Amanhã (25) se comemora mais um Dia do Soldado, instituído em homenagem ao Duque de Caxias, que nasceu em 25 de agosto de 1803. A data despertou em mim duas lembranças dos anos de chumbo.
Em 1969, um pequeno grupo de esquerda independente procurou a Vanguarda Popular Revolucionária com uma proposta inusitada: queria destruir, na madrugada de 25 de agosto, a estátua do Duque de Caxias que existe até hoje na praça Princesa Isabel, no bairro paulistano de Campos Elísios.
Havia descoberto que a base era oca, tornando facílimo mandá-la pelos ares. Só precisava de explosivos, que nós tínhamos para fornecer, se assim o decidíssemos.
O Comando estadual da VPR contava, àquela altura, com três membros: José Raimundo da Costa (Moisés), Samuel Iavelberg (Moraes) e eu (Douglas). Aprovamos a ideia, até porque seria uma forma de vingarmos a captura do quarto membro, João Domingues da Silva, o Elias.
[Logo adiante esse bravo companheiro morreria de hemorragia, por terem-no torturado antes que se restabelecesse suficientemente do ferimento sofrido na troca de tiros com agentes da repressão.]
Mas o Comando Nacional vetou a ideia, convencido pelo comandante Carlos Lamarca de que seria uma provocação inconsequente e poderia acirrar a bestialidade dos militares contra nós.
Meu lado racional até concordou, mas passei muito tempo sonhando com a satisfação que sentiria ao infligir tal humilhação à ditadura militar numa data tão simbólica. Teria sido de lavar a alma.
Aqui serviu o professor de tortura Ailton Joaquim. Aqui, em junho/1970, me deixaram meio surdo para sempre.
A segunda lembrança é de quando eu já estava preso, na PE da Vila Militar: o tenente Ailton Joaquim, considerado um dos dez piores torturadores do período pelo grupo Tortura Nunca Mais, a pavonear-se pelo quartel com a Medalha do Pacificador que lhe entregaram no Dia do Soldado de 1970.
[Adivinhem onde eu gostaria que aquela latinha fosse enfiada...]
Frequentemente lembrado por um episódio dos mais repulsivos –torturou presos políticos apenas para demonstrar as técnicas das quais era mestre, durante palestra que fez a oficiais no RJ–, tal tenente foi responsável direto por eu ter ficado para sempre com um tímpano estourado e propensão a labirintite, pois o cabo Marco Antônio Povoreli, espancador de presos indefesos, pertencia à sua equipe.
Dita medalha foi instituída em homenagem a Caxias, chamado de pacificador por seus fãs. A pacificação por ele conduzida na Guerra do Paraguai se expressou numericamente no assassinato de 10 mil "pobres, negros e mestiços", segundo historiadores afrodescendentes.
Na era Médici, era comum agraciarem com essa medalha os carrascos da ditadura. E, em plena democracia, os militares aproveitaram o 25º aniversário da quartelada para outorgá-la a mais uma leva de personagens com esqueletos no armário – provocação que a chamada Nova República engoliu da forma mais pusilânime.(por Celso Lungaretti)
"Relembro nesta hora tudo que ocorreu, memória não morrerá!"
Hoje (25) se comemora mais um Dia do Soldado, insituído em homenagem ao Duque de Caxias, que nasceu em 25 de agosto de 1803. A data despertou em mim duas lembranças dos anos de chumbo.
Em 1969, um pequeno grupo de esquerda independente procurou a Vanguarda Popular Revolucionária, propondo-se a destruir, na madrugada de 25 de agosto, a estátua do Duque de Caxias que existe até hoje na praça Princesa Isabel, no bairro paulistano de Campos Elísios. Havia descoberto que a base era oca, tornando facílimo mandá-la pelos ares. Só precisava de explosivos, que nós tínhamos para fornecer, se assim o decidíssemos.
O Comando estadual da VPR contava, àquela altura, com três membros: José Raimundo da Costa (Moisés), Samuel Iavelberg (Moraes) e eu (Douglas). Aprovamos a idéia, até porque queríamos, de alguma forma, reagir à captura do quarto membro, João Domingues da Silva, o Elias. Logo adiante ele morreria de hemorragia, por terem-no torturado antes que se restabelecesse suficientemente do ferimento sofrido na troca de tiros com agentes da repressão.
