quinta-feira, 31 de março de 2011

PERGUNTAS QUE NÃO QUEREM CALAR

A possibilidade de as catástrofes provocadas pelas alterações climáticas servirem como estopim para as usinas nucleares explodirem na nossa cara está agora mais do que comprovada.

E, se o zelo pela segurança dos cidadãos se mostrou insuficiente, beirando o ridículo, no episódio de Fukushima, quem garante que o arsenal de bombas atômicas espalhado pelo mundo não possa ser ativado por terremotos, inundações e outras ocorrências que se intensificarão doravante?

Lembrem: as autoridades japonesas apostaram a vida do seu povo em que estaria a salvo da radiação quem permanecesse a 20 quilômetros de Fukushima, aconselhando as pessoas a permanecerem em suas casas.

Agora, já se constata radiação em patamar perigoso a 40 quilômetros da usina. E, enquanto se discute nova remoção, os cidadãos podem estar condenando-se ao câncer futuro.

Quantas outras decisões desastrosas não estarão sendo tomadas pelos poderosos do planeta?

Até quando teremos nosso destino decidido por autoridades que priorizam a ganância capitalista, em detrimento da existência humana?

PARA LER E REFLETIR

"A formação, em 18/03, de uma coalizão liderada por potências ocidentais para intervir na Líbia, tem provocado (...) intensas críticas de comunidades políticas nacionalistas e antiimperialistas, algumas das quais se autopercebem como membros da esquerda.

Entretanto, setores da esquerda nos países mais politizados, e numerosas pessoas e grupos liberais-progressistas, consideram necessária a intervenção para evitar o genocídio.

O cruzamento de pontos de vista é notório na Europa. A Itália (...) foi o mais fiel aliado de Gaddafi, embora tenha 'virado' quando a ONU decidiu intervir. Os neofascistas italianos consideram o líder líbio uma figura fraterna, cuja ideologia difere apenas na base religiosa.

Os neonazistas franceses e alemães também apoiam a ditadura líbia (...). Marine Le Pen, filha do fundador do Frente Nacional na França, criticou a intervenção da seu país na Líbia, tendo em mente uma política que também a ultradireita americana defende (p. ex., o famigerado Ku Klux Klan): se os povos árabes não merecem atenção, tampouco é correto intervir em suas disputas internas. Grosseiramente: 'deixem eles se matarem!'.

"A Itália foi o mais fiel aliado de Gaddafi"
No dia 27 de março, Franco Frattini, o sinuoso chanceler italiano, prometeu uma proposta conjunta com Alemanha para conseguir que Gadaffi 'negocie'. Negociar o quê? Ambos os países (...) esperam nas sombras o momento de se reaproximar de Gaddafi. Trata-se, segundo tudo indica, de evitar a derrubada do ditador, para que a aliança entre o neofascismo europeu e o despotismo líbio siga fazendo bons negócios.

A direita mais lúcida percebe Gaddafi como o equivalente africano de um dos muitos ditadores que os EEUU apoiaram ao longo das últimas décadas na América Latina: Pérez Giménez, Trujillo, Batista, Somoza, Pinochet, Medici, etc.

Para a direita americana, Líbia é um aliado contra Al-Qaeda e um fornecedor médio no conflitivo mercado do petróleo. Por seu caráter psicótico e sua vocação para a violência indiscriminada, o Coronel é muito menos apto para integrar blocos, como os sírios ou os iranianos, e mais fácil de ser manipulado." (Carlos Lungarzo, em Os direitos humanos no conflito da Líbia)

TIGRE DE PAPEL

O deputado Jair Bolsonaro gosta de projetar uma imagem de machão à antiga.

Mas, ao perceber que sua incontinência verbal o expunha à grave acusação de racismo, correu a, canhestramente, trocar alhos por bugalhos, na esperança de responder apenas por homofobia e enfrentar um problema menor em termos jurídicos.

Entrou rugindo, saiu miando...

quarta-feira, 30 de março de 2011

"ELES NÃO TÊM HONRA?"

Diego, meu colega de escola, companheiro de movimento estudantil e de militância revolucionária (na década de 1960), é espanhol de Múrcia.

Seu pai, porque havia sido prefeito socialista da cidade, percebeu que, embora não o tivessem prendido, jamais levaria vida normal sob o franquismo. Veio para cá.

Quando a família desembarcou em Santos, o Diego, lá pelos seus oito anos, espantou-se ao ver vários moleques surrando um só. Perguntou ao pai: "Eles não têm honra?".

Porque na Espanha daquele tempo, se cinco queriam acertar as contas com um, ficariam desmoralizados caso atacassem todos juntos. Tinham de ir um de cada vez.

Fiquei me lembrando desta história ao saber que mais um espaço da esquerda se fechou para mim e para o Carlos Lungarzo.

Nem é o caso de dizer qual, pouco importa. O que me choca é essa atitude que, o Diego e os espanhóis estavam certíssimos, macula qualquer pessoa decente e, muito mais, quem se pretenda revolucionário.

Pois, cada vez que meus escritos se chocam de forma mais evidente com certos dogmas e avaliações da esquerda, embora representem claramente outra linha de pensamento pertencente ao campo revolucionário, as reações são sempre as mesmas:
  • ou sofro o ataque simultâneo e flagrantemente orquestrado de vários adversários (o  rolo compressor);
  • ou há maquinações de bastidores para me roubar tribunas, inclusive me caluniando e satanizando (a  facada nas costas).
Isto apenas revela o pior das pessoas. Quem foi capaz de suportar 34 anos de ostracismo para fazer prevalecer a verdade sobre a versão conveniente, não se deixa intimidar por tão pouco.

Vivo e morro por meus princípios.

A luta continua.

UM PROGRAMA PARA A ESQUERDA DO SÉCULO 21

Quando a esperança aquecia corações e
iluminava mentes: Primavera de Paris...
Um dos grandes diferenciais da minha atuação na internet, em relação a outros articulistas de esquerda, é ir além desse maniqueísmo tosco a que muitos deles reduzem os acontecimentos políticos, numa época em que nada é tão simples como parece.

P. ex., o evidente interesse das potências ocidentais em derrubar o ditador líbio Muammar Gaddafi fez os desnorteados de esquerda, em nome do antiimperialismo, correrem a alinhar-se, explicita ou implicitamente, com um dos tiranos mais brutais e repulsivos do planeta.

Aí vem a Inteligência da Otan e assinala a presença de integrantes da Al Qaeda e da milícia xiita Hizbollah entre os revoltosos. Ué, mas Al Qaeda e Hizbollah não são  mocinhos  para a esquerda brasileira? E os insurgentes não são  teleguiados pela CIA?

Depois, ficamos sabendo que o grande aliado ocidental de Gaddafi é, nada mais, nada menos, do que o neofascista-mor Silvio Berlusconi.

Tanto que Franco Frattini, o ministro italiano do Exterior, empenha-se em salvar a vida e a liberdade do ditador, tentando encontrar um país africano que aceite receber esse traste e não se disponha a entregá-lo, como merece, ao Tribunal Penal Internacional, para que seja julgado como o foram os criminosos de guerra nazistas em Nuremberg.

Resumo da opereta: quem participa desse jogo político rasteiro e promíscuo do sistema -- ou, dizendo de uma forma mais sofisticada, da realpolitik -- tem a consistência ideológica da gelatina. Move-se por interesses, embora os fantasie com retórica oportunista de esquerda, centro ou direita.

