quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

MINHA AUTOBIOGRAFIA PRECOCE

Celso Lungaretti
Nada de assanharem-se, desafetos e inimigos, pois não estou com o pé na cova e sou de família longeva! Mas, até porque minha militância já ultrapassou meio século, faz sentido que eu às vezes lance um olhar para trás, fazendo um balanço do que consegui ao longo do caminho percorrido e avaliando aonde ele me conduziu.

Nesta 5ª feira, 14, nem de longe pensava em postar algo nesta linha, mas às vezes o noticiário é tão chocho que encontro dificuldade para encontrar um assunto que valha a pena abordar, mantendo a promessa que fiz ao lançar este blog, de oferecer pelo menos um texto novo a cada dia. 

Então, vou me socorrer da resposta que dei no Facebook ao velho companheiro Sílvio Poggi Nunes; sem querer, ela acabou sendo, em miniatura, algo como a Autobiografia precoce de Eugenio Evtuchenko, um dos livros mais determinantes na minha formação política.
Sílvio Poggi Nunes
A esquerda (não comunista), enquanto gastava energia mas ganhava dinheiro e carguinhos públicos em coisas esdrúxulas, se afastava dos operários; e a direita quieta, observando; e os operários desacreditados e desiludidos, além de esquecidos pela esquerda, foram para a direita, não essa que está na rede social, que não apita nada, mas a direita já organizada, entocada, esperando o momento certo. 

Aí a esquerda não mais encontrará operários, porque estarão na direita, onde encontraram segurança e promessa de abrigo. 

Celso Lungaretti, gosto de ti admiro a tua coragem e lealdade, sofrestes na carne a violência e a bestialidade das botas mal lustradas, e a tentativa de desmoralização de uma esquerda desinformada, paranoica, desleal, má caráter, que te pegou de bode expiatório. SAI DESSA, OU BAIXA A POEIRA.

Celso Lungaretti
Sílvio, quando sobrevivi a uma luta que tragou tantos companheiros valorosos, senti que precisava dar um sentido a isso. É o que tenho feito desde então. 

Penso que alguns legados já estão definidos:

  • minha contribuição para a salvação dos quatro de Salvador e de Cesare Battisti;
  • o exemplo que deixo, de que um revolucionário injustiçado por seus companheiros não deve fazer acordos podres mas sim lutar para trazer a verdade à tona, nem que isto demore quase 35 anos e implique suportar estigmatização durante todo esse tempo;
  • a de que revolucionário deve obedecer sempre à sua consciência, sem compactuar com erros desastrosos e práticas vergonhosas, mesmo que tenha de lutar sozinho contra tais distorções (devemos geralmente acompanhar nossa tribo, mas há momentos em que a única forma de mantermos a integridade e a coerência é termos a coragem de seguir adiante como lobos solitários!).
Hoje, com 67 anos, não tenho alternativa se não trilhar até o fim os rumos que tracei para minha militância. Sei que, quase sempre, fui apenas uma voz que clamava no deserto, alertando a esquerda de que ela se encaminhava para desfechos desastrosos sem conseguir alterar a marcha inexorável dos acontecimentos. 

Mas, foi o máximo que eu pude fazer. Ainda assim, restou-me um sabor amargo na boca por, p. ex., assistir à terrível derrota de 2016 depois de todos os alertas que lancei desde a campanha eleitoral de 2014:
  • de que Dilma não estava à altura da crise econômica que enfrentaria caso se reelegesse;
  • de que governo de esquerda com ministro da Fazenda de direita (como o Joaquim Levy) acaba paralisado por esta contradição e se desconstruindo;
  • de que o afastamento da Dilma se tornou irreversível quando a Câmara Federal autorizou o início do processo de impeachment e não adiantava percorrer todas as etapas fixadas na Constituição até o mais amargo fim, sendo preferível a renúncia imediata e o imediato lançamento de uma luta por diretas-já, uma bandeira que seria capaz de unir toda a esquerda;
  • que ao invés de tentarmos derrubar Temer era mil vezes mais importante reagruparmos nossas fileiras sob perspectivas estratégicas e táticas bem diferentes, abandonando as ilusões democratico-burguesas e reconduzindo a esquerda aos trilhos revolucionários.
Hoje qualquer um pode constatar, se não que minhas propostas alternativas resultariam, pelo menos que os caminhos adotados pela esquerda não levaram a lugar nenhum, assim como a lugar nenhum levará a insistência em reconduzir Lula de novo à presidência da República, pois, ainda que sejam superados todos os obstáculos legais, a crise atual do capitalismo inviabiliza a conciliação de classes e condena ao fracasso inevitável aqueles que a expressam, como o Lula.

Então, persistirei até o fim da vida tentando contribuir para a gestação de uma nova esquerda, em substituição à que perdeu o rumo e a moral, jogou nossas bandeiras no chão e desistiu de lutar por uma transformação em profundidade da sociedade brasileira.

