sábado, 24 de junho de 2017

CARTA ABERTA A UM EDUCADOR

"Queira ser lembrado como professor no sentido real do termo"
Ilmo. sr.
Matheus Bornelli de Castro
Diretor do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Mato Grosso do Sul
Naviraí/MS
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Prezado senhor,
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vendo-o apresentar a instituição à comunidade num vídeo postado no YouTube, percebi tratar-se de um jovem, com, no máximo, 35 anos de idade. Ou seja, alguém que atingiu a consciência num Brasil já redemocratizado e apenas sabe como foi o pesadelo ditatorial por ouvir falarem ou por leituras.

Então, só posso lamentar que seus atos sejam de tal forma parecidos com o de alguns professores autoritários dos anos de chumbo, como o que me caçou, ao lado de policiais, no pátio do Colégio Estadual MMDC (no bairro paulistano da Mooca), quando os estudantes paramos a escola em protesto contra uma diretora atrabiliária, em junho de 1968.

Todo os alunos do Noturno haviam descido para dialogar com os professores que tinham mente aberta e os líderes naturais dos estudantes, entre os quais eu me incluía. Aí chegaram os agentes da Delegacia de Ordem Política e Social, utilizando uma viatura do Juizado de Menores como camuflagem; mandaram trancar os portões e, juntamente com um mestre alcaguete, saíram em busca de alguém para prender, utilizando uma lanterna, já que o pátio estava às escuras.
O professor David Emanuel: injustiçado.

Circulávamos entre os colegas, que nos protegiam, então nenhum de nós foi capturado. Aí os policiais desistiram e os portões foram abertos. Truculentos e despreparados, os agentes deram tiros para o ar, provocando o estouro da multidão, cuja maioria era de menores que cursavam o ginásio.

No dia seguinte, os colegas estavam tão amedrontados que não ousavam entrar na escola. Eu e outro líder fomos pedir à diretora garantias de que ninguém seria preso – e acabamos sendo laçados para uma reunião com a Associação de Pais e Mestres, na qual defendemos firmemente o movimento, contra alguns pais e professores exaltados. Depois, a diretora nos comunicou que, se aceitássemos uma transferência compulsória para outro colégio da rede pública, completaríamos o ano letivo normalmente; se fôssemos brigar na Justiça, perderíamos inevitavelmente o ano

O colega que estava comigo se chamava Eremias Delizoicov. Hoje é nome de rua e de uma instituição de defesa dos direitos humanos. Foi retalhado por 35 disparos dos assassinos da ditadura, em outubro de 1969, aos 18 anos de idade. O corpo ficou tão irreconhecível que, num primeiro momento, divulgaram à imprensa o nome de outro militante como sendo a vítima.

E eu, ex-preso político com lesão permanente causada por torturas em unidades militares, jornalista por profissão e blogueiro porque é a tribuna livre que resta, continuo aos 66 anos lutando contra o autoritarismo e defendendo os direitos humanos.
Eremias, meu colega, amigo e companheiro

Fiquei pasmo ao ver que a História praticamente se repete quase meio século depois, com o professor David Emanuel de Souza Coelho [teve seu contrato rescindido de supetão, flagrantemente em função de suas convicções e não do seu desempenho profissional, recebendo firme solidariedade dos alunos], um dos mais brilhantes colaboradores do meu blogue, raro exemplo de jovem cidadão que pensa bem e se comunica bem nos dias de hoje, contribuindo para disseminar a reflexão e o pensamento crítico entre as novas gerações.

Com a minha idade e o meu passado de dedicação aos bons combates, creio ter autoridade moral suficiente para lhe recomendar uma reconsideração de sua postura. 

Não repita a intolerância dos anos de chumbo ou o macartismo dos anos 50; a História foi impiedosa com quem percorreu tais caminhos e também o será com os novos autoritários. Queira ser lembrado como professor no sentido real do termo, aquele cuja autoridade provém do saber e da abertura para o diálogo, essencial para se formarem verdadeiros cidadãos.
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Atenciosamente,
.CELSO LUNGARETTI

A MAIOR AMEAÇA ATUAL É A ESCALADA AUTORITÁRIA DESEMBOCAR NUM ESTADO POLICIAL. JÁ TIVEMOS DITADURAS DEMAIS!!!

Por Celso Lungaretti
Nunca li um artigo do Demétrio Magnoli tão pertinente e oportuno como o deste sábado (24). É com um brilhantismo raro na grande imprensa que ele corrobora e amplia o alerta que este blogueiro foi um dos primeiros a lançar (vide, p. ex., o post de duas semanas atrás), de que o Judiciário começa a se desviar de sua missão constitucional de aplicar a Justiça burguesa tal qual está definida na Constituição Federal, para embarcar numa perigosíssima aventura de fazer a justiça das ruas, igualando-se aos justiceiros de bairro. 

A maior ameaça à sociedade brasileira, neste exato instante, não se corporifica no patético e medíocre presidente Michel Temer, que nada mais faz do que dar continuidade à política econômica neoliberal adotada por Dilma Rousseff a partir de 2015, mas sim nos tenentes togados que, como Robespierres extemporâneos, querem impor o primado da Razão Judicial à custa de guilhotinas por enquanto metafóricas, mas sabe-se lá até onde a coisa irá se continuarmos neste rumo, com a escandalosa complacência da corte suprema do País (corporativista como nunca!).