...Primavera de Praga...
Mas nós, os revolucionários, não podemos chafurdar nessa lama, sob pena de sermos vistos pelos explorados apenas como  mais do mesmo.

Ou seja, cabe-nos defender, intransigentemente, princípios, ao invés de copiarmos o que há de pior no utilitarismo político dos inimigos -- como a postura estadunidense de que certos ditadores são grandes fdp's, mas são  nossos  fdp's.

Não, os verdadeiros revolucionários repudiamos a todos e quaisquer ditadores, até porque é assim que pensam e sentem os melhores seres humanos, dos quais não podemos nos dissociar, se quisermos tê-los ao nosso lado na investida contra os podres poderes do planeta.

Hoje somos uma minoria pouco significativa. Precisamos desesperadamente romper o isolamento atual, voltando a representar uma alternativa de poder em escala mundial.

Mas, na era da internet, ou direcionamos nossa atuação para os homens com mente aberta e espírito crítico, ou para os sectários fanatizados. Não há meio termo.

E é mais do que tempo de optarmos definitivamente pelos primeiros e a eles endereçarmos nossas mensagens, instando-os a cerrar fileiras conosco para a salvação da espécie humana (sob gravíssima ameaça de ser extinta pela ganância capitalista) e acenando-lhes com a perspectiva de concretização das duas maiores bandeiras da humanidade através dos tempos: a liberdade e a justiça social.
...e a contestação à Guerra do Vietnã.

Em 1968, éramos capazes de sensibilizar os corações e convencer as mentes porque erguíamos as bandeiras corretas e travávamos o bom combate.

O desafio é reatarmos os fios da História, tendo como referecial  aquele último grande marco por nós atingido -- e avançarmos.

Podem-se cortar muitas flores, mas não impedir a chegada da primavera. 

terça-feira, 29 de março de 2011

ISRAEL É O IV REICH

Em outubro de 2009, quando lancei um artigo com este título provocativo mas pertinente, houve muita chiadeira de defensores do estado judeu.

Não se tratava, nem de longe, de um insulto gratuito. Historiei a marcante participação do Bund nos movimentos revolucionários europeus, recordei a fascinante proposta original dos kibutzim, uma experiência na linha do chamado socialismo utópico. Até chegar a esta triste constatação:
"Na segunda metade do século passado, entretanto, Israel viveu sua transição de Dr. Jeckill para Mr. Hide. Virou ponta-de-lança do imperialismo no Oriente Médio, responsável por genocídios e atrocidades que lhe valeram dezenas de condenações inócuas da ONU.

Até chegar ao que é hoje: um estado militarizado, mero bunker, a desempenhar o melancólico papel de vanguarda do retrocesso e do obscurantismo".
Isto foi depois da terrível carnificina que Israel perpetrou na faixa de Gaza e antes do ataque à flotilha humanitária que tentava furar o bloqueio do Gueto de Varsóvia... ôps, quer dizer, do confinamento dos palestinos.

Tendo a mais obtusa direita no poder, desde então Israel compete com a Itália de Berlusconi na produção de leis aberrantes, odiosas e discriminatórias, como esta que a BBC noticiou:
Início de 2009: vítima dos ataques
israelenses na Faixa de Gaza

"O Parlamento de Israel aprovou, na noite desta segunda-feira [28/03], a chamada Lei da Cidadania e da Lealdade, que estabelece a revogação da cidadania de israelenses que forem considerados culpados de crimes de traição, espionagem e terrorismo.
A lei, de autoria do partido de extrema direita Israel Beitenu (liderado pelo chanceler Avigdor Lieberman), altera a Lei da Cidadania de Israel e, pela primeira vez na História do país, estipula condições segundo as quais é possível revogar o direito de cidadania.
Segundo a lei, cidadãos israelenses 'que forem condenados por crimes de espionagem, atos de terror, ajuda ao inimigo em tempos de guerra e serviços em favor de forças inimigas' poderão ter seus direitos de cidadãos revogados pela Suprema Corte de Israel.
Condenados que tenham dupla cidadania perderão a israelense totalmente; os que tiverem apenas a cidadania israelense ganharão status semelhante ao de estrangeiros residentes no país, sem direito a voto ou passaporte, por exemplo.
Durante o nazismo, os judeus eram
obrigados a ostentar a estrela de Davi
O chanceler Lieberman declarou que 'quem prejudicar o Estado não pode usufruir da cidadania. A lei aprovada no Parlamento nos ajudará a enfrentar aqueles que abusam da democracia para tentar sabotá-la'.
Já deputados de partidos de esquerda e de partidos que representam os cidadãos árabes de Israel condenaram a nova lei, argumentando que ela corrói a democracia israelense ao impor condições ao direito básico da cidadania".
O que usarão esses cidadãos de 2ª categoria, para diferenciá-los dos que continuarem mantendo todos os seus direitos democráticos?

Que tal estrelas de Davi em braçadeiras ou costuradas na roupa? Afinal, se uma sistemática cumpriu bem sua finalidade, não há necessidade de introduzir outra...

É ou não é o IV Reich?

DALLARI FALOU E DISSE

"A tragédia sofrida pelo povo japonês deve servir de alerta, estimulando a busca de outras fontes de energia, para atendimento das necessidades básicas das populações do mundo, mas também influindo para que se faça ampla divulgação dos aspectos básicos das opções existentes, informando o povo e dando-lhe a possibilidade de acompanhar as discussões e, mesmo, de participar das decisões sobre o assunto.

A catástrofe de Fukushima já deixou mais do que evidente que o uso da energia nuclear implica enormes riscos, podendo acarretar tragédias que atingem todo um povo, como está acontecendo no Japão, onde milhões de pessoas ficaram sujeitas aos gravíssimos efeitos da elevação dos índices de radioatividade."

LÍBIA: OS DESATINOS DE UMA INTERVENÇÃO

Na minha avaliação, a situação na Líbia justificava, sim, a intervenção da ONU, nos termos em que ela foi colocada.

Havia uma revolta popular contra um ditador que se mantém no poder há 42 anos intimidando e reprimindo sua gente.

Esta revolta tendia à deposição do tirano e à conquista do poder pelos revoltosos,  mas o quadro militar começou a ser alterado pela arma de que os rebeldes não dispunham, mas o déspota sim: a aviação.

Então, quando a reviravolta estava consumada e o desfecho, próximo, a ONU resolveu anular o único trunfo do autocrata.

Isto é o que foi resolvido e era só isto que deveria ter sido feito: evitar que os aviões de Gaddafi fossem o fiel da balança, impedindo a vitória da rebelião líbia. Mais nada.

Agora, constata-se que as potências ocidentais não só estão excedendo o que foi autorizado pela ONU, como parecem dispostas a desempenhar papel determinante na definição de como será a Líbia pós-Gaddafi.

Nem é preciso dizer que disto discordo totalmente. Os rebeldes deveriam vencer por seus próprios meios, suprimida a vantagem injusta de Gaddafi, e reorganizar o país eles mesmos, sem interferências e pressões de outras nações.

Alguns alegarão que raposas são más guardiãs de galinheiros e não se poderia esperar outra coisa da  "ajuda" ocidental.

Mas, entre dois cenários negativos, seria pior ainda se Gaddafi sufocasse a rebelião e punisse os rebeldes com sua bestialidade habitual, digna de um Vlad Dracul. Além do sacrifício de cidadãos valorosos, que enfim se colocaram de pé contra uma ditadura de quatro décadas, estar-se-ia mandando o recado errado para outros povos subjugados a tiranos sinistros como Gaddafi.

