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terça-feira, 16 de novembro de 2021

E PENSAR QUE 39% DOS ELEITORES FORAM FEITOS DE OTÁRIOS POR UM RATO DO ESGOTO DA VELHA POLÍTICA!

josias de souza
EXCESSO DE PERVERSÃO DIFICULTA FILIAÇÃO
DE BOLSONARO A UM PARTIDO POLÍTICO
Na convenção do PSL em 2008 o general Augusto Heleno acertou na mosca,
mas esqueceu um pequeno detalhe: o Bozo seria o primeiro a sair correndo!
N
enhum outro país do mundo oferece aos políticos tantas opções partidárias como as que existem no Brasil. Basta o sujeito decidir se é meia esquerda, um quarto de esquerda, direita responsável ou direita bolsonarista e sempre haverá um partido à disposição. 

Mas Bolsonaro, com 33 legendas à disposição, comanda o país há mais de dois anos como um presidente sem partido. Isto acontece não por falta de opção, mas por excesso de perversão. 

Bolsonaro não deseja apenas se filiar. Ele quer se apropriar de um partido. E as legendas à disposição já têm donos. 

O capitão já passou por nove partidos. Excetuando-se o PSL, seu penúltimo abrigo, foi tratado com desdém em todos os outros. Agora, quer mandar. Seu desejo de tirar o atraso esbarra na indisposição dos proprietários dos partidos de abrir mão do controle que absoluto que exercem sobre as legendas.

No caso do PL, que estava de casamento marcado com Bolsonaro para 22 de novembro, o dono do negócio é Valdemar Costa Neto. 
Está difícil compatibilizar seus interesses,
mas eles foram feitos um para o outro
 
O sujeito não abriu mão dos poderes que exerce sobre a legenda nem quando integrou a bancada presidiária do
mensalão. Comandou os negócios da facção partidária de dentro da cadeia. 

A união com Bolsonaro foi adiada porque Valdemar hesita em admitir como sócio alguém que gostaria de ocupar o seu lugar. 

Bolsonaro precisa de dinheiro para a campanha e de tempo de propaganda de televisão. Valdemar quer muito mais. Ele fecha acordos eleitorais com uma lógica empresarial. 

Para 2022, planejou fazer uma aplicação de risco na apólice de Bolsonaro, diversificando seus investimentos nos estados. Suas apostas vão de Rodrigo Garcia, o candidato de João Doria ao governo de São Paulo, até candidaturas estaduais vinculadas a Lula no Nordeste. 

A prioridade de Valdemar não é reeleger Bolsonaro, mas elevar o número de deputados federais do PL. Com uma bancada forte, o oligarca do PL aumenta a mordida no fundo partidário e no fundo eleitoral. E eleva o seu cacife para chantagear o próximo presidente da República, seja ele quem for. 

Bolsonaro ainda pode se filiar ao PL. Mas Valdemar não fechará nenhum negócio que implique a renúncia à chave do cofre ou a perspectiva de prejuízos financeiros. 

No PSL, partido que cresceu na sua aba, Bolsonaro dispunha de tempo de TV e de uma caixa registradora com R$ 350 milhões. Em vez de se entender com Luciano Bivar, o dono do partido, criou uma crise que o deixou sem propaganda e sem dinheiro. 

Bolsonaro não conseguiu fundar seu próprio partido, o Aliança Brasil. Antes de se declarar noivo do PL, namorou outras quatro legendas: Patriotas, PTB, Republicanos e PP. 

Precisa fazer uma escolha até final de março de 2022. À medida que o tempo passa, encurta-se a margem de manobra do presidente. (por Josias de Souza)
Valdemar Costa Neto jamais poderia faltar neste
vídeo: ele é o que aparece antes do Zé Dirceu...  

quinta-feira, 14 de maio de 2020

DOM BOZO 1º DÁ O GRITO DA CANGA: BRASIL OFICIALIZA SUA DEPENDÊNCIA DOS EUA E A CONIVÊNCIA COM O CENTRÃO E AS MILÍCIAS

fernando canzian
PARA BOLSONARO, AGORA É POPULISMO OU MORTE
Jair Bolsonaro segue entrincheirado nos cerca de 30% dos brasileiros que ainda o escutam. Mas a onda política, econômica e sanitária em formação deve engolir o presidente.

