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segunda-feira, 15 de novembro de 2021

O DIA EM QUE MEU PAI DESACATOU UM TORTURADOR DA OBAN E QUASE FOI PRESO

S
e meu pai, Reynaldo Lungaretti, ainda fosse vivo, estaríamos comemorando seu 102º  aniversário. 

Nasceu em meados de novembro de 1919 e, como naquele tempo os cartórios tinham de fiar-se no que relatava o declarante, a data ficou sendo a da proclamação da República.. 

Os antigos achavam isso bonito, embora ainda não fosse um feriado. Nem ele nem nenhum dos parentes, inclusive a minha avó, sabia o dia certo. 

Morreu em 2003, após quatro derrames que o deixaram sem vontade nenhuma de prolongar uma existência agônica.

Já escrevi sobre ele (vide aqui), mas faço questão de lembrar a injustiça que sofreu em seus direitos trabalhistas e um episódio no qual ousou desacatar um torturador da ditadura. 

Começou a trabalhar (irregularmente) aos 11 anos de idade no Cotonifício Rodolfo Crespi, um marco da industrialização de São Paulo. Quando este pediu concordata em 1963 e em seguida encerrou atividades, tinha uma dinheirama a receber de aposentadoria.

A grana era descontada do salário mês a mês e tinha como depositária infiel a própria empresa, que raras vezes honrava integralmente seu débito: ou dava um chapéu nos trabalhadores ou lhes pagava quantia bem inferior. 

Foi o que aconteceu ao meu pai. Resistiu enquanto pôde a aceitar o acordo podre, mas, a partir do golpe de 1964, quando o patronato passou a ter a faca e o queijo na mão, insistir seria quixotesco. 

Acabou recebendo mais do que a maioria dos seus colegas, mas nem metade daquilo a que fazia jus. Serviu ao menos para (juntando com poupança e empréstimos levantados) finalmente sairmos do aluguel.

Sendo eu filho único, ele tudo fez para me dissuadir de trilhar o caminho dos revolucionários. Mas, nunca se queixou  de semana sim, semana não, já cinquentão, entrar na via Dutra de madrugada com seu fusquinha, visitar-me pela manhã  na PE da Vila Militar (só quando estava perto de ser libertado me transferiram para um quartel menos sinistro, o da Cavalaria) e pegar a estrada de volta logo em seguida, sem faltar uma vez sequer.

Dava para perceber que, no fundo, no fundo, me respeitava. Tanto que gostava muito de contar à parentela que, quando uma equipe da Operação Bandeirantes foi revistar nossa casa em plena madrugada, não achando nada de aproveitável, o comandante da operação disse à saída: "Tente convencê-lo a entregar-se, nós só queremos o bem dele".

Homem pacífico, que nunca superou totalmente o trauma de haver ficado órfão aos 11 anos de idade (meu avô paterno foi assassinado com um tiro nas costas por haver demitido um funcionário desordeiro da fábrica que gerenciava), ele daquela vez não se conteve: "E foi pelo bem do meu filho que vocês vieram nos tirar da cama trazendo toda essa artilharia?". 

Quase o levaram preso. (CL)   

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

SOBRE MÉDICOS, MONSTROS E MILITARES

O jornalista e escritor Carlos Heitor Cony voltou neste Natal a relembrar o episódio da ceia que um oficial do Exército compassivo proporcionou a intelectuais presos em 1968.

Já o evocara sete anos atrás na Folha Ilustrada mas, nesta época do ano em que nada de mais importante costuma ocorrer, somos mesmo obrigados a remexer o baú em busca de uma reminiscência aproveitável para bisar. 

Vou pegar carona, reproduzindo não só a lembrança do Cony, mas também uma minha, de preso político que não era intelectual nem famoso, mas também topei com militares de bom coração durante minha temporada no inferno.

Comecemos pelo Cony e seu Natal na PE da Vila Militar, que ainda era um quartel normal (só um ano mais tarde iria se transformar na sede do DOI-Codi): 
"...o comandante cujo nome não guardei, homem civilizado e gentil, surpreendeu a mim e ao Joel [Silveira] mandando vir, de sua casa, uma ceia completa, vinho, castanhas, fatias de peru, frutas, um cartão amável desejando não somente um feliz Natal mas uma rápida libertação".
Nas quatro prisões seguintes, entretanto, o clima mudou radicalmente:
"...ficamos conhecendo o outro lado daquela turma que nos prendia. Nem Joel nem eu fomos torturados, mas passávamos a noite ouvindo os gritos dos torturados. 
Na hora das refeições, antes de chegar a comida, chegavam dois tipos de homens diferentes, verdadeiros armários que apontavam as armas enquanto comíamos não a comida normal dos quartéis, mas uma pasta que parecia os restos de outras refeições.