Ainda não foi desta vez que a
ONU se redimiu de seus pecados
Então, estou totalmente de acordo com a sensata coluna desta 3ª feira do veterano Jânio de Freitas, Direitos Mortais, cujos principais trechos reproduzo (os grifos são meus):
"Durou pouco a impressão de que se tornavam válidas as regras da ONU para regular situações de emergência violenta, como a irrompida na Líbia.

A situação líbia trouxe de volta a intervenção só efetivada depois de sua aprovação, por voto, pelo Conselho de Segurança.

Uma qualidade adicional desse retorno às regras foi observado, de passagem, pelo veterano jornalista Enrique Müller, chileno radicado na Alemanha: pela primeira vez, o Conselho de Segurança aprovara uma intervenção invocando a defesa de direitos humanos.

Tratava-se de proteger a população civil dos ataques de Gaddafi aos rebeldes. E assim ficou claro mesmo na imprecisa resolução do conselho, que autorizou, para tanto, a criação de uma zona de exclusão aérea sobre a Líbia e o embargo de armas para Gaddafi.

A queda do ditador pode justificar-se já por evitar a feroz represália que adviria de sua permanência. Mas, do modo como é buscada, invalidou a resolução do Conselho de Segurança. Franceses e ingleses, e em menor proporção os americanos, abrem a fogo o caminho para o avanço dos rebeldes.

Incluíram-se como partes da guerra, não mais agentes de inquietações humanitárias com a vitimação de civis.

(...) É impossível crer que a intervenção não tenha passado, ao exceder a resolução 1973, de protetora a causadora de mortes de civis, talvez tantas quanto fazem as tropas de Gaddafi. Nunca se saberá".

segunda-feira, 28 de março de 2011

ANTES MESMO DA REVOLTA LÍBIA, GADDAFI JÁ SEQUESTRAVA OPOSICIONISTAS

A principal ONG defensora dos direitos humanos no planeta, a Anistia Internacional, acaba de denunciar que o ditador libanês Muammar Gaddafi e seus seguidores estão promovendo desde o início do ano uma "campanha de desaparecimentos forçados". Ou seja, em português claro: sequestros.

Trata-se, segundo o diretor da AI para o Oriente Médio e África do Norte, Malcolm Smart, de uma prática "sistemática" de "deter pessoas suspeitas de serem hostis ao regime do coronel Gaddafi, mantê-las detidas sem que possam se comunicar com o exterior e transferi-las para bastiões [pró-Gaddafi] no oeste da Líbia".

A ONG cita "mais de 30 casos de pessoas desaparecidas mesmo antes do início dos protestos" contra o ditador, em 15 de fevereiro, acrescentando que a escalada de desaparecimentos se intensificou muito nas últimas semanas e este número agora é apenas "uma pequena proporção" do total de sequestrados.

A nota acaba com esta advertência: "Dadas as circunstâncias desses desaparecimentos forçados, há todos os motivos para acreditar que existe um risco sério de que essas pessoas sejam torturadas e maltradadas".

E por essas e muitas outras que, independentemente de serem pouquíssimo confiáveis as nações que estão combatendo Gaddafi, não há como verdadeiros homens de esquerda se colocarem ao lado de um tirano tão bestial, que repete as mesmíssimas práticas de ditaduras como as de Médici e Pinochet, tão execradas por todos nós.

Eu também fui sequestrado... pelas forças de Médici. 

Sofri prisão totalmente ilegal e fiquei isolado de parentes e advogados durante exatos 75 dias, durante os quais  podiam fazer (e fizeram) comigo o que quiseram.

Torturaram-me, simularam minha morte, estouraram meu tímpano, quase me provocaram um enfarte. Um oficial incentivou-me a tentar fugir, o que lhe daria pretexto para alvejar-me pelas costas. Era obrigado a escutar dia e noite o som da pancadaria e os gritos dos companheiros. Conheci o inferno.

Então, não há argumentação nem circunstância nenhuma que me façam apoiar quem submete outros seres humanos aos martírios que quase me enlouqueceram ou mataram. Serei sempre solidário às vítimas das ditaduras e aos valentes que se revoltam contra as tiranias, não aos carniceiros e aos déspotas.

GENOCÍDIO DO ARAGUAIA: "RECEBEMOS ORDEM PARA MATAR TODOS. E MATAMOS"

"A ordem era atirar primeiro, perguntar depois"
Merece nosso reconhecimento a revelação, na edição dominical da Folha de S. Paulo (27/03), das diretrizes da Marinha ordenando a eliminação dos guerrilheiros do Araguaia.

Mas, justiça seja feita, foi a combativa revista IstoÉ quem primeiramente trouxe a comprovação irrefutável de que as Forças Armadas brasileiras haviam executado, de forma sistemática,  os guerrilheiros do Araguaia já rendidos, em sua edição nº 2036 (12/11/2008).

Tratou-se da reportagem A Tropa do Extermínio, baseada em documentos secretos fornecidos e entrevista concedida por José Vargas Jiménez -- que, como sargento, participara da chamada Operação Marajoara.

