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quarta-feira, 21 de maio de 2025

DÚVIDA CRUEL: NÃO SEREMOS NÓS TAMBÉM IMITAÇÕES DE SILICONE?

rui martins
A ONDA DOS
 BEBÊS REBORN
De repente, surgiu nas redes sociais e na mídia a onda dos bebês reborn, ou bebês renascidos, que já têm até defensores e desafetos.

No último caso estão as pessoas preocupadas com a real situação dos nascidos filhos de mães pobres, desnutridas e com pouco leite para alimentá-los. 

Mesmo porque tais bebês, designados de maneira pernóstica em inglês, não passam de bonecas hiperrealistas em silicone, reproduzindo de maneira real e perfeita um verdadeiro bebê.

Um sofisticado trabalho manual, cujo preço de venda pode chegar a R$ 10 mil, permitindo a quem o possui mimetizar a vivência com um verdadeiro bebê, sem exigir os mesmos cuidados de uma mãe. 

Mas a mamadeira, as fraldas, a chupeta imitam as necessidades vitais de um ser vivo, porque a boneca é inerte e só vive na imaginação, como acontece com as bonecas das meninas até a adolescência.

Então, por que esses bebês de silicone passaram a ocupar espaço na mídia e nas redes sociais, gerando interpretações diversas sobre o comportamento das mulheres que ninam, passeiam e vão fazer compras no supermercado com seu pimpolho factício?

Tanto homens como mulheres podem ter uma ligação afetiva com certos objetos que lhes são caros e dos quais não se separam. A preferência, neste sentido, era para os animais, seres vivos como cães e, gatos, transformados em bichos de estimação e que se integram na própria família, sendo tratados com o cuidado e mesmo amor destinado a pessoas. 
Existem também homens cujas amantes são de plástico inflável, adquiridas em sex-shops.

Esses bebês não são novidade, já existem há anos nos Estados Unidos e mesmo na Europa. Na verdade, destinam-se a crianças e adolescentes como brinquedos mais sofisticados ou a mulheres que perderam seus bebês, numa fase de superação da falta e tristeza decorrentes, mas por um curto período.

Existe algum interesse comercial com o lançamento do bebê reborn como moda a ser curtida por mulheres ou casais sem filhos desejosos de viver a maternidade? Parece haver, pelo menos em título em streaming, o nacional Uma Família Feliz  (d. José Eduardo Belmonte, 2023), filme de suspense e realismo envolvendo bebês reborn.

Seja o que for, modismo ou onda lançada por publicidade discreta, já surgiram muitas explicações sobre a receptividade de certas pessoas. Percorremos diversas delas e uma que nos impressionou foi a do youtuber Paulo Ghiraldelli, focando a questão de maneira filosófica e política.

Para ele, reportando-se ao passado, os homens se encantavam na revolução industrial com as máquinas que se moviam sozinhas e o próprio Adam Smith ficava impressionado com a fábrica de alfinetes. Nessa era vitoriana, reforçava-se a ideia de que o homem, e não só Deus, pode dar vida às coisas.

É a época do clássico de Mary Shelley, Frankenstein, o monstro feito com pedaços de cadáveres e que ganha vida própria quando seu criador faz com que seja atingido por um raio. 

É a época do fetiche, as máquinas dão vida às coisas e as coisas parecem ganhar vida. 

Seguindo as pegadas de Marx, Ghiraldelli cita O Capital, ao lembrar que as mercadorias ganham vida enquanto aquele que deu vida às mercadorias, o homem, se torna objeto delas.

A seguir, a imagem se torna mais importante que a mercadoria e o virtual mais importante que o real. E entramos assim no simulacro que é a produção de imagens que lembram o real sem serem o real. É o caso dos bebês reborn, mais perfeitos que os bebês reais.

Existem relatos reais de mãe que leva seu boneco reborn ao SUS, para saber se tem febre, e um processo judicial, por um casal em separação, para partilha de rendimentos de um bebê reborn no instagram com milhares de seguidores. 

Há imagens de um pastor chutando um boneco reborn e o comentário de que a mãe levando seu bebê em consulta ao SUS deveria ter sido internada. E o alerta do pregador John Meslar de que maus espíritos podem tomar posse do corpo do bebê reborn. 

Fica livre a escolha de qual a melhor explicação. (por Rui Martins)

terça-feira, 13 de agosto de 2024

A EROSÃO CAPITALISTA E A FALSA DICOTOMIA ECONÔMICA

 A relação social sob a forma-valor consiste na sua mediação pelo critério de se atribuir a objetos inanimados, transformados em mercadorias servíveis ao consumo, uma valoração econômica medida pelo tempo de trabalho abstrato - outra mercadoria - usado para a fabricação de produtos tangíveis ou serviços.  

Valor, portanto, é a transformação do tempo de trabalho abstrato em um padrão monetário qualquer - ou mesmo numa mercadoria eleita para servir de moeda, como no início do escambo - medido e somado na produção de outra mercadoria.  

É a apropriação indébita pelo capital do tempo de trabalho abstrato aquilo que permite a acumulação da riqueza abstrata, que Marx chamou de extração de mais-valia. Portanto, não há que se glorificar o trabalho abstrato e nem o trabalhador explorado por esse mecanismo escravizador, mas condenarmos todas essas categorias capitalistas à superação como forma de se eliminar o mecanismo fundamental do capital.   

No mundo capitalista, petróleo ou diamantes, ou quaisquer outras substâncias, até mesmo um calcáreo abundante, uma vez detectados como existentes na natureza, enquanto não extraídas pelo trabalho abstrato e destinadas ao mercado, são apenas riquezas materiais com potencial de se transformarem em riquezas abstratas quando, e se, forem aptas a serem levadas ao mercado e por este absorvidas.   

Tal circunstância, como vimos, qual seja o trabalho abstrato usado na fabricação mercantil, hipostasia ou incorpora aos objetos transformados em mercadorias uma mensuração abstrata quantitativa numérica por um padrão monetário qualquer representativo de valor - ou devia ser, porque hoje o mundo capitalista em colapso gira com moedas fiduciárias dissociadas do valor denunciando a iminência da hora da verdade e sua hecatombe social.   