Há esquerdistas que vibram com a vingança contra os corruptos, lixando-se para os meios por meio dos quais está sendo obtida. A bílis é péssima conselheira na política; o simplismo, idem.
A vassoura varreria "a bandalheira". Virou o País do avesso.

Eu mantenho a minha convicção de que o combate à corrupção é bandeira da direita, conforme afirmava o Paulo Francis dos bons tempos. Ilude o povo acenando com uma ilusória solução jurídica-policial para os problemas estruturais do capitalismo; mas, a onda moralista sempre passa após algum tempo, com a corrupção voltando (ela sim...) a jato, como ocorreu na Itália da Operação Mãos Limpas, que logo depois estava sendo emporcalhada pelas mãos imundas de Silvio Berlusconi.

Mas, o clima de caça às bruxas e o estupro de direitos humanos e civis produz, nesse meio tempo, estragos irreparáveis. Então, quem realmente quer contribuir para libertar os brasileiros do jugo do capitalismo não pode, jamais, apostar nesse autoritarismo tosco, unindo as Organizações Globo, delegados, juízes, membros do Ministério Público, ministros do STF e um procurador-geral da Justiça totalmente embriagado com o poder de que ora desfruta e não admite perder de jeito nenhum.

Eis o artigo do Magnoli, com o qual este blogueiro concorda em gênero, número e grau:
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A LAVA JATO PERECERÁ SE NÃO FOR
CONTIDO O ESPÍRITO JACOBINO
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Por Demétrio Magnoli
O Reino do Terror terminou no 9 do Termidor, 27 de julho de 1794, dia da queda de Robespierre e do início da repressão contra os jacobinos. Treze meses depois, instalou-se a ditadura do Diretório, que abriu caminho ao 18 do Brumário, 9 de novembro de 1799, elevação de Napoleão Bonaparte a Primeiro Cônsul.

A Lava Jato perecerá, desgastada por uma reação termidoriana, se não for contido o espírito jacobino que anima uma parcela do Ministério Público. Deploravelmente, o STF hesita em mostrar o caminho da lei, abortando o embrião de um Terror policial e judiciário.

Até há pouco, o jacobinismo circunscrevia-se às esferas do discurso e de atos judiciais periféricos. O juiz Sergio Moro ordena conduções coercitivas abusivas, como notoriamente a de Lula, de olho em seus impactos na opinião pública.

Jovens procuradores bradam, em tons messiânicos, sobre a falência do sistema político, embalados pela fantasia de que corporificam um Comitê de Salvação Pública. Nada disso, porém, atinge irreparavelmente as garantias constitucionais.

A operação Joesley assinala a ruptura. Ela expôs, certamente, as fétidas cavalariças de Temer e Aécio, mas ao preço de brutais violações legais. O Robespierre da história escreveu que "o Terror é nada mais que justiça imediata, severa, inflexível".
"Fachin age como despachante de Janot"

Janot, nosso Robespierre carnavalesco, subscreveu o enunciado ao associar-se com o corruptor geral da República numa trama politicamente motivada. Já o STF, ao validar o prêmio escandaloso concedido ao delator, desperdiçou a primeira oportunidade para dissociar a palavra justiça da palavra Terror.

Dois fatos são indisputáveis:
1) Antes de delatar oficialmente, Joesley foi instruído por um procurador e um delegado da PF; 
2) Como prêmio pela entrega das gravações, obteve imunidade judicial absoluta. 
Nas suas argumentações, os ministros do STF esconderam-se atrás do biombo dos sofismas para não enfrentar tais flagrantes ilegalidades.

Celso de Mello disse que Janot não poderia ser surpreendido por um "gesto desleal" do Judiciário –como se o STF devesse lealdade ao procurador-geral, não à Constituição. Roberto Barroso insistiu na tese demagógica de que a impugnação do acordo com Joesley abalaria todo o edifício de delações da Lava Jato –como se a solidez de uma curva dependesse do ponto fora da curva.
Um pesadelo histórico: a Revolução devorou seus filhos.

Prevaleceu o espírito de corpo: os juízes resolveram não desautorizar Fachin, assim como antes não desautorizaram Lewandowski, que jogou a Constituição pela janela para preservar os direitos políticos de Dilma. Nesse passo, em nome do mais estreito corporativismo, criam um precedente para novas operações jacobinas.

Logo mais, na decisão sobre o mandato de Aécio, o STF terá uma segunda oportunidade. A Constituição não admite a cassação judicial de mandatos parlamentares: só os eleitos podem cassar os eleitos. O princípio foi violado no caso de Eduardo Cunha, por meio da manobra da suspensão do mandato.

Na ocasião, Teori Zavascki, autor da sentença, justificou-a como uma excepcionalidade, admitindo implicitamente que cometia uma ilegalidade. Fachin, que age como despachante de Janot, apoiou-se no precedente para determinar a suspensão do mandato de Aécio. Se, uma vez mais, o STF colocar o espírito de corpo acima da letra da lei, a exceção se converterá em norma, destruindo a independência dos Poderes.