Se o possível já não basta para os explorados que temos a missão de representar, só nos resta redescobrirmos a ousadia dos jovens contestadores de 1968: "Sejamos realistas, exijamos o impossível!".

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

PREVÊ-SE QUE LULA VÁ ATÉ O FIM NOS SEU BRAÇOS DE FERRO COM A JUSTIÇA. É UMA BOA DECISÃO?

Toque do editor
Abaixo estão as hipóteses que circulam nos bastidores da política sobre se Lula terá ou não condições legais de disputar a Presidência da República na próxima eleição, segundo o Painel da Folha de S. Paulo, editado pela jornalista Daniela Lima.

Na minha opinião, é mais do que hora de a esquerda desistir de uma candidatura que tem enorme chance de ser inviabilizada pelos tribunais e, mesmo que os togados não a fulminem, representaria apenas uma resposta do passado aos dilemas do presente. 

Lula não é um revolucionário e, diga o que disser, sempre acabaria praticando a conciliação de classes, ou seja, quereria dar vida a um reformismo que o vento da crise aguda capitalista levou.

A esquerda precisa é apostar num líder que tenha visão clara da impossibilidade de atender aos reclamos dos explorados sob o capitalismo. E que veja na eleição apenas uma das várias iniciativas para acumular forças visando a tal ruptura, não o caminho da nossa redenção.

Presidentes, sob o capitalismo, não detêm poder real para confrontar e superar o capitalismo. Já deveríamos ter aprendido esta lição há muito tempo. 

Eis o quadro exposto pelo Painel:

A celeridade com que o TRF-4 marcou o julgamento de Lula só ampliou a certeza tanto nas siglas de esquerda como nas de direita de que a corte deve condená-lo. 

Restam, agora, duas perguntas: 1)Até onde o petista está disposto a ir para fazer de seu calvário jurídico uma disputa política? 2)Algum ministro das cortes superiores irá se dispor a suspender os efeitos da decisão por meio de liminar, liberando o ex-presidente, hoje com 37% das intenções de voto, para ser julgado pelas urnas?

Integrantes do PT dizem que Lula não tem escolha a não ser radicalizar e levar seu embate com a Justiça às últimas consequências. Ele deve manter a estratégia de se registrar na disputa eleitoral e aguardar até o julgamento do último recurso possível para deixar a eleição.

Quem conhece o TRF-4 acredita que os três desembargadores que vão analisar o caso Lula devem condená-lo, porém, com penas diferentes. Isso abriria espaço para mais um tipo de recurso, o embargo infringente.

Em tese, mesmo preso Lula poderia se registrar na disputa. Em 2004, por exemplo, Antério Mânica, ex-prefeito de Unaí, conseguiu ser eleito enquanto estava na cadeia.

“Se for o caso, ele será proclamado eleito e chamado para a diplomação. Se vai comparecer ou não, é um problema do carcereiro”, disse, na ocasião, o ministro Sepúlveda Pertence, que presidia o TSE. Anos depois, Mânica acabou condenado a 100 anos.

Um ex-ministro do TSE diz que a conclusão do julgamento de recursos também depende da velocidade dos advogados –que podem tentar postergar decisão final– e lembra que nenhum candidato pode ser preso a 15 dias da eleição.

Deputados do PT querem que a defesa do ex-presidente Lula vá ao Conselho Nacional de Justiça questionar o que eles têm chamado de “velocidade seletiva” na tramitação do caso do petista no TRF-4.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

ÚLTIMAS DECISÕES DO JUIZ DE CORUMBÁ CONTRA BATTISTI SÃO ESDRÚXULAS... NO MÍNIMO! HAVERÁ ALGO MAIS NO PACOTE?

O escritor italiano Cesare Battisti, residente legal no Brasil, acaba de se tornar réu da Justiça Federal de Corumbá (MS) por conta de uma suposta evasão de divisas que teria sido –mas não foi!– cometida quando tentava, com dois amigos, deixar o Brasil em outubro.

Digo esdrúxula por alguns motivos, como estes dois: 
— ter ficado muito evidente que a viagem de Battisti e seus dois amigos vinha sendo há muito monitorada pela Polícia, que inclusive revistou o carro na estrada e permitiu que seguissem viagem; 
— por ser uma quantia ínfima que estaria sendo evadida, meros R$ 25 mil (aproximadamente), além de haver suspeita de armação, pois Battisti alega que se tratava da quantia que os três possuíam em conjunto, tendo as notas sido reunidas e o valor total atribuído somente a ele (vale lembrar que, como cada um poderia sair legalmente do País com R$ 10 mil, os três juntos tinham o direito de ir com R$ 25 mil para onde bem entendessem). 
Há mais, contudo. Procurei nas leis do país o crime de tentativa abortada de evasão de divisas e não o encontrei em lugar nenhum. O que existe é isto aqui, na Lei nº 7.492, de 16/06/1986:
Art. 22. Efetuar operação de câmbio não autorizada, com o fim de promover evasão de divisas do País:
Pena – Reclusão, de 2 (dois) a 6 (seis) anos, e multa. 
Parágrafo único. Incorre na mesma pena quem, a qualquer título, promove, sem autorização legal, a saída de moeda ou divisa para o exterior, ou nele mantiver depósitos não declarados à repartição federal competente.
Salta aos olhos que o crime em questão se verifica quando de sua consumação ("efetuar operação", "promover evasão", "promove a saída de de moeda ou divisa", "mantém depósitos não declarados")  e não quando, por qualquer motivo, não se concretiza; e que se refere a ocorrências graves, envolvendo valores expressivos, não ao que pode ter sido mera trapalhada do(s) autor(es) e/ou má fé das autoridades. 