Eis os trechos mais marcantes:
"Pela primeira vez surge um documento do Exército brasileiro comprovando que os militares enfrentaram os militantes do PCdoB no Araguaia (1972/1975) com ordem para matar. Chamado de Normas Gerais de Ação - Plano de Captura e Destruição, o documento, de 5 de setembro de 1973, elaborado pelo Centro de Informação do Exército (CIEx), ao qual IstoÉ teve acesso, relaciona os 'terroristas traidores da nação' que deveriam ser 'destruídos'.
 Em outubro de 1973, este documento estava na mochila do então 3º sargento José Vargas Jiménez, quando desembarcou de um avião militar Hércules C-130, na base militar de Marabá (PA), e subiu em um caminhão do Exército rumo ao quilômetro 68 da Rodovia Transamazônica para combater na Operação Marajoara - a terceira e derradeira fase da Guerrilha do Araguaia. O verbo 'destruir' redigido no documento, segundo Vargas, hoje 1º tenente da reserva, é um eufemismo para matar. 'A ordem era exterminar', afirmou Vargas à IstoÉ.
Os papéis agora revelados pelo tenente da reserva José Vargas Jiménez mostram como os militares montaram a Operação Marajoara para destruir totalmente os guerrilheiros do PCdoB no Araguaia.
Primeiro, eles prenderam e torturaram os camponeses que moravam nas diversas localidades relacionadas no documento. Com isso, reuniram informações e 'ganharam' apoio da população na luta contra os insurgentes.
O Vargas de 1973 e o documento
secreto que ele entregou à IstoÉ
 A seguir, os militares entraram na mata sem uniforme para caçar e exterminar os comunistas.  (...) Primeiro foram mortos os comandantes da guerrilha.
Em 14 de outubro de 1973, os militares deram início ao que Vargas chama de 'fase do extermínio'. No documento que o então sargento carregava, agora revelado por IstoÉ, está detalhado quem era quem no esquema insurgente. "Tínhamos um álbum de fotos, nomes e área (região) onde atuavam, além de seus destacamentos", lembra o militar.
Chamado de Plano de Captura e Destruição, o relatório, na primeira página, identificava os grupos de guerrilheiros que deveriam ser abatidos, por prioridade. A chamada comissão militar da guerrilha deveria ser dizimada em primeiro lugar. 'Eles eram prioridade 1', diz Vargas.
Com a relação nas mãos, os militares se embrenharam na floresta e a matança começou. 'Numa caminhada pela região de Caçador, encontrei três corpos de guerrilheiros abandonados na mata. Um deles era o André Grabois, filho de um dos líderes dos comunistas. Um outro, um mateiro, um de meus soldados decepou-lhe o dedo, tirou a carne, e colocou o osso num colar', afirma o tenente da reserva.
Vargas também se recorda que em 24 de novembro, depois de um tiroteio, outros corpos foram abandonados. 'Como não conseguimos identificar um deles, recebemos ordens pelo rádio para decapitar e cortar as mãos do inimigo, para identificação. Os outros corpos foram abandonados por lá. É claro que os animais os comeram. Nós não tínhamos obrigação de carregar corpo de guerrilheiro e nem de enterrá- los', diz. Segundo Vargas, quando as fotos não eram suficientes para identificar os abatidos, suas cabeças e mãos eram cortadas para posterior reconhecimento na Base de Marabá.
O Vargas de 2008 ainda
justificava a tortura
No dia de Natal de 1973, um combate exterminou oito integrantes da comissão militar do PCdoB. (...) Um mês depois, em São Domingos das Latas, Vargas capturou  Piauí, como era conhecido o estudante de medicina Antônio de Pádua Costa. Piauí havia assumido o comando do principal destacamento dos guerrilheiros depois do massacre do Natal. '
Esse eu peguei na mão, depois de uma luta', conta o militar. 'Eu o entreguei vivo ao CIEx. Mas ele consta na lista de desaparecidos políticos', afirma.
A caçada final aos comunistas começou em 1º de outubro de 1973. (...) A tropa de Vargas embarcou rumo a Bacaba, uma das duas bases militares na região, situada ao norte da área de combate, as margens da Transamazônica. A outra base militar era a de Xambioá, ao sul, próximo ao atual Estado do Tocantins. Partindo das duas bases, fizeram um cerco aos moradores e guerrilheiros.
Entrando de casa em casa, os militares colecionaram prisões de camponeses. (...) Nas bases militares, os camponeses eram submetidos a todo tipo de tortura. 'Eles eram colocados descalços em pé em cima de latas, só se apoiando com um dedo na parede, tomavam telefones -- tapas nos ouvidos -- e choques elétricos', conta o militar. "Prendi mais de 30", contabiliza. "Um deles eu coloquei nu em um pau-de-arara, com o corpo lambuzado de açúcar, em cima de um formigueiro".
A crueza na descrição da carnificina prosseguiu na entrevista de Vargas, da qual constam estas outras  pérolas:
"A ordem era atirar primeiro, perguntar depois. Recebemos ordem para matar todos. E matamos. Se algum guerrilheiro sobreviveu à terceira fase, foi porque colaborou com a gente e ganhou uma nova identidade".
A denúncia da IstoÉ foi lembrada em protesto
contra assassinatos do Morro da Providência
"Primeiro, prendemos todos os homens da região. Criamos um Grupo de Autodefesa , formado por moradores bem remunerados, que nos ajudavam entregando os comunistas. Depois que matamos os comandantes da guerrilha, os outros ficaram perambulando famintos pela selva. Numa tática de desmoralização, quando eles eram capturados, eles eram amarrados pelo pescoço e expostos pelas ruas dos vilarejos. (...) Desfilamos com o corpo de Oswaldão, o líder máximo deles, dependurado num helicóptero. Foi o fim do mito".
 "Torturar é normal numa guerra. Para obter informações, você tem que apelar, fazer uma tortura, senão o cara não conta. Não existe lei numa guerra. Você mata ou morre. A tortura nunca vai acabar. É assim que funciona".

domingo, 27 de março de 2011

PRETO NO BRANCO: MARINHA ORDENOU EXECUÇÕES NO ARAGUAIA

De vez em quando a Folha de S. Paulo se lembra de que é um jornal e cumpre a função da imprensa, revelando a seu público aquilo que as autoridades tentam ou tentaram esconder.

Caso do excelente trabalho de jornalismo investigativo de João Carlos Magalhães, Maria Clara Cabral, Matheus Leitão e Rainer Bragon, autores da reportagem Marinha ordenou a morte de militantes no Araguaia em 1972.

Se já não havia dúvida nenhuma de que a ordem nas 2ª e 3ª campanhas do Araguaia era matar os guerrilheiros mesmo quando eles fossem aprisionados com vida, agora também ficou definitivamente provado que tal ordem partiu dos altos escalões e não foi nenhuma iniciativa autônoma de  aloprados  no palco da ação.

Eis os trechos principais (os grifos são todos meus):
"Documentos escritos pelo Comando da Marinha revelam que havia a determinação prévia de matar os integrantes da Guerrilha do Araguaia, e não apenas derrotar o maior foco da luta armada contra a ditadura militar.

Os papéis, de setembro de 1972, relatam a preparação da Operação Papagaio, uma das principais ofensivas das Forças Armadas contra o grupo criado pelo PC do B entre Pará, Maranhão e a região norte de Goiás, que hoje é o Estado do Tocantins.

A documentação a que a Folha teve acesso faz parte do acervo da Câmara dos Deputados. Era confidencial até 2010, mas foi liberado para consulta pública.

'A FFE [Força dos Fuzileiros da Esquadra] empenhará um grupamento operativo na região entre Marabá e Araguaína para, em ação conjunta com as demais forças amigas, eliminar os terroristas que atuam naquela região', afirmam duas 'diretivas de planejamento'.

Uma delas é assinada por Edmundo Drummond Bittencourt, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais. A outra foi escrita pelo contra-almirante Paulo Gonçalves Paiva. Nas duas, a ordem de 'eliminar' os guerrilheiros surge no item 'conceito das operações".
A ordem era eliminar: estes
foram alguns dos eliminados.
 Os textos também dizem que seriam feitas ações para 'impedir os terroristas que atuam na margem daquele rio de transporem-no para a margem leste, eliminando-os ou aprisionando-os'.
A oposição entre 'eliminar' e 'aprisionar' confirma que o primeiro se refere à morte dos militantes, disse o historiador Jean Rodrigues Sales, autor de A Luta Armada Contra a Ditadura Militar (ed. Perseu Abramo).

'No episódio de repressão à militância armada, a política deliberada de assassinatos jamais foi admitida de forma oficial', disse Sales.

Segundo Criméia Schmidt de Almeida, ex-guerrilheira e estudiosa do conflito, 'realmente [ainda] não havia registro disso [determinação prévia para matar]'.

Para Taís Morais, coautora com Eumano Silva de Operação Araguaia (Geração Editorial), 'militar não escreve ordem que não deve ser cumprida'.

As 'diretivas' corroboram relatos de testemunhas do conflito, segundo as quais, nos anos seguintes, comunistas foram mortos mesmo depois de serem presos.

Ainda não foi produzida uma narrativa oficial sobre a luta armada durante a ditadura -- um dos objetivos da Comissão da Verdade, que o governo quer instituir.
 Procurado na terça-feira, o Ministério da Defesa afirmou que, por não ter tempo de encontrar os documentos, não os comentaria"
Resumo da opereta: acabam de ser pulverizadas, espetacularmente, todas as objeções das viúvas da ditadura, dos discípulos do totalitarismo e das avestruzes por conveniência, contra as investigações da Comissão da Verdade. Há mesmo muito que o povo brasileiro precisa saber sobre um dos períodos mais infames da História deste país.