A curva ascendente de infecções pela Covid-19 projeta 35 mil casos diários daqui a um mês, o que pode representar cerca de 2 mil mortes diárias se o Brasil continuar insistindo num isolamento meia-boca.

As UTIs do SUS devem lotar em muitos estados antes de junho. Os leitos privados remanescentes provavelmente estarão sendo disputados na Justiça ou requisitados às pressas por estados e municípios.
Juramento à nova bandeira
Em algumas semanas, cenas tristes e grotescas como as de Manaus serão comuns em estados mais pobres e no Rio de Janeiro. O cenário remeterá à política contra o isolamento de Jair Bolsonaro e à sua gripezinha.

Até lá, a economia terá afundado muito mais, concretizando a profecia de um tombo histórico no setor de serviços, onde estão dois terços dos empregos.

Talvez comece a ficar claro também que Bolsonaro colocou o Brasil no pior dos mundos: nem fechamos, nem abrimos. 

Isto manterá o vírus entre nós por muito mais tempo, espalhando-se em ondas paralisantes por aqui enquanto o resto do mundo reabre.

Com as investigações do caso Moro/PF/filhos avançando, Bolsonaro precisará cada vez mais do fisiológico centrão, que já deve estar pensando: compensa mamar num governo tão quebrado e moribundo?
"mamãe eu quero mamar..."

Em sua última pesquisa, o Datafolha mostrou que a popularidade de Bolsonaro despencou 11 pontos entre os que têm renda familiar acima de cinco salários mínimos (10% dos brasileiros). Mas ele ganhou oito pontos nos que ganham até dois mínimos (60% da população).

O aumento do apoio entre os mais pobres coincidiu com o início do pagamento da ajuda de R$ 600, por três meses, aos afetados pela crise. Para outros 11,3 milhões no Bolsa Família, o valor usual médio de R$ 190 mensais saltou a R$ 1.200.

É triste dizer isso, mas milhões de brasileiros nunca viram tanto dinheiro na vida.

Sob o pretexto verdadeiro de que os pobres não terão como sobreviver sem a ajuda federal, pode restar ao presidente enveredar por um populismo em cima dessa miséria nacional —agora devidamente cadastrada na Caixa Econômica Federal. (por Fernando Canzian)

terça-feira, 28 de abril de 2020

PhD EM FISIOLOGISMO, PAULINHO DA FORÇA RECUSOU O PORTO DE SANTOS COMO PAGA PARA APOIAR O GOVERNO AGONIZANTE

ricardo kotscho
QUEM QUER O PORTO DE SANTOS? BOLSONARO
SE AGARRA A MILITARES E CENTRÃO
.
"Me ofereceram o porto de Santos e eu não vou aceitar, não vou para o governo numa hora dessas", disse Paulo Pereira da Silva à Folha de S. Paulo, em reportagem sobre a aproximação do presidente Jair Bolsonaro com o Centrão velho de guerra, que voltou a frequentar o Palácio do Planalto. 

Se até ele, o popular Paulinho da Força, um expoente do que há de mais fisiológico na velha política, está desdenhando de ofertas do governo, rejeitando o antigo feudo de Michel Temer, pode-se ter uma ideia da fragilidade da articulação política do Planalto para enfrentar a ameaça de um impeachment, cada vez mais real após a delação premiada de Sergio Moro. 

Antes de descartar o então ministro da Justiça na semana passada, Bolsonaro cuidou de preparar a sua retaguarda na Câmara com esse grupo de deputados de aluguel, que já foi de Eduardo Cunha, depois seria herdado por Rodrigo Maia e agora estava órfão, solto no espaço. 

Já passaram pelo balcão de cargos e emendas montado no Planalto lideranças de partidos como PP, PL, Republicanos, PSD, Solidariedade, MDB e DEM, que tinham em Moro um inimigo comum desde a Lava Jato

Além do Porto de Santos, estão sendo oferecidos neste butim federal jóias da coroa como o Banco do Nordeste, Codevasf, Dnocs, Funasa, FNDE e outras siglas com altos orçamentos e centenas de cargos. 