A escassez ou abundância das mercadorias no mercado diante das dimensões dos seus usos, definem, sob a regra capitalista denominada “lei da oferta e da procura”, o preço de cada uma delas. Portanto, valor, tempo de trabalho abstrato, é categoria capitalista diferente de preço, que é categoria capitalista derivada do seu fluxo de comercialização no mercado, esta última como instância e categoria capitalista conhecida como o altar do sacrifício humano onde se materializa todo o processo de exploração do capital. 

Não há como se conviver com o mercado e suas mercadorias e se considerar como não capitalista qualquer sociedade onde essas categorias capitalistas existam; é por isso que a China jamais foi comunista, e nem tendente a sê-lo, mas apenas uma forma política diferente do capitalismo liberal burguês republicano.   

A relação social capitalista nas sociedades mundo afora e seus caráteres se definem como tal pelo modo de produção que lhes são imanentes, como dizia corretamente Karl Marx. Se se produz mercadorias como critério de relação social, a sociedade que assim procede é capitalista.  

Sob o critério da produção de mercadorias, portanto, de valor advindo do trabalho abstrato por ele remunerado e de quantitativo de valor destas mesmas mercadorias, podemos afirmar que em todos os poros das sociedades modernas, independentemente das formas políticas existentes na face da terra, somente existem sociedades capitalistas.  

Tal definição abrange todos os poros das sociedades mundo afora, que vão desde a Coréia do Norte à Cuba; da Rússia à China; dos Estados Unidos à Alemanha; da Inglaterra à França; de Portugal à Espanha; da Nicarágua à Venezuela; da Arábia Saudita à África do Sul, etc. 

É aí que reside o problema do fracasso dos modelos políticos adotados e vigentes mediante critérios de produção que têm como base o trabalho abstrato extrator de mais-valia, que como disse - corretamente, cinicamente, acriticamente  e sem o menor pejo, o economista burguês Adam Smith há mais de 200 anos, “onde há grande propriedade, há grande desigualdade. Para um muito rico, há, no mínimo, quinhentos pobres, e a riqueza de poucos presume da indigência de muitos”.  

A apropriação da riqueza produzida pelo trabalho abstrato, primeira célula componente da forma do valor, e aquela que viabiliza a apropriação e acumulação autotélica pelo próprio capital de parte da riqueza socialmente produzida, faz com que o sistema produtor de mercadorias, seja ele politicamente estatista ou liberal, obedeça à lógica necessariamente cumulativa de um processo de reinvestimento de capital, ou seja, de acumulação de  si mesmo constante e crescente, ad infinitum, sem capacidade de sua distribuição equitativa, deixando um rastro de pobreza e iniquidades que ora se agravam pelas contradições que são próprias à sua equação irresolúvel. 

A doxa socialista entendeu, equivocadamente - ou não quis entender -  que poderia repartir o bolo da riqueza abstrata socialmente produzida a partir do estado proprietário dos meios de produção e extrator de mais-valia, sem compreender a lógica funcional cumulativamente excludente e escravista de um modo de produção que dá ordens ditatoriais ao próprio estado e seus eventuais governantes. 

A esquerda heroica, bem-intencionada e com propósitos revolucionários, jamais compreendeu a força ditatorial das categorias capitalistas no interior dos países socialistas, ditos proletários e proprietários dos meios de produção e sua disfuncionalidade para os objetivos pretensamente anticapitalistas que supostamente existiriam a partir dos seus comandos políticos - Maduro, por exemplo, se jacta de ter sido motorista de ônibus, trabalhador, como se isso lhe conferisse isenção de culpas, sem desconfiar que trabalhador e trabalho jogam água no moinho capitalista.  

Algo assim como se querer que um invólucro maior caiba num recipiente menor. A consequência de tal incompreensão criou comportamentos inadmissíveis como a perseguição a quem ousasse questionar determinadas práticas flagrantemente impopulares, admitidas como se fossem males-necessários aos pretensos e libertadores objetivos maiores a serem conquistados, e que de concessões em concessões acabaram por desembocar na economia liberal de mercado capitalista sem um tiro sequer.  

Aprofundar estudos sob a negatividade da forma-valor é tema historicamente proibido na esquerda. Exemplos de tais posturas anticientíficas e intolerantes para com a análise e combate anticapitalista, vêm de longe, e rendeu a economistas marxistas muitas perseguições, como é o caso de Isaak Rubin, autor do importante livro A teoria marxista do valor, de 1923, alvo da perseguição e condenação à morte nos expurgos stalinistas de 1937.  


É que poder político vertical combina com o poder econômico induzido pela produção de mercadorias. O valor é o deus das relações sociais de produção de mercadorias que necessitam de poderes políticos que lhe sirvam quaisquer que sejam as suas formas; o valor abstrato e sua lógica socialmente materializada é quem governa os governantes.  

Uma relação social baseada num modo de produção imune à lógica do valor, por assim ser, estabelece controles de base e estímulos mais diretos da produção social coletiva de bens necessários ao consumo por não ter a hierarquização vertical política e econômica própria a uma relação social monetizada na qual são números abstratos que comandam a vida real, material, e fogem do controle de quem produz mercadorias onde impera regras próprias absolutistas.  

A escravização direta imperial, e mesmo feudal-monárquica de antes, exigia um Faraó ou um monarca absolutista; a república, forma jurídica derivada das relações sociais capitalistas, substituiu o monarca de antes por um deus abstrato, o valor que gera capital, tipo de governante absolutista abstrato que manipula a institucionalidade descentralizada em poderes executivo, legislativo e judiciário e lhe servirem obedientemente.  