Em português claro: a denúncia do Ministério Público e a decisão do juiz de Corumbá são evidente forçação de barra.

Vale lembrar que o Tribunal Regional Federal da 3ª Região, ao conceder habeas corpus a Battisti para livrá-lo de uma estapafúrdia prisão preventiva que o juiz de 1ª instância lhe impôs, ponderou exatamente que a acusação não se referia a um crime grave e que o único erro de Battisti teria sido o de não declarar os valores à Receita Federal. 

Que se saiba, pena de dois a seis anos de reclusão para presumíveis sonegadores de ninharias só existe (se é que existe) em nações totalitárias.

Até para um leigo fica evidente que isso não vai dar em nada, e que o único risco que corre Battisti é o de ser vítima de alguma tentativa de sequestro ou assassinato nos constantes deslocamentos que terá de realizar até Corumbá.
Começando pela pirracenta imposição de uma tornozeleira eletrônica que, a crer-se na justificativa do juiz, só poderia ser-lhe afixada a mais de mil quilômetros de onde reside, sem que o meritíssimo comprovasse sequer que Battisti tem condições financeiras para bancar tal viagem.

Espero que tudo isso não passe de demonstração de antipatia gratuita por parte de autoridades que não deveriam se deixar levar pela bílis ao tomarem suas decisões, pois algo além disto seria inconcebível e inaceitável!

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

A FOTO QUE CONFIRMOU A EXECUÇÃO DE LAMARCA E A DIGNIDADE DE UM LEGISTA

Em 2012, uma novo foto do comandante Carlos Lamarca veio à tona e a Folha de S. Paulo a publicou (vide reportagem aqui). Era a confirmação irrefutável de que ele havia sido executado pelos agentes da repressão.

Escrevi um artigo relatando esta e outra farsa que acabava de ser desmascarada e, no site Consciência Net (vide aqui), um leitor chamado Wanderley Almeida de Macedo postou um comentário interessantíssimo:
"A verdade é única. O  prof. dr. Aníbal Silvany Filho, legista do Instituto de Medicina Legal Nina Rodrigues (BA), encarregado de realizar a autopsia de Lamarca, foi sumariamente afastado de realizar o ato pelos militares que presenciaram o minucioso exame cadavérico no corpo do guerrilheiro, por não concordarem com que fosse registrado o número dos ferimentos perfuro-contusos, bem como a direção dos projeteis de arma de fogo que atingiram o corpo de Lamarca (de trás pra frente, da frente pra trás, de cima para baixo, de baixo para cima, etc.). 
O dr. Silvany discursa ao ser homenageado
O emérito prof. não se encontra mais entre nós, mas, felizmente, seus discípulos souberam aprender a lição do mestre". 
Cheguei logo à conclusão de que o comentarista era um dos discípulos do dr. Silvany Filho.

Este episódio, de cinco anos e meio atrás, me veio à lembrança ao ler a descrição da morte do Lamarca no relatório final da Comissão Nacional da Verdade, que foi bem ao encontro do que o leitor relatou. 

Só lamento que a CNV não tenha incluído uma menção ao legista baiano que tentou cumprir seu dever, fazendo uma autópsia honesta, mas foi impedido pelos militares.

Eis como a CNV contou o final da perseguição:

"Na tarde do dia 17 de setembro, enquanto descansavam à sombra de uma baraúna, árvore típica da região, Lamarca e Zequinha foram surpreendidos pela tropa comandada pelo major Nilton de Albuquerque Cerqueira.
Escracho no endereço do oficial que comandou a caçada

O relatório da Operação Pajuçara, elaborado pela 2ª  Seção do Quartel-General da 6ª Região Militar do IV Exército, sugere que Lamarca e Zequinha, ao serem finalmente localizados, não ofereceram resistência:
'O segundo [Lamarca] levantou-se, tentando também correr, carregando um saco. Esse foi abatido 15 metros à frente, caindo no solo, enquanto o que dera o alarme [Zequinha Barreto], apesar de ferido, prosseguiu na fuga.
...Pouco adiante, Jessé [Zequinha Barreto] virou-se para o elemento que o perseguia, atirando-lhe uma pedra, recebendo então a última rajada. 
...A condição física [dos militares perseguidores] é também base para o sucesso da operação. [...] Esta afirmativa é baseada também no estado físico em que se apresentavam os dois terroristas ao final da ação, totalmente esgotados'.
Lamarca foi executado por agentes do Estado brasileiro com sete tiros, disparados de diversas direções, inclusive por trás, o que atesta que foi cercado.
Yara Iavelberg fora executada 4 semanas antes em Salvador 
Segundo moradores, seu corpo e o de Zequinha Barreto foram colocados à exposição pública na praça de Brotas de Macaúbas, onde foram chutados por militares e policiais, que se gabavam de tê-los executado. Depois, foram colocados em um helicóptero e levados para a capital, Salvador, onde foram sepultados, no Cemitério do Campo Santo. 