Temer é uma desgraça e Aécio vale menos que a tinta deste texto, mas ambos não passam de notas de pé de página na nossa história. O jacobinismo, por outro lado, ameaça valores preciosos –e, inclusive, a própria Lava Jato. Os fins e os meios estão ligados por um fio inquebrável.

Procuradores e juízes devem implodir as máfias político-empresariais incrustadas no Estado brasileiro seguindo, escrupulosamente, as tábuas da lei. A alternativa é o Terror –e, depois, o Termidor.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

OS REFORMISTAS E A PICADA DA MOSCA AZUL DO PODER

"Reformar o capitalismo é como
perfumar merda" (pichação de muro)
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A pior crise mundial do capitalismo desde a grande depressão da década 1930, com reflexos substantivos no Brasil, tem o condão de tornar explícito o colaboracionismo da esquerda reformista: ela não tem pejo de voltar a propor medidas salvacionistas que não vão à raiz do problema, deixando intacta a dominação capitalista. 

Ou seja, cada vez que uma crise econômica mais aguda se abate sobre o Brasil, os reformistas correm a exumar o seu antigo e surrado discurso anti-imperialista, que jamais passou de um contraponto ao liberalismo burguês. Na verdade, o capitalismo liberal (ou neoliberal) e a esquerda keynesiana reformista são espécies políticas de um mesmo gênero: o capitalismo.

Estamos assistindo novamente ao desespero da esquerda colaboracionista, que tanto se desmoralizou no passado por praticar um populismo atrasado que acendia uma vela ao diabo (o empresariado nacional e estrangeiro financiador de campanhas eleitorais e enriquecimento ilícito de muita gente) e outra a Deus (a ajuda aos coitadezas dependentes dos programas sociais de combate à miséria absoluta). Ela quer ressurgir das cinzas, fazendo-se passar por alternativa aos seus igualmente desgastados adversários políticos neoliberais.

É incrível como os aparentemente diferentes se igualam na essência quando se trata de salvar o capitalismo, para que possam continuar alternando-se no controle do poder político estatal que lhes dá sustentação.

Noticia-se uma articulação parlamentar (não seria para lamentar?) visando à criação de uma pretensiosa Frente de defesa da soberania nacionalista sem xenofobia, que, encabeçada por Lula e Roberto Requião, concorreria à eleição presidencial de 2018 com um programa anti-imperialista.

Vale a pena analisar criticamente cada ponto desse programa reformista que está fadado a resultados nefastos para a vida do povo e ao amortecimento da luta revolucionária pela emancipação humana. Diz um documento dos organizadores:
Um cartaz de campanha já está pronto
"...está soando bem aos soldados de primeira hora da Frente – partidos, centrais sindicais, associações, movimentos sociais, estudantes, etc. etc.  o programa Brasil Nação, esboçado por intelectuais nacionalistas, de esquerda etc., coordenados pelo economista Bresser Pereira, dissidente tucano, no qual pontifica-se fundamentalmente três pontos: 1 – remoção urgente do congelamento neoliberal de gastos públicos; 2 – aumento dos salários; e 3 – política cambial competitiva".
O texto propõe um "cavalo de pau no neoliberalismo de Temer/Meirelles, imposto (...) pelo Consenso de Washington, para sucatear o Brasil de bandeja para as multinacionais". E argumenta que, com o "congelamento de gastos para vigorar durante 20 anos, como empurrado goela abaixo no Congresso, (...) abre-se mão (...) do poder do Estado, por meio do qual torna-se possível equalizar a luta de classes (!), mediante aposta em programas sociais – a força de Lula – que determinam pujança dos mercados internos (!!), sem os quais inexiste capitalismo nacional social democrata (!!!)". Todos os grifos são meus. De resto, será que esta ode ao Tio Patinhas não soaria melhor se acompanhada por plangentes violinos? 

