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quarta-feira, 14 de setembro de 2022

GODARD ESTÁ MORTO. FOI MEU PRIMEIRO SONHO, MAS NÃO O ÚNICO

Puro Godard! Em meio a uma discussão com Marianne, Ferdinand diz: "Viram? Ela é
 sempre assim!". Ela: "Com quem você está falando?". Ele: "Com os espectadores".
Ela, após olhar para trás e tomar um susto: "Mas, nós não devemos fazer isso". 
N
a década de 1960, curti intensamente os filmes do cineasta francês Jean-Luc Godard, que se foi por suicídio assistido nesta 3
ª feira (13), aos 91 anos, aparentemente apenas por estar "exausto", cansado de viver.

Se eu fosse ainda o crítico de cinema queum dia fui, relembraria toda a sua carreira, mesmo não a tendo acompanhado com interesse depois de 1968. 

Mas, já não preciso representar tais papéis. Posso me ater ao que Godard para mim representou. Aos que quiserem ler algo mais na linha convencional, recomendo esta minha evocação da nouvelle vague, filão do qual ele foi o expoente mais conhecido e influente.  

Deveria ter uns 15 anos quando me atraiu uma acanhada mostra do cinema francês, com a exibição de sete filmes, um por dia, alternados em duas salas de um bairro paulistano pouco dado a iniciativas artísticas: a Vila Mariana. 
Godard, sendo preso nos protestos de 1968... 
Era um momento em que procurava um caminho na vida e a novidade me interessou a ponto de pegar dois ônibus, com um amigo da escola, para irmos assistir a alguns desses filmes. 

Dois eram do Godard, se bem me lembro O pequeno soldado (1963) e Tempo de guerra (1963). Misturando poesia, tiradas filosóficas, HQ, non sense, sacadas políticas, humor negro, irreverências de todo tipo, eles me deslumbraram. Desconstruía o cinema que eu conhecia até então, propondo um novo, muito mais ousado e criativo.

Assisti a quase tudo dele dessa época.  Compunha um painel das opções existenciais dentro da sociedade burguesa, negando-as.  

Seu Tempo de Guerra me surpreendeu por ser uma produção baratíssima, com atores desconhecidos, e mesmo assim tão contundente na crítica às guerras capitalistas, em que coitadezas são laçados para servirem de buchas de canhão e destruídos sem sequer saberem por que estavam lutando. 

Em O Desprezo (1963), bateu pesado nos esquerdistas bem pensantes que, para subirem na vida numa sociedade que afirmam detestar, abrem mão de suas convicções sem pestanejar. No caso, trata-se de um roteirista de cinema que, ao ter a grande chance de projetar-se na profissão, não hesita em empurrar a esposa para os braços do poderoso produtor que a deseja, passando a receber dela o merecido desprezo. Quantos semelhantes a ele conheci por aí...

[Ficou associado a um dos momentos mais bizarros de minha militância clandestina. Lá pelo último trimestre de 1969, ocorreu de eu ficar sem abrigo, descontatado da VPR, com minha foto nos cartazes de procurados, esperando o ponto que um companheiro de outra organização conseguiu marcar para eu reencontrar-me com os meus. 
...e convencendo colegas a pararem o Festival de Cannes.

Depois de uma noite tumultuada e insone, eu tinha o dia inteiro pela frente, precisando fazer hora discretamente, sem chamar a atenção, pelo centro velho de São Paulo. E. noutro cinema que não costumava exibir os chamados filmes de arte, estava em cartaz O Desprezo.

Entrei e assisti a três sessões seguidas, sempre caindo no sono logo no comecinho e acordando quando as luzes se acendiam no final, sobressaltado com a possibilidade de a arma que eu carregava sob o braço ter sido vista por alguém.  Afinal, fui-me embora para meu ponto... e só veria inteiro esse filme décadas depois.]

Prestou tributo aos pequenos marginais que povoam a literatura e a sétima arte da França, de uma forma encantadora e com um amor livre que chocava quem se acostumara ao moralismo estadunidense, em sua estreia no longa-metragem: Acossado (1960).

Representou o admirável mundo novo que a tecnologia estava criando como ums sombria distopia em Alphaville (1965) .   

Fez sua declaração de horror aos Estados Unidos, a tudo que  o país era e a tudo que sua lavagem cerebral cinematográfica projetava para o mundo, em Made in USA (1966), do qual nunca esqueço a Anna Karina esclamando "Que vontade de vomitar desde que me arrasto por aqui!".