Diligência da CNV a Salvador, entre os dias 4 e 5 de agosto de 2014, localizou funcionários do cemitério responsáveis pelo sepultamento de Lamarca. Passadas décadas, eles lembravam com precisão do enterro de Lamarca, tamanho o aparato repressivo que cercou o episódio. Um deles, que colocou uma lápide na sepultura de Lamarca, foi repreendido por isso. 

Eles contaram que por dois anos, até a exumação de seus restos mortais, em setembro de 1973, quando foram trasladados para o Rio de Janeiro, agentes se revezavam, vigiando o túmulo, para evitar que ali virasse um local de reverência. 

...Em 1996, foi feita nova exumação, para que fosse feita perícia, por solicitação da família (...). Segundo os peritos [Celso Nenevê e Nelson Massini], Lamarca, cercado, recebeu tiros de ambos os lados, inclusive por trás, sendo que o tiro fatal foi de cima para baixo. O que nos leva à presunção de que, provavelmente abatido pelas costas, caído, foi mortalmente atingido".
Nem mesmo o filme Lamarca reconstituiu toda a covardia da execução

domingo, 10 de dezembro de 2017

A ARTE ANTECIPANDO A VIDA: VEJA UMA COMÉDIA SOBRE AQUELES QUE VIVEM NO PASSADO, COMO O GENERAL MOURÃO.

Custou mas foi disponibilizado no Youtube O incrível exército Brancaleone (era assim que se chamava quando foi lançado em 1966 no Brasil, e não de Brancaleone...). 

Trata-se de uma comédia clássica do cinema italiano, do grande diretor Mario Monicelli, responsável por obras-primas como Os eternos desconhecidos, A Grande Guerra, Os companheiros, Meus caros amigos e Quinteto irreverente. Imperdível!

Com atuação inesquecível de Vittorio Gassman e uma ótima trilha musical de Carlos Rutischelli, tem como inspiração óbvia a saga de D. Quixote de la Mancha: as peripécias de um indivíduo que tem a mente fincada numa realidade que ficou para trás e, tentando agir em conformidade com valores que o tempo levou... quebra a cara o tempo todo!

Igualzinho ao general Antonio Hamilton Mourão, que se mancomuna com as viúvas e remanescentes da última ditadura na azucrinação aos comandantes militares legalistas de hoje, obrigados a repreendê-lo e puni-lo seguidas vezes, enquanto conferem ansiosos o calendário, sonhando com o dia em que finalmente trocará a farda pelo pijama, deixando de ser responsabilidade deles.


sábado, 9 de dezembro de 2017

EXÉRCITO VAI COLOCAR O GENERAL TRAVESSO DE CASTIGO

Depois de o general Antônio Hamilton Mourão afrontar novamente a hierarquia militar, voltando a emitir juízos políticos sobre o presidente da República (que é o comandante supremo das Forças Armadas) e a fazer apologia de quarteladas, escrevi: 
"Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada"
Bem, o Exército preferiu manter a denominação atual: já resolveu que aplicará pela segunda vez no general Mourão o corretivo de exonerá-lo do cargo ocupado e designá-lo para outro, na esperança de que finalmente aprenda que em boca fechada não entra mosca.

Em 2015, ele perdeu o Comando Militar do Sul e foi encostado numa função burocrática em Brasília; agora, irá para outra. Não muda muita coisa, mas representa uma reprovação explícita a Mourão e às pregações golpistas na caserna.

QUEM FOI MESMO QUE INVENTOU A CORRUPÇÃO, LULA?

Toque do editor
Falando a estudantes da Universidade Estadual do Rio de Janeiro nesta 6ª feira (8), Lula afirmou: "Estamos entorpecidos [não reagindo à reforma trabalhista do Governo Temer]. Para aplicar essa anestesia, inventaram uma doença, a corrupção".

Como não gosto de pensar mal das pessoas, vou supor que Lula esteja apenas esquecido. Apagou da lembrança mais de duas décadas do nosso passado recente.

Então, como homem compassivo que sou, vou ajudá-lo a recuperar a memória. Neste sentido, reproduzirei trechos de um post de 03/01/2017, no qual  expliquei tintim por tintim como a doença da corrupção se alastrou pela esquerda (a direita e o centro estão enfermos há tanto tempo que é quase impossível identificar exatamente quando a coisa começou):
"Uma das maiores desilusões da minha vida, depois da derrota da luta armada, foi o desvirtuamento do Partido dos Trabalhadores, que ajudei a nascer e depois vi apodrecer aos poucos, até se tornar a antítese de quase tudo que pregava no final de 1979/começo de 1980.