É nesse sentido que a forma jurídica estatal, assentada sobre critério de produção de mercadorias e, portanto, propiciadora da acumulação da mercadoria valor-dinheiro que se transforma em capital, qualquer que seja ela, de maior ou menor conteúdo humanista, guardam dessemelhanças políticas de base como espécies de um mesmo gênero político, mas sob uma mesma identidade econômica que se caracteriza como falsa dicotomia quando se propõe como modelo político de antítese do capitalismo liberal do laissez faire, laissez passer, le monde va de lui-même   ("deixe fazer, deixe passar, o mundo funciona por si mesmo", lema liberal).  

Tal fato promove maiores convergências do que divergências substantivas no campo político, sejam elas entre um Trump e um Joe Biden; entre uma Corina Machado e um Nicolás Maduro; entre um Javier Milei e um Alberto Fernandez, que apenas se dessemelham nas definições de prioridades governamentais dentro daquilo que lhes é possível se dessemelhar, mas sem jamais desobedecer as regras impositivas da administração das finanças estatais sob pena de efeitos colaterais econômicos graves, dependentes que são da produção de valor através das mercadorias.  

Entretanto, quando o capital em crise disputa espaço entre nações que se sentem atingidas economicamente, há sempre um comando belicista do interesse do capital que propicia as guerras político-econômicas como agora vivemos, e que nos mostra um mundo conflagrado - ainda hoje as ameaças de uma escalada no mundo árabe-judeu; na União Europeia e Rússia por conta da invasão da Ucrânia; e até a cobiça pelas ricas terras da Guiana, em Essequibo, entre a Venezuela e o império britânico.  

O capital é uma guerra de concorrência de mercado entre desiguais econômicos protetorados pelas nações que, não raro, derivam para uma guerra bélica na qual morrem peões inocentes, patrióticos ou não.  

Portanto, vale dizer que não interessa quem ganhou ou perdeu as eleições venezuelanas; qualquer que seja o resultado das eleições de lá havidas em 3 de agosto o seu povo vai sair derrotado, até que ele mesmo tome seu destino nas próprias mãos e sob critérios emancipatórios de vida social fora da forma valor.  (por Dalton Rosado)

segunda-feira, 24 de junho de 2024

ULTRALIBERALISMO DO BUFÃO ARGENTINO BISARÁ FIASCO DO CONGÊNERE BRASILEIRO

dalton rosado
SEIS MESES DE JAVIER MILEI
"Ao contrário do passado, o ajuste recairá quase inteiramente sobre o Estado e não sobre o setor privado
" (Javier Milei)
O presidente argentino Javier Milei pauta seu governo pelo liberalismo clássico, que é a mais antiga das formas iniciais adotadas pelo capitalismo defendido por Adam Smith, anterior mesmo ao republicanismo burguês francês que lhe deu o formato jurídico hoje predominante.    

Ele se autodenomina anarcoliberal libertário (?) mas, concreta e politicamente só tem mesmo de novo a aparência de roqueiro laçado pela gravata e adepto de um esoterismo capaz de clonar os cachorros (diz com eles dialogar...) com os espíritos da ascendência destes. 

O liberalismo clássico é a forma política estatal obediente às regras funcionais e absolutistas capitalistas que consistem predominantemente  na compatibilização das receitas fiscais com os gastos da manutenção das instituições do Estado, e que se restringe somente a esta preocupação nas crises. Seu objeto teleológico básico é dar sustentação institucional e regulamentar à ordem capitalista. 

É claro que, mantendo-se neste quadrado administrativo estatal, as finanças públicas tendem a ser superavitárias e a emissão de moeda, restringindo-se à produção de valor válido (advindo da produção de mercadorias e serviços), faz com que a inflação tenda a ficar em patamares suportáveis e a moeda passe a ter alguma credibilidade. É o receituário clássico.   

Do jeito que as coisas iam na Argentina, o capitalismo portenho explodiria por conta de que não se pode conviver com a farra de gastos públicos descontrolados dentro da ordem ditatorial capitalista. Dinheiro não aguenta abuso (leia-se desobediência às suas regras comportamentais e contábeis absolutistas).  

É neste sentido que, agora, lá se explicita mais claramente a submissão dos governantes à lógica do capital. Mas, os hermanos estão apenas se equilibrando na administração das finanças públicas, tais quais surfistas nas ondas, sem alterarem sua natureza.      

A tese famosa dos governantes adeptos do liberalismo clássico ("deixai fazer, deixai ficar, o mundo segue por ele mesmo"), segundo a qual o mercado tudo equaliza, esbarra na própria lógica do capitalismo que acreditam, equivocadamente, ser remédio socialmente eficaz. Só que não é, muito menos nesta sua etapa falimentar!

Na fase atual do limite interno do capitalismo, na qual foi atingido o auge de suas contradições internas, aquilo que antes era minimamente suportável graças ao crescimento ainda possível de uma forma de relação social baseada na massificação do trabalho abstrato (a qual, embora sobrevivesse da inescrupulosa segregação social dos trabalhadores podia prover minimamente o sustento destes últimos),  agora deixou de sê-lo. 

O capitalismo tinha etapas a cumprir, fronteiras a serem atingidas, mas, tal como as ditas pirâmides financeiras que se sustentavam ilusoriamente no crescimento contínuo até estagnarem e morrerem por inconsistência da sua própria natureza constitutiva, esta situação era necessariamente transitória. Muitos não o percebiam porque, em alguns países detentores da hegemonia da produção de mercadorias, o sistema da exploração do homem pelo homem podia até dar aos seus operários um relativo poder aquisitivo e assistência social do Estado.  

Isso acabou. Hoje até as economias outrora prósperas estão cada vez mais precarizadas e economicamente depressivas (vide a questão previdenciária explosiva na França e Inglaterra). 

O processo migratório mundial dos povos do hemisfério Sul para o Norte, resultado da depressão econômica, explicita a desigualdade e desequilíbrio econômicos na globalização e é responsável pelos retrocessos civilizatórios encabeçados pela  direita recalcitrante à luz do dia.   
Sindicatos protestam contra a carestia no fim de 2023...