Uma pergunta que tenho ouvido muito é o que os generais palacianos estão achando desse cavalo de pau do presidente, que fez campanha contra a corrupção e criticava o loteamento do governo entre partidos. 

Não tenho fontes militares, nem mesmo um simples tenente para me ajudar a responder à pergunta, mas devem estar achando bonito, diante do seu obsequioso silêncio. 

Quando Bolsonaro resolveu entregar seu destino ao general Braga Netto, o presidente executivo, mentor da aproximação com o Centrão e encarregado de coordenar um programa econômico de investimentos estatais para o pós-pandemia, o presidente sabia que estava mexendo num vespeiro. 

Os dois movimentos batiam de frente com os superministros Moro (que não se veria confortável ao lado de donos de prontuários na Lava-Jato) e Paulo Guedes, o seu Posto Ipiranga, que andava desaparecido no auge da crise sanitária. 

Nesta 2ª feira (27), logo cedo, quando eram cada vez mais fortes o rumores de que o ministro da Economia estava prestes a jogar a toalha, Bolsonaro o chamou ao Palácio da Alvorada. 

Na saída do encontro, falando aos jornalistas pela primeira vez desde a demissão de Moro, o presidente encheu a bola de Guedes, garantindo que ele continua mandando na economia. 

Depois de perder os lavajatistas de Moro, Bolsonaro não poderia correr o risco de perder o outro pau da barraca, que ainda lhe garante algum apoio de empresários. 

Como Braga Netto não estava nessa reunião do Alvorada, ainda não se sabe como vai reagir à ciranda arriscada do presidente para se manter na cadeira. 

Paulo Guedes já detonou esse Pró-Brasil do general, um conjunto de meia dúzia de folhas de power-point, apelidado pela equipe econômica de PAC-3, o plano de aceleração do crescimento de Dilma Rousseff que a acompanhou no ocaso do seu governo. 

Bolsonaro vai ter que ser mágico para conciliar no mesmo governo duas visões de país tão antagônicas. 

Nada parece impossível para quem agora se segura numa estranha aliança entre militares e o Centrão, o que não orna a participação das Forças Armadas no governo do capitão encurralado por crises em todas as áreas. 

Até o começo da tarde, a demora para definir a nomeação dos amigos dos filhos para o no Ministério da Justiça e a Polícia Federal era outro sintoma da dificuldade crescente para o presidente impor as suas vontades. 

Para tornar ainda mais dramático o cenário político nesse começo de semana, aliados de Bolsonaro temem que o Supremo Tribunal Federal determine a prisão de um dos seus filhos, o vereador Carlos Bolsonaro, apontado nas investigações da Polícia Federal como chefe do gabinete do ódio, que dispara fake news contra adversários políticos e ministros do STF. 

O que falta ainda? Com esse governo, nunca se sabe. A cada dia, sua agonia. 

Vida que segue. (por Ricardo Kotscho)
Como acabará essa ópera bufa? O Raulzito sabia das coisas: "Vai cair!"

domingo, 1 de março de 2020

PRIVILÉGIO ORÇAMENTÁRIO CONCEDIDO ÀS FORÇAS ARMADAS POR BOLSONARO OSCILA ENTRE O CONTRASSENSO E A CRUELDADE

Recebendo a unção do pastor de 2 bilhões de dólares
josias de souza
NOVA POLÍTICA DO CAPITÃO É FEITA
DE IGREJAS E 
MILITARES
Aos pouquinhos, vai se delineando a nova política de Jair Bolsonaro. Sem partido, o presidente conseguiu o milagre de dar um conteúdo governista a todas as denominações evangélicas. Sem base congressual, encostou sua presidência nas Forças Armadas. 

Bolsonaro vê igrejas como diretórios partidários, pastores como cabos eleitorais. Projeta sua imagem nacionalmente sem vincular-se a superestruturas partidárias. Dos militares, ele extrai um apoio político capaz de estabilizar seu governo. 

