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quarta-feira, 12 de maio de 2021

"O TREM DE LÊNIN" O MOSTRA COMO UM PERSONAGEM HISTÓRICO COM INERENTES CONTRADIÇÕES, NÃO COMO UMA ESTÁTUA

Ben Kingsley ora parece mesmo Lenin...
F
oi uma grata surpresa encontrar disponibilizado no Youtube um filme equilibrado sobre episódio revolucionário e com a assinatura de um cineasta competente.

Infelizmente, são raros. A maioria é de obras menores, reverentes em demasia, apologéticas e louvaminhas, como se grandes homens não fossem contraditórios tais quais todos somos, embora tendo momentos de intenso brilho, quando chegam a fazer a diferença para que os acontecimentos históricos se encaminhem numa ou noutra direção. 

Mas, Damiano Damiani não era um diretor e roteirista qualquer. Depois de mais de uma década criando argumentos ou adaptando, dos livros para as telas, criações alheias, estreou na direção em 1960, incursionando pelas comédias à italiana, e depois chamou a atenção da crítica com um drama inspirado em Alberto Moravia (Vidas Vazias, 1963). 

Finalmente, encontrou seu nicho com Gringo (1967) e O dia da coruja (1968): westerns e policiais na linha da contestação política, sintonizados com aquele momento em que a juventude ia às ruas protestar e erguer barricadas contra a desumanidade capitalista e o desencanto que lhe causava o autoritário e burocratizado socialismo real.

Tal fase, que vai até 1985, deixou como saldo filmes dignos e desmistificadores, que eram compreensíveis para,  e apreciados por, públicos menos sofisticados que os dos chamados filmes de arte, curtidos pela intelectualidade; mas, algo repetitivos, tipo viu um, viu todos
...ora está mais para Mahatma Ulianov.

Dois foram de qualidade superior e mereceriam ser mais conhecidos pelas novas gerações:
Confissões de um comissário ao procurador-geral da república (1971) e Só resta esquecer (a.k.a. Todos estamos em liberdade condicional, 1971).

Quando os ventos de mudança não mais sopravam na Europa, Damiani fez alguns filmes relacionados a episódios históricos, inclusive o injustamente ignorado A investigação (1987, sobre a faina de um romano enviado pelo imperador Tibério para descobrir o cadáver de Jesus Cristo e, assim, desmentir sua ressurreição.

Na mesma linha está o filme para ver no blog a que os leitores podem assistir, legendado, nas janelinhas abaixo: as duas parte da minissérie O trem de Lenin (1988), totalizando 206 minutos.

Mostra a célebre viagem de Lenin para voltar em segurança do seu exílio suíço para a Rússia em 1917, depois que o czar Nicolau II abdicou como consequência dos protestos populares iniciados pelos operários de São Petersburgo e que se espalharam pelo país (a chamada revolução de fevereiro, que levou ao poder um governo provisório formado por representantes da nobreza e da burguesia, ao lado de socialistas moderados). 

Face à dificuldade para chegar ao seu país em meio às batalhas da 1ª Guerra Mundial, Lenin (Ben Kingsley, geralmente correto, mas às vezes com cacoetes remanescentes do personagem que o celebrizou, Gandhi) aceita uma proposta do aventureiro Parvus (Timothy West), um gênio sem caráter que inspirara Trotsky na criação da teoria da revolução permanente,  depois se afastara dos revolucionários russos e fora utilizar seus talentos para enriquecer na vida.
Lênin correu riscos e fez a revolução. Martov
refugou e foi para a lata de lixo da História

Parvus convencera o governo da Alemanha a facilitar a passagem de Lenin por seu território, para que, de novo na Rússia, ele entrasse em choque com o governo provisório, enfraquecendo-o. 

A suposição germânica era a de que tal divisão acabasse levando os russos a firmarem uma paz em separado, liberando os alemães para utilizarem seus efetivos no front ocidental.

