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terça-feira, 17 de dezembro de 2024

PRESO? EM 1980 LULA ESTAVA É DORMINDO COM O INIMIGO: O DELEGADO QUE DEVERIA SER, MAS NÃO AGIA COMO SEU CARCEREIRO

O filme Dormindo com o inimigo, estrelado por Julia Roberts, é encontrado no streaming da Disney.
Q
ue falta fazem, na grande imprensa atual, os editores competentes do passado! 

Nas últimas décadas os jornalões cada vez mais preferiram trocar um profissional de alto gabarito por três meramente medianos, cujos ganhos somados equivaliam ao do bambambã descartado. 

Só que, no caso, um era muito mais do que três, porque experiência e perspicácia valem ouro no jornalismo.

O certo é que se tornaram frequentes as notícias bisonhas como esta de ontem (17) no Estadão: filho de ex-chefe do Dops que prendeu Lula na ditadura fez parte da equipe médica do presidente.
Que lindo: duas famílias unidas pelos laços da amizade!

Deveria provocar estranheza o fato de que "Romeu Tuma, pai de Rogério Tuma, foi chefe de órgão da ditadura militar que investigou o então metalúrgico e líder sindical, em abril de 1980"?!

Uma rápida pesquisa nos arquivos do Estadão, que eram ótimos quando eu trabalhei lá no século passado, revelaria que nunca houve antagonismo entre Lula e Tuma, muito pelo contrário.

Romeu Tuma era um delegado que dançava conforme a música, sempre evitando cair em desgraça com os poderosos. 

Comandando o Dops em plena ditadura militar, não deixou suas digitais impressas em nenhuma tortura ou execução, sendo posteriormente apontado apenas como responsável por esquemas para dar sumiço nos restos mortais de militantes assassinados e falsear as informações a respeito do destino que tiveram.

Prendeu mesmo Lula como grevista e
incitador da subversão em 1980, mas foi no mero cumprimento de ordens superiores. Durante aqueles 31 dias, a grande imprensa cansou de publicar fotos de Lula e outros sindicalistas disputando animadas partidas de futebol numa quadra do Dops. Cana brava? Nem a pau, Juvenal...
Mesmo atuando ao lado de vilãos odiosos como
Fleury e Erasmo Dias, Tuma não se queimava
Mais: Romeu Tuma Jr. depois revelou que o pai, encerrado o expediente, levava Lula consigo para casa, a fim de que pudesse tomar um bom banho, receber uma refeição caprichada, dormir com os anjos.  Ele voltava revigorado para o Dops na manhã seguinte, junto com aquele que deveria ser seu carcereiro, contudo estava mais para hospedeiro...  

Romeu Tuma era tão diferente de delegados sanguinários como o Sérgio Fleury que, quando o Plano Cruzado foi lançado pelo Governo Sarney em 1986, foi ele o escolhido para xerife do congelamento de preços, incumbido de posar para a imprensa autuando comerciantes que desrespeitavam os valores máximos determinados pela equipe de Dilson Funaro.

Então, chega a ser hilária a suposição do Estadão, de que houvesse algum risco em Lula ter como um de seus médicos, na última crise, um filho do Romeu Tuma 

Duvido que, sob algum dos bons editores com os quais trabalhei no Estadão, fosse publicada uma notícia baseada em suposições tão estereotipadas. 

Sabe-se lá o porquê, o fato é que Lula naquele tempo andou literalmente dormindo com o inimigo... embora tal inimigo não fosse exatamente o bicho papão  imaginado por jovens e ingênuos jornalistas de agora. (por Celso Lungaretti)

domingo, 18 de outubro de 2009

QUEM TEM MORAL PARA CASSAR SUPLICY NESSE SENADO?

Os "bons companheiros": Sérgio Fleury (1º, da esq. p/ a dir.) e Romeu Tuma (3º), no auge da ditadura, quando atuavam no Dops/SP.