Dessa forma não há saídas, nem para o liberalismo clássico redivivo por Javier Milei, nem para as sociais-democracias com pretensões de assistências sociais dentro da lógica do capital.  

No liberalismo clássico, as finanças públicas se desequilibram menos, mas assim mesmo a dívida pública e os juros aumentam; e nas sociais-democracias, as finanças públicas tendem a se debilitar: 
 nas primeiras, o Estado se fortifica, mas seu povo morre desassistido;
— nas segundas, o povo tem suas finanças dragadas pelo flagelo da inflação; e,
 em ambas, campeia o desemprego estrutural, com maior crueldade social nos liberalismos clássicos.  

O final desse filme de quinta categoria é a coexistência pendular eleitoral entre projetos políticos que se dissemelham na forma política e se assemelham no conteúdo de exploração do trabalho abstrato e do trabalhador mediante a extração de mais-valia e cobrança de impostos.   

Os números da Argentina, ora devastada pelo liberalismo mais radical, o provam indubitavelmente: 
 a inflação (uma das piores do mundo) por lá vem perdendo força, mas lentamente; 
 após uma queda violenta de desvalorização cambial oficial, chegou-se a um maior equilíbrio da moeda em relação ao dólar estadunidense;
— mas houve superação do déficit primário (gastos em relação às receitas estatais) pela primeira vez desde 2008, num total de 285 bilhões de pesos no primeiro trimestre;
 a bolsa argentina voltou a apresentar alta (de 70%, chegando a 1.659.247,63 pontos);
 os investidores estrangeiros voltaram a olhar a economia argentina com interesse.  
...e estudantes repudiam cortes na Educação em abril último.

A contrapartida foram resultados indesejáveis como estes:
— em março a retração na economia foi de 8,4%, em comparação a fevereiro, marcando o quinto mês consecutivo de queda;
 aumenta o índice de pobreza no país, que de 41,7% apurado pelo IBGE de lá, foi para 57,4%; 
 continua imperativo o pagamento dos juros astronômicos (60% a 70% ao ano) da dívida pública (88,4% do PIB), inviabilizando, no país em recessão, a possibilidade de investimentos.  

Desse modo, mesmo que Milei esteja debelando de modo tímido mas constante o maior inimigo dos assalariados ao lado da extração de mais-valia e também os impostos (que são o dragão da inflação), podemos afirmar que a economia mercantil privada patina, o seu povo piora e as finanças estatais estão naquela situação de devedor sem crédito obrigado a submeter-se aos juros extorsivos do sistema bancário mundial. 

O liberalismo clássico num país da periferia do capitalismo (outrora rico) se resume à aceitação ingenuamente esperançosa de uma tragédia anunciada e politicamente manipulada.  

Até quando? (por Dalton Rosado)

terça-feira, 23 de janeiro de 2024

AS CONSTITUIÇÕES REPUBLICANAS BURGUESAS ESTÃO OBSOLETAS. HORA DE PENSAR ALGO NOVO!

 

É comum ver-se hoje por parte de políticos de todos os matizes, juristas e personalidades da vida cultural e econômica a referência ao comportamento republicano como sinônimo de correção e virtude.  

Até os brasileiros mais simples, aqueles que têm salário médio abaixo de R$ 2.900,00, que se constituem como a grande maioria, conforme nos informa o IBGE, já aprenderam  - mesmo sem saber o porquê e induzidos que foram - que comportamento republicano é sinônimo de coisa boa.  

A lei maior do nosso país, também conhecida como carta magna, ou seja, a Constituição da República Federativa do Brasil, como o próprio nome indica, está a se qualificar como republicana

Dessa forma, as regras sociais estabelecidas pela Constituição, e demais leis dela derivadas, obedecem ao conceito histórico do republicanismo social que passou a ser adotado pelo mundo ocidental a partir da revolução francesa que se constitui como marco inicial desta forma de organização política e econômica de relação social.  

Estabelecida a regra fundamental de relação social, devemos, todos, nos comportar dentro dela, sob pena de cometermos desvios que vão desde uma mera infração ao crime previsto na legislação ordinária.  

Na República atual, o crime original da usura capitalista é virtude descriminalizada.  

Mas a vida social é dinâmica e, do mesmo modo que um dia tal dinamismo social se mostrou capaz de introduzir na vida dos povos a visão republicana, mercantil, capitalista, com produção social autorizada prioritariamente a partir da extração de mais valia em tempo-valor, gerando organização jurídico-constitucional sob tal critério, observamos hoje o mesmo dinamismo social que denuncia a existência de fissuras capazes de rachar o dique do republicanismo pretensamente elogiável e inquestionável

Na Europa, um tumultuado processo de idas e vindas experimentados no século 19 terminou por consolidar o iluminismo republicano burguês diante do escravismo direto que, além de causar repulsa humanista por sua crueldade, era contrário aos interesses emergentes de extração de mais valia. 

A crueldade do escravismo direto foi então combatida pela hipocrisia do escravismo indireto do trabalho abstrato, substância primária da forma-valor.   

As constituições monárquicas, absolutistas, ainda que constitucionais com existência de parlamento e judiciário, como a do Brasil Império, tinham uma alma fisiocrata, própria ao período em que a terra produtora de alimentos e outros bens vegetais e minerais predominava como referência fundamental de riqueza material e poder político feudal, monárquico, aristocrático e eclesiástico.  

O desenvolvimento mercantil, capitalista, aos poucos foi criando condições ideológicas alicerçadas na doutrina iluminista que procurava adequar tudo aos novos tempos de produção industrial em desenvolvimento e estabelecendo critérios de organização jurídico-constitucional consentâneos com a nova ordem de produção de mercadorias. 

Como disse corretamente  Karl Marx, é o modo de produção social aquilo que define o caráter das sociedades.  

Assim, com o advento do processo de urbanização industrial, e antes mesmo da primeira revolução industrial ocorrida na Inglaterra com a máquina a vapor, cujos sintomas se evidenciaram mais claramente por volta de 1850, estavam dadas as condições para o surgimento do republicanismo burguês.   