"VI MUITOS QUE FICAVAM SEM 
AS UNHAS, SEM PARTE DA ORELHA, FRACOS 
DE TANTO PERDER SANGUE"

E, para se ter uma idéia das monstruosidades perpetradas no Araguaia, eis um interessante relato colocado no ar pelo Folha.com em agosto de 2008 (não saiu na edição impressa), quando ex-recrutas, que participaram por obrigação daquelas operações, contaram o que ocorreu. Os grifos, claro, são meus:
"'Logo que chegamos lá, fomos avisados de que ou matávamos ou morríamos. Não tivemos escolha', diz o presidente da Associação Brasileira dos Ex-Combatentes do Araguaia no Piauí, João Batista de Oliveira, 59. 'Fomos vítimas, até mais do que os guerrilheiros, porque fomos enganados', afirma. 'Que reconheçam que não somos carrascos. Os carrascos eram os generais'.
 "...[os recrutas] pensavam que iriam fazer apenas mais uma manobra regular. Só no meio da viagem até Xambioá (TO), quando passavam por Grajaú (MA), é que ficaram sabendo que se tratava de um combate real. (...) 'Só soube quando entregaram munição real para a gente. Se fosse só uma manobra, aquilo não era necessário', diz Raimundo Pereira dos Santos, 56.
"...os ex-militares dizem ter ficado em grupos separados, de 13 a 15 homens cada um, interconectados por um sistema de rádio, de onde vinham as ordens. 'Ainda hoje lembro os dizeres da transmissão: 'É para calcinar o cipó'. Calcinar era matar, cipó eram os guerrilheiros', afirma Guilherme Xavier Neto, 60

"...os ex-combatentes entrevistados (...) dizem que a violência era produzida pelos oficiais de carreira do Exército.

'Vi muitos que ficavam sem as unhas, sem parte da orelha, fracos de tanto perder sangue nos interrogatórios', diz Oliveira. 'Quando um era morto, o corpo era pendurado no helicóptero num saco de estopa e exibido na cidade, para fazer medo. Depois, enterrado numa cova rasa ou jogado no rio. Com certeza, a maioria dos que ainda buscam corpos de parentes não vai encontrar nada'."

sábado, 26 de março de 2011

REVEJO NESTA HORA TUDO QUE APRENDI: MEMÓRIA NÃO MORRERÁ!

"Morte vela, sentinela sou
do corpo desse meu irmão 

que já se foi.
Revejo nesta hora 

tudo que aprendi, 
memória não morrerá!

Longe, longe ouço essa voz
que o tempo não vai levar!"
(Sentinela, Milton Nascimento)

Prestes a completarem-se 47 anos da quebra da normalidade institucional no Brasil, mergulhando o País nas trevas e barbárie durante duas décadas, é oportuno lembrarmos o que realmente foi essa nada branda ditadura de 1964/85 -- cujo aniversário não é mais comemorado pelas Forças Armadas mas ainda reúne totalitários (fardados ou não) em sessão solene do Clube Militar. 

Como frisou a bela canção de Milton Nascimento e Fernando Brant, cabe a nós, sobreviventes do pesadelo, o papel de sentinelas do corpo e do sacrifício dos nossos irmãos que já se foram, assegurando-nos de que a memória não morra – mas, pelo contrário, sirva de vacina contra novos surtos da infestação virulenta do totalitarismo.


Nessa efeméride negativa, o primeiro ponto a se destacar é que a quartelada de 1964 foi o coroamento de uma longa série de articulações e tentativas golpistas, nada tendo de espontâneo nem sendo decorrente de situações conjunturais; estas foram apenas pretextos, não causa.

Há controvérsias sobre se a articulação da UDN com setores das Forças Armadas para derrubar o presidente Getúlio em 1954 desembocaria numa ditadura, caso o suicídio e a carta de Vargas não tivessem virado o jogo. Mas, é incontestável que a ultra-direita vinha há muito tempo tentando usurpar o poder.

Em novembro/1955, uma conspiração de políticos udenistas e militares extremistas tentou contestar o triunfo eleitoral de Juscelino Kubitscheck, mas foi derrotada graças, principalmente, à posição legalista que Teixeira Lott, o ministro da Guerra, assumiu. Um dos golpistas presos: o então tenente-coronel Golbery do Couto e Silva, que viria a ser o formulador da doutrina de Segurança Nacional e eminência parda do ditador Geisel.

Em fevereiro de 1956, duas semanas após a posse de JK, os militares já se insubordinavam contra o governo constitucional, na revolta de Jacareacanga.

Os oficiais da FAB repetiram a dose em outubro de 1959, com a também fracassada revolta de Aragarças.

E, em agosto de 1961, quando da renúncia de Jânio Quadros, as Forças Armadas vetaram a posse do vice-presidente João Goulart e iniciaram, juntamente com os conspiradores civis, a constituição de um governo ilegítimo, só voltando atrás diante da resistência do governador Leonel Brizola (RS) e do apoio por ele recebido do comandante do III Exército, gerando a ameaça de uma guerra civil.

Apesar das bravatas de Luiz Carlos Prestes e dos chamados   grupos dos 11  brizolistas, inexistia em 1964 uma possibilidade real de revolução socialista. Não houve o alegado "contragolpe preventivo", mas, pura e simplesmente, um golpe para usurpação do poder, meticulosamente tramado e executado com apoio dos EUA. Derrubou-se um governo democraticamente constituído, fechou-se o Congresso Nacional, cassaram-se mandatos legítimos, extinguiram-se entidades da sociedade civil, prenderam-se e barbarizaram-se cidadãos.

A esquerda só voltou para valer às ruas em 1968, mas as manifestações de massa foram respondidas com o uso cada vez mais brutal da força, por parte de instâncias da ditadura e dos efetivos paramilitares que atuavam sem freios de nenhuma espécie, promovendo atentados e intimidações.

Até que, com a edição do dantesco AI-5 (que fez do Legislativo e o Judiciário Poderes-fantoches do Executivo, suprimindo os mais elementares direitos dos cidadãos), em dezembro de 1968, a resistência pacífica se tornou inviável. Foi quando a vanguarda armada, insignificante até então, ascendeu ao primeiro plano, acolhendo os militantes que antes se dedicavam aos movimentos de massa.

As organizações guerrilheiras conseguiram surpreender a ditadura no 1º semestre de 1969, mas já no 2º semestre as Forças Armadas começaram a levar vantagem no plano militar, introduzindo novos métodos repressivos e maximizando a prática da tortura, a partir de lições recebidas de oficiais estadunidenses.

Em 1970 os militares assumiram a dianteira também no plano político, aproveitando o boom econômico e a euforia da conquista do tricampeonato mundial de futebol, que lhes trouxeram o apoio da classe média.

Nos anos seguintes, com a guerrilha nos estertores, as Forças Armadas partiram para o extermínio premeditado dos militantes, que, mesmo quando capturados com vida, eram friamente executados.

A Casa da Morte de Petrópolis (RJ) e o assassinato sistemático dos combatentes do Araguaia estão entre as páginas mais vergonhosas da História brasileira – daí a obstinação dos carrascos envergonhados em darem sumiço nos restos mortais de suas vítimas, acrescentando ao genocídio a ocultação de cadáveres.