Eis outras bobagens:
"A política social compreende (...) respeito total às conquistas sociais e econômicas inscritas na Constituição de 1988, como fator de estabilidade geral. Elas são responsáveis por estabelecer o estado do bem estar social, que Lula-Dilma perseguiram, até serem derrubados pela direita golpista, em 2016" [Esqueceram de dizer que o Estado do bem-estar social só funcionou a contento nos países escandinavos, hoje não passando de uma miragem que se dissipou com o agravamento da crise capitalista em escala mundial.] 
Ué, o ajuste fiscal não era execrado pela esquerda?
"Ao lado da promoção dos programas sociais, (...) aumento dos salários decorrerá do descongelamento dos gastos públicos, fator de impulso à demanda global. Indispensável será adoção de ajuste fiscal (!) como fator de fortalecimento e não de enfraquecimento do Estado, destacou Bresser. A esquerda, diz ele, não pode ter medo de ajuste fiscal (!!), desde que seja fator de fortalecimento dos agentes econômicos – Estado, trabalhadores e empresários. O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado (!!!), na exata proporção do fortalecimento dos setores sociais, geradores de renda disponível para assegurar a interatividade econômica, produção, distribuição, circulação e consumo, essência do capitalismo. Trata-se de equilíbrio dinâmico"
"Por fim, faz-se necessária (...) política cambial competitiva anti-populista. A moeda nacional ligeiramente desvalorizada para estimular exportações capazes de gerar superávits em contas correntes do balanço de pagamento ao lado de ajuste fiscal capaz de assegurar oferta e demanda com relativo controle de preços e juros no patamar internacional, mais uma margem de lucro para os investidores. Seria essa, diz Bresser, a alternativa capaz de recuperar sustentavelmente a indústria nacional, em bancarrota desde os anos 1990 (...). Com isso, destacou, será possível acumular, anos afora, superávits em contas correntes, como faz a China, faz mais de trinta anos, configurando o desenvolvimento capitalista de maior sucesso na história da humanidade, orientado pelo estado indutor desenvolvimentista (!)". 
Estes também sonham com a união cívico-militar
E, por último, esta pérola:
"Estado mínimo, como impõe os neoliberais, precisará ser removido com união cívico-militar, segundo o deputado Glauber Braga (PSOL-RJ)"[Já não bastaram os 21 anos perdidos devido à união cívico-militar de 1964? O PSOL também vai fazer o papel de vivandeira de quartel?!]
DENTRO DA IMANÊNCIA CAPITALISTA NÃO HÁ SALVAÇÃO
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Vamos destrinchar todo este besteirol cheirando a mofo e naftalina, começando por dizer que todo nacionalismo é xenófobo, ainda que envergonhado de tal condição. Historicamente, a defesa dos interesses nacionais, dentro da concorrência de mercado capitalista que criou o nacionalismo, significa que os nacionais devem ser protegidos contra o interesse econômico dos outros nacionais estrangeiros São, portanto, adversários e concorrentes implícitos, embora não o declarem.

O capitalismo não é imperialista apenas do ponto de vista da defesa dos interesses nacionais (que existem, obviamente), mas, principalmente, do interesse do capital. A globalização da economia nada mais é do que a migração do capital (sempre imperialista, seja ele privado ou estatal) em busca de horizontes de trabalho necessário (aquele remunerado) mais barato, para que possa obter um ganho com o trabalho excedente (trabalho não remunerado, que oportuniza a extração de mais-valia e acumulação do lucro).
Eis um nacionalismo que vingou no Brasil. Alguém o quer de volta?
A defesa de um nacionalismo sem xenofobia, além de representar contradição no seu objeto teleológico, representa também uma impossível tentativa de volta aos primórdios do capitalismo, quando os países que estatizaram as suas economias, orientados pela doxa socialista, fecharam-se nas suas fronteiras para se protegerem dos países capitalistas desenvolvidos (que tinham níveis de produtividade superiores). 

Tais nações obtiveram bons resultados iniciais, mas suas economias não conseguiram acompanhar as evoluções científicas e tecnológicas da segunda metade do século passado, acabando por abrirem-se ao mercado internacional . O capitalismo tem como senhor das ações a sua própria lógica vazia de sentido virtuoso, daí ser impossível domesticá-lo como querem os reformistas de esquerda.

Por outro lado a defesa do descongelamento dos gastos públicos (portanto, estatais) acarreta uma elevação de déficit público, que representa aumento da dívida pública (se não houver receitas estatais e continuarem os gastos públicos). Em resumo, o resultado final são mais juros da dívida a serem pagos pelo contribuinte. 
"O lucro empresarial precisa ser estimulado pelo Estado". Assim?
Ou seja, os reformistas keynesianos de esquerda querem manter os gastos públicos sem explicarem quem ou o que financia tais gastos. Aí, quando assumem o poder, cinicamente negam o seu discurso, mesmo porque no capitalismo, como dizia o economista burguês Milton Friedman, não há almoço grátis.

Mundialmente os salários decrescem por força da competitividade de mercado, que implica a busca da redução de gastos de produção, a qual somente é possível com a mecanização extrema da produção de mercadorias (que não produz valor) ou com a imposição de salários baixos (como ocorre atualmente na Índia, que é um dos poucos países a ter crescimento do PIB, 7,8% em 2016). 

Assim, como não se aumentam salários por decreto, a proposição da Frente Parlamentar de aumento de salários sem explicação consistente, ou apenas baseada num pretendido crescimento econômico (que ela espera obter com mais capitalismo), é uma falácia eleitoreira destinada a engambelar os agoniados trabalhadores nestes dias de penúria e desemprego estrutural.

As moedas representam (ou devem representar) um determinado quantitativo de valor oriundo do nível médio de remuneração do trabalho abstrato na produção de mercadorias. É graças a isto que os produtos chineses e indianos, fabricados com salários aviltados ao extremo, têm baixo valor (e, consequentemente, baixo preço), qualquer que seja o padrão monetário. Entretanto, a manipulação cambial, que contraria esta regra, é apenas mais um dos muitos engôdos da fratricida concorrência mundial de mercado, que visa ludibriar com fôlego curto as implacáveis regras da economia.
A política econômica dos frentistas dará certo... se eles dispuserem deste requisito fundamental.
Destarte, uma política cambial competitiva, como defende a Frente Parlamentar, é uma postura de capitalismo de cassino, na qual se quer usar artifícios econômicos que, ao invés de serem exaltados, deveriam é estar sendo denunciados como mais um dos muitos dos males do capitalismo. Os que pregam tal subterfúgio, certamente o recriminariam se adotado por seus concorrentes. A esperteza capitalista nunca leva a bons resultados...