E o meu predileto, O demônio das onze horas (1965), que cansei de rever, é sobre um intelectual que rompe com sua vida previsível ao embarcar numa aventura com sua nova amante, que está sendo caçada por uma gang ou serviço secreto em razão de uma história complicada (que o filme não esclarece) e se torna também alvo da perseguição.  
"O desprezo": o roteirista só observa o poderoso
produtor dar uma óbvia cantada na sua esposa. 

Ou seja, mostrava uma via de escape romântica a uma existência insossa e desprovida de significado. "Foi meu primeiro, meu único sonho", dizia uma das frases disparadas pelos personagens a pretexto de nada, mas que, na verdade, comentavam a ação do filme.

E encontrar outra vida, naquele momento, era exatamente meu primeiro sonho. Só que, ao contrário do Ferdinand (Jean-Paul Belmondo) do filme, que nem agonizante admitia que a namorada Marianne (Anna Karina) o chamasse pelo apelido carinhoso de Pierrot, eu ainda teria muitos outros sonhos pela frente,...

Até que a busca artística do Godard chegou ao ponto de maior proximidade com minha busca pessoal em A Chinesaque estreou na França em agosto de 1967 mas só chegou ao Brasil no ano seguinte. 

Mostra um grupo de jovens reunidos numa comunidade para aprenderem teorias revolucionárias e tentarem viver e se relacionar como homens novos. Quando os ventos de mudança sacudiram o mundo em 1968, A chinesa foi reconhecido como um filme premonitório. Aqui, se constituiu, simplesmente, no que mais marcou nosso grande ano da contestação. 

Na virada de 1967 para 1968, eu vivenciara o mesmo que A chinesa mostra, a reunião com outros principiantes para estudar a revolução e conviver de maneira solidária e livre com aquela que viria a ser doravante minha família principal. 

E, como os personagens da fita, saí desse trailer da revolução disposto a dedicar a ela o resto da vida, passado então a defrontar-me com as dificuldades para levar à prática a opção que fizera, muito piores aqui do que na França.
Alain Tanner, herdeiro de Godard, morreu dois dias antes

Então, enquanto Godard e outros cineastas interrompiam aos berros o Festival de Cannes de 1968 (o que nunca ocorrera e jamais ocorreria de novo) porque a verdadeira arte naquele momento se encontrava nas barricadas de Paris, eu e três colegas interrompíamos aos berros as aulas do Colégio MMDC, numa Mooca que não via algo semelhante desde que nela se iniciara a grande greve anarquista de 1917. 

A partir de 1968, fui fazer da vida real o meu próprio filme, então não precisei mais do Godard e nem acompanhei atentamente sua carreira.

Mas, por outra coincidência, seria eu o crítico paulistano que mais entusiasticamente acolheria o filme Jonas, que terá 25 anos no ano 2000, do cineasta suíço Alain Tanner, quando este estreou aqui (com um considerável atraso). 

Os críticos da grande imprensa detestaram, eu adorei e dei uma pequena contribuição para ele acabar virando um cult dos saudosos de 1968, principalmente no bairro boêmio do Bixiga, cujo cineclube cansou de exibi-lo.

Tanner então  me pareceu o diretor que conseguira dar o passo adiante que faltou a Godard depois de A Chinesa.

E não é que ele morreu exatamente dois dias antes de Godard, e aos 92 anos, portanto quase com a mesma idade?! (por Celso Lungaretti)
Não encontrei no Youtube algum filme completo do Godard para 
postar aqui, mas este trecho de Masculino, Feminino 
(1966) é  uma de suas grandes sacadas, ao desmistificar em
definitivo as suspeitas e superestimadíssimas pesquisas de opinião.

quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

UM ÓTIMO FILME DO GODARD E UMA LEMBRANÇA INUSITADA DOS ANOS QUE VIVEMOS PERIGOSAMENTE

O desprezo (1963) é um dos grandes filmes da fase áurea de Jean-Luc Godard, que transpôs para as telas uma história de outro talento superlativo das artes, o escritor Alberto Moravia.

Finalmente disponibilizado no Youtube, permitindo-me acrescentá-lo aos filmes para ver no blogue, mostra um casal perfeito se desconstruindo aos poucos por força do caráter imperfeito do marido, que não só trai suas convicções pessoais, como também decepciona terrivelmente a mulher por querer aproveitar de qualquer maneira uma grande oportunidade profissional.