Mas o Comando Nacional vetou a ideia, convencido pelo comandante Carlos Lamarca de que seria uma provocação inconsequente e poderia acirrar a bestialidade dos militares contra nós.
Meu lado racional até concordou, mas passei muito tempo sonhando com a satisfação que sentiria ao infligir tal humilhação à ditadura. Teria sido de lavar a alma.
A praça Princesa Isabel frequentou o noticiário no último mês de maio, quando os zumbis da cracolândia, que nela se haviam fixado, foram expulsos com o estardalhaço habitual.
Aqui serviu o professor de tortura Ailton Joaquim. Aqui, em junho/1970, me deixaram meio surdo para sempre.
De imediato, cercaram-na com grades e ela passou a ser mais policiada. Em seguida, decidiu-se transformá-la em parque, mas, como tudo no Brasil de hoje, isto vai demorar.
A segunda lembrança é de quando eu já estava preso, na PE da Vila Militar: o tenente Ailton Joaquim, considerado um dos dez piores torturadores do período pelo grupo Tortura Nunca Mais, a pavonear-se pelo quartel com a Medalha do Pacificador que lhe entregaram no Dia do Soldado de 1970. Adivinhem onde eu gostaria que aquela latinha fosse enfiada...
Frequentemente lembrado por um episódio dos mais repulsivos –torturou presos políticos apenas para demonstrar as técnicas das quais era mestre, durante palestra que fez dois meses depois a oficiais no RJ–, ele foi responsável direto por eu ter ficado para sempre com um tímpano estourado e propensão a labirintite.
Tal medalha foi instituída em homenagem a Caxias, chamado de pacificador por seus fãs.
Na era Médici, era comum agraciarem os carrascos da ditadura. E, em plena democracia, os militares aproveitaram o 25º aniversário da quartelada para outorgá-la a mais uma leva de personagens com esqueletos no armário – provocação que a chamada Nova República engoliu da forma mais abjeta. (por Celso Lungaretti)
Se meu pai, Reynaldo Lungaretti, ainda fosse vivo, estaríamos comemorando seu 102º aniversário.
Nasceu em meados de novembro de 1919 e, como naquele tempo os cartórios tinham de fiar-se no que relatava o declarante, a data ficou sendo a da proclamação da República..
Os antigos achavam isso bonito, embora ainda não fosse um feriado. Nem ele nem nenhum dos parentes, inclusive a minha avó, sabia o dia certo.
Morreu em 2003, após quatro derrames que o deixaram sem vontade nenhuma de prolongar uma existência agônica.
Já escrevi sobre ele (vide aqui), mas faço questão de lembrar a injustiça que sofreu em seus direitos trabalhistas e um episódio no qual ousou desacatar um torturador da ditadura.
Começou a trabalhar (irregularmente) aos 11 anos de idade no Cotonifício Rodolfo Crespi, um marco da industrialização de São Paulo. Quando este pediu concordata em 1963 e em seguida encerrou atividades, tinha uma dinheirama a receber de aposentadoria.
A grana era descontada do salário mês a mês e tinha como depositária infiel a própria empresa, que raras vezes honrava integralmente seu débito: ou dava um chapéu nos trabalhadores ou lhes pagava quantia bem inferior.
Foi o que aconteceu ao meu pai. Resistiu enquanto pôde a aceitar o acordo podre, mas, a partir do golpe de 1964, quando o patronato passou a ter a faca e o queijo na mão, insistir seria quixotesco.
Acabou recebendo mais do que a maioria dos seus colegas, mas nem metade daquilo a que fazia jus. Serviu ao menos para (juntando com poupança e empréstimos levantados) finalmente sairmos do aluguel.
Sendo eu filho único, ele tudo fez para me dissuadir de trilhar o caminho dos revolucionários. Mas, nunca se queixou de semana sim, semana não, já cinquentão, entrar na via Dutra de madrugada com seu fusquinha, visitar-me pela manhã na PE da Vila Militar (só quando estava perto de ser libertado me transferiram para um quartel menos sinistro, o da Cavalaria) e pegar a estrada de volta logo em seguida, sem faltar uma vez sequer.
Dava para perceber que, no fundo, no fundo, me respeitava. Tanto que gostava muito de contar à parentela que, quando uma equipe da Operação Bandeirantes foi revistar nossa casa em plena madrugada, não achando nada de aproveitável, o comandante da operação disse à saída: "Tente convencê-lo a entregar-se, nós só queremos o bem dele".