O discurso contra o neoliberalismo e suas atrocidades não legitima o discurso keynesiano da tal Frente Parlamentar. Ambos são capitalistas e estão fadados ao fracasso (agora até no curto prazo). Ambos merecem ser rechaçados pelos revolucionários emancipacionistas, aqueles para quem é imperativo adotarmos um novo modo de produção (sem valor, dinheiro, mercadorias e trabalho abstrato) e uma organização social horizontalizada para superarmos as agruras hoje impostas à maioria da população brasileira e mundial.  

Somente o desconhecimento completo da economia política (ou, pior ainda, a desonestidade intelectual) é que pode admitir a equalização da luta de classes por meio do Estado (Roberto Requião), qualquer que seja o seu matiz ideológico e a partir da manutenção do capitalismo e da introdução de programas sociais pelo Estado que a ele serve (não a nós!). 
Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco

Vale lembrar que as demandas sociais no Brasil (e no mundo) estão sendo sucateadas exatamente pela falência do capitalismo e do seu Estado nacional arrecadador de impostos. As políticas econômicas desenvolvimentistas da Frente Parlamentar não passam de uma variante recauchutada daquilo que até Donald Trump defende: o desenvolvimento econômico, ou seja, mais capitalismo para salvar o capitalismo.   

As parcas franquias sociais, algumas meramente falaciosas, contidas na Constituição Federal de 1988, capitalista da sua essência constitutiva (e, portanto, opressora, por força do objeto final por ela defendido) estão sendo negadas na prática justamente pela incapacidade do Estado e da própria mediação social capitalista em distribuir riqueza abstrata (e agora até de produzi-la). Nenhuma Carta Magna capitalista e governo idem será capaz de suprir essa hipossuficiência, justamente porque o Estado não produz valor, mas apenas o regulamenta por meio do controle monetário.

A Frente Parlamentar propor ajuste fiscal humanizado é um acinte à nossa inteligência. Ajustar as receitas públicas decadentes aos custos da pesada máquina estatal (funcionários públicos, poderes institucionais, forças militares, etc.); aos pesados e crescentes juros da dívida pública; ao déficit previdenciário e ao suprimento das demandas sociais, significa cortar gastos naquilo que é economicamente possível. Então, acabam sendo sacrificadas as demandas sociais, cuja precarização se acentua a olhos vistos.
A China é exemplo do quê mesmo?!
Com a maior cara de pau, os frentistas defendem explicitamente o lucro empresarial (que só pode existir a partir da exploração da mais-valia exacerbada dos trabalhadores), afirmando que o lucro empresarial precisa ser estimulado para a promoção do equilíbrio econômico. Diante de tal despropósito, caso a articulação siga adiante com a participação de Lula e do Partido dos Trabalhadores, sugiro atualizarem nome do segundo, alterando-o, p. ex., para Partido dos Livres Empreendedores...

O PSOL também parece viver a mesma crise de identidade, a julgar pela exortação melodramática do deputado Glauber Braga: Precisamos evitar o estado mínimo antes que sejamos engolfados pelo vendaval neoliberal!. Como se o fortalecimento do estado burguês ou keynesiano estatizante fosse saída para nossos sofrimentos coletivos...

As aberrações culminam com o elogio à China, apontada como exemplo de maior desenvolvimento capitalista de sucesso na história da humanidade, a ser, portanto, seguido. Os autores parecem ignorar que a dívida pública e privada chinesa é de 270% do PIB em curva decrescente; a recente redução de sua nota de crédito pela agência de rating Moody’s deverá acarretar o próximo grande abalo do sistema financeiro internacional, muito maior do que o causado pela crise do sub-prime de 2008/2009 (que obrigou os Tesouros dos EUA e da União Europeia a taparem o buraco com moeda sem lastro, adiando o crash vindouro.

Ou Lula, Roberto Requião, Gleise Hoffmann, Glauber Braga, Bresser Pereira e demais reformistas desconhecem a essência da crise econômica acima exposta en passant, estando, portanto, desautorizados a conduzir os destinos da vida social brasileira nesses tempos sombrios, ou assim procedem por terem sido picados pela mosca azul do poder e dele não aceitarem ser desapeados, o que configuraria pura e simples desonestidade intelectual.

Dentro da imanência capitalista não há solução. Ou nós acabamos com o capitalismo ou ele acaba conosco.
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(por Dalton Rosado)

quinta-feira, 22 de junho de 2017

ARTIGO POLÊMICO SUSTENTA QUE O "ROUBA, MAS FAZ" VIROU UMA UNANIMIDADE NACIONAL

Por Celso Lungaretti
Mantendo a tradição de abrir espaço para visões surpreendentes e inusitadas da realidade brasileira, mesmo que parcialmente discrepantes dos posicionamentos assumidos pelos autores do blogue (como aqui se trava o bom combate, antípodas totais escritos que defendam abominações como o capitalismo, as ditaduras, a tortura, a destruição do meio ambiente, a pedofilia, etc. não fariam sentido publicarmos), o Náufrago reproduz nesta 5ª feira, 22, um texto dos mais polêmicos, na esperança de que sirva como um convite à reflexão e ao debate.