Eis um bom resumo de Marcelo Hessel, no site Omelete:
"O filme foca a trajetória de um roteirista, Paul Javal (Michel Piccoli), casado com uma ex-datilógrafa, Camille (Brigitte Bardot) e responsável por alguns scripts de sucesso. Tudo começa na Cinecittá italiana, a partir do momento em que Paul recebe o pedido do produtor Jerry Prokosch (Jack Palance, deliciosamente caricatural) para ajudar, em caráter de emergência, a reescrever o roteiro de um filme. 
Godard e BB durante as filmagens
Um legítimo executivo de Hollywood, o norte-americano Jerry anda descontente com o uso que o diretor austríaco Fritz Lang (a lenda em pessoa, numa interpretação iluminada, de tom professoral) faz de seu orçamento, na conversão às telas da Odisseia, de Homero.  
Lang defende que a epopeia grega deva obedecer ao texto original de 3 mil anos atrás, mas Jerry considera o resultado, estacionado no meio das filmagens, absolutamente imprestável.
Longe de ousar desrespeitar a obra do mestre Lang, Paul aceita o serviço por dinheiro, uma vez que o casal ainda paga as prestações de seu novo apartamento. O roteirista só não contava com os galanteios de Jerry para cima de Camille, o estopim do verdadeiro conflito da película".
Minhas lembranças do filme vão além da arte cinematográfica, pois incluem acontecimentos inusitados na minha trajetória de militante revolucionário.

Depois de ter sido um dos sete participantes do racha ocorrido no congresso da VAR-Palmares de outubro de 1969, voltei de Teresópolis com a incumbência de expor aos militantes de São Paulo os motivos de havermos decidido recriar a VPR, em reuniões nas quais a posição contrária era apresentada por Antonio Roberto Espinosa.
Devanir: metalúrgico do ABC que se tornaria um dos guerrilheiros mais caçados pela repressão.
Como eu era muito procurado pela Oban e a VPR ainda estava se reconstituindo, sem aparelho para me abrigar, ficou combinado que utilizaria a rede da VAR. A solidariedade revolucionária, em tese, prevalecia sobre as disputas entre nós mesmos.

Depois de duas dessas reuniões, contudo, o companheiro da VAR que tinha a incumbência de me recolher em algum local da cidade simplesmente me abandonou: não compareceu ao ponto nem à alternativa (fixada, se bem me lembro, para uma hora depois).

Como eu era levado e retirado do aparelho olhando disciplinadamente para o chão do carro, não tinha a mínima condição de o localizar. Meu único documento era um título de eleitor com nome falso, facílimo de falsificar. Os hotéis estavam muito vigiados. 

De quebra, meu ponto seguinte com a VPR estava marcado para alguns dias à frente e não previmos uma opção para emergências. Fiquei num mato sem cachorro.

Caminhando a esmo pelo centro de São Paulo, por uma incrível coincidência dei de cara com o Devanir José de Carvalho, que já conhecia de outra ocasião. Excelente companheiro, ele imediatamente me ofereceu guarida num aparelho do seu MRT.

À noite, contudo, o grupo saiu para realizar uma ação armada (ofereci-me para ir junto, mas o Devanir respondeu que não saberia como explicar à VPR se algo de mau acontecesse comigo) e despertou suspeita no trajeto, acabando por serem trocados tiros com uma viatura policial.
O tiroteio se dera relativamente perto do aparelho, então ele teve de ser abandonado às pressas. Separamo-nos. Vi-me de manhãzinha no centro da cidade, tendo de esperar o dia inteiro para me encontrar, às 20h30, com alguém da VPR, pois o bom Devanir conseguira acertar um ponto mais rápido para mim.

Peguei ônibus para cá e para lá, demorei uma eternidade almoçando e, às 14 horas, resolvi fazer hora no cine Coral (era na rua 7 de abril, ao lado da praça da República), que exibia, exatamente, O desprezo.

Como mal dormira à noite, devo ter pegado no sono uns dez minutos depois de as luzes se apagarem. Acordei quando elas se acenderam no final da sessão, sobressaltado com a possibilidade de o revólver que eu carregava sob o braço haver ficado à mostra. Não ficara.

Naquele tempo o ingresso me dava direito a quantas sessões eu quisesse, então permaneci na das 16h e na das 18h, sempre da mesma maneira: via o comecinho do filme e apagava logo depois da sequência em que la Bardot exibia pela primeira vez seu belo bumbum para o distinto público. 

Só assistiria pra valer a O desprezo muito tempo depois.

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