O interesse mercantil crescente nos países que se industrializavam exigiu o estabelecimento de fronteiras nacionais que definissem questões de organização da produção de mercadorias num espaço jurídico-constitucional definido. A pátria e o estado nacional definido eram então capitalistas - allons enfants de la patrie...já cantava a Marseillaise.

O interesse nacional mercantil necessitava da dinâmica da produção de valor sem a qual sucumbe, e com ele vieram: 

- os impostos em dinheiro;  

- infraestrutura de abastecimento de água, energia e estradas, incentivos fiscais para a produção mercantil;  

- a força militar nacional bem estruturada; 

- os financiamentos bancários - surgimento do capital fictício em grande escala - e capaz de defender os interesses nacionais, e tudo o mais que significasse apoio ao desenvolvimento econômico capitalista.  

Assim, os estados nacionais como hoje os conhecemos é a resultante direta do desenvolvimento capitalista então nascente e que vem sendo adaptado constitucionalmente - a criação de blocos econômicos continentais obedece ao mesmo critério de interesses - com as conquistas civilizatórias antes inexistentes e havidas ao longo do tempo como voto universal e 40 horas de trabalho semanal, etc. 

Mas a dinâmica da dialética do movimento social criou novos conceitos de produção social que bem demonstram as contradições dos fundamentos capitalistas e suas mazelas segregacionistas.  

Não é por menos que é o próprio Adam Smith, pai do liberalismo clássico burguês, afirmou que “onde há propriedade, há grande desigualdade. Para um muito rico, há, no mínimo, quinhentos pobres, e a riqueza de poucos presume da indigência de muitos”.  

Ora, se o capitalismo é este conjunto de fatores que promove segregação social, há também a negatividade intrínseca ao crescimento rabo de cavalo, ou seja, ele cresce para baixo, negativamente, prenunciando: 

- ilhas de prosperidade em meio ao oceano de pobreza insuportável; 

- autodestruição da forma e conteúdo; 

- destruição da vida social pela barbárie; 

- falência do Estado; 

- autofagia da guerra de conquista pelo mercado ou pelas armas; 

- paralisia depressiva do crescimento empacado por seus próprios limites de expansão; 

- predação ecológica suicida - inafastável sob tais fundamentos; 

etc.,  

Resta evidente que o republicanismo burguês, que é imanente do ponto de vista da forma jurídico-constitucional a este modo de produção social, atinge, concomitantemente ao objeto a que se destina, um ponto de obsolescência que hoje fica cada vez mais perceptível, sem sentido, e sem que se possa ou se queira questioná-lo, como se o defunto pretensamente virtuoso tivesse que caber no caixão independentemente do tamanho dos dois - modo de produção social e forma jurídico-constitucional.  

Atingimos o estágio do desenvolvimento do saber tecnológico que torna ridículo aquilo que sempre serviu de combustível para a permanência da relação social pela forma-valor: a mercadoria trabalho abstrato assalariado mensurado em valor, bem como todas as outras mercadorias dele resultante, mensuradas pelo mesmo critério de tempo-valor necessário para a sua fabricação, e nelas coaguladas, hipostasiadas ou incorporadas. 

Já se produzem, numa proporção crescente, muitas mercadorias com o uso diminuto do trabalho  abstrato - trabalho vivo - substituídas pelas máquinas e robôs - trabalho morto -, circunstância que denuncia a dispensa de custos de produção em valor - dessubstancialização do valor -, processo que denuncia a contradição entre forma e conteúdo da qual falamos.  

Vejamos o exemplo de uma contradição fundamental.  

Deseja-se a produção crescente de valor, uma abstração numérica que se hipostasia num objeto concreto transformado em mercadoria - concreta, pelo valor de uso, e abstrata, pelo valor de mercado -, mas ao mesmo tempo se diminui o valor desse objeto-mercadoria, e se reduz a massa global de valor e a capacidade de compra pelo desemprego estrutural, ainda que o valor e preço, que são duas coisas diferente, estejam se reduzindo; e com isso se mata a galinha dos ovos de ouro, o próprio capital.  

Ora, é evidente que caminhamos para a necessidade de estabelecermos um novo modo de produção social adequado às exigências tecnológicas do saber aplicado à produção, e são muitos os exemplos dessa ocorrência - o carro elétrico é um dos mais recentes e eloquentes -, e para termos um novo modo de produção fora da forma-valor, faz-se necessária a criação de um estatuto jurídico-constitucional que lhe seja imanente.  

É por essa razão que aqui denunciamos a constituição republicana como obsoleta e que cada vez mais se torna evidente o seu caráter segregacionista e injusto de sempre. O agir de modo republicano é, desde sempre, corroborador da injustiça, e não da correção da virtude e comportamentos da boa moral e da boa ética. 

Em breve publicaremos a proposta de Constituição Comunitária Emancipatória, já em fase de conclusão. Aguardem! (por Dalton Rosado) 

quarta-feira, 9 de agosto de 2023

QUANDO 15 ANOS VÃO ALÉM DO TEMPO CRONOLÓGICO

Como a indústria cultural inculca em seus públicos 
uma obsessão pelo dinheiro acima da própria vida...

 
Há fatos importantes no itinerário histórico das sociedades nos quais ocorrem fatos que contribuem para o avanço das consciências coletivas sobre o conteúdo das próprias relações sociais dos seus protagonistas. 

Foi Karl Marx quem explicou como se dava o processo de acumulação da riqueza abstrata, capitalista, e sua negatividade intrínseca, decorrente da apropriação pelo capital de parte do tempo/valor do trabalho abstrato produtor do valor hipostasiado nas mercadorias, consagrando a tese inquestionável da extração de mais-valia capitalista.

Com isto, ficou evidenciada a injustiça social contida na apropriação indébita do processo de produção da riqueza abstrata sob tal critério, e sua famigerada preponderância sobre a propriedade da riqueza material.  