Mal comparando, o capitão busca nas igrejas uma capilaridade nacional que outros presidentes encontraram no velho PMDB. E transfere para a seara militar o toma lá, dá cá que azeitava as relações com o Legislativo. 

Notícia publicada pela Folha de S. Paulo neste domingo informa que, no primeiro ano de governo, Bolsonaro brindou o Ministério da Defesa com o maior reforço orçamentário. A pasta gastou R$ 6,3 bilhões acima do que estava previsto. 
O toma lá, dá cá agora é com os militares
O governo injetou R$ 7,6 bilhões na Emgepron, uma estatal da Marinha que fabrica corvetas. Criou uma estatal militar nova, a NAV Brasil. Estima-se que terá um quadro de 13,5 mil funcionários. 

Além de subverterem a lógica do liberalismo privatista do ministro Paulo Guedes, os militares beliscaram mimos numa reforma previdenciária mais branda, ornamentada com invejáveis reajustes salariais.

Em duas semanas, a pasta da Economia deve anunciar um novo contingenciamento (bloqueio) de gastos. Por ordem de Bolsonaro, as verbas destinadas a programas militares ficarão imunes à tesoura. 

Não é que os militares não mereçam a deferência. O problema é que, num instante em que faltam verbas até para os miseráveis do Bolsa Família e para as pesquisas científicas, o privilégio orçamentário concedido às Forças Armadas oscila entre o contrassenso e a crueldade. (por Josias de Souza)

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

AO ACENAR A BANDEIRA BRANCA PARA OS RAPOSÕES DA VELHA POLÍTICA, BOLSONARO LHES OFERECE UM COMBO DE FISIOLOGISMO

"sinalizou a intenção de reativar o balcão"
josias de souza
JAIR BOLSONARO LEVA AO BALCÃO EMENDAS E CARGOS
Às voltas com a necessidade de estabilizar o seu governo, Jair Bolsonaro decidiu trocar a autocombustão pelo pragmatismo político. 

Pressionado a dar um rumo à sua articulação política —eufemismo para a distribuição de benesses a deputados e senadores—, o presidente sinalizou a intenção de reativar o balcão. 

Fez isso em duas reuniões realizadas nesta 4ª feira (21), após a visita que fez ao Congresso para entregar a proposta de reforma da Previdência. 

No primeiro encontro, Bolsonaro dividiu a mesa de almoço do palácio residencial do Alvorada com três expoentes do DEM: o ministro Onyx Lorenzoni (Casa Civil) e os presidentes da Câmara, Rodrigo Maia, e do Senado, Davi Alcolumbre. Participou do repasto também um coadjuvante: o deputado Major Vitor Hugo (PSL-GO), líder de Bolsonaro na Câmara. Decidiu-se acelerar a formação de algo que se pareça com um bloco governista no Congresso. 

Serão levadas ao balcão três mercadorias: cargos em órgãos públicos federais situados nos Estados, algo como R$ 3 milhões em emendas orçamentárias para cada parlamentar que se disponha a votar com o governo e a perspectiva de associação da imagem dos governistas com obras inacabadas que o governo planeja reativar em diferentes regiões do país. 
"trocou a autocombustão pelo pragmatismo"

Num segundo encontro, Bolsonaro recebeu a bancada do seu PSL, machucada pelo escândalo das candidaturas fantasmas e pela queda de Gustavo Bebianno do posto de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência. 

O anfitrião anunciou em primeira mão aos correligionários o que acertara na hora de almoço com a caciquia do DEM: vêm aí os cargos, as emendas e as obras. Onyx já havia acenado com a distribuição desse combo de fisiologismo. Mas foi a primeira vez que Bolsonaro avalizou a novidade. 

A rendição do capitão ao toma-lá-dá-cá chega num período que um dos ministros militares do Planalto batizou de fevereiro negro. Na véspera, a Câmara aproveitara a autocrise que Bolsonaro armou com o ex-amigo Bebianno para dar uma pancada no governo. Por um placar elástico —367 votos a 57—, os deputados eletrocutaram o decreto do Planalto que elevara o número de servidores com autoridade para impor o sigilo a dados sujeitos à liberação com base na Lei de Acesso à Informação. 