O milagre brasileiro, fruto da reorganização econômica empreendida pelos ministros Roberto Campos e Octávio Gouveia de Bulhões, bem como de uma enxurrada de investimentos estadunidenses em 1970 (quando aqui entraram tantos dólares quanto nos 10 anos anteriores somados), teve vida curta e em 1974 a maré já virou, ficando muitas contas para as gerações seguintes pagarem.

As ciências, as artes e o pensamento eram cerceados por meio de censura, perseguições policiais e administrativas, pressões políticas e econômicas, bem como dos atentados e espancamentos praticados pelos grupos paramilitares consentidos pela ditadura.

Corrupção, havia tanta quanto agora, mas a imprensa era impedida de noticiar o que acontecia, p. ex., nos projetos faraônicos como a Transamazônica, Ferrovia do Aço, Itaipu e Paulipetro (muitos dos quais malograram).

A arrogância e impunidade com que agiam as forças de segurança causou muitas vítimas inocentes, como o motorista baleado em 1969 apenas por estar passando em alta velocidade diante de um quartel, na madrugada paulistana (o comandante da unidade ainda elogiou o recruta assassino, por ter cumprido fielmente as ordens recebidas!).

Longe de garantirem a segurança da população, os integrantes dos efetivos policiais chegavam até a acumpliciar-se com traficantes, executando seus rivais a pretexto de justiçar bandidos (Esquadrões da Morte).

O aparato repressivo criado para combater a guerrilha propiciava a seus integrantes uma situação privilegiadíssima. Não só recebiam de empresários direitistas vultosas recompensas por cada "subversivo" preso ou morto, como se apossavam de tudo que encontravam de valor com os resistentes. Acostumaram-se a um padrão de vida muito superior ao que sua remuneração normal lhes proporcionaria.

Daí terem resistido encarniçadamente à disposição do ditador Geisel, de desmontar essa engrenagem de terrorismo de estado, no momento em que ela se tornou desnecessária. Mataram pessoas inofensivas como Vladimir Herzog, promoveram atentados contra pessoas e instituições (inclusive o do Riocentro, que, se não tivesse falhado, provocaria um morticínio em larga escala) e chegaram a conspirar contra o próprio Geisel, que foi obrigado a destituir sucessivamente o comandante do II Exército e o ministro do Exército.

A ditadura terminou melancolicamente em 1985, com a economia marcando passo e os cidadãos cada vez mais avessos ao autoritarismo sufocante. Seu último espasmo foi frustrar a vontade popular, negando aos brasileiros o direito de elegerem livremente o presidente da República, ao conseguir evitar a aprovação da emenda das diretas-já.

sexta-feira, 25 de março de 2011

A LEI DA FICHA LIMPA, A HEMORRAGIA E OS ESPARADRAPOS

Nunca apoiei a Lei da Ficha Limpa, pois detesto paliativos e, mais ainda, simulacros de soluções.

Vivemos sob o sistema capitalista, cujo primeiro e único mandamento é enriquecei!.

Sem complemento nenhum. É só enriquecei!, mesmo.

Pouco importa se por meios éticos, amorais ou imorais. Isto é irrelevante. O capitalismo a todos lança numa corrida de ratos atrás da riqueza, status e poder, pisando em quem atrapalhar a escalada.

Há ainda certas leis vetustas, anticapitalistas. Como aquela proibindo que se assassine o concorrente direto para tirá-lo do caminho.

Mas, quem enriqueceu geralmente consegue escapar das grades, seja com subornos bem colocados, seja recorrendo ao estoque infinito de medidas protelatórias que a Justiça lhes faculta e os luminares do Direito estão sempres prontos para sugerir.

Mais: só tolos não percebem que Executivo e Legislativo hoje pouco mais são do que Poderes decorativos, pois sua liberdade de ação acaba onde começa a imposição dos ditâmes do grande capital.

Bancos estão entre o que há de mais parasitário, pernicioso e predatório em nossa sociedade. O que aconteceria se Dilma Rousseff e os nobres parlamentares decidissem estatizar o sistema financeiro, confiscando o que foi arrancado do povo para devolvê-lo ao povo? Não durariam um dia nas suas funções.

Pois, mais do que qualquer cláusula pétrea da Constituição, prevalece o princípio de que nada será feito contra os interesses dos realmente poderosos. E revoguem-se  os que  dispuserem em contrário, como revogaram  Allende, João Goulart e tantos outros...

O Executivo nada mais faz do que gerenciar o País para os capitalistas. O Legislativo discute o sexo dos anjos e aprova aquilo que lhe compete aprovar, depois de concluídas as barganhas de praxe.

Se afastarmos os corruptos mais ostensivos, só conseguiremos fazer com que os demais sofistiquem o  modus operandi.

Eu era um novato na imprensa do Palácio dos Bandeirantes quando do Fora Collor!. Jamais esquecerei a avaliação de um colega que lá trabalhava há décadas:
 "O único pecado do PC Farias foi desconhecer as práticas adotadas por seus iguais dos centros políticos importantes. Todos cometem os mesmíssimos delitos. Só que, em São Paulo, caixa 2 jamais emite cheques, paga tudo em dinheiro vivo, para não deixar digitais espalhadas por aí. O caipirão das Alagoas não sabia disto..."
Então, sempre que ouço falar em acabarmos com a corrupção sob o capitalismo, a imagem que me vem à mente é a de cidadãos a enxugar gelo para todo o sempre e esforçando-se se ao máximo para crerem que fazem algo útil...

Se quisermos estabelecer o primado da moralidade, teremos de dar um fim ao sistema econômico fundado no enriquecei! e instaurar outro em que o valor supremo seja o bem comum, com cada indivíduo dando sua melhor contribuição para a felicidade de todos.

O resto são fúteis tentativas de estancar hemorragia com esparadrapos.

Se nos propusermos a  regenerar  o capitalismo, 
ficaremos girando eternamente sem sair do lugar... 

quinta-feira, 24 de março de 2011

OS CORAÇÕES, AS MENTES, A BARBÁRIE E OS MASSACRES

"...Gaddafi não é exatamente madre Teresa de Calcutá e (...), sem os bombardeios, iria fazer pó de Benghazi e de seus habitantes.

Pode-se lançar mil e um argumentos, alguns até ponderáveis, para ser contra a decisão do Conselho de Segurança. Mas quem usa qualquer um desses argumentos deveria dar-se ao trabalho de contar também o que aconteceria se a proposta fosse rejeitada.

Aconteceria mais um massacre. Simples assim."

Estas obviedades foram escritas por Clóvis Rossi, na sua coluna desta 5ª feira, O Itamaraty tucanou.

Entre nós dois não existe exatamente uma comunhão de idéias, mas sim uma convergência de idade. Por já termos percorrido muito chão, aprendemos a ver as coisas como elas são, e não como deveriam ser para encaixar-se em certas elocubrações de torcedores.

Caso dos que, para entoarem a habitual ladainha contra as potências ocidentais, compactuam com algo pior ainda: a barbárie em sua forma mais bestial, que atende pelo nome de Muammar Gaddafi.

Então, Rossi repetiu exatamente o que eu dissera: sem a intervenção autorizada pela ONU, as tropas militarmente superiores do tirano venceriam os revoltosos e, ato contínuo, desencadeariam um banho de sangue de fazer inveja a Vlad Dracul.

De onde vem esta certeza? De várias décadas de acompanhamento da política internacional, atento e sem antolhos ideológicos.