Astuto, Lenin avalia que era fundamental estar presente no seu país o quanto antes, pois se abria uma janela revolucionária capaz de propiciar a concretização dos ideais que vinham sendo a razão maior de sua existência havia um quarto de século. Mas, ser-lhe-ia inconveniente retornar como um personagem que os adversários poderiam qualificar de espião alemão.

Então, negociou com os ditos cujos a inclusão de outros exilados na viagem, exatamente para não parecer o trem do Lênin e sim o trem dos russos. Oferecendo um lugar até para adversários como os mencheviques (Martov interpretado por Wolfgang Gasser, esperou para ver se a aventura não era uma cilada, tendo depois de correr atrás do prejuízo, obrigado a negociar outra viagem para ele e os seus). 

O trem acabou partindo com 32 passageiros especiais, que viajaram separados dos demais, mas não como peste confinada num vagão lacrado, conforme ironizou Winston Churchill. 

É fascinante ver:
A bela feminista, a lenda viva e a esposa condescendente
— os dotes de grande estrategista e orador de Lenin, que consegue superar brilhantemente a maioria das situações delicadas para o propósito do grupo, não hesitando em decepcionar seus admiradores em estações pelas quais o trem passa, por temer que suas aclamações deem pretexto para os alemães interromperem a viagem;
— seu desapego pessoal, a ponto de ser obrigado pelos companheiros a tomar banho de loja para não chegar a Petersburgo parecendo um mendigo e, pior, sofrendo com ataques de uma doença que ocultava penosamente porque lançaria uma nuvem negra sobre seu futuro político (há dúvidas sobre se seria ou não uma sífilis mal curada, mas a versão oficial acabou sendo a de que ele decaiu rapidamente nos dois anos finais por causa de uma aterosclerose progressiva);
— sua relação complicada com Inessa Armand, revolucionária, feminista, formada em economia e que escrevia sobre literatura (Dominique Sanda), uma mulher à frente do seu tempo, que tudo indica ter sido mesmo amante de Lênin, embora isto haja sido provavelmente deletado das biografias da era stalinista para não admitir-se a existência de uma nuance humana no revolucionário perfeito; e
— a resignação com que Zinoviev (Paolo Bonacelli) e a esposa Nadia Krupskaya (Leslie Caron) aceitam tudo que parta do grande homem, mesmo quando tal subserviência lhes é constrangedora, exatamente como age hoje o séquito do Lula no PT...

Gente de verdade é assim, tem necessidades humanas, não está fazendo História o tempo todo. Estátuas imponentes só servem para enfeitar (ou enfear) as praças públicas. (por Celso Lungaretti)

domingo, 12 de julho de 2020

AS SEMENTES REVOLUCIONÁRIAS JAMAIS SÃO PLANTADAS EM VÃO – 1

dalton rosado
O PROCESSO DIALÉTICO HISTÓRICO DA EMANCIPAÇÃO POPULAR
As revoluções comportamentais das sociedades, principalmente aquelas que dizem respeito ao modo social de produção dos meios de subsistência, não se dão de modo cirúrgico.

Elas obedecem a um processo histórico que depende do grau de condições objetivas (teóricas e práticas) para a sua consolidação. Como processo que é, está em constante mutação, no que Friedrich Engels chamou de dialética do movimento

Assim, o movimento armado que se contrapôs heroicamente à ditadura militar quando esta, a partir da assinatura do AI-5 (dezembro/1968), direcionava-se para o terrorismo de Estado pleno, não morreu juntamente com seus mártires, posto que a sua análise histórica, hoje, ganha contornos de avaliação contextual educativa.

Os exemplos históricos da luta pela emancipação que marcaram, cada um, a sua época, mesmo que tenham sido sufocados pelas circunstâncias históricas, não se encerram em si.

Eles deixam sementes revolucionárias que, em algum momento da História, deverão frutificar. É o processo dialético da tese e da antítese que desemboca na síntese; tal processo não se conta em dias e horas de uma vida humana, mas no tempo histórico das mutações sociais. 

Vale lembrar, à guisa de exemplo, a trajetória da 1ª Internacional dos Trabalhadores

Criada sob a orientação de Karl Marx e Friedrich Engels em setembro de 1864 (momento histórico no qual ocorria a primeira grande revolução industrial na Inglaterra), ganhou um bom impulso inicial em função da miséria a que eram submetidos os trabalhadores.