Até este que voz escreve teria objeções a fazer, discordando, p. ex., de que Lênin tenha sido um sanguinário cujos métodos só produziram o desastre. Mas, esta discussão seria longa e o objetivo deste post é estimular os leitores a se manifestarem, não o de reforçar aquilo que o blogue habitualmente sustenta.

O autor do artigo, Eugênio Bucci, dá aulas de graduação e pós-graduação na Escola de Comunicações e Artes da USP e integra o Conselho Deliberativo do Instituto Vladimir Herzog, entre outras atividades, tendo recebido em 2013 o Prêmio Esso de melhor contribuição à imprensa.  
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REENCARNAÇÕES DO ADEMARISMO
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Por Eugênio Bucci
À custa de golfadas de mau gosto, a República do Brasil se repete não como farsa, mas como paródia. Bordões de antigamente ressurgem, regurgitados, com um sentido ainda mais cínico. É o que se dá com a máxima ademarista do rouba, mas faz, um dos mitos fundadores da política pátria.

Dia sim, dia não, a velha máxima vem abduzir a agenda nacional. Não faz uma semana, houve até a necessidade de que alguém esclarecesse que a doutrina do rouba, mas faz não foi o Maluf que fez. Embora a mística ademarista pareça, por vezes, viajar de carona em hostes malufistas, a autoria da receita rouba, mas faz é anterior ao condenado de Paris. Talvez seja anterior ao próprio Ademar de Barros, que apenas teria encarnado, com seu discurso e sua prática inconfundível, um princípio já enraizado na malandragem que nutria desejo pelo fraque e pelo voto.

Em governos mais recentes, que acenavam do palanque com a mão esquerda e contavam as cédulas com a direita (não apenas cédulas eleitorais), o rouba, mas faz ganhou nova acepção: rouba, mas faz obra social. Como supostamente faziam obras sociais, os adeptos desse ademarismo reciclado teriam autorização tácita para financiar de modo, digamos, não contabilizado a subsistência luxuosa dos agentes e operadores das alegadas realizações progressistas. Forjou-se assim o ademarismo canhoto, cuja eficácia eleitoral se mostrou poderosa, embora tenha sido institucionalmente corrosivo.
Era no ladrão Ademar que Jânio prometia usar sua vassoura

Outra variante surge agora, no desembalo do governo Michel Temer. Os protagonistas da gestão que aí está não se esforçam quase nada em denotar lisura e conduta ilibada. Em compensação, declaram-se integralmente empenhados em fazer aprovar as tais reformas. Estaríamos vivendo, então, como já foi apontado, sob a égide do rouba, mas faz reforma

Podemos fazer um adendo. Como as reformas são de perfil ultraliberal – ou mesmo neoliberal, como vem sendo dito –, o ideário político que se vai delineando no interregno Temer poderia ser apelidado de neoliberademarismo (com o perdão da brutalidade vocabular). O neoliberademarismo funciona. No mínimo, funcionou para segurar até aqui o governo de Michel Temer, o que, convenhamos, é uma proeza.

Aliás, o próprio significado da palavra reforma passou por uma reforma radical. Até há bem pouco tempo o substantivo reforma servia como contraponto ao substantivo revolução – e era um termo de esquerda. Os reformistas eram socialistas sinceros, apenas não apostavam no uso da violência para, como gostavam de dizer, transformar a sociedade

Os reformistas eram ex-revolucionários adaptados a novos tempos. Os reformistas tinham rompido com o leninismo, não acreditavam mais em organizar o levante armado das massas e duvidavam da estratégia de pegar em armas. Preferiam investir na via eleitoral, dentro da legalidade burguesa, e disputar a hegemonia, mais ou menos como propôs Antonio Gramsci. 
Daniel Cohn Bendit, a liderança mais notória da chamada Primavera de Paris (1968).
Agora, a palavra reforma, que antes integrava o léxico da esquerda, migrou para a direita. Defender a reforma (ou reformas) no Brasil atual é alinhar-se com Michel Temer, o reformista mais aguerrido. De direita.

O dicionário político contemporâneo vem dando uma pirueta atrás da outra. A palavra revolução virou slogan de propaganda de automóvel na TV – e na lembrança de uns poucos é uma saudade remota. Nos anos 1980, que já vão longe, Daniel Cohn-Bendit, o Dany le Rouge, líder das ruas revoltosas de Paris em maio de 68, escreveu um livro para celebrar essa saudade: Nous l’avons tant aimée, la révolution. No Brasil, na mesma época, Fernando Gabeira lançou um livro em que ele e Cohn-Bendit dialogavam sobre a mesma nostalgia: Nós que amávamos tanto a revolução
Lênin: moralmente superior aos esquerdistas desvirtuados de hoje

Pobre esquerda. Sem o monopólio sobre a palavra reforma, e sem ilusões na palavra revolução, bifurcou-se: uma corrente ama a reforma socializante, que anda em baixa; a outra é essa que está aí a nos dever um novo livro: Nós que roubávamos tanto a revolução. E como roubaram.