E de haver tido o marxismo bem aprendido como ponto de partida de minha trajetória: nunca abri mão da proposta original de Marx e Engels, de conduzirmos a humanidade a um estágio superior de civilização, o que implica uma incompatibilidade visceral com aberrações como as tiranias pessoais e com regressões como os estados teocráticos.

Sou e sempre serei um revolucionário. Mas, do tipo de Rosa Luxemburgo.

Não acredito em versões convenientes, nem compactuo com o maniqueísmo primário dos desnorteados de esquerda -- o retrocesso do pensamento crítico da geração 68 para o velho dogmatismo stalinista, como consequência do isolamento dos movimentos de contestação do  status quo  a partir dos  avanços tecnológicos da década de 1990 e da globalização econômica.

Isolamento que só será rompido se e quando conseguirmos transcender tal maniqueísmo e voltarmos a nos comunicar com o cidadão comum, sensibilizando corações e dizendo coisas que façam o mínimo sentido para quem sabe usar as mentes.

Enquanto formos condescendentes com os Gaddafis e Ahmadinejads da vida, continuaremos falando com bem poucos e sendo ignorados pelos muitos.

Isto também  é simples assim.

quarta-feira, 23 de março de 2011

O VIAGRA FAZ MILAGRES

O primeiro-ministro italiano Silvio Berlusconi, que será julgado no mês que vem por prostituição de menor durante suas festinhas privadas, ironizou a acusação dos promotores, segundo os quais teria transado com 33 prostitutas de luxo em dois meses:

"Eu já tenho quase 75 anos e, apesar de ainda ser animado (...), 33 garotas em dois meses me parece ser demais até mesmo para um homem de 30 anos", disse ao jornal La Repubblica.

Parece que, além do ideário fascista, Berlusconi tem outras afinidades com a República de Salò -- principalmente da forma como ela foi retratada por Pier-Paolo Pasolini em Salò, ou os 180 dias de Sodoma...

CALA A BOCA, GILMAR MENDES!

O ministro Gilmar Mendes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, acaba de justificar com estas palavras sua posição de impugnar a aplicação da Lei da Ficha Limpa nas eleições de 2010:
"Esta é a missão desta corte. Aplicar a jurisdição, ainda que contrarie a vontade popular".
Será que nenhum colega vai refrescar sua memória, atirando-lhe na cara o voto que deu em 2009 a favor da extradição de Cesare Battisti?

Naquela ocasião ele não só passou por cima da jurisdição (a Lei do Refúgio, revogada na prática pelo STF, que não tem poderes para tanto) como desconsiderou a jurisprudência consolidada em várias decisões anteriores.

Parece que contrariar a vontade popular, pode. O que não pode é contrariar governos neofascistas europeus...

CURTO E GROSSO - 2

Capitalismo é o sistema no qual uma empresa dedicada a atividade perigosa, em nome da ganância, corrompe aqueles que a deveriam fiscalizar e continua operando precariamente, até que o elástico arrebenta e os danos, imensos, incidem sobre o país inteiro, quiçá também sobre outras nações.

Nunca tantos sofreram tanto por culpa de tão poucos -- é o que acontece quando os interesses de minorias prevalecem sobre o bem comum.

CURTO E GROSSO

As potências ocidentais estão certas ao impedirem que o ditador Muammar Gaddafi continue massacrando seu povo, e erradas ao não agirem da mesmíssima forma contra os ditadores do Iêmen e do Bahrein.

Os desnorteados de esquerda estavam certos quando combatiam os ditadores latino-americanos, mas estão errados ao não reconhecerem em Muammar Gaddafi e Mahmoud Ahmadinejad dois espécimes da mesmíssima fauna, merecedores do mesmíssimo tratamento.

Há uma diferença, porém.

As potências ocidentais não precisam ser coerentes e convincentes. Basta-lhes o poderio econômico avassalador.

A esquerda precisa ser coerente e convincente, se quiser encarnar de novo a esperança das gentes num mundo melhor.

Só assim vai representar uma alternativa de poder em termos globais, e não apenas em nações atrasadas e isoladas.

Os explorados de todos os países só voltarão a unir-se sob uma mesma bandeira se esta for mesmo uma bandeira, não um trapo manchado de sangue.

terça-feira, 22 de março de 2011

LUIZ APARECIDO E SUAS "MEMÓRIAS PAULISTANAS"

Jornalista e militante histórico da esquerda brasileira, o Luiz Aparecido da Silva (foto), com quem mantenho uma relação de amizade e companheirismo de quase quatro décadas, estava inspirado quando escreveu esta crônica sobre a Sampa de outrora e seu ambiente jornalístico, político e cultural que fervilhava, apesar da ditadura (e, claro, contra a ditadura).

Eu e meus contemporâneos curtiremos a nostalgia; os jovens, espero, colherão algumas informações interessantes: 
"Naqueles agitados, tensos e criativos anos chamados de 60, mas que foram até meados de 70, em plenos “anos de chumbo”, de fúrias e carnificinas da ditadura militar, nós jovens (na época) inquietos e inimigos jurados do fascismo, também vivíamos intensamente. Liamos muito, de filosofia a romances, fazíamos musica e cantávamos a sede de liberdade, as agruras do povo. Faziamos também filmes e peças de teatro expressando nosso amor ao povo e as pessoas queridas.
"Arena conta Tiradentes", peça
inesquecível do Teatro de Arena
 E a gente namorava muito também. Desde as colegas de Faculdade, de trabalho, até gente de teatro e havia as amigas e simpatizantes de nossa causa maior, como a Kate Hansen, Sonia Piccinin, Beth Mendes (que chegou a ser presa e torturada por pertencer à base de apoio da ALN), o pessoal do Arena e do Teatro Oficina do José Celso e outras que até entraram na luta por amor ou ideologia.
De Penápolis a Sampa

Para mim as coisas começaram em Penápolis, onde fizemos teatro, cineclubes, discutíamos musica, cinema, literatura e filosofia, principalmente na casa de “seu” Manoel Lacava e nossa musa e protetora dona Amélia, que tinha sido também a professora da maioria de nós no grupo escolar e era mãe de dois de nossos companheiros de toda hora, o Celso-Capim que já virou borboleta e Cilô que ainda esta em Sampa repartindo sua vida e cultura e dando aulas.

Por ali também começamos na politica de resistência. Depois nossa turma original debandou para fazer a vida. Alguns para Brasilia e a maioria para São Paulo, onde a efervescência politica e cultural era maior.
A exibição de filmes eróticos
se concentrava na "Boca do Lixo"
Eu e meus queridos amigos e camaradas de luta e vivência, transitávamos naquela São Paulo desvairada e que ainda garoava em vez de inundar, pelo velho centro. Pelo quadrilátero que ia da avenida São João até a Paulista. Da Brigadeiro até a Consolação.

Mas também na velha “boca do lixo” onde ficavam as produtoras de cinema “sérios” e pornochanchadas e o velho restaurante “Soberano”. Fora o "Bar Riviera",e m frente ao Cine Belas Artes, onde tomávamos umas também, às vezes cercados de agentes da ditadura disfarçados.
Ali discutíamos o mundo e filmávamos o que era possível. Carlão Riechenbach, Ozualdo Candeias, Rogério Sganzerla, Luiz Rozemberg Filho que vivia no Rio mas sempre ia a Sampa discutir idéias e as vezes buscar financiamento para seus filmes, Walter Hugo Khoury, talvez o mais profissional dos cineastas paulistas, Silvio de Abreu, Jairo Ferreira, Andrea Tonaci, Afonso Brazza (que depois veio para Brasilia fazer filmes e ser bombeiro. José Mojica Marins, o famoso “Zé do Caixão” . Dos escritorios e “sets” de filmagens íamos pro Soberano almoçar filé a parmegiana e de noite íamos pro “Ponto 4”, “bar das putas” na Consolação e até o Giggeto ver os atores famosos da época.