Contudo, posteriormente foi esvaziando-se e acabou dissolvida pela ação violenta da repressão do Estado burguês emergente, combinada com algumas concessões do capital (um trunfo os qual os países capitalistas dominantes sempre podem recorrer em momentos estratégicos).

Mas os seus ensinamentos deixaram marcas profundas na consciência revolucionária, que iriam aglutinar forças para, meio século depois, o ímpeto transformador da sociedade renascer das cinzas com a revolução soviética de 1917 na Rússia, cujos fundamentos doutrinários leninistas e trotskistas se embasaram no chamado marxismo tradicional

Podemos considerar que a eclosão da revolução bolchevique (que instituiu o primeiro Estado expropriador dos meios de produção capitalistas privados para torná-los propriedade estatal sob os mesmos critérios de produção de valor e extração de mais-valia, agora e então patrocinados pelo patrão Estado) é um exemplo das marchas e contramarchas da humanidade buscando romper com um passado de escravização dos que somente possuem na vida a sua força física de produção, sem riqueza abstrata nem poder político. 
Os paradoxos desse itinerário de avanços e recuos civilizatórios devem ser compreendidos no seu processo dialético histórico, sob pena de fazermos uma leitura precipitada e equivocada de cada acontecimento, sem compreendê-los na sua verdadeira dimensão.

O exemplo atual da China (país gigantesco, tanto do ponto de vista territorial quanto do de seu contingente populacional, e agora com importância econômica), é bem ilustrativo, se fizermos a leitura correta de tudo que a inserção chinesa no contexto capitalista mundial está a provocar. 

A China, que fez a revolução marxista-leninista em 1949, logo após a 2ª Guerra Mundial e ainda sob os efeitos da divisão mundial entre os projetos políticos dos países aliados (que gerou a tensão da guerra fria, explicitada pela Guerra da Coreia em 1950-53 e posterior divisão desta nação em duas,uma dita comunista e a outra capitalista), tem hoje relevância no cenário internacional. 

Mas, paradoxalmente, a ela não chegou pelo caminho preconizado por Marx e Engels (de gradativa superação e supressão do Estado, do partido político revolucionário e das classes sociais), mas justamente pela intensificação das categorias capitalistas que deveriam servir-lhe apenas durante a transição para a sociedade comunista. 

Deveria solapar o capitalismo com exemplos práticos da superação das categorias fundantes de tal modo de relação social (valor monetário, trabalho abstrato, dinheiro, mercadorias, mercado, Estado, política, etc.) e encaminhar, progressivamente, a sua completa extinção. 

Fez, no entanto, o caminho inverso, ou seja, intensificou, ao seu modo, a positivação dessas categorias para tornar-se uma gigante do capitalismo mundial (mesmo que com os pés de barro, graças à sua colossal dívida pública e privada).

E tudo ocorre sob o manto de um Estado e de um partido que se dizem comunistas e marxistas. É um paradoxo total.

De resto, o mesmo aconteceu com a União Soviética, de forma menos estridente. 

Mas, o processo dialético histórico escreve certo por linhas tortas, e mantém a sua rota inexorável de eterna busca de novos horizontes e sepultamento da velharia social que a cada movimento se torna obsoleta. O que podemos, então, inferir do caso chinês?

Ao ofertar mão-de-obra escrava abundante, a preços inimagináveis para os padrões capitalistas dos países dominantes, e favorecer ao máximo a reprodução do capital internacional em seu território, a China forçou a migração do grande capital industrial para lá, facilitada pelo crédito fácil de um sistema de crédito bancário internacional carente de exploração de juros. Ou seja, juntou-se a fome com a vontade de comer. 

