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sexta-feira, 19 de abril de 2019

COMO FAZER OS TOLOS CREREM QUE VOCÊ ESTÁ CONTRA TUDO QUE ESTÁ AÍ ENQUANTO GOVERNA PARA QUEM SEMPRE MANDOU AÍ

O zero-zero-nada em ação: seria cômico se não fosse trágico!
vladimir safatle
REVOLUÇÃO
EM MARCHA
Dificilmente entenderemos algo do que corre atualmente no Brasil se não levarmos a sério o que os membros do governo e seus ideólogos chamam de revolução

De fato, o sr. Bolsonaro se vê liderando uma espécie de revolução conservadora na qual seu núcleo mais fiel de eleitores realmente acredita.

Bolsonaro sabe que ele acabará por governar para esse núcleo. Não há chance alguma de reeditar um governo com ampla maioria de aprovação. Mas, como nos lembram os manuais de guerra, melhor um grupo menor e bastante mobilizado do que um grupo grande sem unidade de ação.

Aqueles que o apoiam acreditam estar numa luta contra os poderes que sempre comandaram o país (casta política, imprensa, elite intelectual). 

Creem ter colocado no cerne do poder um dos nossos. Alguém que tem nossos mesmos traços e dificuldades. Alguém que não teme mostrar sua inaptidão ao cargo, criando assim certa identificação empática com os que nunca imaginaram ser presidente. 

Eles acham que, nessa revolução, não se deve respeitar as instituições que foram responsáveis, em larga medida, por tudo o que está aí.
E, como tolos que são, creem na possibilidade...

Nesse horizonte, duas estratégias são centrais. A primeira é fazer o governo lutar contra o governo. Pode parecer uma contradição, mas muitas vezes a única coisa verdadeira são as contradições.

Dias atrás, o sr. Bolsonaro fez uma live com indígenas prometendo lutar contra “alguns picaretas dentro do próprio governo dizendo que protegem vocês”. 

Ou seja, a mensagem é clara. O presidente não é o governo. Pois, lembremos, ele está dentro do governo como um dos nossos, a lutar contra os que sempre se serviram do Estado para nos massacrar. Essa figura do um dos nossos que está em luta dentro do Estado dá, ao mesmo tempo, a impressão de movimento contínuo e a justificativa da inércia. 

Há sempre alguém que vá travar nossos desejos, haverá sempre um expurgo a realizar. As crises no governo são profundamente necessárias. Elas são ocasião de mobilização permanente.

Por outro lado, cresce em importância a estratégia da polarização ideológica. Pois se trata de lutar contra os que se serviram do discurso da justiça para garantir seus próprios privilégios ou para conquistar pretensos novos privilégios. Num país onde todos podem olhar para o lado e se sentirem desprivilegiados, esse discurso tem certa força.

Contra eles, o pior a fazer é assumir a defesa da ordem, da institucionalidade, das negociações tradicionais.
...de uma mudança radical sem tocar nos privilégios da burguesia
Isso seria tudo o que o governo quer, a saber, colocar-se como o artífice de uma revolução em marcha e empurrar seus oponentes como os defensores da ordem estabelecida.

Na verdade, há de se lembrar que essa revolução conservadora esconde sua real dinâmica. Pois ela é, no fundo, uma contrarrevolução preventiva. 

Há de se saber dizer a esses que se deixam seduzir pela dinâmica pretensamente revolucionária em curso: Vocês não foram muito longe.

Em vez de colocar um dos nossos no poder, uma verdadeira revolução traz o poder diretamente para as mãos dos que nunca tiveram poder. Ela destitui os lugares de poder e reconfigura sua geografia. Uma falsa revolução preserva tais lugares, fingindo colocar alguém que seria a encarnação imediata do povo.

No lugar de olhar para os lados quando se procura combater privilégios, uma verdadeira revolução olha para cima.

Ou seja, ela luta exatamente contra aqueles que este governo mais gosta de defender:

— os banqueiros com seus lucros inacreditáveis para uma economia paralisada;
Ou seja, a tal revolução dos tolos é só uma...
— os empresários que ganham carta branca para espoliar trabalhadores: e
— os rentistas que tem seus rendimentos intocados, mesmo em meio a crises econômicas. 

O tabuleiro político do Brasil é outro. E ai daqueles que quiserem continuar a jogar o mesmo jogo de sempre. 
(por Vladimir Safatle)

segunda-feira, 16 de abril de 2018

NA ELEIÇÃO, O NACIONALISTA BOLSONARO DEVERÁ TER APOIO DO AGRONEGÓCIO E RABO PRESO COM OS CHINESES

Por Mathias Alencastro
BOLSONARO, O
CANDIDATO DE PEQUIM
Recente sondagem da XP Investimentos indicou uma queda na desconfiança dos investidores com relação à eleição de Jair Bolsonaro para a presidência. Em novembro passado, 73% indicaram que a Bolsa cairia com uma vitória do candidato. Esse número passou para 41% em abril de 2018.

Uma tendência paradoxal, considerando as dificuldades que os candidatos de extrema-direita costumam enfrentar para se tornarem palatáveis diante do mercado.

Marine Le Pen, p. ex., lançou uma operação de charme junto ao empresariado com vista às presidenciais de 2017. Ela chegou até mesmo a renegar a sua promessa histórica de provocar a retirada imediata da França da União Europeia, prometendo ao invés disso um referendo semelhante ao realizado no Reino Unido. Ainda assim, às vésperas do segundo turno com Emmanuel Macron, Le Pen continuava sendo rejeitada pelo mercado, que previa um colapso da economia com a sua eleição.