Desta vez, o senador Eduardo Suplicy (PT) corre risco bem maior de ser cassado por quebra do decoro parlamentar: o corregedor-geral do Senado, Romeu Tuma (PTB), informou que abrirá investigações sobre o caso da cueca vermelha na próxima 3ª feira (20), praticamente antecipando que a conclusão será o envio de uma representação ao Conselho de Ética.

Para quem não se lembra, Tuma era superior hierárquico do pior assassino serial da Polícia Civil durante a ditadura militar, o delegado Sérgio Paranhos Fleury.

Diretor-geral da Delegacia de Ordem Política e Social no auge do terrorismo de Estado, Tuma passou depois a chefiar o Serviço de Informações do seu sucessor, o Departamento Estadual de Ordem Política e Social -- função que ocupava durante o Caso Herzog.

Em 2005, um dos remanescentes desse episódio e atual presidente da Fundação Padre Anchieta, o jornalista Paulo Markun lançou o livro Meu querido Vlado, trazendo uma gravíssima acusação contra Tuma: foi o primeiro a denunciar Herzog, o que teria feito dele um alvo para o DOI-Codi.

Markun exibiu ata de uma reunião dos serviços de informações da ditadura, realizada 45 dias antes da morte de Vlado, da qual consta o seguinte informe de Tuma:
"Que o canal 2, através de seu departamento de jornalismo, está fazendo uma campanha sistemática contra as instituições democráticas e esse fato foi notado após ter assumido a direção daquele departamento o jornalista Wladimir Herzog, elemento sabidamente comprometido".
Tuma assumiu a autoria do informe, como parte de suas atribuições na época, mas negou qualquer responsabilidade nos eventos posteriores: "Há uma distância oceânica entre isso e o que aconteceu com o jornalista Vladimir Herzog".

Da mesma forma, Tuma sempre conseguiu manter "uma distância oceânica" das torturas e assassinatos cometidos por Sérgio Fleury. Nenhum ex-preso político se lembra dele como torturador, mas Ivan Seixas garante que ele analisava as informações arrancadas nas torturas e decidia quem (e quanto) seria torturado.

XERIFE DE SARNEY

Não há nada a estranhar em sua volta espetaculosa à cena como xerife do Plano Cruzado durante o Governo Sarney. Tinham a afinidade básica de haverem servido fielmente à ditadura militar e conseguido, com inegável jogo de cintura, escapar do destino que lhes deveria caber num país redemocratizado: a responsabilização ou, no mínimo, o ostracismo.

Esse é o personagem que hoje bate no peito e proclama: "É tão ridículo que custei a dar crédito às fotos. É chocante que um senador ande de calcinha por pedido de um programa de TV".

Será que o episódio burlesco protagonizado por Suplicy no Pânico na TV é o verdadeiro motivo da diatribe de Tuma?

Ou ele estará aproveitando para dar o troco pela recente expulsão simbólica que Suplicy aplicou a seu amigo e protetor Sarney?

O certo é que Tuma fez questão de lembrar o caso do cartão vermelho com estas palavras: "O senador feriu as regras e sujou a imagem do Senado em um período não muito positivo de sua história".

Noves fora, o que realmente quebrou o decoro parlamentar e sujou a imagem do Senado, em tempos recentes, foi a absolvição do culpadíssimo Sarney, não a palhaçada inofensiva de Suplicy.

Em nome de tudo que Suplicy já fez pelas causas justas, temos a obrigação de defender com todas as forças seu mandato.

Mesmo porque, pior do que a cueca vermelha são os dolares na cueca, contra os quais o Senado jamais agiu com a energia que se impunha.

Suplicy, entretanto, tem de se compenetrar que seu papel como principal defensor dos direitos humanos no Congresso Nacional é incompatível com exposições ridículas de sua imagem.

É hora de optar, de uma vez por todas, pela priorização da credibilidade ou dos holofotes, nas situações em que uns excluírem a outra.
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