Estava criada a globalização da produção de mercadorias, ao invés de sua superação, possibilidade contra a qual Karl Marx advertira logo no 1º capítulo de O Capital. E por um país que intitula a si próprio de comunista!  (por Dalton Rosado) 
(continua neste post)

terça-feira, 15 de outubro de 2019

OS REVOLUCIONÁRIOS EMANCIPACIONISTAS HERDARAM A TAREFA DE CONCLUÍREM A OBRA BOLCHEVIQUE DE 1917 – final

(continuação deste post)
Santos Dumont se desencantou com o uso dos aviões na guerra
CONTEÚDO DA 4ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL – A ciência evolui com a agregação de saberes que se somam uns aos outros continuamente. Isto ocorre desde que os seres humanos descobriram o fogo e a roda, com suas múltiplas utilidades e capacidades, até a atual Inteligência artificial da 4ª Revolução Industrial

As técnicas da ciência, em si, são facilitadoras da existência humana. Contudo, ao longo da história da escravização dos seres humanos, ela tem servido a interesses desumanos.

Sabe-se que Alberto Santos Dumont, inventor do avião, deixou boquiabertos ao parisienses ao contornar a Torre Eiffel no seu dirigível nº 6, em 1901, tornando-se a personalidade mais importante daquele início do século 20. Era a primeira vez que um objeto mais pesado do que o ar e impulsionado apenas por um motor saía do chão e ganhava os ares. 

Mas, foi o interesse bélico da 1ª Guerra Mundial que impulsionou o avanço tecnológico aeronáutico, pois com os aviões se podia bombardear o inimigo. 

Sabe-se, também, que o uso do avião como instrumento da morte deixou Santos Dumont profundamente deprimido, julgando ter contribuído (sem razão direta, nem intencional), com seu invento, para tal carnificina.
Radar primitivo dos britânicos na 2ª Guerra Mundial 

Igualmente, a  Guerra Mundial levou os ingleses a desenvolverem o radar, mas nem por isto um conflito daqueles pode ser tido como proveitoso.

Seguindo a mesma linha de raciocínio, o capitalismo nem de longe deve ser visto como saudável e socialmente contributivo em função dos avanços tecnológicos que trouxe na sua esteira, até porque eles estavam originalmente voltados para a opressão, a segregação e a guerra. 

A ciência não tem nada a ver com o seu uso indevido.

Vale acrescentar também que, sob o capitalismo, os ganhos tecnológicos coexistem de forma perturbadora com as agressões ecológicas.

Os avanços da ciência, principalmente no campo armamentista, têm viabilizado a imposição da subjugação implícita ou explícita do capital, que forçou a ferro e fogo a introdução social da venda do esforço de produção humana (força de trabalho) como se isso fosse coisa natural, o que não é.  

De maneira predominante, o vertiginoso desenvolvimento da ciência nos dois últimos séculos, serviu muito mais à subjugação própria ao sistema da economia abstrata empresarial do que à vida humana.
O progresso tido como uma ameaça: das fantasias sobre robôs...
Mas, afinal, o feitiço pode se voltar contra o feiticeiro (o capital), a menos que não se inverta esse tendência histórica.

A atual combinação de Inteligência Artificial, robótica, nanotecnologia e biotecnologia, que compõem o quadro da 4ª Revolução Industrial, está, como nunca antes se viu sob a face da Terra, sob os ditames absolutistas e destrutivos da lógica capitalista ultrapassada, provocando conflitos sociais e ecológicos, dos quais deverão resultar:
— ou a destruição da vida animal e vegetal planetária; 
— ou a superação da irracionalidade do modo de produção capitalista. 

A superação de tal irracionalidade,  para que fiquemos apenas com o que este estágio sem volta de inimagináveis progressos científicos nos trouxe de positivo, só será possível sob outro contrato social, no qual a tecnologia sirva à vida e não à sua destruição.

O modo de produção social capitalista se tornou incompatível com a capacidade de produção de bens de consumo e serviços a partir do estágio de produtividade proporcionado pelos inventos conjugados da 3ª e 4ª revoluções industriais, mas os feiticeiros do capital continuam tentando fazer o sapato caber no pé, independentemente de o segundo ter crescido muito além do que o primeiro comporta. 
...à realidade do desemprego estrutural.