Homem pacífico, que nunca superou totalmente o trauma de haver ficado órfão aos 11 anos de idade (meu avô paterno foi assassinado com um tiro nas costas por haver demitido um funcionário desordeiro da fábrica que gerenciava), ele daquela vez não se conteve: "E foi pelo bem do meu filho que vocês vieram nos tirar da cama trazendo toda essa artilharia?".
Marcado para 2 a 12 de setembro próximos, o 77º Festival de Veneza apresentará em sua mostra não-competitiva (ou seja, sem concorrer ao Leão de Ouro e demais prêmios da seleção oficial) o documentário brasileiro Narciso em Férias, sobre a prisão de Caetano Veloso e Gilberto Gil duas semanas após a assinatura do Ato Institucional nº 5 e os 54 dias em que permaneceram encarcerados na PE da Vila Militar (RJ).
Escrito e dirigido por Renato Terra e Ricardo Kalil, o filme é focado em Caetano, hoje com 77 anos. Mostra como ele e Gil foram mantidos em solitárias durante duas semanas e depois transferidos para celas.
Sobre a inferno da solitária, ele conta:
"Eu tinha de comer ali no chão mesmo. Isso durou uma semana, mas pareceu uma eternidade. Eu comecei a achar que a vida era aquilo ali. Só aquilo. E que a lembrança do apartamento, dos shows, da vida lá fora era uma espécie de sonho que eu tinha tido".
Foi durante o cativeiro que ele viu as fotos inéditas do nosso planeta, tiradas do espaço e publicadas pela revista Manchete, que o inspiraram para compor Terra dez anos mais tarde. E a lembrança das risadas da irmã mais nova lhe serviam de consolo, daí ter composto lá mesmo a pungente Irene.
"Eu quero ir, minha gente, eu não sou daqui/ Eu não tenho
nada, nada, quero ver Irene rir/ Quero ver Irene dar sua risada"
.
Quatro meses depois foi a minha vez de passar por aquele quartel, talvez até na mesma solitária (eram três).
Afora comer no chão mesmo e sem talheres, havia também o buraco no solo como latrina, a falta de torneira ou chuveiro, o espaço ínfimo, o frio que fazia à noite (deixaram-me só com a cueca e sem coberta nenhuma), de forma que, mesmo sentando no chão e abraçando as pernas na tentativa de me esquentar, mal conseguia pregar o olho.
Irritava-me muito a jactância de um sargento, que fazia questão de repetir a toda hora que Caetano e Gil haviam chorado quando tiveram suas jubas raspadas a zero, ao passo que os militantes pelo menos mantinham uma compostura básica, na avaliação machista dele.
"Quando eu me encontrava preso na cela de uma cadeia/ Foi que eu vi pela
primeira vez as tais fotografias/ Em que apareces inteira, porém lá
não estavas nua/ E sim coberta de nuvens/ Terra/ Terra"
.
Não era esse o tipo de reconhecimento que eu queria do inimigo. E percebia muito bem que aquilo era demais para um civil, mesmo não tendo ele de passar pelas sessões de tortura a que nós éramos submetidos.
Foi lá que o cabo Marco Antônio Povoreli, um brutamontes que pesava 140 quilos, por pura maldade, estourou meu tímpano com um tapa no ouvido direito dado com a mão espalmada, quando me reconduzia à solitária após haver sido torturado com choques elétricos. (por Celso Lungaretti)
Como o eclético capitão Guimarães — o torturador que virou bicheiro, bingueiro e carnavalesco, além de haver sido um dos pais das milícias do Rio de Janeiro — acabou caindo em desgraça na caserna e sendo forçado a abrir seu leque de atuação? É uma história que merece ser contada muitas e muitas vezes... Ele conseguiu incorporar-se ao serviço de Inteligência da PE da Vila Militar, embora sua formação o direcionasse para funções bem diferentes ("Os oficiais de Intendência são mestres no suprimento e nas finanças", diz um manual militar)
Sua equipe, como todas as incumbidas da guerra suja durante a ditadura, auferia ganhos substanciais ao capturar ou matar militantes revolucionários.
Tudo que era apreendido com os resistentes e tivesse algum valor, virava butim a ser rateado entre aqueles rapinantes. Jamais cogitavam, p. ex., devolver o dinheiro aos bancos que haviam sido expropriados pelos guerrilheiros urbanos. Numerário, veículos, armas e até objetos de uso pessoal iam sempre para a caixinha do bando. De mim, até os óculos roubaram.