Até agora, eu supunha que o primeiro marco emblemático do abandono da moral revolucionária por parte do PT tivesse sido o duelo Paulo de Tarso Venceslau x Roberto Teixeira, em 1997. Uma reportagem publicada [em 01/01/2017] pela Folha de S. Paulo, contudo, obriga-me a corrigir tal informação.

Na verdade, o ovo da serpente começara a ser chocado alguns anos antes. E a primeira oportunidade (desperdiçada!) que os petistas tiveram para esmagá-lo foi quando, após a derrota de José Dirceu na eleição de 1994 para o governo de São Paulo, a lista dos doadores de sua campanha, publicada pela imprensa, trouxe esta revelação pra lá de indigesta:
'Dirceu declarou ter arrecadado R$ 1,1 milhão. Desse total, 42% vieram da Odebrecht e de uma empresa sob seu controle, a CBPO. A empreiteira também doou para as campanhas do PT no Distrito Federal e no Espírito Santo. 
A notícia chocou a militância mais à esquerda no partido porque a Odebrecht havia passado por dois escândalos duramente atacados pelo PT – em especial por José Dirceu, na época deputado federal– nas CPIs que investigaram o esquema PC Farias, durante o governo de Fernando Collor, em 1992; e os Anões do Orçamento, em 1993.
Uma corrente do PT em Brasília tentou até mesmo devolver à empreiteira os R$ 200 mil que a sigla havia recebido. Um dos fundadores do partido, o economista e ex-guerrilheiro Paulo de Tarso Venceslau disse à Folha que soube do próprio Dirceu o quanto o caso Odebrecht o incomodou na época.
Zé Dirceu chegou a chorar: sua campanha não era a real destinatária da doação da Odebrecht.
'Eu tive reuniões com ele e estava frustradíssimo. Ele dizia que esses recursos da Odebrecht estavam aparecendo na prestação de contas dele, mas que o dinheiro era para a campanha do Lula. A campanha do Dirceu foi usada para fazer a triangulação', disse Venceslau, que contou a mesma história à CPI dos Bingos, em 2006.
Venceslau disse que, no começo de 1995, Dirceu se mostrava disposto a deixar a organização do partido e chegou a procurar um imóvel para montar um escritório de advocacia na companhia de outras duas militantes petistas. Mas ele se acertou com Lula e passou a ser apoiado para a presidência nacional do PT, segundo Venceslau'.
O repórter lembrou também que em agosto de 1995, diante dos cerca de 500 delegados presentes no 10º Encontro Nacional do PT, o ex-guerrilheiro César Benjamin fez duras críticas às relações promíscuas do partido com a Odebrecht, arrancando lágrimas de Zé Dirceu e do Lula.
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O ESCÂNDALO
 DA CPEM
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Percebo agora que o traumático episódio da expulsão do honesto Paulo de Tarso Venceslau enquanto o partido atirava uma boia para o encalacrado Roberto Teixeira foi apenas o ato seguinte de um drama que já estava em curso.

Tendo sido secretário das finanças de duas prefeituras petistas no interior paulista, em ambas Venceslau resistira a pressões para contratar uma empresa de Teixeira (a CPEM - Consultoria para Empresas e Municípios) ou para pagar-lhe valores exorbitantes por serviços não prestados. 

Tratava-se, obviamente, de um esquema de desvio de recursos públicos para financiamento partidário; e, por não compactuar com a maracutaia, Venceslau foi exonerado de seu posto na prefeitura de São José dos Campos. 
O companheiro Paulo de Tarso Venceslau...

Depois de dois anos de queixas infrutíferas aos dirigentes máximos do PT, Venceslau tornou público o favorecimento escuso à CPEM em entrevista ao Jornal da Tarde.

Como resposta ao escândalo, o partido criou uma Comissão Especial de Investigação, presidida por Hélio Bicudo, cuja salomônica decisão foi a de que Venceslau errara ao vazar um assunto interno para a imprensa burguesa, enquanto Roberto Teixeira deveria ser julgado por corrupção.