O desemprego estrutural é a face visível de uma situação trágica e desesperadora para bilhões de pessoas mundo afora, mas também pode ser o fator de indução à tomada de iniciativas sociais que promovam mecanismos de satisfação de necessidades sociais, independentemente da aceitação de teorias sociais que negam a validade da mediação social pela forma-valor, ou ainda, tornando estas teorias mais compreensíveis e aceitáveis. 

Sabe-se que o processo de desemprego proporcionado pelo uso cada vez maior da tecnologia de ponta aplicada à produção é irreversível e crescente. Segundo estudos da Oxford Martin School cerca de 47% dos empregos nos EUA desaparecerão antes de 2030. 

Já a Organização Internacional do Trabalho e a Consultoria McKinsey, organismos de insuspeita ligação com o mundo capitalista, calculam que de 400 a 800 milhões de pessoas perderão seus empregos no mesmo período no mesmo período.

O empresariado busca saídas dentro da imanência capitalista mas crescem as falências,  com grande parte das empresas sucumbindo a esse processo de canibalismo concorrencial, no qual os mais fortes devoram os mais fracos e, ao mesmo tempo, fragilizam-se diante de uma perspectiva sombria de redução do consumo e da necessidade imperiosa de uma expansão tornada impossível.
O Titanic capitalista vai ao encontro do iceberg, mas ainda dá tempo para nos salvarmos!
Por sua vez, os políticos e seus partidos, bem como toda a institucionalidade estatal dependente de uma relação social anêmica, querem dar sustentação ao insustentável, como se os analgésicos que mascaram momentaneamente os sintomas pudessem curar a doença. 

Quando se lhes afirma que a saída é produzir para dar, eles preferem tergiversar, dispostos que estão a acompanharem o Titanic capitalista em todas as etapas do inevitável naufrágio, ao invés de aderirem a um modo de produção quee elimine a segregação social desde a sua origem.

Agem assim mesmo diante da catástrofe ecológica que os atinge, até que se consume a sua irreversibilidade.

Caberá a nós, os revolucionários emancipacionistas, junto com a força da necessidade e da consciência popular induzida, complementar o que os bolcheviques fizeram em 1917.

Mas, agora, com a consciência de que devemos superar de uma vez por todas as categorias capitalistas, sem nenhuma veleidade de tentar administrá-las.

Ainda dá tempo!!! (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

OS REVOLUCIONÁRIOS EMANCIPACIONISTAS HERDARAM A TAREFA DE CONCLUÍREM A OBRA BOLCHEVIQUE DE 1917 – parte 1

dalton rosado
O CAPITAL SOB A 4ª REVOLUÇÃO INDUSTRIAL
"Pensar em criar empregos neste limite crítico
do capitalismo é o mesmo que rezar
um pai-nosso no inferno"
(Marildo Menegat)
O primeiro passo para segregação social foi dado quando os homens mais fortes (que eram mais habilitados para a caça, coleta de frutos, pesca, etc.) passaram a sentir-se com direito a privilégios, em detrimento de uma contribuição social coletiva despretensiosa. 

O conceito de valor nasceu justamente aí, uma vez que os bens produzidos deixaram de ser coletivos e passaram a ser propriedade de quem os produziu; assim nasceu o escambo, que implicita a ideia de valor econômico na troca quantificada.

Capacidade de produção individual passou a ser critério de poder individual, com a escravização direta dos seres humanos submetidos a outros que detinham a força sendo a decorrência conceitual do novo modo de produção social.

O valor, portanto, está indissociavelmente ligado à segregação social e à participação da máquina humana (assim considerada pelos escravizadores como modo de produção de objetos transformados em mercadorias, com valor de uso e valor de troca). 

A socialização da produção por tais critérios representou, e ainda representa, a riqueza de uns em detrimento de outros, que são condenados à pobreza. Simples assim.

Quando essa máquina humana escravizada (diretamente ou via subterfúgios salariais) vai deixando de ser fundamental e passa a excluir contingentes humanos cada vez maiores, a consequência é esse desemprego estrutural que nos fustiga agora. O próprio valor não mais se sustenta como relação social que é. 