Assim, o escravismo feudal direto deixava de ser a forma de relação social predominante para dar lugar à escravização indireta do capital, na qual os trabalhadores abstratos são escravizados e submetidos à tirania de tal forma de relação social por serem destituídos de capital e somente terem a mercadoria força de trabalho para vender. Sujeitar-se a isto foi a opção que lhes restou para sobreviverem... miseravelmente! 

Dissecando tal processo, Marx acrescentou o que havia sido omitido por Adam Smith cerca de 100 anos antes: embora reconhecesse a exclusão dos majoritários contingentes humanos da apropriação da riqueza socialmente produzida, o pensador escocês a havia positivado como um mal necessário para a alavancagem do progresso.  
...além de estimular incessantemente o conservadorismo, o consumismo e a obediência... 
Coube a Marx a desmistificação desse suposto  
mal necessário, contrapondo que ele representa, isto sim, um mal a ser superado. Sua doutrina está cada vez mais atual, até porque é consistente na sua essência analítica. 

A descoberta de Marx transcende o tempo cronológico, tanto que continua sendo confirmada e o será ao longo dos milênios, por ter consistência cientifica, social e até matemática. 

É citando Marx que começo este artigo comemorativo 15º aniversário do blog Náufrago da Utopia, E o faço porque ele, nesse período de 15 anos, transcende o seu tempo cronológico; e para destacar a importância da busca cientificamente dissecada para a compreensão crítica daquilo que, com o seu uso, parece ser um dado ontológico da existência humana, mas que, na verdade, se constitui como um engodo capaz de obnubilar as consciências coletivas.  

O blog Naúfrago da Utopia nasce sob os auspícios de tal perspectiva e pressuposto, e pelas mãos de Celso Lungaretti, alguém que ousou um dia, ainda bastante jovem (tal como o personagem de Miguel de Cervantes) e num difícil momento histórico da vida brasileira, lutar contra  os moinhos de ventos da tirania, e permanecer nesta luta  por mais de cinco décadas.     
...cabe aos blogueiros de esquerda despertarem 
explorados e  iludidos dessa lavagem cerebral!



O poder da palavra escrita é poderoso, daí ter o nazismo queimado livros durante o processo racista e xenófobo que levou a humanidade ao genocídio que conhecemos. 

Graças à internet, hoje podemos difundir nossas visões  e criações contando com uma equipe pequena e reduzindo os custos financeiro a quase zero (os recursos para nos mantermos vivos e contributivos vamos buscar noutras atividades).  

Isso nos torna independentes da veiculação de propagandas de mercadorias, permitindo-nos dizer sempre aquilo que precisa ser dito, e sem subterfúgios. 

O blog é plural como deve ser um veículo independente, ainda que não concedamos espaços para pensamentos idiossincrásicos de direita, pois para isto a mesma internet já disponibiliza espaço tão amplo quanto ridículo.  

Esta é a essência do blog, que tem combatido o bom combate e permite a convivência da divergência entre seus próprios colaboradores, mas de uma maneira fraterna e sempre com o mesmo objetivo: emancipar a humanidade civilizadamente dos grilhões do escravismo e da segregação da qual é vítima, e que hoje corre o risco de desaparecer sub a tirania autofágica do capital.  

Parabéns ao Celso, por ter criado este veículo que tocou pessoalmente durante mais de 14 anos, até que, considerando-o capaz de caminhar pelas próprias pernas, foi desbravar novos horizontes, sem prejuízo dos textos que continua escrevendo sempre que julga necessários. Obrigado ao David Emanuel Coelho por, agora na condição de editor-chefe, manter o blog atuante e combativo. Obrigado ao Rui Martins, decano do jornalismo, pelas lúcidas intervenções e por seu companheirismo. 
Obrigado por o terem  mantido cada vez mais vivo e pertinente na busca dos seus objetivos explicitados e corroborados ao longo destes 15 anos, com certeza formando consciências capazes de proliferar até o dia em que a humanidade verá com tristeza os dias que se lhe antecederam tragicamente.  

Um abraço, Dalton Rosado  

quarta-feira, 5 de julho de 2023

O CAPITALISMO JÁ FOI SELVAGEM, LIBERAL, MONOPOLISTA, ESTATIZANTE, NEOLIBERAL, ETC. HOJE É APOCALÍPTICO...

...e não será com as teorizações de Adam Smith, Keynes ou Friedman que vamos  decifrar o enigma que a esfinge ora nos propõe. 

O pior é que pagaremos com a vida se não encontrarmos uma resposta satisfatória.

Nem mesmo os pensadores das tradições marxista e anarquista nos são de grande valia, pelo menos para respondermos à questão fundamental: o que fazer?

Era um edifício que se assentava sobre a convicção de que o desfecho da luta de classes se daria com a vitória definitiva do proletariado sobre a burguesia, ensejando a libertação da sociedade como um todo e inaugurando a era da liberdade, para além da necessidade

Não haveria mais classes, apenas seres humanos cooperando solidariamente para o bem comum, com cada um deles dispondo dos bens e serviços necessários para uma sobrevivência digna e podendo desenvolver suas melhores aptidões; nem países, fronteiras e exércitos, pois finalmente sairíamos da pré-história da humanidade, alcançando um estágio superior de civilização. 

Foi a mais bela das utopias, contudo ela só faria sentido se o proletariado realmente cumprisse o papel a ele destinado, de sujeito da revolução. 

Mas, para nossa infelicidade, o reformista Eduard Bernstein, derrotado implacavelmente por Rosa Luxemburgo na polêmica célebre que originou seu livro Reforma ou revolução, acabou obtendo uma vitória póstuma sobre a rosa vermelha: o proletariado tendia mesmo para a acomodação e o aburguesamento, pelo menos enquanto o capitalismo lhe pudesse oferecer migalhas suficientes para satisfazer seu apetite consumista. 

Se o proletariado não estava destinado a encabeçar a revolução, quem o faria? 