Vale a pena lembrar o que concluiu a Comissão a respeito do segundo, em relatório assinado por Bicudo, Paul Singer e José Eduardo Cardozo:
'...parece provável que ROBERTO TEIXEIRA possa ter se valido, de forma pouco ética, da amizade com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA, para não só se omitir face ao dever de informar e acautelar em relação à CPEM como também para desqualificar denúncias contra a mesma. 
...parece ser difícil descartar a hipótese de que ROBERTO TEIXEIRA tenha cometido ‘abuso de confiança’ com ‘aproveitamento das relações de amizade’ que mantém com LUIZ INÁCIO LULA DA SILVA. Entre a defesa da empresa que gerou renda para seu irmão e presumivelmente para si e o interesse público e partidário, ROBERTO TEIXEIRA optou pela primeira... 
...e o tal Teixeira.
Assim sendo, a presente Comissão de Investigação não pode deixar de concluir que a presumível conduta de ROBERTO TEIXEIRA (...) não se coadunaria com os rígidos padrões éticos que devem orientar as condutas dos militantes do PARTIDO DOS TRABALHADORES... no PT comportamentos dessa natureza se colocam como descabidos e inaceitáveis. 
...esta Comissão sugerirá ao final deste Relatório à Executiva Nacional do PT a abertura de processo ético-disciplinar contra o militante ROBERTO TEIXEIRA pela prática de grave conduta a ser avaliada e julgada (...) pelo órgão partidário competente'.
Lula ameaçou desligar-se do PT caso fosse instaurado tal procedimento contra Teixeira  que era seu compadre e lhe fornecia um apartamento de cobertura em São Bernardo do Campo para morar de graça com a família .

A direção partidária optou, então, por desconsiderar o parecer da Comissão, expulsando Venceslau e aliviando para Teixeira. Foi o instante em que o PT se assumiu como um partido igual aos outros, capaz de, ao sabor das conveniências, mandar às favas todos os escrúpulos de consciência (lembrando a frase imortal com que Jarbas Passarinho recomendou a assinatura do AI-5).  

Orgulho-me de haver sido, naquele momento, um dos raros esquerdistas a protestarem publicamente contra a decisão infame do PT, solidarizando-me ao Paulo de Tarso Venceslau em artigo publicado no Jornal da Tarde.

Segundo Venceslau, o tal Teixeira teria sido até 'torturador do delegado Fleury'. Não tendo como apurar tal acusação, apenas a registro". 

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

DOIS PERDIDOS NUMA NOITE SUJA: GOLDFINGER PALOCCI E BRANCALEONE MOURÃO.

A nova edição da revista (?) veja traz uma matéria-de-capa que me fez lembrar a velha frase do folclore futebolístico, atribuída ao técnico Otto Glória: "Quando ganho, chamam-me de bestial; quando perco, dizem que sou uma besta".

Pois é, Antonio Goldfinger Palocci estaria prometendo ao Ministério Público que, se este lhe conceder os privilégios de delator premiado, sustentará que o ex-ditador líbio Muammar Gaddafi forneceu ao PT US$ 1 milhão para financiar a campanha presidencial de Lula em 2002.

Não há por que descrermos da intenção de Palocci: já fez tudo que podia para queimar o filme de Lula no que se refere às ligações perigosas com a Odebrecht. Por que não se dispor a uma alcaguetagem mais bombástica ainda, em troca de que finalmente lhe abram a porta da gaiola?

Noves fora, se Palocci conseguir uma mísera prova consistente de que tal doação existiu mesmo (*), estará criado um fato político bestial, que pode justificar inclusive a cassação do registro do PT.

Se ficar tudo no blablablá, Palocci sairá do episódio mais desgastado ainda, seja por ter desempenhado o papel de uma besta quadrada, seja por haver tentado fazer todos nós de bestas.

*  *  *
Até quando, oh general Antonio Hamilton Mourão, abusarás da nossa paciência? Nem Catilina, apesar da exasperação que causava em Cícero, conseguia encher tanto o saco dos seus contemporâneos...

Às vésperas de trocar a farda pelo pijama, o que fará no próximo dia 31 de março (escolheu a data a dedo!), o Mourão da vez novamente se deu a incontinências verbais que configuram clara insubmissão contra o presidente da República, que é também o comandante supremo das Forças Armadas; e emitiu opiniões inadmissíveis para qualquer militar na ativa.
O pregador de uma nova temporada de atrocidades...

Se nem agora Mourão for punido pelos seus superiores, é melhor mudarem o nome do glorioso Exército Nacional para Casa da Mãe Joana Armada.

Sobre Temer, o incrível general Brancaleone disse:
"Nosso atual presidente vai aos trancos e barrancos, buscando se equilibrar, e, mediante o balcão de negócios, chegar ao final de seu mandato".
E disparou também contra Lula, afirmando que, como "sobrevivente ao mensalão, ele achou que podia tudo"; como consequência, "as comportas foram abertas do lado da incompetência, da má gestão e da corrupção".

Além, é claro, de novamente rasgar seda para a ditadura de 1964/85, pregando uma nova quartelada.
...e quem o convidou para a hora da saudade das trevas

De resto, para que não restasse nenhuma dúvida a respeito das abominações que defende, ele deitou sua falação no Clube do Exército, em Brasília, ao qual compareceu como convidado... das viúvas e remanescentes da ditadura agrupados no movimento  Terrorismo Nunca Mais!!! Em comparação com os fanáticos ultra-direitistas do Ternuma, até Átila, Vlad Dracul e Gengis Khan eram cavalheiros sofisticados e comedidos...