O cidadão Boilesen organizava a caixinha dos torturadores
Havia também as vultosas recompensas oferecidas pelos empresários fascistas. Estes acertaram inclusive uma tabela com os órgãos de repressão: dirigente revolucionário preso valia tanto; integrante de grupo de fogo, um pouco menos, e assim por diante.
Quando o estudante Schreier morreu como consequência das sevícias aplicadas por Guimarães e seus comandados, o episódio repercutiu pessimamente no mundo inteiro e até mesmo no Brasil, pois a revista Veja fez uma matéria-de-capa histórica sobre as torturas. Foi um mini-Caso Herzog, até porque Schreier também era de ascendência judaica e os judeus não só são particularmente sensíveis ao assassinato dos seus em circunstâncias que fazem lembrar o Holocausto, como detêm enorme influência na imprensa mundial. Os prejuízos causados por essa má imagem eram óbvios: alguns boicotes aos produtos brasileiros, dificuldades em obter apoio das nações prósperas e de instituições multilaterais para seu desenvolvimento, assim como para a atração de investimentos privados do exterior, entre outras. Além de a competição encarniçada entre os serviços de repressão das três Armas frequentemente causarem trapalhadas que afetavam o resultado das operações contra os resistentes...
A morte de Chael no New York Times e a capa histórica da Veja
Daí as Forças Armadas terem decidido, algumas semanas depois da morte de Schreier, proibir que a unidade de Inteligência de cada Arma fosse à caça por sua própria conta.
Unificaram o combate à luta armada no quartel da PE da rua Barão de Mesquita (Tijuca), que passou a ser a sede do DOI-Codi/RJ, integrado por oficiais da II Seção do Exército, como era então chamada; do Serviço de Informações da Aeronáutica (Sisa) e do Centro de Informações da Marinha (Cenimar), mais investigadores da polícia civil.
A equipe do Capitão Guimarães, até como punição pela morte indesejada do Schreier, foi alijada desse vantajoso esquema. Então, quando cheguei preso lá, em junho de 1970, aqueles rapinantes estavam desesperados com a falta de grana.
Tinham se habituado a um padrão de vida mais elevado e já não conseguiam subsistir apenas com o soldo. Tentavam por todas as maneiras convencer seus superiores de que mereciam ser readmitidos no combate à luta armada, em vão. Eu vinha após mais de dois meses de incomunicabilidade (embora mesmo as leis draconianas da ditadura a limitassem a um só mês) e de torturas; faltava apenas a conclusão do inquérito militar no tocante ao setor de Inteligência que eu comandava.
Aqui chegavam as viaturas trazendo presos para o inferno do DOI-Codi/RJ
Mas o tenente Aílton Joaquim, decerto com a anuência de seu superior, o Capitão Guimarães, decidiu ultrapassar as ordens do oficial responsável pelo inquérito (um coronel da Divisão de Infantaria) e ordenar a abertura da caixa de ferramentas.
Passei vários dias (minha noção de tempo se tornou imprecisa) numa solitária ínfima e imunda, sem torneira nem chuveiro, com uma latrina de chão. Só de cuecas, tiritava de frio à noite e mal conseguia pregar o olho. Afora isto, durante o dia, novas torturas. O objetivo deles era provarem aos superiores que os concorrentes da Tijuca não haviam me espremido tanto quanto deveriam, o que seria um trunfo na sua campanha para serem readmitidos nas funções mais lucrativas do esquema repressivo: captura e interrogatório dos combatentes da luta armada. Quando o cabo Marco Antônio Povoleri (um ex-judoca que pesava 140 quilos), por pura maldade, estourou o tímpano do meu ouvido direito ao reconduzir-me à solitária após uma sessão de torturas, o plano ruiu: não tinham obtido nenhuma informação nova relevante e, ainda por cima, haviam detonado um preso que o responsável pelo inquérito não mandara torturarem, deixando uma lesão permanente como prova incontestável da lambança.