A melhor das hipóteses, no sentido de oferecer uma perspectiva concreta de luta, foi a de Marcuse, o expoente mais polêmico da Escola de Frankfurt

Para ele, só quem escapasse das garras do sistema, não aceitando ou não podendo participar da sociedade de consumo e suas viciosas benesses, conseguiria resistir à lavagem cerebral dos modernos meios de comunicação de massa e viabilizar, afinal, o assalto aos céus tão sonhado desde a Comuna de Paris.

Os contestadores de 1968 pareceram por um momento ser os substitutos do proletariado domesticado, mas foram derrotados na Europa e se desmobilizaram nos EUA após a conquista do seu maior triunfo, o de darem um fim à intervenção estadunidense no Vietnã e países vizinhos.

Restaram os identitários, que brotaram como cogumelos mas geralmente se atêm a seus objetivos exclusivos, acreditando que eles poderão ser obtidos dentro do capitalismo agonizante. Ledo engano. Contentam-se com o ouro de tolo, esquecendo que serão levados de roldão, como todos os terráqueos, se o capitalismo persistir encaminhando-nos para a extinção de nossa espécie.

E os economicistas na linha da crítica do valor ou da dissecação da escalada da desigualdade, embora exímios em diagnosticar o mal, não apontaram, afinal, nenhum caminho para a revolução que hoje se tornou imperativa. 

Os primeiros parecem apostar em que uma maior conscientização sobre os malefícios do capitalismo, num passe de mágica, tangerá as massas  atomizadas e manipuladas à revolução. Na verdade, elas estão é se direcionando em escala muito maior para o neofascismo.

Quanto aos segundos, o que mais têm inspirado são propostas de humanizar o capitalismo, como se a social-democracia já não tivesse tentado isto em épocas muito mais favoráveis e, ainda assim, fracassado. Não será agora, com o regime da exploração do homem pelo homem se esfacelando a olhos vistos, que se conseguirá convencer os exploradores a ficarem bonzinhos e nos explorarem menos.

E por que, enfim, estamos agora passando pela etapa apocalíptica do capitalismo? 

Porque finalmente, após milênios de esforços e sofrimentos, a humanidade já detém saber científico e capacitação técnica para atender às demandas básicas de todos os habitantes do planeta, transpondo a chamada barreira da necessidade. Mas, ao invés disto, os ganhos foram usurpados pelos detentores do poder econômico. 

Então, ao invés da generosa fórmula marxista (de cada qual segundo sua possibilidade, a cada qual segundo suas necessidades), o que tivemos foi uma evolução da exploração para superexploração, com uma parcela cada vez maior da humanidade reduzida a condições dantescas, subumanas. 

Por esse caminho, acabaremos repetindo o fim de Roma, quando os bárbaros que rodeavam as fronteiras do império se tornaram tão numerosos que o destruíram, fazendo a civilização recuar em cerca de um milênio. Por enquanto ainda não chegamos a tal ponto, mas a barbárie já grassa de forma estarrecedora entre nós.

O certo é que o capitalismo depende de uma continua expansão para se manter viável, mas, priorizando a ganância, o lucro e o privilégio, faz aumentar cada vez mais a desigualdade econômica e social. 

Então, simplificando, há cada vez menos consumidores com poder de compra suficiente para adquirirem os bens produzidos. 
Tal contradição já foi flagrada por Marx no século retrasado, mas continua insolúvel. Queimas de café, guerras, oferta de crédito impagável, diversos artifícios serviram para empurrar o problema com a barriga para a frente, ao invés de o resolver. 

Agora, estamos a um passo da debacle final, quando as pedras do dominó tombarão uma a uma e o sistema financeiro desabará em escala mundial. A grande depressão do século passado será fichinha perto da que ora se prenuncia.

Enquanto isto, no entanto, o capital continua tendo poderio suficiente para impedir, p. ex., que se tomem as medidas imperativas e urgentíssimas para salvar a humanidade do pesadelo ecológico. O aquecimento global e as alterações climáticos têm avançado muito além do previsto e nem sequer a mudança da matriz energética foi concretizada, pois a indústria automobilística a ela resiste encarniçadamente.

E, lembrando o velho chavão segundo o qual em casa onde falta pão, todos brigam e ninguém tem razão, a estagnação atual do capitalismo está acirrando as disputas de mercado entre as nações mais poderosas a um ponto tal que a guerra nuclear voltou a ser uma hipótese provável. Putin mesmo tem utilizado tal espantalho para chantagear as nações que ajudam a Ucrânia. Como nos tempos da guerra fria, o impensável nos acossa.

E até onde poderão ir as epidemias (que tendem a ser mais frequentes e mortíferas como consequência das condições deploráveis de vida em que vegetam grandes contingentes humanos)?

Não é exagero nenhum afirmar que o capitalismo agônico hoje é regido pelos quatro cavaleiros do apocalipse: guerra, fome, peste e morte. E que, se a humanidade não reagir logo às ameaças que se agravam cada vez mais, não existirá século 22.

Ou superamos o capitalismo, ou ele nos exterminará. É simples assim. (por Celso Lungaretti)

segunda-feira, 1 de novembro de 2021

NÃO HÁ MÁGICA CAPAZ DE TRANSFORMAR A SUBTRAÇÃO DOS EXPLORADOS EM ADIÇÃO DE RIQUEZA PARA A MAIORIA DELES – 3

(continuação deste post)
O
liberalismo, do qual o escocês Adam Smith ((1723-1790) é geralmente tido como o pai, nunca se consolidou como doutrina social e econômica eficaz 
nem mesmo nos países ricos mas, principalmente nos países pobres, pois foi sempre incapaz de proporcionar segurança monetária para o capital se desenvolver.

Isto se evidencia notadamente agora, num mundo já atingido pela 3ª revolução industrial, que tudo necrosa.

O governo FHC, mesmo privatizando tudo que tinha direito e socorrendo os bancos falidos no pós-Plano Real (lembram-se do Proer?), os problemas afluíram, como não podia deixar de ser nesta província capitalista territorialmente fértil e gigantesca chamada Brasil. 