Com ele entra em colapso toda a forma de relação social criada a partir de seu critério autotélico e vazio de sentido humano. É o que está acontecendo agora, em ritmo acelerado.

Acentua-se nesse estágio das relações de produção a contradição entre forma (meio de produção) e conteúdo (modo de produção). A partir desse momento de saturação, torna-se imperativa a afirmação de uma nova relação social de produção, baseada em novos critérios.

O valor econômico escraviza. O mundo de hoje anseia por liberdade (ainda que não saiba bem como conquistá-la). Logo, o valor tem de ser superado como construção histórica que é, pois está fechando o seu ciclo de nascimento, vida e morte, que é bastante curto se considerarmos o itinerário dos humanos no nosso planeta.

Do início embrionário, cujos sintomas mais evidentes apareceram na polis grega pelo comércio de mercadorias com as milhares de ilhas da região que necessitavam de um meio representativo da valor que pudesse ser mais facilmente manuseado (nascimento das moedas como dinheiro, representação física do valor) até a moeda eletrônica de hoje, muitas mudanças de forma se operaram e se aperfeiçoaram, sem, entretanto, mudar o conteúdo de tais relações sociais. 
O que está forçando a mudança de conteúdo desse modo de relação social que nos últimos milênios transformou os seres humanos em máquinas de produção de valor (trabalho vivo), é a sua substituição predominante por máquinas de produção tecnológicas (trabalho morto), inicialmente operada pela revolução industrial da microeletrônica iniciada na década de 1970. Era a chamada 3ª revolução industrial, que agora dá lugar à 4ªa da Inteligência Artificial.

A subjetividade revolucionária de quantos deram as suas vidas ou viram-nas despedaçadas na luta contra a segregação social (fazendo-se merecedores de nosso reconhecimento por seu heroísmo e espírito de sacrifício) não foi capaz de conduzir vitoriosamente a humanidade pelos caminhos da revolução contra a tirania da segregação social, embora isto pudesse ter acontecido se houvessem sido compreendidos os ensinamentos do Marx esotérico.

Mas, os próprios fundamentos contraditórios desse modo de relação social, conforme Marx previa, conduziram ao ocaso as relações capitalistas de produção e estão demonstrando a necessidade de sua superação, sob pena de sucumbirmos como espécie. (por Dalton Rosado)
(continua neste post)

domingo, 2 de dezembro de 2018

DOS SANS CULLOTES AOS COLETES AMARELOS

As barricadas parisienses de maio de 1968...
Por um capricho da História, as efemérides dos dois marcos revolucionários mais significativos do século 20 se sucederam entre novembro/2017 e maio/2018, como que nos convidando a refletir sobre ambos.

A revolução russa de 1917 foi a mais clássica das revoluções inspiradas pelo marxismo – e também o divisor de águas entre os ideais românticos do século 19 e uma tentativa de atualização que produziria um épico... desvirtuamento!

Até a Comuna de Paris (1871), o avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

ancien régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
...e as da Comuna de Paris, em 1871.

Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista: necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.
Lênin e Trotsky: enormes acertos e alguns erros.
Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. Em momentos críticos, poucos militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes pesam muito mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: "Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central".

O certo é que a Rússia foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 

— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;

— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;

— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
A liberdade guiando o povo (versão 1968)

— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a Rússia tendo de, em 1918-1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, Judiciário ou Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.
Uma nova esquerda despontou em 2013. E foi tratada a pontapés pela velha...
Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando a década atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.
Este título de livro se revelará profético?

Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como de 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados meio século depois, por que não? 