O mesmo Rodrigo Maia que recostou os cotovelos na mesa do Alvorada fizera vista grossa para a articulação que resultara na primeira derrota legislativa de Bolsonaro. O capitão captou a mensagem: ou joga o jogo ou não terá os 308 votos de que precisa para aprovar a reforma da Previdência na Câmara. Foi para o beleléu a fantasia segundo a qual Bolsonaro obteria a governabilidade no Congresso acertando-se com grupos temáticos como as bancadas da Agricultura, da Saúde e da Bala.
"rendição do capitão ao toma-lá-dá-cá"

Voltam ao proscênio, entre outros, os líderes de partidos que compõem o velho centrão. Comandam o espetáculo os profissionais do DEM, à frente Rodrigo Maia.

O cerco a Bolsonaro foi acertado num jantar ocorrido no início da semana, na residência funcional do presidente da Câmara. Além de Maia, Alcolumbre e Onyx, participou o prefeito de Salvador, ACM Neto, presidente nacional do DEM. (por Josias de Souza)

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

O ABACAXI É DELES, MAS SOMOS NÓS QUE PAGAREMOS O PATO – 1

Sempre defendo a tese de que quem é anticapitalista não deve ocupar cargos eletivos na esfera dos poderes executivo e legislativo. 

O mandato não é profissão, pois se trata de uma função política com objetivos previa e negativamente definidos na Constituição.  

O político não é um trabalhador profissional (ainda que exerça um trabalho remunerado), mas alguém que tem uma função estratégica dentro da estrutura do poder institucional capitalista: como tal, está empenhado na manutenção e indução ao desenvolvimento dessa mesma ordem. 

Quando exerci função pública econômico-financeira, compreendi a um custo muito alto, por experiência própria, a absoluta incompatibilidade entre um norte referencial emancipador (e intrinsecamente anticapitalista) e o múnus político-econômico-administrativo do Estado, ainda que a experiência tenha se dado numa das menores instâncias da estrutura do poder estatal, o município de Fortaleza.   

Muitos políticos de esquerda afirmam, contudo, que a recusa à participação nos aparelhos de estado do capital corresponde ao alheamento à luta política e a uma deserção ao enfrentamento eleitoral; segundo eles, estaríamos deixando o povo à mercê dos políticos identificados com o mainstream do capital e dos interesses que eles representam. 
"apego fisiológico às benesses e mimos do poder burguês"

Outros defendem a participação como forma de defesa das franquias democráticas do estado de direito (mesmo que seja um direito burguês) e freio da volúpia ditatorial de governantes identificados com tudo que é retrocesso civilizatório.      

Encaro tal posicionamento como equivocado, mesmo que possa ser bem intencionado. Assim me posiciono em função da análise em profundidade da essência e consequências das duas funções públicas estatais pela esquerda. 
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A INCONGRUENTE FUNÇÃO POLÍTICO-ADMINISTRATIVA ESTATAL DA ESQUERDA  – A primeira e primordial função de um chefe do Executivo é manter equilibradas as contas públicas, pois o contrário implica a impossibilidade de investimentos em infraestrutura e atendimento das demandas sociais, bem como a perda da credibilidade perante credores de todas as espécies (folha de pagamento do funcionalismo público, pensões previdenciárias, dívidas bancárias, fornecedores de mercadorias e serviços próprios à administração pública, etc.).

O inadimplemento das obrigações estatais traz consequências graves para o normalidade administrativa, como está a ocorrer atualmente em muitos estados e municípios, mesmo contra a vontade dos governantes (a grande maioria deles derrotados nas últimas eleições). 

Como a vida mercantil no atual estágio vive as agruras da perda de sua seiva vital em razão da precarização da reprodução da massa global de valor (dinheiro e mercadorias), a resultante é que cada vez mais se observa uma diminuição da força financeira do Estado, o qual se vê impossibilitado de arrancar impostos de uma população cada vez mais exaurida. 
"o best seller de Thomas Piketty está cheio de furos"

Há quem diga que a saída seria uma maior tributação dos mais ricos, que praticamente não pagam impostos, mal tal solução é inviável sob o lógica do capital. 

