. 
Por que Battisti não deve ser extraditado?

 A perseguição a Battisti é o que se chama uma vendeta. E ninguém deve ser preso, perseguido nem morto por causa de uma vingança. Isso é uma forma primitiva e bárbara de lidar com os problemas.

Cesare tem um filho brasileiro, menor de idade, de mãe brasileira. De acordo com o Estatuto do Estrangeiro, nenhuma pessoa que tenha um filho no Brasil pode ser expulsa, deportada ou extraditada. Nem mesmo a ditadura militar violou este princípio. Lembremos o caso de assaltante do trem-correio de Londres, Ronald Biggs, que aqui permaneceu a salvo quanto tempo quis e só saiu quando quis.

O decreto assinado por Lula no último dia do seu mandato está em plena vigênciaAlguns decretos podem ser modificados, mas só durante os cinco anos seguintes; o decreto do Lula, contudo, está prestes a completar sete anos. 
Estes cinco decidirão se a Justiça brasileira é independente ou se verga a razões de Estado
 Além disto, de tal decreto decorreram direitos adquiridos. Portanto, ele não pode ser revogado, anulado nem modificado. Não poderia ser anulado nem mesmo pelo próprio Lula!

O que o governo brasileiro pretende fazer, de forma tortuosa e recorrendo a tratativas sigilosas, é ilegal:

 Cesare não é refugiado. Esta é uma mentira usada pela mídia, pelo governo e por alguns juízes. O refúgio de Cesare foi anulado pelo Supremo Tribunal Federal. Desde junho de 2011, Cesare é um residente permanente, ou seja, imigrante. Ele é um estrangeiro com os mesmos direitos que tiveram os pais de Temer, de Dilma e de vários milhões de pais e avós de brasileiros.
Vamos reeditar uma ignomínia ou dela nos redimir?

 A viagem a Bolívia não quebrou nenhuma relação de confiança, pois o Cesare tinha total direito de sair e entrar do país quantas vezes quisesse. É algo que todos nós, estrangeiros de nascença, sempre fizemos e fazemos. Aliás, os valores em dinheiro que os três amigos portavam, na casa de R$ 25 mil, eram inferiores ao teto permitido (R$ 10 mil cada).

 Caso fosse aprovada, a extradição de Battisti arranharia profundamente nossa soberania. Pensem nisto: seria violar a vontade do ex-presidente e do plenário do STF, que referendou o decreto de Lula. E para quê? Apenas para obedecer ao embaixador italiano e às forças políticas que ele representa.

Devemos difundir estes pontos entre todas as pessoas conhecidas, grupos políticos, comunicadores, representantes populares, movimentos sociais, etc., tornando-os o mais conhecidos possível nas redes sociais e outros meios ao nosso alcance.

HÁ INDEFINIÇÕES SOBRE O JULGAMENTO DO PEDIDO DE HABEAS CORPUS DO CESARE. O DESFECHO SE TORNOU IMPREVISÍVEL.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal alinhados com a tramoia italo-brasileira para a entrega ilegal do escritor Cesare Battisti à Itália, começando por Gilmar Mendes, deitaram falação contra a perspectiva de que a concessão ou não do habeas corpus salvador seja decidida pela 1ª Turma do STF, integrada por Alexandre de Moraes, Luís Roberto Barroso, Luiz Fux, Marco Aurélio Mello e Rosa Weber.

Por um motivo bem óbvio: a tendência é de que, na 1ª Turma, a legalidade jurídica prevaleça, até mesmo por placar folgado. A chiadeira dos últimos dias foi, portanto, uma tentativa desesperada de evitarem a derrota anunciada.

Fux decidiu então que, na próxima 3ª feira (24) vai colocar em discussão uma questão de ordem, de cujo resultado dependerão todos os encaminhamentos seguintes. "O que o ministro quer discutir, em primeiro lugar, é o local onde deve ser analisado o pedido da defesa do ex-ativista italiano: se na própria turma, ou no plenário do STF", informou o repórter Fausto Macedo, d'O Estado de S.Paulo.
Fux disse ser preciso definir se o pedido da defesa de Battisti "é uma questão extradicional ou é uma questão, digamos assim, passível de habeas corpus”.