Baixaria marcou visita da Comissão da Verdade ao DOI-Codi/RJ
Aí alguém teve uma famigerada ideia de como poderiam ainda salvar a situação. Quem terá sido? O comandante do quartel, major Ênio de Albuquerque Lacerda, praticamente me ignorava e nunca deu as caras durante as torturas, talvez para não parecer estar desacatando as ordens superiores que retiraram sua unidade do combate direto à luta armada. Antes ele se envolvia, tanto que fora um dos quatro assassinos do Eremias. O capitão Guimarães também estava evitando comprometer-se. Tentou me convencer com argumentos uma ou duas vezes, mas geralmente se mantinha distante. O tenente Aílton foi quem fez todo o serviço sujo, mas não descarto a possibilidade de que o capitão Guimarães fosse a mão que manejava os cordéis por trás da cortina. O certo é que a inspiração óbvia foi a enorme repercussão de um episódio bem recente: o companheiro Massafumi Yoshinaga (vide aqui) entregou-se ao Dops paulista e apareceu na TV, sensibilizando os espectadores com seu jeitão de menino, em troca de uma promessa de rápida libertação após ter cumprido sua função propagandística (o pacto foi honrado por Mefistófeles, mas causou ao Massa tamanhos transtornos psicológicos que ele acabaria suicidando-se em 1976).
A ingenuidade de Massafumi o conduziu à loucura e à morte
Dois arrependimentos negociados lhes haviam, portanto, caído dos céus: — o de cinco militantes que cumpriam pena no Presídio Tiradentes e sugeriram o acordo, vantajoso para ambas as partes; e — o do influenciável pupilo do líder do quinteto, por ele aconselhado via pomba-correio (sua irmã) a render-se para salvar a vida. Era óbvio que, inexistindo quem mais se prestasse voluntariamente a tal papel, os militares acabariam se decidindo a forçar novos arrependimentos. Um ou dois dias depois de eu ter o tímpano estourado, o tenente Aílton passou na solitária e disse que eu nos interrogatórios não revelara nada que já não fosse sabido e, por isso, entraria no pau de novo. Horas mais tarde, colocaram-me sentado numa mesa bem ao lado da sala de torturas e o tenente Ailton entregou uma caneta e uma daquelas folhas de papel quadruplas que as crianças utilizavam para trabalhos escolares, exigindo que eu escrevesse algo capaz de convencer os jovens a não entrarem na luta armada. Ao mesmo tempo, começaram a torturar uma aliada da VPR com choques, de forma que ela soltava lancinantes gritos. E torturadores entravam e saíam daquela sala o tempo todo, ameaçando-me e esmurrando-me de passagem (depois lembrei que sempre batiam no corpo, evitando deixar novas marcas no meu rosto).
Medalha do... Pacificador?!
Nessas condições, com minha resistência minada por algo entre 65 e 70 dias de maus tratos de todo tipo, escrevi a tal carta aos jovens que ele queriam, acreditando que fosse apenas distribuída à imprensa, por causa do mau estado em que eu visivelmente me encontrava. Depois de ler a carta, o tenente Aílton me informou que o tratamento dali em diante melhoraria; fui logo transferido para uma cela normal, com cama, cobertor, privada, chuveiro e torneira, recebi minhas roupas de volta e caí num sono profundo nos dias seguintes, coisa de ficar acordado umas 6 horas por dia e dormir 18. Certa madrugada, acordaram-me dizendo que me vestisse depressa, pois daquela vez eu iria mesmo ser morto. Colocaram-me numa viatura com escolta e, no percurso, ao passarmos sob uma ponte, foi o capitão Guimarães quem explicou:
"Estamos te levando para uma TV e você vai falar as mesmas coisas que disse na carta, se não nem sequer volta para o quartel: a gente te mata e abandona o cadáver debaixo de uma ponte como esta".
Logo depois chegamos à TV Globo, no Jardim Botânico, onde foi gravada a entrevista. Não me lembro do que disse nem jamais assisti àquele vídeo. Minha lembrança fixou um detalhe prosaico: ter dito à maquiadora que ela estava fazendo milagres para disfarçar as manchas pretas no meu rosto. O companheiro Ivan Seixas me falou na década passada que estava com Lamarca e outros militantes da VPR quando o teipe foi levado ao ar e nosso comandante teria me defendido: "Está na cara que ele foi torturado".
Os torturadores da PE da Vila Militar nem assim recuperaram sua antiga posição no esquema repressivo e tiveram de partir para outros expedientes em seguida, acabando por se direcionar para a criminalidade comum que era sua predestinação e sua vocação. Talvez como prêmio, O tenente Aílton Joaquim recebeu também sua Medalha do Pacificador, mas este vínculo dele e do capitão Guimarães com o Duque de Caxias (o pacificador em questão) deve até hoje envergonhar os militares dignos. Tudo isso aconteceu nesta mesma época, faz meio século (por Celso Lungaretti)
Lixo do Ustra: será o único livro que ele leu até hoje?