São dois perdidos numa noite suja. Um que se desgarrou de sua turma, entrou em parafuso moral e chafurda na mais absoluta abjeção; e o outro que se desgarrou do seu tempo na vã tentativa de fazer as rodas da História girarem para trás, pois seu ambiente mental é o de um passado medonho e repulsivo que hoje só tem lugar na lixeira da História.

* Vale acrescentar uma informação posterior: o Élio Gaspari, em sua coluna de 10/12/2017, lembrou um agradecimento de Lula a Gaddafi, em dezembro de 2003, durante visita a Trípoli: "Hoje, como presidente da República do Brasil, jamais esqueci os amigos que eram meus amigos quando eu ainda não era presidente da República".


BITCOIN: UM FALSO MILAGRE.

"O bitcoin fará com os bancos o que
e-mail fez com o correio postal"
(Rick Falkvinge, empresário de TI)

De repente, como mais um pretenso milagre virtual cibernético, aparece uma forma de dinheiro que afirma não estar vinculado à emissão de moedas pelos Bancos Centrais dos Estados nacionais. Uma meia verdade, e como toda meia verdade, termina por ser uma mentira inteira. 

Trata-se do bitcoin, que viralizou (para usar uma expressão da internet) como moeda capaz de facilitar a vida mercantil e, ao mesmo tempo, proporcionar ganhos fáceis aos que aderirem à sua compra. Eu disse compra, porque o principal modo de se obter bitcoin é adquirindo-o com moeda oficial vigente que, teoricamente, lhe empresta lastro existencial.  

Daí podermos afirmar, logo de início, que o bitcoin é uma representação virtual de moedas oficiais que representam a abstração valor (esta última, teoricamente, com lastro na produção de mercadorias, que são por sua vez, ao mesmo tempo, concretas e abstratas). 

bitcoin é, portanto, uma abstração virtual representativa de outra abstração. 

Sendo o próprio dinheiro uma abstração meramente virtual, ainda que tornada real nas mercadorias sensíveis e serviços, o bitcoin é o suprassumo da abstração, ainda mais virtual, porque só existe eletronicamente (não há papel-moeda bitcoin).
"Uma abstração virtual representativa de outra abstração"

Passemos pois à análise, com lupa de aumento e sob o critério da isenção científica, da substância constitutiva e significado da moeda bitcoin

Qualquer moeda é (ou deveria ser) a representação do valor. Tanto a moeda que representa o valor como o próprio valor são, ambos, abstrações numéricas que representam (ou deveriam representar) trabalho objetivado, cristalizado nas mercadorias sensíveis ou serviços; estes, por se tratarem de uma forma de relação social aceita e que interfere materialmente na vida das pessoas, transformam-se em abstrações reais, materializadas.

As moedas e o valor são abstrações porque meramente numéricas e resultantes da contabilização mental que lhes emprestam uma forma específica de relação social; são reais porque terminam por se consubstanciar numa relação social materializada nas mercadorias e serviços que servem ao consumo humano concreto, independentemente do seu caráter abstrato. 

Nesse sentido o bitcoin nada mais é do que uma convenção de síntese de valor numérico contido em todas as moedas que são socialmente aceitas e que integram a sua cesta de valores, podendo facilitar as relações mercantis internacionais e nacionais reduzindo custos de operações na circulação. 

Trata-se de um serviço eletrônico (de risco), pura e simplesmente.
Anúncio de uma concessionária de veículos

É falacioso se dizer que a emissão de bitcoin tem vida própria como valor, independentemente da emissão de moedas pelos Bancos Centrais nacionais unificadas; afinal, não passa de um grande fundo de moedas nacionais e até mesmo do dólar estadunidense, a moeda internacional, como se tivesse o poder de emissão monetária. 

A emissão de bitcoin não tem nenhuma relação com emissão de dinheiro novo, mas é uma emissão de título de crédito extraoficial que, uma vez aceito, passa a circular no mercado, tal qual uma nota promissória ou outro título de crédito qualquer, ainda que tenha a aparência de moeda com poder de compra (passando, assim, a tê-lo efetivamente).  

bitcoin está sujeito às intempéries próprias às emissões de moedas de cada país, que mais dia menos dia evidenciar-se-ão como títulos de créditos insolváveis. 

Em muitas comunidades são adotadas moedas que circulam em âmbito restrito, mas todas elas, tal como o bitcoin (que é muito mais abrangente, complexo e sigiloso), têm lastro em moedas oficiais. 

Como sabemos, já hoje as moedas nacionais são emitidas sem a correspondência na produção de mercadorias, posto que, na composição do PIB dos países, os setores primário (agronegócio) e secundário (industrial) da economia são únicos produtores de valores novos que autorizam a emissão de moeda devidamente lastreada, representando parcela bem menor nesse indicador do que o setor terciário (serviços), que não produz valor novo.
Dinheiro de fantasia conhecemos desde a meninice...