Uisque sem guaraná

Saía eu dos Diários Associados onde era repórter e depois editor já tarde da noite e com o Zézão, José Eduardo Faro Freire, Rubens Gatto, Lia Ribeiro Dias, Maria Luiza Araujo, Beth Lorenzote, João "da Baiana" Teixeira, Clóves Geraldo e outros companheiros íamos articular politica e conversar sobre cultura brasileira no “Pari Bar” da praça Dom José Gaspar. Depois debandávamos para tomar as ultimas da noite lá pras bandas de Pinheiros, Lapa e Paulista, onde outras turmas se encontravam para tomar umas no fim de noite. A ultima refeição era quase sempre no “Tabu” da "boca do lixo", que tinha um filé de primeira e baratinho, à altura de nossos bolsos.
O famoso Sujinho, mais
conhecido como "bar das putas"
 E ainda tínhamos os nossos saraus de poesia e literatura no velho apartamento do doutor Mozart Menezes, fundador da “Cacimba”, na rua Timbiras, em plena “boca do lixo” onde ia de Celso Lungaretti a Rubens Lemos, o poetaço Souza Lopes e sua doce Marcia, Francisco Ugarte e outros viciados em “letras”, politica e boa musica.

Musicas e fim de noite

Ai saimos para ver os músicos da noite que agitavam boates e barzinhos da noite paulistana. João da Baiana Teixeira, Jésus Carlos, o fotografo, o meu querido Alemão-Antonio Eduardo Molina Mandel quando não estava preso. Até o Moa-Moacyr de Oliveira Filho que adorava um samba e outros amigos queridos pintavam sempre na área. Para quem gostava de samba e dançar, tinha o “Som de Cristal", alí pertinho na Rego Freitas e o “Avenida Dançing”, na Rio Branco, quase esquina da São Joao, onde ao lado jogávamos sinuca de vez em quando, depois que os “cobras” do snooker iam descansar.
O cine Belas Artes, que nenhum
  mecenas apareceu agora para salvar
No bar “Redondo” em frente ao Teatro de Arena e a Igreja da Consolação encontrávamos TomZé, Gilberto Gil que era executivo de uma multinacional durante o dia e musico de noite, Gracinha Costa, depois Gal, Caetano, Piti e outros baianos que tinham vindo de Salvador para montar o “Arena Canta Bahia”, no Teatro de Arena, hoje Eugenio Kusnet. Desta baianada, só ficou e adotou e foi adotado por São Paulo o TomZé, os outros foram para o Rio de Janeiro e por lá ficaram.
Curtiamos até Benito de Paula que cantava numa boate da Praça Roosevelt. Luiz Carlos Paraná e a boate "Jogral" ao lado do “Terceiro Uisque” na rua Avanhandava, sempre com cantores bons na parada, de Sergio Ricardo, Johnny Alf a Noite Ilustrada! Mas tinha o Chico Buarque que ia no “sujinho” em frente ao Sesc e na rua Dr.. Vila Nova, a turma que não saia do “Redondo”, como Carlão da Vila. Era muita gente!!!

E nós que estudávamos na Filosofia da USP, íamos tomar cerveja no Bar do Zé na esquina da Maria Antonia com Dr. Vila Nova. Dali saíram muitas articulações e recrutamentos de estudantes para a luta armada contra a ditadura.

E a vida continuava...

E isto depois de durante o dia trabalhar e “cobrir pontos” com os camaradas da luta contra a ditadura, a turma da ALN, depois da APML e do PCdoB. Discutiamos muito os documentos das organizações e partidos e ainda por cima encontrávamos tempo de participar de ações e de propaganda armada. E sempre tensos, esperando a hora, que acabava chegando para muitos de nós, de ver a aparição dos “home” nas veraneios, com metralhadoras para levar a gente para o Dops e Oban e os cárceres sombrios da ditadura.

Mas a gente saia e continuava na luta e no fervor das idéias e das criações que marcaram a cultura e a história brasileira até hoje". (fonte: Blog do Luiz Aparecido)

TARSO GENRO DENUNCIA ILEGALIDADES COMETIDAS PELO STF CONTRA BATTISTI

Genro não poupou a grande imprensa: 
é "irresponsável" e "semeia infâmias"
.
O nosso maior jurista vivo, Dalmo de Abreu Dallari, já disse isto. O Carlos Lungarzo, da Anistia Internacional, também. O advogado Luís Roberto Barroso, idem. Eu falei tantas vezes que fiquei parecendo vitrola antiga quebrada.

Agora é a vez do ex-ministro da Justiça e atual governador do Rio Grande do Sul, Tarso Genro, em alto e bom som, constatar o óbvio:
 "O Brasil tem um prisioneiro político e esse prisioneiro é do Supremo Tribunal Federal, que mantém preso um cidadão que recebeu refúgio do governo brasileiro".
Genro se refere, evidentemente, ao escritor italiano Cesare Battisti, que acaba de completar quatro anos de prisão injustificada, iníqua e arbitrária em nosso país.

Já que a imprensa burguesa mantém uma espessa blindagem contra a verdade, tudo fazendo para minimizar as denúncias das distorções e abusos que o Supremo Tribunal Federal vem cometendo neste caso, é auspicioso que um governador as repita. Fica mais difícil ignorar uma autoridade de primeiro escalão.

Lava nossa alma ler nos veículos do PIG aquilo que o PIG sempre escamoteou: que o STF estuprou a lei ao não interromper o processo de extradição após a concessão do refúgio a Battisti em 2009 e também ao não libertá-lo quando o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva rechaçou definitivamente o pedido italiano, no final de 2010.

Os dois perseguidores de Battisti alternam-se
como presidente do STF e relator do seu caso
"O STF tomou duas decisões absolutamente e flagrantemente ilegais", protestou Genro. Certifico e dou fé.

Em dia inspirado, ele também tratou a mídia manipuladora como merece, ao avaliar que aborda o Caso Battisti de maneira "irresponsável" e "semeia infâmias", sem dar espaço à contestação.

Seu pronunciamento foi feito em evento do Ministério Público do Rio Grande do Sul.

CONARE DECIDIU CONTRA BATTISTI 
POR ORIENTAÇÃO DE GENRO

Genro aproveitou para esclarecer um aspecto paradoxal do caso, que eu fui o primeiro a destacar: quando ministro da Justiça, ele próprio recomendou ao presidente do Comitê Nacional para os Refugiados, Luiz Paulo Barreto, que, havendo empate na votação sobre o refúgio de Battisti, desempatasse contra:
"O Conare seria severamente massacrado pela mídia se concedesse o refúgio. Então quis avocar para mim esse desgaste, enfrentei-o de maneira bem fundamentada e não me arrependo".
É louvável a dignidade pessoal de Genro, mas o cálculo político não foi dos melhores: os linchadores de Battisti usaram e abusaram da  "decisão contrária do Conare" como trunfo para induzir os desinformados a crerem que o refúgio seria tecnicamente injustificado.
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