Sob FHC veio a crise energética; a depressão econômica; o aumento do desemprego; e a derrota eleitoral de quem, sem ter medo de ser feliz, mas sem saber como sê-lo, acreditou que o socialismo capitalista petista (uma contradição no objeto) poderia fazer com que o diabo ficasse bonzinho: 

Mostrando a sua verdadeira face, o governo Lula negou todas as suas bandeiras históricas: 
— entregou o Banco Central ao Henrique Meireles, o executivo de banqueiros estadunidenses; 
— cedo propôs a reforma da previdência social, objetivando obter o equilíbrio econômico das contas previdenciárias, sem considerar a perda de direitos da assistência social aos aposentados e pensionistas;
— aceitou ter um grande empresário como vice-presidente (o simpático e sabido mineiro José Alencar), mesmo pertencendo ao PT, que antes se vangloriava de ser um partido sem patrões
— subestimou a crise econômica do subprime de 2008/2009 e suas consequências (que até hoje se agravam), qualificando-a de  uma marolinha; e
— fez alianças políticas espúrias com o que há de mais podre na política brasileira, (conforme ficaria evidenciado nos escândalos do mensalão e do petrolão), além de licitações fraudulentas com empreiteiras financiadoras de campanha.
Uma foto emblemática: o neoliberal e a gerentona
O pior ficou para o fim, quando o poste que Lula tornou presidenta, a gerentona Dilma Rousseff, empossou um neoliberal assumido (Joaquim Levy) como ministro da Fazenda, apesar da solene promessa de campanha de que, votando nela, os eleitores se colocariam a salvo das reformas exigidas pelo grande capital (em especial a previdenciária e a trabalhista). 

E, no balanço final, destaque para a queda violenta do PIB, aliada ao aumento da inflação, que chegou à casa dos dois dígitos). 

Depois veio a intervenção do economista Hélio Beltrão no debate, indignado com Paulo Guedes e Boçalnaro, por terem traído o projeto eleitoral liberal, prometido e não cumprido. 

Beltrão passou a defender a privatização de tudo, desde a saúde até a educação, como se no mesmo galinheiro pudessem conviver fraternalmente e prosperamente tanto os exploradores como os explorados. No entender desse economista liberal ortodoxo, o Deus Mercado é capaz de tudo equacionar, desde que o Estado não atrapalhe. 

Ele não entende, ou não quer entender, que o mercado é o altar de uma destrutiva e autodestrutiva guerra concorrencial de produção de mercadorias, na qual cada uma se digladia com a outra que quer eliminar, como seres inanimados que tivessem ganhado vida. Os seus detentores são meros gerentes da vontade mercadológica autofágica.

A lógica do capital é destrutiva socialmente porque, além de concentrar renda nos poucos vencedores da encarniçada disputa, elimina postos de trabalho abstrato produtor de valor em razão do uso tecnológico de máquinas na produção, visando à redução de custos como arma indispensável na guerra concorrencial de mercado. 

Disto deriva o atual desemprego estrutural, hoje já substancialmente presente mundo afora, o qual destrói o próprio mercado e toda a lógica funcional do dito cujo. 

Hélio Beltrão considera
Boçalnaro e Guedes como traidores porque não entende que há uma incompatibilidade eleitoral entre os interesses do capital (que quer um Estado enxuto e a seu serviço) e a população empobrecida por este mesmo capital. Esta, embora eleitoralmente manipulada, sempre escolhe o que lhe pareça menos ruim, o que lhe é eleitoral e democraticamente facultado. 

O filho do ministro dos ditadores Costa e Silva e Figueiredo crê, equivocadamente, que o mal social atual em sí (o capitalismo) pode promover equidade social e prosperidade linear, contradizendo até mesmo o pai do liberalismo econômico, Adam Smith, que admitia, sem pejo, que para cada capitalista haveria necessariamente centenas de empobrecidos. 

Boçalnaro e Guedes mandaram às favas toda a ortodoxia liberal (que nunca serviu ao povo) em nome de um nacionalismo decadente (que também não serve ao povo, o qual, frustrada a tentativa de golpe, agora só pensa nas próximas eleições.

Aliás, a obsessão dele e de todos os políticos das mais variadas doutrinas (ou falta delas)  é:
— manterem-se no, ou conquistarem o, poder nas eleições de 2022; 
— servirem aos capitalistas que os financiam, diretamente ou não; 
— eternizarem-se no executivo ou no legislativo, serviçais ou da ordem capitalista constitucional; 
— nas imunidades parlamentares e nos ambientes luxuosos das celebrações em Brasília; e
— na sala VIP dos aeroportos. 

Não, senhores economistas; os senhores trabalham sob uma base falsa, que é a lógica capitalista ora decadente em razão da falência dos seus pressupostos e categorias fundantes, e não há mágica capaz de transformar a subtração dos explorados em adição de riqueza para a maioria deles.

Ademais, a economia de mercado e seu regime de guerra concorrencial impelem os produtores de valor à predação ecológica na busca pela sobrevivência. É o limite externo ecológico que agora incide sem seletividade social e sob a forma desse aquecimento global que nos atinge a todos indistintamente, ainda que os pobres sofram mais. 

Sob todos os aspectos, não há como se justificar, doutrinaria e empiricamente, a permanência das categorias capitalistas, como defendem os economistas aqui criticados.

A matemática é uma ciência exata e os números da subtração indébita do tempo de trabalho produtor de valor pelo capitalismo (a velha e atual extração de mais-valia) jamais vai permitir aos explorados que gozem os prazeres da vida e da riqueza abstrata que produziram sob a exploração dos homens pelos homens. 

Exploração esta que os senhores teimam em defender sob diversos pontos de vista políticos, econômicos e doutrinários diversos, cujas bases de forma e conteúdo são sempre as mesmas. (por Dalton Rosado – a série começa neste post)
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