Chegamos aqui a uma variante mais complexa. Os chupins da utopia alheia configuraram uma categoria política não mais canhota, mas canhestra: o ademarismo-leninismo. Em meio a tantas e tamanhas reviravoltas semântico-políticas, fragmentos ressequidos do pensamento instrumental de Vladimir Ilitch Ulianov Lenin comparecem hoje ao submundo de ademaristas que acham que são leninistas. Haja comédia de mau gosto.

Francamente, Lenin não merecia isso. Sabemos que ele jamais cultivou virtudes burguesas e não dava a mínima para os limites da legalidade. Sabemos que seus métodos sanguinários só produziram o desastre. Mesmo assim, Lenin foi moralmente superior aos ademaristas que o veneram secretamente. Nunca lhe ocorreu transformar o partido bolchevique em máquina de assaltar o erário.
Esta unanimidade nacional era preferível...

Em seu Esquerdismo, doença infantil do comunismo, publicado em 1920, Lenin admitiu expressamente que os comunistas deveriam conjugar a atividade legal (pública) e a atividade ilegal (clandestina), mas, para ele, a política definia-se pelas ações legais, públicas, e não pelas ações clandestinas. 

Ao comentar o caso do agente policial Roman Malinovski, que se infiltrou no partido e chegou a fazer parte do comitê central, ele reafirma que o que vale é a política implementada publicamente. Por isso, ele diz, até mesmo Malinovski, um espião inimigo, “se viu obrigado a contribuir para a educação de dezenas e dezenas de milhares de novos bolcheviques, através da imprensa legal (do partido)”.

Para Lenin, deixemos claro, a finalidade mais alta do partido era a política aberta, pública. Para o ademarismo-leninismo, ao contrário, a atividade pública do partido não passa de um atalho para a efetivação do roubo continuado. O que importa é privatizar o que é público, mesmo que para isso seja preciso fazer uma coisinha ou outra. 

À direita e à esquerda, quem diria, o ademarismo virou uma unanimidade nacional.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

EDITORIAL DO BLOGUE: O SUPREMO VAI DECIDIR ENTRE SERVIR À JUSTIÇA OU IGUALAR-SE AOS 'JUSTICEIROS' DE BAIRRO!

Por Celso Lungaretti
Hoje o Supremo Tribunal Federal tomará uma decisão vital para o destino do País: vai mostrar ao povo brasileiro se, além do pecado original de servir à perpetuação do sistema capitalista com toda a sua desigualdade econômica e injustiças sociais, não leva nem mesmo a democracia burguesa a sério.

Isto porque a delação premiada da quadrilha JBS foi um rosário de ilegalidades (vide aqui) e tem de obrigatoriamente ser anulada, caso a Constituição Federal de 1988 ainda esteja em vigor.

Avalizar arbitrariedades em nome do combate à corrupção será abrir as portas para o Estado policial. 
É este tipo de Justiça que o Brasil merece?!

Quanto ao ministro Edson Fachin, não é por meras tecnicalices que a dita delação tem de ser retirada de suas mãos, mas por haver deixado de se declarar impossibilitado de apreciá-la em função de suas notórias ligações perigosas de outrora com o barão da carne e seus comparsas. Simples assim.

Já temos um Executivo e um Legislativo desmoralizados. Agora o STF vai dizer se dele se pode esperar uma contribuição positiva para reduzir as tensões que ameaçam convulsionar o País ou cederá, como a Procuradoria-Geral da Justiça, à tentação de ir além do papel que lhe cabe como instrumento da Justiça, igualando-se aos justiceiros de bairro.

O TERROR DA CRISE CAPITALISTA E A ÚNICA SAÍDA POSSÍVEL

"Um cenário de crescimento ligeiramente em queda, frágil, fraco e certamente não alimentado pelo comércio" (Christine Lagarde, presidente do FMI, avaliando o momento econômico mundial)
.
Qualquer análise macroeconômica que se faça do capitalismo em 2017 vai apontar para um quadro de recessão mundial, independentemente das análises pessimistas de organismos como o Fundo Monetário Internacional e a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, insuspeitos de tendenciosidade ideológica já  que exercem funções de sustentação e positivação dos princípios capitalistas. 

Para citarmos apenas a América do Sul, constatamos que Brasil e Argentina, os países mais populosos e economicamente desenvolvidos do continente, amargam recessão econômica renitente nos últimos três anos. A Argentina registra queda no PIB (-2,8%) em 2014, crescimento (2,6%) em 2015 e nova queda (-2,1%) em 2016. E o  Brasil, crescimento (0,5%) em 2014, queda brusca (-3,8) em 2015 e nova queda (-,3,6%) em 2016.   

Os únicos indicadores favoráveis, como o crescimento de 7,8% no PIB indiano, se devem a um fato lamentável: somente está bombando a produção de artigos que requerem mão-de-obra humana em larga escala, e isto por causa da remuneração irrisória dos trabalhadores! O capitalismo expõe as suas vísceras apodrecidas quando a concorrência mundial de mercado exige o achatamento de salários ou a simples dispensa de trabalho abstrato nos setores produtivos nos quais as automações da produção se tornaram possíveis.  
Uma recessão econômica renitente fustiga o Brasil...