O francês Thomas Piketty, em O capital no século XXI, defende tal taxação progressiva. Seu best seller, contudo, está cheio de furos, porque ele não leva em conta a dinâmica autotélica da reprodução do capital, sem a qual este não vive. 

A questão, portanto, não se trata de dar um jeito no capital, para torná-lo justo ou bonzinho, mas de superá-lo; e não por meio da cobrança de impostos que isto pode ser realizado.    

O capital é insaciável: quanto mais o capital industrial, comercial, agrícola e financeiro se concentra, mais ele precisa se concentrar para adquirir força de reinvestimento. 

Tal necessidade de reinvestir é ditada pela queda tendencial da taxa de lucro (teoria marxiana que cada vez mais se comprova), a qual implica uma crescente necessidade de mais capital fixo (em máquinas e, hoje, na robotização pela alta tecnologia da microeletrônica e de outras descobertas científicas), ao mesmo tempo em que torna menos necessário o capital variável (salários).

Consequentemente, taxar as riquezas abstratas dos mais ricos em proporção semelhante à carga tributária incidente sobre os mais pobres se torna inviável dentro da lógica capitalista   
"países do socialismo real acabaram aderindo à economia liberal"

Motivo: isso paralisaria a produção mercantil e levaria o capitalismo mais rapidamente ao colapso. Portanto, jamais as instituições burguesas, as que fazem o controle monetário em especial, aprovariam tais medidas. 

E, se isto ocorresse, o Estado passaria a ser o novo concentrador de renda, tornando-se um produtor de mercadorias sem capacidade de distribuição da riqueza abstrata acumulada (tempo de trabalho nela coagulado) e pelos mesmos motivos acima referidos. 

Isto sucedeu nos países que adotaram o chamado socialismo real, estatizando os meios de produção de mercadorias sem aboli-las; acabaram aderindo à economia de mercado liberal. 

Na sociedade do capital, quem tem força política é sempre o próprio capital. A isto se somam, de um lado, a exigência lógica de sua auto-reprodução ad infinitum; e o poder político é exercido do outro lado, e sempre pela manipulação eleitoral (os pleitos nada mais são do que uma eterna disputa de interesses econômicos, camuflada em exercício democrático da livre escolha popular pelo voto).

Assim, os muitos exemplos históricos atestam que a esquerda no poder acaba invariavelmente subsumindo-se ao império do capital e da sua estrutura do poder institucional, a qual é voltada primordialmente para a manutenção e indução ao desenvolvimento do próprio capital (é sintomático que todos os candidatos da esquerda na última eleição defendessem o desenvolvimento econômico). 
Allende (centro): "sacrificou a vida em nome da coerência"
Um governante de esquerda sensível, brioso e digno, mas que governe sob a égide do capital, termina sempre morto (como o chileno Salvador Allende, que sacrificou a vida para manter-se coerente com seus princípios socialistas) ou defenestrado pelo próprio sistema, a partir da insatisfação popular inevitável. 

Até a manutenção ditatorial no governo pela força militar (caso da Venezuela) tem prazo de validade.   

Pior ainda é quando a função pública exercida pela esquerda se confunde com apego fisiológico às benesses e mimos do poder burguês (como ocorreu com o PT e tantos outros que, mediante o aparelhamento das instituições públicas, passaram a desfrutar dos mesmos privilégios do inimigo). 

Quando assim agem, além do desgaste popular inevitável no longo prazo, expõem-se à desmoralização pública. Praticam atos econômicos e políticos ignóbeis com vistas à reeleição ou mesmo ao enriquecimento privado, abdicando de qualquer resquício de dignidade e contrapondo-se, lato sensu, à defesa dos interesses dos explorados.
Por Dalton Rosado

O envolvimento promíscuo com o poder executivo burguês tem sido historicamente danoso para a esquerda, que sacrifica sua credibilidade em troca de nada, pois acaba sempre sendo dele expelida de forma trágica ou de maneira humilhante.
(continua neste post)

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