Jair Bolsonaro é o personagem mais notório que faz uma ponte entre as milícias do Rio de Janeiro e a repressão política dos anos de chumbo.
.
Por um lado, nos seus vários mandatos legislativos sempre as defendeu e enalteceu, afora ter com elas mantido ligações perigosas que ainda estão sendo apuradas pela Justiça e poderão, inclusive, custar-lhe o mandato.
.
Por outro, até quando os olhos do Brasil inteiro estavam voltados para ele naquela grotesca sessão dominical de 2016 na qual a Câmara Federal autorizou a abertura do processo de impeachment contra Dilma Rousseff, fez questão de elogiar um dos torturadores mais emblemáticos da ditadura militar, Carlos Alberto Brilhante Ustra.
.
Bolsonaro garante também haver colaborado com o Exército na operação para não capturar o revolucionário Carlos Lamarca na região de Registro em abril de 1970, mas, notório mitômano que é, ninguém sério leva a sério mais essa lorota. Os milhares de fardados que deixaram escapulir entre os dedos uma dezena de guerrilheiros combalidos, ao passarem vergonha, fizeram-no sozinhos. Seria o cúmulo precisarem da ajuda de um pivete de 15 anos como coadjuvante no vexame... . Há, contudo, outro capitão célebre que entrelaça as milícias com os torturadores da ditadura militar: Aílton Guimarães Jorge, o Capitão Guimarães. Deste, contudo, as informações são escassas, talvez porque algum jornalista investigativo que tentasse ir fundo no assunto poderia acabar como o Tim Lopes....
Mas, a imprensa mesmo assim fez a lição de casa: os jornalistas Chico Otávio e Aloy Jupiara dissecaram muito bem o fenômeno em Os porões da contravenção — jogo do bicho e ditadura militar: a história da aliança que profissionalizou o crime organizado, livro lançado em 2015 pela Editora Record.
.
Entrevistado pelo Brasil de Fatoem 2019, Jupiara assim definiu o foco da obra:
"Quando ocorreu a decisão de diminuir ou acabar com a repressão política efetivamente (...) e, ao mesmo tempo, iniciar uma abertura política, os torturadores e o pessoal mais diretamente envolvido na repressão se sentiu traído pelo regime [militar]. E foram procurar outros espaços onde eles pudessem ter o mesmo poder de vida e morte que tinham.
Quem abriu esse espaço para eles foi o crime organizado, que naquele momento, no Rio de Janeiro, dominava a cidade. E foi o jogo do bicho que acabou fazendo uma aliança com esses grupos".
Na árvore genealógica das milícias estão os grupos de extermínio e as bestas-feras dos porões da ditadura, explicou Jupiara:
"...Os grupos de extermínio, da década de 60, atuavam por si só, mas também atuaram a pedido de bicheiros. Desde essa época havia uma relação íntima entre esses grupos. Só foi se agravando....
...estava havendo uma redistribuição territorial pelo jogo do bicho. Até os anos 60 e início dos 70, a cidade era muito fracionada. Havia muitos bicheiros com áreas pequenas.
Surge uma geração nova, naquela época, formada, por exemplo, por Castor de Andrade, por Anísio Abraão David. Esse grupo começa a se articular para formar a cúpula do jogo do bicho, do crime organizado... Acontece uma guerra por conta disso".
E, para travar guerras, nada melhor do que os especialistas no ofício:
"Aí se juntam as duas coisas. Os bicheiros já tinham seu grupo armado, baseado em policiais militares e civis, que vinham dos antigos grupos de extermínio.
Eles pegaram esses grupos e juntaram com os agentes da repressão. Os agentes militares possuem conhecimentos que os assassinos de aluguel não tinham. Era um conhecimento de organização, hierarquia e centralização.
Uma das pessoas que levou a essa noção e que ajudou a formar a cúpula foi o o capitão [Aílton] Guimarães [Jorge]. Ele não foi a única pessoa. Outros bicheiros foram recrutando outros elementos. Os policiais não tinham conhecimentos que o grupo militar podia dar para o jogo do bicho...
Foto rara do Capitão Guimarães
...[tratou-se de um] processo de profissionalização que foi guiado por esse militares oriundos dos porões da ditadura, que contribuiu para mudança da territorialização do crime na cidade".