Talvez a explicação para o crescimento da aceitação de Bolsonaro entre os investidores esteja na afirmação da indústria da soja como o motor da economia brasileira. É relativamente consensual que Bolsonaro, nos últimos dois anos, deixou de ser o candidato de um nicho identitário —os nostálgicos da ditadura— para se tornar o candidato de um setor econômico —o agronegócio.
Como ficará este dístico em caracteres chineses?

Nesse sentido, a candidatura de Bolsonaro deve ser apreendida como o primeiro projeto político de um grupo de interesse em plena ascensão. 

Fortalecido pela produção de soja e milho, responsável por quase 4% do Produto Interno Bruto, a região do Centro-Oeste, e principalmente Mato Grosso do Sul e Goiás, parece ter desenvolvido a ambição de tornar-se a versão brasileira do Texas que, com a ajuda dos petrodólares, elegeu dois dos últimos cinco presidentes americanos.

No entanto, é essencial ter em conta que o fiador do mercado que apoia a candidatura de Jair Bolsonaro é o Partido Comunista chinês. A indústria da soja da China funciona como um cartel controlado por um punhado de estatais que consomem, juntas, mais de dois terços da produção de soja brasileira.

Ou seja, na prática, Bolsonaro é o homem de um grupo de investidores que depende das boas relações com Pequim.

As implicações para o Brasil da relação entre Bolsonaro e China através do agronegócio se tornarão, mais cedo ou mais tarde, um tema de campanha. 
Outro vilão ligado à China: o dr. No

Um governo Bolsonaro teria autonomia para se posicionar contra a China em questões comerciais e estratégicas? 

As instituições financeiras ocidentais levariam a sério as promessas de liberalismo econômico por parte de um governo fortemente exposto à influência da China?

A julgar pelas suas críticas aos investimentos chineses no Brasil, e pelo seu deslocamento a Taiwan, principal antagonista de Pequim, Bolsonaro parece indiferente à geopolítica que alavanca a sua candidatura. 

Isto posto, com o decorrer da campanha, é provável que o lobby do agronegócio comece a pesar no seu cálculo politico, e que a China se torne para Bolsonaro o equivalente da Rússia para Donald Trump. Um aliado inconveniente.

terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

INTERVENÇÃO NO RJ: COMANDANTE DO EXÉRCITO QUER GARANTIA DE QUE NÃO HAVERÁ APURAÇÃO FUTURA DOS EXCESSOS!

"Na reunião com o Conselho da República, na manhã desta segunda-feira (19), o comandante do Exército, general Eduardo Villas Bôas, disse ser necessário dar aos militares 'garantia para agir sem o risco de surgir uma nova Comissão da Verdade' no futuro, depois de o presidente Michel Temer informar aos integrantes do encontro da intervenção federal na área de segurança do Rio de Janeiro. 
A referência de Villas Bôas é ao fato de, depois da lei da Anistia, de 1979, ter sido criada Comissão da Verdade, durante o governo Dilma, que investigou casos de tortura e mortes durante o período da ditadura militar".
Mais uma vez a vida imita a arte: até agora a permissão para matar só era concedida oficialmente nas histórias do agente 007.

Oficiosamente (ou seja, por baixo dos panos), os poderosos do mundo inteiro, quando veem ameaçados seus privilégios, quase sempre tiram a coleira dos seus pit bulls e os deixam barbarizar à vontade, garantindo-lhes que não responderão por seus crimes.

As forças repressivas da ditadura de 1964-1985, p. ex., contaram com tal permissão às escâncaras. Só não via quem não queria.
Até a lei foi mudada para evitar que o delegado Sérgio Fleury, tocaieiro de Carlos Marighella, fosse preso por suas matanças anteriores (tinha sido um dos matadores do Esquadrão da Morte paulista).

E do que o general Villas Bôas está se queixando, afinal? A Comissão Nacional da Verdade, abandonada à própria sorte por quem a criou, não conseguiu ir fundo nas investigações nem abrir brecha nenhuma no manto de impunidade que desde 1985 garante sono tranquilo às bestas-feras do regime militar.

Quando penso na CNV, o paralelo que sempre me ocorre é futebolístico: parecia aqueles atacantes franzinos que, quando obrigados a disputar bola dividida com zagueirões de maus bofes, correm para não chegar...

domingo, 3 de abril de 2016

NUNCA DIGA NUNCA RENUNCIAREI

Um ótimo filme para o final desta noite de domingo é Never say never again, que no Brasil recebeu o nome de 007 - Nunca mais outra vez.

O título original é uma ironia com o próprio Sean Connery, que em 1971, depois de 007 - Os diamantes são eternos, prometera nunca mais interpretar o espião James Bond.

Já havia tomado a mesmíssima decisão em 1967, mas uma oferta irresistível o levara a aceitar outra missão.

Refugou de novo em 1983, quando já estava tão inadequado para o papel que precisou disfarçar a careca e espremer a barriga proeminente com uma faixa.

E ainda teve de aguentar a zombaria da produção, ao dar ao filme um título que, em tradução literal, significa nunca diga nunca mais

Enfim, afirmações muito taxativas embutem sempre o risco de reconsideração ou desmoralização.

P. ex., quem diz jamais renunciarei quando já não lhe resta a mais remota chance de continuar governando, mostra apenas descolamento da realidade. 

Pois, a menos que (como Vargas) pretenda sair da vida para entrar na História, terá de escolher entre renunciar ou ser expelida pela via do impeachment ou da cassação do mandato.

A renúncia seria bem mais digna, além de abreviar a agonia do sofrido povo brasileiro.
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