O certo é que, se tal acontecer, há uma grande chance de a centelha revolucionária novamente provir da França, quem sabe tendo manifestantes com coletes amarelos a empunharem a tocha libertária dos sans cullotes (*) de outrora... (por Celso Lungaretti)
.
* Sans-culottes (sem calção) era como os aristocratas denominavam, pejorativamente, os artesãos, trabalhadores e pequenos proprietários participantes da Grande Revolução Francesa. Os culotes eram uma espécie de calções justos que se apertavam na altura dos joelhos, vestimenta típica da nobreza. Já os sans-culottes, que vestiam uma calça comprida de algodão grosseiro, geralmente lideravam as manifestações nas ruas.

sábado, 30 de dezembro de 2017

1968 NÃO TERMINOU: OS FIOS DA HISTÓRIA PODERÃO ATÉ SER REATADOS MEIO SÉCULO DEPOIS, POR QUE NÃO?

OS 50 ANOS DA PRIMAVERA DE PARIS
As barricadas parisienses de maio de 1968...
Por um capricho da História, as efemérides dos dois marcos revolucionários mais significativos do século 20 agora se sucederam, como que nos convidando a refletir sobre ambos.

A revolução russa de 1917 foi a mais clássica das revoluções inspiradas pelo marxismo – e também o divisor de águas entre os ideais românticos do século 19 e uma tentativa de atualização que produziria um épico... desvirtuamento!

Até a Comuna de Paris (1871), o avanço crescente das lutas do proletariado parecia indicar que a profecia de Karl Marx se concretizaria, com uma onda revolucionária varrendo o mundo de forma quase espontânea, como resultado do esgotamento do capitalismo e da necessidade de sua substituição por uma forma mais avançada de organização da sociedade.

O ancien régime, no entanto, contou com o braço forte da Alemanha para retomar o controle da situação e massacrar os communards, com as baixas refletindo bem a desigualdade que marcou o enfrentamento entre as tropas da reação (100 mil soldados) e os defensores da primeira república proletária da História (menos de 15 mil milicianos): foram mil os mortos do lado vencedor e 80 mil dentre os perdedores. Ai dos vencidos!
...e as da Comuna de Paris, em 1871.

Marx concluiu que os inexperientes revolucionários haviam sido tímidos demais, deixando, p. ex., de quebrar a máquina burocrática e militar do Estado enquanto podiam. 

E ficou evidenciado que os governos de países capitalistas acudiam prontamente seus congêneres ameaçados por revoluções, enquanto a solidariedade do proletariado internacional demorava a se organizar.

Lênin foi além, priorizando a estruturação de um partido revolucionário duro, que funcionasse com uma disciplina quase militar, apto a assumir a liderança dos trabalhadores nos momentos agudos para direcionar corretamente sua ação. 

Sua concepção vanguardista levava em conta, também, o surgimento de opositores relevantes no campo da esquerda: os adepto do reformismo, para o qual tendia naturalmente a chamada aristocracia proletária (os operários com cargos superiores e salários mais elevados).  

Constatando que a perspectiva de melhorarem progressivamente de vida sob o capitalismo, sem revolução nenhuma, seduzia muitos trabalhadores, Lênin chegou à conclusão de que o proletariado não se compenetraria espontaneamente de que seu papel histórico era o de dar um fim à exploração capitalista: necessitava de uma vanguarda que, participando com ele das lutas por ganhos materiais, lhe fosse incutindo a compreensão de que as eventuais vitórias eram ilusórias e logo se dissipariam, daí a necessidade de uma profunda e definitiva transformação da sociedade para que as conquistas se eternizassem.
Lênin e Trotsky: enormes acertos e alguns erros.
Lênin estava certo em termos de eficácia: só um partido como o Bolchevique conseguiria tomar o poder em novembro de 1917, apesar de contar com efetivos bem menores do que os de seus competidores do campo da esquerda. Em momentos críticos, poucos militantes que sabem o que querem, estão dispostos a irem até o fim e obedecem sem pestanejar a comandantes capazes pesam muito mais do que muita gente confusa, sem grande determinação nem líderes à altura dos acontecimentos.

Mas, a profecia de Trotsky sobre a maldição do vanguardismo, lançada no tempo em que ele ainda se opunha aos bolcheviques, também se revelou correta: "Primeiramente, o partido substitui o proletariado. Depois, o Comitê Central substitui o partido. Finalmente, um tirano substitui o Comitê Central".