Nenhum diálogo, apenas ameaças. Nem banho de sol, obrigatório pela Convenção de Genebra. Nem visitas, nenhum contato com o mundo exterior, nem mesmo com a família, que não sabia onde estávamos e se estávamos vivos".
Terrorismo de estado atingiu auge com Médici
Traçando um paralelo com a obra clássica de Robert Louis Stevenson, ele avaliou que "a poção mágica do poder" transformou os militares, de médicos em monstros. Supostamente, a partir do AI-5, promulgado em dezembro/1968.

As minhas próprias recordações me levam a considerar um tanto mecânica a análise de Cony. 

Sequestrado (aquilo lá nem de longe respeitava os trâmites legais de uma detenção) em abril/1970, eu só deveria ter conhecido monstros. Mas, restavam alguns médicos.

E não só os bons recrutas que, compadecidos de nossa situação, arriscavam-se a severas punições para nos prestarem pequenos favores e até davam um jeito de aumentar a quantidade de comida no bandejão que nos serviam, por perceberem que estávamos desnutridos.

Mesmo entre oficiais encontrávamos um pouco de solidariedade; com maior frequência quando se tratava de  veteranos que tinham aprendido seu ofício em tempos menos bicudos. Para estes,  honra militar  não era uma expressão em desuso.

Quem passara pelos campos de batalha da 2ª Guerra Mundial, geralmente não via com bons olhos a brutalidade amoral dos novos capitães e tenentes, dispostos a tudo para conseguirem promoções e prêmios. Davam a entender, contudo, que eram impotentes para evitar os excessos. A bestialidade viera para ficar.
Este acidente despertou suspeitas à época
A velha guarda castellista (os seguidores de Castello Branco, o primeiro general ditador, que ingenuamente pretendia devolver o poder aos civis após uma limpeza de área autoritária) torcia o nariz, mas era só o que podia fazer, pois perdera a parada na disputa interna da caserna. A linha dura apertava cada vez mais o torniquete.

Quando foi relaxada a primeira das três prisões preventivas que me mantinham prisioneiro, transferiram-me do quartel da PE da Vila Militar, um dos piores que existiam, para o que, por contraste, pareceu-me um hotel: o Regimento Escola de Cavalaria.

TEMPO DE OGROS

Como companheiro de quarto – não era exatamente uma cela, embora tivesse grades na janela –, um professor que não havia participado da luta armada mas, mesmo assim, levara choques elétricos tão terríveis na PE da Vila Militar que tinha os ossos dos dedos da mão expostos.

Deduzi que ambos sairíamos em breve. Os militares se preocupavam com tais detalhes, como o de não despejar nas ruas pessoas que parecessem ter saído de um campo de concentração nazista. Representariam a prova viva do que sucedia nos porões. Então, costumavam recuperar um pouco os presos, fisica e psicologicamente, às vésperas da libertação.
Não fiquei agradecido pelo tratamento menos desumano. Refleti que os oficiais médicos estavam desempenhando um papel determinado pelos alto comando, da mesma forma que seus colegas do DOI-Codi esmeravam-se em representar ogros.

Como única ressalva, eu admitia que os oficiais se direcionassem para a Cavalaria exatamente por terem um perfil mais afável (tanto que gostavam de animais), ao passo que iam para a infantaria os naturalmente insensíveis; e os piores deles, para a Polícia do Exército. Então, nos três casos, a escolha da unidade levava em conta o physique du rôle.

Mas, houve um oficial que me pareceu ir além do script: o comandante do regimento, coronel Sebastião José Ramos de Castro, sintomaticamente um veterano da Força Expedicionária Brasileira que foi à Europa lutar contra o nazi-fascismo.

Em dezembro/1969, as visitas dos parentes de presos políticos estavam todas suspensas na Vila Militar do RJ, em função do sequestro do embaixador suíço. O cel. Castro abriu-nos uma exceção no Natal. Meus pais ficaram comovidos, pois a festa estaria estragada para eles se não vissem o filho único.

Fiquei com a impressão de ter sido uma decisão pessoal, não uma encenação a mais. O jeitão, a forma de falar, o tratamento respeitoso adotado com seus subalternos, tudo naquele oficial compunha a imagem de homem digno, capaz de uma atitude dessas.

Voltando ao dr. Jeckyll e Mr. Hide, faz sentido supor que, mesmo no pior momento do terrorismo de estado, as Forças Armadas continuassem tendo seus médicos, além dos monstros (que davam muito mais na vista). 

E, principalmente, indivíduos comuns, que não eram uma coisa nem outra, mas perceberam que, naquele momento, seus interesses estariam melhor servidos se deixassem aflorar as componentes monstruosas de sua personalidade, pois era isto que deles se esperava.

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