Apesar da depressão econômica evidente e da concentração de renda que se acentua, todos os partidos políticos, todas as instituições do Estado, bem como as entidades civis patronais e de trabalhadores, entoam, uníssonas, o mesmo mantra: é preciso promover o desenvolvimento econômico! 

Parece não incomodar a ninguém o fato de que é a própria lógica econômica que está impulsionando a crescimento da desigualdade. Hoje, oito homens detêm a mesma riqueza que as 3,6 bilhões de pessoas mais pobres do mundo; o 1% mais rico da população tem mai$ que os outros 99% juntos! 

E as pessoas não estabelecem nenhuma conexão entre o pretendido desenvolvimento econômico e a recente morte de 62 pessoas num incêndio florestal no coração de Portugal, causado pelo aquecimento global resultante da emissão desmedida de gás carbônico na atmosfera! Trata-se, evidentemente, de uma consequência da produção industrial e desmatamento irracionais; ainda assim, a democracia burguesa concede a um ridículo tirano ungido pelas urnas o direito de negar os sôfregos acordos internacionais de redução dessa emissão poluente suicida.     

O Brasil é um dos campeões em concentração de renda, na medida em que apenas seis pessoas bilionárias detêm a riqueza de quase 100 milhões de brasileiros empobrecidos. E elas ainda posam de beneméritos empregadores e empreendedores!
...e a Argentina, os dois gigantes da América do Sul.
Enquanto isso, o governo Temer, obedecendo ao comando do alto mundo empresarial e dos seus representantes no parlamento, conduz um ajuste fiscal no qual se priorizam medidas que congelam os investimentos em educação e saúde, cortam benefícios sociais e mudam o sistema das aposentadorias. Como sempre, a conta da crise e dos escorchantes juros da divida pública será paga com o sacrifício da população. Mantenha-se o Estado, ainda que o povo padeça! 

Diante deste quadro, quais são as saídas? 

O modelo de estruturação social capitalista, mercantil, atual, está fundado em dois pilares obsoletos:
a) o sistema produtor de mercadorias; 
b) a institucionalidade estatal que dá sustentação e indução ao sistema produtor de mercadorias
O sistema produtor de mercadorias é comprovadamente irracional, na medida em que apenas se utiliza da necessidade de consumo dos indivíduos sociais para dar azo ao objeto teleológico de reprodução aumentada da riqueza abstrata, predadora e concentradora, sem que se importe com os nocivos efeitos colaterais de seu desiderato autotélico.
Para o capitalismo, tudo é mercadoria. Até o crack.

É deste modo que tanto faz produzir pedras de crack, cocaína, bombas ou uma vacina: o objeto da produção é sempre o mesmo, qual seja a manutenção do ritmo crescente da produção de mercadorias, sem o qual o sistema capitalista não sobrevive. 

Agora, quando a produção de mercadorias atinge o seu limite expansionista (comprovado pela renitente estagnação do PIB mundial) e se torna incapaz de remunerar as dívidas pública e privada contraídas numa aposta de crescimento futuro que não vem nem virá, explicitam-se as crises nos vários setores: sistema financeiro internacional, desemprego estrutural, concentração de riqueza abstrata, aumento da divida pública e falência estatal, emissão de dinheiro sem valor causador de pressão inflacionária, etc. 

Mesmo assim, muitos continuam acreditando que a questão se restrinja apenas à questão da governabilidade, atribuindo ao Estado um poder político soberano que ele não tem. Daí cultivarem a ilusão de que os problemas sociais possam ser superados mediante iniciativas periféricas como a troca de governantes incapazes por governantes capazes; combate à corrupção; taxação de grandes fortunas; maior intervenção estatal na economia; eficiência na cobrança de impostos aos sonegadores e outras medidas administrativas, sem que se mexa no Santo Graal da vida social, o desenvolvimento econômico e sua lógica reificada que nos dá ordens suicidas
Trocar governantes incapazes por capazes? E lá eles existem?!
A questão que se coloca não é, obviamente, a boa escolha dos dirigentes governamentais, mas sim a própria superação do poder do Estado, preso a uma lógica da qual é dependente via cobrança de impostos. 

Não é, também, como querem tantos, uma melhora do nível de produtividade de mercadorias para a vitória na guerra da concorrência de mercado, pois isto vai acarretar sempre a derrota de outros, que verão aumentar os seus índices de miséria (o capitalismo é uma eterna batalha na qual os vencedores subjugam os vencidos.

Ao invés disso, cabe-nos superar tal busca de desenvolvimento econômico genocida e promovermos o desenvolvimento humano, que passa, inexoravelmente, pela superação do sistema produtor de mercadorias e pela priorização da produção de bens destinados à satisfação das necessidades, de modo ecologicamente racional.

É evidente que, com a superação das mercadorias, extinguir-se-ão a forma-valor e os impostos, bem como (por consequência) o Estado e suas instituições, da maneira como as conhecemos. Esta transformação, por mais irrealizável e estranha que possa parecer, está-se impondo como uma necessidade irrecusável pelo próprio empirismo da dinâmica capitalista em fim de feira.

Dizem que o pior cego é o que não quer ver. Está mais do que na hora de querermos ver.
. 
(por Dalton Rosado)
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