Não é nenhuma novidade a afirmação de que impera a emissão de moeda sem lastro no sistema produtor de mercadorias, causando inflação (mais dinheiro sem mercadorias produzidas), principalmente para os países periféricos do capitalismo, cujas moedas emitidas sem lastro não são acreditadas no mercado internacional. 

Há, contudo, uma diferença: a moeda bitcoin, ao invés de ser inflacionária como o são todas as outras que compõem a sua cesta monetária, é deflacionária, ou seja, ela se valoriza a cada dia, mas de modo artificial, não passando de um mecanismo de mercado sujeita às oscilações que lhe são próprias.  

Tal fenômeno, aparentemente mágico, decorre do simples fato de que, como sua aquisição é limitada ao volume de bitcoins programado para circulação, e sendo eles cada vez mais procurados, incide sobre tal moeda a chamada lei da oferta e da procura, que provoca a oscilação de aumento de suas capacidades de compra (aumento de preços, não de valor, que é coisa diferente), ensejando uma ilusão aos desavisados.        

A cada vez maior procura do bitcoin faz aumentar o seu preço relativamente às moedas que compõem a sua cesta de lastro monetário, numa evidência da artificialidade do processo, que deverá evidenciar-se inconsistente e causar mais uma fissura no já artificial sistema financeiro internacional quando as moedas que representa perderem a capacidade de compra.  

Como o bitcoin compõe-se, além das moedas fortes, também, com moedas fracas, ou seja, dos países periféricos do capitalismo, a perda de capacidade de compra dos bitcoins tende a ocorrer antes mesmo da queda das chamadas moedas fortes (o dólar estadunidense e o euro, p. ex.).

Mais dia, menos dia, bitcoins cairão na mira dos governos
VIRTUDES E RISCOS DA MOEDA VIRTUAL

A microeletrônica não produz estragos apenas na lógica do sistema produtor de mercadorias a partir da prescindência do trabalho abstrato, único produtor de valor válido e novo no universo da vida mercantil.

Há efeitos colaterais de grande significado que estão a demonstrar as contradições e irracionalidade do capitalismo desenvolvido como modo de mediação social dito moderno. Um deles é exatamente o surgimento da moeda bitcoin e sua magia ilusória e insubsistente.

Mas há benefícios por ela proporcionados que servem como chamarizes aparentemente convincentes para o seu uso, ainda que conspirem contra o próprio sistema no qual ela está inserida. 

É evidente que a vida social mercantil, a partir de um sistema virtual comandado por computadores e celulares computadorizados em conexão com a comunicação via satélite (internet), facilita-lhe a operacionalização, dada a sua agilidade. 

O comércio virtual de mercadorias, no que diz respeito à sua contratação (compra e venda), é um mercado abstrato por excelência, ainda que possa se materializar nas mercadorias e serviços, pois os valores de uso de ambos permanecem inalterados. 
Uso do bitcoin dificulta fiscalização da cobrança de impostos

A agilidade dos procedimentos mercantis num mundo em que time is money é outro fator contributivo para o uso dos serviços via moeda bitcoin.   

Tal forma de mercantilização se passa em boa parte fora do controle do Estado, que, assim, não pode fiscalizar a cobrança de impostos advindos dessas atividades. A sonegação de impostos, que tanto mal faz à estrutura estatal de sustentação da ordem capitalista, é um dos motivos do sucesso da moeda bitcoin, mas, paradoxalmente, é uma das ameaças a sua aceitação legal e tende a ser criminalizada como atividade marginal pelas razões que passamos a expor.

Além de propiciar a sonegação de tributos, a moeda bitcoin tem a possibilidade de proporcionar aos seus detentores o anonimato quanto à titularidade da propriedade, tal como as contas dos bancos suíços nos quais o depositante é identificado por um código secreto.

O setor mais gravemente atingido é o financeiro, na medida em que os bitcoins não circulam dentro das contas bancárias, e isto deverá acarretar um problema a mais para um sistema já combalido.

É evidente que os detentores de capitais advindos de atividades ilícitas (corrupção com o dinheiro público, tráfico de armas e entorpecentes, jogos de azar, etc.) têm na moeda bitcoin um porto seguro para a guarda dos seus valores. 
Geddel Vieira deveria é ter comprado bitcoins
Fico a imaginar o que faria o ex-ministro Geddel Vieira Lima com a possibilidade de comprar, incógnito, bitcoins com o dinheiro ilícito que possuía guardado em malas num apartamento.

Não vai tardar muito para que os Estados nacionais capitalistas regulamentem a emissão, aquisição e propriedade dos bitcoins, o que representará uma grave ameaça ao seu funcionamento e circulação. 

O sistema capitalista (economia real e o sistema financeiro) e suas instituições estatais fazem água por todos os lados e a moeda bitcoin é mais uma das muitas invencionices fadadas ao malogro: os pulos do gato propiciados pelas novas possibilidades eletrônicas não bastam para salvar do naufrágio um mundo mercantil em fase de dessubstancialização irreversível da própria forma-valor.
(por Dalton Rosado)
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