E levantou a hipótese de que, se for mediante uma ato administrativo que Temer pretenda ceder às pressões italianos, viabilizando a vendeta perseguida a ferro e fogo desde que Silvio Berlusconi apontou Battisti como alvo para os neofascistas e os videotas úteis mesmerizados pelo rolo compressor midiático, o instrumento jurídico adequado para impedi-lo seria um mandado de segurança.

Resumo da ópera: o cenário tranquilo que se desenhava desde a concessão da liminar por parte de Fux não subsiste. O mais provável é que a palavra final seja dada pelo pleno, no qual a correlação de forças é mais parelha (com pequena vantagem dos legalistas). E há complicadores como a possibilidade de Barroso e Celso de Mello se declararem impedidos.

O grande trunfo de Cesare é que o deferimento da extradição ignoraria vários obstáculos intransponíveis à luz do Direito, como os fatos:

— de já haver expirado o prazo para a contestação da decisão do presidente Lula, que foi um ato jurídico perfeito e não pode ser anulado a bel-prazer do novo presidente;

— de que a sentença italiana de 1988, relativa a episódios de 1978/79, mesmo descontado o período em que o Cesare ficou preso no Brasil (saída pela tangente que o relator Cezar Peluso inventou em 2009 para não reconhecer que a prescrição já ocorrera), indiscutivelmente prescreveu em 2013;

— de não haver garantia real nenhuma de que a Justiça italiana honre a promessa do governo italiano, de reduzir a sentença de prisão perpétua do Cesare para o máximo de 30 anos que a Justiça brasileira impõe como condição para extraditar alguém, pois pode tratar-se apenas de um engana-trouxas, já que são Poderes independentes e a Itália até hoje trata com extremo rigor os veteranos da ultra-esquerda que pegaram em armas nos anos de chumbo;

— de o Cesare ser agora pai e arrimo de um filho brasileiro.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

SEM JOHN REED OS 10 DIAS NÃO TERIAM ABALADO TANTO O MUNDO

Acabo de me dar conta de que este 19 de outubro marca mais um aniversário da morte do jornalista que mais e melhor contribuiu para tornar conhecidas as revoluções russa e mexicana no resto do mundo, John Reed, falecido em 1920, aos 33 anos, de tifo. 

Como estamos também às vésperas do centenário da primeira (7 de novembro), são motivos mais do que suficientes para eu reproduzir aqui o ótimo artigo sobre Reed que Vandeck Santiago escreveu para o Diário de Pernambuco.

Só não concordo com o título: Um repórter americano na Revolução Russa, pois os nascidos nos EUA não passam de estadunidenses; o insaciável Tio Sam ainda não incorporou os 34 outros países do continente americano, nem mesmo os outros dois da América do Norte. Então, eles devem ser chamados pelo que são e não pelo que, com sua arrogância costumeira, gostariam de ser...
Reed e Louise na vida real...

"Estar no lugar e na hora em que um fato histórico acontece é sonho de todo jornalista. John Reed esteve no lugar e na hora em que acontecia aquele que para muitos foi o episódio mais importante do século 20: a Revolução Russa de 1917. Morreu em um dia como hoje, 19 de outubro, de tifo, num hospital de Moscou, em 1920, três dias antes de completar 33 anos. O tratamento de tifo era muito deficiente na época e, além disso, os hospitais de Moscou, em péssimas condições, estavam longe de ser o melhor lugar para tratar a doença.

Cinco dias antes de morrer, ele teve metade do corpo paralisado. Em seguida, perdeu a fala. A mulher de sua vida, a escritora e feminista americana Louise Bryant, acompanhou seus últimos instantes. Antes de ele ser internado, ela o encontrara doente, fraco e debilitado. Precisava urgentemente de repouso. Funcionários do governo russo lhe disseram que ele estava trabalhando quase 20 horas por dia. 