O certo é que a Rússia foi se tornando um mero capitalismo de Estado totalitário: 

— seja porque a vanguarda bolchevique incubava mesmo uma nomenklatura ou seja, uma burocracia partidária quase equivalente a uma nova classe privilegiada;

— seja porque a Rússia não estava mesmo pronta para o socialismo e os vitoriosos de 1917 foram obrigados a cumprir, em seguida, muitas tarefas características de uma revolução burguesa, com a duplicidade de objetivos necessariamente causando desvirtuamentos;

— seja porque o proletariado russo, embora aguerrido e heroico, era numericamente muito reduzido, tendo boa parte dos seus melhores filhos tombado na defesa da revolução;
A liberdade guiando o povo (versão 1968)

— seja porque a consolidação do novo regime se deu em condições dramáticas, num terrível isolamento, com a Rússia tendo de, em 1918-1921, resistir sozinha à invasão de tropas de umas 20 nações capitalistas e aos contingentes dos reacionários internos, para depois desenvolver esforços hercúleos no sentido de saltar rapidamente de um país com desenvolvimento tardio para uma nação moderna).

De certa forma, a União Soviética, sob a tosca tirania de Stalin, serviu como espantalho para a propaganda capitalista dissuadir os operários das nações economicamente mais avançadas de seguirem na mesma direção. 

Contrariando a constatação de Marx, segundo quem eram os países mais pujantes que determinavam o destino da humanidade, com as demais sendo arrastados por sua dinâmica, as revoluções seguintes se deram em países pobres, desorganizados por guerras ou ainda emancipando-se da dominação colonial.

E o capitalismo foi aprendendo a lidar de forma cada vez mais eficiente com as várias tentativas vanguardistas que foram surgindo: seja vencer militarmente as guerrilhas urbanas e rurais, seja asfixiar economicamente ou derrubar governantes adversos por meio das Forças Armadas, Judiciário ou Legislativo de seus países.

Mas, a revolta jovem de 1968 na França foi o primeiro indício de que a História não tem fim e, quando algumas portas se fecham, outras se abrem. O capitalismo não tem tudo dominado, nem jamais terá; pelo contrário, marcha em passos rápidos para a extinção, que só vai significar o fim da História profetizada por Francis Fukuyama se a própria espécie humana extinguir-se junto com ele.

A sociedade que desenvolveu ao máximo os meios de comunicação é também a sociedade em que uma simples centelha evolui rapidamente para incêndio, surpreendendo governos e suas polícias.
Uma nova esquerda despontou em 2013. E foi tratada a pontapés pela velha...
Já em 1968, uma onda de paralisações em escolas de Paris evoluiu rapidamente para uma formidável greve geral, fazendo o presidente De Gaulle balançar no cargo, que só conservou graças à boia que o Partido Comunista Francês lhe atirou, mais interessado em manter sua liderança nas entidades sindicais do que em fazer a revolução. 

Merecidamente, ao agir como fura-greves da nova Comuna de Paris (são muito significativas as semelhanças da pauta dos communards de 1871 com a dos congêneres de 1968, ambas inspiradíssimas!), o PCF se condenou à insignificância. Os franceses não são tão condescendentes com relação às atuações desastrosas de seus partidos quanto os esquerdistas brasileiros...

E, nas manifestações contra o capitalismo e suas mazelas que vêm marcando a década atual, incluindo as jornadas de junho de 2013 no Brasil, a pulverização da vanguarda é uma característica comum. Não há força majoritária da esquerda as convocando e conduzindo, mas uma imensidão de células independentes imantadas pelas redes sociais.
Este título se revelará profético?

Fazem lembrar as ondas revolucionárias que, segundo Marx, varreriam o mundo. Dá para imaginarmos que, com a agonia capitalista chegando ao ponto decisivo, uma crise do tipo da imobiliária de 2007/2008 possa não só evoluir para um clash como de 1929, mas também gerar uma reação da sociedade equivalente à Primavera de Paris.

Concordo com Zuenir Ventura: 1968 não terminou. Os fios da História poderão até ser reatados meio século depois, por que não?  
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