UM DEPOIMENTO PESSOAL—O Capitão Guimarães é personagem também de outra história: a minha. Pois fui prisioneiro político e fui torturado na PE da Vila Militar, em que ele servia no terrível ano de 1970. Foi no seu quartel que morreu assassinado, em novembro de 1969, o militante Chael Charles Schreier, 23 anos, companheiro de Dilma Rousseff na VAR-Palmares. Guimarães foi citado nos testemunhos de outros presos como autor de alguns dos chutes e pontapés que causaram a morte de Schreier por “contusão abdominal com rupturas do mesocólon transverso e mesentério, com hemorragia interna”. E estava também entre os quatro torturadores responsáveis pelo assassinato do meu companheiro e amigo Eremias Delizoicov (vide aqui). Embora tivesse se formado como oficial de Intendência, ele fez questão de atuar na repressão política. Chegou a ser carcereiro de Vladimir Palmeira, preso no Congresso de Ibiúna da UNE e, logo após a assinatura do AI-5, comandou a equipe que foi prender Paulo Francis e Ferreira Gullar. Em outubro de 1969 foi ferido na perna exatamente na operação que culminou na execução do Eremias (o qual, por sua vez, recebeu o exagero de 35 tiros e ficou tão desfigurado que os matadores nem conseguiram identificá-lo direito e o comunicado à imprensa saiu com o nome de José Araujo Nobrega, outro militante da VPR).
Isto lhe valeu a Medalha do Pacificador, com que foram agraciados os principais torturadores da época. Seu grande feito: deixar-se ferir como um amador e depois descarregar sua fúria num jovem de 18 anos que estava cercado e acabaria inevitavelmente sendo capturado. por Celso
O jornalista brasileiro Carlos Alberto Jr., que trabalhou em vários veículos da grande imprensa e nos últimos anos vem atuando nos EUA como roteirista e diretor de documentários para TV, entrevistou-me nesta semana para seu podcast Roteirices, no qual disponibiliza depoimentos de escritores, jornalistas, cineastas e acadêmicos. O link é este aqui.
Agora são 42 as entrevistas que podem ser acessadas no Roteirices, dentre elas as do Aluizio Palmar, Daniel Aarão Reis, Eumano Silva e Flávio Tavares (para citar os, como eu, ligados à memória dos anos de chumbo).
Durante 85 minutos, fui resumindo uma trajetória de 52 anos, começando pelas ações de conscientização política no Colégio Estadual MMDC, em 1967. Depois vieram:
— a estruturação do movimento secundarista em toda a Zona Leste paulistana;
—a militância na Vanguarda Popular Revolucionária, como comandante de Inteligência em SP e depois no RJ;
—a participação na equipe precursora da instalação de uma área de treinamento guerrilheiro na região do Vale do Ribeira, SP;
— a prisão pelo DOI-Codi/RJ e as torturas que sofri tanto nessa unidade quanto na PE da Vila Militar, durante um período de 70 dias, delas resultando uma lesão permanente;
—a passagem por uma comunidade alternativa e um grupo de resistência cultural;
—algumas tomadas de posição marcantes como jornalista (a solidariedade ao injustiçado Paulo de Tarso Venceslau, p. ex.);
—a atuação como porta-voz informal da greve de fome dos Quatro de Salvador e do Comitê de Solidariedade a Cesare Battisti;
—a criação e manutenção do blog Náufrago da Utopia,uma trincheira dos ideais revolucionários (entendidos como os esforços para uma transformação profunda da sociedade e não para a obtenção de pequenas concessões dos exploradores que minorem o sofrimento dos explorados sem colocar em xeque os fundamentos do esquema de dominação capitalista), etc. Após mais de meio século de fidelidade às mesmas convicções, na contramão tanto da classe dominante quanto (na maioria do tempo) da tendência dominante da esquerda, o balanço com que encerrei a entrevista foi o de que é possível, sim, um idealista manter-se sempre coerente com seus valores e ir tocando suas lutas, às vezes ao lado de outros, às vezes como lobo solitário.
Há um preço a pagar, e ele é alto. Mas, quem pretende concretizar as melhores aspirações da humanidade (liberdade e justiça social) não deve esperar que os privilegiados abram generosamente mão de seus privilégios, curvando-se ao bem comum. Pelo contrário, eles os defendem com unhas, dentes e todas as armas que lhes pareçam necessárias. (por Celso Lungaretti)