Ele queria finalizar seus trabalhos e pretendia voltar aos Estados Unidos, onde provavelmente seria preso, uma vez que lá estava fichado como comunista. Ela pede que ele descanse e não volte para os EUA. “Minha querida, eu faria qualquer coisa por você”, responde ele. “Mas não me peça para ser um covarde”. John Reed — um americano [vide ressalva no 2º parágrafo] nascido numa família rica de Portland — foi enterrado no Kremlim, com funeral de herói e presença de autoridades.

O jornalismo é a história escrita nas carreiras, e ele fez isso na cobertura da revolução russa, publicada em livro com o título Os 10 dias que abalaram o mundo (em inglês, Ten days that shook the world, cuja primeira edição saiu em 1919). É como uma transmissão ao vivo, com direito à descrição de detalhes e conversas com os protagonistas do que estava ocorrendo, como Kerenski, Lênin, Trotski e Kamenev.
...e no filme Reds, um tiquinho diferentes. 

“Figura pequena e entroncada, de grande cabeça calva e protuberante metida nos ombros”, diz ele, descrevendo Lênin. “Olhos pequenos, nariz largo e curto, boca ampla e generosa e queixo forte: estava barbeado, mas a sua barba tão conhecida no passado como o seria no futuro, começava novamente a despontar. Vestia um terno surrado em que as calças eram compridas demais.”  


O livro tornou-se um clássico, indispensável para quem quer conhecer ou estudar a revolução. O título também — a família dele estaria multimilionária hoje se recebesse um centavo a cada vez que um jornalista ou escritor intitula um texto referindo-se a um fato que  abalou determinado lugar ou instituição (o Nordeste, ou os Estados Unidos, ou a Europa, ou um partido, ou uma empresa)...

Aos olhos de hoje, a reportagem de Reed causaria discussões por ser apaixonada,  ostensivamente partisan, sem buscar uma pretensa objetividade — consta que, em determinado momento, até em armas ele pegou, e em outro esteve perto de ser fuzilado. “John Reed não quer ser imparcial e tem orgulho disso”, disse dele um editor americano [vide ressalva no 2º parágrafo]

Para o jornalista brasileiro Geneton Moraes Neto, o livro “é um grande exemplo de uma reportagem apaixonada”, o que em sua opinião não se configurava como algo negativo: “A paixão na hora de reportar um grande acontecimento é algo que já não se vê hoje, quando o tom dos textos é marcado por uma aridez de paisagem lunar, como diria o eterno Nelson Rodrigues”. 

A reportagem tem regras próprias, que a diferem do relato do noticiário tradicional. Convém atentar ainda que a narrativa é de 1917 e que Reed era um comunista militante. Nada disso, porém, diminui o valor de Os 10 dias que abalaram o mundo como jornalismo de qualidade e um relato valioso dos acontecimentos daqueles dias.

Mas o tom dado por Reed aos seus trabalhos jornalísticos fizeram com que alguns editores nos EUA rejeitassem  reportagens dele feitas nos campos de batalha da 1ª Guerra Mundial. Entre 1911 e 1914 ele esteve no México, cobrindo a revolução mexicana. Durante meses acompanhou o general Pancho Villa e daí surgiu seu primeiro livro, México Insurgente, publicado em 1914.

Na vida pessoal, ele também não seguia os padrões tradicionais: tinha um relacionamento aberto com Louise Bryant, a ponto de em determinado momento morar junto com ela e com o amante dela, o dramaturgo Eugene O’Neill.
  
Neste momento em que chegamos ao centenário da Revolução Russa, vale a pena conhecer a contribuição de um jornalista que teve concretizado o sonho de estar no lugar certo e na hora certa, em um acontecimento que entrou para a história mundial".
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